01/10/2009 - 16:02h Em Honduras, com carinho

Sitio de Sergio Leo

Um dos jornalistas que respeito e por quem tenho enorme carinho é o Fabiano Maisonnave, da Folha. cara novo, batalhador, competentíssimo e boa praça. Sério e bem humorado, está hospedado, por esses dias, na embaixada do Brasil em Tegucigalpa.

Ele gosta de blogues, lê vários, inclusive este Sítio, com o qual já colaborou com dicas. Começou o dele (AQUI), já que está naquele tipo de cobertura importante mas cheia de horas vazias. Começou o blogue com uma brincadeira dizendo detestar blogues e blogueiros e já apareceu retardado baixando o malho nele por isso, na caixa de comentários.

Piores são os descerebrados que aparecem por lá em defesa do golpe de Honduras e repetindo mal digeridos os sofismas dos que, querendo criticar o Itamaraty pela atuação em Honduras, inventam teses sem sustentação, como a de que foi o Brasil (não a existência de um golpe de Estado) que acirrou o clima político em Tegucigalpa.

O Brasil tem recebido apoio mundial pelo papel que desempenha em Honduras, e pode sair prestigiado desse imbroglio todo. Escrevo isso para que me cobrem depois.

Entre os raciocínios mais disparatados dos críticos está o de que o Brasil, ao agir como agiu, perdeu a capacidade de mediar a crise, a liderança do processo. Demétrio Magnoli diz coisa assim no Estadão e nO Globo de hoje. O Brasil nunca esteve na mediação, nem a pediu, muito menos na liderança do processo. Se estivesse, seria criticado duramente e com razão pelos que lamentam nos jornais a perda dessa “isenção para mediar”.

O Brasil, como repetiu o Celso Amorim no Senado, apoia a ação da OEA e especialmente do mediador Óscar Arias (cujo nome, pronunciado muito rapidamente, provocava ataques de riso no Senado, terça-feira passada). Há um plano, já aceito pelo Zé Laya, que prevê a reintegração ao poder do presidente deposto pelo golpe, que teria de formar um goevrno de coalizão e presidir as eleições, após as quais sairia do governo, desistindo de propor referendos sobre eleições ou sobre Assembleias nacionais Constituintes.

É um plano de paz sensato, só recusado pelos golpistas hondurenhos (que começam a fraquejar, dividir-se; os apressados defensores dos golpistas ainda vão morder a língua).

Anotem aí: a crise em Honduras aproxima-se de bom fim. Mas não tem problema não. A turma que ontem defendia o golpe em Tegicugalpa conseguiu um bom motivo para mudar de assunto sem trocar de alvo: no meio disso tudo, o Amorim, em uma decisão estranha e mal explicada, acaba de se filiar ao PT.

Amorim no PT. Bom assunto para tomar o lugar, nas manifestações conservadoras, do vergonhoso apoio a um golpe na América Central. Aí o pessoal pode até nem comentar caso haja paz em Honduras e o governo brasileiro seja elogiado lá fora pela atuação na crise.

07/07/2009 - 19:01h Para-ti

Eu aproveitei que Sergio Leo estava em Parati (ou Paraty?) e passei vários dias no Sitio dele.

Chato, pois ele tinha levado também o Olivera, o cretino que trabalha com ele. No sitio, só tinha alguns animais abandonados e o cara passeando com a Calle, aquela que fez um grande negocio quando foi largada pelo namorado (não vejo muita originalidade, as mulheres sempre saem ganhando quando se liberam dos seus namorados, mesmo quando são eles que tomam a iniciativa).

Dá para entender porque o Sergio pegou essa Calle e saiu twitando que ela tinha se saído bem do confronto com o ex. Basta ver a foto de Sergio e a do ex da Calle, para entender que o grande negocio da Calle foi melhorado com a estadia em Paraty (ou Parati?).

É bom lembrar que a artista francesa gosta de levar desconhecidos para a cama e ficar registrando os seus roncos.*

Em tudo caso, Olivera não apareceu na foto de Leo com Calle, mesmo tendo apregoado que era um escritor conhecido. Já Leo é só conhecido no Rio, onde ele sisma (é cisma corrige Leo) em lançar seu livro e continua esnobando São Paulo. Só quando passar por aqui é que ganhará o título que Olivera ostenta com razão.

Aguardando sua vinda à montanha, o profeta se exibe nas ruas coloniais. Diz que andava meia hora todos os dias: Ya se en que calle!

Generoso mandou a mulher ouvir o Talese, é ficou consolando-a Calle do desplante de Grégoire. Fica assim desvendado outro mistério que ronda a artista plástica Sophie Calle, a saber a identidade do detetive que ela mesmo mandou contratar para espiã-la e fotografá-la, na tentativa de provar que ela existe**.

O detetive foi o próprio Sergio Leo.

LF vagabundeando no sitio do Sergio Leo

A seguir as confissões de um escritor, normalmente fantasiado de jornalista, procurando sua inspiração

* Em 1979, « brincando », Sophie Calle solicitou a vários desconhecidos de passar várias horas em sua cama para ela ficar ocupada ininterruptamente durante oito dias, ela os fotografou e eles tinham que responder a suas perguntas.

** do livro de Sophie Calle, La visite guidée.

eu e sophie.JPG(Na foto, eu e uma amiga que conheci em Parati)

No primeiro dia na Flip, em Paraty, um amigo escritor me conta o segredo de quem estréia na literatura: “seu livro é como uma criança de quatro anos atravessando a presidente Vargas. Com sorte, quem sabe, chega do outro lado da rua”.

Um mergulho na Festa Literária de Parati me mostra isso: uma quantidade imensurável de escritores famosos e anônimos (é, muita gente publica e continua no anonimato) vaga pelos milhares de leitores que lotam a cidade. Milhares de leitoras, eu diria: quer fazer sucesso, escreve para as senhoras entre 35 e 60 anos, são as que gostam tanto disso que mandam legiões da categoria para formar uma maioria impressionante numa festa dessas.

É. Dia 10 meu “Mentiras do Rio” deve chegar nas livrarias. Vamos ver, então. No café, de onde eu estava quando meu amigo misturava trânsito e literatura, via a mesa com autores paulistas e a turma da Companhia das Letras, congraçamento total. Conheci, de leve, o Marcelino Freire. Cara muito simpático. Estava na parte VIP da coisa, como mostrou a Ivana, que vi e acabei não conhecendo. Pena. Na festa de autores da Record, era outro o grupo que eu vi, todos em festa, de um clube do qual ainda me sinto um penetra tratado com alguma condescendência.

Fiquei numa pousada que, acho, devia ser em Angra dos Reis; meia hora de caminhada até o centro histórico, todo dia. Bom exercício, ajuda a consolidar a imagem de escritor marginal. Tão marginal que até minha mulher me trocou pelo Gay Talese. Na hora em que eu lançava meu livro na OFF Flip, o cara falava. Eu disse a ela: vai lá, pelo menos alguém da família vê um escritor para contar depois aos amigos. Teve meu incentivo, mas não precisava ficar com aquele sorriso, caramba. Também, depois desse flagra abaixo, proibi a ida dela à palestra do Chico Buarque. Não se pode confiar nas ruivas. Nem no Chico.

marta.JPG

Até preparei minha estréia na Flip, maquiavelicamente. Mandei um conto, adaptado, para o concurso da Piauí, para publicar na edição que circularia na Flip. E, claro, não levei. O que ganhou estava bem bom. E o meu eu boto aqui, juro que não vai virar hábito. Mudei até o final para que sobreviva à rejeição da revista e, um dia, seja publicado na edição de minhas obras completas. Em alguma das 180 páginas aceitas pelo editor.

Ela Negou
Não é fetiche. Nem obsessão. Eu tentei explicar, fumamos uma carteira de cigarro discutindo. Ela, sempre sem tirar os olhos dos meus olhos, disse que eu não tinha entendido nada e teimou, se recusou a fazer essa coisa simples, esse gesto besta, seria um carinho, sinal de consideração, eu disse a ela. Estupidez, ela disse. Se não for perversão, brincou.

Ela era contraditória, eu disse, logo que acendi o primeiro cigarro, na brasa do cigarro dela (ela fica linda quando deixa escapar devagarinho a fumaça pelos lábios entreabertos, criando uma cortina cinza entre meus olhos e aqueles olhos negros, mar profundo onde mergulho meu olhar apaixonado _ ela destestava quando eu dizia coisas como essa).

Lembrei da reclamação dela, logo no início, naquele dia em que eu me maravilhei por acordar e ver, ainda deitada ao meu lado, aquela mulher saída de alguma propaganda de leite desnatado, nua e rósea, os cabelos negros derramando fios sobre os lábios vermelhos que falavam comigo e me recriminavam.

Lembrei que ela tinha dito que eu era desmazelado. Relaxado, insistiu; como se procurasse adjetivo mais convincente. Queria que eu mudasse, estava claro. Eu mudaria, eu faria o que me pedisse, desde que aqueles lábios continuassem ao meu lado, e perto de mim continuassem os dedos distraídos, de unhas delicadas e esmalte vermelho, afastando os fios negros que a atrapalhavam enquanto falava.

Eu não me tratava, era desleixado, insistia ela, e eu concordava, mudo, hipnotizado pelos olhos, cabelos, unhas, tons de rosa,vermelho e negro que a luz forte da janela coloria em reflexos que me atordoavam.

Essa foi uma discussão anterior, como eu disse, foi logo no início, quando ela reclamou, depois de uma noite de gemidos, suor e carinho; e pediu que eu mudasse. Ela gostava de minhas idéias ligeiramente disparatadas, minhas utopias, minhas paixões estéticas e minha ingenuidade política, contou, antes de me levar para a cama. E por isso acordamos juntos naquela noite, a primeira, e em várias outras. Mas, ao acordar daquela primeira vez, queria mais que minhas idéias, paixões e ingenuidade. Eu não me cuidava, e isso não era bom.

Não voltou ao assunto, mas eu me lembrava disso sempre que ela se levantava, pescava a lingerie em alguma dobra do lençol, entrava em um daqueles vestidos luxuosos que sempre usava, e se despedia de mim com um beijo daqueles lábios escandalosamente vermelhos, beijo jogado ao ar por dedos delicados, gestos de sereia hollywoodiana.

Nessa última noite, em que fumamos como viciados, já estava com o vestido, branco como eu adorava ver cobrindo o corpo forte, doce, quando pedi a ela. E ela. sem deixar de mirar meu rosto, disse não.

