03/05/2009 - 13:28h EUA vivem grande onda de estatização

http://www.brianbeutler.com/AIG.jpghttp://osmoothie.com/wp-content/uploads/2009/02/citigroup630.jpg

Depois de bancos e seguradora, governo deve entrar em montadoras

Patrícia Campos Mello – O Estado SP

Em pouco mais de seis meses, o governo dos Estados Unidos se tornou sócio de duas empresas de hipoteca, a Fannie Mae e a Freddie Mac, uma seguradora, a AIG, vários bancos e em breve deve ter participação em duas montadoras, Chrysler e General Motors. O presidente Barack Obama afirma que o objetivo do maior país capitalista do mundo não é estatizar e administrar empresas privadas.

“Somos acionistas que querem sair. Não quero administrar montadoras ou bancos. Já tenho duas guerras para administrar. É o suficiente”, disse,durante entrevista na semana passada. “Assim que a situação se estabilizar e a economia estiver menos frágil, vamos sair e achar investidores privados.”

Mas economistas à esquerda e à direita acreditam que será bem complicado o governo se desembaraçar de suas participações acionárias. Segundo eles, o país deve manter seu título de “Estados Socialistas da América” por um bom tempo.

“É como na guerra do Iraque: eles entraram, mas não têm uma estratégia de saída”, compara William Shughart II, professor de Economia da Universidade do Mississippi e pesquisador do Independent Institute, entidade que apoia o livre mercado. “Suponho que o governo queira ter algum retorno sobre esse dinheiro que pôs nas empresas e, para isso, essas companhias precisam sair do vermelho, o que vai demorar muito tempo”, diz. “Se o governo sair muito rápido, o contribuinte vai arcar com enorme prejuízo.”

Dean Baker, codiretor do Center for Economic and Policy Research, entidade de esquerda, concorda. “O governo vai ter de manter essas participações nas empresas, no mínimo, até 2011, 2012.”

O pior é que, para o contribuinte, se trata de um péssimo negócio. “Se o governo fosse o administrador da minha carteira, já estava despedido. Imagine investir em GM, Chrysler, Bank of America e Citibank”, diz Sydney Finkelstein, professor de administração no Dartmouth College e autor do livro Pense de novo: porque bons líderes tomam decisões erradas.

O maior desafio a partir de agora é conciliar os interesses como acionista – o maior lucro possível para a companhia – e como governo – pode ser aumentar o emprego, o crédito e outros. “O governo pode se focar em resultados políticos em vez de lucro”, diz Baker. “Por exemplo, a Casa Branca pode decidir que a GM e a Chrysler devem se concentrar na produção de carros elétricos, mesmo que isso não dê lucro no curto prazo, porque ajudaria na redução da emissão de poluentes, um grande objetivo de Obama.”

Apesar de dizer que não quer administrar as empresas ou influenciar no dia a dia das operações, a Casa Branca já está imprimindo sua marca nas companhias. Para começar, defenestrou Rick Wagoner, ex-presidente da GM.

Estabeleceu limites de remuneração após os escândalos dos bônus na AIG e está fazendo o mesmo na Fannie Mae e Freddie Mac. O governo comprometeu US$ 400 bilhões com essas duas empresas – e quer ter certeza de que estão cumprindo sua função “social” de reativar o mercado imobiliário com financiamentos de juros mais baixos, ainda que essa não seja a melhor opção em termos de rentabilidade. As companhias já advertiram que isso vai afetar seus resultados.

Em última instância, o governo está recompensando quem mais errou. A Ford, por exemplo, será vítima de competição desleal da Chrysler e da GM. A Ford não recebeu injeção de recursos do governo porque não estava tão mal quanto as outras duas grandes de Detroit. Agora, o governo está subsidiando seus concorrentes. “É como se fosse um imposto implícito sobre a Ford”, diz Dan Ikenson, diretor associado do Cato, instituto libertário. Ikenson, como outros conservadores, está preocupado com a “guinada socialista do governo”.

Hoje em dia, diz Ikenson, somando-se os US$ 700 bilhões do plano de resgate aos bancos (o Tarp, de onde saiu boa parte das injeções de capital no sistema bancário), o pacote de estímulo de cerca de US$ 787 bilhões e o orçamento de US$ 3,5 trilhões, o governo está como investidor ou garantidor de cerca de US$ 5 trilhões – mais de um terço da economia americana, cujo PIB é de US$ 14 trilhões.

Na opinião de conservadores, o governo deveria ter deixado várias empresas e bancos quebrarem, como parte da chamada destruição criativa do livre mercado, em vez de manter companhias zumbis que vão atrasar a recuperação da economia. Para economistas de esquerda e para a Casa Branca, Obama não tinha opção. Era arriscado demais deixar empresas ou bancos quebrarem – e isso ficou claro após o contágio causado pela quebra do banco Lehman Brothers.

Além do mais, perder milhares de empregos na maior crise desde 1930 não seria politicamente sustentável. “O governo Obama está assumindo o controle das empresas porque a alternativa seria um desastre para a economia”, diz Baker.

O problema, para alguns, é a moda pegar. “A Casa Branca abriu a porteira e agora vem aí a boiada”, afirma Shughart. “O governo federal perdeu a credibilidade de dizer que não vai mais resgatar ninguém. Estão fazendo fila para pedir dinheiro, as empresas de autopeças são as próximas”, avalia.

01/03/2009 - 11:09h Novo Orçamento americano enterra a era conservadora

Ideia central é reverter rápido crescimento da desigualdade iniciado nos anos 80 com Reagan

Com plano, Obama quer reescrever código tributário e tentar sanar parte das causas do desaquecimento da renda da classe média

http://www1.pictures.gi.zimbio.com/Barack+Obama+Campaigns+Mississippi+Ahead+State+6UBC3SH_P1Ul.jpg

DAVID LEONHARDT DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON – FOLHA SP

O Orçamento que Barack Obama propôs na última quinta aos EUA não é nada menos que uma tentativa de pôr fim a três décadas de política econômica dominada pelas ideias de Ronald Reagan e seguidores.

A proposta de Obama -uma mudança radical em relação à história recente- prevê forte elevação dos impostos sobre os ricos, para além do patamar para o qual Bill Clinton os elevara. E reduz os impostos sobre o resto da população para menos do que estavam sob Clinton e George W. Bush. O Orçamento ainda deita as bases para mudanças amplas na saúde e na educação, entre outras áreas.

Mais que qualquer outra coisa, a ideia é reverter o crescimento rápido da desigualdade econômica verificado nos últimos 30 anos. Isso deve ser feito, primeiro ao reescrever o código tributário e, no longo prazo, ao tentar resolver algumas das causas do desaquecimento da renda da classe média, como os altos custos médicos e a queda nos ganhos educacionais.

Depois de Obama ter passado boa parte de suas primeiras cinco semanas na Presidência tratando da crise financeira, seu Orçamento traz de volta para a mesa as prioridades nas quais ele baseou sua campanha.

Seus esforços vão aumentar um déficit já inchado pelas políticas de Bush e a recessão, criando o maior déficit desde a Segunda Guerra. Eliminá-lo vai exigir escolhas difíceis -como cortes extras de gastos e aumentos nos impostos- que Obama evitou tratar por ora.

Apesar disso, ele fez escolhas. Buscou eliminar subsídios corporativos que os economistas criticam há muito tempo, pagos a seguradoras de saúde, bancos e empresas agrícolas. Propôs taxar a emissão de carbono, para desacelerar o aquecimento global, e depois refinanciar a maior parte da receita obtida com esse programa, por meio de cortes amplos nos impostos.

Pediu cerca de US$ 100 bilhões por ano em aumentos dos tributos sobre os ricos -em sua maioria adiados até 2011, quando se presume que a recessão terá terminado- e US$ 50 bilhões por ano em cortes líquidos para os não-ricos.

Há ainda muitas perguntas em aberto sobre a proposta, a começar pelas chances de o Congresso aprová-las. Os planos para saúde e educação também esbarram em resistência, e, se a economia continuar fraca até 2010, os republicanos no Congresso vão tentar atribuir a culpa por isso ao aumento dos impostos para os ricos.

Aconteça o que acontecer, porém, faz muito tempo que nenhum presidente tentava usar seu Orçamento para moldar o governo e a economia tanto quanto Obama tentou. Nesse ponto, ele e Ronald Reagan têm algo em comum.

27/02/2009 - 11:29h Dilma vai pedir a Estados apoio a plano habitacional

Ministra da Casa Civil vai reunir os governadores de SP, MG, RJ e PR na terça-feira e sugerir redução do ICMS sobre os materiais de construção

construcao1.jpg

Lu Aiko Otta, BRASÍLIA – O Estado SP

As medidas de estímulo à construção civil deverão ser apresentadas na próxima terça-feira aos governadores de São Paulo, Minas Gerais, do Paraná e do Rio de Janeiro. Na reunião, a ser capitaneada pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, o governo pedirá a colaboração dos Estados para dar maior alcance às medidas.

Dilma deverá sugerir aos governadores, por exemplo, que reduzam o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) – o principal tributo estadual – sobre o material de construção. O mesmo pedido foi feito na semana passada a um grupo de governadores do Nordeste. Eles se disseram dispostos a colaborar.

A ministra foi orientada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a fazer os últimos ajustes no pacote da habitação após a conversa com os governadores. Assim, é possível que na semana que vem as medidas sejam, finalmente, anunciadas. O ponto central do pacote é a meta de contratar a construção de 1 milhão de moradias até 2010. Para a classe média, a principal medida deverá ser a elevação, de R$ 350 mil para R$ 500 mil, do valor do imóvel que pode ser pago usando recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Nas últimas semanas, os técnicos concentraram esforços para encontrar uma forma de baratear o seguro do financiamento habitacional, que cobre morte ou invalidez do mutuário ou danos, permanentes ao imóvel. Estudos preliminares mostram que o seguro chega a 40% da prestação.

Entre as alternativas examinadas estava a concessão de um subsídio com recursos do Tesouro Nacional ou a reativação de um fundo, existente no Ministério da Fazenda, para atuar como seguradora. Pressionada, a Caixa já informou o Planalto que encontrou formas de reduzir significativamente o valor do seguro.

DESONERAÇÕES

Outro ponto ainda em discussão é o tamanho das desonerações tributárias envolvidas no pacote. Existe a hipótese de reduzir a zero o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) do material de construção. Nesse caso, o governo federal deixaria de arrecadar R$ 1 bilhão por ano. Há uma corrente defendendo que o corte do imposto para zero não seja para todos os itens.

Há dúvidas também sobre a redução de 7% para 6%, da tributação incidente sobre o patrimônio afetado das construtoras. Trata-se de um sistema de tributação no qual a incorporadora faz uma contabilidade separada para cada empreendimento e, ao final, recolhe uma alíquota única a título de tributos federais. Se a redução fosse adotada, a perda de arrecadação seria da ordem de R$ 150 milhões. Porém, se a alíquota cair, um número maior de empresas pode optar por esse sistema, elevando a conta da renúncia fiscal.

O corte nos tributos federais fica mais difícil diante da queda de 7,26% na arrecadação em janeiro ante janeiro de 2008. Há indicações que, em fevereiro, também haverá queda na arrecadação.


NÚMEROS

R$ 500 mil
é o valor do imóvel que poderá vir a ser pago com recursos do FGTS.

R$ 350 mil
é o valor do imóvel que hoje pode usar o Fundo

11/02/2009 - 10:14h Por que o plano de Obama fracassará

Martin Wolf – Financial Times – VALOR

Será que a presidência de Barack Obama já fracassou? Em tempos normais, esta seria uma pergunta ridícula. Mas estes não são tempos normais. São tempos de grande perigo. Hoje, o novo governo dos Estados Unidos pode repudiar a responsabilidade por sua herança; amanhã, a responsabilidade será sua. Hoje, pode oferecer soluções; amanhã, terão se tornado o problema. Hoje, está sob controle dos eventos; amanhã, os eventos tomarão seu controle. Fazer pouco agora é muito mais arriscado do que fazer em excesso. Se ele falhar em agir de forma decisiva, o presidente corre o risco de ser sobrepujado, assim como seu antecessor. Os custos para os Estados Unidos e o mundo de outra presidência fracassada não podem nem ser contemplados.

O que é preciso? A resposta é: foco e ferocidade. Se Obama não resolver esta crise, tudo o que ele espera de sua presidência estará perdido. Se a resolver, poderá remodelar sua agenda. Esperar pelo melhor é tolice. Ele deveria esperar pelo pior e agir de forma correspondente.

Esperar pelo melhor, no entanto, é que se vê no programa de estímulo e – pelo que pude julgar até agora do anúncio incompleto, de ontem, do secretário do Tesouro, Tim Geithner – nos novos planos para reparar o sistema bancário. Comentei sobre o primeiro na semana passada. Somente acrescentaria que é extraordinário um presidente novo e popular, enfrentando uma crise econômica das que aparecem a cada 80 anos, ter deixado o Congresso modelar o resultado.

O programa bancário parece ser mais um irmão das intervenções fracassadas do último ano e meio. A credibilidade de Obama estará arruinada se esta “prole do programa governamental de recuperação de ativos problemáticos” (Tarp, na sigla em inglês) falhar. Agora é o momento para ações que pareçam estar próximas da certeza de se resolver o problema; estas, contudo, não parecem ser assim.

Desde o começo, sustentaram-se duas visões contrastantes sobre o que aflige o sistema financeiro. A primeira, é que se trata essencialmente de um caso de pânico. A segunda, é que este é um problema de insolvência.

Pela primeira visão, os preços de um conjunto definido de “ativos tóxicos” foram empurrados para baixo de seu valor de longo prazo e, em alguns casos, tornaram-se impossíveis de vender. A solução, segundo muitos sugerem, é que os governos criem um mercado, comprem ativos ou segurem os bancos contra perdas. Esta foi a lógica por trás do Tarp original e do “super-SIV” (veículo de investimento estruturado, em inglês) proposto pelo secretário do Tesouro anterior, Henry (Hank) Paulson, em 2007.

Pela segunda visão, uma proporção considerável das instituições financeiras está insolvente: seus ativos valem, sob suposições plausíveis, menos do que seus passivos. O FMI argumenta que as possíveis perdas apenas com ativos de créditos originados nos EUA agora estão em US$ 2,2 trilhões, acima do US$ 1,4 trilhão estimado em outubro. É algo quase idêntico às estimativas mais recentes do Goldman Sachs. Em comentários recentes no “Financial Times”, Nouriel Roubini, da RGE Monitor, e a Stern School of New York University estimam que o pico das perdas com ativos gerados nos EUA poderia ser de US$ 3,6 trilhões. Felizmente para os EUA, metade dessas perdas recairá no exterior. O resto do mundo, no entanto, contra-atacará: à medida que a economia mundial implodir, as imensas perdas no exterior – em dívidas soberanas, imobiliárias e empresariais – certamente também recairão sobre instituições dos EUA, com efeitos nefastos.

