23/10/2009 - 09:22h “A valorização é um fenômeno estrutural”

Sergio Lamucci, de São Paulo – VALOR

Ana Paula Paiva / Valor
Foto Destaque
Samuel Pessôa, professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da FGV



O governo precisa segurar o câmbio? Por quê?

Samuel Pessôa: É importante que a política econômica, dentro do possível, minimize a volatilidade do câmbio. A intervenção tem que ser desenhada para impedir valorizações artificiais, que podem estar ocorrendo devido a entradas fortes demais de capital. É possível que os fluxos recentes sejam tão intensos que as compras do Banco Central não consigam neutralizá-las. Mas o câmbio valorizado será uma realidade nos próximos anos. A sociedade tem feito escolhas que redundam em um câmbio mais valorizado, porque produzem poupança muito baixa. É o caso do sistema previdenciário, que não incentiva funcionários públicos e trabalhadores do setor privado de baixa renda a poupar. Outro ponto é que o governo tem poupança negativa ou um pouco positiva.

Valor: Como fazer isso?

Pessôa: Eu não colocaria um IOF para renda variável. Poderíamos rever a desoneração do Imposto de Renda para investidores estrangeiros, adotada em fevereiro de 2006. Não sei se resolveria, mas certamente ajudaria. Eu não vejo nada de mais construtivo que possa ser feito. Independentemente da medida tomada, ela teria efeito reduzido, pois a valorização é um fenômeno estrutural. Se a escolha social produzisse uma poupança chinesa de 50% do PIB, o câmbio seria muito mais desvalorizado. Mas a sociedade não está disposta a aceitar as consequências de uma taxa de poupança como essa.

15/06/2009 - 09:33h Bresser defende controle de capital

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Real valorizado motiva debate sobre o que mais o Banco Central pode fazer além de comprar dólares

 

Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

 


Com a persistente tendência de valorização do câmbio, num cenário de queda global das exportações, volta à tona a discussão sobre controles de fluxos de capital. O Ministério da Fazenda descartou a adoção de qualquer medida neste momento (ver entrevista acima), como o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas aplicações de estrangeiros, mas alguns analistas acham que o controle dos fluxos externos mais especulativos, que visam a ganhos de curto prazo, seria o último recurso para contrapor à valorização do real.

Os controles mais comuns da entrada de capitais podem ser na base de impostos ou de depósitos compulsórios temporários e não remunerados dos fluxos que ingressam. O economista e ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira diz que, “além das compras de dólares, não há outra alternativa a não ser começar a administrar a entrada de capitais, mas nunca a saída”.

Bresser acredita que há uma tendência de sobrevalorização do câmbio em países em desenvolvimento. Ela vem tanto da chamada “doença holandesa”, a entrada maciça de receitas de exportação em países com grandes recursos naturais, como do fato de os países emergentes terem taxas de juros e de lucros superiores às dos ricos.

Para Bresser, aquela tendência leva a uma taxa de câmbio mais valorizada do que a do “equilíbrio industrial, na qual o país tem condição de produzir bens no estado da arte da tecnologia que sejam competitivos internacionalmente”.

Além de perder competitividade, os países em desenvolvimento com moeda valorizada acabam sofrendo crises periódicas, segundo o ex-ministro.

Na verdade, além dos controles, há duas outras armas no combate à valorização cambial: a redução dos juros e as compras de dólares pelo Banco Central (BC). O problema, porém, é que os juros vêm caindo e o BC está comprando divisas, sem que haja um efeito mais decisivo no câmbio.

Os defensores do câmbio desvalorizado cobram uma queda mais rápida da Selic, a taxa básica, ou compras de dólares pelo BC ainda mais agressivas. Porém, para alguns analistas, está ficando claro que os controles podem ser indispensáveis para controlar a valorização numa conjuntura em que o Brasil se tornou muito atraente para o capital externo.

ORTODOXIA

Mesmo alguns economistas menos identificados do que Bresser – um antigo crítico da sobrevalorização cambial – com a corrente heterodoxa apoiam ou pelo menos admitem a ideia dos controles. A economista Eliana Cardoso, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, diz que “virou anátema falar no Brasil que alguma forma de taxação da entrada de fluxos de capital pode ter resultado”. Mas ela, nadando contra a corrente, acha que os controles na entrada fazem sentido na situação atual do Brasil.