Depois de algum tempo, eu a puxei pelos braços, e ela caiu, ficou no chão, os olhos para o teto. Sentei ao lado dela, pedi desculpas; ela me pediu um cigarro. Fumando, pedi de novo que deixasse de teimosia. Eu pedia uma bobagem. E ela me pediu o cinzeiro. Cruzou os braços. Já não me olhava.

E continuou assim, linda e mal-humorada, recusando-se, negando.

Com os braços cruzados, parecia acariciar os ombros, me provocava, e eu, de pé, quase faço uma besteira. Pedi de novo. Implorei.

Mas nem assim ela teve a consideração, o carinho, a piedade de virar o rosto. Não queria. Não fez.

E eu em pé, de chapéu novo, sapato engraxado, gravata borboleta.

Que eu queria tanto, tanto, mostrar a ela.

09/06/2009 - 19:05h Petrobras e jornais: uma opinião ponderada

Do Observatório da imprensa

BLOG DA PETROBRAS

Quando a fonte abre o jogo

Por Claudio Weber Abramo em 9/6/2009

blog do autor, 9/6/2009; título original “O blog da Petrobras”

Anda causando celeuma a decisão de Petrobras de publicar, num blog (”Fatos e Dados“), as perguntas que lhe são formuladas por escrito pela imprensa, bem como as respostas dadas. A justificativa que a Petrobras apresenta para a iniciativa está publicada aqui.

Destacam-se os seguintes pontos:

** A relação entre a Petrobras e os veículos de comunicação que a interpelam é essencialmente pública.

** A publicação das respostas no blog, antes da decisão editorial de o jornal publicar ou não a reportagem em questão, reforça o objetivo da Petrobras de alcançar o máximo de transparência possível no relacionamento com seus públicos de interesse.

** A agilidade no tratamento e no encaminhamento das respostas ao sempre legítimo questionamento da imprensa demonstra também o compromisso da Cia em prestar todos os esclarecimentos a ela solicitados.

** A Petrobras tem liberdade para publicar a íntegra das respostas que fornece aos veículos de comunicação porque é fonte e detentora dos dados disponibilizados.

Os jornais não gostaram. A Associação Nacional dos Jornais, que reúne as empresas proprietárias desses órgãos, soltou uma nota na segunda-feira (8/6) em que afirma:

“Numa canhestra tentativa de intimidar jornais e jornalistas, a empresa criou um blog no qual divulga as perguntas enviadas à sua assessoria de imprensa pelos jornalistas antes mesmo de publicadas as matérias às quais se referem, numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes.”

Sem intermediação

A atitude da Petrobras estimula uma porção de observações.

1. Não há problemas com as justificativas da Petrobras.

2. Não procede a reclamação da ANJ, de que a Petrobras teria rompido algum compromisso de confidencialidade entre a fonte e o veículo de imprensa. Esse compromisso nunca existiu. O que existe é o princípio de resguardo da fonte por parte de jornalistas. Não existe dever subjetivo da fonte de resguardar o jornalista. As fontes não estão presas à confidencialidade que a ANJ menciona.

3. Qualquer pessoa que já tenha sido fonte da imprensa sabe que entre o que se informa (por declaração, por escrito ou num relatório formal) a um jornalista e aquilo que sai publicado vai uma distância. Quando o repórter é um profissional correto, e quando o veículo em que trabalha também é, essa distância é geralmente pouco relevante. No entanto, em particular na imprensa escrita e nos noticiários da televisão, o processo de edição, em que se corta muito do que a fonte informou, pode levar a citações fora de contexto ou incompletas. (Já quando jornalista e/ou veículo são desonestos, o que sai publicado é qualquer coisa.) Assim, de modo a resguardar aquilo que se informou à imprensa, a iniciativa de publicar perguntas e respostas pode contribuir para a melhoria das práticas profissionais da área.

4. Na prática, o que a Petrobras passou a fazer tem consequências sobre a capacidade de órgãos da imprensa “furar” seus concorrentes. Se a Petrobras publica as perguntas formuladas por um jornal assim que envia as respostas, bastará ao jornal concorrente consultar sistematicamente o blog da Petrobras para não ser “furado”. Isso tende a uniformizar o noticiário e a reduzir o estímulo para que os veículos busquem levantar assuntos inéditos. Quem perde com isso é o leitor.

5. Ao tomar a iniciativa que tomou, a Petrobras não disse o que fará em relação às informações que passa com exclusividade a jornalistas por sua própria iniciativa. O princípio deveria ser o mesmo – se a ideia é comunicar-se com o público sem a intermediação dos veículos de comunicação, então essas notícias “plantadas” precisariam também ser divulgadas no blog da Petrobras assim que formuladas por sua assessoria de imprensa.

Pela qualidade

6. De toda forma, ficará fácil verificar se a empresa procurará resguardar essas informações que distribui com exclusividade, pois se algo for publicado em algum veículo e a notícia disso não for divulgada previamente pela Petrobras, estará configurado o uso de dois pesos e duas medidas.

7. Em particular, é bom ver o que acontecerá com as informações prestadas pela Petrobras a veículos e agências noticiosas internacionais. Será mesmo que a empresa vai “furar” a Reuters, a Associated Press, o Financial Times, a Economist? Não é de se crer.

8. Embora pareça claro que a iniciativa da Petrobras vem como reação à CPI montada para investigar as suas operações, a tensão criada com os jornais não deverá persistir, pois não interessa à própria Petrobras. Por mais que a política de comunicação do governo federal tenha se voltado preferencialmente aos pequenos veículos locais e regionais, a Petrobras não pode prescindir da chamada “grande imprensa”, porque os investidores do mercado não lêem o Democrata de Xixirica da Serra, mas o Globo, o Estadão, a Folha, o Valor.

9. Por isso, é provável que a empresa recue da decisão de divulgar as perguntas e as respostas antes que os veículos publiquem as reportagens correspondentes.

10. Contudo, em favor da melhoria da qualidade da imprensa, a Petrobras deveria continuar a fazê-lo após os veículos terem publicado as suas histórias.

09/06/2009 - 18:15h Os jornais em polvorosa

Jornais reagiram com espirito de corpo, perante a decisão da Petrobras de criar um blog como canal direto de informação para enfrentar a CPI. Todos condenaram a iniciativa, particularmente quando a Petrobras reproduziu na integra as perguntas e suas respostas aos questionamentos dos jornalistas.

Os argumentos são diversos e não cabe maniqueismo no tratamento deste debate.

Sergio Lirio, redator em chefe da revista Carta Capital, considera a decisão da Petrobras deselegante e intimidatória, porem constata:

“Sabemos que durante CPIs a imprensa costuma fazer o contrário do que deveria: torna-se menos e não mais criteriosa e vigilante na seleção e divulgação dos fatos, sob a desculpa das pressões da competição pelo furo, além de frequentemente se deixar usar por interesses particulares ou eleitorais travestidos de interesse público.

Outro comportamento bastante comum da mídia nesses momentos é ignorar com mais frequência seus erros e não conceder a um indivíduo ou empresa atingidos o devido espaço de retratação.

Misturados à manada que alegremente pisoteia o bom senso, as regras básicas da profissão e a autonomia do pensamento (que deveria nortear um jornalista do raiar do dia ao fim da jornada diária), repórteres, editores e veículos sentem-se mais confortáveis para cometer aleivosias e assassinatos de reputação ou para reproduzir erros alheios sem se dar ao trabalho da checagem.

Quem já foi injustamente alvejado por CPIs sabe bem o que isso representa. No caso de uma companhia com ações nas Bolsas de Valores, milhões de dólares em contratos e sentada sobre reservas espetaculares de gás e petróleo, os prejuízos podem ser incalculáveis e irreversíveis.” (artigo de Sergio Lirio no Blog de Noblat).

Precisamente, e não só pela experiencia anterior fielmente retratada por Sergio Lirio, mas na base do que começou a ser publicado em certos jornais desde a instalação da CPI do PSDB, os “prejuízos incalculáveis e irreversíveis” na imagem da Petrobras começaram. Em parte, provocados pela sonegação de informações devidamente fornecidas, quando não pela manipulação pura e simples. Uma manchete insinuava irregularidade em supostos contratos sem licitação, sendo que a lei autorizara desde bem antes do governo atual à empresa a dispensar dos mesmos. Outra manchete insinuava irregularidade na participação do presidente da Petrobras no conselho de uma ONG da qual participam as principais empresas do país. Hoje mesmo, a afirmação que 1.050 jornalistas eram contratados pela Petrobras, foi desmentida e deu lugar a um pequeno “erramos”.

Existindo o precedente indicado com claridade e objetividade pelo redator em chefe da Carta Capital e constatada a pratica recorrente em relação à Petrobras, qual é a melhor resposta? Não é a que poe todo mundo perante suas responsabilidades de forma transparente aos olhos do público?

Se intimidação existe é a dos que se arrogam o monopólio da representação da opinião pública em matéria de informação e que utilizando a liberdade de escolher como bem entendem, do que a Petrobras responde aos seus questionamentos, procuram acuar a empresa por conta de uma iniciativa político eleitoral da oposição.

Persiste, é verdade, a questão do trabalho do jornalista que procurando ouvir o “outro lado” vê suas informações divulgadas antes da sua publicação no seu próprio veículo e librada assim aos seus concorrentes. A argumentação foi utilizado com razão por Sergio Leo, Kennedy Alencar e outros jornalistas e merece ser levada em conta.

Luis Nassif responde a estes argumentos assim:

“Fica claro também que a publicação das respostas se destina às pautas onde haja evidências fortes de risco de manipulação.

Além disso, a publicação das respostas no Blog da Petrobras funciona como um certificado de cartório. Significa que aquele tema, com aquelas respostas, têm dono. Se algum jornal ou jornalista ousar se apropriar de pautas de terceiros, será crucificado pela opinião pública e pelos próprios colegas.

Finalmente, o questionamento posterior da Petrobras às matérias obrigará inevitavelmente a um aprimoramento da cobertura. Aí, a discussão fica técnica. Se um jornal tratar adequadamente a informação, e o Blog da Petrobras ousar questioná-lo com falsas questões, corre o risco de se desmoralizar. Se os questionamentos forem pertinentes, quem se desmoraliza é o jornalista e o jornal.

Qual a resultante desse embate? Aprimoramento do jornalismo e da qualidade da informação, o que levará os jornais – muito mais por necessidade que por princípio – a melhorarem o jornalismo que praticam e a empresa a melhorar o grau de transparência das suas informações, à medida que esse modelo a amarrará ao compromisso de não deixar perguntas sem respostas.

Hoje em dia, não há transparência na forma como são tratadas as notícias, especialmente aquelas com viés partidário. O jornalista detém uma informação e se julga no direito de dar o tratamento que bem entender, o enfoque que desejar, selecionar as informações que melhor se adequem à sua tese. A possibilidade do leitor ter acesso a todas as informações fornecidas é um ganho excepcional no direito constitucional de ser bem informado.”

