28/10/2009 - 11:09h Brasil saindo da crise: Produção e salário real disparam em SP

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Bianca Ribeiro, de São Paulo – VALOR

A atividade industrial paulista registrou um grande salto em setembro e deu início a uma recuperação que deve se estender pelos próximos meses. Conforme a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o Indicador do Nível de Atividade (INA) da indústria de transformação cresceu 4,3% de agosto para setembro, em números ajustados sazonalmente. É a maior taxa de crescimento desde abril de 2008. Em agosto, o INA havia apontado baixa de 1%, segundo dados revisados.

“É o primeiro número incontestavelmente positivo e forte, que aponta para a continuidade dessa tendência nos meses que restam em 2009″, diz Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas Econômicas (Depecon) da Fiesp. Na sua avaliação, esse aumento ocorre em cenário “confortável” em relação ao uso da capacidade, que fechou o mês em 81,2%, ante 82,6% apurados um ano antes.

As vendas reais aumentaram 7,5% na passagem de agosto para setembro e subiram 3,3% em relação a setembro do ano passado. Além disso, os salários reais e as horas trabalhadas na produção, outros quesitos que compõem o INA, aumentaram 5,4% e 0,9%, respectivamente. Dos 17 setores analisados, 16 tiveram recuperação.

A força da expansão da indústria paulista em setembro surpreendeu economistas, que, no entanto, mantêm previsões mais conservadoras para a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do IBGE. Esse indicador, que representa a indústria nacional, deve subir pouco mais de 1% no período em análise (número dessazonalizado), na visão desses economistas.

Para Bernardo Wjuniski, da consultoria Tendências, a PIM deve apontar aumento de 1,1%, pois a mostra é mais abrangente e diversificada. Os bens de capital, por exemplo, que têm peso importante em São Paulo, encontram mais dificuldade para acelerar a retomada no resto do país.

Os dados da Fiesp mostram que no setor de máquinas e equipamentos a atividade cresceu 4,2% ante agosto, com ajuste sazonal, e as vendas aumentaram 9,4%. Na indústria de veículos, a atividade cresceu 6,4% em setembro ante agosto, com ajuste sazonal, e as vendas aumentaram 8,3%, em grande parte sustentada pela desoneração do IPI, que começou a se recompor neste mês.

Flávio Serrano, economista-sênior do BES, também acha que os dados da indústria de São Paulo não antecipam necessariamente um comportamento nacional da atividade. Ele acredita que a PIM deve registrar aumento de 1,4% em setembro, trajetória que, diz, pode ser considerada confortável como variação mensal até março do ano que vem, sem riscos inflacionários. “Ainda há muito espaço para recuperação”, resume Serrano.

Assim, os economistas não veem no crescimento da indústria paulista pressão suficiente para referendar uma eventual antecipação da alta do juro por parte do Banco Central. Para Bernardo Wjuniski, que prevê aumento da Selic apenas para setembro de 2010, a expansão “foi mais rápida do que o inicialmente previsto, mas ainda não é suficiente para indicar aperto monetário antecipado.”

Flávio Serrano avalia que riscos atrelados à expansão de atividade e a preços só começarão a ser contabilizados pelo BC a partir de abril, mas ele não crê em aumento de juro antes de 2011. Fernanda Feil, da Rosenberg Associados, também descarta esse tipo de discussão por enquanto.

27/10/2009 - 12:38h Sérgio Rosa diz que poder na Vale é compartilhado

Gestão empresarial: Segundo presidente da Previ, condução da companhia é equilibrada com demais sócios



Leo Pinheiro/Valor
Foto Destaque
Sérgio Rosa, presidente da Previ e do conselho da Vale, defende investimentos da mineradora no setor siderúrgico. “Temos de olhar o consumo 10, 20 anos à frente”

Cristiano Romero, do Rio – VALOR

Maior acionista da Vale, a Previ, a fundação de previdência dos funcionários do Banco do Brasil (BB) quer, a exemplo do governo, que a empresa invista na produção de aço no Brasil. Nesta entrevista ao Valor, o presidente da Previ, Sérgio Rosa, rompeu o silêncio a que vinha se impondo desde o início da polêmica envolvendo o presidente Lula e o principal executivo da Vale, Roger Agnelli.

“Dizer que hoje estamos com sobreoferta de aço no mundo não significa muito”, disse Rosa, rejeitando o argumento, utilizado inclusive pelo empresário Jorge Gerdau, de que existe excesso do produto no mundo. “Não se pode decidir investimento em aço com base no consumo de hoje.”

O dirigente do maior fundo de pensão do país, com patrimônio de R$ 130 bilhões, contou que muitos empresários usam os fundos de pensão para alavancar negócios sobre os quais, depois, as fundações não têm ingerência. Rosa, que também preside o conselho de administração da Vale, assegurou que, no caso da mineradora, há um “compartilhamento” de poder entre a Previ e o Bradesco. O governo Lula, informou, não interfere nos investimentos do fundo. “O nível de autonomia é muito grande.”

Presidente da Previ há quase sete anos – seu segundo mandato termina no próximo ano -, Rosa revelou que, ao contrário de outros fundos, o do BB apostou no risco e saiu vitorioso. Em dez anos, a rentabilidade acumulada atingiu 750%, face a 400% da taxa Selic.

Valor: Faz sentido a Vale controlar negócios na siderurgia?

Sérgio Rosa: A Vale tem investimentos em siderurgia. Há uma estratégia nessa área. Não é uma área que passe à margem dos planos estratégicos da empresa.

Valor: Qual é a lógica desse investimento?

Rosa: Ela não vende minério se ninguém quiser produzir aço.

Valor: Há excesso de oferta no mercado mundial. Não é um equívoco investir em aço no momento?

Rosa: Não se pode decidir investimento em aço com base no consumo de hoje. Todo investimento tem um período de maturação de três, quatro anos. É preciso olhar para 10, 20 anos à frente. Dizer que hoje estamos com sobreoferta de aço não significa muito para quem vai tomar decisões de investimento olhando pra frente.

Valor: Por que isso pode ser um bom negócio?

Rosa: Se acreditarmos que o Brasil vai ter uma indústria de petróleo forte, demandando investimentos em plataformas e navios, gastos pesados em infraestrutura, vamos precisar de aço. A perspectiva do consumo de aço de hoje não é a mesma dos próximos anos.

Valor: A Previ está sobreaplicada na Vale. Vai vender um pedaço?

Rosa: Não estamos negociando nada. Temos prazo para fazer isso. Se interpretarmos a regulamentação de forma mais estrita, temos até 2014 para executar nosso plano de enquadramento. Originalmente, o prazo era 2012. Existe uma brecha na regulamentação para entender que, se esse desenquadramento for igual ou menor ao superávit que o plano (de benefícios) tem, podemos carregá-lo por mais tempo. Esta é uma interpretação que ainda não está clara, não sabemos se é assim que a Secretaria de Previdência Complementar (SPC) vai entender, mas é algo para examinarmos. Independentemente disso, quanto mais a Vale cresce, mais ela fica proporcionalmente grande no nosso portfólio. No tempo, a tendência será diminuir a nossa participação, mas temos condições de examinar uma boa oportunidade para nós e para a empresa, até porque não imaginamos vender toda a nossa parte.

Valor: O que fez a Previ, em meados dos anos 90, optar por investir em renda variável, numa hora em que a renda fixa era extremamente atraente por causa dos juros altos?

Rosa: Eu não estava aqui quando o portfólio foi montado. A maior parte dos investimentos ocorreu em função das privatizações, mas acho que houve uma combinação sui generis.

Valor: Que combinação?

Rosa: De um lado, havia os representantes do BB e do governo buscando contribuir para o processo de privatização, orientando o fundo a integrar os consórcios. Por outro lado, havia representantes dos participantes dentro da Previ com uma visão nacionalista, desenvolvimentista, dizendo: ‘já que vai privatizar, vamos entrar. Somos investidores de longo prazo, então, vamos ajudar essas empresas a não caírem na mão de qualquer um’. Não houve um grande plano de investimento.

Valor: E hoje, o governo decide os investimentos da Previ?

Rosa: Não. O nível de autonomia é muito grande. Obviamente, estamos sempre atentos a interpretar as políticas de governo, uma vez que elas influenciam o ambiente econômico. Fazemos isso como qualquer investidor. Temos tido um diálogo muito constante com o governo. Até em coisas que não andaram muito, como as parcerias público-privadas.

Valor: Recentemente, o Conselho Monetário Nacional (CMN) autorizou os fundos a aplicarem até 10% do patrimônio no exterior. A Previ planeja fazer isso?

Rosa: Vamos estudar ao longo de 2010. Ter liberdade para aplicar é muito bom porque os fundos competem no mercado e precisam se igualar ao máximo com os outros atores. A contrapartida da liberdade é muita prestação de contas e responsabilidade pelo que o fundo faz. Há uma coisa muito pesada sobre fundos de pensão. Às vezes, o fundo tem um resultado positivo em 99% do que faz, mas perde em 1% e, por isso, sofre muitas críticas.

Valor: Essa cobrança não decorre do fato de o Tesouro ser o garantidor dos fundos ligados a empresas estatais?

Rosa: Ele não é.

Valor: Se a Previ quebrar, o Tesouro não tem que cobrir os prejuízos?

Rosa: Não. Essa é uma compreensão errada. No caso do plano de benefício definido (o Plano 1 da Previ), há o compromisso da patrocinadora, o BB, para equacionar os déficits.

Valor: Se o BB tiver que fazer isso, a conta não acaba batendo no Tesouro?

Rosa: Esse raciocínio não é tão direto. Se o BB tem lucro, vai tirar isso (um eventual prejuízo do fundo) dele, dos acionistas e do Tesouro, que é o acionista majoritário do banco. É do jogo. Mesmo assim, a conta é repartida meio a meio com os participantes do fundo. Há, portanto, um limite desse esforço do Tesouro caso o fundo quebre, e nós estamos longe disso, não só a Previ como quase todos os fundos. Essa incompreensão sobre o que são os fundos vem do passado.

Valor: De quando?

Rosa: Até 1996, tivemos algumas CPIs de fundos, e isso foi reeditado em 2005 (durante a crise de mensalão). A CPI de 1996 fez um retrato muito negativo dos fundos. Na CPI de 2005, o relatório foi quase um atestado de bons serviços, um ‘nada-consta’ para nós. Mas existe um preconceito contra os gestores dos fundos. Isso é ruim. Por isso, há essa tese de que é preciso colocar muita trava na ação dos fundos. E há a memória de que os fundos fazem investimentos orientados politicamente e não pela rentabilidade e o mercado. Temos trabalhado muito para tentar mudar essa cultura, sabendo que ela não muda de uma hora para outra.

Valor: Os fundos são usados para alavancar empresários, que depois mandam nas empresas?

Rosa: Há empresários que querem mandar no corpo inteiro. Para não pagar por isso, eles compram uma perna. A outra perna eles querem usar os fundos de pensão para comprar, mas mandam no corpo inteiro.

Valor: Na Vale, a Previ é a maior acionista, mas não é o Bradesco quem manda?

Rosa: Não é assim. Temos ali uma condução muito mais equilibrada com os outros sócios, um compartilhamento.

Valor: No governo, é dito que os fundos estão numa posição desigual com os sócios privados?

Rosa: No caso da Previ, não é assim.

Valor: Quanto a Previ perdeu na crise?

Rosa: Aproximadamente R$ 20 bilhões.

Valor: O fato de o fundo estar sobreaplicado na Vale não acarretou uma perda maior, uma vez que as empresas exportadoras estão sofrendo mais?

Rosa: Perdemos menos por causa do critério de avaliação da Vale, o critério econômico. A Vale subiu muito no primeiro semestre de 2008 e depois caiu, mas a nossa avaliação era do fim de 2007, então, quando a reavaliamos no fim de 2008, já não pegamos esse sobe-e-desce das ações. Quando comparamos o balanço de 2008 com o de 2007, ela ficou estável. Dos R$ 20 bilhões que perdemos em toda a carteira, estamos próximos de recuperar tudo. A bolsa fechou 2007 próxima dos 63 mil pontos. Já voltou a esse patamar.

Valor: Com a queda da taxa Selic a um dígito, o que muda na vida dos fundos de pensão?

Rosa: A Previ já tem um portfólio bastante diversificado. Historicamente, migramos para aplicações fora da faixa da Selic, tanto que nossa rentabilidade nos últimos anos tem sido muito superior à média da Selic. Temos hoje mais de 60% dos recursos aplicados em renda variável, 3% em imóveis e cerca de 30% indexados à Selic.

Valor: A Selic responde por quanto da rentabilidade dos seus ativos?

Rosa: A Selic é praticamente o nosso piso de rentabilidade. Em dez anos, a Previ teve uma rentabilidade de aproximadamente 750%, enquanto a Selic no mesmo prazo acumulou 400%. Isso mostra que o investimento em renda variável tem puxado bem para cima a nossa rentabilidade. Isso não é verdade para a maioria dos fundos de pensão.

Valor: Por quê?

Rosa: Ao contrário da Previ, a maioria dos fundos tem no máximo 10% dos ativos aplicados em renda variável. Foi uma decisão estratégica da Previ tomada lá atrás. Muitos fundos de pensão estão associados ainda à ideia da renda fixa.

Valor: Por que eles são mais conservadores?

Rosa: Em parte, por causa da memória de rentabilidade alta da renda fixa, que não desaparece de uma hora para outra. Ainda ontem, havia títulos do Tesouro de longo prazo pagando juros de 13% ao ano. Quando o fundo não tem uma boa estrutura para gerir o risco de ativos mais alternativos, um título de 12 anos a 13% ao ano ainda é uma zona de conforto muito grande. Falta também um pouco de incentivo para buscar essa rentabilidade adicional em nome do participante do fundo.

Valor: De que forma?

Rosa: A resolução 3.792, do CMN, trouxe uma abertura para cada fundo adotar políticas próprias de controle de risco. Até então, a gente tinha que prestar contas de risco à SPC com base na tal ‘divergência não planejada’.

Valor: Como funcionava essa regra?

Rosa: Mês a mês, o fundo tinha que analisar o desempenho da sua carteira frente ao seu índice atuarial ou a um indexador escolhido do mercado. Quando o fundo escolhia um investimento que tinha um grau de volatilidade maior no curto prazo, embora no longo prazo ele pudesse dar resultados muito superiores, com a medida de risco amparada na ‘divergência não planejada’, calculada mensalmente, o fundo parecia estar numa situação de alto risco. Todo mês o resultado fugia do índice atuarial ou do índice de mercado escolhido.

Valor: O que mudou?

Rosa: Com a 3.792, passamos a pensar medidas de risco mais apropriadas dos investimentos. Se os fundos de pensão migrarem para essas novas medidas, isso pode melhorar a compreensão geral do que é uma alocação de longo prazo. Esta é a grande vantagem de um fundo de pensão. Diferentemente da maior parte da indústria financeira, que tem que olhar o curto prazo e a liquidez quase diária, com cotistas entrando e saindo o tempo todo, o fundo de pensão tem uma estabilidade para o investimento muito maior.

