01/10/2009 - 19:05h Depois da Guerra

por Samantha Abreu

Depois da guerra, eu tento voltar a mim mesma.
Um combatente em retirada, que entra pelo portão de uma casa que não é mais sua, embora ainda lhe pertença. As pessoas dali ainda têm o seu sangue, mas acostumaram-se à sua ausência. Os lençóis já não o reconhecem, os colarinhos e coisas não mais têm o seu cheiro.
Ele mesmo, soldado vencido, já não se encontra mais em si. Não se acha, mesmo quando vasculha, apressado, as gavetas do peito e da própria cabeça. Não reconhece suas novas cicatrizes, não lhe parece familiar a textura da pele nem os calos nas mãos. É alguém que, no cansaço da luta, se fragmentou em mortos e feridos, e mudou na velocidade do disparo de cada bala.
Sou eu esse guerreiro.
Sou eu que reapareço, trazendo comigo pedaços de corpos e almas que não me pertencem, mas agora fazem parte da unidade necessária para que eu me recomponha e, no devido tempo, retorne ao meu campo de batalha.
.
.
veja depois de ler:
.
.

Gerado por Samantha Abreu. Fonte Blog Versos de falópio

27/09/2009 - 19:52h Dá uma vontade…

CAPRICHO

A vontade
é você
à vontade.

Samantha Abreu
foto de Elle Milla
Fonte blog Haute Intimitè

01/09/2009 - 19:05h (In)crível

Samantha Abreu

Essa estranha beleza
em racionalizar.
Ser dolorido,
mas ser
verdadeiramente.
Tocar tua carne nua,
e saber-te
onde, saber-te
quando.

Não me parece mais encantado
nosso mundo.
Não tenho mais aquelas
fantasias.

Talvez, a realidade não seja assim
tão boa
para amores insólitos.

Fonte Blog Haute Intimitè

11/08/2009 - 20:26h Liberais, libertárias, libertinas

MULHERES SOB DESCONTROLE Liberais, libertárias, libertinas – Blog de Samantha Abreu

foto de Ellen von Unwerth

Ah, não. Ninguém mais vai ficar falando por aí que eu sou careta. Sou mulher que honra as lutas e conquistas das minhas companheiras do passado. Pois de pirraça, saímos, eu e a Ivonete, pra aprontar mesmo. A gente tava a fim de escancarar nossa fama de libertinas e libertárias. Quando chegamos num desses bares de troca-troca, ficamos logo empatadas na porta. A Ivonete me olha com aquela cara de tela expressionista e começa a esclarecer para os anais do nosso bacanal todo os seus impasses, condições e regras:
- Ô Silvia, eu não quero que ninguém meta a língua na minha orelha, porque eu morro de nojo.
- Ah, que chatice isso. Aqui, ninguém é de ninguém, Ivonete.
- Então tô fora. Na minha orelha, não.
- Tá, eu te ajudo escapar disso se você prometer que não vai me deixar sobrar. Cara, não tem nada pior do que sobrar em orgia. Tenho pavor de me imaginar lá, de canto, enquanto a cambada toda se diverte.
- Só que eu não vou te garantir a festa, não, minha filha. Nesse corpo aí eu não encosto. Quero orgia com homem.
- Pra quê a gente veio aqui, Ivonete, se você vai ficar cheia das condições? Pô, transar com homem não te faz liberal, libertina e libertária, né? Se liga!
- Mas eu não gosto de mulher, cacete!
- Mas mulheres liberais gostam de qualquer tipo de sexo, Ivonete. Pensa! A gente tá entrando aí atrás de luxúria e prazer sem compromisso. Foi para isso que nossas antepassadas queimaram os próprios sutiãs e sofreram preconceitos inimagináveis, minha filha! Você pode imaginar isso? PODE?
- É. Você tem razão. Se a gente já sofre tanto por ter fama de conservadoras. Isso é muita discriminação, né, Silvia?
- É, mas conservadora, aqui, é você, Ivonete!
- Eu não, sua donzela, quem nunca deu a bunda aqui? Eu ou você?
- Ah, bem a sua cara mesmo, usar esses argumentos morais. Eu vou entrar nessa droga de lugar e dar até o buraco do nariz, Ivonete. Você vem ou não vem?
- Silvia, mas, sabe, tô grilada com uma coisa. E se acontece uma emergência lá dentro? Você imagina uma ambulância te buscando aqui? O que você vai dizer na sua casa, hein?
- Ai, nem me fale uma coisa dessas! Já pensou? Se eu tô de bananeira e quebro a cabeça?
- Ssshhhhhiiiii.
- Pô, mas ser careta não dá mais, né, Ivonete?
- É… tá ficando feio pra gente, todo mundo comentando.
- …
- …
- Já Sei! Acompanha aqui.
- Ahm!
- Todo mundo comenta nossa caretice porque todo mundo fala que somos caretas, não é?!
- Éééémmm.
- E se falarem que somos duas porras-locas, muito doidas e depravadas?
- Mas…
- A gente mente, Ivonete!
- U-hu! E mentir é coisa muito doida, Silvia! Muuuuito doida! Não é qualquer um que consegue isso, não! Tem que ter muita coragem, muito pino solto, tá entendendo?!
- Yeah! Então tá combinado. A gente diz que nossa suruba foi antológica!
- Vamos espalhar! Nossa vida vai mudar, Silvia!
- Vamos sair da convenção! Vamos pra revolução, Ivonete!