A iniciativa do blog da Petrobras abriu um debate mais que necessário e isto já é um mérito da Petrobras.

Em resposta ao posicionamento de Kennedy Alencar na Folha online os primeiros três comentários de leitores são:

marcus eneas (2) 09/06/2009 17h34

“A imprensa está cheio de estúpidos? Está.” Está escrevendo na frente de um espelho? A transparência da Internet é para todos!

Antonio Passos (35) 09/06/2009 17h30

ESTARRECEDORA a reação da imprensa em relação ao blog da Petrobrás. Uma postura digna de um CENSOR do tempo da ditadura. A Petrobrás comete o “sacrilégio” de revelar as perguntas que lhe são feitas com suas respectivas respostas. É INACREDITÁVEL o ponto em que chegou a PREPOTÊNCIA da nossa mídia. A liberdade para perguntar não lhe basta, ela quer também o poder de “CONTROLAR” as respostas. Tipo: “eu te pergunto e você responde na hora e do jeito que eu quiser, e não diz que fui eu quem perguntou”. É hilariante ! Não podemos deixar de lembrar o episódio em que os laptops dos juízes do STF foram GRAVADOS de forma sorrateira e o conteúdo PRIVADO dos seus emails foi revelado nas primeiras páginas dos jornais, sob a alegação de que “a sessão era pública”. ISTO PODE ! Como se o fato da sessão ser pública, permitisse inclusive enfiar a mão nos bolsos dos juízes para ver o que tem lá dentro.

Andrea Costa (2) 09/06/2009 17h23

Prezado Kennedy, tem certeza de que a burra da história é a Petrobrás?! Ciente do jogo sujo que é uma CPI e sua cobertura, a Petrobrás, brilhantemente, antecipou-se para preservar um de seus maiores patrimônios: sua credibilidade. Qualidade que falta à grande imprensa brasileira. Por isso essa celeuma toda. A FSP, com todos os esses ataques ao blog, escancara seu despero em ter suas manipulações desmascaradas. Mas já que a estratégia da Petrobrás é burra, pq se preocupar com ela?

________________________________________________________________

Internet é isso e a discussão horizontal e multiforme enriquece a democracia. Ganham a liberdade de imprensa e os cidadão brasileiros. LF

08/06/2009 - 20:41h Um outro lado na questão do blog da Petrobras

Petrobras: convoco o PD

Sitio de Sergio Leo

“Antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético.É só má assessoria de imprensa.

A Petrobras decidiu comprar uma guerra contra os jornais, quebrando seus furos. Tem o direito, evidentemente. Do ponto de vista político, escolheu o alvo errado. Não é a imprensa que está em guerra contra a Petrobras. Quem pôs a Petrobras no centro do picadeiro foi a oposição ao governo federal, com o objetivo de fazer chantagem política. A diretoria da Petrobras talvez esteja convencida de que a grande imprensa e a oposição política são a mesma coisa. Mas não são – são bichos com interesses absolutamente diferentes.

[...]

A questão real, a discussão principal da qual esta polêmica é só um capítulo, é a relação entre imprensa, empresas, governo e público. [...]Se eu tivesse que chutar, apostaria que ninguém (nas redações) está percebendo: a credibilidade da imprensa brasileira está lentamente sendo minada.

Isso aconteceu aqui nos EUA alguns anos atrás e marcou o início da crise da indústria. Aqui foi igual, mas trocaram os sinais: a imprensa era acusada de estar a serviço da esquerda – the liberal media – e os cães de ataque do governo Bush, no rádio e na Internet, fizeram de tudo para derrubá-la. Some-se o bombardeio a uma série de erros cometidos nas redações, de Dan Rather na CBS ao New York Times, e pronto.

Aqui no Brasil é igual. Quem tem o poder político acusa a imprensa de estar a serviço da oposição e erros da própria imprensa colaboram para a ilusão. A diferença é que no Brasil a grande imprensa não se manifesta. Continua a tocando sua vida como se não houvesse um bode no meio da sala.”

Muita gente chega a esse blogue pelas mãos do Pedro Dória, mas, para os que não o leram, reproduzo parte do belo e sábio post dele sobre o mesmo assunto, que subscrevo integralmente.

Vou, em breve, dar meu pitaco sobre um ponto que ele aponta muito bem e está expresso nas caixas de comentários blogosfera acima: essa questão da desmoralização da mídia (que nada tem a ver, na minha opinião, com sua suposta “decadência” _ em meio a uma das piores quedas na atividade econômica dos últimos anos, houve jornal com aumento no lucro).
Leiam o Pedro, e, para conhecer uma opinião que me exaspera por vir e amigo e ser tão profundamente equivocada, deixo o link do Idelber AQUI, sobre o mesmo tema. Também vem muito visitante de lá, aqui pro Sítio.

Por que jornalistas experientes fingem não ver que a Petrobras age errado?

Acho que os jornais deviam cobrir com pés atrás essa CPI da Petrobras, claramente criada como chantagem contra o governo. Mas como também acho que fatos políticos são notícia, se a oposição aproveita irregularidades na estatal para chantagear o governo, não há como fingir que essas irregularidades, se existirem, são mera invenção. Só bom jornalismo pode vacinar a Petrobras contra possíveis capturas pelos interesses políticos.E, então, essa história da Petrobras de publicar num blogue as perguntas feitas pelos jornalistas à estatal, antes que eles tenham chance de publicar as respostas, é uma excrescência assustadora, mais assustadora ainda por haver jornalistas inteligentes que fingem não saber como funciona uma apuração honesta e apelam para o populismo, surfando na onda de apedrejamento da midia. Até gente que admiro entre eles.

2º clichê (quando a caixa de comentários já tinha mais de 20): que fique bem claro: a idéia de abrir um blogue, para reproduzir as respostas da empresa aos questionamentos da imprensa e contestar a abordagem adotada nas matérias dos jornais é excelente. Dá transparência e coibe abusos da midia. Mas publicar no blogue os pedidos de esclarecimentos feitos pelos jornalistas, antes mesmo que o jornal tenha chance de publicar as respostas, é uma esperteza idiota, um estímulo ao mau jornalismo,e não o contrário.

Deixem, por um momento, suas convicções sobre a canalhice essencial da imprensa empresarial no país. Peço só que acompanhem meu raciocínio.

Continue lendo Por que jornalistas experientes fingem não ver que a Petrobras age errado?.

02/06/2009 - 17:29h Mato pra todo lado e animais soltos

Ah, os argentinos

 

 

Um dia me mudo para Buenos Aires. E acho que se o Lula fizesse o mesmo seria bem feliz. “O que há com os brasileiros que viajam? Todos se queixam do Lula!” me pergunta um taxista perplexo que, como a maioria dos argentinos que conheço, diz francamente sentir inveja da qualidade do governo brasileiro e da cena política do país. Pra você ver como estão nossos vizinhos.

(aliás, descobri finalmente por que o idelber defende o governo Cristina Kirchner. Ele considera o Página 12 o supra-sumo do jornalismo sul-americano, e foi nesse jornal que li um de seus melhores articulistas defender a tese de que o Hugo Chávez não contou nada aos Kirchner quando os visitou semanas antes de nacionalizar a Techint, um grupo ítalo-argentino, cuja estatização provocou umas notas débeis de protesto da Casa Rosada)

Visto de fora, o Brasil é o que é: uma grande potência e um dos países com instituições mais modernas do mundo. Me ufano desse país. E aqui leio, rindo, os analistas desesperados dizendo que a política externa é um fracasso proque não conseguiu emplacar a Ellen Gracie no órgão de solução de controvérsias da OMC nem garantir o empreguinho em Paris aos brasileiros que queriam o cargo de direção na Unesco.

Janto com o emblemático Jorge Castro, e com jornalistas, e participo de um momento mágico na história da América Latina: a um canto da mesa, eu, o Alexandre Pinheiro e o Ariel Palácios descobrimos, surpresos, que somos todos brasileiros que odeiam futebol. Há esperança paraa civlização. Ainda que eu desconfie do Ariel, ele sabe quem disputou a final das útlimas copas. Eu só sei sobre a de 1982, em que saí às ruas com uma camisa da Itália. Como ia advinhar que a seleção ia perder logo da squadra azzurra??

Bom, em Buenos Aires, apesar de ter recebido reduzida contribuição, de poucos e bons frequentadores deste blogue, até não fiz feio. E aproveitei parte do que disse lá na coluna do Valor, mas isso deixo para um argentino boa praça contar AQUI. Sim, chamei as Galerias Pacifico de Shopping Pacífico na coluna, mas quequiá, é quase a mesma coisa.

E, nessas mesmas Galerias Pacífico (o Atheneo está uma porcaria, acho que sacrificaram as estantes de livro para investir na lanchonete para os turistas que vão lá sacar fotos e falar alto em portugues), encontrei preciosidades, a começar pela espécie inecistente no Brasil: o vendedor de livros quelivros.

Fico sabendo, por uma dessas avis rara do Cone Sul, que existe uma coletânea dos artigos jornalísticos do Roberto Arlt, o cara que influenciou uma parte grande dos autores atuais argentinos, com quem já brinquei neste sítio, e que se costuma contrapor a Jorge Luis Borges, um o intelectual erudito e de texto elaborado; o outro politizado, popular e de texto reto.

Já faz parte da biblioteca, “Cronicas en el Mundo“, com um livro inacreditável do Ricardo Piglia, “Crítica y Ficcion“, de quem descobri que terei de chupar páginas inteiras quando estiver falando na OFFFlip, em julho, dois livros do Martin Kogan, por influência do idelber, e um do Bolaño. Tem mais um de um autor uruguaio, de quem falarei em breve por aqui.
E volto a postar, que está uma vergonha o Sítio, mato pra todo lado.

11/05/2009 - 20:58h Mentiras do Rio e O Momento Mágico


Entrevista com os vencedores do Prêmio SESC de Literatura 2008
Criado em 2003, o Prêmio SESC de Literatura 2008 recebeu um total de 457 textos inéditos de autores que ainda não têm nenhuma obra publicada. Desses, foram selecionados para a fase final 24 romances e 51 livros de contos, e o julgamento final elegeu como premiados o romance O Momento Mágico, do médico baiano Marcio Ribeiro Leite, e a coletânea de contos Mentiras do Rio, do jornalista carioca residente em Brasília Sergio Leo de Almeida Pereira. No romance, um homem idoso dialoga com a vida e a morte por meio de escritos. Nos contos, locais e personagens do Rio de Janeiro servem para exercícios de reflexão do autor.