Valor: A aposta no risco é o melhor caminho?

Rosa: Uma estatística da bolsa americana, válida para as bolsas dos países mais desenvolvidos e que provavelmente vai começar a valer para o Brasil, mostra que, quando se calculam períodos de aplicação de 30 anos, em nenhum período, em qualquer parte do tempo, o investimento em bolsa perde para renda fixa. Há, portanto, um prêmio pela alocação de longo prazo em ativos considerados de maior risco e que são mais voláteis no curto prazo.

Valor: Não é arriscado investir o dinheiro das aposentadorias de milhares de pessoas do fundo em renda variável?

Rosa: Um livro antigo de Peter Drucker (filósofo e economista, de origem austríaca, considerado o pai da gestão moderna) diz que um fundo de pensão faz 10 investimentos: sete não vão dar certo, dois vão mais ou menos se pagar e apenas um vai pagar a conta de todos. O problema é que você tem que explicar isso e, às vezes, não consegue. Mas Drucker fala que isso é essencial para a economia. Se você não fizer isso, não criará nada novo.

Valor: A meta atuarial da Previ hoje é 5,75% ao ano, além da variação do INPC. Com a queda dos juros, vai ser necessário alterá-la?

Rosa: Nossa expectativa é que a rentabilidade seja superior a isso ao longo do tempo. Se mudarmos, será por uma questão de conservadorismo, prudência, algo permitido pelo superávit que temos hoje. Se tivéssemos que fazer essa mudança e ela fosse onerar os participantes, talvez, pudéssemos adiar isso porque efetivamente temos superávit e uma perspectiva de superávit superior à meta. Só neste ano, estamos com rendimento no Plano 1 (o dos aposentados com benefício definido) de 18%. No Plano 2 (em que a contribuição é definida), a taxa atuarial tem uma importância menor, portanto, temos um pouco mais de liberdade para discutir isso.

Valor: O governo está impondo uma mudança de meta?

Rosa: O governo vem tratando disso não como uma imposição, mas como uma diretriz. Vem apenas comentando o fato, sobretudo com os fundos que estão muito ancorados em renda fixa, mostrando que, se a estratégia de alocação continuar sendo essa, provavelmente os fundos vão ter que lidar com isso. É preciso criar uma cultura própria de investimento de fundo de pensão. A Previ criou uma história. Mais recentemente, a Petrus (fundação dos funcionários da Petrobras) e a Funcef (da Caixa Econômica Federal) passaram a ter uma história um pouco mais parecida, mas isso não gerou um pensamento hegemônico em termos de estratégia de investimento. Essas histórias ainda são vistas como algo isolado, que deu certo, mas que não pode ser replicado. É preciso criar uma cultura própria de investimento de longo prazo, inexistente no país. O Brasil não tem um Warren Buffett. Os Estados Unidos, por exemplo, têm uma indústria de fundos de pensão desde os anos 50.

Valor: O contencioso com Daniel Dantas chegou ao fim?

Rosa: Acho que sim. De vez em quando, ainda surgem alguns desdobramentos no âmbito judicial. Há ainda investigação no TCU sobre o contrato de ‘put’ que fizemos com o Citibank em 2005. Tem ainda a operação Satiagraha, em que somos testemunhas. Temos uma sociedade com ele numa pequena empresa, a Sanepar, no Paraná. Havia ali um problema de contratação muito inadequada, que dificultava o controle dos serviços contratados pela Previ (junto ao grupo Opportunity).

Valor: Isso ocorreu por incompetência da então diretoria da Previ ou por dirigismo político do governo (em 1998)?

Rosa: Houve uma imperícia, uma certa falta de acautelamento em definir as premissas concretas, a governança do próprio fundo (o CVC). Aquele era um fundo que tinha que ter governança. Hoje, temos um comitê de investimento na Previ que revisa as propostas que o gestor traz. Há uma condição de prestação de contas e até a possibilidade de substituir o gestor a partir de uma série de cláusulas. A gente aprende. Embora eu não tenha provas, acho também que houve uma certa influência (política) para que essa associação (com o Opportunity) fosse feita num padrão que não era muito rigoroso. Não tenho evidentemente elementos para dizer isso categoricamente, mas é essa a avaliação.

22/10/2009 - 13:54h Financial Times defende taxação da entrada de capitais no Brasil

Toda Mídia

NELSON DE SÁ -  FOLHA SP

nelsonsa@uol.com.br

“Good choice”

Em editorial, o “Financial Times” faz longa defesa da taxação em 2% da entrada de capital no Brasil. Começa dizendo que, “diferentemente da garota de Ipanema, o rebolado do real tem sido tudo menos gentil”, resultado de uma “paixão cega dos investidores estrangeiros -até que o governo disse basta”.
“Apesar dos investidores ofendidos”, escreve o “FT”, “foi uma boa escolha”.

Afirma que ela se justifica, não para conter a valorização do real, e sim diante da “causa profunda” que é a entrada de capital em crescente intensidade. Falando em “atração fatal”, diz que “este amor pelo samba pode ser coisa boa demais: tem os ingredientes de uma bolha emergente clássica”.
Avalia que “o governo é sábio em se preocupar antes que seja tarde”. Que “implantou sua política com sensibilidade, a taxa é modesta e trata os investidores com honestidade, cobrando na entrada e não quando eles quiserem o dinheiro de volta”.


Em suma, “o Brasil bem-sucedido terá de viver com um real forte”, o que a taxação não muda, “mas ajuda a manter a tarefa administrável”.

JUROS ALTOS ATRAEM

bloomberg.com
Taxas de Brasil, Europa e EUA

No Brasil Econômico, 18h40, “Copom mantém juros inalterados em 8,75%”. Pouco antes, na Bloomberg, “Real sobe com aposta de que juros altos vão atrair investidores”, apesar da taxação de 2%.
Na TV Bloomberg original, “os investidores olham a alta taxa de juros e você realmente pode ver a diferença, 8,75%, Europa 1%, EUA 0%. É outra razão por que os investidores são atraídos ao real”.

FRUSTRANTE, MAS

cnbc.com
Na tela, “Brasil: a festa acabou”

A CNBC debateu a taxação e se “outros países vão seguir o Brasil”. De Tim Seymour, da Seygem Asset Management: “Para “hedge funds” como o nosso, foi frustrante”. Mas com Jogos, Copa “e sobretudo sua economia” o país é “fantástico”. Sugeriu comprar, “mas não pule na Petrobras amanhã”, espere “alguns dias”.

A BOLHA
O “Wall Street Journal” destacou as “palavras de medo de uma nova bolha” ouvidas num evento do Fed de San Francisco, sobre os emergentes. “Graças aos baixos juros nas economias desenvolvidas”, basta “emprestar dólares, usá-los para comprar, digamos, no Brasil, e você faz dinheiro (bem, você podia, até o Brasil pôr controles limitando a entrada de capitais)”.
Em outro texto, noticiou a “reação global ao declínio do dólar”, com o alerta de que “o Brasil não está sozinho”. Canadá e França ameaçam intervenção.

Leia a integra da coluna de Nelson de Sá na Folha SP

06/10/2009 - 10:54h País crescerá até 7% em 2010, prevê FGV

Para Ibre, economia retoma “exuberância” do período pré-crise; mercado volta a estimar expansão em 2009

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DA REDAÇÃO FOLHA SP

O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no ano que vem deve variar de 4,5% a 7%, de acordo com projeção do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da FGV (Fundação Getulio Vargas).
Segundo análise da instituição, uma alta de 7% resultaria de uma recuperação em forma de V, “na qual a intensidade da retomada é equivalente à da contração ocorrida na virada de 2008 para 2009″. “O crescimento de 7% [do PIB] não é, de forma alguma, inconcebível.”
A Carta do Ibre aponta que a economia brasileira está retomando a “exuberância” do nível de atividade pré-crise.
A expansão mais consistente em 2010, porém, poderá trazer o maior desafio ao Banco Central desde a implementação do regime de metas de inflação, em 1999.
Na análise do Ibre, se a economia caminhar no ano que vem para uma taxa de crescimento próxima de 7%, o BC “enfrentará a situação desconfortável de ter que puxar o freio da política monetária em plena campanha eleitoral”. Já o cenário de 4,5% seria de mais tranquilidade para o BC, que poderia, sem o fantasma da pressão inflacionária, manter a taxa básica de juros em 8,75% ao ano.
Entre os fatores que devem estimular a economia em 2010, está o aumento do salário mínimo. Pelas regras atuais, o reajuste deve ser feito pela taxa de inflação do ano mais a taxa de crescimento do PIB verificada dois anos antes, o que elevaria o mínimo para R$ 505,90.

Mercado
Pela primeira vez desde o fim de março, economistas consultados pelo BC esperam uma variação positiva do PIB em 2009. Segundo a pesquisa Focus da última semana, a projeção é de crescimento de 0,01%.
Na semana anterior, a previsão era de variação zero do PIB. Desde março, porém, o mercado vinha prevendo retração na economia.
Em relação à taxa Selic, a previsão para 2010 foi aumentada pela segunda semana seguida, passando de 9,50% ao ano para 9,75%. Para 2009, continuou nos atuais 8,75%.
A projeção para o IPCA chegou a 4,31% para este ano.
Com a Folha Online

19/08/2009 - 09:57h Saindo mais cedo da crise

Colunista

Cristiano Romero – VALOR

O Banco Central (BC) sinalizou que, depois de reduzir a taxa básica de juros (Selic) em cinco pontos percentuais, não há mais espaço para novos cortes no curtíssimo prazo. O BC está de olho no movimento de retomada da economia, que parece estar escapando da crise mundial mais cedo do que a maioria dos países. A boa notícia é que as expectativas de inflação seguem melhorando, o que poderá criar adiante espaço para mais uma rodada de alívio monetário.

O mercado, segundo o último boletim Focus, diminuiu as projeções de inflação para 2009 e 2010 – 4,37% 4,3%, respectivamente. Ambas estão, dessa forma, abaixo da meta oficial perseguida pelo BC – 4,5%. Um possível corte de juros não é automático. Cabe à autoridade monetária avaliar uma série de variáveis para se certificar de que não há, no horizonte previsível, pressão inflacionária se formando.

A Selic vem diminuindo desde 2003. Em alguns momentos, subiu, mas o importante é que a média histórica vem caindo de forma consistente. No governo, avalia-se que a queda ocorrida ao longo do ano, que derrubou a taxa nominal abaixo de dois dígitos, é estrutural, ou seja, veio para ficar.

A história recente mostrou que, antes da crise mundial, a economia brasileira podia crescer em torno de 5%, sem descontrole inflacionário. O que possibilitou elevar o crescimento potencial, que, antes de 2003, estava em torno de 2,5%, 3% ao ano, foi a adoção de uma política econômica amparada no tripé superávit primário-metas para inflação-câmbio flutuante e administrada com austeridade e persistência. Essa política deu previsibilidade aos agentes econômicos, estimulando os empresários a investir.

Nunca é demais lembrar que, no terceiro trimestre de 2008, antes da fase aguda da crise mundial, o Brasil crescia a quase 7% na margem, com a taxa de investimento avançando cerca de 18% ao ano. A crise abortou aquele momento, mas não aleijou o país. Economistas do governo acreditam que o Brasil chegará ao fim do ano crescendo, em termos anualizados, cerca de 4%. E aumentará o ritmo ao longo de 2010. As empresas estão voltando a investir.

Se o momento é alvissareiro, por que tanta preocupação com a valorização do real frente ao dólar? Os críticos alegam que a apreciação do real está matando os exportadores e anunciando desindustrialização – processo que, no mundo real, até agora não aconteceu.

Há uma correlação grande, na economia brasileira, entre câmbio e preços de commodities exportadas. Outras correlações verificadas são entre câmbio e aversão a risco e, a longo prazo, entre câmbio e balanço de pagamentos – se o déficit em conta corrente cresce, o ajuste das contas externas é feito mediante a desvalorização do real. Há relação também entre câmbio e juros, mas tudo indica que ela é baixa no caso brasileiro – ao longo dos últimos anos, como se viu, os juros caíram ao menor patamar da história. No mesmo período, o real apreciou.

Na semana passada, durante reunião do Grupo de Acompanhamento da Crise, no Ministério da Fazenda, empresários de vários setores se queixaram do câmbio, mas, na hora de propor soluções, em vez de falar dos juros, apontaram a necessidade de redução de tributos incidentes sobre as exportações. Jorge Gerdau deu a senha ao defender a adoção de medidas para aumentar a competitividade que não passam nem por juros nem por câmbio. Ele lembrou que o governo aprendeu, na crise, que desonerar funciona.

Meirelles rejeita rótulo contra diretores do BC

Quando assumiu o comando do BC, em janeiro de 2003, Henrique Meirelles encontrou um ambiente carregado, em que os diretores oriundos do mercado – ou da academia – eram acusados de defender interesses da banca privada. Esta é uma acusação recorrente, cujo objetivo é avilanar esses profissionais e, assim, desqualificar o trabalho do BC.

Meirelles fez com que toda a diretoria do BC enviasse carta a um jornal contestando ilações feitas contra os diretores que não eram funcionários de carreira. O ambiente melhorou nos anos seguintes, mas a crítica, fácil e desonesta, reaparece aqui e ali quando o objetivo é atacar a política monetária.

Nos momentos mais tensos de 2003, disseminou-se a ideia de que os diretores da casa têm uma visão profissional e técnica. Mais recentemente, surgiu, dentro do próprio governo, no entanto, a visão de que esses diretores são mais flexíveis do ponto de vista político. Meirelles rejeita com veemência essa caracterização.

Em conversa com amigos, lembrou que, dos oito integrantes da diretoria colegiada do BC, apenas três vieram do mercado. É essa diretoria, com maioria da casa, que é acusada de ser conservadora na condução da política de juros. Se esses funcionários seguissem orientação política, os resultados do Copom seriam outros.

Há quase sete anos no posto, Meirelles pode deixar o BC em março para disputar cargo eletivo. Corre em Brasília que o mais cotado para substituí-lo é um funcionário de carreira (Alexandre Tombini, diretor de Normas). Não há nenhum problema nisso. Em 2003, assim como combateu o preconceito aos diretores do mercado, Meirelles impediu o aparelhamento político BC.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

17/08/2009 - 10:27h Candidatura Meirelles redobra pressão sobre rumos da política monetária

Ruy Baron/Valor Foto Destaque
Foto Destaque
Meirelles, Nilcea Freire e Lula em visita a Goiás: segundo assessores, presidente espera que candidatura deixe BC mais flexível

 

Cristiano Romero, de Brasília – VALOR

Tão logo se filie a um partido para disputar as eleições em 2010, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, terá pela frente três obstáculos a serem superados. O primeiro são as pressões do governo para flexibilizar a política monetária às vésperas do ano eleitoral. O segundo é manter a diretoria com a qual vem trabalhando há quatro anos. O terceiro é convencer o mercado de que, mesmo filiado a um partido e a caminho de se tornar candidato, manterá o rumo austero que imprime a essa política há quase sete anos.