Pessoalmente, tenho poucas dúvidas de que a segunda visão é a correta e, à medida que a economia mundial se deteriora, ficará cada vez mais claro. Mas este não é o cerne da questão. O cerne é se, na presença de tais incertezas, é correto basear a política esperando pelo melhor. A resposta é clara: autoridades de política monetária precisam supor o pior. Caso a opção revele ter sido pessimista demais, acaba-se ficando com um sistema financeiro excessivamente capitalizado. Caso a opção otimista revele-se errada, ficamos com bancos zumbis e um governo desacreditado. Esta opção certamente não requer muito para se pensar.

O novo plano pareceria fazer sentido apenas se o principal problema fosse a iliquidez. Oferecer garantias e comprar uma parte dos ativos tóxicos, enquanto se limita a injeção de novo capital a menos do que os US$ 350 bilhões restantes no Tarp, não é suficiente para lidar com o problema de insolvência identificado pelos observadores mais informados. Na verdade, qualquer programa de garantias ou de compra de ativos tóxicos acaba sendo uma forma sem efeito, pouco eficiente e injusta de resgatar instituições financeiras mal capitalizadas: sem efeito, porque o governo precisa comprar vastos volumes de ativos duvidosos a preços excessivos ou fornecer garantias generosas demais, para fazer com que bancos insolventes fiquem solventes; ineficiente, porque grandes injeções de capital ou a conversão de dívidas em patrimônio são formas melhores de recapitalizar os bancos; e injusta, porque grandes subsídios iriam para instituições falidas e compradores privados de ativos problemáticos.

Então, por que o governo está fazendo o que parece ser um erro crasso? Pode ser que esteja esperando pelo melhor. Mas também parece estar fazendo-se a pergunta errada. Não se perguntou o que precisa ser feito para se ter a certeza de que haverá uma solução. Em vez disso, perguntou-se o que pode fazer de melhor sob três condições, arbitrárias e autoimpostas: nada de estatização; nada de perdas para os detentores de bônus; e nenhum dinheiro a mais do Congresso. Por que o novo governo, confrontado com uma crise gigantesca, não tenta mudar os termos do debate? Essa timidez é deprimente. Tentar compensar este erro impondo condições enganosas sobre as instituições resgatadas tem mais chances de complicar o erro do que reduzi-lo.

Presuma-se que o problema seja a insolvência e que o valor de mercado modesto dos bancos comerciais dos Estados Unidos (US$ 400 bilhões) sustente-se apenas no apoio do governo. Presuma-se, também, que seja impossível levantar grandes volumes de capital privado atualmente. Então, é preciso haver uma recapitalização de uma das duas formas indicadas acima. Ambas têm suas desvantagens: a recapitalização pelo governo é um resgate de credores e envolve a administração temporária pelo governo; as trocas de dívida por patrimônio prejudicariam os mercados de bônus, seguradoras e fundos de pensão. A opção, contudo, é inescapável.

Se Geithner ou Lawrence Summers, diretor do conselho econômico nacional, estivessem assessorando os EUA como o fariam com um país estrangeiro, destacariam isso, de forma brutal. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse o mesmo, de uma forma bem suave, na Malásia, no sábado.

O conselho correto continua sendo o que os EUA deram aos japoneses e outros países durante os anos 90: admitam a realidade, reestruturem os bancos e, acima de tudo, exterminem as instituições zumbis de uma vez por todas. Também é uma questão importante, mas secundária, se a resposta correta seria criar novos “bancos bons”, deixando os “bancos ruins” velhos para perecer, como meu colega Willem Buiter recomenda, ou criar novos “bancos ruins”, deixando os velhos bancos purificados para sobreviver. Também estou inclinado para o primeiro, porque a cultura dos bancos velhos continua a parecer muito tóxica.

Ao perguntar-se a questão equivocada, Obama está fazendo uma grande aposta. Ele deveria ter resolvido limpar os currais augianos dos bancos. Ele precisa reconsiderar, se já não for tarde demais.

Martin Wolf é colunista do “Financial Times”.

20/01/2009 - 12:31h Economistas e analistas da “Conferência Risco País da Coface” são unanimes: o Brasil está se saindo relativamente bem em meio ao furacão

Para analistas, o Brasil é o menos afetado dos Bric

brasil_olho.jpg

Cristiane Perini Lucchesi, de Paris – VALOR

O grupo dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), que reúne algumas das maiores economias dos países emergentes, foi atingido pela crise de crédito com força após a quebra da Lehman Brothers, em meados de setembro do ano passado. O Brasil, no entanto, está se saindo relativamente bem em meio ao furacão, segundo opinião unânime dos analistas e economistas presentes à Conferência de Risco País da Coface 2009.

A seguradora de risco de crédito corporativo colocou em observação para possível rebaixamento a classificação de risco de crédito da China, que é “A3″, informou Yves Zlotowski, economista-chefe da Coface. A Rússia, que tem nota “B”, também acaba de ser incluída na mesma categoria, de acordo com Zlotowski. Já o Brasil, de nota “A4″, um degrau abaixo da nota chinesa e um degrau acima da russa, não sofreu qualquer alteração. Desde o início da crise do “subprime” a Coface não alterou sua nota para o Brasil.

Segundo Zlotowski, de uma forma geral os Bric não têm déficit em conta corrente preocupante – diferentemente dos países bálticos e do Leste Europeu -, têm reservas internacionais de sobra e o déficit público está sob controle. O problema na China, no seu entender, é o baixo nível de transparência de suas empresas. Já na Rússia, o grande endividamento externo de suas empresas está “explodindo” com a desvalorização cambial dos últimos meses.

No Brasil, segundo ele, a dívida externa das empresas foi reduzida e alongada depois do susto de 2002, e representa menos em relação ao total. Além disso, o sistema bancário tem mostrado extrema “resiliência à crise”, afirma. A pauta de exportação brasileira é mais diversificada e as vendas são para um grande número de parceiros comerciais. Diferentemente do México, que tem quase 80% de suas exportações destinadas aos Estados Unidos e acaba de ter sua nota reduzida de “A3″ para “A4″ pela Coface.

Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI, acredita no aumento da probabilidade de moratória de países mais vulneráveis, que vão precisar da ajuda do Fundo Monetário Internacional, como a Hungria, Turquia, Romênia e países bálticos. A queda na arrecadação fiscal com o crescimento menor vai tornar mais difícil o pagamento da dívida para esses países, diz.

Para Rogoff, o Brasil e a Índia são dois países que estão se saindo melhor em meio à crise, mesmo considerando-se os países desenvolvidos. Ele projeta crescimento de 1% a 2% para o Brasil neste ano. “O Brasil parece estar em melhor forma do que os outros Bric”, concorda Alicia Garcia Herrero, economista-chefe para os mercados emergentes do BBVA de Hong Kong. Ela lembra que as reservas internacionais são suficientes para cobrir toda a dívida externa pública do país e que a depreciação cambial ajuda neste momento a reduzir a dívida líquida do setor público. Além disso, as altas taxas de juros e os níveis ainda elevados de depósito compulsório permitem estímulos monetários importantes ao crescimento. Ela lembrou, no entanto, que ninguém mais fala em descolamento.

Olivier de Boysson, economista-chefe para pesquisa de mercados emergentes do Société Générale, também vê os países do Centro e Leste da Europa como os mais vulneráveis.

“Os mercados emergentes vinham muito bem até bem recentemente, mas hoje estão sofrendo com a queda nos preços do petróleo e das commodities”, disse Rogoff, que prevê um crescimento de 6% para a China neste ano, em comparação com os 8% de Alicia Herrero. Rogoff lembra que os emergentes sofrem também com a falta de crédito para as empresas pequenas e médias nos países ricos, que compram os produtos desses países e estão ficando sem crédito. “Isso afeta suas exportações”, diz.

Para o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, os países emergentes serão os primeiros a voltar a crescer com mais força em 2010, puxando o crescimento econômico mundial.

13/01/2009 - 12:44h Ideias para Obama

Paul Krugman*, The New York Times – O Estado SP

krugman1.jpgNa semana passada, o presidente eleito, Barack Obama, respondeu aos críticos do seu plano, que acham que não vai ajudar a economia. Obama disse querer ouvir opiniões sobre “como desembolsar dinheiro de modo eficiente e efetivo para relançar a economia”. Ok, darei a minha – embora, como explicarei rapidamente, a metáfora do “relançar a economia” seja parte do problema.

Em primeiro lugar, Obama deve jogar no lixo a proposta de cortar US$ 150 bilhões em impostos de empresas, o que vai ajudar muito pouco a economia. Teoricamente, ele estaria descartando reduzir impostos nas folhas de pagamento, embora eu saiba que foi promessa de campanha.

http://www.kpcinema.com/timrocks/images/barack-obama-caricature.gifO dinheiro não desperdiçado em cortes de impostos inúteis pode dar um pouco mais de alívio aos americanos em dificuldade – aumentando benefícios a desempregados, expandindo o Medicaid e mais. E por que não começar já com os subsídios às seguradoras – talvez de US$ 100 bilhões ou mais por ano -, que serão essenciais se chegarmos à assistência médica universal? E, sobretudo, Obama precisa ampliar o plano. Para saber por que, considere o novo relatório da própria equipe econômica do presidente eleito.

No sábado, Christina Romer, futura chefe do Conselho de Assessores Econômicos, e Jared Bernstein, chefe da equipe de economistas que vai assessorar o vice-presidente, apresentaram seus cálculos. É um estudo sensato e intelectualmente honesto, mudança bem-vinda após da matemática confusa dos últimos oito anos. Mas o relatório também mostrou que o plano está muito aquém do que a economia necessita.

Para os autores, o plano de Obama terá impacto máximo no quarto trimestre de 2010. Sem o plano, o desemprego nesse semestre teria atingido a cifra catastrófica de 8,8%. Contudo, mesmo com o plano, estaria em 7%, nível próximo do atual.

Depois de 2010, segundo o estudo, os efeitos desse plano rapidamente enfraqueceriam. O trabalho de promover a recuperação total da economia, contudo, ficaria incompleto; no último trimestre de 2011, o desemprego ainda estaria em 6,3%.

Mas a previsão econômica é uma ciência inexata, para dizer o mínimo, e as coisas podem ser melhores do que relatórios preveem. Mas também pode haver uma piora. No próprio relatório se admite que “alguns especialistas em previsões econômicas antecipam taxas de desemprego de até 11%, na falta de uma ação”. E eu concordo com Lawrence Summers, outro membro da equipe de Obama, quando declarou recentemente que “nesta crise, a ameaça maior é fazer muito pouco em vez de fazer em demasia”. Infelizmente, esse princípio não se refletiu no plano apresentado.

Então, como Obama pode fazer mais? Incluindo muito mais investimento público no seu plano – o que vai ser possível se a perspectiva for mais ampla.

Em seu relatório, Romer e Bernstein reconhecem que “um dólar em infraestrutura é mais eficaz na criação de empregos do que um dólar aplicado em redução de imposto”. Mas afirmam que “há limite no quanto o investimento governamental pode ser aplicado eficazmente num curto espaço de tempo”.

Mas por que esse espaço de tempo tem de ser curto? Até onde sei, os assessores de Obama se concentraram em projetos que possam dar maior impulso à criação de empregos nos próximos dois anos. Mas, como o desemprego deve permanecer num nível alto além desses dois anos, esse plano deveria abranger também projetos de investimento com prazo mais longo.

E você deve ter em mente que, apesar de o projeto ter seu máximo efeito em, digamos, 2011, ele pode dar suporte econômico importante em anos anteriores. Contudo, Obama não deveria esperar até que se comprove que um plano de prazo mais longo é necessário? Não. Neste exato momento, a parte do plano de investimento está limitada pela escassez de projetos que podem ser implementados rapidamente. E mais investimentos são previstos para 2010 e 2011, se Obama der o sinal verde já. Mas, se ele esperar muito tempo para decidir, a oportunidade será perdida.

E mais uma coisa: mesmo com a implantação do plano Obama, o relatório de Romer e Bernstein prevê uma média de desemprego de 7,3% nos próximos três anos. Um índice assustador, alto o bastante para se tornar um verdadeiro risco de a economia americana se ver também presa na armadilha deflacionária, como o Japão.

Portanto, meu conselho para a equipe Obama é riscar do plano os cortes de impostos para as empresas e, mais importante, procurar eliminar a ameaça de realizar muito pouco, fazendo mais. E o caminho para fazer mais é deixar de falar em relançar a economia e considerar mais as possibilidades de investimentos pelo governo.

*O autor é Prêmio Nobel de Economia

26/11/2008 - 15:46h Novas medidas de socorro mudam o papel do banco central dos EUA

http://eldib.files.wordpress.com/2008/03/usa-dees.jpg

Jon Hilsenrath e Deborah Solomon, The Wall Street Journal – VALOR

O governo dos Estados Unidos se comprometeu a injetar mais US$ 800 bilhões nos conturbados mercados de crédito, sendo que desta vez a maior parte do dinheiro virá diretamente do banco central, o Federal Reserve, que assim passa a ser um agente financeiro em quase todos os cantos da vida americana.

Nos próximos meses, o Fed vai comprar até US$ 600 bilhões em dívida emitida ou garantida por empresas de crédito imobiliário com fortes laços com o governo: Fannie Mae, Freddie Mac, Ginnie Mae e Federal Home Loan. As autoridades esperam que isso derrube os juros das hipotecas e ajude o setor imobiliário. Além disso, o Fed, com apoio do Tesouro, que é o Ministério da Fazenda nos EUA, vai oferecer até US$ 200 bilhões em financiamento para investidores para que possam comprar títulos de dívida atados a créditos estudantis, automobilísticos e de cartões e a empréstimos para pequenas empresas.

Essas ações também representam novos passos dados pelo governo de George W. Bush para resolver a crise financeira no fim de seu mandato, e chegam poucos dias depois de o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ter sugerido que poderia adiar o comprometimento de mais verbas oriundas do programa de US$ 700 bilhões para alívio de ativos problemáticos, o Tarp, aprovado pelo Congresso em outubro. Os mercados pioraram nos últimos dias, em parte devido a incertezas quanto aos planos do governo.

