23/11/2009 - 22:00h Boa noite
Schubert – Death and the Maiden (La jeune fille et la mort – A jovem e a morte) – Quarteto Alban Berg
- Luis Favre
Schubert – Death and the Maiden (La jeune fille et la mort – A jovem e a morte) – Quarteto Alban Berg
Schubert – Piano Trio N° 1 in B-flat Major D898
Yehudi Menuhin (violino)
Hephzibah Menuhin (piano)
Maurice Gendron (violoncelo)
Winterreise op. 89 (1827) de Franz Schubert
Os textos de Die Winterreise de Wilhelm Müller que Franz Schubert musicou em 1827, um ano antes da sua morte, são um espelho do mito de Wanderer cujos demónios nos conduzem às regiões mais profundas e frias do ser. Influenciado pela literatura grega e romana, o folclore, a ópera e o drama alemães, e a poesia inglesa e alemã do século XIX, Müller escreve este ciclo de poemas entre 1822 e 1824 o ano da morte de Byron.
Die Winterreise caracteriza-se pelo imaginário romântico e pelos arquétipos empregues em que o mito de Wanderer e da viagem de inverno, temas favoritos dos românticos, traçam uma longa história desde as civilizações mais antigas. A linguagem empregue pelo poeta, a sua apreciação da música, do teatro e das artes visuais, assim como da tradição romântica inglesa e alemã do século XIX, forma um solo fértil para a criação de Die Winterreise. Das várias influências que sofreu, destacamos a poesia mística de Blake, de onde Müller absorveu a ideia de uma psyche humana dividida, o espectro de uma jornada através da vida ao encontro da sua sombra, a emanação, associação que traz tristeza e consequentemente o espírito criativo. Para Müller os poemas são concebidos para serem cantados, afirmando no seu diário em 1815: “eu não posso nem tocar nem cantar, no entanto, quando escrevo versos, canto e toco. Produzindo melodias, as minhas canções podem ser mais agradáveis. Mas coragem! Talvez exista um espírito iluminado algures que possa ouvir as tonalidades das palavras e trazer-mas de volta”. Este espírito iluminado foi Schubert que musicou do autor não só Die Winterreise como Die schöne Müllerin.
Schubert começa a trabalhar neste ciclo de canções sem conhecer a totalidade dos poemas de Müller. Este facto faz com que utilizando a última ordenação de Muller, rompa com a estrutura musical entretanto elaborada. Frequentemente tido como autobiográfico este ciclo deve ser percebido como uma forte articulação psicológica e em sentido metafórico. Winterreise é um sonho, uma visão da viagem que Wanderer efectua através da mente e do coração até às profundezas da alma. A acção situa-se na psyche humana; Wanderer transcende-se a si próprio utilizando elementos da natureza como símbolos de verdades inquestionáveis. Através de Winterreise, assim como de toda a literatura romântica, a natureza espelha o homem. As progressões musicais e metafísicas revelam-se manifestações de viagens psicológicas.
Nestas canções, Schubert traduz várias emoções tanto físicas como psicológicas, nomeadamente o batimento cardíaco presente na interação entre piano e voz assim como nas variações de tempi de Der stürmische Morgen, no galope de Die Post, na languidez de Einsamkeit e na magnificência de Wasserflut e Das Wirtshaus. O desejo domina em Die Wetterfahme; o pessimismo em Gefror’ne Tränen; a violência, a angustia e a agitação em Rückblick; a dúvida em Auf dem Flusse; a resignação em Das Wirtshaus; o desespero em Der stürmische Morgen; o cinismo em Mut; a tristeza em Der Leiermann; a premonição em Die Krähe e a ansiedade em Die Post. Os recursos técnicos e estilísticos empregues, nomeadamente a modulação, a constante mudança de modo e tonalidade, e a repetição de melodias folclóricas traduzem o espírito de Wanderer. O ciclo termina com uma interrogação cuja resposta é um dado existencial.
A música de Schubert, descrevendo e traduzindo fielmente o mito, as emoções e os sentimentos, confere-lhe um dramatismo e uma força peculiares, sendo um exemplo de perfeição na forma como o compositor os visualiza e transforma em realidades sonoras. Traduzidas por estruturas musicais, melodias, harmonias, ritmos, timbres e texturas de uma beleza e profundidade únicas, estas canções revelam a vivência humana e o que de mais profundo existe no ser humano. Nas canções que compõem o ciclo notamos ainda a preponderância do ritmo dáctilo, o ritmo da morte. Encontramos a tristeza e o desespero de Schubert, a profundidade dos seus sentimentos e emoções, no protagonista da acção.
A simplicidade da escrita realça a natureza dos sentimentos expressos. Como uma imagem pintada, este ciclo de canções transcende-se na música do compositor e na cor branca do gelo e da neve, a página vazia onde se escreve o futuro.
Helena Santana
publicada por CASA das ARTES

No Intermezzo desta semana (na barra lateral vermelha a direita na parte superior do blog) a Serenata de Schubert cantada pelo tenor Giuseppe di Stefano. Trata-se de uma adaptação em espanhol, em um filme mexicano de 1953.
