23/01/2009 - 18:32h Delito de opinião

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O maestro John Neschling tinha contrato até 2010. O seu salário foi estabelecido de comum acordo com os que o demitiram agora. Ou seja, a demissão não está motivada pelo salário, como justificam alguns. Até porque a ruptura de contrato (Serra é aficionado em romper contratos) vai provocar seguramente indenizações com custo superior, sem falar no salário de outro maestro de renome.

A carta de FHC é clara quando justifica a abrupta demissão por causa de declarações de Neschling, ou seja trata-se bem de delito de opinião. Se nas suas entrevistas Neschling tivesse falado bem do processo de escolha do seu substituto, não teria sido demitido. Se tivesse falado bem do governador Serra, continuaria no cargo. Ele deu sua opinião e provocou a revanche dos atingidos pela crítica. Delito de opinião mesmo.

Alguns comentários criticam o temperamento do maestro e outros não gostam do seu jeito de dirigir. Temperamentos caracteriais não são raros no meio artístico, particularmente entre regentes. Karajan tinha reputação de ditatorial e Toscanini também. Bernstein era um doce. Não estou comparando Neschling com esses gênios, estou simplesmente constatando um fato.

A OSESP ganhou renome internacional sob a direção de John Neschling. O maestro e a orquestra serviam ao ufanismo tucano, como se fossem eles os que regiam, mas viraram intolerantes quando foram questionados abertamente pelo regente.

Não estou defendendo o temperamento de Neschling, não estou reivindicando sua direção musical, nem justificando remunerações. A demissão do maestro é por ter aberto a boca e criticado publicamente a condução de FHC, os caprichos de Serra e as escolhas de João Sayad. Direito dele que deveria ser defendido mesmo pelos que discordam de sua maneira de reger, seu temperamento e seu salário.

Luis Nassif tinha contrato com a TV Cultura, o contrato expirou e não foi renovado. Nassif tinha virado desafeto de José Serra. Salomão Schwartzman, crítico contumaz de Lula, tinha contrato com a Rádio Cultura e seu programa uma importante audiência. Salomão teve que levar sua voz para outras emissoras. Na TV Gazeta, na TV Cultura e na Rádio, o controle passou a ser cada vez maior e ninguém apita contra o governador do Estado. Se ele dá ordem até nas redações de jornais independentes, imaginem nas que estão sob seu controle via o governo do Estado de São Paulo?

Esqueci, a mídia anda dizendo que José Serra virou um unificador, um pacificador e até um serrinha paz e amor. Neschling que o diga. LF

23/01/2009 - 17:36h John Neschling no olho da rua: a reação na blogosfera

Neschling conta as mágoas

 

O governador Mário Covas era um homem simples. Não bebia (apenas tomava guaraná) e não dava bola pras artes. Mas sabia que ele era um, e o interesse do povo era outro. E foi por isso mesmo que São Paulo experimentou, no seu governo, um salto cultural histórico com inúmeras iniciativas, cujos destaques são o tapão definitivo que seu deu na Pinacoteca e o convite para que John Neschling digirisse a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).

Antes de Neschling, a Osesp era praticamente uma repartição pública em que se tocavam instrumentos. A coisa era muito ruim. Não pela presença do Maestro Eleazar de Carvalho, mas porque o corpo de músicos era simplesmente um braço fubá da Administração Pública. Quase como uma conclusão, os caras eram ruins pra caramba.

Lembro que, ao chegar, Neschling cometeu uma ofensa inominável ao ufanismo tapuia: dedetizou a coisa e chamou músicos de fato bons – estrangeiros, muitos deles órfãos do Leste Europeu pós-Muro -, numa equação entre não gastar os tubos e obter um trabalho de ótima qualidade. O pissoal chiou: afinal de contas, nós brasileiros somos maravilhosos em tudo. E foi Neschling também que exigiu uma casa decente para a orquestra. E teve: a Sala São Paulo.

O maestro, além de ser fodão e exigente, tem toda a pinta de ser vaidoso até. Na minha humilde opinião, tem pouquíssima gente que pode se dar esse luxo, e Neschling é um deles. Na opinião de outros, mais vale uma orquestra meia-boca, mas só de gentchiboa, dessas que dá pra chamar pra feijoada lá em casa. Ponto de vista.

Isso fez que bocas espumassem eternamente pelos corredores e coxias. E certamente foi um dos donos dessas boquinhas crispadas que gravou esse vídeo, em que Neschling desce o pau em Serra.

O episódio, aliado ao fato de, na Virada Cultural de 2005, Neschling ter se recusado a se apresentar com a Orquestra ao ar livre por falta de condições técnicas, formou a fofoca toda para que o maestro anunciasse, em meados deste ano, que cumpriria seu contrato até 2010, e só.

Hoje no Estadão há matéria extensa em que ele conta seu ponto de vista.

Fiquei muito triste com essa coisa toda. Gosto do governo Serra, e do Neschling também. E acho que certos setores da Administração têm de ficar longe, muito longe da mentalidade funcionalística-publística. O maestro foi o único que conseguiu a façanha de levar a Osesp para o país inteiro e para as melhores salas internacionais. Para para isso foi necessária uma boa dose de antipatia e pulso firme.

John Neschling nem precisaria desse excelente trabalho em São Paulo pra ter lugar em qualquer parte do mundo. Já a Osesp, não sei como fica, não…

A crise da música erudita paulista

Blog de Luis Nassif

Comentário

Pelo menos no campo da música erudita, a gestão Serra está procedendo a um desmonte cultural em São Paulo. E conseguiu colocar contra si maioria esmagadora da comunidade da música erudita.

Dia desses conversava com velho colega da Escola de Comunicações e Artes da USP. Quando a Universidade Livre de Música Tom Jobim conseguiu se reestruturar – me disse ele – ficou bem à frente da Escola Municipal de Música. Em seguida, houve uma reação da Escola, estabelecendo-se uma competição virtuosa. Percebia-se isso pelo nível dos alunos que passavam no vestibular da USP.

Quando a OSESP (Orquestra Sinfônica de São Paulo) explodiu, continuou, os alunos passaram a estudar quatro horas diárias, porque havia perspectiva pela frente, de uma orquestra de padrão internacional.

Segundo ele – que está desde os anos 70 no setor – jamais a música erudita de São Paulo experimentou salto igual. Ele endossa muitas das críticas feitas ao maestro Nescheling, de temperamento difícil, personalismo. Mas o fato concreto, me dizia ele, é que colocou a música erudita de São Paulo no mapa do mundo. E não se pensou nisso quando se decidiu por seu afastamento.

O primeiro baque foi a destituição da OSCIP responsável pela Universidade Livre de Música e a divisão da ULM por outras entidades. Agora, a destituição de Neschling.

Gosto do Sayad, fui membro do Conselho da ULM, mas sem ter uma participação mais ativa, pedi demissão quando senti a guerra da Secretaria com a OSCIP, a seu pedido passei dicas e idéias para membros da sua equipe.

Mas tenho a impressão que meteu os pés pelas mãos. Era até compreensível que não se quisesse um vice-rei à frente da OSESP. Mas o voluntarismo de Serra ajudou a acelerar esse desmonte.

Trecho da carta de demissão, assinada por Fernando Henrique Cardoso:

Por LPorto

O que fizeram com o maestro é anti ético, fora o desrespeito com o grande profissional..

Link da entrevista, estopim para a demissão, segundo o presidente do conselho Fernando Henrique. Clique aqui.

É claro que o maestro não deu esta entrevista a toa.

Ele veio responder a esta, que o Presidente do conselho não comentou na carta de demissão. Clique aqui.

 

Blog de Olavo Soares

Uma notícia interessante que saiu hoje foi a demissão de John Neschling do cargo de maestro da Orquestra Sinfônica de São Paulo (Osesp). A história não é relevante apenas pela sua dimensão cultural, e sim por outros aspectos envolvidos.

