14/10/2009 - 12:12h SABATINA FOLHA: JOSÉ SERGIO GABRIELLI

O petróleo é boa bandeira política

Presidente da Petrobras diz que emissão para capitalizar empresa deve chegar a 3 vezes o valor dos 5 bi de barris que União cederá para a estatal


O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, demonstra confiança nos projetos do governo Lula para mudar o modelo exploração de petróleo. Em sabatina da Folha, disse que a oposição está “atordoada” com as propostas do governo para a exploração das reservas do pré-sal, que as críticas mais agudas vêm de empresas estrangeiras que ainda não exploram a região e que o petróleo sempre foi uma “boa bandeira política”. Gabrielli se diz um “petista histórico”, fundador do partido. Foi diretor financeiro da estatal de 2003 a 2005, quando assumiu a presidência da maior empresa do país.

Jorge Araujo/Folha Imagem
Gabrielli_Folha
O editor de Dinheiro, Sérgio Malbergier, o colunista Vinicius Torres Freire, José Sergio Gabrielli, a colunista Maria Cristina Frias e o repórter especial Valdo Cruz, na sabatina da Folha no Tuca



AGNALDO BRITO – FOLHA SP


DA REPORTAGEM LOCAL

A Petrobras fará uma emissão primária de ações três vezes superior ao valor total dos 5 bilhões de barris que o governo cederá à companhia na chamada operação de capitalização. A transação está prevista num dos quatro projetos de lei em discussão neste momento no Congresso Nacional.
A informação é do presidente da estatal, José Sergio Gabrielli. O executivo -integrante “histórico” do PT (Partido dos Trabalhadores)- participou ontem da sabatina da Folha, realizada no teatro Tuca, em São Paulo.
Foi sabatinado por Maria Cristina Frias, colunista da Folha, Sérgio Malbergier, editor de Dinheiro, o colunista Vinicius Torres Freire e o repórter especial Valdo Cruz. A principal dúvida sobre a dimensão dessa operação de capitalização ainda é o valor que será atribuído a cada barril a ser cedido pela União à Petrobras. Só a partir disso será possível saber qual a cifra que terá de ser desembolsada pelos acionistas da companhia para compra das ações a fim de manterem a mesma participação atual.
Se os acionistas minoritários não conseguirem subscrever um volume de ações equivalente ao que têm hoje, terão participação reduzida. Segundo avaliação de Gabrielli, toda a operação de transferência de reservas do governo para a estatal e a operação de emissão de ações ocorrerá ao longo do primeiro semestre de 2010.
Gabrielli disse que a operação da estatal com o governo é comum no mercado mundial. Em 2008, segundo ele, houve 134 operações com reservas provadas e prováveis no mundo e, até agosto deste ano, outras 42 transações. Os valores entre todos esses negócios, disse ele, variaram de US$ 1,1 a US$ 27 por barril de petróleo. Ele não deu indicações se o valor da negociação com o governo ficará dentro dessa variação. O projeto de lei no Congresso exige auditoria internacional para aferir esse valor.

Questão fiscal
Gabrielli afirmou que o impacto dessa transação no caixa do governo será nulo. Como a cessão dos 5 bilhões de barris será onerosa, a Petrobras pagará ao governo pelo direito de explorar essa reserva. Em troca, a União receberá o equivalente a um terço das ações da companhia. “Do ponto de vista do deficit público, o efeito é zero. O governo no final do dia vai trocar o direito de exploração de 5 bilhões de barris pelo equivalente em ações da Petrobras.
O dinheiro dos outros acionistas ficará no caixa da companhia”, disse. Os 5 bilhões de barris poderão depois ser vendidos pela estatal. O recurso ficará no caixa da companhia.

FGTS
Gabrielli disse que será respeitado o direito dos minoritários em exercer a compra das ações, mas reconheceu um problema no caso dos cotistas do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Hoje, 2,1% da Petrobras pertencem a cotistas do FGTS. O primeiro problema é que, ao aceitar que os cotistas detentores de ações comprem mais papéis, haverá um benefício para eles em detrimento de outros trabalhadores com recursos no fundo. O segundo problema é legal. A legislação veta a quem não é acionista da empresa o direito de adquirir ações em operações de aumento de capital.
“Há duas assimetrias. Não vamos fazer oferta pública de ações. Quem não tem ações da Petrobras não vai poder comprar. Entre os cotistas do FGTS, a possibilidade de ter mais recursos do FGTS aplicados em ações da Petrobras diferencia-os ainda mais dos cotistas do FGTS não acionistas.”

“Oposição atordoada”
Fora a discussão sobre o FGTS, Gabrielli acha que a discussão do novo modelo no Congresso não enfrenta oposição. Ao contrário do previsto, diz, a oposição tem feito poucas mudanças nos quatro projetos em discussão no Congresso. Gabrielli afirma que “a oposição está atordoada”.
“[Atordoada] porque ela não tem uma proposta de confronto. Entre as 850 emendas, não existe nenhuma grande emenda que seja confrontante dos elementos centrais dos projetos do governo. São pontuais”, disse. Para o presidente da Petrobras, isso mostra o esfriamento de posições contrárias ao modelo de partilha que está em discussão, em substituição ao regime de concessões, que vigora desde 1997.
“Isso mostra o amadurecimento do país, significa que há muito mais convergência do que aparentemente existia. Antes de o governo apresentar o projeto, havia na imprensa uma defesa unânime do modelo de concessões. Hoje, é raríssimo encontrar quem as defenda.”

Ingerência política
Baiano, participante de primeira hora do PT, Gabrielli disse que pode ser demitido do comando da maior companhia do país a qualquer momento. Encarregado por controlar uma empresa responsável por 10% do PIB brasileiro, 12,5% de toda a arrecadação federal e 6,5% das divisas oriundas das exportação, Gabrielli reconheceu que enfrenta pressões políticas no comando da estatal.
“Toda empresa de petróleo, de qualquer país, está sujeita diariamente a pressões políticas, isso é parte da indústria do petróleo. Seja do acionista majoritário ou do governo diretamente. Você acha que a Exxon não sofre influência do governo norte-americano, que a British Petroleum não sofre influência do governo inglês? Claro que sofre”, disse.
Ele negou, porém, que essa ingerência do governo Lula sobre a estatal prejudique os acionistas minoritários, e disse que o modelo de governança adotado pela companhia é uma defesa a qualquer tipo de gestão temerária. “Se tem influência política? Claro que tem. Mas a companhia tem uma estrutura de governança interna, tudo passa por vários comitês, são inúmeros pareceres, o processo de revisão é grande.”

Critica externa
Gabrielli disse durante a sabatina que uma parte das companhias estrangeiras de petróleo mobiliza grupos de resistência no país contra a decisão do governo de alterar o modelo de exploração do petróleo. Segundo ele, são empresas que não apostaram no país ao longo das nove rodadas de licitação de blocos. “As empresas que não assumiram risco, algumas europeias, algumas norte-americanas, são hoje as mais vocais contra o novo projeto de lei. Não assumiram o risco, agora vão trabalhar com nova regra”, disse.

Veja a íntegra da sabatina com José Sergio Gabrielli

www.folha.com.br/092861

14/10/2009 - 11:22h Petrobras testa novas tecnologias no pré-sal

Petróleo: Composição de rochas, risco de congelamento e novos materiais são alguns dos desafios da estatal

Leo Pinheiro / Valor
Foto Destaque
Solange Guedes, da Petrobras, sobre as novas tecnologias: “Estimular um poço é fazê-lo produzir, e produzir mais, é um dos principais desafios do pré-sal”


Francisco Góes, do Rio – VALOR

A Petrobras está aproveitando os dois testes de longa duração na área do pré-sal – um em Tupi, na Bacia de Santos, e outro no campo de Jubarte, na Bacia de Campos, litoral sul do Espírito Santo – para buscar soluções e inovações tecnológicas que permitam melhorar a eficiência nesse novo ambiente exploratório. O trabalho considera o fato de os reservatórios do pré-sal serem formados por um tipo de rocha, os carbonatos, diferente da tradicionalmente encontrada na Bacia de Campos, os chamados arenitos (uma espécie de areia de praia).

“Hoje o grande trabalho que envolve o movimento tecnológico é caracterizar as rochas, suas propriedades físicas, mecânicas, químicas e térmicas”, disse Solange Guedes, gerente-executiva de engenharia de produção da área de exploração e produção da Petrobras. Ela afirmou que nos dois testes de longa duração (TLDs) do pré-sal estão sendo confirmadas as expectativas iniciais. “O que posso dizer é que, até agora, o projeto manteve as premissas originais.”.

Segundo ela, um dos desafios do teste no poço pioneiro 1-ESS-103A, no campo de Jubarte, no sul do Espírito Santo, tem sido garantir o escoamento da produção no fundo do mar. Para facilitar esse escoamento, a indústria petrolífera utiliza fluidos químicos que são injetados nos poços e misturam-se às correntes de petróleo e gás. Ao longo da história da Bacia de Campos, a Petrobras acumulou grande experiência nessa área. Mas no pré-sal, a empresa não tinha um modelo de como os fluidos iriam funcionar.

Um dos riscos no escoamento no pré-sal envolve um eventual congelamento do petróleo causado por ambientes muito frios no fundo do mar (na faixa de 4 graus centígrados). “É aí que entra a aprendizagem: temos que ter uma modelagem com a capacidade de transformar aquele fluido para que, quando chegar ao leito marinho, (o fluido injetado) não venha a congelar”, disse Solange. Ela reconheceu que o trabalho feito com os fluidos no teste do Espírito Santo será muito útil para outras áreas que a empresa venha a explorar.

Os fluidos vem sendo testados e suas composições avaliadas em conjunto com o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes), da própria Petrobras, e empresas fornecedoras, disse Solange. Ela adiantou que a Petrobras poderá utilizar plataformas diferentes das convencionais no pré-sal, em uma análise a ser feita caso a caso. “Se houver uma acumulação (de petróleo) muito concentrada, o mais apropriado é utilizar a completação seca”, diz, em referência ao nome técnico dado ao processo de produção de plataformas conhecidas pela sigla TLWP. São unidades que têm custo menor do que os sistemas tradicionais de produção utilizados pela Petrobras e baseados no uso de navios plataforma, as FPSOs.

Nas TLWPs (sigla em inglês de Tension-Leg Wellhead Leg Platform), porém, os poços precisam ser perfurados próximos à unidade enquanto nas FPSOs eles podem estar distantes até 30 quilômetros da embarcação, sendo conectados por meio de linhas flexíveis e outros equipamentos. Uma das vantagens da TLWP é que o petróleo vai direto para a plataforma sem precisar circular muito no ambiente submarino. A Petrobras já abriu uma licitação para construir plataforma desse tipo destinada ao campo de Papa-Terra, na Bacia de Campos.