As palavras em espanhol são:
“Al claror de triste luna, faro de pesar
el rigor de mi fortuna quiero aumentar.
Todo en paz con blando sueño duerme en derredor
Solo yo, mi dulce dueña, velo con dolor.
Bardo soy que busca errante lauros para ti
pues quedé tu esclavo amante, luego que te vi.
Tu quizá gentil señora, mientras peno yo,
soñaras que fiel te adora, quien infiel nació
Mas te ví por la ventana, ya piedad logré
tu que fuiste ayer tirana premias hoy mi fé…”
Aqui a mesma Serenata na sua versão original em alemão, na voz do tenor Richard Tauber, depois numa versão de Nana Mouskouri e por último na voz da soprano Hei-Kyung Hong.
Yehudi Menuhin – Schubert Ave Maria – 1947 Adolph Baller (piano)
+ Música – Folha de SP
PARA COMBATER DECLÍNIO DO GÊNERO, LIVRO DEFENDE CONCERTOS MENOS RÍGIDOS E A INTERAÇÃO DO SOLISTA COM O PÚBLICO


TERRY TEACHOUT
Hoje se admite, de modo geral, que a música clássica nos EUA está em situação difícil e até desesperada.
Críticos, comentaristas e administradores perceberam alarmados que as platéias dos concertos estão envelhecendo constantemente e que as pessoas com menos de 50 anos não parecem inclinadas a assistir a espetáculos de música clássica ou a apoiar as entidades que os promovem.
Alguns apresentadores e artistas reagiram tentando modificar a honorável instituição do recital solo, de maneira a torná-lo menos formal e mais contemporâneo.
Por exemplo, hoje os artistas clássicos são aconselhados a falar com o público do palco, a tocar uma combinação de repertório mais amplo e mais recente e até a empregar técnicas modernas de encenação.
Mas, como bem sabe qualquer um que acompanhe os programas da principal sala de concertos dos EUA [o Carnegie Hall], poucos artistas estão seguindo esse conselho.
Com muita freqüência, os intérpretes clássicos continuam a aparecer diante do público vestidos de maneira mais ou menos formal e a tocar programas de duas horas de duração, que consistem em três ou quatro grupos de peças tiradas do repertório padrão e arranjadas em ordem cronológica, sem falar uma palavra em voz alta, exceto para anunciar os bis.
Populismo
O que poucas pessoas que hoje vão a concertos sabem é que houve uma época em que os recitais clássicos eram muito diferentes -menos rígidos, mais improvisados e, principalmente, mais populistas no tom.
Mas, assim como os estilos de tocar dos intérpretes mudaram com a chegada do modernismo, mudou a maneira como se apresentam ao público.
Essas mudanças são o tema de um importante novo livro de Kenneth Hamilton, intitulado “After the Golden Age – Romantic Pianism and Modern Performance” [Depois da Era de Ouro - Piano Romântico e Interpretação Moderna, Oxford University Press, 304 págs., US$ 29,95, R$ 49].
O livro de Hamilton, pianista de concerto e professor na Universidade de Birmingham (Reino Unido), se baseia em extensa pesquisa sobre as práticas de apresentação dos pianistas do século 19 e início do 20, período conhecido pelos colecionadores de discos como a “era de ouro” do piano clássico.
Na virada do século 20, um punhado de instrumentistas clássicos começou a fazer gravações comerciais, e uma ou duas décadas depois a prática havia se tornado comum entre os intérpretes conhecidos.
A execução pianística da era de ouro pouco se assemelhava à maior parte do que se ouve hoje nas salas de concerto.
Notas erradas
As principais diferenças, todas discutidas em detalhe por Hamilton, são: Os pianistas geralmente tratavam a partitura como um guia para a interpretação, mais que um conjunto definitivo de instruções. Muitos deles acrescentavam floreios não-escritos de diversos tipos às peças que tocavam.
Vladimir Horowitz, o último grande pianista clássico que tocou com essa liberdade textual, gravou versões de obras como a “Rapsódia Húngara nº 15″ de Liszt que se afastam da partitura de modo tão drástico que representam verdadeiras composições originais.
Os pianistas dessa era davam maior valor ao brilho e à espontaneidade do que à execução precisa e, conseqüentemente, vários deles tocavam muito mais notas erradas do que seria considerado aceitável pelos críticos e o público de hoje.
Os pianistas do século 19 não apenas tocavam de modo diferente dos de hoje como o estilo de suas apresentações públicas também diferia, e de maneira igualmente significativa.
O recital solo, como Hamilton nos lembra, foi inventado por Franz Liszt em 1840. Antes disso, os pianistas e outros instrumentistas apareciam em concertos de “variedades” que incluíam outros artistas.
Mesmo depois que Liszt foi (nas palavras dele) “ilimitadamente insolente” e começou a tocar programas que o apresentavam com exclusividade, o concerto de variedades continuou vigente. Somente no final do século 19 tornou-se a norma para os pianistas apresentarem-se sós, em vez de com artistas assistentes. Liszt, por exemplo, encorajava seus ouvintes a depositarem sugestões por escrito em uma urna localizada no saguão do teatro, cujo conteúdo ele examinava no palco e escolhia uma ou mais para tocar.