Neschling é uma unanimidade. Todas as opiniões que se ouve sobre ele batem na mesma tecla: é uma pessoa extremamente competente no que faz, mas ao mesmo tempo é dono de um caráter não dos mais elogiáveis. A grossura com os músicos que comanda é célebre; o maestro, no comando da Osesp, não fazia a menor cerimônia na hora de repreender alguém que estivesse fazendo um trabalho – ainda que só um pouquinho – em desacordo com as ordens do chefe.

Isso ficou bem claro em reportagem que a Piauí publicou no ano passado. O texto é longo e revela o fato de que Neschling é uma personagem que merece, mesmo, um bom espaço. Justamente por essas questões relatadas, sua competência e sua grosseria.

Mas a demissão de agora não se explica unicamente por um, digamos assim, “desvio de comportamento” do regente. A coisa é mais grave. Neschling nunca se entendeu muito bem com José Serra, governador do estado e seu chefe. Do alto de sua arrogância, o maestro não tolerava as ingerências de Serra no seu trabalho. E a coisa só poderia dar em confusão.

Agora Neschling segue o seu caminho. E, o mais importante, espera-se que a Osesp também siga o seu. É inegável que o maestro, em seus mais de 10 anos de trabalho, transformou a cara da orquestra. Tomara que quem o substituirá consiga manter a excelência – e se for um pouquinho menos grosseiro, melhor ainda.

P.S.: falar de música erudita me faz lembrar do trabalho de assessoria que fiz com a Orquestra de Câmera Paulista. Foi uma experiência bem legal. Recomendo a entrevista que fiz com Vera e Tânia, respectivamente viúva e filha de Camargo Guarnieri. Foi divertido.Postado por Olavo Soares.

Le Monde saúda Villa-Lobos e Neschling. É porque eles não conhecem o Serrágio

Blog de Paulo Henrique Amorim

26/dezembro/2008 12:14

Serrágio não consegue conviver com um gênio tropical

. O jornal francês Le Monde – que quando sai com as páginas em branco é melhor do que o PiG (*) – faz comentários entusiasmados sobre Villa-Lobos – “Le génie tropical” – por conta de dois concertos que a Orquestra Sinfônica de São Paulo dará nos dias 30 e 31, sob a regência de John Neschling, ao vivo, na Arte.

. O Monde recomenda o CD da Bis com Neschling e a Osesp com os Choros 2, 3, 10 e 12.

. O Monde compara Villa a Sibelius e Schumann.

. Diz que o Choros # 10 é “bárbaro” e “primitivo” de forma “extraordinária”, embora se perceba a influência da Sagração da Primavera de Stravinsky.

. Sobre Neschling, o Monde diz que ele rege a Osesp e Villa com “excelência”.

. E que Neschling é um “infatigável defensor da música flamboyante e tropical de seu compatriota” (Villa).

. Caro leitor, a partir de 2010, se você quiser assistir a Neschling na direção da Osesp – que Neschling ressuscitou, enquanto Mário Covas e Geraldo Alckmin eram governadores de São Paulo – terá que ir a Paris, provavelmente.

. José Serrágio tanto fez que Neschling pediu o boné e não vai renovar o contrato com a São Paulo.

. A mediocridade de José Serrágio não podia respirar do mesmo oxigênio (poluído) de Neschling (e Villa).

. Tudo começou quando Serrágio (de pedágio, os mais altos do Brasil) era prefeito de São Paulo.

. (O leitor se lembra: ele assinou, na Folha (*), documento em que dizia que ficaria no cargo de prefeito até o fim.)

. Serrágio mandou Neschling levar a Osesp para uma “Virada” cultural.

. Neschling perguntou ao intermediário se, no local (um parque aberto), haveria mictório para 100 músicos.

. O interlocutor disse que não.

. Neschling disse que, sem mictório, a orquestra não poderia tocar.

. O interlocutor ficou de resolver o problema.

. Não resolveu.

. E a Osesp não foi.

. Serrágio ficou uma fera e jurou destruir Neschling.

. Foi o que começou a fazer, assim que rasgou o documento da Folha (*) e foi ser governador de São Paulo (provisoriamente, já que, em 2010, ele assume a Presidência …)

. Tanto fez – disse que Neschling ganhava demais… – que Neschling foi embora.

. É isso, caro leitor.

. Serrágio é a cara de São Paulo.

. Se você mora em São Paulo, compre o CD da BIS e vá à forra…

FHC rompe contrato de Neschling. E diz que é por justa causa

Blog de Paulo Henrique Amorim 22/janeiro/2009 10:00

Entre Toscanini e Furtwangler, FHC e Pedágio vão escolher o maestro de Hitler

Entre Toscanini e Furtwangler, FHC e Pedágio vão escolher o maestro de Hitler

. A colonista (*) da Folha (**) Mônica Bergamo fez uma reportagem irretocável – do ponto de vista do José Pedágio e de FHHC (o que esperar de um colonista (*) da Folha (**)?

. Leia o press release de José Pedágio, governador de (e tudo para) São Paulo

. Pedágio demitiu Neschling por causa de um mictório.

. O resto é uma sequência de arbitrariedades de um Putin que não pode conviver com o talento (diga aí, caro leitor, que talento habita, por exemplo, o secretariado do Pedágio?) e a critica.

. John Neschling é irascível.

. E, na raça, construiu uma obra que ficará gravada na história cultural do Brasil.

. Ele e Mário Covas.

. Pedágio e Fernando Henrique Cardoso não deixarão impressões digitais na história cultural do Brasil.

. FHC, o Farol de Alexandria, rompeu o contrato de Neschling que ia até 2010.

. E disse que foi por justa causa.

. O típico argumento daqueles empresários do Conselho da Osesp, empresários tucanos que estão em busca de emprego (diante das atribulações terminais de suas empresas).

. O argumento do Farol é que Neschling é um desbocado.

. Quando era presidente da República, seu Ministro das Comunicações, Sérgio Motta, disse que o trabalho da antropóloga Ruth Cardoso não passava de masturbação.

. O que o Farol fez?

. Nada.

. Disse que o Serjão, sabe como é, é o temperamento dele.

. Foi o que eu pessoalmente ouvi, numa entrevista coletiva no Hotel Hay Adams, a um quarteirão da Casa Branca, quando FHC visitou Bill Clinton.

. O Farol faz o que Pedágio manda.

. Antes de tomar posse do primeiro Governo, em Miami, no Hotel Fontainebleau, eu, correspondente da Globo, perguntei a ele se Serra seria ministro de seu Governo.

. Nem pensar, ele disse.

. Se o Serra sentar numa cadeira do Ministério ele vai querer mandar no Governo todo.

. E ali na minha frente conversou por telefone com o futuro Ministro, inimigo de Pedágio até hoje, ele, sim, confirmadíssimo, Pedro Malan.

. Serra foi ministro duas vezes: do Planejamento e da Saúde.

. Quem mandou o farol nomear Serra?

. Serjão.

. Serjão une Serra e FHC até a morte – e até Luxemburgo.

. Putin e o Farol não conseguiriam ter Toscanini como diretor da orquestra.

. Toscanini era insuportável.

. Um gênio furibundo.

. O Farol e o Pedágio preferem Furtwangler.

. Aquele que serviu a Hitler com devoção.

23/01/2009 - 14:30h Osesp terá maestro interino até 2011

Fundação deve anunciar nos próximos dias o regente; fontes ouvidas pelo Estado confirmam nome de Yan Pascal Tortelier

 

Sala São Paulo in São Paulo/Brasilien. Wolf/Wagner-Konzert. OSESP mit Spalla (Konzertmeister). Copyright: OSESP São Paulo. April

João Luiz Sampaio – O Estado SP

 


Com a demissão do maestro John Neschling, anunciada na noite de quarta-feira pela Fundação Osesp, a orquestra deverá ser regida interinamente até 2011 (quando assume um novo diretor artístico) pelo maestro francês Yan Pascal Tortelier. A Fundação Osesp não confirma ou nega a informação, obtida pelo Estado com fontes ligadas à orquestra; informa apenas que as negociações estão bem adiantadas e que o nome do novo regente principal pode ser anunciado nos próximos dias. Filho do célebre violoncelista Paul Tortelier, o maestro francês já foi regente principal da Filarmônica da BBC e principal regente convidado da Sinfônica de Pittsburgh; em 2008, comandou a Osesp durante duas semanas, com resposta positiva dos músicos e da crítica.