Paulson disse que as medidas visavam a aumentar a disponibilidade de financiamento para o consumo e aquisição de casa própria. “Nada é mais importante para sair desta correção do mercado imobiliário do que a disponibilidade de financiamento hipotecário acessível”, disse ele. Paulson acrescentou que o mercado para papéis lastreados por dívida de consumidores “paralisou” no mês passado, tornando quase impossível para milhões de americanos encontrar juros palatáveis para financiar desde computadores até cursos universitários.

Esses mercados pioraram bastante nas últimas semanas. No fim da semana passada, por exemplo, a dívida emitida pela Fannie Mae tinha juros 1,8 ponto porcentual acima dos de títulos do Tesouro de igual prazo. Essa diferença era de apenas 0,7 ponto porcentual em setembro, logo depois de o governo ter assumido controle da gigante hipotecária e sua co-irmã, a Freddie Mac.

Conforme aumentava o custo para a Fannie e a Freddie se financiarem, os juros de hipotecas também subiam. Investidores festejaram o novo plano, e as taxas de crédito imobiliário caíram cerca de meio ponto porcentual ontem, após as notícias, algo que pode ajudar quem quer refinanciar sua casa ou comprar uma.

“Isso vai liberar consumo que de outra forma não ocorreria”, disse Susan Wachter, professora de mercado imobiliário da faculdade de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia. “Vai aumentar diretamente a demanda por casas e ajudar com o problema da queda constante dos preços de imóveis.”

O custo de crédito imobiliário tem subido nos EUA em parte porque investidores de outros países, especialmente bancos centrais, recuaram recentemente devido, em parte, a temores quanto ao mercado americano de casas e à ambigüidade do governo. A Fannie e a Freddie também tiveram limitada sua capacidade de comprar títulos lastreados por hipotecas.

Nos últimos meses, o Fed já disponibilizou suas linhas de crédito para corretoras e empresas não-financeiras. E até anunciou planos de começar a comprar alguns dos complexos títulos de dívida que estão no centro da crise financeira – instrumentos conhecidos como obrigações de dívida garantida (CDO, na sigla em inglês) – através de seu resgate da gigante seguradora American Internacional Group Inc.

Conforme o Fed expandia sua atividade de financiamento, seu balanço inflou de US$ 900 bilhões em agosto para mais de US$ 2 trilhões. Com os novos programas, deve ficar ainda maior. O Fed, ao contrário do Tesouro, não precisa tomar emprestado para financiar seus programas de resgate. Um banco central pode na prática criar dinheiro novo injetando recursos – também conhecidos como reservas – no sistema bancário, algo que o Fed está fazendo agora.

É algo parecido com o que o Japão fez nos anos 90 e também nesta década, quando o Banco do Japão injetou dinheiro nos bancos do país num processo conhecido como “afrouxamento monetário quantitativo”. O Fed está levando esse processo um passo à frente. Ele não está apenas injetando dinheiro, mas também decidindo para onde esse dinheiro deve ir por meio de seus próprios programas de financiamento.

“O Fed está indo mercado a mercado, dizendo: ‘Onde o crédito está entupido?’ e tentando lidar com isso de maneira direta”, disse Laurence Meyer, ex-diretor do Fed e hoje vice-presidente da consultoria econômica Macroeconomic Advisers.

Essa abordagem traz vários riscos. Os mercados podem se tornar dependentes do financiamento do Fed, o que pode retardar uma recuperação. Diretores do Fed estão preocupados com a maneira como poderiam sair dessas linhas de crédito, mas acham que isso é um problema que terão de enfrentar só depois que a crise passar, algo que ainda vêem como um futuro distante.

No âmago, a abordagem do Fed – somada ao volumoso estímulo fiscal planejado pelo futuro governo de Barack Obama – também é inflacionária. Mas dados os problemas em formação na economia americana no momento, como alta do desemprego e queda do consumo, as autoridades do Fed não vêem na inflação um risco iminente.

Há outros riscos – especialmente o de nada dar certo e mais dinheiro se tornar necessário. Além do mais, o Fed poderia ter perdas em todos os empréstimos que conceder, especialmente com a economia tão frágil. O banco central está tomando precauções. Por exemplo, o Tesouro aceitou assumir os primeiros US$ 20 bilhões em perdas da nova linha de crédito de US$ 200 bilhões para financiamento de carros, crédito imobiliário e outros empréstimos para consumo.

Pela estrutura dessa linha de crédito, o banco central vai emprestar dinheiro a investidores – por meio de bancos conhecidos como “dealers” – e os investidores, por sua vez, podem usar o dinheiro para comprar títulos de dívida de alto nível atrelados a crédito ao consumidor. Se a inadimplência de consumidores subir bastante e esses títulos ficarem em atraso, a conta vai cair no colo do Fed e do Tesouro.

O programa de crédito imobiliário é mais direto. A partir da próxima semana, o Fed vai começar a comprar US$ 100 bilhões em dívida emitida pela Fannie Mae, Freddie Mac e outras empresas patrocinadas pelo governo. Ele também planeja comprar US$ 500 bilhões em dívida lastreada por hipotecas que essas firmas avalizam.

O Fed espera aumentar a cotação da dívida com suas compras, o que reduziria o rendimento dela e, teoricamente, os juros de hipotecas.

Com o novo plano, o Tesouro na prática comprometeu US$ 330 bilhões dos US$ 700 bilhões do programa de resgate. Ele precisa de autorização do Congresso para ir além de US$ 350 bilhões.

(Colaboraram Serena Ng e James R. Hagerty)

25/11/2008 - 14:47h Anatomia do pânico com o Morgan Stanley

http://arcade.ya.com/xvtedicion/bin/piratas.jpg

 

 

Susan Pulliam, Liz Rappaport, Aaron Lucchetti, Jenny Strasburg e Tom McGinty, The Wall Street Journal – VALOR

Dois dias depois que a Lehman Brothers Holdings pediu concordata, espalhou-se um boato explosivo: outra grande firma de Wall Street, o Morgan Stanley, estava prestes a quebrar. O que se dizia no mercado naquele 17 de setembro é que o Deutsche Bank AG tinha cancelado uma linha de crédito de US$ 25 bilhões para o banco de investimento.

Não era verdade, mas o boato ajudou a desencadear uma cascata de apostas contra o Morgan Stanley. O diretor-presidente John Mack queixou-se amargamente de que operadores desejosos de lucros estavam semeando o pânico. Mas faltava uma informação essencial: quem, exatamente, estava por trás dessas transações?

Registros de transações examinados pelo Wall Street Journal oferecem agora uma resposta parcial. Esses documentos revelam que algumas das maiores firmas de Wall Street – Merrill Lynch & Co., Citigroup Inc., Deutsche Bank e UBS AG – estavam apostando pesado contra o Morgan. A estratégia dessas firmas era usar complicados instrumentos financeiros chamados swaps de crédito, uma forma de seguro contra perdas com crédito.

Um exame dessas transações feito pelo WSJ também revela que os swaps tiveram papel importante ao amplificar a avaliação pessimista do mercado sobre o Morgan Stanley, o que, por sua vez, levou os operadores a investir contra as ações da firma, vendendo-as a descoberto. A inter-relação entre as transações com swaps e a venda a descoberto acelerou a espiral descendente da firma.

Este relato foi elaborado a partir dos registros das transações e de mais de 70 entrevistas com executivos de Wall Street, operadores, corretores, administradores de fundos de hedge, investigadores e autoridade reguladoras.

Durante anos, a venda de swaps de crédito foi uma mina de ouro para Wall Street. Mas, por ironia, naqueles dias tumultuados de setembro, o mercado de swaps virou-se contra o Morgan Stanley como um Frankenstein financeiro. Esse mercado se tornou um termômetro bem visível do Pânico de 2008, insuflando a crise que acabou exigindo a intervenção do governo.

Outras firmas também estavam negociando com swaps do Morgan em 17 de setembro: Royal Bank of Canada, Swiss Re e vários fundos de hedge, como King Street Capital Management LLC e Owl Creek Asset Management LP.

A pressão também se intensificou em outra frente: houve um aumento nas vendas a descoberto – apostas contra as ações da Morgan – por parte de grandes fundos de hedge. No fim do dia, a ação do Morgan tinha caído 24%, e as autoridades temiam que investidores com práticas predatórias estavam mirando os bancos de investimento.

Esse tipo de transação, que já havia derrubado Bear Stearns Cos. e Lehman, fez com que as ações do Citigroup desabassem 60% na semana passada, o que forçou novo socorro do governo.

Os investigadores estão tentando identificar o que causou o caos do mercado em meados de setembro e saber se os swaps de crédito ou as ações do Morgan Stanley foram negociados de forma imprópria. O procurador-geral de Nova York, Andrew Cuomo, o escritório em Manhattan da Procuradoria-Geral dos Estados Unidos e a comissão de valores mobiliários americana (SEC) estão investigando se houve manipulação do mercado por parte de corretores que teriam divulgado intencionalmente falsos boatos para lucrar com suas apostas. As investigações também querem verificar se os operadores compraram swaps por altos preços para provocar o medo quanto à estabilidade do Morgan e assim lucrar em outras aplicações, e se as transações envolveram cotações falsas e fechamento de negócios inexistentes, segundo pessoas a par do assunto.

Ainda não surgiu publicamente nenhuma prova de que qualquer firma tenha feito algo de errado em relação às ações ou swaps do Morgan Stanley. A maior parte das firmas afirma que comprou os swaps simplesmente para se proteger contra eventuais prejuízos com vários tipos de negócios que estavam fazendo com o Morgan. Algumas garantem que suas aplicações em swaps foram pequenas em relação a todas as transações desse tipo ocorridas naquele dia.

Provar que o preço de qualquer papel foi manipulado é extraordinariamente difícil. O mercado de swaps não é nada transparente: as transações são feitas por telefone e email entre os corretores, sem cotações públicas.

Erik Sirri, um diretor de mercados da SEC, afirma que o mercado de swaps é vulnerável à manipulação. “Transações de baixo volume em um mercado relativamente pequeno podem ser usadas para (…) sugerir que um crédito é considerado fraco pelo mercado”, disse ele em depoimento ao Congresso americano no mês passado. Sirri disse que a SEC temia que as transações com swaps estivessem causando investimentos prejudiciais às ações.

O Morgan tinha começado setembro em boa forma. Teve lucro nos dois primeiros trimestres fiscais, até 31 de maio. Ao contrário da Lehman, não tinha muita exposição aos créditos imobiliários residenciais de alto risco, embora estivesse exposto ao mercado de imóveis comerciais e de empréstimos alavancados. Mack sabia que os lucros do terceiro trimestre seriam maiores do que o esperado.

Em 14 de setembro, enquanto a Lehman se preparava para pedir concordata, Mack disse aos funcionários, em memorando interno, que o Morgan estava “em uma posição única para ter sucesso neste ambiente tão cheio de desafios”. No dia seguinte, a firma conseguiu alguns novos clientes de fundos de hedge que estavam fugindo da Lehman.

Mas os rumores corriam soltos, com operadores preocupados com qual firma de Wall Street seria a próxima a cair. A conversa nos fundos de hedge, segundo alguns operadores, é que o Morgan Stanley tinha US$ 200 bilhões em risco devido às suas transações com a seguradora American International Group Inc., então prestes a pedir concordata. Isso não era verdade. O Morgan informou à SEC que sua exposição à AIG era “irrelevante”.

Alguns corretores do J.P. Morgan Chase & Co. estavam sugerindo a clientes do Morgan Stanley que era arriscado manter contas nessa firma, segundo pessoas a par do assunto. Mack queixou-se a James Dimon, diretor-presidente do J.P. Morgan, que pôs fim às conversas, segundo essas pessoas. Deutsche Bank, UBS e Credit Suisse também ofereceram seus serviços a fundos de hedge atendidos pelo Morgan, segundo pessoas a par do assunto.

No dia 16, a ação do Morgan desabou durante o dia, mas com uma recuperação no final do pregão. Alguns fundos de hedge retiraram seus recursos da firma, temendo que o Morgan seguisse os passos da Lehman no tribunal de falências, com risco de imobilizar os ativos dos clientes. Em um esforço para amainar as preocupações, o Morgan divulgou seus resultados naquela tarde, às 16h10, um dia antes do previsto.

“É muito importante devolver um pouco de sanidade ao mercado”, disse Colm Kelleher, diretor financeiro do Morgan, em teleconferência com investidores. “As coisas estão realmente saindo de controle, e boatos ridículos estão sendo repetidos.”

Glenn Schorr, analista do UBS, perguntou a Kelleher sobre o alto custo de proteção da dívida do Morgan Stanley no mercado de swaps. A proteção para US$ 10 milhões em dívidas do Morgan tinha subido para US$727.900 por ano, ante US$221.000 em 10 de setembro, segundo a CMA DataVision.

“Certas pessoas estão se concentrando nos swaps de crédito como desculpa para olhar para as ações”, respondeu Kelleher, sugerindo que os operadores que investiam nos swaps também estavam vendendo a descoberto ações do Morgan Stanley, apostando que elas cairiam.

É impossível saber com certeza qual era a motivação dos que compravam swaps do Morgan. Eles receberiam pagamentos caso o Morgan não pagasse títulos e empréstimos. Alguns desses compradores, sem dúvida, possuíam créditos do banco e estavam simplesmente tentando proteger-se contra uma eventual insolvência.

Mas os swaps também eram uma boa maneira de especular, para operadores que não detiam esses créditos. O valor do swap aumenta com o medo da inadimplência. Os operadores que apostavam no aumento dos temores sobre o Morgan Stanley podiam usar os swaps para obter um lucro rápido.

Em meio às incertezas daquele 16 de setembro, a Millennium Partners LP, fundo de hedge com US$ 13,5 bilhões, pediu para retirar US$ 800 milhões dos mais de US$ 1 bilhão que mantinha no Morgan, segundo pessoas a par dessas retiradas. Em separado, a Millennium também tinha vendido a descoberto ações do Morgan Stanley – parte de uma série de apostas na queda das ações de firmas financeiras, disse uma dessas pessoas. Além disso, a fundo de hedge comprou opções de venda, que lhe davam o direito de vender ações do Morgan no futuro a um preço determinado.

“Escute, nós precisamos proteger nossos ativos”, disse Israel Englander, presidente da Millennium, a um executivo do Morgan Stanley, segundo uma pessoa a par da conversa. “Não é nada pessoal.” Essas apostas na queda das ações, pequenas em comparação com o volume total de transações da Millennium, subiam de valor à medida que caíam as ações do Morgan.