A tarefa de Meirelles não será fácil. Há fissuras na diretoria do BC e é crescente no governo, segundo apurou o Valor junto a integrantes da equipe econômica e a assessores diretos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a pressão para que o Comitê de Política Monetária (Copom) siga cortando a taxa básica de juros (Selic) nas próximas reuniões e para que evite que o real continue se valorizando em relação ao dólar.

Na última reunião do Copom, o BC reduziu a Selic para 8,75% ao ano e sinalizou, ao divulgar a ata da reunião, que não fará novos cortes daqui em diante. Neste momento, a inflação corrente está na meta oficial – 4,5% – e as expectativas do mercado para o próximo ano são de queda no ano fechado de 2009 e em 2010. Diante disso, os defensores da continuação do alívio monetário alegam que o BC deve continuar reduzindo os juros.

O problema desse raciocínio, na avaliação de assessores graduados é não levar em conta a defasagem no mecanismo de transmissão da política monetária – de nove meses a um ano, no caso da inflação e de seis a nove meses, no da atividade econômica. A economia está começando a acelerar, o que adiante provocará alguma pressão inflacionária, como em 2008. Expectativas do governo e do mercado apontam para um crescimento superior a 4% em 2010.

“Nos próximos dois, três meses, diante das expectativas de inflação caindo, aumentará a pressão para novos cortes de juros, especialmente, se o câmbio estiver caindo (ou o real apreciando)”, diz um economista do governo.

No passado, Meirelles foi bem-sucedido na tarefa de convencer o presidente Lula de que a apreciação do câmbio ajuda a preservar o salário real dos trabalhadores, o que, por sua vez, permite aquecer a atividade econômica. Antes da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, o Brasil vinha crescendo a quase 7% ao ano, com a taxa de investimento liderando a expansão do PIB, mesmo com o câmbio apreciado (o dólar chegou a cair para R$ 1,50 em julho daquele ano).

“A taxa de juros dos Estados Unidos vai subir daqui até o fim do ano que vem. A reação do mercado de câmbio no Brasil vai ser clássica – o real perderá valor diante do dólar. Esse pânico de o real cair para R$ 1,50 é exagerado”, sustenta uma fonte do governo. Se a apreciação continuar, alega esse assessor, aumentará o poder de compra da população e barateará a importação de bens de capital (máquinas e equipamentos). Como a economia está voltando a crescer, a tendência, sustenta ele, são os empresários aproveitarem a oportunidade para investir.

Mesmo se filiando a um partido, Meirelles não tem interesse em derrubar os pilares da política que seguiu no BC. Ele avalia que seu capital político decorre da inflação baixa e da retomada do crescimento. Nos últimos meses, no entanto, o presidente do BC imprimiu um ritmo acelerado ao processo de corte da taxa de juros, contra a opinião dos dois diretores mais importantes da instituição – Mário Mesquita (Política Econômica) e Mário Torós (Política Monetária), ambos oriundos do mercado.

Mesquita e Torós defenderam, nas reuniões do Copom, uma redução mais lenta da taxa Selic. O problema não foi o tamanho da queda (de 13,75% para 8,75% ao ano), mas o ritmo. A divergência não chegou a indispor os dois diretores com Meirelles, mas criou no restante da diretoria – toda ela integrada por funcionários de carreira do BC – um sentimento de hostilidade em relação a Mesquita e Torós. Eles acham que falta aos dois uma “leitura mais política” da realidade econômica do país. Acreditam que eles se fiam em análises puramente técnicas.

O diálogo do BC com o Ministério da Fazenda, por sua vez, continua inexistente, segundo um integrante da equipe do ministro Guido Mantega. Para completar, Bernard Appy, o único interlocutor que os diretores do BC tinham na Fazenda, deixou o cargo na semana passada.

Em conversas com amigos, Mesquita e Torós dizem que, por enquanto, apesar do clima hostil, estão conseguindo fazer seu trabalho sem interferência política. Acham que o caso do ritmo de queda dos juros não foi suficiente para abalar a consistência do seu trabalho, mas, agora, acham que, com Meirelles se preparando para voltar à política, vão precisar de garantias para continuar atuando com autonomia. Os dois não querem sair do BC brigados, mas, se sentirem que a situação vai caminhar para um conflito permanente dentro da instituição, eles vão se antecipar e deixar os cargos.

“O Meirelles sabe que, quanto mais político ele for, mais devedor ele será da política do Lula. Para o presidente, é bom ter um Meirelles mais dócil, mais flexível na condução da política monetária”, comenta um assessor do governo.

A arte de Meirelles será compatibilizar seu momento político com o comando do BC, do qual ele não abre mão justamente por acreditar que está ali a sua plataforma de candidato. “Quando se filiar, Meirelles vai se recolher bastante para evitar críticas à sua atuação como dirigente do BC”, assegura um amigo dele.

O presidente do BC não quer que Mesquita e Torós saiam, pelo contrário, quer os dois ao seu lado até o último momento. Ele teria dificuldade para substituí-los por nomes do mercado. Além disso, a saída dos dois aumentaria a desconfiança de que 2010 reinará sobre as decisões técnicas do Copom.

Meirelles, na verdade, já começou a trabalhar para tranquilizar os diretores. Numa conversa, disse a eles que sua filiação a um partido diminuirá o ímpeto daqueles que, dentro e fora do governo, sempre trabalharam para desestabilizá-lo. A filiação seria a garantia a seus opositores de que ele, além de Torós e Mesquita, deixará o BC em março, prazo de desincompatibilização dos candidatos de 2010.

Não bastará a Meirelles, no entanto, pacificar a diretoria do BC. No mercado, sua filiação em setembro, fato que confirmará o interesse numa candidatura, ainda será testada. As curvas de juros futuros, que indicam as expectativas para a economia, mostram que o mercado prevê a elevação da Selic em 2011 e 2012. Quatro fatores, segundo avaliações de experientes analistas e de integrantes do governo, concorrem para isso.

O primeiro é que as curvas de juros estão inclinadas no mundo inteiro, portanto, não poderia ser diferente no Brasil. A segunda explicação é que a taxa de juros aqui estaria no seu patamar mínimo histórico. O terceiro aspecto é o risco pós-eleitoral – os candidatos que lideram as pesquisas da corrida presidencial são todos críticos da política econômica inaugurada por Fernando Henrique Cardoso e aperfeiçoada por Lula. O quarto fator é o risco de mudança no BC antes das eleições.

“Isso não é culpa de ninguém; é um problema do regime que não dá autonomia formal à diretoria do BC”, diz um economista do governo. Meirelles, que quer manter sua credibilidade de banqueiro central e ao mesmo tempo alçar voos na política, não tem saída: terá que lidar com a desconfiança do mercado.

24/07/2009 - 09:48h Empresários mudam o foco das pressões. Defesa do corte da Selic é substituída pela redução do spread bancário

Marcelo Rehder – O Estado SP

A avaliação de que o Banco Central (BC) chegou ao limite na redução da taxa básica de juros (Selic) levou representantes da indústria e do comércio a mudar o foco de pressão: em vez de insistir no corte da Selic, que tem tido efeito limitado nas taxas cobradas no mercado, as entidades empresariais cobram do governo uma atuação mais firme para redução do spread embutido nas operações de financiamento dos bancos.

Para entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio SP), o spread (a diferença entre a taxa que as instituições pagam para captar recursos e a taxa cobrada nos financiamentos a consumidores e empresas) é hoje o maior obstáculo para o crescimento da economia.

“Os altos spreads cobrados pelos bancos são absolutamente incompatíveis com a condição da economia brasileira”, afirma o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto. “Não há país no mundo que atue em condições tão hostis do ponto de vista do financiamento.”

Na sua avaliação, não há razão para os spreads permanecerem em níveis tão elevados, a começar pelo custo de captação, que caiu bastante. “Ainda temos spreads tão altos porque temos um mercado deformado, aonde prevalece um baixo grau de competição e um alto nível de concentração bancária”.

“O spread bancário é um atentado ao crescimento do Brasil”, diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. Segundo ele, o País ainda não superou os efeitos da crise global e é decisivo diminuir o custo do dinheiro para os setores produtivos e o mercado consumidor.

O economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi) Rogério César Souza observa que os bancos não repassaram para o spread os ganhos de escala obtidos nos últimos anos. Segundo ele, os empréstimos crescem a taxas superiores a 20% ao ano desde 2005. “Poderiam ter baixado os custos administrativos na formação do spread”, disse.

O economista Fábio Pina, da Fecomércio-SP, concluiu que a culpa é um pouco do próprio consumidor. “Enquanto o consumidor não entender o que está pagando e quanto está pagando, os bancos e as financeiras não vão diminuir de forma voluntária os seus spreads”, comentou.

O presidente da CNI diz que há muito por fazer. Primeiro, o ambiente precisa ser mais concorrencial. “Os bancos públicos agora estão cumprindo um papel importante, até induzindo um pouco a redução dos spreads.” Mas ressalta que apenas essa atuação estatal não resolverá o problema.

Para o Iedi, o governo deveria pensar em uma reforma ampla, que incluísse a implantação do cadastro positivo (lista de bons pagadores), corte de impostos, além da liberação do depósito compulsório.

24/07/2009 - 09:24h Selic cai mais rápido do que o spread

Taxa básica recua 4,5 pontos entre janeiro e maio, ante 2,4 pontos do spread; Febraban contesta comparação

Leandro Modé – O Estado SP

O spread bancário, diferença entre a taxa de juros que as instituições financeiras pagam na captação do dinheiro e a que cobram dos clientes, está caindo no Brasil em ritmo mais lento que o juro básico da economia (Selic). Segundo o Banco Central (BC), o spread médio do sistema caiu de 30,5 pontos porcentuais em janeiro para 28,1 pontos em maio, ou seja, 2,4 pontos. No mesmo período, a Selic saiu de 13,75% para 9,25% ao ano, diferença de 4,5 pontos.

“Isso se deve à inadimplência, que ainda está em ascensão”, disse o economista do Insper (ex-Ibmec São Paulo) Otto Nogami. Um colega que pede para não ser identificado tem explicação diferente. “Os bancos aproveitam que o produto que vendem (dinheiro) está escasso para cobrar mais caro.”

O economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Rubens Sardenberg, argumenta que a comparação entre spread e Selic não é correta do ponto de vista metodológico. “O certo é comparar o comportamento da Selic com o da taxa de aplicação (que mostra quanto os bancos cobram dos clientes)”, disse. Segundo o BC, a taxa de aplicação recuou de 42,4% em janeiro para 37,9% ao ano em maio, ou seja, 4,5 pontos – evolução idêntica à da Selic.

Sardenberg contesta, ainda, o peso que se dá no Brasil à questão do spread. “Ninguém compra um carro pensando no lucro da montadora, mas no preço que pagará pelo veículo”, compara. “O que importa (para o cliente bancário) é a taxa que paga.”

O debate sobre spread bancário não é novo no Brasil, mas tende a crescer por causa da queda da Selic para níveis historicamente baixos. Uma simulação feita pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) indica, por exemplo, que o juro médio cobrado no comércio fica em 106% ao ano com a Selic atual, de 8,75%. Ou seja, o financiamento equivale a mais de 12 vezes a taxa básica do País.

Segundo estudos internacionais (um deles do Fundo Monetário Internacional), o spread no Brasil é o mais alto do mundo. Os bancos atribuem essa situação a uma série de fatores: inadimplência mais elevada do que em outros países, impostos na intermediação financeira, depósitos compulsórios e despesas administrativas. O governo, porém, avalia que falta concorrência no setor.

O presidente da Anefac, Miguel de Oliveira, acha que as duas partes têm sua parcela de razão. “Os bancos estão certos em reclamar da cunha fiscal”, afirmou. “Em compensação, o governo está certo ao apontar para a falta de competição.”

Para o presidente da seguradora de crédito Coface, Fernando Blanco, o papel do consumidor (empresa ou cidadão) é fundamental para forçar a queda de juros e spreads. “Ambos não vão cair por oração, discurso, etc”, disse. Crédito, explica, é fruto de uma negociação individual. Por isso, o cliente deve fazer sua parte – por exemplo, pesquisar em várias instituições antes de tomar um empréstimo.

14/07/2009 - 10:15h Endividamento de empresa brasileira no exterior despenca

Participação do mercado internacional na dívida total sai de 40% em 2000 para 11% em 2008

Leandro Modé – O Estado SP

O endividamento financeiro das empresas brasileiras cresceu pouco em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) entre 2000 e 2008, mas as fontes em que os recursos foram captados mudaram drasticamente. Esse é o resumo de um trabalho inédito elaborado pelo Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec) do Ibmec, obtido com exclusividade pelo Estado. O estudo tem por base dados de instituições como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A participação do mercado internacional no endividamento financeiro despencou de 40,2% do total em 2000 para 11% no ano passado. No mesmo intervalo, o crédito bancário tradicional livre (ou seja, sem direcionamento obrigatório) avançou de 29,6% para 40,3%. O crescimento mais expressivo, no entanto, se deu nos títulos de dívida (como debêntures e notas promissórias), que saíram de 10,2% do total para 24,3% em 2008.

“Esse desempenho é explicado, principalmente, pela queda da taxa de juros e pelos fortes avanços institucionais do mercado de capitais”, afirmou o coordenador do Cemec, Carlos Antônio Rocca. “O juro mais baixo, por sua vez, decorre da redução da vulnerabilidade externa do País e da queda da dívida do governo, que abriu espaço para o setor privado.”

A taxa básica de juros (Selic) média foi de 16,19% ao ano em 2000, chegou a 23,03% em 2002 e encerrou o ano passado em 13,66%. Atualmente, está em 9,25%, menor nível da história do País.

Segundo Rocca, o forte recuo do endividamento financeiro no exterior resulta da experiência traumática das companhias brasileiras com a desvalorização do real, em 1999. “Dívida em moeda estrangeira e receita em moeda local cria um problema de descasamento”, observa Rocca. Foi o que ocorreu em 1999, quando a adoção do câmbio flutuante foi seguida de uma disparada das cotações do dólar, o que quebrou várias companhias e ameaçou a sobrevivência de outras tantas.

Situação parecida ocorreu no ano passado com os chamados derivativos tóxicos. Muitas empresas pegaram empréstimos bancários corrigidos pela taxa de câmbio. Com a disparada do dólar, em consequência da crise global, muitas delas tiveram perdas bilionárias. Os exemplos mais conhecidos são a Aracruz e a Sadia (que, por causa desses problemas, acabou se fundindo à Perdigão).

Rocca frisa que esses são exemplos do mau uso do instrumento. “Derivativos são indicados como estratégia para se proteger de grandes oscilações nos preços dos ativos”, disse. De qualquer forma, vale deixar claro que, em 1999, a exposição das empresas era diretamente em dólar. Na experiência mais recente, a dívida assumida era em reais, ainda que corrigida pela variação da moeda americana.