Grandes obras
Foi somente em meados do século 19 que os pianistas de concerto começaram a substituir as improvisações e paráfrases operísticas por obras de grande escala de outros compositores, e muitas vezes apresentavam só alguns movimentos, e não as obras completas.
Mas, mesmo então, a maioria dos pianistas recheava a segunda metade de seus programas com peças mais leves, que hoje provavelmente seriam apresentadas como bis -se tanto.
Para apresentar um repertório tão grande e variado, os pianistas do século 19 freqüentemente não tocavam de memória, mas olhando a partitura, prática que hoje é considerada amadorística.
Piano pop
Quanto às platéias do século 19, elas não se importavam em aplaudir não apenas entre movimentos, mas também para homenagear um trecho especialmente bem tocado no meio de uma peça. Na mesma linha, Liszt freqüentemente cumprimentava seus ouvintes no saguão e conversava com eles entre uma peça e outra.
“Um concerto na época”, diz Hamilton, “realmente era muito mais parecido com uma apresentação moderna de jazz ou de música pop do que a marcha às vezes incrivelmente frígida do repertório padrão que chamamos de recital”.
Escutar as gravações feitas por pianistas nascidos no século 19 é ser marcado por sua extrema individualidade, às vezes chegando ao limite da total excentricidade.
É um sabor musical poderoso -que alguns ouvintes de hoje, talvez não surpreendentemente, acham exagerado. Como escrevi sobre Vladimir de Pachmann: “Esses excessos eram considerados normais no século 19; de fato, foram, em um sentido muito real, a essência do romantismo”.
Esses excessos raramente são encontrados nas salas de concerto do século 21, onde as platéias se sentam em (relativo) silêncio e ouvem programas que consistem principalmente de apresentações de clássicos, as quais, comparadas às gravações de um Vladimir de Pachmann ou um Moriz Rosenthal, são decididamente a favor da sobriedade.
Mas com que objetivo? Hamilton, por exemplo, afirma ter escrito “Depois da Era de Ouro” devido a “uma profunda irritação com a pura rotina e o tédio fúnebre de alguns recitais a que assisti. (…) Quaisquer que fossem as desvantagens dos primeiros concertos românticos, geralmente eram mais informais e pareciam simplesmente muito mais divertidos, tanto para os intérpretes quanto para o público”.
É fácil simpatizar com essa afirmação, que se choca com a ortodoxia crítica que predominou na última metade do século 20. Aqui, por exemplo, o crítico Michael Steinberg discute Vladimir Horowitz: “Ele concebe a interpretação não como a reificação das idéias do compositor, mas como uma atividade essencialmente independente. (…) Horowitz ilustra o fato de que um dom instrumental notável não é garantia de entendimento musical”.
Significativamente, o comentário de Steinberg não foi feito em uma resenha de jornal, mas no artigo sobre Horowitz que escreveu para a edição de 1980 de “The New Grove Dictionary of Music and Musicians” [Novo Dicionário Grove de Música e Músicos, obra de referência em música erudita].
Não é necessário considerar Horowitz um modelo de virtude interpretativa para entender a tese de Hamilton e sentir-se insatisfeito com a freqüente mornidão do “estilo internacional” que veio a dominar a execução clássica depois da Segunda Guerra Mundial. De fato, em uma rebelião parcial e bem-vinda contra a norma prevalente, diversos jovens pianistas, incluindo Marc-André Hamelin e Stephen Hough, hoje tocam um repertório que vai de peças de bis do século 19 a concertos do século 21, de uma maneira que leva em conta tanto a prática de apresentação da era de ouro como o estilo internacional.
Mais diversão
Poderíamos também lucrar ao adotar uma visão mais fria da formalidade social que continua moldando a experiência de assistir a concertos? Mais uma vez, Hamilton pensa que sim. “Um pouco menos de reverência e um pouco mais de diversão não nos fariam mal hoje”, escreve.
Concordo mais uma vez -até certo ponto. Eu não gostaria de viver em um mundo despido da alta seriedade que permitiu a um pianista como Artur Schnabel [1882-1951] dedicar a última parte de sua vida a tocar apenas Mozart, Beethoven e Schubert.
Mas também não gostaria de ver a honorável instituição do concerto clássico transformada em (digamos) contrapartida intelectual dos “reality shows”.
Ao mesmo tempo, porém, eu não gostaria de viver em um mundo musical que consistisse somente em Schnabels. É possível admirar Schnabel e Horowitz, Dinu Lipatti e Rosenthal, Murray Perahia e Glenn Gould.
Os que pensam de outro modo correm o risco de serem vítimas do convencionalismo que anestesia a alma e exaure a vida da arte.
Dietrich Fischer-Dieskau, barítono
Gerald Moore, piano
London, May 14, 1959
Luciano Pavarotti canta Ave Maria de Schubert na Basílica Notre-Dame de Montreal em 1975.
Não consigo reter minhas lágrimas