 Foto: Marta Salomon


Sérgio Leo de Almeida, vencedor na categoria C
ontos

Foto: Divulgação


Marcio Ribeiro Leite, vencedor na categoria Romance

Nesta entrevista, Sergio, 46 anos, e Marcio, de 51, falam sobre a história de vida e o dia a dia de cada um, a criação das obras premiadas, influências literárias, a importância do prêmio, o próximo livro a ser escrito, o que aconselham a novos autores e outros assuntos ligados à premiação.

O lançamento dos livros vencedores, com selo da Editora Record, está marcado para o final de junho na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Após o lançamento, os novos escritores passam a participar das diversas ações de fomento à leitura e à escrita promovidas pelo SESC, como feiras de livros, seminários e jornadas literárias.

Como foi o processo de elaboração do seu livro premiado? Fale um pouco sobre a obra.

Sergio – Guardei, por muitos anos, reportagens que fiz no segundo caderno do O Globo sobre locais do Rio de Janeiro que mereciam uma visita, como a Quinta da Boa Vista, a Feira de São Cristóvão, o Paço Imperial. Sempre pensei em aproveitar esses cenários para algum jogo literário. Mais recentemente, me dei conta de que esses cenários poderiam vestir e animar certas discussões acadêmicas bem áridas e permitir enredos interessantes, em que histórias de certos personagens e cenas típicas do Rio de Janeiro serviriam de pretexto a reflexões sobre questões permanentes da filosofia, da linguística, da teoria do conhecimento. Gosto de usar personagens e cenas não encontrados muito frequentemente na ficção sobre o Rio. Quando pego figuras já comuns nos relatos literários sobre metrópoles brasileiras, como a prostituta e o sujeito velho e desencantado, procuro subverter os clichês, contrariar expectativas.

Marcio - Este romance em particular saiu, ou melhor, explodiu em mim, em consequência da grande experiência que adquiri com pacientes idosos, terminais, e suas vivências e sofrimentos de final de vida. Também a observação do envelhecer do meu próprio pai serviu de inspiração, resguardadas as devidas diferenças. Trata-se de um homem de oitenta e oito anos que percebe, pelas suas limitações físicas e mentais, que está chegando ao fim. Ele inventaria o passado à cata de algo que realmente tenha valido a pena e se angustia. Deseja morrer e teme a morte, por não saber exatamente como ela será. O que vem depois? Sente-se desajeitado, desajustado, em um mundo que não lhe pertence mais. Segue-se um retrato sombrio da velhice, quando não se encontra um verdadeiro significado para a vida.


Como pode ser definida sua formação de leitor?

Sergio - Eclética. Ler é uma compulsão, me divirto até com rótulo de chiclete. Meu pai, Rogério, sempre estimulou e nunca proibiu leituras; acumulava coleções, como a dos Clássicos de Literatura Juvenil, da Abril, que nunca deveria ter saído do prelo; me oferecia estantes cheias de todo tipo de literatura, de best sellers a Balzac e Nabokov, comprava histórias em quadrinhos, enciclopédias. Ultimamente tenho aproveitado as viagens que faço a trabalho para conhecer autores locais importantes, mas não tão paparicados na imprensa cultural brasileira (o norueguês Knut Hamsun, por exemplo), e para acabar com a vergonha de não conhecer mais autores latino-americanos.

Marcio - Desde os anos mais verdes gosto de ler. Como não tive quem me guiasse, aprendi a ler de tudo. Era frequentador de bancas de revista, colecionava fascículos de tudo que surgia. Nos meus aniversários pedia livros em vez de brinquedos. Se isso não resultou em uma formação acadêmica, me ensinou a garimpar pérolas onde quer que fosse.


Recebeu alguma influência significativa que pudesse relatar? Quais são suas preferências literárias?

Sergio - Acho que tudo que lemos nos influencia, às vezes até pelo que detestamos. Alguns autores me marcaram pela capacidade de unir descrição e narrativa, humor, ironia e profundidade. Balzac, Padre Vieira, Eça de Queirós, Machado de Assis, Henry James, Henry Miller, Jorge Luis Borges, Italo Calvino, José Saramago. Alguns me influenciaram por seus textos sobre literatura, como Borges, Roland Barthes, Humberto Eco, Ricardo Piglia, Júlio Cortázar. Entre as descobertas mais recentes está César Aira. Mas tenho certeza de que, entre as influências não assumidas conscientemente, estão gente que li muito novo e que adorava, como Érico Veríssimo, Jorge Amado e Fernando Sabino.

Marcio - Sempre fui eclético, as preferências variam de acordo com a época, com o meu momento psicológico e o assunto com o qual estou envolvido. Na infância, Monteiro Lobato. Na adolescência, Machado de Assis e Jorge Amado. E Dostoiévsky, Thomas Mann, Hesse e Proust, na idade adulta. Esses são alguns exemplos. Vale esclarecer, entretanto, que só me dispus a escrever para os outros (e não apenas para mim mesmo), quando percebi que tinha maturidade suficiente, ou seja, quando senti que poderia produzir algo que não tivesse a influência de ninguém.  Essa tem sido a minha pretensão. É claro que estamos inseridos em um mundo cultural de onde não podemos nos isolar, mas deixo que minha alma comande o meu pensamento quando escrevo.


O Prêmio SESC de Literatura, além de identificar e lançar escritores inéditos, promove diversas ações para a inserção desses escritores no meio literário e no contato com os leitores. Quais são suas expectativas em relação à resposta dos leitores à sua obra?

Sergio - Eu temo que se prendam à superfície das histórias e não apreciem os jogos textuais, algumas vezes explícitos, outras, nem tanto. Mas também tenho esperança de que os contos encontrem leitores amigos, que vejam neles significados inesperados até para mim.

Marcio - Acho o Prêmio SESC uma idéia genial. É a porta de entrada para escritores novos num mercado editorial dificílimo de penetrar. Espero que o meu livro provoque discussões, dúvidas. Um escritor não deve se preocupar apenas com o óbvio, ele deve falar sobre as coisas que ninguém gosta ou costuma falar. Espero também que haja ressonância, isso será um enorme estímulo para continuar escrevendo.


Qual o sentimento de ter o primeiro livro publicado?

Sergio - Prazer e incômodo. É aventuroso e, ao mesmo tempo, bastante desconfortável ver textos seus andando independentes por aí. Diferentemente do que escrevo para jornal, em que a elaboração do texto é só um suporte e uma roupagem agradável para as informações do mundo, os textos de ficção são, de fato, uma criação minha, algo pretensamente novo que botei no mundo com vida própria. Sou o tipo do pai que reconhece os defeitos dos filhos, mas tem enorme amor por eles, e não gostaria de vê-los apanhando por aí pelo que não fizeram.

Marcio - Sentimento de etapa vencida, de prestígio, de recompensa por um trabalho silencioso e, em geral, pouco valorizado. É uma injeção de ânimo. Sem falsa modéstia, eu sabia que, cedo ou tarde, algo parecido aconteceria. Quando se põe a alma no que se faz, mais dia menos dia o momento mágico acontece.


Além de escrever, a que outras atividades se dedica?

Sergio - O jornalismo é atividade diária. Também tenho um ateliê onde posso dizer que sou artista plástico sem enfrentar oposição, já que muito pouca gente tem autorização para entrar nele. Gosto muito de música, e um dia aprenderei a tocar minha clarineta, instrumento do qual extraio ruídos há alguns anos, para desespero de meus cachorros, que têm ouvidos sensíveis. Também mantenho um blogue, o Sítio do Sergio Leo, dedicado a notícias irrelevantes para quem tem mais a fazer com o próprio tempo.

Marcio - O trabalho me consome quase por completo atualmente. Com o tempo que sobra fico com a família, curto minha casa, viajo quando dá.  Não sou de muita badalação, sou um cara tranquilo, que aprecia os momentos de silêncio.


Considera que a premiação mudará a dimensão da literatura no dia a dia do seu trabalho? De que forma?

Sergio - Sim e não. Meu método de escrever, no tempo que o jornal deixa livre para isso e com a disciplina a que me forcei, não deve mudar. Mas a expectativa de publicação aumenta, já que o prêmio e o livro publicado servem de carta de apresentação, dão algum destaque.

Marcio - Espero, honestamente, que a literatura me arrebate. Como resultado, quero ser cada vez menos médico e mais escritor. Nada contra a minha profissão, que adoro, mas, hoje, o coração me aponta outros caminhos. Tenho trabalhado muito como médico, o que me deixa pouco tempo para escrever. Pretendo inverter essa relação.


Qual seu próximo projeto literário?

Sergio - Outro livro de contos, em torno de temas e cenas da arte contemporânea.

Marcio - Estou escrevendo um novo romance que trata de questões sociais mais do que relevantes no Brasil, como os meninos de rua, vexame nacional. Traço um perfil da miséria e da grandeza deste país. Quero mostrar a dimensão limitante e autoperpetuadora da pobreza. A partir disso, a possibilidade de saída deste estado congelante.


Você conhece as obras e/ou a trajetória de alguns dos escritores que já venceram o Prêmio SESC de Literatura? Como avalia os desdobramentos dessa proposta para o exercício do escritor?

Sergio - Sim. Vi que pelo menos dois foram finalistas de outros prêmios, como o Portugal Telecom, e pelo menos uma, a Eugênia Zerbini, teve o livro premiado pelo SESC incluído na lista de livros paradidáticos do Ministério da Educação. O prêmio SESC é um estímulo e uma vitrina, é um desafio; uma maior expectativa passa a acompanhar seus textos, a partir dele.

Marcio - Lamentavelmente não conheço o trabalho dos colegas que me precederam em prêmios. Espero que a Record me presenteie com os livros de todos. Tenho mantido diálogos fraternos com alguns deles e quero conhecê-los em breve. O prêmio é uma difícil peneira, sei que venceram por mérito, e isso, por si só, já torna importante a leitura de suas obras.


Que conselhos daria àqueles que querem se dedicar à literatura?

Sergio - O mais óbvio, ler muito. Além disso, fugir dos lugares comuns, evitar as frases prontas e os jargões, esquivar-se dos raciocínios previsíveis. E manter uma disciplina de escrita, mostrando os resultados, de vez em quando, a amigos de verdade, que sejam bons leitores e não tenham problemas para lhe dizer se o que você escreveu ficou ruim.

Marcio - A primeira coisa é verificar, no fundo d’alma, se o chamado é autêntico, e não apenas uma necessidade de sustentação do Ego. Isto feito, é tratar de ler e escrever. É assim que se aprende, fazendo. É preciso também ter paciência consigo mesmo, saber respeitar momentos, indecisões, imaturidades, mas persistir.  Imagino que muitos escritores talentosos tenham ficado no caminho por falta de perseverança.