Na manhã do dia 17, David “Tiger” Williams, presidente da Williams Trading LLC, que presta serviços de transações para fundos de hedge, ouviu um de seus operadores dizer que certo fundo havia transferido uma conta de US$ 800 milhões do Morgan Stanley para uma firma rival. O operador, que estava ao telefone com o gestor do fundo que retirou o dinheiro, perguntou por quê. O Morgan estava quebrando, respondeu o cliente.

Pressionado a dar detalhes, o administrador do fundo repetiu o rumor sobre o cancelamento da linha de crédito de US$ 25 bilhões por parte do Deutsche Bank. Williams passou a dar vários telefonemas, mas suas fontes no mercado opinaram que se tratava de um boato falso.

Mas o estrago já estava feito. Às 7h10, um operador do Deutsche Bank cotou em US$ 750.000 a compra de proteção para US$ 10 milhões em dívida do Morgan. Às 10h, o Citigroup e outros operadores já cotavam preços de US$ 890.000. E à medida que se alastrava o boato sobre o Deutsche, as ações do Morgan despencaram, de cerca de US$ 26 às 10h para perto de US$ 16 às 11h30.

Antes do meio-dia, operadores de swap começaram a cotar o custo de seguro para o Morgan em “pontos adiantados” – jargão de Wall Street para transações em que os compradores têm de pagar pelo menos US$ 1 milhão adiantado, mais um prêmio anual, para segurar US$ 10 milhões em dívida. No caso do Morgan Stanley, alguns operadores estavam exigindo mais de US$ 2 milhões adiantados.

Durante o dia, a Merrill comprou swaps para cobrir US$ 106,2 milhões em dívida do Morgan Stanley, segundo os documentos das transações. A King Street comprou swaps que cobriam US$ 79,3 milhões; o Deutsche Bank, US$ 50,6 milhões; a Swiss Re, US$ 40 milhões; a Owl Creek, US$ 35,5 milhões; UBS e Citigroup; US$ 35 milhões cada; Royal Bank of Canada, US$ 33 milhões; e ACM Global Credit, um fundo de investimento operado pela AllianceBernstein Holding, US$ 28 milhões, segundo os documentos.

No dia seguinte, 18 de setembro, algumas dessas mesmas firmas estavam de volta ao mercado. A Merrill comprou proteção para outros US$ 43 milhões em dívida do Morgan; o Royal Bank of Canada, US$ 36 milhões; a King Street, US$ 30,7 milhões; e o Citigroup, US$ 20,7 milhões, indicam os registros.

Nenhuma das firmas comenta quanto pagou pelos swaps, ou se lucraram com as operações.

“A proteção que compramos foi um simples hedge, não baseado em nenhuma visão negativa do Morgan Stanley”, diz John Meyers, um porta-voz da AllianceBernstein. Um porta-voz do Royal Bank of Canada diz que o banco comprou os swaps para administrar seu “risco de crédito” com o Morgan Stanley e que não estava “apostando contra o Morgan Stanley nem realizou apostas na baixa de sua ação”.

A King Street, um fundo de hedge com US$ 16,5 bilhões, comprou os swaps para cobrir sua exposição ao Morgan Stanley, que incluía títulos de renda fixa, segundo uma pessoa ligada ao fundo. O fundo não tinha uma posição vendida na ação, diz essa pessoa.

Porta-vozes de Deutsche Bank e Citigroup dizem que as transações deles foram relativamente pequenas e com o propósito de proteger contra perdas em outros investimentos relacionados ao Morgan, e para atender a ordens dos clientes. Um porta-voz da Owl Creek diz que ela comprou os swaps “para segurar o colateral que tínhamos no Morgan Stanley na época”, e que continua a fazer negócios com a firma.

Merrill, UBS e Swiss Re negaram-se a prestar comentários.

Durante o frenesi de transações em 17 de setembro, Mack havia começado a discutir uma fusão com o Wachovia Corp. Quatro dias depois, o Morgan Stanley alterou o curso, tornando-se uma holding bancária e ganhando maior acesso a recursos do governo. No mês passado, depois de captar US$ 9 bilhões do japonês Mitsubishi UFJ Financial Group, o Morgan recebeu US$ 10 bilhões do governo americano.

O Morgan Stanley precisa agora revisar sua estratégia para lidar com um ambiente avesso a risco e com a supervisão mais rígida do governo que acompanha a condição de holding bancária. Este mês, o banco anunciou que demitiria 2.300 empregados, ou 5% do total.

O custo de segurar sua dívida caiu. Ontem sua ação subiu 33,13% e fechou a US$ 13,38.

24/11/2008 - 11:32h O que o Fed ainda pode fazer para estimular a economia americana

http://www.galizacig.com/imxact/2008/01/money_cartos_590.jpg

Jon Hilsenrath, The Wall Street Journal – VALOR

O Federal Reserve, o banco central americano, está num ponto de inflexão.

A economia americana se deteriora e o Fed já empurrou quase tudo o que dava sua principal alavanca: os juros de curto prazo. Sua meta para os fundos federais, a taxa de empréstimos interbancários de curtíssimo prazo, caiu de 5,25% ao ano pouco mais de um ano atrás para 1%. Ultimamente, a taxa real dos fundos federais fica com freqüência abaixo dessa meta. Mas a economia americana precisa de mais ajuda.

Por isso, diretores do Fed devem dar seu aval ao plano de estímulo fiscal que os assessores do presidente eleito Barack Obama estão elaborando. O próprio Fed não esgotou ainda sua munição. Diretores do banco central estão avaliando opções como novas linhas de crédito, mais cortes de juro e compras de dívida de longo prazo, como títulos do Tesouro ou das hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac para estimular os mercados e a economia.

Economistas há muito debatem como um banco central deve administrar uma economia em deterioração quando os juros de curto prazo já estão baixos. O Japão se debateu com o problema no começo desta década. Um dos principais autores sobre o sujeito é o presidente do Fed, Ben Bernanke. Ele descreveu estratégias em palestras e estudos em 2002 e 2004, quando o Fed estava considerando a possibilidade de um problema desses. “As conclusões daquela época ainda se aplicam hoje”, diz Brian Sack, da Macroeconomic Advisers LLC, um ex-economista do Fed que dividiu a autoria de um estudo sobre o tema com Bernanke.

Eis as medidas que os diretores do Fed podem avaliar em sua reunião de dois dias em dezembro:

Agir rápido: Alguns economistas argumentam que, com os juros já muito baixos, o Fed deveria conservar sua munição e evitar novos cortes a não ser que absolutamente necessário. Em comentários no Instituto Cato, na semana passada, o vice-presidente do Fed, Donald Kohn, sugeriu o oposto. Se os EUA parecem estar entrando num ambiente parecido com o do Japão, de baixas taxas de juros, crescimento estagnado e queda dos preços ao consumidor, a melhor estratégia é agir rápido para evitá-lo, disse Kohn. “Se virmos essa possibilidade, devemos ser muito agressivos com nossa política monetária, o mais agressivos que podemos.”

Kohn disse acreditar que as chances de uma deflação como a japonesa ainda são pequenas nos EUA. Mas o maior risco de que isso aconteça sugere que o Fed pode rapidamente baixar a taxa dos fundos federais para zero. A Macroeconomic Advisers prevê um corte de meio ponto porcentual em dezembro e outro em janeiro, o que levaria a taxa a zero pouco depois que Obama tomar posse.

Novas linhas: Embora haja limites para até onde os juros de curto prazo podem baixar, o Fed mostrou recentemente que há poucas restrições a quanto seu próprio balanço patrimonial pode crescer. Desde o fim de agosto, o valor dos ativos do Fed cresceu de pouco menos de US$ 900 bilhões para mais de US$ 2 trilhões.

O Fed essencialmente criou dinheiro e o usou para financiar uma série de novas linhas de crédito, entre os quais um programa para comprar “commercial papers” do setor privado, outro para empréstimos de emergência para a seguradora American International Group Inc. e outro que injeta dólares em instituições financeiras fora dos EUA por meio de outros bancos centrais.

Essa atividade é às vezes chamada de afrouxamento monetário quantitativo. Em vez de se concentrar no custo do dinheiro no sistema financeiro – que é a taxa de juro -, as autoridades se focam na quantidade de dinheiro no sistema. Hoje, o Fed e o Departamento do Tesouro estão avaliando um programa no qual juntariam empréstimos do Fed com recursos do programa de socorro de US$ 700 bilhões do Tesouro para adquirir títulos de instituições financeiras em dificuldades, uma idéia apoiada pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson.

Mexer no longo prazo: Além de estabelecer uma meta para a já baixa taxa de juro de curto prazo, o Fed poderia tentar baixar os juros de longo prazo, o que poderia derrubar os custos de vários tipos de financiamento, das hipotecas de 30 anos a empréstimos para a compra de carros e debêntures de empresas. “São as taxas de prazos mais longos que importam para a atividade econômica”, diz Vincent Reinhart, outro ex-diretor do Fed que trabalhou com Bernanke no tema.

O Fed pode conseguir isso com a compra de dívida de longo prazo, inclusive obrigações do Tesouro ou papéis emitidos pela Fannie Mae e pela Freddie Mac. Essas compras poderiam fazer a cotação dos títulos subir, reduzindo assim seus rendimentos.

Comunicar: O Fed poderia procurar influenciar as taxas de longo prazo ao se comprometer a manter os juros de curto prazo baixos por um período longo. Isso poderia forçar os investidores a esperar taxas mais baixas para os papéis de prazo mais longo também. O Fed tomou essa medida em 2003, quando se comprometeu a manter baixas as taxas dos fundos federais por “um período considerável”.

Foi uma medida polêmica – que possivelmente teve um papel na criação do período de especulação hipotecária que se seguiu. Com a economia tão fraca agora, contudo, o Fed pode precisar usar de novo a medida. Uma maneira de evitar uma repetição do último episódio seria impor condições a esse comprometimento, como uma promessa mais explícita de voltar a elevar as taxas assim que os mercados se estabilizarem.

Em tempos normais, quaisquer dessas medidas poderiam ser altamente inflacionárias, e assim virar um tiro pela culatra. Mas estes não são tempos normais.

18/11/2008 - 12:45h Juros ficarão mais altos depois da reação à crise, diz Nouriel Roubini

Alex Ribeiro, da Cidade do Panamá – VALOR

http://www.abacate.net/images/juro%20alto.jpgO mundo terá que conviver com taxas de juros mais altas assim que as economias reagirem aos maciços estímulos fiscais e monetários feitos por países desenvolvidos, disse ontem o professor Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, que ganhou projeção depois que previu a crise financeira atual e seus desdobramentos.

O diagnóstico dominante entre os economistas reunidos ontem em debates do encontro da Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban) é que as ações firmes tomadas por economias desenvolvidas e em desenvolvimento são suficientes para evitar uma crise financeira ainda mais profunda.

As discussões, agora, se voltam para a duração e a intensidade da crise financeira sobre a economia real – e sobre as repercussões mais permanentes que ela terá sobre variáveis como contas fiscais, taxas de câmbio e taxas de juros.

Roubini, que se notabilizou nos últimos anos pelo pessimismo que observava a evolução dos mercados financeiros, também tem visão bastante negativa sobre como a economia real irá ser afetada. “Não será a crise de 1929, mas será a crise mais séria desde então”, afirmou Roubini, que falou em videoconferência para executivos de bancos. “Não espero recuperação em 2009. A economia só começa a reagir em 2010.”

Disse que todos os números que saíram sobre a atividade econômica, tais como emprego, crédito e consumo, são piores que os previstos. Ele espera uma queda adicional entre 20% e 30% no índice S&P500 de Nova York, em virtude da divulgação de resultados corporativos abaixo do esperado. Roubini acha também que perdas de seguradoras e com empréstimos serão fonte de estresse no mercado financeiro.

E a recuperação esperada pela 2010, afirmou, irá ocorrer de forma débil, em parte porque o socorro às economia criará novos desequilíbrios. A projeção, disse, é que a expansão fiscal faça com que o déficit americano fique em US$ 1 trilhão nos próximos dois anos. O custo, segundo ele, virá de políticas não-ortodoxas tanto no campo monetário quanto fiscal, as quais, disse, eram absolutamente necessárias diante de um cenário mais negativo que seria causado por uma depressão.

No campo monetário, os bancos centrais de países tiveram que ir além de corte de juros, e isso terá conseqüências também. “Ficamos presos a uma armadilha monetária, que obrigou os países a lançar mão de outras medidas”, disse Marco Fernández, da consultoria Investigación y Desarrollo, do Panamá.

“Será difícil financiar essas dívidas”, disse o economista Jorge Suárez-Velez, da Global Plus Management. “Com isso, a taxa de juros de curto prazo vai baixar, mas as de longo prazo ficarão altas”. Os déficits públicos também significam, na leitura dos economistas, que o dólar irá voltar a perder valor ante outras moedas.

20/10/2008 - 07:40h Crise esfacela preço dos imóveis nos EUA

casas_venda2.jpg

Ricardo Balthazar – VALOR

O declínio continuado dos preços dos imóveis nos Estados Unidos está agravando os problemas existentes no mercado imobiliário americano, corroendo o patrimônio de milhões de pessoas que compraram suas casas recentemente e gerando novas complicações para o sistema financeiro e a economia do país.

Com o desemprego em alta e a recessão batendo à porta, muitas famílias têm suado para continuar pagando suas hipotecas. Elas alcançaram o sonho da casa própria obtendo empréstimos em condições muito vantajosas nos últimos anos e agora estão com dificuldades porque as prestações subiram e não cabem mais no orçamento doméstico.

Mas até proprietários que têm condições de ficar em dia deixaram de pagar suas dívidas, devido aos prejuízos provocados pela desvalorização dos imóveis. Essas pessoas preferem perder as casas em que moram e ver o investimento feito até agora evaporar, porque a perda financeira seria maior se elas continuassem honrando seus compromissos.

Cerca de 12 milhões de pessoas têm atualmente dívidas superiores ao valor de suas residências, segundo a consultoria Moody’s Economy.com. Pagar a hipoteca em dia nessas circunstâncias é perder dinheiro na certa. De cada seis pessoas que moram em casa própria nos Estados Unidos, uma se encontra nessa situação.

O governo, o Congresso e a iniciativa privada lançaram nos últimos meses diversos programas para renegociar essas dívidas e evitar que os problemas se alastrem ainda mais. Mas os resultados foram pífios. Muitos proprietários que conseguiram renegociar hipotecas com os bancos voltaram a ficar inadimplentes pouco tempo depois.