A demissão de Neschling foi anunciada em carta enviada por correio ao maestro, que está regendo na Grécia e volta ao Brasil apenas no início de fevereiro. O presidente da Fundação Osesp, Fernando Henrique Cardoso, afirma que as declarações dadas pelo maestro ao Estado em entrevista publicada no dia 9 de dezembro (leia ao lado) repercutiram negativamente entre os músicos, levando o conselho “a analisar a entrevista e estimar seu efeito nas condições em que a sucessão no comando da orquestra se daria nos quase dois anos ainda por decorrer até a expiração do atual contrato”. Fernando Henrique Cardoso lamenta ainda que “o passo natural de renovação não tenha sido percorrido de melhor maneira” e encerra com “justas homenagens pelo admirável trabalho realizado”. Mas afirma que “à luz da gravidade dos termos da entrevista, o conselho optou pela ruptura contratual imediata”.

Por intermédio de seu assessor de imprensa, o maestro informa que não vai se pronunciar sobre a demissão antes da chegada ao Brasil e que está consultando seus advogados sobre questões contratuais – segundo a fundação, a conduta pública do regente está em desacordo com as cláusulas de seu contrato. O silêncio, de resto, se espalha. Membros do conselho da Fundação Osesp também recusaram pedidos de entrevista. Maestros das principais orquestras do País procurados pelo Estado, como Roberto Minczuk (ex-diretor artístico adjunto de Neschling e atual diretor da Sinfônica Brasileira e do Municipal do Rio), Isaac Karabtchevsky (diretor da Sinfônica Petrobras), Ira Levin (diretor da Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília) e Jamil Maluf (diretor do Municipal de São Paulo) também preferiram não se pronunciar sobre a questão. Já o secretário-adjunto de Cultura Ronaldo Bianchi disse que o governo “tem profundo respeito pelo trabalho do maestro” e que ficou sabendo da decisão de demiti-lo “da mesma forma que a imprensa e o público”.

O compositor Gilberto Mendes elogiou, na manhã de ontem, o trabalho de Neschling e afirmou que sua saída é “o fim de uma era, o começo do fim da Osesp”. O mesmo espírito pode ser encontrado nos diversos fóruns de discussão que se estabeleceram na internet desde a divulgação da notícia. Da mesma forma, fãs da orquestra criaram na rede um abaixo-assinado no qual pedem a permanência do atual corpo administrativo e artístico da orquestra “para que todo o trabalho realizado até o momento não tenha sido em vão”. No Orkut, comunidades têm sido criadas em torno de um vídeo, postado no YouTube, em que, após concerto em dezembro, a plateia da Sala São Paulo inicia um coro de “Fica! Fica! Fica!”. “Esse coro pesará para sempre na decisão dessa gente que acha que pode fazer o que quiser com a nossa orquestra. Mas não podem! A orquestra é nossa, não deles!”, diz um dos integrantes.

A repercussão em torno da demissão toca no ponto nevrálgico da relação da orquestra com o maestro: qual o significado no futuro da Osesp da saída de Neschling? Em seus comunicados oficiais, a fundação tem insistido que o processo de seleção continuará como previsto e que, nas próximas semanas, os critérios que vão guiar a escolha do novo diretor artístico, obtidos em conversas com consultores internacionais, serão divulgados à imprensa e ao público. Entre as possibilidades estudadas, está a divisão de funções: em vez de um diretor artístico também regente-titular, dois profissionais seriam escolhidos, tentativa de diminuir a centralização que foi uma das marcas da gestão Neschling.

Ouvidos pelo Estado, músicos da Osesp, que preferiram não se identificar, se disseram “aliviados” com a solução, tendo em vista a “relação tumultuada” dos últimos tempos entre eles e o maestro. Segundo eles, no final de novembro, uma comissão havia enviado uma carta à direção da fundação fazendo reparos ao trabalho do maestro nos últimos meses. “Há um pouco de insegurança no ar por não sabermos ainda quem virá reger a orquestra em seu lugar nos próximos tempos. Mas recebemos da fundação a garantia de que, apesar da decisão final ser do conselho, nós seremos consultados sobre o nome do novo diretor artístico”, disse um músico, integrante da orquestra desde o início do processo de reestruturação iniciado pelo maestro em 1997. Quanto à escolha de Yan Pascal Tortelier para o posto de regente-titular interino, parece não haver polêmicas. “Gostamos muito de trabalhar também com o Mario Venzago e com o Frank Shipway. Mas o Tortelier fez um excelente trabalho”, disse o músico. Estava marcada para o começo da tarde de ontem uma reunião entre a orquestra e membros do conselho.

Relação de Sucesso e Polêmica

A CHEGADA

Em 1996, o maestro John Neschling é anunciado pelo governo do Estado como regente-titular e diretor artístico da Osesp, com o objetivo de reconstruir o grupo, plano que previa a construção da Sala São Paulo e o aumento dos salários dos artistas, tendo em vista programações regulares e ambiciosas.

A PRIMEIRA POLÊMICA

Em 2001, após desentendimentos com o maestro Minczuk, na época diretor artístico e regente-titular adjunto, oito músicos, entre eles representantes da orquestra, são demitidos por telefone por Neschling, levando a manifestações de entidades de artistas.

TURNÊ E DEMISSÃO

Após a primeira turnê da orquestra pelos EUA, a diretora-executiva da Osesp, Cláudia Toni, deixa o cargo presumidamente por conta de desentendimentos com o maestro John Neschling sobre problemas na produção da viagem.

FESTIVAL

Em 2004, Roberto Minczuk é escolhido pelo governo para dirigir o Festival de Campos do Jordão. Começava, nos bastidores, o desentendimento entre ele e Neschling. No ano seguinte, Minczuk deixaria o posto de adjunto, assumindo a posição de regente convidado principal. Antes do fim da temporada, no entanto, ele deixaria a orquestra, alegando falta de clima propício ao trabalho.

VIRADA CULTURAL

Em 2005, no primeiro ano da gestão de José Serra como prefeito de São Paulo, a Osesp recusa-se a participar da Virada Cultural, alegando falta de condições de trabalho. Começava ali o desentendimento entre maestro e governante.

CONCURSO

Em 2006, a reputação do Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos é colocada em questão com acusações de fraude e interferência na seleção de candidatos. Ilan Rechtman, coordenador do evento e antigo colaborador de Neschling, faz as denúncias e é processado pelo maestro. Sua mulher, violoncelista do grupo, é demitida meses depois.

FARPAS

Continuam, no início de 2007, os desentendimentos públicos entre Neschling e o governo do Estado. O secretário de Cultura João Sayad diz à imprensa que considera alto o salário do regente. No Festival de Campos do Jordão, Serra encontra-se com Minczuk para jantar no Palácio Boa Vista, gerando boatos de que ele poderia empossá-lo como novo diretor da Osesp.

YOUTUBE

Meses depois, surge no YouTube vídeo em que Neschling chama o governador de “menino mimado e autoritário”.

SAÍDA

Em junho, a fundação Osesp informa a decisão de John Neschling de não renovar seu contrato em 2010.

PROCESSO SELETIVO

Dia 3 de dezembro, chega a SP Timothy Walker, o primeiro dos consultores internacionais convocados para ajudar a Osesp na escolha do novo maestro. Em seguida, veio ao País Henry Fogel, ex-presidente da Liga das Orquestras Sinfônicas Americanas.

ENTREVISTA

Dia 9 de dezembro, falando ao Estado, Neschling critica abertamente a condução do processo de seleção.

