
Entrevista com os vencedores do Prêmio SESC de Literatura 2008
Criado em 2003, o Prêmio SESC de Literatura 2008 recebeu um total de 457 textos inéditos de autores que ainda não têm nenhuma obra publicada. Desses, foram selecionados para a fase final 24 romances e 51 livros de contos, e o julgamento final elegeu como premiados o romance O Momento Mágico, do médico baiano Marcio Ribeiro Leite, e a coletânea de contos Mentiras do Rio, do jornalista carioca residente em Brasília Sergio Leo de Almeida Pereira. No romance, um homem idoso dialoga com a vida e a morte por meio de escritos. Nos contos, locais e personagens do Rio de Janeiro servem para exercícios de reflexão do autor.
Foto: Marta Salomon

Sérgio Leo de Almeida, vencedor na categoria Contos
Foto: Divulgação
Marcio Ribeiro Leite, vencedor na categoria Romance
Nesta entrevista, Sergio, 46 anos, e Marcio, de 51, falam sobre a história de vida e o dia a dia de cada um, a criação das obras premiadas, influências literárias, a importância do prêmio, o próximo livro a ser escrito, o que aconselham a novos autores e outros assuntos ligados à premiação.
O lançamento dos livros vencedores, com selo da Editora Record, está marcado para o final de junho na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Após o lançamento, os novos escritores passam a participar das diversas ações de fomento à leitura e à escrita promovidas pelo SESC, como feiras de livros, seminários e jornadas literárias.
Como foi o processo de elaboração do seu livro premiado? Fale um pouco sobre a obra.
Sergio – Guardei, por muitos anos, reportagens que fiz no segundo caderno do O Globo sobre locais do Rio de Janeiro que mereciam uma visita, como a Quinta da Boa Vista, a Feira de São Cristóvão, o Paço Imperial. Sempre pensei em aproveitar esses cenários para algum jogo literário. Mais recentemente, me dei conta de que esses cenários poderiam vestir e animar certas discussões acadêmicas bem áridas e permitir enredos interessantes, em que histórias de certos personagens e cenas típicas do Rio de Janeiro serviriam de pretexto a reflexões sobre questões permanentes da filosofia, da linguística, da teoria do conhecimento. Gosto de usar personagens e cenas não encontrados muito frequentemente na ficção sobre o Rio. Quando pego figuras já comuns nos relatos literários sobre metrópoles brasileiras, como a prostituta e o sujeito velho e desencantado, procuro subverter os clichês, contrariar expectativas.
Marcio - Este romance em particular saiu, ou melhor, explodiu em mim, em consequência da grande experiência que adquiri com pacientes idosos, terminais, e suas vivências e sofrimentos de final de vida. Também a observação do envelhecer do meu próprio pai serviu de inspiração, resguardadas as devidas diferenças. Trata-se de um homem de oitenta e oito anos que percebe, pelas suas limitações físicas e mentais, que está chegando ao fim. Ele inventaria o passado à cata de algo que realmente tenha valido a pena e se angustia. Deseja morrer e teme a morte, por não saber exatamente como ela será. O que vem depois? Sente-se desajeitado, desajustado, em um mundo que não lhe pertence mais. Segue-se um retrato sombrio da velhice, quando não se encontra um verdadeiro significado para a vida.
Como pode ser definida sua formação de leitor?
Sergio - Eclética. Ler é uma compulsão, me divirto até com rótulo de chiclete. Meu pai, Rogério, sempre estimulou e nunca proibiu leituras; acumulava coleções, como a dos Clássicos de Literatura Juvenil, da Abril, que nunca deveria ter saído do prelo; me oferecia estantes cheias de todo tipo de literatura, de best sellers a Balzac e Nabokov, comprava histórias em quadrinhos, enciclopédias. Ultimamente tenho aproveitado as viagens que faço a trabalho para conhecer autores locais importantes, mas não tão paparicados na imprensa cultural brasileira (o norueguês Knut Hamsun, por exemplo), e para acabar com a vergonha de não conhecer mais autores latino-americanos.