Fonte Sesc Rio

24/04/2009 - 18:59h Sergio Leo “põe os pingos” e confessa, sem rir, ter achado o PPS um partido sério

A poupança e a canalhice de Raul Jungman, por Sergio Leo

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Toda pessoa com alguma informação sabe que, com a queda dos juros, a caderneta de poupança tende a ficar mais atrativa, para ganhar dinheiro, do que os fundos de investimento. A poupança é isenta de imposto, os fundos, não; os fundos têm correção ligada aos juros da dívida Tesouro, que, para felicidade geral da nação, estão caindo; as cadernetas têm rendimento garantido de 0,5% acima da TR, que reflete as taxas de juros do mercado, maiores que os juros básicos do tesouro.Daí que o governo não quer esse inchaço da caderneta, com a migração especulativa (especulação legítima, aliás) do dinheiro hoje depositado nos fundos para a caderneta. Para os bancos também é um problema, porque os depósitos em cadernetas não podem ser usados livremente para qualquer tipo de crédito. Vai ter mudança, o governo estuda uma forma de baixar o rendimento da poupança, e o Lula pediu aos técnicos para darem um jeito de manter, pelo menos, o rendimento das poupanças menores. Troço difícil.

Mais difícil ainda é aceitar a exploração política irresponsável e de má fé que acabo de ver na propaganda do PPS. O Raul Jungman, que já namorou uma grande amiga minha, teve outra amicíssima como assessora e sempre teve meu respeito, apesar de todas as polêmicas em que se envolveu, aparece no vídeo explorando a ignorância dos pobres e das pessoas mal informadas, ao dizer que o governo vai “mexer na poupança como fez o governo Collor”.

Ora, o Collor, em 1990, CONFISCOU dinheiro da poupança. As pessoas não puderam sacar o que tinham lá. O) máximo que sairá agora será uma redução no rendimento, ou um imposto para maiores investidores.

Qual a intenção do Jungmann, usar a ignorância das pessoas para provocar confusão? Ele não se importa de provocar prejuízos nos velhinhos, nas pessoas com menores economias, que, com medo de terem seu dinheiro confiscado, vão correr para sacar das cadernetas num momento em que elas são a melhor alternativa de investimento para elas, só abaixo do Tesouro Direto?

Isso nem efeito contra o Lula pode ter, estamos longe das eleições, o que vier a ser feito será em breve, e ficará claro que será diferente do que fez o Collor (embora sempre se possa explorar legitimamente o fato de que, no governo Lula, a caderneta passou a render menos, dependendo do que façam).

Mas apavorar os poupadores espalhando um boato que sabem ser falso é baixaria. Política medíocre, pequena, atrasada. Nojenta mesmo. Coisa sem caráter.

E eu, que achava o PPS um partido sério.

Sergio Leo – Sitio do Leo

06/04/2009 - 09:27h A morte do consenso

Sergio Leo – VALOR

Foram discretas, até agora, as comemorações, no governo, pela declaração do chanceler britânico, Gordon Brown, sobre a morte do chamado Consenso de Washington, regras aceitas como indispensáveis ao bom funcionamento do sistema capitalista, compiladas em 1989 pelo economista John Williamson. Reservadamente, não foram poucos os que comemoraram, entre os conselheiros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas Brown, que expediu o atestado de óbito durante a reunião do G-20, na semana passada, pode ter se precipitado.

A crise não matou, por exemplo, a crença da abertura de mercados como instrumento de desenvolvimento. Mantém-se, nesse campo, a atitude cínica ou esquizofrênica anterior ao colapso das finanças mundiais: os governos anunciam comprometimento com o fim das barreiras comerciais, avançam gradualmente na queda de tarifas de importação, mas asseguram os interesses de setores “sensíveis” com os instrumentos que têm à mão, sejam eles mecanismos de controle não-tarifário de importações, subsídios aos produtores, ou incentivos perversos a exportadores ineficientes.

Antes de o mundo descobrir que era ameaçado por “ativos tóxicos” criados pela mente fértil de operadores do mercado financeiro, já fracassava a rodada de liberalização da Organização Mundial de Comércio (OMC), a chamada Rodada Doha. Um dos resultados da cúpula do G-20, na semana passada foi um apelo por mais, e não menos, abertura de mercados, com a retomada da rodada na OMC. Os líderes podiam marcar uma data para isso, mas não o fizeram. Sabem que o apelo, por enquanto, é mera declaração de intenções. Isso não impede que a abertura de mercados seja eleita como prioridade defendida enfaticamente pelo próprio presidente Lula – líder classificado como “o cara” pelo presidente Barack Obama.

Um dos principais motivos para o atolamento da rodada da OMC é o fato de que o consenso pela abertura de mercados não era tão consensual assim nos próprios centros do capitalismo mundial. O Congresso americano resistia, como ainda resiste, a eliminar as altíssimas tarifas remanescentes sobre produtos industriais em que não é competitivo, como o etanol. Os EUA e outros países de gente loura de olhos azuis também relutam, sempre, em reduzir significativamente subsídios agrícolas que dão competitividade desleal aos produtores locais e distorcem o comércio mundial.

Ambiguidades na lista de John Williamson já levaram analistas como Moisés Naim, editor da especializada “Foreign Policy”, a falar em “Confusão de Washington”, ao mostrar que a quantidade de exceções, adaptações e contradições nas políticas baseadas no Consenso de Washington tornavam esse receituário bastante flexível. E que, como notou o economista Joseph Stiglitz quando ocupava o posto de economista-chefe do Banco Mundial, “instituições são importantes”: nenhum modelo de política econômica pode ter êxito sem o controle de instituições fortes e bem equipadas para atender ao interesse público.

A morte decretada por Gordon Brown não foi a do Consenso de Washington, mas a da crença fundamentalista em apenas um de seus dez itens, a desregulamentação como ferramenta para promover a melhor alocação dos recursos e o desenvolvimento. O novo consenso global estabelece que o mundo pós-crise terá instituições mais fortes e ativas no controle dos agentes de mercado.

Como todo consenso econômico internacional, o novo consenso não é levado integralmente em conta pelos países mais poderosos, no momento de formulação de suas políticas. Entre as medidas recém-editadas por Obama, está a permissão aos bancos para fixar, sem fidelidade às regras rígidas de contabilidade, o valor dos “ativos tóxicos”, os papéis que serão vendidos com generosa ajuda do governo americano para socorrer as instituições financeiras. Analistas como o próprio Stiglitz já alertam para o “capitalismo artificial” de Obama, que mantém o jogo de ficção do mercado, em transações pouco transparentes.

Há quem fale na derrubada de outro princípio do Consenso de Washington, o que entroniza a disciplina fiscal como regra de ouro nas economias sérias. Os EUA nunca respeitaram essa regra, nem pretendem fazê-lo agora. Os europeus, apesar das manifestações em favor de estímulo fiscal, continuam firmes na crença de que muita generosidade agora pode acabar em descontrole inflacionário mais à frente. Os programas de socorro do FMI, agora turbinado com mais US$ 750 bilhões, não eliminaram a exigência de sustentabilidade fiscal.

Heresias ao Consenso de Washington defendidas agora nos países ricos, como a possível estatização de bancos americanos, ou generosidades fiscais, são apontadas como soluções de emergência, a serem descartadas assim que passar o pior da crise. Nem Gordon Brown defende o contrário, o que leva a crer que, se crê na morte do Consenso de Washington, ele não descarta a ideia de reencarnação.

Autoridades brasileiras lembram, como signo da mudança, a criação do novo mecanismo financeiro no FMI para empréstimos, sem condicionalidades ou monitoramento, para países com políticas sólidas. Não lembram que os países considerados aptos a lançar mão desse socorro são só aqueles que mostram um histórico de respeito ao… Consenso de Washington. Boa parte do êxito de Lula no G-20 é exatamente o respeito devotado pelo governo brasileiro a boa parte dos princípios sacramentados pelo Consenso.

Ao lado do respeito às políticas ortodoxas, herdado do governo anterior, a contribuição nada desprezível de Lula foi a obstinação em realizar uma política ativa de transferência e distribuição de renda, com programas sociais e o forte aumento do salário mínimo. Conseguiu fazer isso sem romper o consenso washingtoniano de fazer as despesas caberem nas despesas. Intuitivo, ele deve saber que será sua credibilidade quem estará morta, se acreditar, mesmo, que se encerrou a era da disciplina fiscal para os países de gente morena.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

24/03/2009 - 19:23h Mostrando a língua

Sergio Leo, aquele jornalista latifundiário, soltou a língua no seu sitio.

Após nos fazer sonhar com seu homérico périplo, aconselha um blog para os que desejam aprender ou melhorar idiomas.

Como meu problema principal é minha dificuldade com o português, enquanto alguns de vocês viajam pelo link que Sergio Leo indica, eu aproveito é fico no sitio dele, melhorando assim meu aprendizado da língua de Camões (o que também farei comprando e lendo seu livro Mentiras do Rio. Juro que é verdade, “leo” alors!). LF

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Parlez français!!! Allors!!

Sitio do sergio leo

Por muito tempo, relutei em fazer um curso de francês. lamentava não saber a língua, mas achava que lamentaria ainda mais a perda de tempo caso aprendesse e mal tivesse opportundiade de usar.Tive poucos incidentes pela ignorância. Uma vez em Arles em que pedi o petit dejeuneur quando queria pedir le dessert, e a simpática dona do retaurante caseiro ficou me olhando incrédula, perguntando-se que diabos aquele estrangeiro que acabara de se encher de comida queria dizer, pedindo o café da manhã em vez da sobremesa. Outra vez em que quase briguei com um taxista, porque, ao discutir com ele, em vez de dizer “pardon?” por não ter entendido alguma coisa, eu disse “comment?”, que soa bem mais agressivo. TIve mais um ou outro desentendimento ligeiro.Pior mesmo foi em italiano, em Veneza, ao chegar na estação de trem de uma cidade que a Marta dizia ser Veneza Mestre e eu, muito seguro, garantia não ser nosso ponto final, porque todas as placas à vista diziam claramente ser outro vilarejo, um tal de Uscita.”Saída”, em italiano, era o que estava escrito nas placas.

Depois de uma sucessão de viagens, em que o frances me fez falta, acompanhando o Lula na África, participando de seminário em Bruxelas, correndo para pegar notícia atrás do Pascal Lamy em vários lugares, decidi aprender alguma coisa, pelo menos para quebrar um galhinho lingústico. Tive aulas particulares com mademosielle Sylvie Souvestre, que, aliás, é personagem de um dos contos do meu livro que sai em julho, o Mentiras do Rio (que vergonha, Sergio Leo, nessa idade fazendo auto-merchandising).