23/01/2009 - 14:06h Neschling: ”A sucessão está sendo feita de um jeito irresponsável”

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Leia trechos da entrevista concedida pelo maestro ao Estado em dezembro

 

 

 

 

O COMEÇO DO FIM

“No primeiro almoço que tive com o vice-presidente do conselho, Pedro Moreira Salles, me falaram dos consultores estrangeiros que a orquestra traria para ajudar na busca pelo novo maestro. Disse a eles que o melhor consultor seria eu mesmo. Quem conhece esse país? Quem conhece a política local? Eu. Achava a saída muito intempestiva e queria achar outra solução. Eles me perguntaram: quanto tempo mais? Certamente, não seria em 2010. E pedi a eles que não discutissem a questão antes da hora. Mas já em março começaram os boatos, falaram que viria o maestro Daniel Barenboim. É muito difícil para alguém no meu posto conviver com esses boatos. Por um membro do conselho, fiquei sabendo que os consultores haviam sido chamados. Não havia mais clima. Escrevi uma carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso, falando sobre tudo isso. Nela, eu colocava que, por tudo o que estava acontecendo, se eu não dissesse que sairia, seria ?saído?. Era uma carta pessoal, não foi oficial. Mas, antes de qualquer resposta, recebi uma carta, uma semana depois, aceitando minha decisão de não renovar meu contrato.”

ALMOÇO

“Por tudo isso, há um ano, em dezembro, fui chamado para um almoço com o vice-presidente do conselho (o banqueiro), Pedro Moreira Salles. Para mim, tratava-se da oportunidade de fazer balanço daquele ano difícil e de discutir a necessidade de um plano de comunicação diferente para 2008. Qual não foi minha surpresa quando ele me afirmou com todas as letras que não havia a menor condição de renovar meu contrato, o que precisaria ser feito até outubro de 2008. Segundo ele, politicamente não havia possibilidade. Naquele dia, embarquei para a Europa e lá conversei com amigos, músicos, empresários. E eles ficaram estupefatos, escreveram cartas para o conselho da Osesp, perguntando o que havia de errado, afinal a orquestra estava em um ótimo momento. Voltei em fevereiro e procurei Pedro Moreira Salles, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Tivemos várias conversas e defendi que não era o momento de mudança, que a orquestra estava no meio de um processo e era perigoso uma mudança dessas antes de a sonoridade estar estabelecida, com a disciplina bem estruturada.”

CONSULTORES

“Estou preocupado com o futuro. A Osesp é um projeto meu, não deles. Mas, agora, é deles, daqueles que não me quiseram mais na orquestra, a responsabilidade de levá-la adiante. O perigo é imenso. A possibilidade de dar errado é grande porque não há projeto claro. A vinda dos consultores é símbolo disso. Você traz um cara inexpressivo para passar aqui não mais que 36 horas para dizer o que mudar no projeto? A Osesp é concreta, não é abstrata, está aí, toca, viaja, grava. Falaram que vão trazer um australiano… Onde tem uma Osesp na Austrália? Se eles sabem tanto, por que não criaram uma lá? É de um provincianismo muito grande. Além disso, você traz o cara para vir dar palpite aqui e ele não tem como ajudar porque não conhece a questão. O problema na Osesp não é artístico, é político. Como eles vão lidar com uma vida política que não conhecem?”

A TROCA

“Não sou insubstituível, mas não concordo com a maneira como está acontecendo a troca. Agora, a responsabilidade é deles e eles têm de arcar com esse peso. Mas, o que vai fazer uma Secretaria de Cultura que só desconstrói? Eu não durmo de preocupação! Essa é uma grande responsabilidade. Levar um projeto como a Osesp adiante é difícil, precisa de mais trabalho exaustivo para que ela se estabeleça como grande orquestra e não desapareça. É difícil chegar ao ranking das melhores, mas é mais difícil ficar nele. Qual a mágica solução que vem agora de fora? O que há de novo para acrescentar a um projeto que é indiscutível?”

MÁGOA

“O que mais me magoa é ver um trabalho reconhecido internacionalmente, uma posição que adquiri ser colocada em jogo com ligeireza. O que me deixa magoado não é querer rediscutir as coisas mas, sim, fazer isso sem a minha presença, sem pensar que esse foi o trabalho de uma vida. Eles têm todo o direito de não renovar meu contrato. Mas há maneiras e maneiras de fazer isso. Frituras políticas independem de você, não há saída. Quando um governador, um secretário de Cultura ou uma de suas assessoras decide tirar você da jogada, e têm poder político para tanto, o conselho acaba sendo influenciado cedendo. Agora, insisto que não há razão artística para minha saída. O que existe é uma assessora do secretário, Cláudia Toni, que foi diretora da Osesp e cuja missão pessoal é, hoje, se vingar. Ela sempre foi assim, é uma pessoa muito idiossincrática.”

23/01/2009 - 13:17h Francês é substituto temporário na Osesp


Yan Pascal Tortelier regerá a orquestra até o segundo semestre de 2010, quando um novo maestro será escolhido

Tortelier já foi titular da Filarmônica da BBC e esteve à frente da Osesp em 2008; ele substitui John Neschling, demitido anteontem

JOÃO BATISTA NATALI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

John Neschling será substituído na Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado) pelo maestro francês Yan Pascal Tortelier, 61. A contratação será anunciada o mais tardar em dez dias.
Ele regerá a orquestra até o segundo semestre de 2010, quando um novo regente, a ser escolhido por uma comissão, se tornará o titular definitivo.
O maestro francês esteve à frente da Osesp por duas semanas, em maio do ano passado, em programas de música francesa que deixaram os músicos e o público bem impressionados.
Ele substituiu de última hora o também francês Michel Plasson, inicialmente contratado para aqueles concertos.
Filho do violoncelista Paul Tortelier (1914-1990), Yan Pascal Tortelier já foi titular da Filarmônica da BBC, de Manchester, e da Sinfônica de Pittsburgh. A Folha não conseguiu localizar o maestro, que mora em Londres, e seu empresário estava viajando.
Ao assumir a Osesp, ele terá problemas de agenda. No final de abril deveria reger a Sinfônica de San Francisco, na mesma semana em que Neschling dirigiria em São Paulo uma versão de concerto de “Falstaff”, ópera de Giuseppe Verdi. Tortelier tem ainda concertos agendados em Pittsburgh (EUA) e Melbourne (Austrália).
Neschling foi demitido anteontem, por e-mail, por Fernando Henrique Cardoso, presidente do conselho da fundação que é responsável pela administração da orquestra. Procurado pela Folha, FHC disse, por sua assessoria, que não dará nenhuma declaração adicional sobre a demissão. O maestro se desgastou por atritos com o governador José Serra, com o secretário estadual da Cultura, João Sayad, e com músicos, que o julgavam arrogante e se queixavam de seu autoritarismo.
Também entrou em choque com os integrantes do conselho da orquestra, que acusou em dezembro de “irresponsáveis” no processo de escolha de seu sucessor. Seu contrato expiraria em outubro de 2010. A informação sobre a demissão o pegou de surpresa. Sayad não quis comentar a maneira como se deu a demissão: “Cabe à Fundação Osesp se pronunciar”, disse.
A Folha apurou que pouco depois das 16h de anteontem FHC enviou ao maestro, que está na Suíça, e-mail que o alertava para a importância de um comunicado que lhe seria enviado em seguida. Sem mais informações, Neschling mobilizou amigos e só por volta das 19h30 soube do que se tratava.
Às 20h10 os músicos recebiam e-mail com a notícia da demissão, e pouco depois o site da orquestra exibia carta assinada por FHC que reprimia o maestro pela “gravidade” de suas críticas ao conselho e deixava “poucas dúvidas” quanto a sua suposta intenção de manter uma relação de conflito.
Ontem pela manhã a Folha teve rápida conversa telefônica com ele. “Eu não quero falar sobre nada”, afirmou, da Suíça, depois de se dizer “chocado”.
A escolha de Tortelier, embora mantida em sigilo, já estava feita. Não está claro se ele cumprirá os compromissos assumidos por Neschling. A orquestra tem turnê pelos EUA no segundo semestre. A temporada de 2009 começa em 5 de março com o oratório “Paulus”, de Felix Mendelssohn-Bartholdy. Antes disso, em 12/ 2, os músicos se fechariam por duas semanas para gravações.
Entre as peças do CD estão as “Séries Brasileiras”, de Alberto Nepomuceno (1864-1920).
Em junho último o conselho anunciou que o contrato de Neschling não seria renovado, contrariamente aos planos dele de permanecer até 2012.