O professor observa, ainda, que, apesar da mudança de perfil, o investidor estrangeiro continuou a ser importante fonte de financiamento para as companhias brasileiras. “A diferença é que, antes, eram as empresas que iam lá fora captar recursos. Mais recentemente, os estrangeiros vieram para cá comprar papéis emitidos por elas.”

ESTOQUE

Segundo o trabalho do Cemec, o estoque de endividamento financeiro das empresas em relação ao PIB subiu de 34,9% em 2000 para 40,9% em 2008, o equivalente a quase R$ 1,2 trilhão. Rocca diz que é um nível ainda baixo se comparado a outros países, mas a tendência é de crescimento.

“As perspectivas são muito positivas, especialmente para os títulos privados de dívida, que tendem a participar cada vez mais da carteira dos investidores.”

De novo, a taxa de juros tem um papel vital na tendência. Em primeiro lugar porque barateia o custo de endividamento, o que estimula as empresas a buscar crédito para, por exemplo, bancar projetos de expansão. De outro lado, porque leva os investidores a buscar alternativas mais rentáveis para suas aplicações, hoje atreladas, em sua maioria, a títulos públicos corrigidos pela Selic.

Com o juro básico no menor nível da história, muitas empresas já emitem papéis com vistas ao investidor de pequeno porte. Oi e Bradespar, por exemplo, lançaram debêntures no primeiro semestre com valor de face baixo para alcançar esse público
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06/07/2009 - 10:22h Juro real aproxima-se do Primeiro Mundo

Política monetária: Taxa cai abaixo de 5%, mas não há consenso se o atual nível será mantido após a crise

Fernando Travaglini, de São Paulo – VALOR

O Brasil caminha na direção de uma taxa de juro real mais próxima dos países desenvolvidos. Com a crise, a redução da Selic foi acelerada e o Brasil apresenta hoje uma taxa real histórica abaixo de 5% ao ano. A dúvida agora é saber se esse patamar é permanente ou se, passada a turbulência, os juros voltarão a subir.

Levantamento feito pelo Valor Data com dados de 43 países mostra que o Brasil está na quinta posição no ranking de juro real, com taxa de 4,64% ao ano (considerando o juro básico descontado da inflação esperada para um ano). Fica atrás de Croácia (6,19%), Hungria (6,03%), Islândia (5,26%) e China (4,90%).

A condição é melhor do que no passado. Em julho de 2008, antes do agravamento da crise, portanto, a economia brasileira registrava taxa real de 7,37% ao ano, atrás apenas de Islândia (10,96%) e Turquia (9,64%).

Mas não foi só o Brasil que apresentou trajetória declinante no passado recente. Por conta da crise, os bancos centrais de todo mundo se viram obrigados a derrubar os juros para tentar estimular a economia. Assim, o patamar brasileiro continua acima de outros países em desenvolvimento, como Índia (0,81%) e México (0,62%). E também de nações ricas, como Estados Unidos (0,76%) e os países da zona do euro (0,25%). Há ainda um grande contingente que registra juro real negativo, como Reino Unido (- 0,61%) e Chile (- 2,35%).

A discussão agora é se esse novo patamar de juro é de fato estrutural, ou seja, se responde a melhorias da economia brasileira; ou se foi atingido um nível tão baixo por conta da forte desaceleração econômica vivida com a grave turbulência financeira do final do ano passado.

Segundo o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, o atual patamar de juro real brasileiro não é conjuntural. Para ele, a economia mudou nos últimos três ou quatro anos, especialmente por conta da abertura comercial. “Há uma série de fatores que permitem afirmar que podemos trabalhar com um juro real mais baixo. O mais importante vem do lado externo. A moeda é diferente do que era anos atrás por conta do nível de abertura da economia brasileira. A importação passa a funcionar como moderador de preços. Essa é a mudança básica que muitos economistas esquecem”, disse Mendonça de Barros, estrategista da Quest Investimentos.

Ele cita como exemplo o grande boom de consumo da segunda metade de 2007 até 2008, quando a importação respondeu por boa parte da oferta. “Há uma economia nova. E se isso é verdade, não precisamos ter o mesmo nível do juro real de antes.”

Para o economista, a abertura e uma moeda forte faz uma “diferença tremenda” nas expectativas, já que o industrial pode programar importações de longo prazo, sabendo que a economia hoje é mais estável. Essa confiança na moeda brasileira “trouxe uma ancoragem para as expectativas que permitiu que a deflação externa fosse trazida para o país por meio das importações.”

Ainda existem algumas dúvidas inflacionárias, ressalta, especialmente por conta do setor de serviços, mas mesmo nesse segmento a inflação vem recuando, o que descarta elevações da Selic em 2010. Por fim, ele cita que a forte desvalorização do real no fim do ano não chegou, nem chegará, até a inflação, porque as commodities caíram na mesma proporção. “Como vai aparecer inflação se em reais os preços não subiram?”

Andre Modenesi, professor do Ibmec-RJ e pesquisador do Ipea, lembra que desde o abandono da âncora cambial, em 1999, a política monetária vem passando por um processo de flexibilização, depois de conviver com uma taxa real média de 22%, entre 1995 e 1998. Ele ressalta, no entanto, que esse processo tem sido muito lento e o país continua sendo um dos recordistas em termos de taxas de juros.

Além disso, Modenesi destaca que não há uma mudança estrutural na economia brasileira que indique que o patamar da taxa de juros mudou de forma definitiva. “Continuo tendo razões para crer que a inflação é pouco sensível à Selic e que, portanto, haverá uma correção na política monetária, quando retornarmos a uma situação de normalidade”, avalia.

Para ele, portanto, os efeitos da crise é que colaboram com o atual cenário. Primeiro, por uma drástica desaceleração do nível de atividade, aliado a uma queda muito expressiva dos preços das commodities, o que representa um choque positivo de oferta. Somado a isso, a moeda tem sofrido um intenso processo de valorização.

Sem esses efeitos, voltariam à tona dois pontos que comprometem a transmissão da política monetária e que, segundo ele, continuam presentes na economia brasileira: a elevada participação dos preços administrados e a indexação (de parcela) da dívida pública à taxa básica de juros.

22/06/2009 - 11:33h Mirando o spread

Amir Khair* – O Estado SP

O Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu o mercado ao reduzir a taxa básica de juros da economia (Selic) em um ponto porcentual, passando-a a 9,25% ao ano, seu nível mais baixo desde a existência desse órgão. É ainda um nível elevado na comparação internacional, onde as economias emergentes praticam taxas ao redor de 6%. Isso irá reduzir as despesas do governo federal com os juros de sua dívida mobiliária, contribuindo para um déficit fiscal na casa de 2% do PIB para este ano, um dos melhores da série histórica.

Outra consequência importante é que, com essa redução, fica cada vez mais claro que o problema dos altos juros para o tomador de empréstimo está no elevado spread (diferença entre os juros pagos pelos bancos na captação de recursos e a taxa aplicada por eles nos empréstimos que concedem). É o maior do mundo e 11 vezes o dos países desenvolvidos, de acordo com levantamento feito pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) para 2008. A média simples da taxa das 62 nações em desenvolvimento que integram o relatório do Iedi ficou em 6,55 pontos porcentuais, no ano passado, ante 34,88, no Brasil. A comparação foi obtida a partir de dados sobre o custo do capital para os bancos de cada nação e os juros que cobram, informados pelos governos ao Fundo Monetário Internacional. Pela metodologia do Banco Central (BC) brasileiro, a média em 2008 ficou em 26,54 pontos. Em abril deste ano estava em 28,2 pontos.

Os bancos estão cada vez mais na defensiva para tentar explicar a prática abusiva das taxas de juros cobradas de seus clientes. Procuram justificar essa distorção usando como argumentos principais os níveis elevados da Selic e da inadimplência no mercado. Esses argumentos carecem de realismo, pois o spread não tem relação com essas variáveis. Na crise que o País atravessou em 2003, o spread foi, em média, 1,4 vez maior que a Selic. Em 2008, foi 2,1 vezes maior e, em abril deste ano, cresceu para 2,5. O mesmo ocorre em relação à inadimplência. A relação entre spread e inadimplência foi de 6,2, em 2003; de 4,1, em 2008; e de 2,7, em abril deste ano. É mais provável que as elevadas taxas de juros é que causem a inadimplência. Assim, nem a Selic nem a inadimplência podem servir de justificativa para a distorção causada há anos na economia pelo setor bancário.

Tudo parece indicar que o spread é elevado por causa, especialmente, da margem de lucros dos bancos, facilitada pela baixa concorrência no setor bancário.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, atribui ao spread, e não à Selic, a explicação para os problemas de crédito que as empresas brasileiras enfrentam. Para o governo, a sua forte redução é condição necessária para a retomada do desenvolvimento em bases sustentáveis. Mas o que pode ser feito para tornar as taxas de juros aos clientes no Brasil alinhadas com os níveis internacionais?

Pela via do mercado, isso poderá ocorrer em razão da queda da Selic, pois caem os lucros bancários obtidos com as aplicações em títulos do governo federal. Para compensar, os bancos serão cada vez mais forçados a ampliar seus empréstimos, o que gera uma maior concorrência entre eles.

Pela via do governo, além das várias medidas adotadas, tem-se a oportunidade de uso do estoque dos depósitos compulsórios dos bancos no BC. O depósito compulsório obriga que as instituições financeiras recolham para o Banco Central parte do dinheiro depositado pelos seus clientes. Com isso, os bancos ficam com menos dinheiro para emprestar e fazer outras operações, o que encarece o crédito. O BC já reduziu esses depósitos em R$ 100 bilhões, desde que a crise financeira atingiu nossa economia. Restam ainda cerca de R$ 170 bilhões, valor ainda elevado. Os riscos de retomada da inflação com novas liberações de depósitos compulsórios são pequenos e a prova disso é que os R$ 100 bilhões já liberados não causaram inflação.

O instrumento à disposição do governo ainda não utilizado e que pode acelerar o processo de queda do spread é a liberação seletiva dos depósitos compulsórios. O que é essa liberação seletiva? O Conselho Monetário Nacional poderá estabelecer regras de liberação dos depósitos compulsórios de acordo com os spreads ou juros bancários praticados pelos bancos. Como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal oferecem normalmente taxas de juros mais baixas do que o setor privado bancário, seriam os mais beneficiados, podendo ampliar ainda mais a conquista de novos clientes. Essas instituições oficiais vêm crescendo, com boa probabilidade de expansão de seus lucros em níveis superiores aos dos bancos que adotaram políticas conservadoras de concessão de crédito. Assim, o País ganha duplamente: reduz as taxas de juros em benefício das empresas e dos consumidores e reduz o poder oligopólico do setor bancário privado, com ganhos para toda a sociedade. É preciso que o governo utilize os poderosos instrumentos monetários a seu dispor, se quiser atingir algum nível de crescimento econômico ainda este ano e se proteger de eventual repique da crise externa.

*Amir Khair, consultor, é mestre em Finanças Públicas pela FGV

21/06/2009 - 12:22h Foi o suposto conservadorismo do Copom que abriu espaço para ações que contribuirão para a recuperação da economia

ARTIGO

Dez anos de metas para a inflação Foi o suposto conservadorismo do Copom que abriu espaço para ações que contribuirão para a recuperação da economia

MÁRIO MESQUITA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O regime de metas para a inflação foi formalmente adotado pelo Brasil em junho de 1999. A despeito de enfrentar considerável ceticismo em Washington e em Wall Street, que, na época, pareciam ter mais simpatia pelo regime de conversibilidade argentino, e também no país, o regime tem sido bem–sucedido e está consolidado.
Sem oferecer uma panaceia econômica -nenhum regime monetário o faz-, o regime de metas para a inflação vem se mostrando inequivocamente superior às alternativas, sejam elas metas cambiais ou para agregados monetários.
Este décimo aniversário é a ocasião propícia para se avaliar o desempenho do regime, reexaminando, à luz dos fatos, algumas das controvérsias, ou mitos, propagadas ao longo da última década, sobre seu desenho e sua implementação.
O primeiro refere-se à ideia de que, ao perseguir metas para a inflação, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) tenderia a punir a atividade econômica. Tal mito parece ser calcado na crença, ultrapassada, de que seria possível elevar a taxa de crescimento sustentado da economia com maior tolerância à inflação. Na verdade, os benefícios da redução da inflação para o crescimento ficam nítidos se considerarmos o importante trabalho, recentemente publicado, do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos da Fundação Getulio Vargas.
Segundo esse trabalho, que cobre o período entre janeiro de 1980 e março de 2009, as recessões não se tornaram mais frequentes após a adoção do regime de metas para a inflação. Ao contrário, foi sob esse regime que se verificou a fase de expansão mais prolongada de toda a amostra -21 trimestres entre o terceiro trimestre de 2003 e o terceiro de 2008-, e que só foi abortada pela contração econômica mundial, a mais severa desde os anos 30 do século passado.
O segundo mito é o de que o Copom foi excessivamente conservador, ou seja, que praticou política monetária consistentemente mais restritiva do que o necessário para promover a convergência da inflação às metas. Se isso fosse verdade, a inflação deveria se situar consistentemente abaixo da trajetória de metas. Não foi, contudo, o que ocorreu.
Desde a adoção do regime de metas, a inflação tem estado mais tempo acima do que abaixo do valor central para a meta. De fato, desde 1999 a inflação permaneceu 72% do tempo em níveis superiores ao valor central da meta, e 26% acima do limite superior do intervalo de tolerância, mas nunca rompeu o limite inferior. A propósito, cabe ressaltar que foi o suposto conservadorismo do Copom, ao conter os danos, derivados da forte aceleração inflacionária ocorrida no ano passado, sobre as expectativas de inflação, que abriu espaço para ações de política monetária que terão efeitos contracíclicos, contribuindo para a recuperação da atividade econômica em 2009 e em 2010.
Poder-se-ia contra-argumentar que, se não o Copom, draconiano então foi o Conselho Monetário Nacional, ao fixar metas exageradamente ambiciosas para a inflação brasileira. Isso também não corresponde aos fatos. A média das metas centrais para os países emergentes era de 7,2% em 1999, mas se deslocou para 3,6% em 2009 (2,1% para países desenvolvidos), diante do valor de 4,5% vigente no país nos últimos anos. De uma amostra, compilada por pesquisadores do Banco Central, de 25 países que atualmente adotam o sistema de metas para a inflação, 17 dos quais emergentes, em 2009 somente 2 apresentam valores centrais da meta superiores ao do Brasil (Guatemala e Turquia) e 2 o mesmo valor (Indonésia e África do Sul). Além disso, o intervalo de tolerância de 4 pontos percentuais adotado pelo Brasil é o maior da amostra.
Outra crítica ao Copom é que ele não daria a devida importância ao equilíbrio externo na definição da política monetária. Novamente a crítica não encontra respaldo nos dados. Foi exatamente sob a égide do regime de metas para a inflação com flutuação cambial que a economia brasileira superou crônicos problemas de balanço de pagamentos, atingindo o grau de investimento.
E foi sob o regime de metas para a inflação com flutuação cambial que o Banco Central teve acesso, em momento de crise financeira global, a um acordo de “swap” recíproco de moedas com o Federal Reserve, em vez de ter de recorrer ao FMI.
O desempenho do setor externo na economia sob esse regime, que alternou conjunturas externas benignas (como em 2003-2008) e adversas (1999-2002 e mais recentemente), contrasta de forma nitidamente favorável com o que se observou em períodos de câmbio administrado, nos anos 80 e 90 do século passado. A divisão de trabalho, política monetária voltada para o equilíbrio interno, consubstanciado nas metas para a inflação, e câmbio flutuante para atingir o equilíbrio externo, vem se mostrando bastante eficiente, como evidencia o rápido ajuste da conta corrente ocorrido desde o final de 2008.
Os economistas do Banco Central não ignoram o papel da taxa de câmbio no mecanismo de transmissão da política monetária, apenas o colocam em perspectiva -mudanças da taxa de câmbio, assim como de diversas outras variáveis, são analisadas sob o ponto de vista do efeito que poderão ter sobre a trajetória futura da inflação.
Essa posição pode ocasionalmente desagradar a certos setores, mas é a mais adequada do ponto de vista macroeconômico, é a única posição possível sob um verdadeiro regime de metas para a inflação e, em última análise, é a mais apropriada para a sociedade como um todo. Um tema recorrente de controvérsia, que no caso brasileiro tornou-se mais evidente sob o regime de metas, é a questão das defasagens da política monetária. Essas defasagens fazem com que a política monetária deva ser ajustada antes que seus efeitos se tornem evidentes, daí a ênfase atribuída às projeções para a inflação e ao balanço dos riscos em torno do cenário prospectivo central, no processo decisório do Copom.
O regime de metas para a inflação é, em resumo, bastante flexível e, ao enfatizar a transparência, em nosso caso por meio da divulgação das notas das reuniões do Copom, dos Relatórios de Inflação, bem como das frequentes audiências da diretoria do Banco Central no Congresso Nacional, especialmente adaptado à governança democrática. Mas flexibilidade não implica ambiguidade de propósitos: cabe ao Copom calibrar a política monetária de forma a promover a convergência da inflação para a trajetória de metas estabelecida pelo CMN.
Essa calibragem leva em conta um amplo conjunto de informações, como o grau de ociosidade na utilização dos fatores de produção, as expectativas de inflação, a persistência inflacionária e a evolução dos custos das importações, bem como de itens administrados, mas sempre -e quanto a isso não deve haver dúvida na sociedade- com foco no objetivo precípuo da política monetária, que é alinhar a dinâmica dos preços às respectivas metas.
No dia 21 de junho de 1999, o decreto nº 3.088 estabeleceu o sistema de metas para a inflação como diretriz para o regime de política monetária brasileiro.