Marcio - Desde os anos mais verdes gosto de ler. Como não tive quem me guiasse, aprendi a ler de tudo. Era frequentador de bancas de revista, colecionava fascículos de tudo que surgia. Nos meus aniversários pedia livros em vez de brinquedos. Se isso não resultou em uma formação acadêmica, me ensinou a garimpar pérolas onde quer que fosse.
Recebeu alguma influência significativa que pudesse relatar? Quais são suas preferências literárias?
Sergio - Acho que tudo que lemos nos influencia, às vezes até pelo que detestamos. Alguns autores me marcaram pela capacidade de unir descrição e narrativa, humor, ironia e profundidade. Balzac, Padre Vieira, Eça de Queirós, Machado de Assis, Henry James, Henry Miller, Jorge Luis Borges, Italo Calvino, José Saramago. Alguns me influenciaram por seus textos sobre literatura, como Borges, Roland Barthes, Humberto Eco, Ricardo Piglia, Júlio Cortázar. Entre as descobertas mais recentes está César Aira. Mas tenho certeza de que, entre as influências não assumidas conscientemente, estão gente que li muito novo e que adorava, como Érico Veríssimo, Jorge Amado e Fernando Sabino.
Marcio - Sempre fui eclético, as preferências variam de acordo com a época, com o meu momento psicológico e o assunto com o qual estou envolvido. Na infância, Monteiro Lobato. Na adolescência, Machado de Assis e Jorge Amado. E Dostoiévsky, Thomas Mann, Hesse e Proust, na idade adulta. Esses são alguns exemplos. Vale esclarecer, entretanto, que só me dispus a escrever para os outros (e não apenas para mim mesmo), quando percebi que tinha maturidade suficiente, ou seja, quando senti que poderia produzir algo que não tivesse a influência de ninguém. Essa tem sido a minha pretensão. É claro que estamos inseridos em um mundo cultural de onde não podemos nos isolar, mas deixo que minha alma comande o meu pensamento quando escrevo.
O Prêmio SESC de Literatura, além de identificar e lançar escritores inéditos, promove diversas ações para a inserção desses escritores no meio literário e no contato com os leitores. Quais são suas expectativas em relação à resposta dos leitores à sua obra?
Sergio - Eu temo que se prendam à superfície das histórias e não apreciem os jogos textuais, algumas vezes explícitos, outras, nem tanto. Mas também tenho esperança de que os contos encontrem leitores amigos, que vejam neles significados inesperados até para mim.
Marcio - Acho o Prêmio SESC uma idéia genial. É a porta de entrada para escritores novos num mercado editorial dificílimo de penetrar. Espero que o meu livro provoque discussões, dúvidas. Um escritor não deve se preocupar apenas com o óbvio, ele deve falar sobre as coisas que ninguém gosta ou costuma falar. Espero também que haja ressonância, isso será um enorme estímulo para continuar escrevendo.
Qual o sentimento de ter o primeiro livro publicado?
Sergio - Prazer e incômodo. É aventuroso e, ao mesmo tempo, bastante desconfortável ver textos seus andando independentes por aí. Diferentemente do que escrevo para jornal, em que a elaboração do texto é só um suporte e uma roupagem agradável para as informações do mundo, os textos de ficção são, de fato, uma criação minha, algo pretensamente novo que botei no mundo com vida própria. Sou o tipo do pai que reconhece os defeitos dos filhos, mas tem enorme amor por eles, e não gostaria de vê-los apanhando por aí pelo que não fizeram.
Marcio - Sentimento de etapa vencida, de prestígio, de recompensa por um trabalho silencioso e, em geral, pouco valorizado. É uma injeção de ânimo. Sem falsa modéstia, eu sabia que, cedo ou tarde, algo parecido aconteceria. Quando se põe a alma no que se faz, mais dia menos dia o momento mágico acontece.