Solange falou ainda sobre o uso de fluidos como forma de estimular a produção de reservatórios em rochas do tipo carbonato no pré-sal. Neste caso joga-se um fluido ácido que permite dissolver parte da rocha e chegar a outras áreas produtoras dentro do reservatório. “Estimular um poço é fazê-lo produzir, e produzir mais, é um dos principais desafios do pré-sal”, afirmou Solange.

Ela disse que o aumento da eficiência passa pela busca de poços cada vez mais produtivos. “Temos aprendido na Bacia de Santos diferentes técnicas de estimulação”, afirmou. De acordo com ela, há um esforço que envolve centros de tecnologia e a indústria para desenvolvimento desses fluidos no país. A ideia é que os fluidos sejam produzidos por indústrias químicas no país a custos competitivos.

Ela reconheceu que em águas profundas trabalha-se no “limite da tecnologia”. Citou o problema de fabricação nos parafusos de fixação da árvore de natal molhada (equipamento submarino de controle da produção), utilizada no poço 3-RJS-646, no TLD de Tupi, como exemplo de como uma determinada falha, aparentemente não percebida na fabricação, pode ser detectada com monitoramento. O problema nos parafusos levou a uma interrupção temporária no teste de longa duração de Tupi, cujos trabalhos foram depois retomados.

Solange disse que esse episódio não teve nenhuma relação com o ambiente de exploração do pré-sal. Segundo ela, o problema foi detectado em outro poço em operação. Mas como constatou-se que o mesmo lote de parafusos estava instalado no TLD de Tupi, parou-se a produção.

A gerente da Petrobras também falou sobre o desenvolvimento da indústria de tubos de aço para atendimento do pré-sal. Admitiu que o pré-sal exigirá material especial para a fabricação de tubos, capaz de resistir a contaminantes. “Estamos mapeando toda a indústria brasileira”, informa.

Ela disse que executivos da Petrobras têm recebido empresas do setor, sobretudo metalúrgicas, que podem fabricar esses tubos mas, em alguns casos, têm limitações na capacidade de produção (em termos do diâmetro dos tubos). “Pode parecer que é simples, mas não é. A produção de uma mesma liga metálica em diâmetro diferente requer outro tipo de procedimento”, disse Solange. Ele reconheceu ainda que talvez seja preciso desenvolver mais de um aço especial para as chapas a serem usadas na fabricação dos tubos que serão instalados nos poços e em outras etapas do processo de produção.


Indústria e centros de pesquisa criam rede de inovação

Indústria e academia devem lançar nas próximas semanas a Rede de Inovação para a Competitividade da Indústria Naval e Offshore. A iniciativa busca criar uma agenda tecnológica que envolva a indústria, afirmou o presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia Naval (Sobena), Alceu Mariano. Ele disse que apesar de haver disponibilidade financeira, via fundos de ciência e tecnologia, a indústria naval e offshore tem dificuldade de montar projetos de pesquisa e desenvolvimento e de levantar recursos.

“Quem faz isso é a universidade, mas de forma dissociada da indústria”, afirmou. Mariano, que é diretor da Keppel Fels Brasil , que opera estaleiro dedicado à construção de plataformas em Angra dos Reis, disse que a indústria brasileira tem capacidade de atender a demanda a ser colocada pelo pré-sal, mas admitiu que ela precisa ser mais competitiva, o que envolve novas tecnologias. “Esse é um trabalho que passa pelas universidades.”

A rede de inovação tem um comitê gestor formado por integrantes da Sobena, do Sinaval e Syndarma, sindicatos que representam os estaleiros e as empresas de navegação e do Centro de Excelência em Engenharia Naval e Oceânica (Ceeno). Floriano Pires, professor da coordenação dos programas de pós-graduação em engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, disse que a rede é uma tentativa de definir projetos e estratégias a serem financiados pelos canais já existentes.

Ele defendeu maior participação da indústria naval e offshore nos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Pires citou como exemplo de recursos disponíveis para o setor o fundo setorial de transporte aquaviário e construção naval, formado por um percentual de 3% do que é arrecadado com a cobrança do adicional sobre os fretes para a renovação da Marinha Mercante.

Pires disse que os recursos do fundo são aplicados via Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia, para uso por universidades e centros de pesquisa. “O fundo teria, em média, R$ 30 milhões por ano, mas é preciso considerar o contingenciamento (do orçamento da União)”, afirmou.

Celso Trindade, responsável pelo fundo aquaviário na Finep, disse que o fundo não teve recursos cedidos à reserva de contingência. No orçamento de 2009, o fundo teve aprovados R$ 39 milhões. Mas até agora não se realizou a chamada pública destinada a selecionar as propostas que receberão apoio na área de transporte aquaviário e construção naval neste ano. (FG)


Custo dificulta encomenda de navio construído no país

Empresas de navegação interessadas em construir navios no Brasil reclamam da dificuldade para colocar encomendas nos estaleiros nacionais. Nelson Carlini, presidente da multinacional francesa CMA CGM do Brasil, avalia que há estaleiros que conseguem ganhar dinheiro com a construção de plataformas para a Petrobras e não oferecem cotações “razoáveis” para fazer navios no país.

Carlini diz que os preços ofertados, em meados de 2008, para a construção no Brasil de um navio para transporte de derivados de petróleo ficavam muito acima da realidade internacional. Segundo ele, esse navio custaria entre US$ 78 milhões e US$ 80,5 milhões no Brasil, com financiamento de até 95% do valor em 18 anos e juros de 4% ao ano. No mercado mundial, o mesmo navio custaria entre US$ 30 milhões e US$ 35 milhões, com 85% do valor financiado prazo de até dez anos para o pagamento e juros de 6% ao ano.

A conclusão é que não há condições de oferta de navios no mercado brasileiro, a preços vigentes fora do país, 50 anos após a implantação da indústria naval brasileira. Entre as razões, segundo ele, estão fatores tributários e trabalhistas, falta de escala e impossibilidade de produção em série. A Petrobras quer mudar essa realidade.

A empresa trabalha para padronizar equipamentos, tratando-os como se fossem pequenos módulos, que permitam montar projetos diferentes. O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, disse que a empresa está definindo metas mínimas de conteúdo nacional por subsistemas. A empresa entende que, com escala de encomendas, é possível elevar a competitividade da indústria nacional. (FG)

01/10/2009 - 12:56h Gabrielli defende Petrobrás como operadora única do pré-sal

Presidente da Petrobrás aposta em acordo entre lideranças para que votação dos projetos ocorra em novembro

Valéria Gonçalvez/AE – 30/09/2009
José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás
José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás


Wellington Bahnemann, da Agência Estado

SÃO PAULO – O presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, disse nesta quarta-feira, 30, que a decisão do governo federal de garantir à estatal o direito de ser a única operadora dos projetos do pré-sal é positiva para a empresa, diferentemente do que argumenta João Carlos de Luca, presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), de que o fato pode ser um futuro ônus à Petrobrás. “Avaliamos que há inúmeras vantagens em ser a única operadora do pré-sal. Não há nada negativo nisso”, disse o executivo, que participou nesta quarta do seminário “O Futuro do pré-sal II”, realizado pelo Grupo Estado.

Segundo ele, o fato de ser operadora única traz vantagens na otimização da infraestrutura de produção e dos recursos financeiros para os projetos, além de garantir a aplicação de uma política de conteúdo nacional que beneficie o País. Nem a tese defendida pelo IBP de que a condição de operadora única implicará na necessidade de a Petrobrás investir em projetos de com baixa atratividade é vista como um problema pelo executivo. “Se fossem só os campos de pequeno potencial, tudo bem. Mas a Petrobrás tem centenas de áreas produtoras e em exploração. Então, estamos trabalhando com um grande conjunto, não colocando todos ‘os ovos na mesma cesta’ e minimizando o risco do portfólio como um todo”, disse.

Gabrielli também rebateu o argumento do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) de que a adoção de uma política que favoreça o conteúdo nacional de equipamentos para os projetos do pré-sal irá diminuir a capacidade financeira do governo em desenvolver políticas industriais para outros setores da economia brasileira. “Não serão apenas os fornecedores de equipamentos beneficiados. Uma política de estímulo ao conteúdo nacional irá favorecer a indústria metalúrgica, naval, de aço, de construção civil, de compressores, entre outras”, justificou o executivo.

Votação dos projetos

O presidente da Petrobrás disse que os quatro projetos de lei enviados pelo governo federal envolvendo as reservas do pré-sal podem ser aprovados pelo Congresso Nacional ao final do primeiro trimestre de 2010. Segundo Gabrielli, os projetos de lei devem ser votados na Câmara dos Deputados no dia 10 de novembro – o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse recentemente que há um acordo entre as lideranças da Câmara para que a votação ocorra, de fato, nessa data. “Com a aprovação, o Senado teria entre 45 e 60 dias para votar os projetos. Com isso, o processo pode ser concluído ao final do primeiro trimestre de 2010″, afirmou o presidente da estatal.

O governo federal encaminhou quatro projetos sobre os seguintes temas, envolvendo as reservas de petróleo do pré-sal: alteração do regime de exploração de concessão para partilha de produção, criação da Petro-sal, a capitalização da Petrobrás e a criação do Fundo Social, que usará recursos do petróleo para financiar investimentos nas áreas sociais.

Preço do barril

Gabrielli afirmou que a definição do preço do barril para a capitalização da companhia depende de uma série de variáveis que ainda não estão definidas no momento. “Para se definir o valor, é necessário determinar as áreas de produção, o valor dos investimentos e o custo de produção do barril. A partir daí, se chegará ao valor justo do preço do barril”, disse o executivo.

01/10/2009 - 12:26h Jereissati (PSDB) faz coro às críticas das petroleiras privadas contra a exclusividade de operação da Petrobrás

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‘Pré-sal virou questão entre nacionalistas e entreguistas’

Tasso Jereissati critica o modo como o governo politizou o debate sobre as regras de exploração

O Estado SP

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) sinalizou ontem que é hora de a oposição subir o tom em relação às propostas para o novo marco regulatório do pré-sal. Em sua apresentação no Debate Estadão “O Futuro do Pré-Sal”, Jereissati fez coro às críticas das petroleiras privadas contra a exclusividade de operação da Petrobrás e alertou para riscos a outros setores da indústria. Também presente no encontro, o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, voltou a defender o papel proposto pelo governo para a companhia.