Repercussão
Segundo um de seus amigos, a fundação acreditou que Neschling estava disposto a reverter a situação por meio da mobilização do público da Sala São Paulo. Manifesto na internet pela permanência tinha ontem 1.184 assinaturas; comunidades do Orkut pediam o mesmo. Em de 13 de dezembro, o público o aplaudiu ao final do concerto aos gritos de “fica, fica”.
Nelson Freire e Antonio Meneses, os dois músicos eruditos brasileiros de maior projeção internacional, lamentam a demissão. “Ele transformou a Osesp numa orquestra de primeiro mundo”, diz Freire. “Espero que essa história seja repensada e que ele volte.” Meneses diz estar “realmente chocado”: “Neschling é possivelmente o músico que fez a maior diferença na música brasileira dessas últimas décadas e merecia ao menos uma despedida digna de suas realizações”.


Colaborou IRINEU FRANCO PERPETUO

23/01/2009 - 12:53h Música, maestro!

TENDÊNCIAS/DEBATES – FOLHA SP

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br


JOÃO SAYAD


Quero deixar registrado que a demissão não está de nenhuma forma associada a algum conflito pessoal entre Neschling e o governador

O MAESTRO John Neschling pediu demissão algum tempo atrás com o compromisso de permanecer no cargo até o fim do contrato, que se encerraria em outubro de 2010. O Conselho da Fundação Osesp, entretanto, resolveu antecipar o desligamento -Fernando Henrique Cardoso, presidente da Fundação Osesp, escreveu ao maestro, anteontem, explicando os motivos. Foi uma decisão unânime do conselho.
Jornalistas explicaram as razões e a cronologia dos eventos com imprecisão e muitos erros. É natural -o maestro tem um número igual de admiradores e adversários. Aqui vai a explicação do secretário estadual da Cultura.
Somos gratos ao maestro que deixa agora a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Foi ousado ao propor a transformação da orquestra, selecionando músicos por processo impessoal e democrático, aberto a todos, contratados de acordo com as leis trabalhistas e com salários condizentes com a qualidade e a dedicação exigidas dos músicos. Brigou com a burocracia conservadora, convenceu autoridades orçamentárias e acabou criando uma orquestra de excelência artística, bem administrada e com personalidade.
Claro que o maestro é apenas o protagonista mais visível entre tantos outros heróis. Foi Yoshiaki Nakano, secretário estadual da Fazenda na época, quem teve a ideia de excluir a estação Júlio Prestes do processo de privatização da Fepasa. O governador Mario Covas (1995-2001), secretários da Cultura, os músicos e muitos outros, maiores e menores, também merecem créditos pela obra. Todos os brasileiros são gratos.
Entretanto, criadores e criaturas não convivem bem eternamente. Deus e Jó, pais amantíssimos, mães extremadas e filhos talentosos, dr. Higgins e Eliza (”My Fair Lady”).
Olhando à distância e friamente, deveríamos dizer que se dão muito bem, sim, mas sofrem intensamente no momento da separação, quando a criatura ganha personalidade, autonomia e precisa ultrapassar os limites impostos pelo criador zeloso ao “seu” projeto de criatura.
Nos últimos tempos, os músicos começaram a reclamar usando os meios de que dispunham -confidencialmente, por e-mails anônimos e em conversas particulares. Além disso, mas ainda em surdina, acumulavam criticas à própria condução artística da Osesp e à qualidade da regência.
O estilo autoritário da liderança do maestro impedia que essas reclamações chegassem ao Conselho da Osesp -havia medo de represália, de demissões. Verdade que, historicamente, maestros são temperamentais, difíceis de conviver. Atualmente, isso não é mais verdade. E o Conselho da Osesp não podia deixar que o futuro da orquestra e a obra do maestro fossem comprometidos pelas explosões do maestro na imprensa, no YouTube ou até em palco.
A preocupação máxima do conselho, da secretaria da Cultura e até dos amigos da orquestra, fãs de Neschling, era garantir uma transição tranquila. Demonstrar que o governo continua comprometido com o apoio à orquestra, que não existe conflito entre orquestra e governo. Não só porque não existe de fato esse conflito mas também porque essa é uma condição necessária para atrair e contratar novos maestros e músicos que permitam o crescimento ainda maior desse corpo musical.
Quero deixar registrado o meu agradecimento ao Conselho da Osesp, que conduz a transição com habilidade e competência. Aos jornalistas, quero deixar registrado que a demissão não está de nenhuma forma associada a algum conflito pessoal entre Neschling e o governador. Em dois anos de governo, não fiz mais que relatar ao governador as informações que o conselho me transmitia confidencialmente para evitar problemas maiores nessa difícil transição. O governador administra um programa de investimentos ambicioso e a vida política do Estado. E, sem demérito à importância da Osesp, delegou totalmente ao secretário da Cultura as decisões sobre a orquestra.
E o secretário confiou totalmente no discernimento e nas decisões do Conselho da Fundação Osesp.
Começamos nova temporada. Tenho certeza de que Neschling, após alguns meses de mágoa e ressentimento, desejará boa sorte aos músicos e à orquestra criada por Eleazar de Carvalho e que ele conduziu por dez anos.
Assim, só me cabe agora desejar sorte e sucesso ao maestro Neschling, dar as boas-vindas ao novo maestro e dizer-lhe que continuaremos apoiando com entusiasmo a grande orquestra de São Paulo.
Música, maestro!


JOÃO SAYAD, 63, doutor em economia pela Universidade Yale (EUA), é o secretário da Cultura do Estado de São Paulo. Foi secretário de Finanças e Desenvolvimento da prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy), secretário da Fazenda do Estado de São Paulo (governo Montoro) e ministro do Planejamento (governo Sarney).

21/01/2009 - 23:38h Maestro John Neschling é demitido da Osesp

http://www.festivaldeinverno.sp.gov.br/imprensa/img/johnneschiling.jpg

MÔNICA BERGAMO Colunista da Folha de S.Paulo

O maestro John Neschling foi demitido hoje da Osesp, a Or­questra Sinfônica do Estado de São Paulo.

No ano passado, de­pois de intensa pressão do gover­nador José Serra, que queria tirá-lo do cargo, Neschling comunicou ao conselho da Fundação Osesp que não renovaria seu con­trato. Na ocasião, no entanto, fi­cou combinado que o maestro permaneceria à frente da Osesp até o fim de 2010, como previa seu contrato.

A situação, no entanto, ficou insustentável. Neschling, que chegou a chamar Serra de “meni­no mimado” e “autoritário” logo no começo do governo, conti­nuou a dar entrevistas espina­frando com o governador e com o secretário da Cultura, João Sayad, mesmo depois de ter sua saída definida. A gota d’água foram as críticas que ele vinha fazendo publicamente à decisão do conselho de formar um comitê para a escolha de seu sucessor.