Eliana menciona um recente artigo, de base econométrica, dos economistas Sebastian Edwards, da Universidade da Califórnia, e Roberto Rigobon, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), que mostra que a experiência de controle na entrada do Chile nos anos 90 de fato contribuiu para manter a taxa de câmbio do país mais desvalorizada e protegeu o país de choques externos.

A economista observa que é verdade que o mercado contorna as medidas de controle de capital, o que é um dos argumentos mais frequentes dos críticos. No caso do Chile, porém, prossegue Eliana, o Banco Central apertava um pouco mais os controles quando se criavam formas de evadi-los, o que permitiu que a política efetivamente tivesse efeito na taxa de câmbio.

Márcio Garcia, professor de Economia da PUC-Rio, está entre os céticos em relação aos controles de capital, mesmo na entrada. Ele menciona um estudo feito por ele e por Bernardo Carvalho, seu aluno, em 2007, sobre os controles no Brasil na década de 90, que mostra como um mercado financeiro sofisticado como o brasileiro consegue contornar as medidas do governo para conter os fluxos de capital especulativos.

Para Samuel Pessôa, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV no Rio, “a questão do controle de capitais não deve ser discutida em termos ideológicos, mas pragmáticos: é preciso analisar as experiências concretas e ver o que se ganha ou se perde.”

Pessôa, porém, como vários outros economistas de formação mais ortodoxa, acha que o câmbio valorizado no Brasil deriva da baixa taxa de poupança e da necessidade de atrair capital externo para complementar o financiamento dos investimentos.

“Para um país com baixa poupança, eu tendo a achar menos interessante o controle no ingresso, porque aumenta o custo do capital estrangeiro.”

Frases

Luiz Carlos Bresser-Pereira
Ex-ministro da Fazenda

“Além das compras de dólares, não há outra alternativa a
não ser começar a administrar a entrada de capitais,
mas nunca a saída”

Eliana Cardoso
Professora da FGV-SP

“Virou anátema no Brasil falar que alguma forma de taxação da entrada de fluxos de capital pode ter resultado, mas acho
que eles fazem sentido na situação atual do País”

Samuel Pessôa
Economista do Ibre-FGV

“A questão do controle de capitais não deve ser discutida
em termos ideológicos, mas pragmáticos: é preciso analisar
as experiências concretas e ver o que se ganha ou se perde”

04/05/2009 - 11:11h Economistas contestam validade das previsões do FMI para o Brasil

O FMI projetou contração de 1,5% para o PIB do Brasil neste ano. A dispersão das expectativas neste momento é a mais alta da série histórica apurada pelo Banco Central (BC). O presidente do BC, Henrique Meirelles, acredita que a recuperação deve começar neste trimestre.

Valor: Já ultrapassamos o pior momento da crise?

Delfim Netto: O FMI não é bom para fazer projeções. Nunca foi, e menos ainda na gestão Strauss-Kahn. O relatório do FMI sobre a economia mundial para 2008/2009 ainda falava de um mundo estupendo, sendo que os sinais de desaceleração mundo afora já estavam colocados. As projeções do FMI não valem nada.

Valor: Mas qual é sua projeção?

Delfim: É impossível prever o que vai acontecer. O comportamento da economia é cíclico, embora o ciclo atual seja diferente. Há uma quebra de confiança e esse é o risco. O Brasil tem um ritmo de decréscimo menor. O Meirelles provavelmente não está muito errado. No quarto trimestre já veremos a economia levantando. Poderíamos estar melhor se o BC tivesse utilizado a musculatura que tem para reagir com mais rapidez.

Valor: De que forma?

Delfim: O BC podia ter dado mais conforto ao sistema bancário. O primeiro erro foi quanto ao capital subordinado. O BC poderia ter dado garantias aos bancos, completando o que faltasse às empresas nos vencimentos dos empréstimos. O segundo erro foi no fornecimento de funding aos bancos. O BC errou ainda ao inaugurar uma nova teoria, segundo a qual, banco grande é melhor que pequeno e banco público é melhor que banco privado.