MÁRIO MESQUITA, 43, economista, é diretor de Política Econômica do Banco Central do Brasil.

21/06/2009 - 11:49h ”O bode na sala é o spread”

ENTREVISTA- Guido Mantega: ministro da Fazendahttp://www.portalms.com.br/adm/imagens/%7B3E784947-A355-4FD7-AA38-89459A43C971%7D_guido-mantega.jpg

 

David Friedlander e Leandro Modé – O Estado SP

 


A queda de braço entre o governo e os bancos privados por causa do spread (diferença entre o custo que o banco paga na captação do dinheiro e o juro que cobra do cliente) esquentou. Depois de muita pressão, as instituições financeiras passaram a dizer que desejam baixar o spread, mas não conseguem em razão do peso elevado dos impostos e do depósito compulsório em seus custos. Nesta entrevista, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, contesta esse argumento sem fazer rodeios. “Os bancos têm margem para baixar o spread sem precisar de redução da cunha fiscal ou do compulsório”, afirma.

Bem-humorado com o desempenho acima da média do Brasil na crise econômica global, Mantega só mostra desconforto quando fala do câmbio e das mudanças anunciadas para a caderneta de poupança. No primeiro caso, afirma que está preocupado mas, no momento, não há nada a fazer. Sobre a poupança, deu a entender que o anúncio de mudanças nas regras é complicado, assusta as pessoas e trouxe algum desconforto ao governo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A última ata do Copom (Conselho de Política Monetária) diz que o espaço para redução dos juros básicos da economia ficou menor…

Com uma taxa de 9,25%, é óbvio que ficou menor. Uma das funções do Banco Central é mostrar que está sempre atento à inflação. O BC não pode dizer que vai baixar os juros, mas o fato é que está baixando.

Essa redução poderia ser mais rápida?

O custo financeiro no Brasil continua muito alto. É uma distorção em relação ao que acontece em outros países. A grande anormalidade é que os spreads (diferença entre o custo que o banco paga na captação do dinheiro e o juro que cobra do cliente) são muito altos no País. O consumidor brasileiro paga juros absurdos. Mas estamos caminhando. A vantagem é que antes havia três bodes na sala: tiramos dois, mas sobrou um.

O senhor está falando do spread?

O bode na sala é o spread. As instituições financeiras dizem que querem se garantir contra a inadimplência, mas abusam. Fora os períodos de crise, quando ela aumenta mesmo, nossa inadimplência é normal. Mas ela é superestimada pelas instituições financeiras. Existe também um pouco de concentração no setor financeiro. Antes da crise, o spread era muito menor. Mas os bancos ficaram com medo e chutaram para cima. No Brasil, como já há um exagero, ficou um exagero e meio.

Os banqueiros dizem que o spread é alto por causa dos impostos que pagam e do compulsório que são obrigados a recolher. O governo pensa mexer nisso?

Os bancos têm margem para baixar o spread sem precisar de redução da cunha fiscal ou do compulsório. O compulsório já diminuiu bastante nesta crise, nós liberamos mais de R$ 100 bilhões. Aliás, diga-se de passagem, na composição do spread 36% é a possibilidade de inadimplência. Evidentemente, isso está superestimado. Eles costumam prever uma inadimplência maior e com isso cobrar uma taxa maior. Outra é a margem de lucro. Os bancos brasileiros estão bem acostumados a ter margem de rentabilidade elevada. Não tenho nada contra isso, mas acho que aí tem espaço para diminuir.

Na sua opinião, quanto seria possível diminuir?

Da composição do spread, a cunha fiscal dá 7% a 8%, o compulsório não dá 3%, 36% é inadimplência e, se não me engano, 24% é custo administrativo. No custo administrativo tem a margem do banco. Então, quase 60% é risco de inadimplemento e mais custo administrativo.

E por que os bancos não baixam o spread?

É preciso ter concorrência. Hoje, mais de 70% do crédito é atendido por sete ou oito grandes bancos. O governo precisa criar condições para que haja concorrência. A queda da Selic (a taxa básica de juros) ajuda. A ação dos bancos públicos também. Eles estão liderando o processo de aumento do crédito e de redução de juros. Acho que está surtindo efeito. Pela primeira vez, percebo que os concorrentes (os bancos privados) estão sentindo essa agressividade que não existia antes.

Além de mobilizar os bancos públicos, que mais o governo pode fazer para aumentar a concorrência no mercado financeiro?

Pode fortalecer os bancos pequenos e médios. Já fizemos isso. Não deixamos que os bancos pequenos saíssem do mercado. Agimos para permitir aos bancos públicos adquirir instituições financeiras sem maiores problemas e direcionamos o compulsório para a compra de carteiras de bancos menores. Nós sabemos que os bancos menores sofreram saques, a saída de fundos, alguns bancos tiveram a reputação afetada por problemas de derivativos… Tudo isso foi superado. E agora vamos fazer o fundo garantidor de crédito para a pequena e média empresa.

O governo desistiu de mexer na fórmula da poupança?

Nós buscamos fazer a menor mudança possível. É que as coisas são complicadas. Vocês já viram a fórmula da TR (Taxa Referencial de Juros)? É complicadíssima. Só um grande especialista consegue entender. Você não consegue comunicar, transmitir isso à população. Aí aparece o uso político com gente querendo desinformar (a oposição disse que o governo quer acabar com a caderneta de poupança). Então, escolhemos o caminho da menor mudança possível.

É por isso que o governo anunciou e depois não falou mais no assunto?

Foi anunciado e foi dito que a medida de aumento de tributação é para o ano que vem. Temos tempo para entrar no Congresso. O projeto está pronto, não tem nenhum segredo. Cria o Imposto de Renda, tem lá um desconto e tal. A tributação é pequena. E o contribuinte vai declarar em 2010 e pagar em 2011. A poupança vai continuar sendo uma das melhores opções de investimento. Cerca de 99% das cadernetas têm até 50 mil de aplicação e aí não muda nada.

Já está havendo alguma migração dos fundos de investimento para a poupança. Não é perigoso para o financiamento da dívida pública?

Não preocupa porque não está havendo fuga do Tesouro (refere-se aos títulos públicos).

O câmbio preocupa o senhor?

Sim, o câmbio preocupa. Do jeito que está, diminui a competitividade de nossas exportações e pode trazer um fluxo de importações indesejado. Essa parte é objeto de observação. Se for necessário, faremos medidas para atenuar. Agora, o câmbio flutuante é um regime positivo. Tem hora que ele flutua para um lado, tem hora que flutua para outro. O que não pode é flutuar só para um lado. Hoje, o excesso de valorização prejudica o País. E aí começa a preocupação. Mas estamos comprando mais reservas. O Brasil se deu muito bem comprando reservas. Foi uma estratégia que introduzimos no governo a partir de 2006 quando me tornei ministro da Fazenda, foi uma das primeiras questões que levei ao presidente Lula e ao Henrique Meirelles (presidente do BC).

Qual seria uma taxa ideal hoje?

Não tem taxa de equilíbrio. A taxa de equilíbrio é aquela que é resultado das transações do mercado. O governo não trabalha com taxa de equilíbrio e não tem meta de câmbio.

Os juros altos não contribuem para encher o mercado brasileiro de dólares?

Acho que potencialmente um diferencial de taxas de juros poderá no futuro fazer isso. No momento, não acho que cause esse impacto. Mas vamos separar as coisas. Existe uma valorização do real produzida diretamente pela desvalorização do dólar. Não há o que fazer. É o Barack Obama (presidente dos EUA) que precisa agir. Uma valorização um pouco maior do real em relação a outras moedas se deve também a virtudes da economia brasileira. Nosso mercado de capitais é mais sólido, tem regras mais claras e tem mais liquidez do que o mercado de capitais indiano, chinês e russo. Isso provoca entrada maior de capitais no Brasil. Isso também valoriza o câmbio.

A arrecadação caiu sete meses seguidos e os gastos correntes continuam subindo. Como fechar essa conta? O governo vai cortar gastos?

A queda da arrecadação era esperada porque está diretamente relacionada com o nível de atividade econômica. E nós tivemos uma retração. Além disso, fizemos desonerações (tributárias). Elas têm um impacto. Vamos fazer um superávit menor, mas calibramos isso de modo que a nossa dívida não cresça. A nossa dívida pública está estabilizada. Ela estava em 36% (do PIB) e foi para 39,8% porque tiramos a Petrobrás do cálculo. No ano que vem será menor. Quando a economia retomar, vamos voltar a ter arrecadação. Temos uma situação confortável que nos permite esse período em que estamos gastando mais. O gasto do governo é bom para a economia, ativa a economia.Estamos mantendo os investimentos, mantivemos todos os programas sociais e as despesas do governo. Então vai haver um certo desequilíbrio este ano que poderá até nos levar a cortar mais gastos correntes. Foi o que o Paulo Bernardo (ministro do Planejamento) falou. Se continuar havendo frustração de arrecadação, poderemos vir a cortar gastos correntes dos ministérios.

Que tipos de gastos podem ser cortados?

Gastos correntes dos ministérios. Não vamos mexer no Bolsa-Família, não mexeremos nos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas os demais gastos podem ser adiados. Nós já fizemos um contingenciamento e talvez tenhamos de fazer alguma restrição a mais para equacionar essa situação.

O governo estuda desonerar a folha de pagamentos?

São medidas clássicas, que sempre estarão em estudo. Porque o Brasil tem um custo de folha mais elevado que outros países, então é algo que sempre está na nossa alça de mira. No projeto de reforma tributária, está prevista a redução de 1% da contribuição previdenciária por ano, até chegar a diminuir para 6%. Poderemos antecipar alguma coisa, em vista do cenário que temos, mas aí temos de olhar o custo. Cada 1% de redução custa R$ 3,8 bilhões por ano. É bastante, mas não estamos descartando nada.

E os outros setores? Todos estão pedindo…

Todos os setores empresariais sempre pediram. Mas o governo não se influencia pela pressão de setores. Quem teve a ideia de fazer a redução do IPI fomos nós, não foram eles. Ontem (quarta-feira) fizemos uma avaliação com o Jackson Schneider (presidente da Anfavea) e ele acha que, graças a esse programa de desoneração de IPI, eles venderam 250 mil carros a mais. Nós perdemos IPI, mas em compensação pagamos menos seguro desemprego, aqueles funcionários que continuaram ganhando salário consumiram, pagaram outro tipo de tributo, houve compensações. Se você deixa a economia cair, se deixa o nível de atividade desacelerar, a arrecadação vai cair mais ainda.

O aumento da alíquota sobre a importação do aço não vai contra o próprio discurso do presidente Lula, de que num momento como este não deveria haver medidas protecionistas?

Com a crise, a indústria do aço no mundo caiu 50% e agora tem gente de outros países querendo exportar aço até a preço de custo. Nós observamos isso criteriosamente, esperamos a indústria nacional baixar o preço, eu quis ver as faturas e aí nós subimos 12% (o imposto de importação). É uma medida que a OMC (Organização Mundial do Comércio) aceita e não dá para deixar nosso mercado ser invadido por exportações de baixo custo de outros países.

O senhor e o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho, sempre foram associados a uma política chamada de desenvolvimentista, voltada para a produção. E isso entrou na agenda até dos liberais mais convictos…

Nós não somos estatistas. Sou desenvolvimentista sim, mas dos anos 2000, e não dos anos 60, ou dos anos 70. Moderno, dinâmico. A gente só entra onde o setor privado precisa de um impulso. Depois, ótimo. O Estado não precisa ficar, a não ser em certos setores, que precisam ficar vigiados. O setor financeiro é um deles, porque é uma concessão. Foi no setor financeiro que os Estados Unidos comeram bola, cometeram erros que estão corrigindo hoje com essa regulamentação extremamente positiva, que já temos no Brasil. Por isso nosso sistema é mais sólido.

Qual o plano para todas essas participações em empresas em crise que o BNDES está comprando? É vender depois ou permanecer como acionista?