Indagado sobre a atitude pouco incisiva da oposição após a apresentação dos projetos de lei, Jereissati disse que o governo criou um clima ideológico desfavorável a críticas. “A questão foi colocada de forma muito emotiva, como disputa entre nacionalistas e entreguistas. A oposição quer colocar o debate um pouco mais no chão, para que possa ser feito com maior clareza. Não queremos levar a discussão para o “somos contra porque somos contra”.”

A crítica de Jereissati encontrou eco no governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, do governista PMDB. Para ele, o debate está sendo feito de maneira “açodada” e com forte componente eleitoral. A oposição e as petroleiras privadas, porém, já conseguiram uma vitória, com a retirada do pedido de urgência na tramitação dos projetos.

Ontem, o senador disse que a estratégia de nacionalização de equipamentos corre o risco de repetir medidas que fracassaram no passado, citando como exemplo a reserva de mercado para a informática. O risco, disse, é que a falta de competição beneficie empresas ineficientes.

O presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), João Carlos de Luca, alertou ainda para a necessidade de troca de experiências, que pode levar ao desenvolvimento de novas tecnologias.

“A presença de diferentes operadoras é fundamental para o desenvolvimento da tecnologia. Muita coisa do que foi introduzido na exploração do petróleo no Brasil veio do exterior”, concordou o consultor Wagner Freire, diretor da Petrobrás na década de 70. O IBP ainda espera derrubar a medida no Congresso.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse esta semana, porém, que o governo não abre mão de ceder a operação para a Petrobrás. Gabrielli argumentou que a companhia ganha vantagens como a otimização de infraestrutura de produção e dos recursos financeiros para os projetos, além de garantir a aplicação de uma política de conteúdo nacional que beneficie o País. “Ser operador único não quer dizer ser única empresa. Os sócios não serão afastados.”

Gabrielli afirmou ainda que não há prejuízos para a estatal, que já é acostumada a trabalhar com áreas exploratórias de portes variados. Ele reforçou que a mudança de modelo é necessária, dado o baixo risco do pré-sal. “É uma nova realidade: temos tecnologia, acesso a capitais internacionais e grandes reservas”, disse, comparando o momento atual com a elaboração da lei 9478, que pôs fim ao monopólio estatal.

30/09/2009 - 14:21h Pré-sal terá fomento à indústria brasileira

Congresso: Projetos em tramitação definirão conteúdo nacional



Alan Marques / Folha Imagem
Foto Destaque
Gabrielli na Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara: “Queremos que a indústria responda no prazo e preço das nossas necessidades”


Danilo Fariello, Paulo de Tarso Lyra e Paulo Victor Braga, de Brasília – VALOR


O governo federal deverá criar políticas específicas de auxílio a fornecedores da Petrobras. O presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, afirmou ontem pela manhã, após reunião com os diretores da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília, que diversas instituições do governo têm articulado programas de apoio à indústria como forma de aumentar o conteúdo nacional dos equipamentos necessários à exploração e produção de petróleo no país. Está sendo gestado um programa específico para reduzir “assimetrias” que podem favorecer os estrangeiros, disse. “É necessário um programa mais sistêmico para os fornecedores nacionais.” Entre as assimetrias, Gabrielli citou que indústrias estrangeiras podem ter condições melhores em taxas básicas de juros, em burocracias portuárias e de licenciamentos e em estruturas triburárias em seus países.

Na mesma linha, ontem, em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social realizado no Palácio do Itamaraty, a chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff, indicou que as condições tributárias para essas empresas podem ser os primeiros itens a serem revistos nessa pauta.”O presidente Lula tem deixado muito clara essa disposição (de desonerar) a exemplo do que fez em diversos setores da economia. Vocês podem apostar nisso”, afirmou a ministra.

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A desoneração é um dos pleitos principais da indústria. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy, pediu ontem à ministra uma tributação específica para a indústria do petróleo explorar a camada do pré-sal. Godoy disse que apenas uma sonda custa US$ 20 milhões e afirmou que é fundamental a desoneração dos investimentos, especialmente de PIS e Cofins.

Segundo Gabrielli, em uma conta “absolutamente teórica”, seriam necessários investimentos das indústrias da cadeia do petróleo da ordem de US$ 400 bilhões até 2013. Isso porque, na teoria, essa quantia costuma ser quatro vezes o volume de compras programado pela petroleira, de US$ 101 bilhões da indústria nacional. Mesmo reconhecendo que a quantia é estimativa, Gabrielli reconhece que a necessidade de recursos pela indústria seja gigantesca.

A preocupação com o financiamento de fornecedores pode ser fundamental para o ritmo de exploração do pré-sal. À tarde, na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio da Câmara, Gabrielli disse que o fornecimento de equipamentos pode limitar a velocidade da exploração.”Queremos que a indústria responda no prazo e preço das nossas necessidades.”

Com os devidos estímulos à cadeia produtiva, o presidente da Petrobras espera que as 28 sondas que devem ser contratadas entre 2013 e 2018 sejam projetadas no Brasil – hoje o projeto dos navios mais sofisticados vem de fora. “Vamos caminhar também para que cada um dos vários subsistemas que compõem uma sonda tenham metas crescentes de nacionalização.”

Fora a melhora das condições fiscais, a ministra disse que o BNDES terá um papel fundamental nesse processo de manter ou elevar o conteúdo nacional nos projetos da Petrobras, facilitando as linhas de financiamento para as empresas que desejarem investir no pré-sal. “Temos vários pontos que nos trazem vantagens: alta tecnologia na exploração do petróleo; grandes reservas naturais; um grande mercado consumidor, uma indústria diversificada e estabilidade nos marco regulatórios”, enumerou.

Sobre a expectativa de parceiros internacionais para a Petrobras no pré-sal, Dilma citou que, se um investidor estrangeiro ganhar o direito de explorar 10% do campo de Tupi, por exemplo, poderá extrair 700 milhões de barris de petróleo – o campo está estimado entre 7 e 9 bilhões de barris. “Isso representa um campo gigante, pelos conceitos internacionais de prospecção de petróleo. Não dá para reclamar destas condições”, completou.

Durante palestra aos conselheiros, a ministra declarou que o petróleo extraído das camadas do pré-sal – bem como os produtos de valor agregados derivados do óleo – serão destinados exclusivamente para a exportação, não para o consumo interno. “A riqueza nacional do pré-sal será o desenvolvimento da indústria do petróleo e o fundo social para combater a pobreza e a desigualdade”, declarou a ministra.

A ministra rebateu as acusações de que o governo seja estatizante ao criar uma nova empresa pública para fiscalizar os contratos do pré-sal ou definir a Petrobras como a única operadora na exploração. “O que nós queremos, ao contrário, é proteger a indústria nacional. Precisamos reconstruir um setor que foi desmantelado nos anos 80 e 90.”

Dilma disse que a exploração do pré-sal não vai ajudar apenas a Petrobras, mas vai gerar uma riqueza enorme. “Precisaremos de infraestrutura para escoar essa produção”, declarou, acrescentando que o debate feito pelos setores econômicos não será pautado pela ideologia. “As empresas não são ideológicas, eles querem lucro e marco regulatório estável”, analisou.

A ministra aproveitou para, uma vez mais, reforçar o discurso de reconstrução do Estado. “Defender o Estado mínimo no Brasil é ridículo. O Estado aqui não é mínimo ou máximo, é desequilibrado. Ao olhar só para o ajuste fiscal, eles (o governo anterior) desmantelaram a máquina de fazer”, criticou. Ela disse que, aos poucos, este quadro vem sendo revertido. “Começamos a construir novamente plataformas, estamos criando novos estaleiros, como o Atlântico Sul (PE) e o Dique Seco (RS). Isto não acontece de uma hora para outra, leva tempo”, disse ela.

23/09/2009 - 10:41h Dilma defende monopólio da Petrobrás no pré-sal

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Renato Andrade, BRASÍLIA – O Estado SP

O governo resolveu ontem sair em defesa da proposta de fixação da Petrobrás como operadora única da área do pré-sal, um dos pontos mais criticados no novo modelo de exploração proposto pelo Palácio do Planalto. Durante seminário realizado em Brasília, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou que o mecanismo é fundamental para que haja um “controle” sobre a riqueza a ser explorada. O presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, também apontou vantagens econômicas da proposta. Na contramão, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) questionou a validade da ideia e deixou claro que os projetos encaminhados ao Congresso serão alterados.

“A operação é algo que leva ao conhecimento estratégico sobre a bacia que você explora, e você dita também o ritmo de produção, a forma pela qual se vai organizar a demanda por serviços e o padrão tecnológico”, disse Dilma durante sua apresentação. “Isso permite que haja um controle do País sobre essa riqueza.” Gabrielli, por sua vez, argumentou que a importância do operador único é “maximizar” a capacidade de produção, além de conseguir baixar os custos das instalações da infraestrutura exigida.

O setor privado e a oposição no Congresso têm questionado a ideia. O projeto que estabelece o novo modelo, encaminhado aos parlamentares no início do mês, recebeu 350 emendas, dentre elas, algumas do PSDB e do DEM propondo a derrubada do monopólio da estatal.

Presente ao seminário, o presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), João Carlos De Luca, voltou a afirmar que tem “divergências” sobre o tema e considera que a manutenção da Petrobrás como operadora única pode inviabilizar a exploração de campos de menor porte. “As empresas privadas têm a justa ambição de também serem operadoras”, disse.

Uma das ideias defendidas pelo IBP é permitir que outras empresas possam operar os campos considerados de menor capacidade. Gabrielli, entretanto, mostrou que a Petrobrás jogará de acordo com as regras estabelecidas. “Se a lei diz que não pode isso, você tem que se preparar para isso.”

MUDANÇAS

O senador Delcídio, que já foi diretor da Petrobrás, deixou claro em sua intervenção que os projetos não passarão pelo Congresso sem sofrer “mudanças e aperfeiçoamentos”. Mesmo afirmando que não vê problemas em defender as propostas do governo, o petista questionou a ideia do operador único. “Será que vale a pena? Será que não é melhor abrir isso?”, disse Delcídio, em linha com a defesa do IBP.

O senador também criticou o peso que a nova estatal a ser criada terá nos comitês operacionais, o que também é criticado pela indústria petrolífera. “Não sei nem se a Petrobrás quer ter alguém dentro do comitê com tamanha força”, disse. Pela proposta, o presidente da Petro-Sal presidirá os comitês e terá poder de veto nas decisões a serem tomadas.

Dilma evitou criticar diretamente a proposta de alteração defendida pela oposição no Congresso, e disse que os argumentos em favor de mudanças nos projetos devem ser “considerados” no debate. Ainda assim, a ministra afirmou que a fixação da Petrobrás como operadora única é uma “cláusula muito importante” do projeto.