Samuel Pessoa: Estou relativamente otimista com o desempenho da atividade. O choque externo não nos desorganizou. O estrago que a inovação provocou no sistema financeiro mundial não chegou aqui. As estatísticas até meados do terceiro trimestre mostram cenário de desaceleração, mas sem desorganizar o sistema de trocas. Os preços das commodities agrícolas em 2008 subiram muito com a especulação. E a queda, por causa da crise, colocou os preços no nível de 2006, que já era alto. As exportações já começam a reagir. O emprego também não mostra um desastre.

Valor: O sr. concorda com as previsões do FMI?

Pessoa: Os números do FMI são inconsistentes. É difícil olhar para o PIB ano a ano, é melhor olhar para uma média de três anos. Se o PIB for muito ruim em 2009, será muito bom em 2010. Se cair os 1,3% do FMI, então, vai crescer 4,5% em 2010 porque a base será muito baixa. Não faz sentido essa previsão do FMI de que o Brasil vai crescer muito pouco dois anos seguidos. Na época da bonança internacional, crescemos 6%. Sem a ajuda do exterior, voltamos para a média de 4% e não de algo como 0,8% que o Fundo espera.

Candido Bracher: O crescimento neste ano pode ficar próximo do número do FMI. Se crescermos zero já vai ser bom. O importante é que esta é a primeira vez que o país pode reagir, numa crise, com redução dos juros. Nas outras crises, a dependência externa fez com que a primeira preocupação fosse a atração de capitais externos. O país reagia aumentando os juros. Essa reação criava uma dificuldade adicional para as empresas, que já precisavam lidar com a retração do mercado externo. O cenário de hoje lembra muito 2003, quando viemos de uma forte elevação do dólar e de queda da atividade. Uma série de empresas e setores estava endividada e enfrentou queda de lucratividade. Dois ou três anos depois, as empresas e os setores já estavam reequilibrados, lucrativos, muito bem financeiramente. Naquele momento saímos da crise engatados no crescimento internacional, mas tínhamos juros muito mais elevados. Hoje, nossas taxas de juros são muito menores.

Valor: O sr. acha possível sair mais rapidamente da crise?

Bracher:
Vamos sair bem da crise, mas isso não quer dizer que sairemos rapidamente. Já está se formando um consenso no mercado de que as coisas pararam de piorar. Ninguém mais espera que esta seja uma recessão em V e nem mesmo em U. Teremos uma recuperação muito lenta. E não será gradativa porque haverá volatilidade.

Valor: Já há colocação de dívida por parte das empresas?

Bracher: Sim. O Itaú-BBA liderou esse retorno. Tivemos a colocação de US$ 200 milhões da Odebrecht por cinco anos e de US$ 750 milhões da Telemar por dez anos. Li no Valor a notícia da emissão do JBS.

Valor: Um dos componentes da crise é a postergação e o cancelamento de investimentos. O país estava em um dos mais longos ciclos de investimento de sua história recente e isso foi abortado. Isso afeta a capacidade de crescer no futuro?

Delfim: Nos grandes projetos de infraestrutura, não há queda. O BNDES tem feito um acompanhamento e não há queda nessa área, mas em bens de capital, sim. Os projetos só vão voltar quando tiver demanda. Estávamos muito bem porque foi a crença no crescimento do produto que despertou o espírito animal do empresário e fez elevar o nível dos investimentos nos últimos três anos. Mas o investimento público está crescendo muito, e ele é vital para recapturar o ânimo dos investidores privados. As obras do PAC continuam em bom ritmo e há o estímulo do programa de construção de moradias que deve crescer bastante, o que obviamente aumenta o consumo de produtos de toda a natureza na escala das obras civis e cria as condições de expansão da demanda.

Pessoa: Devemos ter uma retomada da demanda no princípio de 2010. No começo, a recuperação da economia vai se dar com ocupação da capacidade ociosa. Pela primeira vez, em muito tempo, não teremos risco de oferta. Será um ano tipicamente keynesiano. Hoje, temos vários seguros. Nos últimos cinco anos, nossos termos de troca estiveram equilibrados quando olhamos exportações, importações e destinos.

Delfim: Fui a Maringá (PR) e lá não há crise na soja, na cana, no açúcar, porque o câmbio corrigiu o efeito da queda dos preços das commodities.