“Em geral os novos contratos se limitam a empurrar o problema com a barriga, mantendo as cláusulas que fizeram as prestações aumentar e cobrando os atrasados lá na frente”, disse Lou Tisler, diretor-executivo da Neighborhood Housing Services, empresa que ajuda proprietários com problemas a renegociar suas dívidas no Estado de Ohio.

A bolha especulativa que inflou o mercado imobiliário americano no início da década estourou em meados de 2006. Desde então, os preços dos imóveis nos EUA caíram 21%, conforme o índice S&P/Case-Shiller, principal termômetro do setor. Os economistas acreditam que os preços continuarão caindo por vários meses antes de encontrar um ponto de equilíbrio.

Quem comprou no auge da bolha é quem mais está sofrendo agora. Segundo o site Zillow, que compila informações sobre negócios feitos no país inteiro, 45% dos proprietários que adquiriram imóveis em 2006 e 37% dos que fizeram isso em 2005 têm agora dívidas superiores ao valor que poderiam obter se vendessem suas propriedades.

O fim da bolha imobiliária está na raiz da crise de confiança que atualmente sufoca o sistema financeiro global. Os empréstimos feitos nos tempos de euforia foram usados para lastrear trilhões de dólares em títulos que hoje estão azedando nas carteiras de bancos, seguradoras e outras instituições financeiras.

A inadimplência no setor não pára de aumentar, dois anos depois da implosão da bolha. Mais de 6% das hipotecas estavam com pagamentos em atraso no fim de junho, segundo a Associação dos Banqueiros de Hipotecas. Entre os clientes de alto risco que foram os primeiros a deixar de pagar, 19% estão inadimplentes atualmente e correm o risco de perder suas casas.

Além do impacto direto sobre o sistema financeiro, os problemas do setor imobiliário contribuem para a desaceleração da atividade econômica. Os proprietários endividados estão apertando o cinto e deixaram de consumir como antigamente. Com o mercado cheio de casas que ninguém quer comprar, as construtoras estão cancelando obras e demitindo funcionários.

Muitos economistas acham que forçar a renegociação das hipotecas em termos mais generosos seria a melhor maneira de superar a crise atual, porque isso ajudaria a valorizar os ativos dos bancos e a reanimar a atividade econômica. Mas o governo tem preferido usar o seu dinheiro para lubrificar as engrenagens dos mercados de crédito e reerguer os bancos em dificuldade, sem atacar diretamente os problemas do mercado imobiliário.

“O governo deveria ter agido muito antes para evitar que o problema fugisse ao controle”, disse o advogado Michael Barr, professor de direito da Universidade de Michigan. “O trágico é que o governo esperou meses para intervir e deixou os proprietários endividados por último na fila dos que terão ajuda.”

Um dos fatores que torna complicada a renegociação das hipotecas é a forma como os empréstimos foram empacotados e vendidos pelos bancos. Muitos dos títulos que têm as hipotecas como lastro possuem cláusulas que impedem a renegociação dos contratos originais. Os credores desses títulos são investidores do mundo inteiro que não têm condições de negociar com os proprietários inadimplentes.

Uma associação formada por bancos, companhias hipotecárias e organizações assistenciais chamada Hope Now Alliance conseguiu nos últimos meses renegociar as hipotecas de 2,6 milhões de pessoas, evitando que elas perdessem suas casas. Mas na maioria dos casos houve apenas um pequeno abatimento nos juros, sem redução do principal da dívida, o que significa que essas pessoas certamente terão novos problemas no futuro.

Um estudo feito pelo banco Credit Suisse, que analisou milhares de contratos modificados recentemente, concluiu que quase um terço dos proprietários que renegociaram seus empréstimos no último trimestre do ano passado voltaram a ficar inadimplentes depois de oito meses. Um quarto dos que tiveram redução do principal voltaram a atrasar os pagamentos da hipoteca nesse mesmo período.

Em julho, o Congresso americano autorizou o governo a gastar US$ 300 bilhões para renegociar hipotecas de quem estiver com a corda no pescoço. O governo oferecerá empréstimos com taxas de juros fixos e 30 anos para pagar, desde que os atuais credores concordem em abater o principal e os proprietários tenham os documentos em ordem, condição que poderá excluir muitos imigrantes que se endividaram no auge da bolha.

Estima-se que o programa do governo poderá beneficiar cerca de 400 mil pessoas, uma pequena fração dos milhões de proprietários que estão atravessando dificuldades. Quase três meses depois de aprovado pelo Congresso, o plano ainda não começou a ser executado por causa de questões burocráticas.

Bancos e companhias hipotecárias também têm perdas significativas com a inadimplência de seus clientes. Em geral, eles têm recuperado menos da metade do valor dos imóveis nos casos em que decidem retomar as casas dos proprietários inadimplentes para cobrir seus prejuízos. Ninguém será obrigado a participar do programa do governo. Ele terá caráter voluntário.

Muitos especialistas têm sugerido ao governo mecanismos para incentivar a participação dos credores. Uma proposta que surgiu prevê a substituição das hipotecas com problemas por contratos em que as condições seriam revistas periodicamente conforme a evolução dos preços dos imóveis, o que reduziria os riscos para os proprietários e seus credores. “Seria também uma forma de evitar a formação de novas bolhas no futuro”, disse o economista Andrew Caplin, da Universidade de Nova York.

08/10/2008 - 10:23h Fim de papo: começa a estatização

VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP


http://www.snupparis.com/images/Panic.jpg

Britânicos vão estatizar parte dos bancos, Espanha prepara pacote e BC dos EUA assume o papel de banco comercial

A ESTATIZAÇÃO de fatias grossas do sistema financeiro euroamericano vai começar, agora de modo sistemático. Hoje, o Reino Unido anuncia o plano de comprar até US$ 87 bilhões (R$ 202 bilhões) em ações dos seus cinco maiores bancos. Havia rumores de que pelo menos dois deles não resistiriam à virada da noite -o dinheiro vale um terço da economia argentina.
A idéia inicial é que os bancos continuem a ser companhias privadas.
Mas o governo terá representantes na direção e algumas normas serão baixadas para que os bancos não parem de emprestar para clientes de varejo e a pequenas e médias empresas. De quebra, jogando para a galera, o governo vai limitar o rendimento dos altos executivos.
Essas são, mais ou menos, as “diretrizes” que a União Européia aprovou para a intervenção em massa nos bancos.
Na sexta-feira, a Espanha deve anunciar um pacote de até US$ 68 bilhões (R$ 158 bilhões) para financiar a compra de ativos financeiros dos bancos, ora saudáveis, a fim de que eles descongelem o fluxo de empréstimos para a economia “real”.
Mais complicado, mas mais impressionante, é que o Fed, o banco central dos Estados Unidos, tornou-se na prática um banco múltiplo, para não dizer ênuplo, de “n” utilidades: além de autoridade monetária, é agora banco de bancos, banco comercial e de investimento. O Fed vai financiar a atividade cotidiana de empresas e de bancos, por meio de um veículo de propósito específico, uma “subsidiária”, digamos. Vai comprar notas promissórias das firmas. Isto é, vai emprestar dinheiro para o capital de giro, os recursos de que as empresas necessitam para tocar atividades comezinhas, como honrar a folha de pagamento.
Em geral, fundos de investimento compravam tais papéis de empresas. Com a crise, tais fundos congelaram de medo de calote.
Em suma: o dinheiro apenas flui no centro do mundo quando é intermediado pelos bancos centrais, o Fed em particular. Alguma coisa parecida, embora em muito menor escala, começa a acontecer no Brasil, também varrido pela seca duradoura de crédito. A coisa pode não parar por aí. Talvez o Fed tenha de garantir todas as transações entre instituições financeiras dos EUA, como uma espécie de seguradora gigante de calotes financeiros, uma das alternativas restantes ao medo paralisante de emprestar e ser caloteado.
Tais iniciativas, tão extraordinárias quanto vexaminosas, mas necessárias, resultam de três semanas de congelamento de crédito. São o efeito final da desconfiança dos mercados em seu próprio sistema de preços e de avaliação de riscos.
Calotes imobiliários relativamente pequenos destruíram o valor de títulos financeiros lastreados em simples prestações da casa própria, e assim o valor dos investimentos financeiros de bancos. Quebrados por conta e risco próprios, não emprestam dinheiro entre si. Sem capital, temem emprestar à produção.
Para evitar eventual confusão, e desculpas pela obviedade, a estatização da finança do mundo rico não é uma opção pelo dirigismo estatal, mas medida desesperada com o objetivo de evitar que a ineficiência catastrófica do mercado financeiro moderno resulte em desastre ainda maior para a dita “economia real”.

vinit@uol.com.br

07/10/2008 - 09:06h Mundo está à beira de estatizar sistema bancário

Especialistas vêem retorno a velhas ideologias e regulação mais rígida

http://images.askmen.com/toys/top_10_150/166_top_10_list.jpg

Fernando Dantas – O Estado de São Paulo

O mundo assiste a uma grande onda de intervenção estatal no setor bancário privado. Nos Estados Unidos, o governo ajudou financeiramente o JP Morgan Chase a comprar o Bear Stearns em março, quando tudo começou, e deu garantias contra perdas ao Citi para este absorver o Wachovia (que agora podem ser suspensas como resultado da disputa do Citi com o Wells Fargo).

Fora do sistema estritamente bancário, o governo americano assumiu o controle das gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac e virtualmente estatizou por US$ 85 bilhões (em forma de empréstimo) a seguradora AIG. Além disso, estendeu em centenas de bilhões de dólares as linhas de liquidez aos bancos, fechou os olhos para a qualidade das garantias recebidas, decidiu remunerar os depósitos compulsórios e usou seu poder de pressão para provocar outras fusões de bancos.

Na Europa, a Islândia parece na iminência de estatizar o sistema bancário, e países como Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal, Dinamarca e Irlanda anunciaram medidas para introduzir ou estender a garantia aos depósitos. No caso da Irlanda, a garantia é tão ampla que provocou a ira dos seus pares na União Européia (UE), temerosos de uma corrida bancária em que depositantes transfiram recursos de bancos de outros nacionalidades para os irlandeses. Houve socorro estatal a bancos específicos como o Fortis, do Benelux, o alemão Hypo Real State, o britânico Bradford & Bingley e o belga Dexia.

No caso do Fortis, a Holanda literalmente estatizou a parte nacional do banco. Entre os emergentes, medidas de socorro aos sistema bancário já foram tomadas na Rússia, Coréia, Chile e Brasil.

Há uma ironia no fato de que a maior onda de intervenção do Estado no sistema financeiro ocorre num momento em que a estatização bancária havia se tornado bandeira ideológica do passado, que hoje mal é desfraldada pelas poucas correntes mais à esquerda do espectro político. Esta invasão do setor público no sistema financeiro, aliás, não vem na esteira da política, mas sim das próprias finanças, já que os bancos quase quebrados, depois da farra da desregulamentação excessiva, são uma enorme ameaça à economia real.

Em recentes artigos no seu blog no site do Financial Times, o economista holandês Willem Buiter abordou provocativamente (mas sem um apoio claro) a questão da estatização do sistema bancário. Segundo Buiter, “há um antigo argumento de que não há razão real para a propriedade privada de instituições bancárias que recebem depósitos, porque elas não podem existir seguramente sem esquemas de garantia de depósito ou de emprestador de última instância, que são em última instância bancadas pelo contribuinte”.

Armando Castelar, da Gávea Investimentos, acha que, se a crise for às últimas conseqüências, pode-se chegar até o ponto da estatização em alguns países, mas como uma etapa temporária, ao fim da qual os bancos seriam repassados novamente à iniciativa privada. Ele nota que perdas ao contribuinte também muitas vezes ocorrem com bancos públicos, como no caso do Brasil, em que recapitalizações do Banco do Brasil tiveram um custo de vários bilhões de reais. “O Proer foi mais barato do que o socorro aos bancos estaduais e federais”, diz Castelar.

Ele prevê um futuro de regulação mais dura dos bancos, visão com a qual concorda o economista Fernando Ferrari Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e presidente da Associação Keynesiana Brasileira. “Não diria que tem de haver um processo de estatização, mas não há dúvida de que devemos entrar numa fase de regulação muito mais forte”, diz Ferrari Filho. Ele defende a restauração de alguns pontos da chamada arquitetura financeira internacional de Bretton Woods, como mais controles de capital e a recuperação por parte das autoridades econômicas da capacidade de estabelecer parâmetros para a trajetória do câmbio e do crédito.

26/09/2008 - 10:57h De Keynes a Paulson

http://www.businessweek.com/magazine/content/04_15/art04_15/0415_20innova.jpg
John Maynard Keynes

David Ignatius* – O Globo

Henri Paulson com Bushhttp://blogs.denverpost.com/lewis/wp-content/photos/paulson.JPG

Em tempos como este, quando mesmo os mais sóbrios analistas especulam se estamos caminhando para outra Grande Depressão, é melhor respirar fundo, ir ao porão e tirar a poeira de um exemplar de um modesto estudo de John Maynard Keynes, de 1936, chamado “A teoria geral de emprego, juros e dinheiro”.

A maioria se lembra de Keynes da universidade, como aquele que defendia o déficit orçamentário para encorajar o crescimento em períodos de desaceleração. E isso era certamente parte de seu argumento. Mas, ao revisitar “A teoria geral”, chama a atenção o fato de ser um livro sobre pânicos econômicos e a psicologia do mercado que os produz — e a conseqüente necessidade de intervenção do governo.

Alguns trechos poderiam ter sido escritos esta semana para descrever as sucessivas quebras de Bear Stearns, Lehman Brothers e AIG.

O problema com os mercados financeiros, argumentou Keynes, era que os investidores eram periodicamente tomados por uma forma extrema do que chamou de “preferência de liquidez”, que os fazia aplicar dinheiro apenas nos investimentos mais seguros. “É da natureza dos mercados (…) que, quando a desilusão cai sobre um mercado superotimista e sobrecomprado, deveria cair com uma força súbita e até catastrófica”, escreveu ele.

“Depois de surgir, a dúvida se espalha rapidamente”.

É uma ótima descrição de Wall Street nos últimos meses.

Saímos de uma bolha de superentusiasmo, na qual os juros deram pouca atenção ao risco, para um estado de pânico no qual as instituições financeiras têm tanta aversão ao risco que não querem emprestar a ninguém.