09/12/2008 - 12:49h ”Minha sucessão está sendo feita de maneira irresponsável”, diz Neschling e acrescenta “Tudo começou há dois anos, quando assumiu o governador José Serra”

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Para o maestro John Neschling, opção por sua saída em 2010 do posto de diretor da Osesp é precipitada

João Luiz Sampaio – O Estado SP

http://www.semptoshiba.com.br/patrocinio/img/orquestra.jpg

O temperamento forte, a fama de genioso e truculento, fizeram da passagem do maestro John Neschling à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo uma história de sucesso – e polêmicas. A mais recente delas foi o anúncio, em junho deste ano , de que ele não renovaria seu contrato de diretor-artístico e regente titular do grupo, que termina em 2010. A decisão, na época, foi atribuída à boataria sobre sua possível saída. “Eu não queria deixar a Osesp. Se saio é porque percebi que o clima estava muito ruim e que, se não o fizesse, seria saído”, diz ele em entrevista exclusiva ao Estado, a primeira desde o anúncio de seu desligamento.

Neschling assumiu a Osesp em 1996, chamado pelo então governador Mário Covas para reconstruir a orquestra. Em 12 anos, o trabalho mostra seus resultados. Além dos concertos semanais na Sala São Paulo com casa lotada, um número de assinantes que ultrapassa 12 mil pessoas, as gravações premiadas mundo afora, chegou na semana passada um novo reconhecimento: em seu panorama do cenário orquestral mundial, a revista inglesa Gramophone elegeu a Osesp como uma das três orquestras em que vale a pena prestar atenção.

A trajetória do projeto Osesp nem sempre foi pacífica. Desavenças entre maestros e músicos; polêmicas em torno dos valores investidos na orquestra e outras que dizem respeito a algumas de suas iniciativas, como o concurso de piano Villa-Lobos; jogos de poder entre regentes e governo fizeram parte da rotina do grupo. A situação, no entanto, ganhou força com a chegada do governador José Serra ao poder, em 2007. Ali começou a se falar oficialmente na troca de guarda na direção artística da Osesp. Em seguida, um vídeo colocado no YouTube mostrava John Neschling fazendo comentários pouco amistosos sobre o governador durante um ensaio da orquestra. Estava instaurada a confusão.

Em junho deste ano, a fundação Osesp informava, enfim, ao público a decisão do maestro de não renovar seu contrato. Na época, em entrevista ao Estado, o presidente da fundação, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, dizia que viriam ao Brasil consultores estrangeiros para ajudar na formatação do processo de escolha do novo diretor-artístico. Timothy Walker, da Sinfônica de Londres, o primeiro deles, esteve em São Paulo na semana passada. Na semana que vem, chega ao Brasil Henry Fogel, membro da Liga das Orquestras Americanas.

“Não sou insubstituível”, disse o maestro Neschling na tarde de sábado, ao longo de uma conversa de quase três horas em seu apartamento no bairro de Higienópolis. “Mas estou preocupado com a maneira como a sucessão está sendo feita. E magoado por ter sido excluído do processo.” A seguir, os principais trechos da conversa:

OSESP, ONTEM E HOJE

“Não podemos perder de vista que, há 12 anos, a Osesp era inexistente, existia mal e porcamente, estava acabando. Os músicos ensaiavam em um restaurante, tocavam em cinemas para um público reduzido, tinha uma administração ineficiente. Naquele momento, o governador Mário Covas e o secretário de Cultura Marcos Mendonça me chamaram e tiveram a coragem e a visão de entregar um projeto que não existia na mão de alguém com uma idéia. Era só o que eu tinha a oferecer: uma idéia, um projeto definido. Meu plano era claríssimo, previa certos passos, certas atitudes a serem tomadas, como a construção da Sala São Paulo, para transformar a Osesp em uma orquestra importante. Nem eu sabia qual seria essa importância, hoje as pessoas ficam surpresas ao ver onde chegamos. Depois de 12 anos, não se trata mais de nós dizendo que somos bons. A Gramophone acaba de nos escolher como umas das três orquestras do mundo em que se deve prestar atenção. Não estamos na lista das 20 melhores, mas estamos entre aqueles que podem aspirar a fazer parte dela. É um processo. A Osesp ainda é um work in progress, não é um trabalho terminado, tem muito que melhorar, crescer, em todos os sentidos. Mas chegamos a um ponto que ninguém sonhava. Recebemos cinco Diapason D’Or, o Grammy. Somos a única orquestra do mundo a aumentar, nesses anos, o número de assinantes, que já passa de 12 mil. Não crescemos como em outros anos, 10%, mas no momento atual de crise, mantivemos a subida. Todos os indicativos são de que a orquestra vive um bom momento. Em 2010, vamos tocar no Musikverein, de Viena, e na sede da Filarmônica de Berlim. Em 12 anos, uma orquestra que não existia fez de São Paulo um centro sinfônico.”

O COMEÇO DO FIM

“Tudo começou há dois anos, quando assumiu o governador José Serra. Não é segredo nenhum que, mesmo antes da posse, já se falava na minha substituição. O governador não queria, não gostava, não sei o quê. Os motivos? Teve o episódio da Virada Cultural e não sei o que mais, o fato é que a todo momento eu lia que ele não gostava de mim, que havia uma briga entre nós. Quando ele assumiu, continuou a polêmica, com a mídia batendo a todo instante. 2007 foi um ano difícil para mim, fui imolado pela imprensa, todo mundo falava mal de mim, diziam que o concurso de piano era uma fraude, que tudo o que eu fazia era ruim. Isso criou uma situação muito delicada que, evidentemente, teve conseqüências no clima da Osesp, não na qualidade, mas sim no clima. Fizemos a turnê pela Europa e voltamos debaixo de uma saraivada de balas. Ninguém falava – olha só, a Osesp foi à Europa e foi um sucesso. Não, parecia que eu era um bandido, um ladrão, um corrupto. Durante o ano, a coisa foi se acirrando, houve o episódio do YouTube, que criou uma situação entre mim e os músicos.”

ALMOÇO

“Por tudo isso, há um ano, em dezembro, fui chamado para um almoço com o vice-presidente do conselho (o banqueiro), Pedro Moreira Salles. Para mim, tratava-se da oportunidade de fazer um balanço daquele ano difícil e de discutir a necessidade de um plano de comunicação diferente para 2008, não podíamos continuar daquele jeito. Qual não foi minha surpresa quando, no almoço, ele me afirmou com todas as letras que não havia a menor condição de renovar meu contrato, o que precisaria ser feito até outubro de 2008. Segundo ele, politicamente não havia possibilidade. Naquele dia, embarquei para a Europa e lá conversei com amigos, músicos, com o presidente do selo BIS, empresários. E eles ficaram estupefatos, escreveram cartas para o conselho da Osesp, perguntando o que havia de errado, afinal a orquestra estava em um ótimo momento. Voltei em fevereiro com esse apoio todo e procurei o Pedro Moreira Salles, o presidente Fernando Henrique Cardoso, o Horácio Lafer Piva. Tivemos várias conversas e eu defendi que não era o momento de mudança, que a orquestra estava no meio de um processo e era perigoso uma mudança dessas antes de a sonoridade estar estabelecida, com a disciplina bem estruturada. Não era o momento.”

A DECISÃO

“Já naquele primeiro almoço, me falaram dos consultores estrangeiros que a orquestra traria para ajudar na busca pelo novo maestro. Ninguém perguntou o que eu achava, apenas me comunicaram. O que disse a eles, depois, foi que o melhor consultor seria eu mesmo – quem conhece esse país? Quem conhece a política local? Eu. Achava a saída muito intempestiva e queria achar outra solução. Eles me perguntaram: quanto tempo mais? Certamente, não seria em 2010. E pedi a eles que não discutissem a questão antes da hora, porque no momento em que se falasse em sucessão, pronto, acabou, a temporada de caça começaria e perderíamos o controle sobre o processo. Mas já em março começaram os boatos, falaram que viria o maestro Daniel Barenboim. É muito difícil para alguém no meu posto conviver com esses boatos. Por um membro do conselho, fiquei sabendo que os consultores haviam sido chamados. Não havia mais clima. Escrevi uma carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso, falando sobre tudo isso. Nela, eu colocava que, por tudo o que estava acontecendo, se eu não dissesse que sairia, seria ?saído?. Era uma carta pessoal, não foi oficial. Mas, antes de qualquer resposta, recebi uma carta, uma semana depois, aceitando minha decisão de não renovar meu contrato.”