Bracher: Algumas das nossas ineficiências se tornaram virtudes. A situação lembra um conto do Jorge Amado (Os velhos marinheiros), em que um sujeito que não sabia navegar assume um barco. Como ele não tem a mínima ideia do que fazer, usa todas as amarras para prender o barco e vira alvo de gozação dos marinheiros. Durante a noite, vem uma tremenda tempestade e no dia seguinte só sobra o barco dele no cais. O Brasil tem uma taxa de compulsório sobre depósito à vista de 50%, quando o mundo tem 10%; tínhamos juros reais de quase 10% ao ano, quando o mundo tinha zero, 2%, 3%, 4%. Essas ineficiências permitiram irrigar o mercado de liquidez e permitiram um alcance à política monetária que outros países não puderam ter porque já tinham juros próximos de zero. A pequena participação das exportações no PIB, de 15%, nos tornou menos sensíveis à retração externo.

04/05/2009 - 10:52h Surgem sinais do processo de recuperação

Debate: Delfim Netto, Candido Bracher e Samuel Pessoa analisam os principais temas da agenda econômica

Cristiano Romero, de São Paulo – VALOR

Ana Paula Paiva/Valor
Candido Bracher: consenso em formação de que as coisas pararam de piorar

É impossível prever com precisão o que vai acontecer com a economia brasileira e mundial nos próximos meses, mas o pior da crise financeira internacional, pelo menos para o Brasil, já pode ter passado. A economia brasileira está entrando em processo de recuperação e, por causa da capacidade ociosa de vários setores, deve voltar a crescer em 2010. A crise, embora tenha atingido o país de forma severa, não desorganizou a economia.

Estas são algumas das conclusões de três observadores privilegiados da crise mundial e seus efeitos sobre o Brasil – o ex-ministro e ex-deputado Antônio Delfim Netto, o presidente do banco Itaú-BBA, Candido Bracher, e o professor Samuel Pessoa, da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas. A convite do Valor, eles debateram os principais temas econômicos da atualidade.

Em geral, os três estão otimistas quanto às perspectivas de recuperação do Brasil nesta crise, considerada a mais grave desde a Grande Depressão de 1929. Delfim e Pessoa acham que a projeção de queda de 1,3% do PIB em 2009, feita pelo FMI, é inconsistente. Já Bracher diz que ela pode estar correta.

“As projeções do FMI não valem nada”, criticou o ex-ministro. “Estou relativamente otimista com o desempenho da atividade. O choque externo não nos desorganizou”, opinou Pessoa, que, além de dar aulas na FGV-RJ, assessora o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). “Vamos sair bem da crise, mas isso não quer dizer que sairemos rapidamente. Já está se formando um consenso no mercado de que as coisas pararam de piorar”, comentou Bracher. As medidas adotadas pelo governo Lula para enfrentar a crise foram, com poucas exceções, bem avaliadas por Delfim, Bracher e Pessoa.

A única iniciativa criticada de forma consensual foi a adoção de estímulos para que os bancos públicos comprem bancos privados em dificuldades. Na avaliação do professor de FGV, a medida, “um estímulo à estatização”, foi tomada com o beneplácito do Banco Central (BC).

Ana Paula Paiva/Valor
Candido Bracher: consenso em formação de que as coisas pararam de piorar

O BC também foi criticado por Delfim e Bracher. Os dois afirmaram que a autoridade monetária poderia ter reagido de forma mais célere no início da crise, em setembro de 2008. “Poderíamos estar melhor se o BC tivesse utilizado a musculatura que tem para reagir com mais rapidez”, criticou Delfim.

Delfim e Pessoa polarizaram as opiniões quando o tema foi taxa de juros. Enquanto o ex-ministro defendeu a tese de que a taxa Selic é alta por causa de um equívoco da política monetária conduzida pelo BC, o professor da FGV disse que o problema é estrutural. “Quando o país fica bem, os empresários se entusiasmam e o investimento vem, a poupança doméstica não cresce. É por isso que os juros ficam altos”, avaliou Pessoa.

O economista ligado ao PSDB afirmou que o governo Lula não pode ser acusado de gastador na área de custeio. Lembrou, no entanto, que Lula elevou muito as despesas sociais e de pessoal, difíceis de serem revertidas. Na sua avaliação, isso criou um tema para a campanha eleitoral de 2010 e um desafio para o próximo governo. Pessoa não vê, no entanto, risco de insolvência fiscal em 2009 e 2010.

Participaram do debate Denise Neumann, José Roberto Campos e Vera Brandimarte