14/09/2009 - 08:40h Pré-sal: Regime de partilha beneficia o país, diz Alves relator de projeto

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr – 24/3/2009
Foto Destaque
Alves: “Nós não somos carimbadores da vontade do Poder Executivo”

 

Raquel Ulhôa, de Brasília – VALOR

O líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), futuro relator do projeto de lei que trata do regime de partilha de produção em áreas do pré-sal, afirma que o Congresso “pode e deve” fazer alterações nas propostas do governo para a exploração do petróleo em camada profunda. “Nós não somos carimbadores da vontade do Poder Executivo”, diz.

Deixa claro, no entanto, que a mudança do regime de concessão, adotado atualmente, para o de partilha é “intocável”. Também não pretende mexer na regra de distribuição dos royalties e da participação especial. Segundo ele, essa definição deve ficar para 2011 ou 2012 – e em outro projeto de lei.

As quatro comissões especiais encarregadas de dar parecer sobre os projetos de lei do governo estabelecendo o marco regulatório da exploração do petróleo na camada pré-sal devem ser instaladas na quarta-feira. Mas Henrique Alves já começou a trabalhar. Tem consultado o governo e visitará hoje a Petrobras, no Rio de Janeiro, “aprendendo” sobre o pré-sal.

Valor: O senhor vai trabalhar para manter o projeto intacto?

Henrique Eduardo Alves: Vamos ouvir a sociedade, seus segmentos organizados, e é natural que surjam sugestões, críticas, aperfeiçoamentos. Mas, pelo que eu conheço do projeto, ele nasce bem redondo, cuida de todas as áreas. Acredito que as alterações não deverão ser grandes. Mas estamos abertos ao debate.

Valor: Então pode haver alteração?

Alves: Pode e deve. O Congresso tem o dever de aperfeiçoar. Nós não somos carimbadores da vontade do Poder Executivo, por mais que respeitemos sua competência, sensibilidade. Acredito que o Congresso possa aperfeiçoar ainda mais um projeto já excepcional para o país.

Valor: O senhor já arriscaria apontar alguma brecha para mudança?

Alves: A essência do projeto é a mudança do regime de concessão para o de partilha de produção. Essa mudança, fundamental, é uma parte intocável, obviamente. Poderá ser discutida, até melhor explicitada para aqueles que não entenderam ainda, mas é uma questão central, benefício para o país no futuro.

Valor: As empresas reclamam do monopólio da Petrobras, que vai ser operadora única dos campos. Pode ser aberta a possibilidade de outras empresas participarem da operação em, por exemplo, campos menos atrativos?

Alves: Não acredito. Acho que a Petrobras hoje é uma das mais preparadas para executar essa missão. Uma grande empresa petrolífera, respeitada não só pelo seu tamanho, mas pela sua qualidade técnica, seu quadro profissional. Tem todas as condições de executar o papel de operadora. No conjunto, todo esse projeto da partilha dá ao Brasil não só os benefícios diretos – resultados econômicos, financeiros, advindos dos sociais -, mas uma posição de geopolítica fundamental. O Brasil vai ser um parceiro fundamental, importantíssimo para qualquer país do mundo. Como o Brasil vai ditar as normas desse petróleo, vai definir seus parâmetros, para onde vai, quais são os parceiros, a quem vai vender, pode, ao mesmo tempo, estabelecer outro tipo de parceria, buscar outro tipo de interesse. O Brasil passa a ter um controle, um grande instrumento para fazer uma inserção na conjuntura internacional.

Valor: Alguns críticos do modelo dizem que o regime de partilha vai inibir investimentos no país.

Alves: Estudos mostram que no pré-sal o risco é de não encontrar petróleo é baixo e a produtividade, grande. Será um bom negócio para qualquer investidor.

Valor: Como conciliar os interesses dos Estados produtores com os dos não produtores por causa de royalties e participação especial?

Alves: Essa é uma questão muito sensível. É importante, vai ser cuidada, mas não é a essencial do projeto, como é a definição da concessão para o regime de partilha. Verificamos que há Estados, por questões irracionais, emocionais, se conflitando, se defrontando, podendo contaminar uma discussão que tem que ser amadurecida, responsável. Então, o melhor é não mexer nesta questão de royalties agora, até porque o resultado dessa operação, via royalties, só virá daqui a quatro, cinco anos. Não temos que antecipar essa agonia. Vamos deixar como está, mas sabendo que até 2011, no máximo 2012, teremos que ter um projeto de lei específico, que atenda essa questão, de como vai ser o resultado dessa partilha, sabendo de antemão – acho que é uma questão de consciência, de lógica -, que os Estados produtores deverão ter um diferencial. O quanto e como vai ser, mais para a frente um projeto de lei vai tratar desse assunto.

Valor: O senhor já trabalha na relatoria. Conversou com o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, e outros setores do governo. Na segunda-feira, visita a Petrobras.

Alves: Comecei a discussão. Quero fazer um grande debate. Chamar especialistas, técnicos, representantes da sociedade, para que o Brasil conheça de perto o que vai ser. Quanto mais conhecimento, melhor para a discussão. Vou na segunda-feira ao Rio de Janeiro, passar duas, três horas na Petrobras, conhecer todo processo do pré-sal, desde o seu início até seus melhores resultados. Vai ser um grande aprendizado para quem quer relatar um projeto dessa magnitude.

10/09/2009 - 12:30h Partilha vai exigir uma “nova” Petrobras

Pré-sal: Ritmo da indústria fornecedora é que vai ditar a velocidade de exploração no modelo de partilha

Leo Pinheiro/Valor
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José Gabrielli, presidente da Petrobras, sobre a necessidade de importações: “Não vai dar para fazer tudo aqui”

 

Cláudia Schüffner e Francisco Góes, do Rio – VALOR

A exclusividade sobre a operação do pré-sal prevista no projeto de lei que institui a partilha de produção no Brasil vai exigir mudanças expressivas na Petrobras, que também vai receber uma “injeção” de capital na forma de 5 bilhões de barris de petróleo, algo como metade das atuais reservas provadas do país. O pré-sal vai aumentar o tamanho da companhia e seu presidente, José Sergio Gabrielli, vê desafios enormes, entre os quais a criação de uma cadeia de fornecedores, a mudança no modelo de gestão e de organização da empresa. Gabrielli admite, inclusive, que se estuda a criação do cargo de vice-presidente, tese que não é unânime na empresa.

O número de empregados pode aumentar, mas não é possível saber hoje em quanto. “O modelo de ocupação das plataformas, das unidades de produção, não pode ser o mesmo da bacia de Campos”, afirma. Na entrevista, Gabrielli defendeu o novo modelo do setor, que segundo ele não vai provocar fuga de investidores estrangeiros, e a capitalização da Petrobras. Para ele, os privilégios para a companhia, entre eles a de ser operadora única do pré-sal e a capitalização, se justificam pelo alinhamento dos interesses da Petrobras e do seu acionista majoritário, a União. “A empresa e o país se fortalecem.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: A Petrobras já sabe quanto precisa investir para ser operadora única do pré-sal?

José Sergio Gabrielli: Impossível responder. São 107 mil quilômetros quadrados de pré-sal não concedido e não se sabe a velocidade em que as áreas serão colocadas em processo competitivo. Não se tem conhecimento suficiente para responder essa pergunta.

Valor: Hoje a companhia tem um horizonte de planejamento de cinco anos. Com 30% do pré-sal, ela não perde o controle sobre sobre seus investimentos uma vez que desconhece que áreas serão licitadas?

Gabrielli: O CNPE [Conselho Nacional de Política Energética] é que vai definir, ouvindo o Ministério de Minas e Energia que será instruído pela ANP [Agência Nacional do Petróleo]. O CNPE e o governo vão considerar a velocidade de colocar essas áreas levando em conta o comportamento das reservas e a possibilidade da indústria nacional atender as demandas de conteúdo local.

Valor: É a indústria que vai ditar o ritmo?

Gabrielli: Isso é chave porque o limite hoje está na capacidade de produção. O limite do pré-sal não é financeiro, não é tecnológico, não é de gestão. O limite é a velocidade que a cadeia de fornecedores terá para fornecer o que é necessário para o pré-sal. Isso não só no Brasil, no mundo. A velocidade de desenvolver o pré-sal vai depender fortemente da capacidade da indústria nacional se organizar para produzir isso, ou a indústria mundial, mas de preferência a nacional.

Valor: Quais projetos virão primeiro?

Gabrielli: Para dar um exemplo, temos hoje 14 bilhões de reservas (no Brasil) e temos de 10,6 bilhões a 16 bilhões de barris recuperáveis em Iara, Tupi, Guará e no Parque das Baleia. O investimento aí, até 2020 é de US$ 111 bilhões para produzir 1,8 milhão de barris por dia até 2020. Vamos sair da produção atual, de 2 milhões de barris/dia para 1,8 milhão a mais só dessas áreas. Vamos dobrar a produção, o refino vai crescer 1,3 milhão de barris por dia. Isso já é muito grande. Portanto, a velocidade do pré-sal além disso vai ser muito determinada pela capacidade de produção de sondas, de barcos de apoio, árvores de natal molhadas, de flowlines, de infraestrutura para entrega de suprimento, de gente para operar esses sistemas. É isso que vai limitar o crescimento.

Valor: O modelo fechou o mercado para a Petrobras e agora vamos esperar a indústria?

Gabrielli Não fechou o mercado para a Petrobras. A Petrobras vai ser operadora com o mínimo de 30% do investimento. Hoje a ANP já exige um mínimo de 30% para ser operador. E no Golfo do México, em 97% dos blocos, o operador tem mais de 30%; e na África, em 85% dos blocos o operador tem mais de 30%. É prática da indústria o operador ter mais de 30% porque assim dá confiança aos sócios de que o operador está comprometido. Ele não é uma empresa de serviços que vai gerir e ganhar uma taxa. Ele está comprometido com o investimento, o risco está lá.

Valor: Os fornecedores não gostaram de ter a Petrobras como cliente único.

Gabrielli: Eu tive reunião com Abdib, Ademi, Abimaq e com o IEDI, com mais de 200 fornecedores na semana passada. Eles percebem que existe uma gigantesca oportunidade de crescimento porque a Petrobras tem 23% da operação de águas profundas do mundo. A segunda (ExxonMobil) tem 14%. A Petrobras é disparadamente a maior compradora de sondas, de risers flexíveis, de árvores de natal molhada. No mundo ela é a maior, note bem, não só no Brasil. E onde é que você tem grandes descobertas nesse momento no mar? No Brasil. Portanto, ter uma operadora para um fornecedor não é muito problema porque a escala é fundamental. Alguém vai colocar um estaleiro aqui para fazer uma sonda, um navio? Não, mas para fazer 10 navios ele pode. Ninguém vai fazer uma fábrica aqui para fazer um compressor, mas pode fazer para vender 150.