No passado o BNDES precisou ajudar na implementação de alguns setores, ele floresceu e aí vocês vende as ações (das empresas do setor). Aliás,o BNDES tem lucrado muito com aquilo que fez no passado, o que significa que fez só coisas positivas. Quando estava no BNDES, me lembro que o lucro em 2003 tinha sido R$ 1,4 bilhão. Em 2004, foi de R$ 3,3 bilhões e daí para a frente só tem crescido. Portanto, só faz coisas sólidas. Os bancos públicos vieram para ficar, são atores econômicos importantes hoje e trabalham com princípios de eficiência, responsabilidade e produtividade. São lucrativos, eu faço exigência de metas de produtividade. A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil são instrumentos de política econômica e dessa participação do Estado estimulando a infraestrutura. Nós estávamos defasados em infraestrutura e os investimentos não vinham espontaneamente do setor privado. O governo precisou dar um impulso. Mas nós não somos estatistas.

Quem é:
Guido Mantega

É ministro da Fazenda desde março de 2006, quando substituiu Antonio Palocci

Também foi ministro do Planejamento e presidente do BNDES

É formado em Economia pela Universidade de São Paulo

PERFIL: “Sou desenvolvimentista sim, mas dos anos 2000, e não dos anos 60 ou 70. Moderno, dinâmico”

JUROS: “As instituições financeiras dizem que querem se garantir contra a inadimplência, mas abusam”

POUPANÇA: “Foi anunciado que a medida é para o ano que vem. Temos tempo para entrar no Congresso”

18/06/2009 - 14:07h Pastore pede discurso mais claro a Meirelles

Apesar disso, economista elogia trabalho do BC durante a crise

Ricardo Leopoldo – O Estado SP

O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore disse que o atual presidente da autoridade monetária, Henrique Meirelles, precisa ser um pouco mais consistente na comunicação, a fim de coordenar de forma eficiente as expectativas de mercado, especialmente as relacionadas às decisões de política monetária.

“Ele (Meirelles) tem de vir a público e deixar muito claro que está defendendo certos pontos de vista que ajudam o mercado a entender a sinalização. Se há um erro que o presidente do Banco Central está cometendo, é esse. As outras ações são todas acertadas”, comentou Pastore, em entrevista concedida ontem à Agência Estado.

Segundo Pastore, as pressões políticas emanadas de setores do governo para que os juros baixem com maior vigor fazem com que Meirelles se comunique com dois públicos: um deles é o mercado e o outro é composto por integrantes do governo que desejam uma política monetária mais flexível.

Na avaliação de Pastore, foi correta e adotada por critérios técnicos a decisão da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar os juros em 1 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. A ata do encontro do BC, que será divulgada hoje, na expectativa dele, não mostrará nenhum otimismo com a recuperação da economia.

Pastore defende que o BC explique que “o hiato do produto está grande, que essa é uma força desinflacionária e que o investimento está baixo, o que freia a demanda”. O ex-presidente do Banco Central acredita que, como a inflação está sob controle, há espaço para os juros caírem pelo menos mais 0,50 ponto na próxima reunião, prevista para julho.

Ele prevê que o PIB deve registrar uma retração de 0,5% a 1% neste ano, mas voltará a crescer no quarto trimestre de 2009 a uma taxa anualizada de 3,5%. Em função do baixo vigor da recuperação do nível de atividade, ele defende que o juro efetivo deve ficar abaixo do juro de equilíbrio por um bom período, talvez até um ano. Para 2010, ele espera uma expansão do PIB de 3,5%.

O ex-presidente do BC diz que respeita o excelente trabalho que a equipe de Meirelles tem feito durante a crise. “O Brasil tem de usar políticas contracíclicas, porque está enfrentando uma crise de demanda. O BC reagiu baixando a taxa de juros, reduziu os compulsórios e criou o Fundo Garantidor de Crédito.” Com isso, diz ele, o crédito está voltando gradativamente. “Se a recessão do primeiro e segundo trimestres está se encerrando, isso se deve muito, se não quase exclusivamente, às políticas contracíclicas adotadas pelo BC.”

09/06/2009 - 09:48h Brasil passa pela crise melhor que os parceiros

Conjuntura: PIB do primeiro trimestre, que será divulgado hoje, deve cair entre 1,5% e 2,5% sobre o fim de 2009

Sergio Lamucci, de São Paulo – VALOR

A possibilidade de a economia brasileira encolher neste ano é grande, mas o país tem se saído melhor que vários outros emergentes no cenário da mais grave crise global desde os anos 30. Se não mostra a resistência de uma China, o Brasil ao menos exibe um desempenho mais consistente que o da Rússia, México, Turquia e alguns países do leste europeu. Com reservas internacionais na casa de US$ 200 bilhões, um déficit em conta corrente moderado, contas fiscais robustas e um sistema financeiro saudável, o Brasil tem conseguido aguentar razoavelmente bem o brusco solavanco da economia global.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta uma queda de 1,3% para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2009, resultado bem pior que a alta de 6,5% prevista para a China e de 4,5% para a Índia, mas muito superior aos tombos estimados para Rússia (-6%), Turquia (-5,1%), México (-3,7%), República Checa (-3,5%), Hungria (-3,3%), Bulgária (-2%) e Venezuela (-2,2%).

Hoje, será conhecido o resultado do PIB brasileiro no primeiro trimestre de 2008. Na comparação com o trimestre anterior, o tombo deve ficar entre 1,5% e 2,5%, feito o ajuste sazonal. A expectativa generalizada, porém, é de que a recuperação, ainda que lenta, se iniciou já no segundo trimestre deste ano.

O ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos, diz que o Brasil conseguiu passar com razoável tranquilidade por um rigoroso teste imposto pela crise. A forte valorização do real seria um dos sinais das boas condições da economia brasileira, ainda que impulsionada pela depreciação do dólar no mercado internacional e pela alta dos preços de commodities. O nível de reservas e o peso do mercado interno como motor do crescimento são bastante importantes, diz ele. “Nós passamos por um teste de stress nesta crise que não foi mole”, afirma ele, lembrando que o crédito já dá sinais de recuperação e as vendas de automóveis estão em níveis razoáveis.

Para o ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada, uma grande vantagem do Brasil na atual crise é a possibilidade de adotar medidas fiscais e monetárias anticíclicas. “É o oposto do que ocorreu nas anteriores”, diz ele. Nas turbulências externas do fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, desvalorizações abruptas do câmbio levavam a aumento de juros e elevação do superávit primário, combinação que intensificava o quadro de desaceleração da economia. Desta vez, o BC reduziu os juros e o governo diminuiu o esforço fiscal.

O nível relativamente modesto do déficit em conta corrente em 2008 também ajudou o Brasil a se sair bem na turbulência. Em 2008, o rombo nas transações de bens, serviços e rendas do país com o exterior ficou em 1,7% do PIB, abaixo dos 6,4% da Hungria, dos 5,8% da Turquia, dos 2,9% da República Checa e dos 25,2% da Bulgária. Com a crise, ficou bem mais difícil financiar déficits elevados em conta corrente, o que tende a exigir ajustes severos no ritmo de crescimento, para diminuir a necessidade de importações. Não por acaso, os PIBs desses países devem registrar contrações fortes neste ano.

O volume de reservas do Brasil é bem superior ao desses países. Números do FMI mostram que, em abril, as da República Checa eram de US$ 37 bilhões, as da Hungria, de US$ 35,6 bilhões, as da Turquia, de US$ 67,6 bilhões e as da Bulgária, de US$ 15,6 bilhões. Esse indicador, porém, não é garantia de sucesso: a Rússia tinha quase US$ 600 bilhões em julho de 2008, e mesmo assim não conseguiu evitar um forte golpe da crise, causado principalmente pelo recuo do petróleo. Em abril deste ano , as reservas do país eram de US$ 383,9 bilhões.

Outra vantagem da economia brasileira é não estar “à mercê da cotação de preço de nenhum produto ou serviço específico”, como diz a carta de maio do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O presidente do Ibre, Luiz Guilherme Schymura, nota que, em meados de 2008, no pico das cotações das commodities, os termos de troca (diferença entre preços de exportações e importações) “haviam subido não mais do que 10% em relação à media que prevaleceu desde o começo de 2006″. “Este fato reforça a ideia de de que nossa pauta de exportação e importação tem uma diversificação tal que não nos deixa vulneráveis a mudanças drásticas nos preços relativos.”

É um caso muito diferente de países como a Venezuela ou a já citada Rússia, cujo desempenho das contas externas e das contas públicas é extremamente ligado às receitas do petróleo. Em 2008, a Rússia teve um superávit nominal (resultado fiscal que inclui gastos com pagamento de juros) de 4,6% do PIB. Para este ano, a situação deve mudar totalmente, com a agência de classificação de risco projetando um déficit de impressionantes 6,8% do PIB, uma piora de 10,4 pontos percentuais do PIB em apenas um ano. No Brasil, mesmo com a redução do esforço fiscal para pagar juros, o déficit nominal deve ficar em 2,2% do PIB neste ano, segundo o consenso de mercado, apenas um pouco superior ao 1,5% do PIB registrado em 2008.

O diretor-executivo da Fitch Ratings no Brasil, Rafael Guedes, destaca, além da proteção conferida pelas reservas de quase US$ 200 bilhões, a saúde do sistema financeiro brasileiro. O crédito externo secou logo em seguida ao agravamento da crise, em setembro de 2008, mas os bancos não entraram em colapso. Nos últimos meses, os empréstimos e financiamentos reagiram um pouco, principalmente para a pessoa física.

Guedes observa que algumas fragilidades da economia brasileira acabaram por se tornar vantagens na crise. É o caso da baixa relação entre o crédito e o PIB, o nível elevado dos compulsórios (os recursos que os bancos têm que deixar depositados no BC) e até do patamar alto da taxa Selic. O BC pôde reduzir os compulsórios e baixar os juros básicos – países que tinham taxas baixas ficaram sem munição monetária para enfrentar o cenário de desaquecimento da atividade econômica.

Essas avaliações não querem dizer, porém, que o Brasil sairá ileso da crise – Guedes, por exemplo, estima queda do PIB de 1,2% neste ano. Ele diz que, se o Brasil tivesse controlado o ritmo de expansão dos gastos correntes, poderia usar a política fiscal de modo mais eficiente, por meio de um aumento mais forte dos investimentos. De qualquer modo, os números sugerem que o Brasil vai melhor que uma parte razoável dos outros países em desenvolvimento, dizem Guedes e os outros analistas.

O economista-chefe da RC Consultores, Marcel Pereira, nota que desde julho de 2007 o risco Brasil é inferior ao da média dos emergentes. Hoje, o risco brasileiro está algo como 150 pontos abaixo da média desses países. “É uma mudança muito significativa”, diz ele, em relatório, lembrando que o histórico de moratórias, inflação alta, vulnerabilidade externa a volatilidae no câmbio fizeram com que, durante décadas, “o Brasil fosse visto como uma das economias emergentes com maior nível de risco para investimentos”. Graças a um “árduo trabalho de ajuste macroeconômico”, esse quadro mudou, diz Pereira.

07/06/2009 - 13:28h Ex-campeão dos juros

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Celso Ming – O Estado SP

Nesta quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deverá derrubar os juros para um dígito (abaixo dos 10% ao ano) e os juros reais (descontada a inflação) deverão desabar para a casa dos 5% ao ano, fatos inéditos desde os anos 60, façanha obtida sem artificialidades.

Conquanto os juros ainda sejam muito altos no mercado interno, o Brasil vai abandonando o status incômodo de campeão mundial do preço do dinheiro.

Os analistas estão divididos em duas categorias. Uma delas, aparentemente mais numerosa, espera um corte de 0,75 ponto porcentual ao ano e a outra aposta em que será de 1 ponto porcentual. Mas uma não descarta a possibilidade de que ocorra a outra hipótese.

A partir de quarta-feira, as cadernetas de poupança ficarão mais rentáveis do que a maioria dos fundos de renda fixa, que pagam até 100% do DI. As cadernetas não cobram nem taxa de administração, que é quase sempre superior a 1% ao ano nos fundos de investimento, e nem Imposto de Renda, que varia de 15% a 22% nos fundos de investimento.

Essa diferença de tratamento pressiona o governo para adotar mudanças nas regras da caderneta ou no imposto cobrado sobre o rendimento dos fundos. Mas o governo parece bloqueado pelas pressões políticas. Algumas medidas chegaram a ser ostensivamente anunciadas no início de maio, com resultados desastrosos para a clareza e para a solução técnica do problema. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem afirmado que está à espera de condições políticas mais favoráveis. Se de fato esperar até que haja um cenário político melhor para derrubar o rendimento das cadernetas, então antes das eleições de 2010 muito dificilmente essas alterações acontecerão.

A continuidade do afrouxamento dos juros será justificada pelo Banco Central pela confluência de um punhado de fatores favoráveis. O primeiro deles é o de que, apesar da forte expansão dos salários e do Programa Bolsa-Família, não há exacerbação do consumo interno e, sem ataque da inflação, os juros podem continuar caindo. E a indústria ainda opera com enorme ociosidade, em parte porque enfrenta retração de 40% das exportações de produtos industrializados.

São fatores suficientemente fortes para descartar ameaças relevantes de inflação de demanda, aquela em que a procura se torna tão mais forte do que a oferta a ponto de puxar pela esticada dos preços internos.

Também a área externa contribui para que os juros possam ser derrubados. A recessão está intensa nos Estados Unidos (queda prevista do PIB de 3,0%) e mais forte ainda na área do euro (queda projetada do PIB de 4,6%). Isso significa que a demanda global continuará recuando, o que também tirará pressão sobre os preços.

Além disso, a trajetória do dólar no câmbio interno, em queda acentuada, tende a baratear as importações e, assim, concorrer para abrandamento da inflação na economia interna.

Ao contrário do que tantos apregoam, a queda expressiva dos juros no Brasil será o fator adicional de atração de dólares, na medida em que aumentará a percepção de que a economia brasileira está ajustada.

05/06/2009 - 11:00h ”Não vejo por que mudar a política”

Henrique Meirelles: presidente do Banco Central; Meirelles descarta a sugestão para a adoção de uma política que ora se voltaria para o controle da inflação, ora para o câmbio

 

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Beatriz Abreu, BRASÍLIA – O Estado SP

 


A uma semana da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, faz uma defesa enfática da política executada pela instituição, tanto em relação ao sistema de metas de inflação como a opção pelo câmbio flutuante. Essa política, segundo Meirelles, garante o equilíbrio da economia brasileira e está permitindo ao Brasil atravessar e sair da crise financeira mundial em condições mais favoráveis que outros países. “Não vejo, portanto, por que mudar uma política que está dando certo”, disse Meirelles em entrevista à Agência Estado.

Na entrevista – as respostas foram enviadas por e-mail -, Meirelles aborda a sugestão para a adoção de uma “política cambiante”, ou seja, ora mirando o controle da inflação, ora a taxa de câmbio. Ele descarta essa opção. Para o presidente do Banco Central, esse tipo de regime “envolveria maior incerteza” e “mais risco”, o que resultaria na tendência de taxas de juros de mercado mais elevadas. A seguir, principais trechos da entrevista.

