samantha abreu
a armadura moderna
A força da vida dói.
Ela acorda cedo, os olhos inchados. Ao se levantar, sente os pés arderem no chão gelado. Em cada passo até o banheiro seu corpo estremece e sua frio: o desespero lhe explode os poros, a vida amanhece e a joga em um cotidiano febril.
Não quer mais essa rotina de mulher moderna cheia de afazeres. Deseja apenas sua cama e suas tarefas domésticas realizáveis. Sob o chuveiro, imagina que a água leva pelo ralo toda sua revolta pelo despertar do dia. Ao banho foi entregue o cargo de filtro entre sua vontade de permanecer dona de casa e a necessidade de se jogar à vida que a espera na rua.
Ela resiste, mas depois de lavada com água e espuma, veste-se com o tal empreendedorismo feminino e finge satisfação o dia todo.
Tudo recomeça à noite.
sessão matinê
Cinema era bom de terça, depois do almoço. Ia sozinha e podia comer dois potes de pipoca. Pedia tamanho médio, pois se pedisse pequeno, teria que comprar três e evidenciaria não só sua solteirice tardia, mas também seu desespero por ocupar a boca com algo que não viesse de outra boca.
Já tinha passado da idade para sessões da tarde, mas o horário propiciava sua conveniente solidão, e ninguém conhecido a veria. Podia sentar nas poltronas do meio, bem em frente à enorme tela. Conseguia esquecer, por algumas horas, de quem era. Imaginava-se na pele de tantas atrizes e personagens que, inevitavelmente, ao final, saía pela porta vestida sob a sutileza de outros papéis.
Assim, qualquer dor era remediável. O cinema era mesmo bom durante as matinês de terça, no mesmo horário das consultas que a tentavam fazer descobrir-se.
por trás de um disfarce
Sueli trabalha no hotel Remanso, na metade da BR-365. Sua mãe também já trabalhou lá e ensinara à filha que devia impor respeito àqueles homens sem paradeiro que passavam pelo local. Explicara que eles procuravam por descanso, chuveiro e, se possível, uma companhia relaxante. E que não fosse dela!
A garota, desde então, se veste castamente e não sabe olhar nos olhos. Disfarça, abaixa o olhar, não encara. Quando a mãe se deu conta do sucesso da boa educação da filha, descansou. Filha minha é exemplo, dizia orgulhosa.
No restaurante, alguns caminhoneiros perguntam curiosos e excitados pela garota que deixa as tais fitas de vídeo nos quartos.
Sueli sabe fingir, mas gosta mesmo é de arrancar a roupa todas as vezes que faz a arrumação daquelas camas e sente o cheiro daqueles desconhecidos. Leva a câmera dentro do cesto com lençóis e faz daqueles quartos sujos seu pequeno estúdio de fantasias. A que mais gosta é pintar as unhas dos pés de vermelho e se imaginar de pernas ao alto, dentro de uma boleia.
Se existisse mesmo vida após a morte, a mãe já teria voltado para acabar com tamanho desgosto.
no final, a droga
Se, no final, a porra é sujeira,
de que vale o prazer?
Todo fim, cara no espelho,
e o diálogo com si mesma:
” — Estúpida!”
Porque eu me faço demente
e aceito o sonho
como único
universo a que pertenço.
Mas não sei andar em nuvens.
Se, no final, a euforia é o vício,
de que vale a droga?
Todo fim, corpo em pedaços,
e na reconstrução para o amor:
” — Seu Cabaço!”
(in) crível
Essa estranha beleza
em racionalizar.
Ser dolorido,
mas ser verdadeiramente.
Tocar sua carne nua,
e saber-te
onde, saber-te quando.
Não me parece mais encantado
nosso mundo.
Não tenho mais aquelas
fantasias.
Talvez, a realidade não seja assim
tão boa
para amores insólitos.
colombina
Tenho mágoa do mundo.
E não só
pelos amores que perdi ou
pelos filhos que não tive,
mas, talvez,
por todas as batalhas que arrisco.
Com o fundo da língua
empurro essa dor para dentro,
para o fundo.
E na boca,
aqui,
nessa boca,
simulo, quem sabe,
um sorriso.
Samantha Abreu é de Londrina, PR. Escreve os blogues Alta Intimidade e Mulheres sob Descontrole. Já foi publicada em antologias; tem textos em revistas e sites literários. No entanto, só escreve porque é viciada em fantasias e tem a cabeça povoada por personalidades múltiplas e intimamente reveladas.
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