Valor: E resposta da indústria…

Gabrielli: A indústria levanta uma questão muito importante, que são os custos sistêmicos – a condição de acesso ao mercado de capitais do Brasil que é diferente da de outros países, a diferença da estrutura tributária brasileira, a infraestrutura. Ou seja, a necessidade de uma política industrial ampla para a cadeia de fornecedores da indústria de petróleo e gás.

Valor: E vai ter?

Gabrielli: O BNDES e o governo estão formulando. Não é a Petrobras que vai fazer isso.

Valor: Vamos ter importações mesmo com a preferência para o fornecedor brasileiro?

Gabrielli: Claro. Não vai dar para fazer tudo aqui. Tem coisas que não tem nem escala nem condições de fazer no Brasil. Nós dividimos muito claramente nossos produtos em três grandes famílias. Aqueles em que não precisa fazer nada para a competição brasileira; aqueles nos quais dificilmente a produção brasileira pode substituir no médio prazo a produção internacional; e aqueles em que é necessário algum fomento. Por exemplo, um equipamento sofisticado e de alta tecnologia que não vai ter escala, não tem sentido fazer no Brasil.

Valor: E qual é o papel da Petro-Sal? Ela vai investir, poderá ser sócia?

Gabrielli: Há uma confusão aí. A Petro-Sal não vai investir. O modelo diz que para produzir um barril é preciso 100% de investimento. E 30% desse investimento será bancado pela Petrobras e 70% pelos outros sócios. Não tem Petro-Sal aí. O investimento, 100% dele, será bancado pela Petrobras e sócios. A Petro-Sal não vai ganhar petróleo tampouco. Vai viver de taxa de administração dos contratos de petróleo e dos contratos de comercialização. Ela vai viver de taxas. A receita do petróleo da União vai para o Fundo Social. A Petro-Sal vai estar sentada no comitê operacional sem investir.

Valor: E como o governo vai poder participar diretamente da produção?

Gabrielli: O governo poderá, eventualmente, decidir investir. E aí nesses casos, que são excepcionais, o veículo para esse investimento é a Petro-Sal. Mas para gerir esse investimento, e nesse caso a receita do governo e o investimento serão do Fundo Social. A Petro-Sal é um veículo. A função da Petro-Sal não é investir. Ela não será operadora, não vai competir com a Petrobras e nem terá funções de exploração e produção. A função da Petro-Sal é baixar ao máximo o custo do óleo. A Petro-Sal vai ficar no nosso cangote.

Valor: Como o senhor vê a crítica do IBP de que talvez esse modelo não atraia as empresas?

Gabrielli: Eu acho que a diferença fundamental não é o que o IBP está chamando a atenção. Eu tive uma reunião muito proveitosa com o IBP na sexta-feira, e nessa reunião ficou claro que temos diferentes opiniões. Na nossa opinião a grande diferença desse para o outro modelo é que os ganhos potenciais de “upside”, ou seja, de avaliação para cima da capacidade produtiva de determinada área, na concessão é do concessionário. E na partilha isso é repartido entre as empresas e o governo. Então, consequentemente, se há uma expectativa de que vai haver potenciais de ganho pelo avanço do conhecimento, você partilha mais esse ganho com a União. Por outro lado, como a partilha é em óleo e o risco de preço também é alto, acaba também sendo compartilhado com a União. Se o preço é alto o número de barris para remunerar o custo é menor.

Valor: Há quem fale em fuga de investimentos.

Gabrielli: Se você tem acesso às reservas a atração continua. Não acredito que haverá fuga de empresas do Brasil. Por outro lado, a mudança do marco regulatório tem uma sabedoria fantástica do governo Lula que é o fato de os contratos atuais serem intocáveis. O que mostra a regularidade e a continuidade das regras, o que é muito importante para a indústria. Consequentemente, eu não acredito que o problema fundamental seja o fato da Petrobras ser ou não operadora. O problema fundamental é que você terá uma repartição distinta da atual dos ganhos potenciais de “upside”.

Valor: O pré-sal da partilha será produzido quando?

Gabrielli: Primeiro a lei tem que ser aprovada, o que deve acontecer só no primeiro semestre de 2010.

Valor: Qual a importância da nova regulação para a Petrobras?

Gabrielli: O fato de a Petrobras ser operadora única é uma gigantesca fonte de informações e conhecimento para o crescimento de longo prazo de qualquer empresa de petróleo. Em segundo lugar, o fato de a Petrobras ser capitalizada com o volume de recursos previsto dá a ela musculatura para enfrentar a situação de ser uma das maiores empresas de petróleo do mundo. Em terceiro lugar, a Petrobras, por ser empresa com grande parte de sua receita obtida no Brasil, tem na integração com o mercado brasileiro um fator fundamental para a riqueza e o crescimento da empresa. E o compromisso com o desenvolvimento brasileiro é vital para ela enquanto empresa. Portanto, há um claro alinhamento dos interesses da Petrobras e do acionista controlador da empresa. A empresa e o país se fortalecem.

Valor: Quais são os desafios para a Petrobras?

Gabrielli: Vejo desafios enormes. O primeiro é a montagem da cadeia de suprimentos e as alianças estratégicas com fornecedores de recursos críticos porque isso pode ser fundamental no desenvolvimento da produção. O segundo é a mudança no modelo de gestão e na organização da empresa. Ela está estruturada para um determinado tamanho, mas vai crescer muito e terá que mudar a roupa.

Valor: Como?

Gabrielli Terá que redefinir processos decisórios, estrutura gerencial, o conceito de unidade de negócios, redefinir a maneira como faz o processo de decisão. Terá que usar mais padronização e simplificação de seus projetos.

Valor: Quantos funcionários ela vai precisar ter?

Gabrielli: Não sei. Mas não pode ser projeção linear. O modelo de ocupação das plataformas, das unidades de produção, não pode ser o mesmo da Bacia de Campos. Entre outras coisas porque [o pré-sal] está a 300 quilômetros de distância. Ele vai ser mais desabitado, ter mais automatização e sistemas submersos. Vai ter outro modelo.

Valor: O que o senhor pode dizer sobre aqueles poços do pré-sal listados no Banco de Dados de Exploração e Produção da ANP?

Gabrielli O fato de ter menos sucesso exploratório no aprofundamento de poços em produção (no pós-sal) não quer dizer nada. O aprofundamento de poços do pós-sal (para atingir os reservatórios mais profundos no pré-sal) pode ter taxa de sucesso exploratório menor do que os poços diretamente locados para o pré-sal. Por isso se afirma que na Bacia de Santos temos 100% de sucesso exploratório e nos 31 poços temos 87%.

Valor: E sobre a capitalização da Petrobras qual a avaliação?

Gabrielli A Petrobras vai aumentar o capital, uma operação típica de mercado de capitais. A Petrobras vai anunciar uma emissão privada de ações na qual só os acionistas da empresa vão poder exercer seus direitos. Nessa emissão todos os acionistas poderão comprar as ações na proporção de suas participações. Todos terão direito de recomprar as ações sobrantes, mas isso ainda não está definido. Os acionistas vão pagar as ações em uma determinada data que será fixada no processo, aprovada pela assembleia geral da Petrobras e pela CVM. A operação vai se concluir trocando dinheiro ou títulos por ações. Simultaneamente a essa operação de compra de ações, haverá outra transação chamada de cessão onerosa dos direitos de exploração, que vai ter uma valoração dos 5 bilhões de barris. O direito de exploração dos 5 bilhões de barris serão comprados pela Petrobras, que pagará por esse direito os títulos que a União nos deve. Então no mesmo dia o título vai sair do Tesouro e voltará para o Tesouro.

Valor: O título não será encarteirado?

Gabrielli: Os títulos não serão encarteirados. A União pode fazer [a capitalização] com títulos porque ela tem um ativo que vai vender no mesmo dia.

Valor: O valor da capitalização referente aos 5 bilhões de barris vai depender do quê?

Gabrielli: Vai depender da localização e da capacidade de produção dos reservatórios.

Valor: E se não achar 5 bilhões?

Gabrielli: Estamos falando do direito de exploração de 5 bilhões de barris. Se furar e achar mais que 5 bilhões, a diferença é da União. Se encontrar 4,995 bilhões, a União terá que dar mais 5.

Valor: A avaliação é de que não há equilíbrio porque o governo pode usar título e os demais acionistas terão que pagar em dinheiro.

Gabrielli: O governo vai usar títulos e vender direito de exploração que só ele tem. O acionista vai colocar o apartamento dele, a fábrica dele? Se botar ativo real é outra coisa, vai botar dinheiro. O título é só a unidade de pagamento. O título não tem efeito nenhum sobre a dívida pública. Ele vai sair e entrar no Tesouro Nacional no mesmo dia. Será cancelado.

Valor: E se a capitalização não for concluída por alguma razão?

Gabrielli: Se o preço do petróleo ficar em torno de US$ 65 não precisamos de capitalização para os projetos que nós temos.

Valor: E será preciso fazer a unitização antes para capitalizar a Petrobras com 5 bilhões de barris?

Gabrielli: Não necessariamente. A capitalização pode até não ser com áreas unitizáveis. Pode ser, mas não necessariamente. O que está escrito na lei é que são áreas contíguas, que podem ser unitizáveis ou não. Porque contíguas? Porque elas são mais conhecidas que áreas distantes.

02/09/2009 - 10:54h Novas regras vão exigir uma Petrobras turbinada

Pré-sal: Empresa vai precisar contratar e investir muito acima do previsto

Ana Paula Paiva/Valor

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Almir Barbassa, diretor-financeiro da Petrobras: projetos serão revistos

 

Cláudia Schüffner e Rafael Rosas, do Rio – VALOR

A decisão do governo federal de transformar a Petrobras na única operadora da camada do pré-sal na área ainda não concedida (107 mil quilômetros quadrados de extensão) vai exigir da estatal um volume de investimentos e de contratação de pessoal muito superior ao crescimento da empresa nos últimos anos e também muito acima dos valores previstos no plano estratégico da companhia. Entre 2002 e 2008, a empresa contratou 27,5 mil funcionários, um aumento de 59%, e ampliou sua produção de 1,812 milhão de barris por dia para 2,4 milhões de barris/dia, uma alta de 32%. Pelo seu plano estratégico, a empresa projeta chegar a 2013 com uma produção total (petróleo e gás, no Brasil e no mundo) de 3,655 milhões de barris/dia, um crescimento de 52% em relação ao volume de 2008. Para alcançar esse objetivo, ela planeja investir US$ 174,4 bilhões entre 2009 e 2013, dos quais US$ 104,6 bilhões em exploração e produção, dos quais 12% fora do país.