O DIA SEGUINTE

“Eles, então, me chamaram para conversar. A decisão já estava tomada. E continua tomada, eu vou embora, minha permanência ou não já não deve ser discutida. Enfim, queriam que eu participasse do processo de seleção do novo maestro. O que eu respondi é que eu não poderia participar de um processo de sucessão no qual não acreditava. Eu queria uma sucessão orgânica, tranqüila, bem-feita, tudo o que acho que não será agora, colocando o projeto em risco. Propus, então, uma transição mais lenta, pacífica. Pedi mais dois anos de contrato ao longo dos quais eu regeria menos e ajudaria a procurar um substituto. Não obtive resposta. E, tempos depois, vejo no jornal que chegou o primeiro dos consultores. Isso me deixa cada vez mais certo da minha decisão.”

CONSULTORES

“Estou preocupado com o futuro. A Osesp é um projeto meu, não deles. Mas, agora, é deles, daqueles que não me quiseram mais na orquestra, a responsabilidade de levá-la adiante. O perigo é imenso. A possibilidade de dar errado é grande porque não há um projeto claro. A vinda dos consultores é símbolo disso. Você traz um cara inexpressivo para passar aqui não mais que 36 horas para dizer o que mudar no projeto? A Osesp é concreta, não é abstrata, está aí, toca, viaja, grava. Falaram que vão trazer um australiano… Onde tem uma Osesp na Austrália? Se eles sabem tanto, por que não criaram uma lá? É de um provincianismo muito grande. Além disso, você traz o cara para vir dar palpite aqui e ele não tem como ajudar porque não conhece a questão. O problema na Osesp não é artístico, é político. Como eles vão lidar com uma vida política que não conhecem?”

JOGO POLÍTICO 1

“Todas as grandes orquestras do mundo foram criadas por grandes maestros e todas tiveram momentos em que eles foram contestados. Eles precisavam incutir uma linha dura para iniciar o trabalho. Não conheço nenhuma orquestra criada por um conselho de sábios. Todas tiveram alguém forte à sua frente, moldando a instituição. Mas no Brasil há características que impedem isso e uma delas é a falta de continuidade. Além, claro, da famosa frase do Tom Jobim: fazer sucesso no Brasil é um perigo, é uma cultura autofágica que odeia a recusa da mediocridade. A Osesp é uma instituição de R$ 67 milhões ao ano. É muito dinheiro e dinheiro é poder. Ninguém brigava para tirar o Eleazar de Carvalho da Osesp porque ninguém queria a Osesp. Os regentes querem ter o poder que vem com o posto de chefe da Osesp, querem usá-la para se projetar internacionalmente. Nesse sentido, a orquestra é uma jóia. E o governo não quer um cara que chega e diz o que quer, que defende o fato de quem manda aqui é ele, que sabe o que quer. Durante oito ou nove anos, me aceitaram assim e eu correspondi com os resultados conquistados. Até que assumiu um governo que acha que pode fazer melhor, apesar de não ter a menor idéia do que é uma orquestra sinfônica. Aí vira briga e busca de prestígio.”

JOGO POLÍTICO 2

“Em Birmingham, depois que o maestro Simon Rattle saiu da orquestra, ninguém mais sabe o que acontece lá. Em Montreal, foi o mesmo depois da saída do Charles Dutoit. Não sou insubstituível, mas não concordo com a maneira como está acontecendo a troca. Agora, a responsabilidade é deles e eles têm de arcar com esse peso. Mas, o que vai fazer uma Secretaria de Cultura que só desconstrói? Fecharam a Universidade Livre de Música, estão destruindo o Conservatório de Tatuí. Dizem que vão construir um teatro de dança. Duvido. Eu não durmo de preocupação! Essa é uma grande responsabilidade. Levar um projeto como a Osesp adiante é muito difícil, precisa de mais trabalho exaustivo para que ela se estabeleça como grande orquestra e não desapareça. É difícil chegar ao ranking das melhores, mas é mais difícil ficar nele. Qual a mágica solução que vem agora de fora? O que há de novo para acrescentar a um projeto que é indiscutível?”

A FUNÇÃO DO DIRETOR

“É claro que pode funcionar um diretor-artístico menos forte, que não seja também o regente titular, como eles têm dito. Funciona em Londres, Chicago, Nova York. Mas essas orquestras têm 100 anos de idade. Falem o que quiserem, mas as orquestras precisam de uma figura de galeão. Montreal não era conhecida pelo seu diretor-executivo mas, sim, pelo seu maestro. Quem era o diretor da Filarmônica de Nova York durante a gestão de Leonard Bernstein? Ninguém sabe. Esse formato pode funcionar quando a orquestra tem maturidade para se autogerir. Se um música da Filarmônica de Berlim não toca bem, o primeiro a reclamar é seu colega. Aqui, ainda estamos numa fase em que a orquestra funciona como corporação, defende a mediocridade, o músico não cobra um colega porque tem medo de ser o próximo. Ouvi do Pedro Moreira Salles que, em seu banco, um executivo que chega aos 60 anos precisa começar a pensar na sua saída. Não trabalho num banco! A fase de glória de um regente vem depois dos 60 anos. Há, em tudo isso, uma tentativa de enfraquecer a figura do maestro. Tenho sérias dúvidas sobre se isso vai fazer bem ao grupo.”

MÁGOA

“O que mais me magoa é ver um trabalho reconhecido internacionalmente, uma posição que adquiri ser colocada em jogo com ligeireza. O que me deixa magoado não é querer rediscutir as coisas mas, sim, fazer isso sem a minha presença, sem pensar que esse foi o trabalho de uma vida. Eles têm todo o direito de não renovar meu contrato. Mas há maneiras e maneiras de fazer isso. Frituras políticas independem de você, não há saída. Quando um governador, um secretário de Cultura ou uma de suas assessoras decide tirar você da jogada, e têm poder político para tanto, o conselho acaba sendo influenciado e acaba cedendo. Agora, insisto que não há razão artística para minha saída. O que existe é uma assessora do secretário, Cláudia Toni, que foi diretora da Osesp e cuja missão pessoal é, hoje, se vingar. Ela sempre foi assim, é uma pessoa muito idiossincrática. Você consegue imaginar uma pessoa que é assessora da Secretaria de Cultura e se recusa a falar com o maestro da Osesp? Eu não sei se o conselho concorda com a necessidade de mudança, mas se rendeu a ela.”

A FUNDAÇÃO

“No começo do projeto Osesp, eu dizia para o Marcos Mendonça: ?Você confia em mim? Me dá o dinheiro então que eu administro.? E ele sempre respondia: ?Maestro, sempre terá alguém acima de você, a burocracia estatal é assim.? A idéia da fundação, portanto, surgiu já no primeiro dia do projeto. Cortei minhas próprias pernas com isso? A instituição agora existe e continuo achando que é a melhor maneira de fazer a Osesp. Mas, estranhamente, a orquestra ficou mais dependente agora do Estado do que era antes. Nossa autoridade vinha dos resultados que obtínhamos e o governo a aceitava. Era muito mais fácil se livrar de mim naquela época, eu brigava demais com o governo. Nem sempre consegui o que queria, mas eles respeitavam quando eu dizia que esse ou aquele era o caminho a seguir. Hoje, tem sempre alguém de fora dizendo o que é melhor, o que devemos fazer.”