A idéia revolucionária de Keynes era que os mercados financeiros não se autocorrigiam, como argumentavam economistas clássicos. Deixada a si própria, Wall Street poderia cair em uma armadilha de liquidez em que os mercados ficariam congelados e o investimento produtivo cessaria. Então restava ao governo tomar medidas para restaurar a confiança e estimular o investimento.

“Eu concluo que a tarefa de organizar o volume atual de investimento não pode ser deixada em mãos privadas”, escreveu ele.

O que nos traz ao secretário do Tesouro, Henry Paulson, e à crise atual. Desde o resgate do Bear Stearns, em março, Paulson vem tentando injetar dinheiro nos mercados. Mas cada medida de resgate somente prepara para o desastre seguinte — então Paulson passa de Bear Stearns para Fannie e Freddie para AIG, e agora para um pacote de US$ 700 bilhões.

Que conselho Keynes daria a Paulson e ao presidente do Fed, Ben Bernanke? Seu primeiro impulso, imagino, seria reiterar que os mercados, deixados a si próprios, não vão resolver esse tipo de crise.

Eles precisam de ajuda do governo — neste caso, em uma escala que teria assustado até Keynes. Mas se as medidas são tomadas sem amplo apoio político, elas só podem aumentar a ansiedade popular. Isso é uma preocupação hoje: que o pânico de Wall Street atinja Main Street.

O biógrafo de Keynes, Robert Skidelsky, ressalta que ele sempre tentou englobar as conseqüências sociais e políticas da política econômica.

Um verdadeiro resgate keynesiano deveria fazer mais que socorrer investidores tolos. Por exemplo, se os contribuintes vão comprar uma fatia da maior seguradora do país, talvez essa empresa possa ser a pedra fundamental de um novo sistema de seguro-saúde universal.

“Quando o desenvolvimento do capital de um país se torna o subproduto das atividades de um cassino, o trabalho acaba ficando malfeito”.

Keynes não iria querer nacionalizar esse cassino; ele mesmo era um investidor ativo. Mas ele nos lembra de que os objetivos públicos são mais bem servidos por instituições públicas.

*David Ignatius é colunista do “Washington Post”

26/09/2008 - 09:33h Mundo precisa de autoridade monetária

dolar1.jpg

JEFFREY GARTEN ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

dinheirocorrendo.gif

MESMO QUE a imensa operação de resgate financeiro dos EUA obtenha sucesso, ela deveria ser seguida por algo de muito mais abrangente -o estabelecimento de uma autoridade monetária mundial para fiscalizar mercados que não respeitam mais fronteiras.

Washington reconhece que a crise se tornou mundial. Hank Paulson, secretário do Tesouro norte-americano, disse que os bancos estrangeiros que operam nos Estados Unidos serão elegíveis para assistência federal e está instando outras nações a criarem programas próprios de resgate.
Os bancos centrais também vêm sincronizando suas injeções de fundos nos mercados.

Essas medidas devem ser passos em direção de resposta internacional mais abrangente concebida não só para apagar o atual incêndio mas para reconstruir e manter os mercados de capitais em longo prazo.

O aparato atual de instituições internacionais é miseravelmente incapaz de fiscalizar o sistema financeiro que está evoluindo. O FMI (Fundo Monetário Internacional) é irrelevante para essa crise, o G7 (grupo dos sete países mais industrializados) carece de relevância em um mundo no qual China, Brasil e outros exercem papéis importantes, e o BIS (Banco de Compensações Internacionais) não tem funções operacionais. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) está sob pressão forte demais para que funcione como banco central planetário.

O vácuo que existe no centro do sistema é perigoso para todos. A dependência norte-americana de influxos maciços de capital, da ordem de US$ 3 bilhões diários, certamente aumentará agora que os EUA estão adquirindo US$ 1 trilhão em novas obrigações relacionadas aos resgates em curso. Por muitos anos, Wall Street e Washington não serão capazes de se manter sem forte cooperação de outros mercados.

Dimensões estonteantes

Além disso, as dimensões internacionais do mundo financeiro se tornaram estonteantes. Os ativos mundiais cresceram de US$ 12 trilhões em 1980 para cerca de US$ 200 trilhões em 2007, superando de longe o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em qualquer nação ou o ritmo de expansão do comércio. Montante crescente desse capital hoje reside na Ásia e no golfo Pérsico, e não mais nos Estados Unidos e na Europa.

Uma empresa norte-americana como a seguradora AIG vendia mais de seus CDS (”credit default swaps”) e apólices de seguros fora dos Estados Unidos do que no país. O suíço UBS tem 30 mil funcionários norte-americanos e está cotado na Bolsa de Nova York.

Os mercados de capital evoluirão em um contexto no qual economias de mercado emergente estarão crescendo duas vezes mais rápido do que as dos países ricos e, na metade do século, provavelmente responderão por dois terços do PIB mundial.

A globalização agora criará também um confronto de filosofias. A maioria dos governos e dos investidores de fora dos Estados Unidos jamais aderiu ao estilo caubói do capitalismo norte-americano. Agora, eles têm bons motivos para exigir que mudanças fundamentais sejam adotadas na maneira pela qual os Estados Unidos administram suas instituições financeiras. Isso pode acontecer com uma modificação consciente e negociada do modelo financeiro norte-americano ou pode resultar da transferência dos fundos de investidores estrangeiros para outros mercados.
Todas essas considerações apontam para a necessidade futura de uma nova autoridade monetária mundial (AMM).

Ela ditaria o tom para os mercados de capital de uma maneira que não seria visceralmente oposta a uma forte função de fiscalização pública, com regras de intervenção, e devolveria à formação de capital a condição de objetivo do crescimento econômico e do desenvolvimento, com o abandono da idéia de que é suficiente operar por operar.


Funcionamento

Uma AMM funcionaria como central de resseguro ou casa de desconto para determinadas obrigações detidas por bancos centrais. Avaliaria as atividades regulatórias das autoridades nacionais de forma mais eficaz que o FMI e fiscalizaria a implementação de um número limitado de regulamentos mundiais. Monitoraria os riscos internacionais e estabeleceria um sistema efetivo de alerta antecipado, com mais moral para soar alarmes do que era o caso do BIS.

A instituição também funcionaria como “tribunal de falências” para a reorganização mundial de companhias financeiras com tamanho superior a um determinado limite. As maiores companhias financeiras mundiais teriam de se registrar junto à AMM e estariam sujeitas à sua monitoração, ou seriam incluídas em uma lista negra. Isso incluiria empresas comerciais e bancos, mas também fundos soberanos de investimento, fundos de hedge de grande porte e empresas de capital privado.

O conselho da AMM seria formado por dirigentes de bancos centrais não apenas dos Estados Unidos, do Reino Unido, da zona do euro e do Japão mas também da China, da Arábia Saudita e do Brasil. A instituição seria financiada por contribuições compulsórias de todos os países capazes de pagar e por prêmios à maneira de seguros pagos pelas empresas financeiras do planeta -as de capital aberto, as estatais e as de capital fechado igualmente.

Em termos de política norte-americana e internacional, a autoridade monetária mundial provavelmente representa uma idéia cujo momento ainda não chegou. Mas isso pode mudar, à medida que evolui a crise atual.

JEFFREY GARTEN é professor da cátedra Juan Trippe de comércio internacional e finanças na Escola de Administração de Empresas da Universidade Yale.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

22/09/2008 - 17:28h Professor e banqueiro jogam por terra dogmas do mercado

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=iKxS3iDjh3oQ

Ben S. Bernanke, do Fed, e Henry M. Paulson, do Tesouro, são autores da maior intervenção governamental da história dos EUA, que envolve US$ 700 bilhões

PETER BAKER – FOLHA SP

DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON

http://resistir.info/financas/imagens/paulson_bernanke.jpgNos últimos 12 meses, enquanto a economia dos EUA vem tropeçando de crise em crise, o presidente do Federal Reserve, Ben S. Bernanke, vinha avisando o secretário do Tesouro, Henry M. Paulson, Jr, que o agravamento da situação poderia acabar por obrigar a uma intervenção federal abrangente.

Estudioso de longa data da Grande Depressão, Bernanke tinha consciência aguda do que poderia acontecer se não fossem tomadas medidas decisivas. O momento em que essa ação se tornou inevitável chegou na noite de quarta-feira. Menos de 24 horas depois de o Fed ter socorrido a gigantesca seguradora American International Group, ficou claro que a turbulência que agitava Wall Street só estava se agravando e que as soluções pontuais não estavam funcionando.

Falando ao telefone de sua sala de trabalho, Bernanke disse a Paulson que era chegada a hora de se adotar uma estratégia abrangente que o Congresso teria que aprovar. Paulson entendeu. Relutante, nos últimos dias, em submeter ao Congresso um plano que os legisladores tinham avisado que teria poucas chances de ser aprovado rapidamente, ele temera que uma possível rejeição tivesse efeito negativo ainda maior sobre os mercados. Mas, em dois telefonemas, na noite de quarta e na manhã de quinta-feira, ele concordou que não havia escolha.

“Aconteceu de maneira dramática”, disse Paulson em entrevista na sexta-feira. “Só havia um jeito de tranqüilizar os mercados e fazer frente a um congelamento muito grande e amplo do mercado de crédito. Não houve cálculos políticos. A necessidade da ação ficou avassaladoramente evidente.” E foi assim, simplesmente, que o reservado Bernanke, ex-professor de uma das mais respeitadas universidades americanas, e Paulson, ex-operador arrojado de Wall Street, lançaram aquela que seria a maior operação de resgate econômico governamental dos tempos modernos, que rivaliza com a guerra do Iraque em custos e que, ao mesmo tempo, pode redefinir o papel de Washington no mercado nos anos por vir.

Parceria

O plano de comprar US$ 700 bilhões em ativos problemáticos com dinheiro dos contribuintes foi traçado por dois homens que até dois anos atrás não se conheciam e não se movimentavam nos mesmos círculos, mas que a história aproximou. Se Bernanke é a força intelectual dessa dupla improvável, e Paulson, seu homem de ação, o fato é que eles conseguiram criar uma parceria ímpar em sua corrida para sustar a turbulência financeira e impedir a economia de afundar.

Como convém a seus papéis e personalidades, Paulson tornou-se o rosto público da equipe -ele pretende aparecer em quatro “talk shows” no domingo-, enquanto o menos visível Bernanke fornece as bases históricas da estratégia forjada.

Nesse caminho, eles deixaram de lado as posições defendidas por muito tempo pela administração em relação à regulamentação e ao envolvimento do governo nas empresas privadas, chegando a reverter decisões no prazo de 24 horas e a justificá-las como soluções práticas a ameaças graves. “Em tempos de crises financeiras, não há lugar para ideólogos”, disse Bernanke a colegas na semana passada, segundo testemunha de uma reunião.

A natureza pontual e improvisada de seu esforço converteu o presidente Bush e os democratas no Congresso em virtuais espectadores, às vezes incertos sobre o que virá a seguir, reagindo com assombro à nova dinâmica do poder na capital. A cada vez que os legisladores tentavam entender o que estava acontecendo e que papel poderiam exercer, com as eleições cada vez mais próximas, Paulson e Bernanke apareciam no Capitólio para mais uma reunião noturna e os surpreendiam com mais uma novidade.

Os dois homens vêm trabalhando desde cedo e até tarde, acompanhando os mercados asiáticos e atendendo a telefonemas com seus colegas europeus, depois falando ao telefone um com o outro, oito ou nove vezes por dia. Para ajudá-lo a suportar os longos dias de trabalho, Paulson recorre a inúmeras Diet Coke. Chamado pelo Senado a testemunhar duas vezes na semana passada, ele pediu para ser liberado.

“Ele me falou que tinha dormido apenas quatro horas”, disse o senador democrata Christopher J. Dodd, presidente do Comitê de Bancos. Mas a boa vontade de Dodd tem limites. Ele contou que respondeu: “O público quer saber o que está acontecendo.” Bernanke (cuja bebida preferida é a Dr. Pepper Diet) faz questão de deixar seu gabinete até a meia-noite para dormir pelo menos um pouco, mas seus amigos dizem que os sinais de cansaço são evidentes nele.

Alan S. Blinder, seu amigo de longa data e ex-vice-presidente do Federal Reserve, recorda-se de ter visto Bernanke em uma conferência no mês passado em Jackson Hole, Wyoming. “Sua aparência era de alguém que carregava o peso do mundo nos ombros.”. E isso foi antes da semana passada.


Personalidades

Bernanke assumiu seu cargo em fevereiro de 2006, e Paulson cinco meses mais tarde. Ambos são republicanos e ambos foram nomeados por Bush, mas suas origens são muito diferentes. Bernanke, 54, administrava a política acadêmica do departamento de economia da Universidade Princeton, da qual foi presidente, desenvolvendo um estilo conciliador. Paulson, 62, chegou à presidência do Goldman Sachs falando duramente ao telefone e ocasionalmente dando socos na mesa.

“Hank é um sujeito hiperativo, do tipo que sempre tenta resolver o problema e seguir adiante”, disse Allan B. Hubbard, ex-assessor de economia nacional de Bush. “Ele está sempre impaciente para resolver as coisas. Já Ben age de maneira muito mais discreta. Ele reflete muito. É um pensador incrível, alguém que sabe ouvir, que sabe analisar e que não se deixa intimidar por ninguém. Acho que eles fazem uma ótima parceria.”
Bernanke fala em termos grandiosos e Paulson despeja o jargão contundente de Wall Street, mas o que uniu os membros da nova dupla dinâmica de Washington foi em parte o beisebol. O secretário do Tesouro é torcedor dos Chicago Cubs, e o presidente do Fed torce pelos Boston Red Sox, mas em Washington passou a torcer pelos Nationals e a dividir ingressos de temporada com o chefe do Estado-Maior da Casa Branca, Joshua B. Bolten.

Nem Paulson nem Bernanke, porém, haviam tido envolvimento profundo no processo político. Em seus esforços para trabalhar juntos em Washington, eles se cercaram respectivamente de assessores vindos do Goldman e de profissionais de carreira do Fed. Paulson recusou o primeiro convite para entrar para o gabinete. Ele mudou de idéia apenas depois de um trabalho extenso de lobby e convencimento feito por Bolten, antigo executivo do Goldman, e de Bush ter se comprometido a deixá-lo dirigir de fato a economia política, diferentemente de seus predecessores.