Do total em exploração e produção, US$ 28,9 bilhões são para desenvolver a produção no pré-sal já concedido à companhia – ela prevê chegar a 2013 produzindo 157 mil barris de petróleo por dia extraídos dessa área. Até 2020 os investimentos saltam para US$ 110 bilhões no pré-sal, que permitirão uma produção de 1,8 milhão de barris por dia só naquela região.

As projeções do plano estratégico 2009-2013 incluem apenas a produção no pré-sal de campos licitados sob o regime de concessão, entre os quais Tupi, Guará, Iara e Júpiter, só para citar alguns. Ele será atualizado no próximo ano, quando a Petrobras também terá de incluir os investimentos para produzir os 5 bilhões de barris de petróleo que receberá da União no processo de capitalização.

Mesmo sem os novos campos que vai deter quando, e se, a nova legislação for aprovada, o extraordinário volume de investimentos necessários já era considerado muito elevado. O diretor-financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, explica que a companhia ainda não fez projeções a esse respeito nem sobre o número de funcionários que precisará no futuro. “Isso será objeto de uma revisão do nosso plano de negócios depois que o projeto de Lei (da Capitalização) for aprovado”.

Mas tanto Barbassa quanto o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, estão seguros de que a companhia já demonstrou uma extraordinária capacidade de levantar recursos ao captar US$ 31 bilhões de financiamento entre janeiro e junho deste ano, mesmo em momentos de crise no mercado de crédito. Gabrielli destacou que o atual plano de investimentos da companhia a torna a maior compradora do mundo de vários equipamentos e sistemas de produção de petróleo. E as novas regras do pré-sal, que estabelecem um participação mínima de 30% em todos os consórcios como operadora trarão um “poder de escala gigante”, nas palavras de Gabrielli. Hoje a companhia responde por 85% da produção de petróleo do país – que é maior em extensão do que a parte americana do Golfo do México – e tem garantido um naco de pelo menos 30% do pré-sal, sendo operadora em todas as áreas. Para Gabrielli, esse privilégio é merecido.

Sem nenhuma modéstia o presidente da Petrobras diz que ela é a melhor e a maior especialista em produção de petróleo em águas profundas e ultraprofundas do mundo, detendo 23% da operação desse tipo, contra os 14% da segunda colocada. A companhia tem 45 plataformas de produção (FPSOs) sob seu controle entre as 255 plataformas desse tipo em operação no mundo. É de longe a operadora da maior frota de sistemas de produção, frisou Gabrielli.

Almir Barbassa estima que nos próximos cinco anos a cessão onerosa, por parte da União, de até 5 bilhões de barris para a companhia deve aumentar em US$ 10 bilhões os investimentos da companhia no pré-sal.

“Se nós adquirirmos mais esses 5 bilhões, deve representar 30% a mais, mais US$ 10 bilhões. Nos próximos cinco anos não tem um impacto significativo. O impacto maior virá no futuro, mas no futuro já teremos uma produção muito diferente da de hoje, um fluxo de caixa maior, um rebalanceamento do conjunto de projetos”, frisou Barbassa.

José Sergio Gabrielli não antecipa nenhum problema com as companhias de petróleo que terão de aceitar a Petrobras como operadora no pré-sal, nem espera ter como sócios companhias financeiras ou sem capital técnico, dizendo que isso é vetado na nova legislação. Lembrou que atualmente a BP e a Shell prestam serviços no Iraque e por isso acha que elas terão interesse no pré-sal. “Não somos o pior operador do mundo, ao contrário, somos os melhores”, disse, frisando que ter a Petrobras como operadora do pré-sal é uma “escolha natural”.

Alguns bancos de investimento, como o Credit Suisse e o Itaú melhoraram a avaliação dos papéis da Petrobras no novo modelo. Para o Credit Suisse, a Petrobras “é uma das companhias de petróleo mais promissores do mundo”.

O diretor de exploração e produção da Petrobras, Guilherme Estrella, disse que em todos os projetos onde será sócia de outras empresas no regime de partilha de produção, os sócios poderão ter certeza que a Petrobras vai obedecer “as melhoras práticas” do setor. E elas também protegerão a companhia no caso, por exemplo, de alguma empresa propor à União uma determinada participação em petróleo que tire a rentabilidade do projeto. “É importante lembrar que nessa indústria, pelos riscos existentes, existe uma cultura que no fim das contas prevalece. E a possibilidade de vir algum aventureiro que atue fora das melhores práticas seria discutível”, disse Estrella, lembrando que caberá à Petro-Sal avaliar e rejeitar propostas de produção em partilha que forem consideradas “inexequíveis”.

Em Vitória, no Espírito Santo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que o “privilégio” dado à Petrobras de ter 30% em todos os blocos foi devido a ela ter “competência para exercer a função de ser a única operadora”. Segundo ele, o Brasil está seguindo caminho semelhante ao trilhado por outros grandes produtores de petróleo. “Quando (o país) tem pouco petróleo e tudo que vai explorar é de alto risco, se oferece mais vantagens para a empresa que quer colocar dinheiro ali. Mas quando tem petróleo e pode oferecer aos investidores a certeza que não tem risco, aí o país exige muito mais do que se tivesse risco”, disse Lula.

Segundo Lula, o marco regulatório do pré-sal está bem feito e foi muito bem trabalhado por pessoas “da maior competência” no país. O Congresso, segundo ele, pode contribuir para melhorar os projetos. “Pela minha experiência, na maioria das vezes, o Congresso ajuda a aperfeiçoar as coisas que estamos fazendo”, afirmou. Lula disse sonhar que o Brasil tenha uma indústria petroquímica das maiores do mundo. E para isso precisa ter uma indústria de petróleo forte, afirmou. Perguntado sobre os resultados exploratórios no pré-sal, Lula disse que as informações que dispõe são as melhores possíveis. (Colaborou Francisco Góes, de Vitória)

http://www.newscomex.com/adm/fotos/noticia_16991.jpgGabrielli destaca importância estratégica


Os privilégios obtidos pela Petrobras nos projetos de Lei encaminhados pelo governo ao Congresso têm um componente estratégico e geopolítico que não podem ser ignorados, segundo o presidente da empresa, José Sergio Gabrielli. Ao iniciar ontem uma apresentação sobre os impactos da nova regulamentação na Petrobras, Gabrielli disse que as projeções apontam para uma escassez de oferta de petróleo pelo menos até 2030. E até lá a busca por novas reservas para atender à demanda crescente “será um problema para os países consumidores”.

“Vamos ter um problema de falta de petróleo, considerando que a maior parte do petróleo necessário para atender à demanda até 2030 ainda está para ser descoberto. Portanto, buscar novas reservas será um problema contínuo pelo menos no horizonte até 2030″, afirmou.

Segundo Gabrielli, essa situação não é simétrica em termos mundiais já que existem diferenças significativas entre a possibilidade de acesso de países consumidores a novas reservas, que estão em países produtores que têm um mercado consumidor relativamente pequeno, na maior parte das vezes. Os maiores consumidores do mundo são Estados Unidos, Europa, China, Índia e Japão, todos fortemente importadores. Enquanto os maiores produtores estão localizados, em sua maioria, em países com mercados internos relativamente pequenos. Essa combinação de escassez de oferta e demanda crescente pode fazer com que conflitos para acesso às reservas se agravem.

“E nesses conflitos, o papel dos Estados gestores dessas reservas ou dos reguladores do consumo será maior que no passado. Portanto o problema é uma situação generalizada do aumento do papel do Estado na gestão dos recursos de hidrocarbonetos, seja como Estado consumidor ou como Estado produtor”, afirmou. (CS)

20/04/2008 - 08:00h Tupi entra em operação só em 2012. Com tecnologia-modelo para pré-sal

Projeto-piloto deve começar em 2010 e vai definir como será a extração do combustível em águas ultraprofundas

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Irany Tereza – O Estado de São Paulo

A Petrobrás fará, no início de 2009, o teste de longa duração que determinará o volume exato das reservas do campo de Tupi, a primeira grande descoberta em águas ultraprofundas da Bacia de Santos. Será esse o campo – com estimativa inicial de conter entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris de petróleo – que vai definir a tecnologia adotada na produção em toda a chamada camada de pré-sal, revela uma fonte da estatal. Mas o projeto-piloto somente entrará em operação em 2010 e a produção plena, em 2012, na melhor das hipóteses.

Na semana passada, declarações do diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Haroldo Lima, sobre a possibilidade de uma nova província petrolífera na Bacia de Santos (área conhecida como Pão de Açúcar/Carioca) conter volume de petróleo cinco vezes superior à de Tupi levaram rebuliço ao mercado.

De acordo com a fonte da estatal, não há como afirmar ainda com precisão a existência de jazidas dessa magnitude. Mas confirma que a animação entre a equipe é muito grande pelo fato de todos os sete poços perfurados na região, em cinco diferentes blocos, terem detectado a existência de óleo.

O inusitado índice de sucesso na perfuração já levanta entre as empresas responsáveis pela operação dos poços a suspeita de que toda a região forme um único campo. A Lei do Petróleo prevê casos assim e determina que seja promovida a unitização de blocos.

“Essa é uma possibilidade”, admite o geólogo John Forman, ex-diretor da ANP, hoje dono da J. Forman Consultoria. “É extremamente difícil tantos poços pioneiros terem resultado positivo desse jeito. Não há a menor dúvida de que aquela é uma área de grande potencial. Mas ainda teremos de esperar um ano para a declaração de comercialidade de Tupi.”

Ele explica que a unitização de blocos servidos por uma mesma jazida é obrigatória e tem como objetivo garantir o melhor aproveitamento do campo. E cita uma imagem figurada de uma jarra de água com canudos para três diferentes consumidores. Se não houver definição antecipada do volume que caberá a cada um, todos sugarão o mais rapidamente possível, para ficar com a maior parte, o que levará ao esgotamento da reserva antes do tempo.

A Petrobrás ainda precisará de dois a três meses para anunciar as primeiras estimativas sobre blocos na área Carioca/Pão de Açúcar, informou na semana passada o presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli.

O presidente da Petrobrás não confirmou a expectativa de 33 bilhões de barris anunciada por Lima, em seminário do qual participou segunda-feira, no Rio. Lima revelou o número espontaneamente, durante uma palestra sobre as potencialidades brasileiras.

A revelação fez com que as ações da Petrobrás disparassem no Brasil e em Nova York, e movimentou as cotações das empresas estrangeiras que operam naquela região, em parceria com a estatal.