Pois a Sylvie, que não tem culpa no péssimo francês que sou capaz de balbuciar, fez um blogue, para quem se interessa em aprender ou melhorar a língua. Vale, no mínimo para ter acesso a coisas boas que acontecem na Internet. E, quem sabem, para puxar uma conversa com a Carla Bruni, se ela der sopa em alguma nova viagem pelo Brasil. Enquanto ela não aponta a porta da uscita, claro.

O blogue da Sylvie é esse AQUI.

20/03/2009 - 21:03h Os vencedores do Prêmio SESC de literatura 2008

Embates. As constatações da vida na velhice e as impossibilidades da narrativa a partir de vivências no Rio de Janeiro são os temas vencedores do Prêmio SESC de Literatura 2008. O concurso, que recebeu 457 inscrições de todo o Brasil, divulga agora os dois escritores inéditos escolhidos para publicação. São eles o baiano Márcio Ribeiro Leite, autor do romance O momento mágico, e o carioca residente em Brasília Sergio Leo, com a coletânea de contos Mentiras do Rio.

Márcio sobressaiu-se entre os 24 romances pré-selecionados, enquanto Sergio Leo foi destaque dentre os 51 livros de contos que passaram pela primeira seleção. Em O momento mágico, um homem idoso dialoga com a vida e a morte através de escritos; nos contos de Mentiras do Rio, locais e personagens da cidade servem a exercícios de reflexão do autor.

O concurso ainda concedeu menção honrosa a três romances: Vale Grande, do potiguar José Jorge de Mendonça; Com quem o demônio aprende, de Edson Dourado Marques, do Mato Grosso do Sul; e Paroxetina ou crônicas de um ansioso crônico, do paulista de Guaratinguetá Bruno Machado de Oliveira. Na categoria contos não houve menção honrosa.

Articulação
Os 75 livros selecionados para a fase final foram escolhidos por subcomissões regionais sediadas em Pernambuco, Ceará, Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso e Rio de Janeiro. Da comissão final participaram os escritores Beatriz Bracher e Alcir Pécora (romance) e Luiz Vilela e Flávio Carneiro (contos).

O lançamento dos vencedores com selo da Editora Record, parceira do SESC no Prêmio, está marcado para o final de junho, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Após o lançamento, os novos escritores passam a integrar as diversas ações de fomento do SESC à leitura e à escrita pelo Brasil, como feiras de livros, seminários, jornadas literárias.

O novo Edital será lançado em maio. As inscrições para o Prêmio SESC de Literatura 2009 vão de 5 de maio a 15 de setembro.


. Marcio Ribeiro Leite: questões do tempo e da morte
. Sergio Leo: o Rio como fonte e pretexto
.
As comissões julgadoras do Prêmio 2008
. Os 75 pré-selecionados

10/11/2008 - 12:13h O que fazer com a China na crise

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Sergio Leo – VALOR

O Brasil tem dois tipos de preocupações em relação à China, que, apesar do tamanho, é um participante discreto das reuniões de cúpula convocadas para evitar uma ameaçadora recessão mundial. Analistas buscam na peculiar macroeconomia chinesa pistas da reação do país à crise e da capacidade de ajudar o mundo a atravessá-la. Ao mesmo tempo, o Brasil debate a melhor estratégia para lidar com a crescente voracidade chinesa no mercado internacional.

Em Brasília, as autoridades esperam receber neste mês um sinal de como a China vai combinar a retração dos mercados consumidores e as sensibilidades afetadas pelo apetite dos exportadores chineses. Vence em dezembro o prazo combinado na OMC para que os países sócios pudessem impor salvaguardas contra produtos têxteis chineses. Com a extinção das salvaguardas hoje aplicadas pelo Brasil, estará liberada a entrada de têxteis da China no mercado brasileiro, o que apavora os concorrentes nacionais. O governo brasileiro sugeriu uma alternativa às salvaguardas; os chineses fazem mistério.

O Brasil quer um “mecanismo de consultas” entre os setores privados dos dois países, sob a supervisão dos governos: sempre que houver alta muito forte nas vendas chinesas ao Brasil, se não houver acordo privado para evitar danos sérios aos concorrentes nacionais, o governo brasileiro poderia adotar “medidas administrativas” contra as “distorções” no comércio.

“É um mecanismo muito mais suave do que existe hoje”, defende o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, que não dá detalhes sobre as “medidas administrativas” cogitadas. Os chineses temem criar precedentes contra as próprias importações e estão calados desde meados de outubro, quando receberam respostas a pedidos de esclarecimento sobre a proposta brasileira.

Neste ano, haverá déficit recorde no comércio com a China. As compras de produtos chineses vão superar em mais de US$ 2 bilhões as vendas do Brasil àquele país. Até outubro, mesmo com menor ritmo de crescimento, o déficit já chegou perto do alcançado em 2007 (US$ 1,87 bilhão): as importações brasileiras foram quase US$ 1,8 bilhão superiores às vendas para aquele mercado. “Precisamos diversificar a pauta de exportações para a China, que importa muitos manufaturados, mas não do Brasil”, diz Ramalho.

No último trimestre, houve aumento forte no ritmo de aumento das vendas à China, e uma redução do ritmo de crescimento das compras. Mas os negócios com grãos e óleo de soja são os maiores responsáveis pelo melhor desempenho, e representam, sozinhos, 42,5 % das exportações brasileiras à China. Com as exportações de minério, somam 70% do total. No caso da soja, pelo menos, é boa notícia o fato de que se destinam ao mercado consumidor interno, como reflexo da melhoria nas condições locais de alimentação e urbanização – algo que a recessão mundial não abalará muito..

O governo prepara um esforço de exportação para a China e, baseado nas estatísticas de comércio, já identificou setores como máquinas para têxteis e couros, autopeças e motores, preparações alimentícias e equipamentos diversos que os chineses compram de outros países. “Estamos na fase de identificar, no caso de máquinas e equipamentos, que produtos são comprados, de quem e por quê”, relata Ramalho. No próximo ano, missões comerciais para vender manufaturados serão enviadas à China.

O secretário-executivo da Câmara de Comércio Brasil-China, Rodrigo Maciel, argumenta que o principal fator responsável pelo aumento de importações de produtos da China são as compras feitas pela própria indústria brasileira, de máquinas e equipamentos. Essas importações de bens de capital representam, há anos, mais de 50% do total das importações, e o crescimento até setembro de 2008 chegou a 78% em relação ao mesmo período do ano passado, lembra ele.

As vendas chinesas de têxteis ao Brasil aumentaram 50%, mas perderam espaço no total das importações originadas na China, pela primeira vez nos últimos anos, de 7,9% para 7%. As de brinquedos também decresceram de 2% do total para 1,2% do total (o aumento das exportações de brinquedos em relação a 2007 foi de quase 35%). Maciel desdenha dos temores de uma invasão potencial de produtos chineses deslocados pela recessão dos mercados desenvolvidos. “O esforço estratégico das exportações chinesas para diversificar mercados já aconteceu e eles ocuparam o que podiam”, argumenta. “O Brasil foi um dos países para os quais mais cresceram as vendas da China.”

“Os chineses estão aumentando o valor agregado dos produtos vendidos para cá e isso preocupa cada vez mais setores industriais”, responde o presidente do Conselho d e Comércio Internacional da Fecomercio, Mario Marconini, que, amanhã, promove um seminário em São Paulo dedicado às conseqüências da crise para a China e o Brasil. “Todos precisamos da China, para dar fôlego ao mercado mundial. A a questão é como irão reagir à crise”, acrescenta.

Muito do que acontecerá no comércio com os chineses dependerá da reação da China ao desaquecimento na economia mundial. Até setembro, apesar da redução no ritmo de crescimento, as exportações chinesas aos EUA continuam firmes, e mesmo os bancos mais expostos a maus negócios no mercado americano mostraram bons resultados no terceiro trimestre, segundo a consultoria GaveKalDragonomics. O setor imobiliário contraiu-se com as medidas oficiais de restrição de crédito, e a produção industrial perde fôlego, mostrando sinais de acúmulo de estoques.

Ainda não se sabe se são estoques de bens intermediários, sinal de gestão de preços nas indústrias, ou de bens finais, que mostrariam preocupante retração na demanda tradicional por mercadorias chinesas. Na semana passada, as autoridades locais anunciaram liberação de quase US$ 600 milhões para incentivar o mercado interno. Mas a resposta chinesa ainda é um dos maiores enigma da crise.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

02/09/2008 - 15:36h No Sitio do Leo bufão da imprensa vira espeto

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Metralhadora giratória e suas casualidades

Quis o destino ou um editor sacana que a coluna de conhecido bufão da imprensa saísse ao lado da matéria da Veja sobre um brucutu personagem de novela que maltrata a mulher. E bem ao lado da foto, com o brutamontes e a mulher que aceita sem reparos a violência cotidiana do marido, o colunista escreve o que deve considerar uma divertida piadinha, a ser repetida ao som de pedrinhas de gelo no úisque bebericado com os amigos durante o churrasco de fim de semana:“…(John McCain) realizou o sonho secreto de todos os homens casados do planeta e despachou sua mulher, Cindy, para a zona de guerra”.

Todos os homens casados de que planeta, cara pálida? Pegue o canhão com quem casou e vá se queixar ao ministério da Defesa.

(No churrasco com os amigos, a piada deve ser acompanhada de um tapa no traseiro da esposa, que interromperá o serviço de mesa para dar um risinho e comentar algo do gênero “ah, esse Dioguinho não tem jeito mesmo!” É muito divertida a vida dessa classe média intelectualizada)

posted by Sergio Leo

Sergio Leo é jornalista do VALOR e anima um blog Sitio do Sergio Leo

12/08/2008 - 19:19h Sergio Leo descobriu petróleo no seu sitio

Esse Sergio Leo que já tive ocasião de elogiar aqui no blog, não presta. O cara é jornalista e trabalha em jornal de classe, o Valor. Mas quando seus colegas jornalistas, editorialistas, comentaristas estão de costas ele vai e lê o que eles escreveram no tempo de Matusalém. Isso não se faz, cadê a solidariedade?

Não teve um que pediu para esquecerem o que tinha escrito? Porque esse direito seria sonegado a editorialista de jornal? Só tucano pode?

A sacanagem de Sergio Leo tem a marca do lulez, como diria o macaco simão. Vejam a foto de Lula e depois leiam o texto do Sitio do Leo e vocês concordarão comigo.