Samantha Abreu

06/06/2009 - 18:42h 3 contos, 3 poemas

samantha abreu


a armadura moderna

A força da vida dói.

Ela acorda cedo, os olhos inchados. Ao se levantar, sente os pés arderem no chão gelado. Em cada passo até o banheiro seu corpo estremece e sua frio: o desespero lhe explode os poros, a vida amanhece e a joga em um cotidiano febril.

Não quer mais essa rotina de mulher moderna cheia de afazeres. Deseja apenas sua cama e suas tarefas domésticas realizáveis. Sob o chuveiro, imagina que a água leva pelo ralo toda sua revolta pelo despertar do dia. Ao banho foi entregue o cargo de filtro entre sua vontade de permanecer dona de casa e a necessidade de se jogar à vida que a espera na rua.

Ela resiste, mas depois de lavada com água e espuma, veste-se com o tal empreendedorismo feminino e finge satisfação o dia todo.

Tudo recomeça à noite.

sessão matinê

Cinema era bom de terça, depois do almoço. Ia sozinha e podia comer dois potes de pipoca. Pedia tamanho médio, pois se pedisse pequeno, teria que comprar três e evidenciaria não só sua solteirice tardia, mas também seu desespero por ocupar a boca com algo que não viesse de outra boca.

Já tinha passado da idade para sessões da tarde, mas o horário propiciava sua conveniente solidão, e ninguém conhecido a veria. Podia sentar nas poltronas do meio, bem em frente à enorme tela. Conseguia esquecer, por algumas horas, de quem era. Imaginava-se na pele de tantas atrizes e personagens que, inevitavelmente, ao final, saía pela porta vestida sob a sutileza de outros papéis.

Assim, qualquer dor era remediável. O cinema era mesmo bom durante as matinês de terça, no mesmo horário das consultas que a tentavam fazer descobrir-se.

por trás de um disfarce

Sueli trabalha no hotel Remanso, na metade da BR-365. Sua mãe também já trabalhou lá e ensinara à filha que devia impor respeito àqueles homens sem paradeiro que passavam pelo local. Explicara que eles procuravam por descanso, chuveiro e, se possível, uma companhia relaxante. E que não fosse dela!

A garota, desde então, se veste castamente e não sabe olhar nos olhos. Disfarça, abaixa o olhar, não encara. Quando a mãe se deu conta do sucesso da boa educação da filha, descansou. Filha minha é exemplo, dizia orgulhosa.

No restaurante, alguns caminhoneiros perguntam curiosos e excitados pela garota que deixa as tais fitas de vídeo nos quartos.

Sueli sabe fingir, mas gosta mesmo é de arrancar a roupa todas as vezes que faz a arrumação daquelas camas e sente o cheiro daqueles desconhecidos. Leva a câmera dentro do cesto com lençóis e faz daqueles quartos sujos seu pequeno estúdio de fantasias. A que mais gosta é pintar as unhas dos pés de vermelho e se imaginar de pernas ao alto, dentro de uma boleia.

Se existisse mesmo vida após a morte, a mãe já teria voltado para acabar com tamanho desgosto.

no final, a droga

Se, no final, a porra é sujeira,

de que vale o prazer?

Todo fim, cara no espelho,

e o diálogo com si mesma:

” — Estúpida!”

Porque eu me faço demente

e aceito o sonho

como único

universo a que pertenço.

Mas não sei andar em nuvens.

Se, no final, a euforia é o vício,

de que vale a droga?

Todo fim, corpo em pedaços,

e na reconstrução para o amor:

” — Seu Cabaço!”

(in) crível

Essa estranha beleza

em racionalizar.

Ser dolorido,

mas ser verdadeiramente.

Tocar sua carne nua,

e saber-te

onde, saber-te quando.

Não me parece mais encantado

nosso mundo.

Não tenho mais aquelas

fantasias.

Talvez, a realidade não seja assim

tão boa

para amores insólitos.

colombina

Tenho mágoa do mundo.

E não só

pelos amores que perdi ou

pelos filhos que não tive,

mas, talvez,

por todas as batalhas que arrisco.

Com o fundo da língua

empurro essa dor para dentro,

para o fundo.

E na boca,

aqui,

nessa boca,

simulo, quem sabe,

um sorriso.


Samantha Abreu é de Londrina, PR. Escreve os blogues Alta Intimidade e Mulheres sob Descontrole. Já foi publicada em antologias; tem textos em revistas e sites literários. No entanto, só escreve porque é viciada em fantasias e tem a cabeça povoada por personalidades múltiplas e intimamente reveladas.

Blog Escritoras Suicidas