NÚMEROS OFICIOSOS

Lima teve de se explicar na Comissão de Infra-Estrutura do Senado e atribuiu a informação a dados coletados em noticiário especializado. No dia da palestra, porém, havia explicado que eram “números oficiosos, com base em dados preliminares das empresas”. Depois dos esclarecimentos no Senado, Lima não concedeu mais nenhuma entrevista.

Gabrielli se recusa a comentar as declarações de Lima. “Não vou falar sobre isso”, disse, quinta-feira, e destacou que qualquer divulgação sobre as reservas dos blocos de Santos tem de ser feita “com prudência e de forma responsável”.

Os blocos que estão sendo explorados em Santos abaixo da camada de sal são concessões adquiridas em 2000 e 2001 em leilões da ANP. O mapeamento dessas áreas, consideradas novas fronteiras exploratórias, está sendo feito desde 2004. Mas a Petrobrás e as companhias estrangeiras – entre elas, BG, Galp, Amerada Hess, Exxon – não têm certeza sobre a viabilidade de produção, por causa do alto custo.

No Golfo do México já há produção de petróleo em pré-sal, mas a profundidade não ultrapassa 5 mil metros. Aqui, esses campos terão de produzir a 7 mil metros de profundidade, em média. Somente na fase de exploração foram gastos US$ 420 milhões na perfuração dos sete poços.

12/11/2007 - 15:07h Brazil’s oil discovery to boost industry

By Jonathan Wheatley in São Paulo and Dino Mahtani in London

Financial Times

The discovery of what could be massive oil reserves off the coast of Brazil, announced last week, has the potential to transform its oil industry and catapult the country up the league table of oil-producing nations.

“We could be heading to the same level as Saudi Arabia and Venezuela,” said Dilma Rousseff, chief of staff to President Luiz Inácio Lula da Silva.

She was, perhaps, letting herself be carried away by the euphoria of the moment. Nevertheless, many analysts agree that the discovery has the potential to transform Brazil’s role in the region and the world, making it more confident in the pursuit of goals such as a permanent seat on the United Nations Security Council and membership of the G8 group of leading industrialised nations.

Last week’s news centred on the Tupi field – at present, little more than a couple of exploratory wells 280km off Brazil’s coast in the Santos Basin. But those two wells have confirmed that the field holds between 5bn and 8bn barrels of oil, not far short of the entire reserves of Norway, which were 8.5bn last year, according to figures from BP. The field, potentially, would add more than 50 per cent to Brazil’s 14.4bn barrels of proven reserves of oil and natural gas equivalent.

Yet Tupi could be just the start. Its oil is trapped under a giant salt shelf, 800km long, 200km wide and up to 2,000 metres thick. Its average thickness is about 500 metres, according to Nilo Azambuja of HRT, a Rio de Janeiro company that provides geological services to Petrobras, Brazil’s publicly controlled oil company.

The Tupi field lies at a depth of 6,000 metres, beneath 2,000 metres of sea and 4,000 metres of rock and salt.

“The salt presents enormous operational difficulties,” Mr Azambuja says. The first is that it absorbs seismic waves, making it much harder to “see” what lies beneath. The second is that, under great heat and pressure, the salt is “plastic”, meaning that wells are hard to drill and collapse easily.

Nevertheless, Petrobras and its partners have sunk 15 wells through the salt layer and analysed the results of eight: four in the Santos Basin, one in the neighbouring Campos Basin and three further north off the coast of Espírito Santo state.

“All the wells tested have given positive results,” Sergio Gabrielli, president of Petrobras, told the FT last week. “All of them confirmed the same conditions and structures as Tupi.”

The discovery suggests that all the oil so far produced off Brazil’s coast has seeped through the salt layer, picking up impurities along the way – which is why it is low-quality, heavy crude. The oil under the salt is lighter, high-quality oil. And there is a lot of it. “It’s very big. I can’t say more than that,” Mr Gabrielli said.

Matthew Shaw, an analyst at energy consultants Wood Mackenzie, says the Tupi find opens the possibility of exploiting “tens of billions of barrels” in the area – although the truth can only be known with more drilling.

The Brazilian government is nevertheless taking precautions now, removing 41 blocks from an exploration acreage auction planned for this month, to assess their true potential and perhaps consider asking for better terms from companies that might consider developing them. The blocks removed are all located over the salt shelf.

Mr Gabrielli said production from Tupi could begin in 2011, with a pilot project producing 100,000 barrels a day. Production would scale up to several times that amount over later years.

But industry analysts say the task ahead is complex and that the cost of developing Tupi could reach $50bn. Across the industry, oil companies are already straining under the burden of escalating costs and a scarcity of skilled engineers and rigs.

Mr Gabrielli told the FT in August that it would be a “real challenge” to pull off the management of his company’s projects. “Supply chains are under stress,” he said.

10/11/2007 - 07:09h Risco maldito

* Celso Ming para O Estado de São Paulo

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, antevê um belo futuro para o Brasil enquanto potência energética: “Seremos grandes exportadores de petróleo.”

Para o presidente da Petrobrás,Sérgio Gabrielli, o petróleo e o gás recuperáveis das jazidas compreendidas nas novas fronteiras de petróleo, abaixo da camada de sal, puxarão as reservas,hoje entre 17 bilhões e 20 bilhões de barris, para algo entre 70 bilhões e 100bilhões de barris.

São apostas. É como contar com os ovos da galinha ao longo de certo tempo. Os ovos não estão lá,mas podem vir a estar,desde que tudo se comporte como imagina o dono do galinheiro.

Em todo o caso, há justificativas para as projeções da ministra e do presidente da Petrobrás. O que já se sabe é suficiente para produzir conseqüências econômicas – algumas imediatas. Uma delas é a de que,uma vez confirmadas perspectivas tão promissoras para o petróleo e o gás, num quadro de escassez global, crescerá o nível de interesse por sua exploração. Só isso deverá trazer enxurrada de capitais novos para o Brasil, além dos que já vinham sendo aguardados, só porque, dentro de alguns meses,a dívida do Brasil será promovida na tabela de qualificação de risco e terá o grau de investimento.

Ontem, o economista-chefe da corretora Hedging Griffo (Grupo Credit Suisse), Elsom Yassuda, quantificou a condição exportadora anunciada pela ministra Dilma Rousseff. Avaliou que, em alguns anos, o Brasil poderá faturar US$ 20 bilhões por ano (cerca da metade do superávit comercial deste ano) apenas com exportações de petróleo.

Se essas expectativas se confirmarem,será preciso ver como essas receitas não se tornarão “riqueza maldita”, como aconteceu em outras paragens.

Para ser mais específico, a forte entrada de recursos em moeda estrangeira leva o risco de causar exagerada valorização do real e, mais do que já possa estar ocorrendo, prejudicar a competitividade do produto brasileiro.

Um dos principais objetivos da anunciada criação de um fundo de riqueza soberana no Brasil é desviar do câmbio interno certo volume de recursos em moeda estrangeira e, assim, evitar novas valorizações do real.

Essa é a principal razão pela qual não faz sentido usar esses recursos nos investimentos em infra-estrutura no País, como algumas autoridades aventaram. Se tivessem essa finalidade, esses recursos teriam de ser convertidos em reais e, outra vez, produziriam impacto sobre o câmbio,justamente o que se quer evitar.

O ministro Guido Mantega afirmou que esse fundo será criado tão logo as reservas externas do Brasil atingirem US$ 180 bilhões.Como,em novembro,as reservas têm crescido acima de US$ 900 milhões por dia útil e ontem estavam em US$ 172,5 bilhões, conclui-se que, antes do fim do mês, esse nível poderá ser ultrapassado.

Não estão claras as fontes de recursos em reais com os quais o Tesouro ou o Banco Central comprarão os dólares que formarão o fundo. No Chile, na Noruega e na Rússia, essa transferência direta de receitas de exportação para fundos soberanos administrados no exterior é facilitada porque as receitas são obtidas por empresas públicas. No Brasil, a maior parte dessas receitas e os recursos de investimento são do setor privado.

CELSO MING

09/11/2007 - 06:50h Reservas do Brasil podem superar 70 bilhões


Francisco Góes, Rafael Rosas e Ana Paula Grabois
Valor

A Petrobras anunciou ontem a descoberta de uma nova província petrolífera, situada em mar a grandes profundidades, abaixo de uma camada de sal, capaz de colocar o Brasil, no futuro, entre os maiores países do mundo em termos de reservas de óleo e gás. O anúncio foi acompanhado pela aprovação de uma resolução no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) determinando a exclusão de 41 blocos que seriam leiloados na 9 Rodada de licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), nos dias 27 e 28 deste mês. Estes blocos estão na área de influência da nova fronteira exploratória e têm grande potencial de descobertas.

No campo de Tupi, na Bacia de Santos, que fica dentro da nova província petrolífera, a Petrobras estimou volume recuperável de óleo leve de alto valor comercial (28 graus API) entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris de petróleo e gás natural. Só esta descoberta poderá aumentar em mais de 50% as atuais reservas de petróleo e gás natural do país, que somam 14,4 bilhões de barris de óleo equivalente (Boe).

O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse que quando toda a nova província petrolífera estiver sendo explorada, o Brasil deve ficar entre as oito ou nove maiores reservas do mundo. Hoje, a 8 posição no ranking de reservas mundiais de óleo e gás é da Venezuela, com 107 bilhões de barris de óleo equivalente. A Nigéria, 9 colocada, aparece com 69 bilhões de Boe. O Brasil ocupa a 24 posição, com 14,4 bilhões de Boe.

O diretor de exploração e produção da Petrobras, Guilherme Estrella, adiantou que a intenção da estatal é implantar um projeto-piloto de produção na área de Tupi, associado à produção de gás, de cerca de 100 mil barris/dia, a partir de 2010-2011. A Petrobras é a operadora do campo de Tupi, no qual tem participação de 65%. O restante está nas mãos da britânica BG, com 25%, e da Petrogal – Galp Energia, com 10%.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que a decisão do CNPE de retirar os 41 blocos da rodada da ANP se baseou no interesse nacional: “É a preservação dos interesses do país diante da descoberta de uma riqueza de proporções significativas”, afirmou a ministra, após participar, na sede da Petrobras, no Rio, de reunião extraordinária do CNPE, que contou com a presença do presidente Lula. Dos 312 blocos previstos na rodada, sobram agora 271.

Dilma negou que a medida tenha viés estatizante e comparou a situação ao cancelamento das concessões rodoviárias que, depois de terem as condições modificadas, foram leiloadas. “O mesmo nos propomos a fazer para os blocos retirados da rodada”, disse a ministra. A ação representa, segundo ela, a preservação da soberania do país, do desenvolvimento da indústria. O objetivo será analisar como irá se explorar a nova riqueza petrolífera. Dilma avaliou que a nova província petrolífera fará o país mudar de patamar, saindo de uma posição intermediária para o primeiro escalão na produção de petróleo, passando a exportador.