En fim, como não quero ser acusado de não deixar o outro lado se expressar, aqui vai a nota de Sergio Leo. Desfrutem. LF

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Sal da terra

Sinto falta de editoriais e artigos dos colunistas de sempre sobre a Petrobras. Será que é por causa do lucro recorde da empresa, e da queda dos preços internacionais de petróleo, que transformam em bobagem as críticas desses editoriais e analistas pela demora da estatal em repasar a alta do petróleo ao preço dos combustíveis?

Diziam que a Petrobras estava agindo políticamente, absorvendo a alta internacional sem aumentar os preços internos. Um erro grave, diziam. A empresa argumentava que não fazia sentido repassar uma alta que poderia ser passageira.

Os preços internacionais agora caem, e os eventuais prejuízos da empresa com a manutenção dos preços internos foram mais que compensados com os lucros recordes. Se não tivesse corrigido os preços no segundo trimestre, pelo jeito, ainda assim a estatal estaria por cima da carne seca. Com essa atitude “política”, a Petrobras evitou uma brutal pressão inflacionária, que teria levado o Banco Central a aumentar ainda mais os juros colossais que pratica hoje.

É, não dá mesmo para escrever editoriais e colunas sobre o tema. Teriam de falar bem da ação política das estatais em favor da sociedade, contra a lógica do lucro máximo para os acionistas. Imagina escrever uma besteira dessas.

04/08/2008 - 19:25h Isto não é o Sitio de Sergio Leo

A arte do Duchamp não é penico

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por Sergio Leo – roubado do Sitio de Sergio Leo

Ah, finado Duchamp, quanta tonteria se fala em seu nome! Talvez por isso ele dizia não ser artista, mas jogador de xadrez (na imprensa francesa, seu obituário saiu na seção de enxadrismo; para os esnobes do Velho Mundo, Duchamp era coisa de novo-rico americano). Leio no Estadão, em artigo do Daniel Piza, que Duchamp não caiu no jogo da arte conceitual, que botava a mão na massa… Menas, querido Daniel, menas.

Duchamp, é, sem dúvida, o pai da arte conceitual, como bem aponta o Geraldo Tomás na Folha deste domingo. O artigo, como boa parte dos escritos do Tomas é de uma panaquice sem fundo; o Geraldo se descabela e exagera quando fala do Duchamp como único pai do pessoal do Fluxus, gente como o John Cage, o cara que fez por merecer não um, mas quatro minutos e meio de silêncio após a morte.

Ora, a turma Dada já estava botando a tuba do avesso quando o Duchamp lustrava o penico para a exposição dos recusados.

Mas acabo caindo no erro do Geraldo Tomas, recitando como aluno arrogante coisas que os estudantes de Artes Plásticas aprendem no primeiro ano de faculdade. O Geraldo errou no tom, mas acertou na substância: é meio ridículo acreditar que a obra do Duchamp será acessível com uma retrospectiva da “obra” dele, como a que está em exibição, nesse momento, em Sampa. Isso porque, a menos que tenham treinado direito os monitores (e os comentários do público perplexo, transcritos pela Folha, me indicam que não), a “obra” de Duchamp que lhe garantiu lugar na história das artes plásticas pouco tem a ver com exposições museológicas, de objetos criados pelo artista. (Duchamp até reproduziu obras dele mesmo, em fotos e objetos depois arrumados em maletas que distribuía aos amigos; mas isso era, em si, uma outra obra).

mona_lisa_lhooq.jpg Ironia e humor são elementos inseparáveis do trabalho de Duchamp. Ao apresentar um urinol _ e fazer com que um amigo, no corpo de jurados, garantisse sua inclusão no Salão alternativo montado em Paris_, ele punha em xeque o conceito de arte e os limites da rebeldia, dos artistas que se insurgiam contra a arte sancionada pela academia, pelo status quo. (Depois, o Andy Warhol poria a arte em cheque, lucrando muito com o pop; mas isso é tema doutro post). A Mona Lisa com bigodes tem um título (”L.H.O.O.Q.”)que, lido em francês, soa como “ela tem fogo no rabo”, piadinha tão incompreensível quanto reveladora da mania de Duchamp de jogar com os títulos das obras (Ao lado, uma interpretação de um grafiteiro inglês que pegou o espírito da coisa).

Duchamp começa mais careta, porém, aplicando à pintura conceitos de Cèzanne e dos cubistas, misturados a idéias do futurismo (influência que ele renegava), com um elemento adicional: o non-sense evocativo dos surrealistas. “Nu descendo a escada” choca os contemporâneos, não pela imagem, uma representação dinâmica quase monocromática e movimento, mas pelo título. Nus reclinavam-se, assumiam poses mitológicas, até assemelhavam-se a figuras banais; mas não movimentavam-se pelo mundo, como gente, descendo escadas, nem se encaixavam no conceito de arte contestatória dos rebeldes de então.
Os irmãos de Duchamp o recriminam pela tela, recusam a obra no Salão dos Independentes, e ele briga com eles e os amigos, vai a Nova York, onde é recebido como um sopro de modernidade européia pelos apreciadores de arte ávidos de novidade. É nos EUA emergentes do pós-guerra que Duchamp emerge também como figura lendária. The right man in the right place.
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Duchamp _ e aí está o erro do Daniel Piza _ reprovava os cubistas pela sua subserviência a uma arte “retiniana”, “ótica”, voltada aos sentidos. Ele é pai e avô dos conceitualistas porque, mais que enfant terrible como os Dadas e seu gosto pelo irracionalismo e pela contestação, ele tem uma pretensão teórica; e é o primeiro a condenar sériamente a estética como padrão de julgamento da arte. O artista não é mais um artesão iluminado, mas uma espécie de medium, um intermediário que vai traduzir em Arte o espírito, desafios e ameaças de sua época.
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Até hoje escandaliza, e intriga. Duchamp e seus netinhos me fazem lembrar Platão, que excluiria os artistas de sua República ideal porque eles enganavam o povo, com imagens que não passavam de ilusões montadas sobre outra ilusão _ aquilo que pensamos ser realidade e que, para Platão, não passa de fantasmas da verdadeira realidade, a Idéia. Diferentemente de Platão, porém, os idealistas da Arte contemporânea valorizam (claro) e repensam o papel do artista, que não seria mais reproduzir o visível (há máquinas para fazer isso), mas vasculhar esse mundo das idéias, para trazer novas idéias ao mundo.

Nu descendo a escada
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O mais importante não seriam os objetos, os resultados dessa pesquisa, mas o próprio processo executado pelo artista nessa busca de novas significações para aquilo que nós experimentamos sem ter consciência exata do que estamos experimentando. Um dos bispos dessa nova religião, Joseph Kosuth, vai dizer que os quadros cubistas são meros cadáveres, resquícios da verdadeira arte dos cubistas. A arte não é o quadro, mas o processo pelo qual eles revolucionaram a forma de representar o mundo visível.

Instalação de Joseph Kosuth
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É um caminho onde a arte vai encontrar a filosofia e brigar para tomar o lugar dela, com regras próprias. O conservador Tom Wolfe, com um estilo que falta a muitos críticos inconformados com a arte contemporânea, vai zombar disso num livro, A Palavra Pintada, em que prevê exposições onde as tabuletas explicativas chamarão mais atenção que os objetos de arte. O que ele não aceita é que a experiência pura, dessa arte que exige explicações, às vezes possa abrir a cabeça das pessoas dispostas a compreender novidades.

Sobre esse mundo aberto pelo Duchamp, de uma arte não representativa e conceitual, quem tem um comentário bacana e mais inteligente que a do Wolfe é o iconoclasta Michel Onfray, ao falar da necessidade de “fabricação do gosto” no mundo contemporâneo:
“Aceite, no princípio de sua iniciação (à Arte) perder-se, não compreender tudo, misturar, enganar-se, aproximar-se, de não obter, de cara, resultados excelentes”. Ninguém se arrisca a criticar um grande intelectual sem dedicar algum tempo a entender o que ele fala, argumenta o Onfray.

Com a arte que debocha de si mesma, essa dedicação a entender é mais difícil. Mas necessária, como mostra a fertilidade do trabalho esquisito do Duchamp. É curioso como certos achados da criticada arte contemporânea vão sendo apropriados, com o passar do tempo, pela publicidade, pelo cinema, pela arquitetura e pelo design e incorporados na vida daqueles que achavam uma empulhação as obras que inspiraram essas apropriações.
(e pensar que eu ia escrever sobre a Marina Abramovic e um artigo sobre os limites da vanguarda chocante. Fica para o próximo domingo).

Sergio Leo

13/03/2008 - 15:06h Quando mais Leo, melhor (trocadilho besta para uma boa entrevista)

Entrevista: Sergio Leo no blog Exu caveira cover

sergio_leo2.jpg“Sergio Leo formou-se em jornalismo pela Escola da Comunicação da UFRJ na oitava década do século passado, e, neste milênio, especializou-se na UnB em Relações Internacionais. Já deu aulas de jornalismo em um curso de extensão da UnB e no Ceub, Centro de Ensino Unificado de Brasília. Trabalhava no Segundo Caderno dO Globo quando foi convidado por Ricardo Noblat para a sucursal do JB em Brasília, no começo do governo Sarney; passou, desde então, pelas sucursais da Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, isto É e Isto É Dinheiro, até se aquietar no Valor, onde está desde 2001. Como repórter especial do Valor, cobre todos os assuntos de Economia e Política, mas prefere mesmo acompanhar a política externa, especialmente na América do Sul, as negociações comerciais e as discussões sobre política industrial. Em 2004 inaugurou o blogue Sítio do Sergio Leo que, desde 2007, desdobrou em outro, o Ralações Internacionais.”entrevistador convidado: andré deak.

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04/03/2008 - 13:44h Todo cuidado é pouco para preservar o diálogo

Members of the Ecuadoran Army mobilise to the Colombian border in Neuva Loja, Ecuador, 03 March 2008, after Raul Reyes, the second-in-command of the Revolutionary Armed Forces of Colombia (FARC), had been killed 01 March 2008, along with 16 other rebels in an air raid into Ecuador.  EPA/JOSE JACOME
Soldados equatorianos enviados para a fronteira com Colômbia. foto Epa/José Jacome

A realpolitik de Uribe, golpe certeiro

Sergio Leo* – Ralações Internacional

Tente imaginar guerrilheiros anti-Chávez escondidos na floresta amazônica, para lá da serra do Caparaó, em algum lugar de Roraima. Imagine se, por isso, o presidente venezuelano ordenasse uma incursão de tropas da Venezuela através da fronteira, usando seus recém-comprados jatos Sukhoi para dizimar a oposição armada, em pleno Brasil. Que grita não haveria por aqui, hein? E com razão.