O sr. tem afirmado que os capitais que ingressam no País não estão direcionados às operações de arbitragem. Quais são os instrumentos disponíveis para que o banco tenha garantia de que, de fato, esses capitais estão direcionados a investimentos estrangeiros diretos ou ações, por exemplo?

O Banco Central monitora diariamente o fluxo de capitais e tem total controle sobre as informações disponíveis. A sociedade também pode acompanhar esses dados, pois o BC os divulga periodicamente, com toda a transparência. O forte ingresso de capitais está motivando uma discussão na sociedade a propósito da relação entre a taxa de juros e a taxa de câmbio.

O sr. considera que a redução mais forte da taxa Selic pode inibir a desvalorização do dólar?

A política monetária tem apenas um instrumento, a taxa de juros de curto prazo, e, portanto, pode ter apenas um objetivo a cada momento. Pode, por exemplo, buscar o equilíbrio interno ou pode visar o equilíbrio externo. O sistema de metas de inflação visa a assegurar o equilíbrio macroeconômico doméstico através da política monetária, enquanto o equilíbrio externo é obtido por meio da flutuação da taxa de câmbio.

Não existem alternativas?

A alternativa seria usar a política monetária para atingir o equilíbrio externo, com uma taxa de câmbio arbitrariamente definida pelo governo.Vários países usaram esse sistema, concedendo soberania monetária ao país emissor da moeda âncora. Isso recorrentemente causou desequilíbrios no balanço de pagamentos. Uma segunda alternativa seria fixar uma taxa de câmbio móvel que assegurasse a rentabilidade de alguns setores exportadores, deixando em segundo plano o equilíbrio macroeconômico doméstico, em detrimento do bem-estar da maioria da população.

Em recente pronunciamento, o senhor disse que alguns parecem defender um sistema cambiante. O que significa isso?

Alguns parecem propor um tipo de sistema cambiante, onde a política monetária ora visaria o equilíbrio doméstico ora o externo, de forma discricionária e pouco transparente. Como tal regime envolveria maior incerteza, pois não se saberia exatamente qual é o mandato da autoridade monetária, e mais risco, as taxas de juros de mercado tenderiam a ser mais elevadas.Vale notar, também, que a busca do equilíbrio externo por vezes se choca frontalmente com as necessidades da economia doméstica; imaginemos, por exemplo, quanto teria subido a Selic em dezembro se tentássemos estabilizar o câmbio via taxa de juros e quais teriam sido as consequências para a economia brasileira. Não vejo, portanto, por que mudar uma política que está dando certo.

O sistema de metas tem atingido os seus objetivos? A valorização do câmbio não pode significar que está fracassando?

O sistema de metas para a inflação com câmbio flutuante assegurou, ao mesmo tempo, a estabilização da economia brasileira com uma taxa média de crescimento do PIB de quase 5% nos últimos 5 anos (o que deve ser comparado com um crescimento médio de cerca de 2% nas últimas duas décadas até 2003), inflação na trajetória de metas e juros reais cadentes. Ao mesmo tempo equilibrou o setor externo, pois gerou saldos no balanço de pagamentos que permitiram a acumulação de mais de US$ 200 bilhões de reservas. Um sucesso inquestionável de equilíbrio interno e externo.

Quais são os fatores que mais influenciam a taxa de câmbio?

O real tem mostrado uma alta correlação com o preço das commodities e com os índices de aversão ao risco. Quando o preço das commodities sobe, o real se valoriza e vice-versa. Essa correlação já chegou a ser muito alta, de 0,98. A correlação com os índices de aversão ao risco é um pouco mais baixa, mas ainda assim significativa. Além do mais, devemos levar em conta a própria flutuação do dólar frente às principais moedas, o que é uma questão norte americana.

Qual o efeito do fluxo positivo de entrada de capitais?

Ele permite ao Banco Central prosseguir sua política de acumulação de reservas que tantos benefícios tem prestado ao País. Uma análise cuidadosa dos dados divulgados pelo BC é esclarecedora a esse respeito. É importante observar também que uma parte significativa desse fluxo de capitais é constituída por investimentos estrangeiros diretos, vale dizer, são investimentos em máquinas e equipamentos que vão elevar a capacidade produtiva do Brasil. Outra parte dos recursos destina-se à Bolsa de Valores, que é uma fonte importante de capitalização para as empresas brasileiras.

O Brasil está sendo apontado como um dos países que se sairá melhor da crise financeira. Quais são os fatores que sustentam essa avaliação? Não se trata de um otimismo exagerado, sem lastro na realidade?

Esta avaliação é lastreada no fato de que o Brasil é um dos poucos países que estão fortalecendo seus fundamentos macroeconômicos durante a crise, enquanto a maioria dos países sairá da crise mais vulnerável, como resultado das medidas adotadas para superar os problemas. Os fatos são: o Brasil sairá da crise com reservas internacionais maiores do que quando entrou, uma relação dívida pública líquida em comparação com o PIB menor, uma situação monetária equilibrada, um sistema financeiro saudável e competitivo e com as empresas brasileiras com acesso ao mercado de capitais para financiar o seu crescimento. Apesar dos riscos do excesso de euforia, não há dúvida que estamos em posição mais confortável do que diversos outros países para o pós-crise.

05/06/2009 - 10:30h Brasil se distancia do posto de campeão em taxa

Fernando Travaglini, de São Paulo – VALOR

O Brasil não detém mais a liderança no ranking mundial de juros desde a última reunião do Copom, em abril, quando a autoridade monetária reduziu a Selic em um ponto, para 10,25%. O próximo encontro do Comitê, na semana que vem, deve confirmar essa tendência, levar a taxa básica para o patamar histórico de um dígito e afastar ainda mais o país do primeiro posto.

A lista, elaborada pela Uptrend Consultoria Econômica apontava que no início de maio a liderança estava com a China, com juro real de 6,6%, calculado por meio da taxa nominal descontada a inflação projetada para os próximos doze meses. Em segundo lugar aparecia a Hungria, seguida pelo Brasil.

Hoje, a taxa real do Brasil já está na casa dos 5%. Para Tomás Goulart, economista da Modal Asset, o atual ciclo de queda se deve a questões tanto estruturais, como conjunturais – a crise. Mas ele vê “chances razoáveis” de o juro permanecer nos patamares baixos de agora.

Um entrave para novas quedas poderia ser os juros da caderneta de poupança. Para Rogério Oliveira, diretor de pesquisa quantitativa para mercados emergentes do Barclays Capital, já neste ano a poupança passa a ser mais atrativa. “Devemos observar migração”.

Ivan Dumont, diretor de tesouraria do Banco Alfa de investimentos acredita que a redução de 0,75 pontos no próximo Copom já leve a poupança para um ponto perto do chamado “break-even”, mas não acredita em fuga dos investimentos em renda fixa.

Ainda assim, José Marcio Camargo, economista da Opus Gestão de Recursos acredita que o BC não deixará de diminuir os juros por conta de uma eventual competição entre os investimentos. “Cabe ao Banco Central fazer política monetária e ao governo solucionar esse problema”.

Para Jorge Simino, diretor da Fundação Cesp, essa discussão foi tomada de uma urgência que ele não vê necessária. “No meu cenário, que difere do consenso de mercado, a economia irá se recuperar mais fortemente no próximo ano e pode aparecer alguma inflação residual na margem. Não deve ser nada extremamente relevante, mas o BC pode voltar a subir a Selic no próximo ano”. Ele ainda pondera que se o objetivo é evitar que o público saia dos fundos, do ponto de vista lógico, antes de mexer na caderneta deveria estudar uma forma de manter os investidores na renda fixa.

25/05/2009 - 11:19h ”Poupador terá de buscar aplicação de longo prazo”

Entrevista – Gustavo Loyola: ex-presidente do Banco Central; Para o consultor, os aplicadores precisarão aprender a conviver num ambiente com juros civilizados


Leandro Modé – O Estado SP

http://www.interjornal.com.br/fotos/2069937m.jpgO ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola acredita que o Brasil ainda não está preparado para conviver com uma taxa básica de juros estruturalmente menor, basicamente em razão da cultura de taxas estratosféricas desenvolvida nas décadas de inflação muito elevada. Em compensação, não acredita que os problemas existentes representem entrave à tendência de redução. “O que vai acontecer é que, se não forem resolvidas, as dores serão muito maiores, haverá mais sofrimento”, disse ao Estado. Entre os problemas à vista, ele cita a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), a tributação do mercado financeiro, a remuneração dos fundos de pensão e a correção dos depósitos judiciais.

O Brasil está preparado para uma taxa básica estruturalmente mais baixa?

Sim e não. Sim no sentido macroeconômico. Há condições de praticar uma política de juros mais baixos no País. Em outro sentido, não está. Ainda temos gravada em nossas instituições econômicas, nas regras de funcionamento da economia e até nos hábitos e costumes, essa herança dos tempos de alta inflação e de juros nominais também altos. São coisas do passado que precisam ser removidas para que os juros possam, de fato, cair sem maiores traumas. O episódio da poupança é emblemático, mas há outros. Por exemplo, a remuneração da aposentadoria. Outro ponto é a tributação do mercado financeiro, que não está arrumada para juro baixo. As alíquotas foram calculadas para determinados níveis de juro nominal. Quando esse cai, algumas alíquotas ficam proporcionalmente muito mais altas. Serão necessárias adaptações. Há também os compulsórios e o custo administrativo dos bancos.

Do ponto de vista de quem já presidiu o BC, onde o sr. vê as maiores complicações em potencial?

Justamente nessas áreas em que há direcionamento obrigatório de crédito e fixação de juros mínimos. O caso da poupança é um. Temos outros casos, como os depósitos judiciais (corrigidos pela poupança) e os tabelamentos existentes no SFH (Sistema Financeiro da Habitação). Além da questão regulatória, a queda do juro traz um desafio que é remunerar o capital em um ambiente de juros mais baixos. Os poupadores terão de utilizar mais ativamente a estrutura da taxa de juros. Ou seja, buscar aplicações de prazo mais longo para ter maior rentabilidade. Também terão de assumir mais riscos. É um grande desafio para pessoas e gestores.

Essas questões representam entrave à queda maior do juro?

Não. O que vai acontecer é que, se não forem resolvidas, as dores serão muito maiores, haverá mais sofrimento. No caso da poupança, o risco apontado pelo BC foi evitar uma avalanche de recursos de um lugar para outro rapidamente. Isso pode gerar instabilidade no sistema financeiro. Em outros casos, há simplesmente a necessidade de uma mudança de atitudes, estratégias. O fato é que toda essa estrutura do Brasil que tem fixação da taxa de juros tem de ser repensada.

Por exemplo?

A TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), da forma como é fixada hoje, vai ser necessária? O argumento básico da TJLP é que havia necessidade de uma taxa de longo prazo para não ficar à mercê dos juros de curto prazo. Foi uma criação meio artificial porque praticamente não há crédito de longo prazo no Brasil, exceto via BNDES. Com o juro caindo, esse crédito de longo prazo começará a surgir e virá a pergunta: para quê continuar com a TJLP?

As autoridades têm demonstrado estar cientes dessa realidade que está chegando?

Esse debate da poupança chamou a atenção para a questão. O BC teve o mérito de ter levantado o tema. A consciência de que o problema tem de ser visto já existe, mas há uma certa dificuldade em antecipá-lo, o que é típico no Brasil. O lado técnico do governo tem consciência, mas há dificuldade para colocar o tema na agenda política.

Com o juro menor, não vai ficar mais evidente o tamanho do spread bancário no Brasil?

Sim. Mas também é verdade que, se o spread fica proporcionalmente mais gordo com a queda do juro, há possibilidade de o spread cair por causa dos benefícios do juro menor (como alongamentos de prazo de financiamento).

18/05/2009 - 10:21h ‘Regime de metas do Brasil é consistente’

Entrevista: Ex-diretor de pesquisa do BC chileno elogia BC brasileiro e defende conservadorismo da instituição

Leo Pinheiro/Valor

Klaus Schmidt-Hebbel: “Se o BC não tivesse sido conservador, a inflação teria sido muito mais alta e mais variável”

Sergio Lamucci, do Rio – VALOR

Diretor de pesquisa do Banco Central do Chile entre 1996 e 2008, o economista Klaus Schmidt-Hebbel vê com bons olhos a experiência do regime brasileiro de metas de inflação. Ele ressalta a capacidade do Banco Central (BC) de manter sob controle as expectativas inflacionárias, mesmo num cenário de grave crise global. Segundo Schmidt-Hebbel, desde 2006, os desvios no Brasil entre a inflação observada e a meta têm sido menores do que outros 27 países que adotam o sistema, dos quais 8 industrializados e 19 emergentes.

Ele diz que a política conservadora adotada pelo BC brasileiro se justifica porque o regime de metas ainda está numa fase de consolidação, em transição para o nível final de meta inflacionária, que seria mais baixo que os atuais 4,5% perseguidos pela autoridade monetária. “Se o BC não tivesse sido conservador, a inflação teria sido muito mais alta e mais variável.”

No Chile, que tem uma meta de inflação de 3% desde 2001, há mais liberdade para reduzir os juros, afirma Schmidt-Hebbel, professor da Universidade Católica do Chile. Essa diferença é fundamental para explicar, para ele, por que o BC chileno cortou as taxas de 8,25% para 1,25% desde o começo do ano enquanto o BC brasileiro baixou a taxa Selic de 13,75% para 10,25% no período.

Ex-economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Schmidt-Hebbel participou na semana passada do XI Seminário Anual de Metas para a Inflação, promovido pelo Banco Central, no Rio. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: Os países que adotam o regime de metas de inflação se saíram bem no ambiente de crise global?

Klaus Schmidt-Hebbel: A avaliação geral é que sim. Houve um duplo choque na economia global. Até meados de 2008, ocorreu uma forte alta dos preços de matérias primas, que causou muita inflação, acompanhado por um choque de preços de ativos nos países desenvolvidos. Depois, houve a reversão da alta de commodities. Foi um choque deflacionário, seguido por um segundo movimento deflacionário, causado pela recessão global. Os países que adotam o regime de metas se saíram bem. Contra as previsões de muita gente, as expectativas de inflação se mantiveram sob controle. Além disso, o câmbio, em geral flutuante nos países que adotam o regime de metas, funcionou na absorção de choques. Houve desvalorizações significativas no Brasil, em Israel, no Chile, na Colômbia, na Polônia, o que é muito importante para evitar uma queda maior do PIB. Isso estimula exportações e desestimula importações. E, com as expectativas de inflação bem ancoradas, os BCs puderam reduzir os juros, principalmente os países que já têm uma taxa estacionária e baixa. O desenvolvimento do regime tem sido de muito sucesso, no mundo em geral e especialmente no Brasil, quando se analisa o desvio entre a inflação efetiva e a meta.

Valor: Como se saiu o Brasil?

Schmidt-Hebbel: No Brasil, a partir de 2006, os desvios entre a inflação observada e a meta têm sido menores que os registrados por países que adotam o regime de metas, tanto emergentes como industrializados.

Valor: O que explica esse bom resultado?