A resolução n 6 do CNPE, aprovada ontem, também determina ao Ministério de Minas e Energia e à ANP a adoção das providências necessárias para a conclusão da 8 Rodada de Licitações, que foi interrompida por decisões judiciais. Dos 284 blocos previstos, com foco em gás natural e óleo leve, só 38 foram arrematados devido a duas liminares judiciais. As liminares, derrubadas depois pelo Supremo Tribunal Federal (STF), foram motivadas pela limitação imposta pela ANP no edital ao número de blocos que uma empresa operadora poderia arrematar.

O ministro de Minas e Energia. Nélson Hubner, presidente do CNPE, disse que a resolução do conselho determina rigorosa observação dos direitos adquiridos e atos jurídicos perfeitos, relativos às áreas concedidas ou arrematadas em leilões da ANP. A resolução também levará o Ministério de Minas e Energia a avaliar, a curto prazo, as mudanças necessárias no marco legal que contemplem “um novo paradigma de exploração e produção de petróleo e gás natural” em decorrência da nova província petrolífera.

A nova fronteira exploratória se estende por mais de 800 quilômetros, de Santa Catarina ao Espírito Santo, e tem até 200 quilômetros de largura. Inclui as bacias do Espírito Santo, Campos e Santos, em rochas denominadas pré-sal, espécie de “segundo subsolo” das bacias petrolíferas. Segundo a Petrobras, o pré-sal são rochas reservatórios que se encontram abaixo de extensa camada de sal. Os reservatórios situam-se em lâmina d´água que varia de 1,5 mil a 3 mil metros de profundidade. Para chegar até eles, é preciso furar ainda 3 mil a 4 mil metros de rocha.

Para atingir as camadas de pré-sal, entre 5 mil e 7 mil metros de profundidade, a Petrobras desenvolveu novos projetos de perfuração. Nos últimos dois anos, foram perfurados 15 poços, com investimentos de US$ 1 bilhão, que atingiram as camadas pré-sal. Do total, oito poços responderam de forma positiva em produção. Os reservatórios perfurados na Bacia de Santos são semelhantes aos da Bacia do Espírito Santo, o que, para a Petrobras, reforça a hipótese de extensão dos reservatórios na área.

Gabrielli disse que o plano de investimentos da empresa, que prevê aplicação de US$ 112 bilhões até 2012, não contempla investimentos no pré-sal. “Provavelmente o valor vai subir.” O diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, disse que a entrada em operação do campo de Tupi, em camada de pré-sal na Bacia de Santos, prevista para acontecer em até seis anos, contribuirá para redução das importações de óleo leve e diesel feitas pela companhia.

Hoje, segundo o executivo, a Petrobras importa 300 mil barris diários de óleo leve. Gabrielli disse que das áreas com possibilidade de ocorrência de hidrocarbonetos na camada de pré-sal do litoral brasileiro, cerca de 25% estão atualmente sob concessão. Desses 25%, a Petrobras atua em 70% dos blocos, sozinha ou em parceria. Segundo Guilherme Estrella, a previsão é declarar a “comercialidade” de um primeiro campo na área do pré-sal, no Espírito Santo, em 2009. “Confirmando-se os testes na área de Parque das Baleias, vamos interligar o poço à plataforma já instalada no Espírito Santo.”.

O diretor disse que a tecnologia de produção para operar neste tipo de campo está disponível, mas o custo é alto. “A tecnologia vai ser aplicada na redução de custos”, disse Estrella. Ele salientou que os campos estão situados a 250 quilômetros da costa. Ele também informou que a Petrobras está em contato com empresas que detêm tecnologia para aproveitamento do gás dos campos no próprio local. Uma alternativa é instalar térmicas flutuantes que poderiam enviar energia para o continente por meio de cabos submarinos. (* Do Valor Online)

01/09/2007 - 18:06h Do petróleo ao biocombustível

Como o presidente da Petrobras pretende transformá-la num gigante da energia

ALEXA SALOMÃO

Portal Época

Com planos de investir US$ 112,4 bilhões até 2012, a Petrobras deverá representar 10% de todo o Produto Interno Bruto (PIB), segundo o cálculo de seu presidente, o economista José Sérgio Gabrielli. Para sustentar tamanho crescimento, a estatal tem o desafio de ultrapassar seu papel de exploradora de petróleo e se transformar naquilo que Gabrielli chama de “empresa integrada de energia”, que atua nos mercados de petróleo, gás, energia elétrica e biocombustíveis. Ele conversou com ÉPOCA ao final do Fórum de Desenvolvimento Sustentável, realizado na semana passada em São Paulo.

José Sérgio Gabrielli
ONDE ESTUDOU
Economista com ph.D. pela Universidade de Boston, Estados Unidos. Chegou a pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Universidade Federal da BahiaO QUE FEZ
Antes de assumir a presidência da Petrobras, foi diretor-financeiro e de relações com investidores da estatal

PASSADO POLÍTICO
No anos 60, participou da Ação Popular, um partido clandestino. Ajudou a fundar o PT na década de 80. Perdeu a eleição para o governo da Bahia em 1990


Época – O senhor diz que o futuro da Petrobras é ser uma empresa integrada de energia, e não só de petróleo. O que significa isso?
José Sérgio Gabrielli – Na área de energia, as empresas operam em atividades separadas: na exploração de petróleo, no transporte de combustível, no refino, na petroquímica ou no gás. Há também grandes empresas que trabalham só com biocombustíveis. A Petrobras quer fazer tudo isso. Ser uma empresa integrada de energia. Nosso projeto é transformar a companhia em uma das cinco maiores empresas de energia do mundo. E vamos investir US$ 112,4 bilhões até 2012 para concretizar esse projeto. Depois dessa fase, em 2020, a Petrobras deverá representar 10% do Produto Interno Bruto do Brasil.

Época – Qual é a política da Petrobras para os biocombustíveis?
Gabrielli – Temos duas políticas para os biocombustíveis. Uma para o etanol e outra para o biodiesel. No caso do etanol, já temos uma indústria madura. Há centenas de produtores de etanol e temos uma cadeia produtiva estabilizada no Brasil. O problema é ampliar a produção mundialmente e abrir mercados consumidores para transformar o etanol em um combustível global. Achamos que a Petrobras tem um papel importante na logística e na venda – na expansão internacional do comércio de etanol. Seja pelo aumento das exportações brasileiras, seja pela expansão do mercado consumidor internacional do etanol. No biodiesel é diferente. Seu mercado está apenas nascendo. Há poucas indústrias. Existe a necessidade de montar uma cadeia produtiva, principalmente na área de agricultura familiar. A Petrobras acha que pode desempenhar um papel importante nessa estruturação. Para o biodiesel, nós queremos ter uma postura mais ativa. No etanol, estamos concentrados na venda e na logística. Como os dois setores sofrem ameaça de alteração tecnológica, a Petrobras também atua na pesquisa.

Época – Os produtores de etanol estão preocupados com o projeto de lei que o governo está elaborando…
Gabrielli – Eu não conheço o projeto.

Época – Mas o senhor deve acompanhar as notícias divulgadas pela imprensa…
Gabrielli – Não comento notícias da imprensa. Nem tudo o que a imprensa diz é verdade. Eu sofro com isso todos os dias. Desculpe, mas não vou comentar.

Época – Então repasso para o senhor a preocupação dos empresários com quem conversei. Eles temem que a Petrobras passe a controlar o setor.
Gabrielli – Não é nosso interesse monopolizar nem substituir o setor privado. Nós temos uma associação com uma empresa japonesa (a Nippon Alcohol Banhai) que está desenvolvendo um modelo de importação do etanol do Brasil pelo Japão. Temos também um estudo, que está em fase final, para a construção de um alcoolduto que vai permitir novos projetos no interior do país e levar a produção até o porto para ser exportada. Também estamos montando frotas especializadas no transporte de etanol. Com outra empresa japonesa, a Mitsui, estamos entrando na produção de etanol, mas por meio de associações minoritárias. Essa é nossa atuação. Não mais que isso.

Até 2020, cerca de 25% do combustível será renovável. A Petrobras está preparada para essa transformação

Época – Como ficará a geopolítica do petróleo no futuro com a expansão dos biocombustíveis?
Gabrielli – Nossa visão é que o petróleo, o carvão e o gás vão continuar desempenhando um papel muito importante na matriz energética mundial até 2020. O que vai mudar são as exigências ambientais. Teremos de ser mais eficientes. Precisaremos reduzir os impactos das emissões. Mas a mudança mais importante vai acontecer no setor de transportes. Até 2020, pelas nossas previsões, 25% dos combustíveis que vão alimentar os carros, ônibus, caminhões e aviões serão renováveis. Hoje, essa taxa não passa de 3%. Por causa da condição excepcional que o Brasil tem na área de biocombustíveis, estamos muito bem situados para explorar essa transformação. Nos próximos anos, a participação do álcool será de 56% do mercado nacional. Isso é um desafio para nós.

Época – Como uma empresa de petróleo pode ser sustentável?
Gabrielli – Uma empresa de petróleo pode ser sustentável na medida em que ela deixa de ser só uma indústria de petróleo para ser uma empresa integrada de energia, como é o caso da Petrobras. A sustentabilidade não é apenas ambiental. Há outras dimensões, como a social. Não adianta fazer uma excelente estrutura de produção no meio de uma região absurdamente pobre e degradada. Você não pode fazer um gueto de expansão moderna no meio de uma área com miséria e desigualdade. Você tem de ter uma interação com o mundo a sua volta.

Época – Um dos projetos do governo era fazer a integração da energia na América do Sul. Ainda se pensa nisso?
Gabrielli – O mundo caminha para a formação de grandes blocos de integração regional. Há integração na Europa e na América do Norte. A integração da América do Sul está em curso. Os países dependem da importação de gás da Bolívia. A energia elétrica brasileira é exportada para países vizinhos. O mercado regional da petroquímica também está crescendo.

Época – Mas como se faz integração com parceiros como Evo Morales, na Bolívia, e Hugo Chávez, na Venezuela?
Gabrielli – Muito mais distintas eram as relações entre o Leste Europeu e a Europa Ocidental, e ainda assim os acordos foram feitos. Ao longo de 40 anos, as diferenças – e eram enormes – foram superadas, e montou-se toda a infra-estrutura do gás entre a Rússia e o Ocidente. É lógico que é um processo longo. Você precisa ter muita paciência. Precisa saber negociar. Se a Europa pôde fazer sua integração, por que a América Latina não pode?

Foto: Ana Paula Paiva/ÉPOCA