FUTURO DA OSESP

“Eu diria que estamos no fim do capítulo 1. Saímos do zero e chegamos a uma orquestra que no mundo todo sabem que existe, que é boa, que vale a pena ouvir, que ganha prêmios. Mostramos ao mundo como Villa-Lobos é interessante. As pessoas começaram a ouvir as sinfonias de Guarnieri. Colocamos a música brasileira num patamar de respeito internacional. Comissionamos obras, fizemos 30 e poucas primeiras audições. Editamos partituras , gravamos, elevamos o nível de público, com três casas cheias por semana. No começo, tínhamos uma média de 90 pessoas por concerto; hoje, são 1.400. O segundo capítulo? É continuar, fazer o que a Gramophone espera de nós, corresponder às expectativas. Há muito o que fazer, é preciso trabalhar a sonoridade, essa é uma orquestra com músicos de escolas diferentes. Ainda precisamos de uma primeira flauta, primeiro violoncelo, primeira viola. Temos de ir moldando a orquestra para que ela tenha uma sonoridade própria. Há ainda que incutir a autoconfiança, a autodeterminação, os músicos não podem depender do maestro para tocar bem, a orquestra tem de ter estrutura para cuidar da própria qualidade. Inundamos a orquestra nos últimos 12 anos com novos repertórios, agora é momento de curtir essa expansão, aprofundar a interpretação, fazer com que essa orquestra possa tocar com menos ensaios para poder render mais. Ainda é um trabalho tão longo quanto o que fizemos até agora. Estamos no fim do capítulo 1, e o 2 vai demorar tanto quanto ele.”

FUTURO DO MAESTRO

“Tenho uma história, uma carreira, toda minha vida regi na Europa e volto sempre para lá, tenho concertos. Eventualmente, assumirei uma orquestra européia, não tem por que não acontecer. Não estou preocupado com o meu futuro.”

Polêmicas

A CHEGADA

Em 1996, o maestro John Neschling era anunciado como regente titular e diretor artístico da Osesp, com o objetivo de reconstruir o grupo.

A PRIMEIRA POLÊMICA

Em 2001, após desentendimentos com o maestro Minczuk, na época diretor artístico adjunto, oito músicos, entre eles representantes da orquestra, são demitidos por Neschling.

TURNÊ E DEMISSÃO

Após a primeira turnê pelos Estados Unidos, a diretora-executiva da Osesp, Cláudia Toni, deixa o cargo presumidamente por conta de desentendimentos com o maestro Neschling sobre a produção da viagem.

FESTIVAL

Em 2004, Roberto Minczuk é escolhido pelo governo para dirigir o Festival de Campos do Jordão. Começava, nos bastidores, o desentendimento entre ele e Neschling, fazendo com que Minczuk deixasse a orquestra um ano depois.

VIRADA

Em 2005, no primeiro ano da gestão de José Serra como prefeito de São Paulo, a Osesp recusa-se a participar da Virada Cultural, alegando falta de condições de trabalho.

CONCURSO

Em 2006, a reputação do Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos é colocada em questão com acusações de fraude e interferência na seleção de candidatos.

FARPAS

Começam, no início de 2007, os desentendimentos entre o maestro John Neschling e o governo do Estado. O secretário de Cultura João Sayad diz à imprensa que considera alto o salário do regente. Durante o Festival de Campos do Jordão, Serra encontrava-se com Minczuk – nos bastidores, os boatos davam conta de que ele estudava a possibilidade de empossá-lo como novo diretor da Osesp.

YOUTUBE

É colocado no YouTube um vídeo em que Neschling chama o governador de “menino mimado e autoritário”.

SAÍDA

Em junho deste ano, a fundação Osesp informa decisão de Neschling de não renovar seu contrato em 2010.

PROCESSO SELETIVO

No dia 3 de dezembro, chega a São Paulo Timothy Walker, o primeiro dos consultores internacionais que vão ajudar a Osesp na escolha do novo maestro.

Frases

“Há um ano fui chamado para um almoço com o vice-presidente do conselho, Pedro Moreira Salles. E ele me disse com todas as letras que não havia a menor condição política de renovar o meu contrato com a orquestra em 2010″

“A decisão foi tomada e continua tomada. Eu vou embora, minha permanência já não deve ser discutida. Queriam que eu participasse da escolha do substituto, mas não posso fazer parte de um processo em que não acredito, que está sendo feito de maneira intempestiva e irresponsável”

“Estou preocupado com o futuro. Agora está nas mãos deles a responsabilidade de dar continuidade ao projeto. O perigo é imenso. Não há uma idéia clara do que eles vão fazer. A vinda dos consultores é símbolo disso. Você traz um cara inexpressivo lá de fora para ficar aqui 36 horas e dizer o que tem que mudar no projeto. Isso é muito provincianismo”

“Durante anos, me deixaram fazer meu trabalho e eu honrei a confiança. Agora assume um governo que acha que pode fazer melhor, apesar de não ter idéia do que seja uma sinfônica.”

JOHN NESCHLING, MAESTRO

13/06/2008 - 09:07h Plano de segurança segue no papel

Quando houve o roubo ao Masp, em 20 de dezembro, Beatriz (Segall) foi uma das pessoas célebres que vieram a público pedir providências. “É um descalabro, uma falta de respeito com a cultura brasileira! Está na hora de um grito popular, exigindo providências imediatas!”, disse, na época.

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Museus de São Paulo não receberam detectores de metal nem monitoramento ininterrupto de câmeras

Marcelo Godoy – O Estado de São Paulo

Seis meses depois de o Museu de Arte de São Paulo (Masp) ter sido alvo de ladrões, a Secretaria de Estado da Cultura não executou algumas das principais medidas do plano de segurança dos museus do Estado. Nenhum dos museus cuidados pela secretaria recebeu detectores de metais. As únicas medidas estudadas que saíram do papel, segundo o próprio secretário da Cultura, João Sayad, foram a contratação de guardas para alguns museus e a adoção de “uma segurança mais apropriada em um deles”. Ficaram de fora medidas estudadas, como o monitoramento ininterrupto das câmeras de segurança e o reforço do controle de incêndio.

No dia 20 de dezembro de 2007, bandidos arrombaram uma porta de ferro e levaram o quadro Retrato de Suzanne Bloch, de Pablo Picasso, e O Lavrador de Café, de Cândido Portinari. As obras foram recuperadas em janeiro pela polícia. Desde então, a secretaria, o Corpo de Bombeiros, o Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) e outros órgãos do governo se uniram para estudar a situação de segurança dos museus do Estado. “A Pinacoteca era o mais seguro dos nossos museus”, disse Sayad. O secretário revelou que, entre as medidas que deviam ser implantadas nos museus, estava a instalação de detectores de metais.

Antes que essa e outras medidas saíssem do papel, os ladrões voltaram a agir. Desta vez, armados. “Roubo armado é sempre mais difícil evitar”, disse Sayad. A ação dos criminosos surpreendeu a secretaria. “Nós não esperávamos um roubo à mão armada , como ocorre em vários locais da cidade.”

O secretário revelou ontem que os detectores de metais “estão sendo providenciados” e que a Estação Pinacoteca deve estar entre os museus que vão receber o equipamento. Sayad demonstrou preocupação com o incômodo que esse tipo de equipamento causa, principalmente, em um museu que é muito visitado por crianças, como é o caso da Estação Pinacoteca.

“É desagradável, mas, em face dessa situação, a solução será essa”, afirmou. Sayad não especificou uma data para isso ocorrer, mas disse que não faltará dinheiro no orçamento para reforçar a segurança.

ARMADOS

Mesmo sabendo que pelo menos um dos bandidos que levaram as obras de Picasso, Lasar Segall e Di Cavalcanti estava armado com uma pistola, o secretário praticamente descartou a possibilidade de manter guardas armados ou de pôr policiais fardados para cuidar da segurança dos museus de São Paulo. “Não sei se guarda armada é uma boa solução.” O secretário declarou que o lugar tem um sistema de vídeo e cerca de 25 atendentes e vigias para cuidar do público – ao todo o museu tem 50 funcionários. O lugar, segundo ele, não tem alarme.

O secretário encontrou-se ontem com o diretor do Deic, delegado Youssef Abou Chahin. O diretor do Deic informou que avisou portos e aeroportos. Segundo a Polícia Federal, seus funcionários estão de prontidão. Mas a instituição não deverá apurar o caso, pois nenhuma das obras é tombada pelo patrimônio histórico nacional.

COLABOROU RODRIGO PEREIRA