Além de escrever, a que outras atividades se dedica?
Sergio - O jornalismo é atividade diária. Também tenho um ateliê onde posso dizer que sou artista plástico sem enfrentar oposição, já que muito pouca gente tem autorização para entrar nele. Gosto muito de música, e um dia aprenderei a tocar minha clarineta, instrumento do qual extraio ruídos há alguns anos, para desespero de meus cachorros, que têm ouvidos sensíveis. Também mantenho um blogue, o Sítio do Sergio Leo, dedicado a notícias irrelevantes para quem tem mais a fazer com o próprio tempo.
Marcio - O trabalho me consome quase por completo atualmente. Com o tempo que sobra fico com a família, curto minha casa, viajo quando dá. Não sou de muita badalação, sou um cara tranquilo, que aprecia os momentos de silêncio.
Considera que a premiação mudará a dimensão da literatura no dia a dia do seu trabalho? De que forma?
Sergio - Sim e não. Meu método de escrever, no tempo que o jornal deixa livre para isso e com a disciplina a que me forcei, não deve mudar. Mas a expectativa de publicação aumenta, já que o prêmio e o livro publicado servem de carta de apresentação, dão algum destaque.
Marcio - Espero, honestamente, que a literatura me arrebate. Como resultado, quero ser cada vez menos médico e mais escritor. Nada contra a minha profissão, que adoro, mas, hoje, o coração me aponta outros caminhos. Tenho trabalhado muito como médico, o que me deixa pouco tempo para escrever. Pretendo inverter essa relação.
Qual seu próximo projeto literário?
Sergio - Outro livro de contos, em torno de temas e cenas da arte contemporânea.
Marcio - Estou escrevendo um novo romance que trata de questões sociais mais do que relevantes no Brasil, como os meninos de rua, vexame nacional. Traço um perfil da miséria e da grandeza deste país. Quero mostrar a dimensão limitante e autoperpetuadora da pobreza. A partir disso, a possibilidade de saída deste estado congelante.
Você conhece as obras e/ou a trajetória de alguns dos escritores que já venceram o Prêmio SESC de Literatura? Como avalia os desdobramentos dessa proposta para o exercício do escritor?
Sergio - Sim. Vi que pelo menos dois foram finalistas de outros prêmios, como o Portugal Telecom, e pelo menos uma, a Eugênia Zerbini, teve o livro premiado pelo SESC incluído na lista de livros paradidáticos do Ministério da Educação. O prêmio SESC é um estímulo e uma vitrina, é um desafio; uma maior expectativa passa a acompanhar seus textos, a partir dele.
Marcio - Lamentavelmente não conheço o trabalho dos colegas que me precederam em prêmios. Espero que a Record me presenteie com os livros de todos. Tenho mantido diálogos fraternos com alguns deles e quero conhecê-los em breve. O prêmio é uma difícil peneira, sei que venceram por mérito, e isso, por si só, já torna importante a leitura de suas obras.
Que conselhos daria àqueles que querem se dedicar à literatura?
Sergio - O mais óbvio, ler muito. Além disso, fugir dos lugares comuns, evitar as frases prontas e os jargões, esquivar-se dos raciocínios previsíveis. E manter uma disciplina de escrita, mostrando os resultados, de vez em quando, a amigos de verdade, que sejam bons leitores e não tenham problemas para lhe dizer se o que você escreveu ficou ruim.
Marcio - A primeira coisa é verificar, no fundo d’alma, se o chamado é autêntico, e não apenas uma necessidade de sustentação do Ego. Isto feito, é tratar de ler e escrever. É assim que se aprende, fazendo. É preciso também ter paciência consigo mesmo, saber respeitar momentos, indecisões, imaturidades, mas persistir. Imagino que muitos escritores talentosos tenham ficado no caminho por falta de perseverança.
Fonte Sesc Rio