O Martelo, como Paulson é apelidado desde seus tempos de jogador no time de futebol americano de Dartmouth, levou a Washington a intensidade que é sua característica. “Ele é um furacão. Está acostumado a viver num mundo turbulento”, disse John H. Bryan Jr., amigo íntimo de Paulson e ex-executivo-chefe da Sara Lee Corporation. “Está acostumado a viver num mundo de “deadlines”, decisões e muita pressão.”
Paulson, que é membro da igreja Cientista Cristã, não fuma nem bebe. Uma vez, num coquetel em que estava fazendo um discurso, recordou um de seus ex-colegas do Goldman, Andrew W. Alper, Paulson acidentalmente tomou um gole de vodca de um copo, pensando tratar-se de água.

Seu rosto ficou vermelho e seus olhos lacrimejaram por uma hora. “Mas ele continuou firme”, disse Alper. Bernanke tem um apelido menos evidente, “Helicopter Ben”, que lhe foi dado depois de um discurso que proferiu em 2002, falando sobre as injeções emergenciais de dinheiro do Fed para manter a liquidez do sistema, como alimentos despejados de helicópteros para ajudar vítimas de enchentes ou outras catástrofes.

Para Bernanke, a crise atual é o ponto culminante de toda uma vida passada tentando entender como o sistema funciona desde o ponto de vista teórico. Bernanke deixou claro muito tempo atrás que ele sabia que algum dia poderia ser convocado a pôr em prática os frutos de seus estudos.

Vincent R. Reinhart, um ex-funcionário do Fed, disse que as pesquisas de Bernanke sobre a crise financeira do Japão na década de 1990 reforçaram sua opinião de que crises do mercado requerem intervenções governamentais agressivas. Numa festa que promoveu em 2002 para o 90º aniversário do famoso economista Milton Friedman, Bernanke, então um dos diretores do Federal Reserve, falou sobre os erros cometidos pelo país diante da Grande Depressão e prometeu não repeti-los. “Não o faremos de novo”, disse ele.

Aviso prévio

Na entrevista da sexta-feira, Paulson disse que Bernanke já vinha avisando havia muito tempo da possibilidade de chegada de um momento como o da semana passada.

“Muito tempo atrás, talvez há um ano já, Ben, que é um economista de primeiro nível, me disse: “Quando se olha para a bolha imobiliária e a correção, se a queda nos preços for suficientemente grande, a única solução pode ser uma intervenção governamental em grande escala’”, contou Paulson. “Ele falou sobre o que aconteceu quando houve outras situações históricas semelhantes.” Paulson disse que concordara, mas que esperava que a situação não chegasse a isso. “Eu sabia que ele tinha razão, teoricamente”, disse ele. “Mas eu tinha alguma esperança, e ele também, de que, com toda a liquidez que havia dos investidores, depois de uma certa queda chegaríamos ao fundo, e que a queda terminaria.”
Ainda na segunda-feira passada, Paulson estava ouvindo de legisladores democratas e republicanos sêniores, incluindo o líder da maioria na Câmara, Steny H. Hoyer, e o deputado de Ohio John A. Boehner, líder republicano da Câmara, que não havia chances de o Congresso aprovar qualquer legislação antes de seus membros deixarem a cidade, em setembro. Mesmo o deputado Barney Frank, proponente de um papel mais ativo do governo no mercado, disse na segunda que a questão teria que ser resolvida pelo próximo presidente e pelo novo Congresso, em setembro.

Na terça, porém, os problemas só estavam se agravando. O Lehman Brothers entrara com pedido de concordata. O Merril Lynch concordara em ser comprado pelo Bank of América, e a AIG estava à beira do colapso. Paulson e Bernanke montaram uma operação de US$ 85 bilhões de socorro à AIG e a apresentaram a Bush.

Mas os dois avisaram ao presidente que a operação talvez não fosse o suficiente para estabilizar a crise mais ampla. Um alto funcionário da administração, que pediu anonimato para comentar deliberações internas, parafraseou nos seguintes termos a mensagem que Bernanke e Paulson transmitiram a Bush: “É possível que depois disto ainda haja problemas, e, se houver, vamos procurá-lo outra vez”.

Eles o fizeram dois dias mais tarde, quando a queda vertiginosa de ações e o congelamento do mercado de crédito deixaram claro que a estratégia caso por caso não estava funcionando. Paulson tinha conversado com Bush ao telefone ao longo de toda a quarta e a manhã da quinta. A decisão de tomar uma medida radical, que abrangesse o sistema inteiro, foi finalmente tomada apenas após uma seqüência interminável de teleconferências envolvendo funcionários do Fed, do Tesouro e da “Securities and Exchange Commission” (órgão que regula o mercado de capitais), recordou um participante, quando Bernanke declarou: “Temos que ir ao Congresso”. Paulson concordou.

Na tarde de quinta-feira, Bernanke e Paulson, acompanhados do presidente do SEC, Christopher Cox, foram à Casa Branca explicar seu plano. “O presidente disse “vamos fazer’”, contou um funcionário. “Não houve hesitação.” Em questão de horas, Paulson e Bernanke estavam no gabinete da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, fazendo um resumo para transmitir aos líderes do Congresso a plena gravidade da situação. Os parlamentares ficaram abalados, mas ofereceram apoio hesitante. Divididos entre os imperativos conflitantes de entrar em ação ou de voltar a seus Estados para fazer campanha, eles pareciam alternar-se entre gratidão e ressentimento com relação à nova dupla poderosa de Washington. Alguns falavam do “presidente Paulson”, e outros reclamavam de um presidente não eleito do banco central prestando socorro de centenas de bilhões de dólares.

Paulson e Bernanke foram criticados por agirem com agressividade excessiva e também por não serem agressivos o suficiente. O senador republicano Jim Bunning, do Kentucky, disse que eles estavam matando o livre mercado. R. Glen Hubbard, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Bush, achou que eles deveriam ter agido antes.

“A oportunidade para uma ação ousada obviamente teria sido melhor se tivessem agido meses atrás”, disse ele. “Mas antes tarde que nunca.” No final, o que deixou frustrados tantos parlamentares e economistas foi a percepção de que ninguém tinha uma idéia melhor a propor. Então eles esperaram Paulson e Bernanke lhes darem mais detalhes sobre o que queriam fazer.

Tradução de CLARA ALLAIN

17/09/2008 - 20:16h Crise se agrava e bancos nos EUA correm para fechar acordos

usa_po.jpg

JACK REERINK – REUTERS – AGENCIA ESTADO

NOVA YORK – Uma onda de desesperadas negociações entre instituições financeiras invadiu Wall Street nesta quarta-feira, dia em que as ações atingiram mínimas em três anos em meio a novos sinais sobre a fragilidade do setor.

O Morgan Stanley estava discutindo uma fusão com a potência bancária Wachovia, segundo noticiou o New York Times. O presidente-executivo John Mack recebeu um telefonema do Wachovia nesta quarta-feira, mas também está em busca de outras opções, segundo o jornal.

“Neste mercado, qualquer coisa é possível. Parece que o mercado quer que o modelo de banco de investimento desapareça”, disse Danielle Schembri, analista de corretoras do BNP Paribas em Nova York.

O Washington Mutual, maior banco de poupança do país, colocou-se à venda, segundo fontes, confirmando uma notícia do New York Times. Potenciais interessados incluem Citigroup, JPMorgan, Wells Fargo e HSBC, de acordo com as fontes.

Mais tarde o chairman do Wells Fargo disse que não iria revelar no que “nós estamos ou não interessados”.

Já a concessora de hipotecas britânica HBOS chegou a um acordo em ações com o Lloyds TSB para criar uma gigante hipotecária de 28 bilhões de libras (50 bilhões de dólares).

A onda de acordos em potencial segue o resgate surpresa, no valor de 85 bilhões de dólares, da seguradora AIG pelo Federal Reserve na véspera, um movimento que não conseguiu acalmar os mercados.

“Parem a insanidade”, pediu um relatório do UBS quando as ações financeiras estavam em queda livre.

O resgate da AIG segue o colapso do Lehman Brothers Holdings e a venda da Merrill Lynch para o Bank of America Corp, além de movimentos de bancos centrais em todo o mundo para inundar o sistema financeiro com recursos.

“O medo agora é sobre quem será o próximo”, afirmou John O’Brien, vice-presidente sênior do MKM Partners. “Quase parece que as pessoas pegam um livro e dizem qual será o próximo alvo. E isso espalha um temor contínuo.”

As ações do Morgan Stanley caíram 43 por cento e as do Goldman recuaram 27 por cento, mesmo após ambos divulgarem resultados trimestrais acima do esperado na terça-feira.

Isso levantou comentários de que os dois principais bancos de investimentos dos Estados Unidos que ainda restam podem ter que se juntar a um banco comercial para sobreviver à turbulência.

“Acho que o Goldman Sachs e o Morgan Stanley se tornarão parceiros de dança. Eles não querem ser… a vítima desta semana”, disse William Larkin, gestor de renda fixa do Cabot Money Management.

O custo de proteção da dívida do Morgan Stanley e do Goldman saltou, refletindo os temores dos investidores de que seus títulos não sejam mais seguros que aquelas considerados como “junk”. O porta-voz do Goldman Lucas van Praag disse que a queda dos papéis da empresa é “resultado de um temor completamente irracional e não é baseado em fundamentos”. O Morgan Stanley culpou os investidores de curto prazo.

Enquanto isso, a Casa Branca disse estar “preocupada sobre mais empresas”.

E em um sinal de uma ação regulatória com pouco efeito aparente, a SEC, o órgão regulador do mercado de capitais dos EUA, restringiu as vendas a descoberto.

“Parece que a SEC está um dia atrasada… O Morgan Stanley claramente está na mira dos vendedores a descoberto”, disse Andrew Brenner, vice-presidente sênior do MF Global.

As autoridades norte-americanas já gastaram 900 bilhões de dólares para aliviar os problemas dos setores financeiro e imobiliário. Grande parte desse dinheiro pode ser recuperado, se os ativos não caírem ainda mais.

Neste ano, o governo já socorreu as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac e o Fed estruturou a venda do falido banco de investimento Bear Stearns ao JPMorgan Chase .

(Colaboraram Svea Herbst-Bayliss, Jon Stempel, Jennifer Ablan, Joseph Giannone, Jeffrey Hodgson e Kevin Plumberg)

17/09/2008 - 12:52h 1929 pode acontecer de novo?

José Luis Oreiro e Gabriel Coelho Squeff – VALOR

“O evento econômico mais importante do período Pós-Segunda Guerra mundial foi algo que não aconteceu: não houve uma grande e prolongada depressão”. Essa frase do economista pós-keynesiano americano Hyman Minsky abre o capítulo introdutório do seu livro clássico: “Pode ‘aquilo’ acontecer de novo?”, publicado em 1982. Por “aquilo”, Minsky se referia à Grande Depressão de 1929, o evento mais traumático da história econômica dos Estados Unidos no século XX. Nesse livro, Minsky procura responder a uma questão fundamental, a saber: que ou quais razões têm impedido que a instabilidade crônica das economias de mercado se traduza numa queda profunda e prolongada do nível de atividade econômica, tal como ocorreu nos EUA e demais países desenvolvidos na década de 1930?

Essas questões ganham uma importância redobrada no atual cenário econômico internacional. Em apenas sete dias observou-se: 1) o anúncio de que o Tesouro americano assumiu o controle das gigantes do mercado hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac, conjuntamente a um aporte de US$ 200 bilhões nessas instituições; 2) o pedido de concordata do quarto maior banco do país, o Lehman Brothers; e 3) a solicitação de empréstimo da ordem de US$ 40 bilhões da seguradora AIG ao Federal Reserve (Fed). Como resultado, as principais bolsas de valores caíram: o Ibovespa teve o pior resultado dos últimos sete anos (-7,59%), o índice Dow Jones perdeu 4,42% e o Nasdaq 3,6%; comportamento similar foi observado nas bolsas de valores do Leste Asiático e na Europa Ocidental. Ao que tudo indica, a crise internacional, iniciada em meados do ano passado como decorrência do colapso do mercado de crédito subprime nos Estados Unidos, não só está bem longe do fim, como ainda parece ser muito mais grave do que a maior parte dos analistas acreditava até então. Nesse contexto, coloca-se mais uma vez a pergunta de Minsky: “Pode acontecer de novo?”.

De acordo com Minsky, foram duas as razões pelas quais uma Grande Depressão não surgiu no mundo capitalista desenvolvido, principalmente nos Estados Unidos, no período Pós-Segunda Guerra mundial. Em primeiro lugar, os bancos centrais do mundo inteiro, particularmente o Fed, aprenderam com a crise de 1929 que a sua função primordial é garantir o funcionamento adequado do sistema financeiro, fornecendo a liquidez necessária para a realização de suas operações. Quando a estabilidade do sistema financeiro está ameaçada devido a uma crise de liquidez, os bancos centrais devem deixar de lado quaisquer outros objetivos de política monetária, em especial o de controle da inflação. Se não o fizerem, tal como o Fed não fez na década de 1930, o resultado será o um “colapso do crédito”, com efeitos devastadores sobre o nível de produção e de emprego. Nesse cenário, é preferível “salvar alguns pecadores” (ou seja, impedir que bancos que se arriscaram demais na fase de expansão quebrem) do que permitir, em nome do combate ao “risco moral”, que os inocentes venham a perecer (ou seja, todos os demais indivíduos que não tiveram nenhuma participação direta na euforia especulativa).

A segunda razão é que o orçamento e os gastos do governo passaram a responder por um percentual muito maior do PIB no período Pós-Segunda Guerra mundial do que na década de 1930. O orçamento público funciona como uma espécie de estabilizador automático do nível de atividade econômica. Quando a produção e o emprego se contraem em função de uma diminuição da demanda agregada induzida, por exemplo, pela queda do consumo do setor privado, a arrecadação de impostos diminui e os gastos do governo aumentam (em função, por exemplo, do pagamento de seguro desemprego). O aumento do déficit fiscal do governo atua no sentido de sustentar o volume agregado de lucros, permitindo assim às empresas obterem um fluxo de caixa suficiente para fazer frente às suas obrigações com os bancos. A sustentação dos lucros por intermédio do aumento do déficit público impede que a economia entre num processo de “deflação de ativos”, no qual as firmas são obrigadas a vender seus ativos com maior liquidez para fazer frente às suas obrigações com os bancos comerciais, o que induziria uma queda dos preços dos ativos de capital, a qual teria efeitos negativos sobre as decisões de investimento das empresas e, portanto, sobre a demanda agregada, aprofundando a queda do nível de atividade econômica.