Schmidt-Hebbel: É consequência de uma condução consistente da política monetária pelo BC brasileiro, que tem mantido as expectativas inflacionárias sob controle. A sensibilidade das expectativas o Brasil em relação ao choque do petróleo tem sido menor do que outros países, como o Chile. Mas eu não conheço em detalhes a formação de preços no Brasil, como a dos derivados do petróleo.

Valor: Os preços da gasolina e óleo diesel são controlados, não seguem as oscilações de curto prazo do petróleo no mercado externo.

Schmidt-Hebbel: É mais um fator que explica por que a inflação observada fica perto da meta. No Chile, os preços refletem a mudança do petróleo depois de uma semana. E eu estou falando do sucesso do Brasil em termos de política monetária e de desvios da inflação em relação à meta. Há outras dimensões que eu não conheço, como a questão do crescimento.

Valor: Muitos economistas brasileiros dizem que a política monetária brasileira é excessivamente conservadora. Como o sr. avalia essa afirmação?

Schmidt-Hebbel: No período de consolidação do regime de metas de inflação, como foram os 10 últimos anos no Brasil, é muito importante ter uma política conservadora. Se o BC não tivesse sido conservador, a inflação teria sido muito mais alta e mais variável. E é importante lembrar que o BC não controla todas as taxas de curto e de longo prazo. Ele só afeta fundamentalmente a parte curta da estrutura a termos da taxa de juros.

Valor: A crise global é uma oportunidade para o Brasil baixar significativamente os juros?

Schmidt-Hebbel: Eu não posso responder a essa pergunta, porque não sou um especialista na conjuntura brasileira. Eu posso falar qual a inferência da experiência internacional para o Brasil. No Chile, o período de transição de metas de inflação do nível de 20% para 3%, atingido em 2001, levou de 10 a 11 anos. Os juros reais médios no Chile ficaram em 6% entre 1990 e 2001. De 2001 para cá, estão entre 4% e 5%. A experiência internacional mostra que a taxa de juros tem que ser moderadamente alta para controlar as expectativas de inflação, de modo que a credibilidade do BC seja forte. Com uma política monetária conservadora, o BC guia as expectativas de inflação para níveis próximos da meta. Uma vez que o BC atinge o seu nível final de meta de inflação, na terminologia técnica chamada de meta estacionária ou fixa, o país pode ter juros mais baixos.

Valor: O BC brasileiro persegue o “índice cheio” de inflação e tem que cumprir a meta no ano calendário. O sr. acha recomendável adotar um núcleo de inflação (que exclua preços de alimentos e energia, por exemplo) e a extensão do horizonte para o cumprimento da meta?

Schmidt-Hebbel: Os poucos países do mundo que tinham uma meta de inflação expressa no núcleo têm mudado para o índice cheio. Esse é o índice que se usa no dia a dia, que é importante para o consumidor médio. Isso não significa que o BC não leve em conta o núcleo.

Valor: E o horizonte de convergência?

Schmidt-Hebbel: Durante a transição até a taxa estacionária, é impossível fazer outra coisa que ter metas para um período preciso, como o ano-calendário. Uma vez que você chega à inflação fixa, estacionária, a inflação de dezembro a dezembro perde importância. O horizonte de política que tipicamente se adota na média dos países com menor inflação é entre um ano e meio e três anos.

Valor: O Brasil está chegando perto de uma taxa estacionária?

Schmidt-Hebbel: A meta de 4,5% não é muito distante de 2%, 3% ou 3,5%, ou do intervalo de 2% e 4%. Qualquer que seja o nível final, não está muito distante para o BC brasileiro. Acho que daqui a poucos anos o BC poderá convergir para o nível estacionário.

Valor: Por que o BC chileno foi tão mais agressivo do que o brasileiro na redução dos juros? Desde janeiro, o BC chileno cortou os juros de 8,25% para 1,25% ao ano, enquanto o brasileiro reduziu a Selic de 13,75% para 10,25% no período.

Schmidt-Hebbel: A diferença é que o Chile tem há oito anos um nível estacionário de taxa de inflação de 3%, com horizonte mais amplo para a convergência do índice de preços para a meta. Isso dá mais flexibilidade para o uso da política monetária, com amplitude maior no uso do instrumento de juros.

Valor: O sr. acha que os BCs devem passar a monitorar também a evolução de preços de ativos como ações e imóveis, além da inflação de bens e serviços?

Schmidt-Hebbel: É uma pergunta para a qual ainda não tenho uma resposta. Até antes da crise, eu achava que não se deveria fazer isso, mas, depois de analisar a situação atual, que foi precedida pela bolha de preços de ativos, acredito que os BCs têm que pensar muito seriamente em compatibilizar objetivos de estabilidade de preços de bens e serviços com objetivos de estabilidade financeira.

14/05/2009 - 09:44h Curiosidade

http://www.gifmania.com.pt/dinheiro/estirando_dinero/guystretch_dollar_md_wht.gifSão 89.980.718 o total das cadernetas de poupança no Brasil.
Desse total, nada muda para os 80.580.797 poupadores. O saldo nas cadernetas deles vai de R$100 a 5.000.
Nada muda tampouco para outros 6.578.444 poupadores que têm de R$5.000,01 a R$20.000. E nada muda para os outros 1.926.621 com saldo nas cadernetas de R$20.000,01 a R$50.000. Ou seja para 89.085.862 poupadores nada muda.

A poupança de 600.894 cadernetas, com saldo de R$50.000,01 a R$100.000 poderá sofrer alguma tributação dependendo do juros da Selic (a Folha fez uma simulação de como seria se a mudança entrasse em vigor hoje e para estas cadernetas o imposto devido será de R$33).

A partir de saldos acima de R$100.000, a proposta do governo federal implicará no pagamento de imposto significativo. São 280.019 cadernetas com saldo de R$100.000,01 a R$500.000. São também os 10.121 poupadores com saldo de R$500.000,01 a 1.000.000 e as 3.822 cadernetas acima de R$1.000.000.

São esses 293.962 poupadores que a oposição PPS, PSDB e DEM denomina “o pobre, o aposentado, o trabalhador” que seriam afetados verdadeiramente pelo IR. Segundo a simulação da Folha, os que têm um saldo de R$200.000 pagariam hoje R$495 de IR e os pouquissimos com saldo de R$2.000.000 (3.822 pessoas) pagariam um imposto de R$6.435.

A minha curiosidade, como a do articulista da Folha, Vinicius Torres Freire, é porque essas 3.822 pessoas deixam tanto dinheiro na poupança?

Essa curiosidade se estende a outra: o que motiva a raivosa oposição demo-tucana e leva um grande jornal a afirmar na sua manchete de capa, “governo taxa classe média”?

Luis Favre com dados da Folha de São Paulo

14/05/2009 - 09:20h Poupança: foi uma solução engenhosa, diz Delfim

Mercado Aberto

GUILHERME BARROS – guilherme.barros@grupofolha.com.br

Foi uma solução engenhosa, diz Delfim

delfim_netto.jpgO ex-ministro Delfim Netto considerou positivas as mudanças anunciadas ontem pelo governo para a caderneta de poupança. Para ele, foi uma boa solução, tanto do ponto de vista econômico como do político.
“Foi uma solução engenhosa, acomoda todos os interesses.”
Apesar de ter apoiado a medida, Delfim reconhece que o melhor teria sido a adoção de uma solução definitiva para o problema. Ou seja, a de baixar os juros da poupança.
“Não pode existir uma taxa de juro real fixa. Isso não existe”, diz Delfim.
Mas o mais absurdo ainda, no caso da poupança, de acordo com Delfim, é ter uma aplicação que, ao mesmo tempo, é mais segura que todas as outras, de maior liquidez e que ainda pode proporcionar a maior taxa de retorno.
Segundo Delfim, o governo acabou sendo obrigado a adotar essa solução por conta do uso político que foi dado à questão. Alguns partidos de oposição espalharam o boato de que o governo estava estudando um confisco na poupança, a exemplo do que fez o governo Collor.
“O que fizeram foi uma irresponsabilidade monumental, em um momento de crise como agora. A sociedade ainda está esfolada pela maluquice do Collor”, diz. “O governo acabou dando uma solução economicamente razoável e politicamente a menos danosa.”
Delfim considera que o mais importante, no entanto, nem foi exatamente a mexida na poupança, mas a redução da tributação dos fundos de investimento.
Aliás, ele afirma que o maior benefício desta crise têm sido as medidas do governo de desoneração tributária, um hábito muito pouco comum na história do país.
A redução do imposto sobre os fundos será mais do que compensada com a economia que o governo vai fazer com o corte dos juros. De acordo com Delfim, a renda dos rentistas será transferida para o governo com a queda dos juros.
“A economia não pode viver dos rentistas e sim de quem produz”, diz. “Não que os rentistas não produzam, mas o rentista não pode ter uma taxa de retorno muito superior à produtividade média da sociedade”, afirma.
O que Delfim espera, agora, com a mudança na poupança, é que o Banco Central baixe a taxa de juros.
“Pelo menos o Banco Central não tem mais a justificativa de que não pode baixar um pouco mais os juros.”

Leia a integra da coluna de Guilherme Barros na Folha SP

14/05/2009 - 08:57h Poupança: muito barulho por nada

VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP

Mudança afeta pouca gente, funciona mais em casos extremos e adia uma decisão mais efetiva e relevante

http://www.gifmania.com.pt/dinheiro/huchas/bank.gifA MUDANÇA mais importante nos impostos sobre aplicações financeiras, anunciada ontem pelo governo, acabou não sendo explicada ontem pelo governo. Explique-se: a mudança que mais tende a alterar as vantagens de aplicar na poupança ou em outros tipos de investimento ficou meio no ar. O governo disse que vai reduzir o Imposto de Renda sobre aplicações em fundos de investimento, CDBs, títulos públicos (caso do Tesouro Direto) etc. Talvez o imposto caia para 15% dos ganhos (hoje vai de 15% a 22,5%, a depender do prazo da aplicação). Mas não disse se haverá alíquotas (porcentagens) diferentes, a depender do prazo; não explicou o que quer dizer que “a alíquota nova” só valerá para este ano. Na verdade, não explicou nada. Porém, tal alteração é a que teria mais impacto na rentabilidade relativa de poupança e fundos, por exemplo.
A mudança na poupança foi pequena não só porque afeta apenas 0,99% das contas da caderneta, segundo os dados oficiais. A mudança foi pequena porque a novidade do Imposto de Renda sobre a poupança apenas será mais relevante em casos extremos. Em primeiro lugar, só haverá alíquotas efetivas maiores que uns 15% no caso de a Selic cair para menos de 7,75%, para cadernetas com pelo menos R$ 200 mil ou mais e para pessoas que têm rendimentos mensais iguais ou superiores ao da maior faixa de tributação do IR (acima de R$ 3.743,19, em 2010, quando valeria a tributação da poupança).
Para quem aplica em um fundo ruim, que rende pouco e cobra taxa de administração alta, por um tempo ainda deve valer a pena tirar dinheiro desse fundo e colocar na poupança. Mas, atenção, é preciso fazer a conta considerando cada caso pessoal, na ponta do lápis, pensando na renda mensal tributável, na liquidez diferente das aplicações (possibilidade de sacar a qualquer momento e ficar o com rendimento) etc.
Decerto que, no caso de quem tem um fundo melhor (aqueles que têm muito dinheiro), a mudança não vai compensar. Porém, a dúvida só fica maior em situações mais extremas.
A tributação da poupança só vai fazer diferença mesmo em um cenário de queda grande da taxa de juros, da Selic, e para quem tem muito dinheiro. A Selic está em 10,25%. É razoável acreditar que, dados os atuais níveis de risco Brasil e de meta de inflação no país, o piso mais otimista para a Selic é 8,5%. Ainda assim, nesse caso, a alíquota para quem tem R$ 1 milhão na poupança (e que deve estar na faixa superior do IR) iria a 10,5%. Isso vai obrigar alguém mais esperto a fazer mais contas. Mas parece que houve muito barulho para uma decisão nada radical. O governo resolveu só o caso mais extremo e, como em 2007, empurrou o problema para a frente, com a barriga. Problema que, aliás, não afeta só aplicações financeiras.
Mais relevante para quem tem mais dinheiro será a definição da nova alíquota do imposto sobre aplicações em fundos, CDBs, Tesouro Direto etc. Uma redução dessa alíquota teria impacto mais decisivo sobre quem pensa em migrar para a poupança. Mas tira dinheiro do governo.
Por fim, uma curiosidade. O saldo médio das contas que têm mais de R$ 1 milhão é de R$ 3,9 milhões. Por que essas pessoas (até 3.822) deixam tanto dinheiro na poupança?

vinit@uol.com.br

14/05/2009 - 08:33h Demagogia do dia

“O anúncio feito pelo ministro da Fazenda mostra que o governo Lula optou por prejudicar o pobre, o aposentado, o trabalhador.” Nota conjunta PPS, PSDB, DEM

O Ministério da Fazenda calcula que, se uma pessoa tem só a caderneta como fonte de renda, ela teria de ter um saldo superior a R$ 986.000,00 para ser tributada (considerando uma Selic de 8,5%). Fonte O Estado SP

13/05/2009 - 19:49h Proposta para tributar poupança atinge 0,99% das contas

FERNANDO NAKAGAWA – Agencia Estado

BRASÍLIA – As propostas apresentadas hoje pelo governo para a tributação da caderneta de poupança vão atingir apenas 0,99% das cadernetas existentes. Os dados referentes a dezembro de 2008 divulgados nesta quarta-feira pelo Ministério da Fazenda e Banco Central revelam que apenas 894,8 mil contas têm saldo superior a R$ 50 mil, faixa que passará a estar sujeita à tributação de Imposto de Renda. Apesar do pequeno número de contas, esse conjunto de poupadores tem 40,8% de todos os depósitos das cadernetas, o equivalente a R$ 110,5 bilhões.

Conforme os dados apresentados, as contas com saldo entre R$ 50 mil e R$ 100 mil somam 600 mil contas e correspondem a 0,66% do total. Nessa categoria, estão depositados 15,1% de todo o dinheiro da poupança, o equivalente a R$ 40,8 bilhões. Com saldo total entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão, estão outras 290 mil cadernetas ou 0,33% de todas as contas existentes. Esse grupo de poupadores mantinha, em dezembro de 2008, R$ 54,6 bilhões nas contas ou 20,2% dos depósitos.

Por fim, o seleto grupo de poupadores com mais de R$ 1 milhão na conta é formado por apenas 3.822 contas. Esse grupo representa 0,01% de todas as cadernetas existentes. Apesar da participação inexpressiva, o grupo mantém R$ 14,9 bilhões, o equivalente a 5,5% de todos os depósitos.

Para efeito de comparação, o valor médio poupado pelo grupo com o maior saldo é de R$ 3,9 milhões. Já no grupo com os saldos mais baixos – com até R$ 100 em conta – a média é de apenas R$ 13,60. Nesse grupo, estão depositados R$ 688 milhões em 50,5 milhões de contas.