Como a estridente agressividade de Chávez o transformou em vilão da vez na imprensa estabelecida, não vão faltar comentaristas que defendam como aceitável a invasão do território equatoriano por tropas da Colômbia, para um sensacional ataque aos guerrilheiros das Farc. É inaceitável. O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, está errado nesse episódio, e cabe ao Brasil condenar o desrespeito das Forças Armadas colombianas aos limites territoriais com o Equador.

Ah, o Equador e a Venezuela abrigam guerrilheiros em seu território, usado como refúgio seguro de onde partem agressões à Colômbia? O direito internacional prevê isso, e há instituições na América do Sul e na comunidade internacional para denunciar esse tipo de ação. Uribe poderia denunciar a conivência das autoridades vizinhas,e teria justo direito de cobrar apoio do Brasil nisso. Errado seria o Brasil não apoiá-lo caso agisse assim.

Não acredito em guerra nos Andes. Acuado pela tremenda crise econômica que seu modelo voluntarista criou, Chávez, claro, aproveitará a oportunidade para apontar mais um inimigo comum da sociedade venezuelana, o Uribe lacaio do Império, que invade os vizinhos na repressão aos opositores guerrilheiros. Se o discurso colar, a beligerância na retórica chavista vai ser ensurdecedora. E inócua, como costuma ser. Não há fato concreto que apóie algum tipo de conflito armado entre os dois países, e nem Uribe nem Chávez ~estão dispostos a serem o primeiro a jogar a pedra do outro lado.

Rafael Correa, do Equador, fez o que devia fazer, retirou seu embaixador de Bogotá, chamou o embaixador colombiano para exigir explicações, acusou Uribe de agressão. Tem um problem,a constrangedor a resolver, se forem verdadeiros os documentos capturados pelas forças de segurança colombiana, que mostram um estreitamento de relações entre as Farc e o governo equatoriano. Conversas com Raul Reyes, o vice-comandante e porta-voz das Farc morto na invasão, não são suficientes para dizer que Correa era conivente com a guerrilha. Reyes era o “embaixador” das Farc, e todos os países da região buscam contatos, sigilosos ou não, com as Farc para tentar um acordo de paz e desmobilização da guerrilha. Mas podem surgir outtros documentos comprometedores, e a posição do Equador tornar-se, no mínimo, incômoda. Continua, clique em leia mais.

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30/01/2008 - 21:13h Mistério de Capa e mala

Sitio de Sergio Leo

A matéria é do New York Times, mas quem deu destaque a ela aqui foi o nunca suficientemente louvado Caderno 2 do Estadão: acharam “a mala mexicana”, três maletas bem danificadas com milhares de negativos do lendário fotógrafo Robert Capa, autor da foto aí acima; e também trabalhos da mulher de Capa, a também excelente fotógrafa Gerda Taro.
Randy Kennedy, o repórter que assina a matéria, diz que os negativos, quem sabe, resolverão definitivamente a dúvida sobre a veracidade da foto do “Soldado Caindo”, que, nos anos 70, foi acusada de ser uma armação do fotógrafo, por outro fotógrafo de guerra conhecido de Capa, o sul-africano O.D. Gallagher, correspondente do London Daily Express durante a Guerra Civil Espanhola, onde o soldado acima encontrou uma via expressa para a sala de estar do Criador.
A acusação de cascateiro contra Capa foi posta em letra de forma pelos escritor Phillip Knightley num livro de 1975 sobre os correspondentes de guerra e seu trabalho como propagandistas e/ou mitificadores. Mas quem conta isso tudo é o Richard Whelan, neste blogue para amantes da fotografia, AQUI, em que ele defende a veracidade da fotografia do Capa, com fartos argumentos e outras imagens do mito.
O Kennedy reproduzido no Estadão parece não conhecer esses argumentos em defesa de Capa. mas, à parte esse pecado, contou com charme a descoberta dos negativos:
“Para o pequeno grupo de especialistas em fotografia ciente de sua existência, ela era simplesmente ””a mala mexicana””. E, no panteão dos tesouros culturais modernos perdidos, o objeto possuía a mesma aura mítica dos primeiros manuscritos de Hemingway, que sumiram de uma estação de trem em 1922. A mala – na verdade, um conjunto de três frágeis valises de papelão – continha milhares de negativos de fotos que Robert Capa, um dos pioneiros da fotografia da guerra moderna, fez durante a Guerra Civil Espanhola antes de fugir para os Estados Unidos em 1939, deixando para trás o conteúdo de sua câmara escura em Paris.
Capa supôs que o trabalho fora perdido na invasão nazista – e continuou pensando assim até 1954, quando morreu no Vietnã. Em 1995, no entanto, começou a circular a notícia de que os negativos haviam de algum modo sobrevivido, depois de fazer uma viagem digna de um romance de John le Carré: de Paris a Marselha e então para a Cidade do México, nas mãos de um general e diplomata mexicano que servira sob Pancho Villa.E foi lá que eles permaneceram escondidos por mais de meio século, até o mês passado – quando fizeram mais uma viagem, provavelmente a última, até o Centro Internacional de Fotografia em Manhattan, fundado pelo irmão de Robert Capa, Cornell. Depois de anos de negociações discretas e intermitentes sobre o lar adequado dos negativos, sua posse legal foi transferida recentemente para o patrimônio de Capa por descendentes do general, entre eles um cineasta mexicano que viu o material pela primeira vez nos anos 90 e logo percebeu a importância histórica do que sua família tinha em mãos.
”’Este é realmente o Santo Graal da obra de Capa””, disse Brian Wallis, principal curador do centro.”"
O resto do texto indica que ainda ouviremos falar muito dessa mala mexicana, que vai virar até documentário. AQUI. A Folha publicou material da France Press. Fraquinho, fraquinho. O Globo, sempre batendo continencia à indústria cultural, pegou outra matéria do Times, sobre um ator shakespeariano que andou fazendo seriados de ficlção científica e agora voltou aos palcos. Fica difícil criticar o Globo, o cara é Patrick Stewart, que faz o capital Picard, do Jornada nas Estrelas. Se eu falar mal, é capaz de os fãs mandarem um esquadrão para me fritar em raios laser.

posted by Sergio Leo

Ver aqui no Blog

Fotos inéditas de Robert Capa

25/09/2007 - 15:05h Vale a pena passar no sitio

Sitio de Sergio Leo (jornalista do Valor)

Vale tudo

(na foto acima, furo de reportagem deste Sítio, as insidiosas mãos do Império tentam segurar a inexorável entrada do chavismo no Mercosul)

Chávez disse que viu a “mão do Império” no atraso da aprovação da entrada da Venezuela no Mercosul. Como é o Congresso quem aprova essa entrada, o Estadão, num momento arquetípico de jornalismo interpretativo, tascou em manchete: “Chávez acusa Congresso de submissão aos EUA”.

O engraçado é que Chávez não citou o Congresso (só disse que não poderia fixar prazo para “ninguém”), nem falou em submissão. O jornal poderia até dizer que Chávez insinuou ligação entre o Congresso e o Império (sabe-se lá onde ele viu pousar a mão do dito-cujo). Mas botar na boca do bolivariano palavras que ele não usou, dando a entender que foram ditas, hummm, acho que me ensinaram alguma coisa sobre isso na faculdade de jornalismo.

O venezuelano falou, sim, da “direita”, e do Império, seu demônio favorito. Em maio, quando ficou de mal com o Senado, não teve dúvida de acusar o Congresso, aí sim, de “papagaio” dos EUA. Uma coisa é brigar com grupos políticos no país, outra é fazer acusações a uma instituição nacional. Ver a mão de alguém numa manobra política não é sinônimo de “submissão” a esse alguém. Chávez não esconde seu ódio à “direita” brasileira; mas tinha enfiado no saco as críticas ao Congresso, e não as tirou na entrevista que deu em Manaus.

Na minha modesta opinião de jornalista da midia conspiratória, acho que o Estadão foi um pouco além do jornalismo, e produziu uma bela peça de panfletarismo político. Chávez, a essa altura, deve estar dizendo que essa foi a “mão do império” na imprensa. Eu diria que foi apenas a falta de noção atual sobre os limites entre o relato jornalístico e a militância política. Afinal, o Chávez já falou mal do Congresso antes, e todos sabemos quem ele é, não é mesmo?

O Chávez irrita, eu sei. Mas, se a moda pega, as manchetes interpretativas vão acabar dispensando o fato. É o jornalismo do “está na cara que…”, que dispensa cuidados com as palavras e atos concretos, em troca de uma bela manchete. Dá um ibope danado. E faz perder leitor à pampa, também. Ninguém perdoa quando descobre que leu no jornal alguma coisa que não aconteceu, mas que o jornalista determinou ser a única interpretação possível para os fatos.

Mas, como diz o filósofo Alex Ribeiro, lá do Valor, quando se tem de ficar explicando muito alguma coisa, a discussão já está perdida. Nessa, o Chávez e quem for seu aliado já perderam.

Minha dúvida é só uma: me pergunto com freqüência se Chávez não busca apenas uma desculpa para voltar atrás nessa entrada precipitada no Mercosul. Porque, se a Venezuela chavista será um estorvo para as discussões internacionais do Mercosul, como acredito, associar-se ao Mercosul também criaria sérios constrangimentos à ação política de Chávez _ e os empresários lá estão mais apavorados que os daqui, com essa aliança. Mas isso é complicar muito o raciocínio, e debate político no Brasil não abriga isso. Obrigaria o pessoal a abandonar o maniqueísmo, e muito raciocínio só atrapalha na hora de dar título a notícia de jornal.

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Segundo clichê: Na mosca! Ontem, numa fala recorde de oito horas no rádio, sobrou para a imprensa brasileira, que Chávez acusou de manipular notícias para pôr o Brasil contra ele. O mais curioso é que, depois de jurar que não se referia ao Congresso brasileiro, Chávez mencinou “parlamentares” brasileiros, que jogariam no time do Império (não falou em time, claro, isso é livre interpretação minha).

Para ser coerente com a manchete de sexta, o estadão teria de botar um título do tipo: Chávez não para de bater no Congresso. Mas acho que se envergonharam, se tocaram que, no caso, não vale a metonímia. Parlamentar é uma coisa, Congresso é outra, ainda que possam se confundir em alguns casos.

Outro tema interessante que a imrpensa trata com uma superficialidade de apresentadora de programa infantil é a história de que o Brasil oferece o território nacional para Chávez mediar a negociação entre o governo da Colômbia e as Farc. Mas disso eu falo noutro dia. Ou vocês leem no maurício, AQUI.

posted by Sergio Leo