Em resumo, para Minsky uma grande depressão pode ser evitada se duas condições forem atendidas: 1) os bancos centrais devem atuar como “emprestadores de última instância” para impedir o aprofundamento de uma crise de liquidez; 2) o Tesouro deve sustentar os lucros a nível agregado por intermédio de uma política deliberada de aumento do déficit público.

Essas duas condições têm sido atendidas pelo Fed e pelo Tesouro dos EUA. O primeiro tem atuado intensamente por meio de suas linhas de redesconto para proporcionar a liquidez necessária ao funcionamento “normal” do sistema financeiro. Mais precisamente, o banco central dos EUA já emprestou centenas de bilhões de dólares a instituições financeiras em dificuldades para evitar o colapso das mesmas. O Tesouro americano, por sua vez, não só adotou uma política fiscal expansionista por intermédio de uma redução temporária do imposto de renda das pessoas físicas, como ainda socorreu com títulos públicos as operações das duas maiores empresas de hipoteca americanas.

Então podemos dormir tranqüilos, confiantes de que nada parecido com a crise de 1929 pode ocorrer outra vez? Não necessariamente. Somente a absorção das operações da Fannie Mae e da Freddie Mac no orçamento do governo americano aumenta o problema fiscal dos EUA. Sem contar as operações dessas empresas, o endividamento público dos EUA é superior a US$ 5 trilhões. O passivo dessas empresas é de um montante igual a esse valor. Se somarmos os dois valores, então teremos um passivo exigível do governo americano de cerca de US$ 10 trilhões, ou cerca de 80% do PIB dos EUA. O déficit fiscal para o ano fiscal de 2008 está estimado em mais de US$ 400 bilhões. Esses números indicam que o instrumento fiscal está bastante sobrecarregado. E se for necessário um novo pacote de estímulo fiscal para impedir que a economia entre em recessão, o Tesouro americano terá condições, nesse cenário, de aumentar o seu déficit? Até quando os mercados financeiros estarão dispostos a comprar títulos do governo americano num contexto de endividamento alto e crescente?

Não existem respostas prontas para essas perguntas. A única coisa que podemos fazer é torcer para que a resposta a elas seja “sim”. Do contrário, a pergunta lançada por Minsky há aproximadamente 25 anos poderá ser respondida de maneira afirmativa.

José Luis Oreiro é professor do Departamento de Economia da UNB e pesquisador do CNPq. E-mail: jlcoreiro@terra.com.br. Página pessoal: www.joseluisoreiro.en.br .

Gabriel Coelho Squeff é economista da Finep. E-mail: gabriel@finep.gov.br.

17/09/2008 - 10:54h Medo, pavor e estatização

VINICIUS TORRES FREIRE

Folha SP 

http://www.journaldunet.com/economie/expliquez-moi/victimes-crise-financiere/index.jpg

Mercado congelou, à espera da estatização da AIG, maior seguradora dos EUA, enfim anunciada às 22h de ontem

O MUNDO parecia mais calmo ontem, depois de mergulhar no vale de segunda-feira? “Se sobe algum som deste declive… não é silvo de serpentes, esquecidas de morder, como abstratas ao luar”, dizia Drummond na “Cantiga de Enganar”. As serpentes do mercado estavam esquecidas de morder, congeladas de medo, à espera do que seria feito da moribunda AIG, maior seguradora dos EUA, falecida ontem.
Para contrabalançar essa poesia deslocada, cite-se um blog de Wall Street a respeito dos efeitos da quebra da AIG, que faria “a do Lehman parecer uma espinha no traseiro de um elefante” (cortesia de Todd Harrison, do “Minyanville”).
O governo dos EUA resolveu pagar para não ver a explosão da empresa. Às 22h de ontem, o Fed, o banco central americano, anunciou que emprestaria até US$ 85 bilhões à AIG, a 11% ao ano. Quase 80% da empresa, que será desmembrada e vendida a fim de cobrir parte do rombo, agora pertence de fato ao governo. Durou pouco, menos de dois dias, a pose de “deixa quebrar”. Não dava pé. Atrás das cortinas, o mercado ontem era puro medo e pavor.
Um termômetro do medo nos mercados é a taxa de juros dos títulos do Tesouro americano. Quando o medo cresce, o dinheiro grosso compra tais papéis. Quanto maior a procura, menor a taxa de juros que tais títulos pagam. Ontem as taxas dos papéis de curto prazo (três e seis meses) chegaram aos níveis daquelas de quando o Bear Stearns quebrou, em março (então se dizia que o “pior havia passado”, recorde-se).
Pela manhã, os bancos centrais de EUA, Europa, Inglaterra, Japão etc.
emprestaram mais dinheiro para os bancos, que se recusavam a negociar entre si, por medo de calote. O Fed ofereceu mais US$ 50 bilhões de liquidez, após os US$ 70 bilhões de segunda-feira. O BC Europeu ofertou o equivalente a mais US$ 98 bilhões (US$ 42 bilhões na segunda). Os maiores bancos do mundo discutiam ontem a criação de um fundo privado para socorrer confrades.
Os juros interbancários foram ao nível mais alto desde 2001. Para operações compromissadas (empréstimos curtos, com garantias, entre bancos), os bancos europeus só aceitavam títulos do Tesouro alemão. Sim, isso pode ceder de um dia para o outro. Mas, por ora, um dia tornou-se quase “longo prazo”. Por falar nisso, no Brasil, longe da crise no que diz respeito à saúde bancária, o Banco Central enxugou ontem R$ 47 bilhões (US$ 26 bilhões) da praça, na contramão do planeta.
Entre os motivos maiores do medo no mundo rico estava o destino da AIG, que se sabia funesto. Afora os negócios convencionais de seguro, a companhia entrou no mercado de contratos de seguro contra calotes de dívidas (”credit default swaps”, CDS), títulos que rendem uma prestação em troca da cobertura de eventuais calotes. Bancos compraram zilhões em CDS da AIG.
Isto é, grandes bancos, entre outros, estão com papéis que podiam não valer nada. De resto teriam de baixar o valor dos créditos que detêm, que ficariam sem proteção caso seu seguro fosse ao brejo. Em suma, registrariam mais perdas contábeis.
Para piorar, o medo de calotes em série eleva o custo de seguro da dívida e, assim, do crédito, que se torna ainda mais raro. O que piora a crise.

vinit@uol.com.br

15/09/2008 - 16:52h “Nightmare on Wall Street”

Da “Economist”, sob a manchete “Pesadelo em Wall Street”:

_ Um fim de semana de alta dramaticidade remodela a finança americana… Os acontecimentos de domingo 14 e do dia anterior foram extraordinários. A situação permanece fluida e os investidores desembestaram para a segurança relativa dos títulos do Tesouro americano. Bolsas tropeçam ao redor do mundo. A crise está entrando em uma nova e perigosa fase. O fim do Lehman sublinha a incapacidade ou a falta de vontade do setor de resgatar seus doentes. O Washington Mutual está lutando pela sobrevivencia. Ainda mais preocupante, também a AIG, maior seguradora da América. A dor está longe de terminar _e pode muito bem se espalhar. Por mais espetacular que tenha sido o fim de semana, vem aí mais drama.

Nelson de Sá – Toda Mídia

 

 

American finance

Nightmare on Wall Street

Sep 15th 2008 | NEW YORK AND WASHINGTON,DC
From Economist.com

A weekend of high drama reshapes American finance

AP

EVEN by the standards of the worst financial crisis for at least a generation, the events of Sunday September 14th and the day before were extraordinary. The weekend began with hopes that a deal could be struck, with or without government backing, to save Lehman Brothers, America’s fourth-largest investment bank. Early Monday morning Lehman filed for Chapter 11 bankruptcy protection. It has more than $613 billion of debt.

Other vulnerable financial giants scrambled to sell themselves or raise enough capital to stave off a similar fate. Merrill Lynch, the third-biggest investment bank, sold itself to Bank of America (BofA), an erstwhile Lehman suitor, in a $50 billion all-stock deal. American International Group (AIG) brought forward a potentially life-saving overhaul and went cap-in-hand to the Federal Reserve. But its shares also slumped on Monday.

The situation remains fluid, and investors stampeded towards the relative safety of American Treasury bonds. Stockmarkets tumbled around the world (though some Asian bourses were closed) and the oil price plummeted to well under $100 a barrel. The dollar fell sharply, and the yield on two-year Treasury notes fell below 2% on hopes the Federal Reserve would cut interest rates at a scheduled meeting on Tuesday. American stock futures were deep in the red too. Spreads on risky credit, already elevated, widened further.

With these developments the crisis is entering a new and extremely dangerous phase. If Lehman’s assets are dumped in a liquidation, prices of like assets on other firms’ books will also have to be marked down, eroding their capital bases. The government’s refusal to help with a bail-out of Lehman will strip many firms of the benefit of being thought too big to fail, raising their borrowing costs. Lehman’s demise highlights the industry’s inability, or unwillingness, to rescue the sick, even when the consequences of inaction are potentially dire.

The biggest worry is the effect on derivatives markets, particularly the giant one for credit-default swaps. Lehman is a top-ten counterparty in CDSs, holding contracts with a notional value of almost $800 billion. On Sunday, banks called in their derivatives traders to assess their exposures to Lehman and work on mitigating risks. The Securities and Exchange Commission, Lehman’s main regulator, said it is working with the bank to protect clients and trading partners and to “maintain orderly markets”.

Government officials believed they had persuaded a consortium of Wall Street firms to back a new vehicle that would take $40 billion-70 billion of dodgy assets off Lehman’s books, thereby facilitating a takeover of the remainder. But the deal died when the main suitors, BofA and Barclays, a British bank, walked away on Sunday afternoon. Both were unwilling to buy the firm, even shorn of the worst bits, without some sort of government backstop.

But Hank Paulson, the treasury secretary, decided to draw a line and refuse such help. After the Fed had bailed out Bear Stearns in March and the Treasury had taken over Fannie Mae and Freddie Mac last weekend, expectations were high that they would do the same for Lehman. And that was precisely the problem: it would have confirmed that the federal government stood behind all risk-taking in the financial system, creating moral hazard that would take years to undo and expanding taxpayers’ liability almost without limit. Conceivably, Congress could have denied Mr Paulson the money he needed even if he had been inclined to bail Lehman out.

This left Lehman with no option but to prepare for bankruptcy. Though the bank has access to a Fed lending facility, introduced after Bear’s takeover by JP Morgan Chase, the collapse of its share price left it unable to raise new equity and facing crippling downgrades from rating agencies. Moreover, rival firms that had continued to trade with it in recent weeks—at the urging of regulators—had begun to pull away in the past few days. The inability to find a buyer is a huge blow to Lehman’s 25,000 employees, who own a third of the company’s now-worthless stock; in such a difficult environment, most will struggle to find work at other financial firms. It also makes for an ignominious end to the career of Dick Fuld, Lehman’s boss since 1994, who until last year was viewed as one of Wall Street’s smartest managers.

Merrill’s rush to sell itself was motivated by fear that it might be next to be caught in the stampede. Despite selling a big dollop of its most rotten assets recently, the market continued to question its viability. Its shares fell by 36% last week, and hedge funds had started to move their business elsewhere. Its boss, John Thain, concluded that it needed to strike a deal before markets reopened. It approached several firms, including BofA and Morgan Stanley, but only BofA felt able to conduct the necessary due diligence in time.

Not only has Mr Thain managed to shelter his firm from the storm, but he has also secured a price well above its closing price last Friday, $29 per share compared with $17. How he managed that in such an ugly market is not yet clear. Ken Lewis, BofA’s boss, is no fan of investment banking, but he is a consummate opportunist, and he has coveted Merrill’s formidable retail brokerage. Still, the deal carries risks. It will be a logistical challenge, all the more so since BofA is in the middle of digesting Countrywide, a big mortgage lender. Commercial-bank takeovers of investment banks have a horrible history because of the stark cultural differences. And it is not clear if BofA has a clear picture of Merrill’s remaining troubled assets.

The takeover of Merrill leaves just two large independent investment banks in America, Morgan Stanley and Goldman Sachs. Both are in better shape than their erstwhile rivals. But this weekend’s events cast a shadow over the standalone model, with its reliance on leverage and skittish wholesale funding. Spreads on both banks’ CDSs, which reflect investors views of the probability of default, soared on Monday.

Wall Street has company in its misery. Washington Mutual, a big thrift, is fighting for survival under a new boss. Even more worryingly, so is AIG, America’s largest insurer, thanks to a reckless foray into CDSs of mortgage-linked collateralised-debt obligations. Investors have fled, fearing the firm will need a lot more new capital than the $20 billion raised so far. Prompted by the weekend bloodletting, AIG brought forward to Monday a restructuring that was to have been unveiled on September 25th. This was expected to include the sale of its aircraft-leasing arm and other businesses. It is also reported to be seeking a $40 billion in bridge loan from the Fed, to be repaid once the sales go through, in the hope that this will attract new capital, possibly from private-equity firms.

With Lehman left dangling, official attention is now turning to putting more safeguards in place to soften the coming shock to markets and the economy. The first step has been to encourage Lehman’s counterparties to get together and try to net out as many contracts as possible. On Sunday the Fed also expanded the list of collateral it will accept for loans at its discount window, to include even equities; and dealers may lend any investment-grade security, not just triple-A rated, to the Fed in exchange for Treasury bonds.

Markets are also pricing in some possibility that the Fed will cut its short-term interest rate target from 2% when it meets for a regularly scheduled meeting on Tuesday. That would be an abrupt turnaround from August, when officials figured their next move would be to raise rates, not lower them.

In a sign of how bad things are, even straitened banks are stumping up cash to help the stabilisation efforts. On Sunday, a group of ten banks and securities firms set up a $70 billion loan facility that any of the founding members can tap if it finds itself short of cash.

Even if markets can be stabilised this week, the pain is far from over—and could yet spread. Worldwide credit-related losses by financial institutions now top $500 billion, of which only $350 billion of equity has been replenished. This $150 billion gap, leveraged 14.5 times (the average gearing for the industry), translates to a $2 trillion reduction in liquidity. Hence the severe shortage of credit and predictions of worse to come.

Indeed, most analysts think that the deleveraging still has far to go. Some question how much has taken place. Bianco Research notes that while the credit positions of the 20 largest banks have fallen by $300 billion, to $1.3 trillion, since the Fed started its special lending facilities, the same amount has been financed by the Fed itself through these windows. In other words, instead of deleveraging, the banks have just shifted a chunk of their risk to the central bank. As spectacular as this weekend was, more drama is on the way.