27/10/2009 - 12:38h Sérgio Rosa diz que poder na Vale é compartilhado

Gestão empresarial: Segundo presidente da Previ, condução da companhia é equilibrada com demais sócios



Leo Pinheiro/Valor
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Sérgio Rosa, presidente da Previ e do conselho da Vale, defende investimentos da mineradora no setor siderúrgico. “Temos de olhar o consumo 10, 20 anos à frente”

Cristiano Romero, do Rio – VALOR

Maior acionista da Vale, a Previ, a fundação de previdência dos funcionários do Banco do Brasil (BB) quer, a exemplo do governo, que a empresa invista na produção de aço no Brasil. Nesta entrevista ao Valor, o presidente da Previ, Sérgio Rosa, rompeu o silêncio a que vinha se impondo desde o início da polêmica envolvendo o presidente Lula e o principal executivo da Vale, Roger Agnelli.

“Dizer que hoje estamos com sobreoferta de aço no mundo não significa muito”, disse Rosa, rejeitando o argumento, utilizado inclusive pelo empresário Jorge Gerdau, de que existe excesso do produto no mundo. “Não se pode decidir investimento em aço com base no consumo de hoje.”

O dirigente do maior fundo de pensão do país, com patrimônio de R$ 130 bilhões, contou que muitos empresários usam os fundos de pensão para alavancar negócios sobre os quais, depois, as fundações não têm ingerência. Rosa, que também preside o conselho de administração da Vale, assegurou que, no caso da mineradora, há um “compartilhamento” de poder entre a Previ e o Bradesco. O governo Lula, informou, não interfere nos investimentos do fundo. “O nível de autonomia é muito grande.”

Presidente da Previ há quase sete anos – seu segundo mandato termina no próximo ano -, Rosa revelou que, ao contrário de outros fundos, o do BB apostou no risco e saiu vitorioso. Em dez anos, a rentabilidade acumulada atingiu 750%, face a 400% da taxa Selic.

Valor: Faz sentido a Vale controlar negócios na siderurgia?

Sérgio Rosa: A Vale tem investimentos em siderurgia. Há uma estratégia nessa área. Não é uma área que passe à margem dos planos estratégicos da empresa.

Valor: Qual é a lógica desse investimento?

Rosa: Ela não vende minério se ninguém quiser produzir aço.

Valor: Há excesso de oferta no mercado mundial. Não é um equívoco investir em aço no momento?

Rosa: Não se pode decidir investimento em aço com base no consumo de hoje. Todo investimento tem um período de maturação de três, quatro anos. É preciso olhar para 10, 20 anos à frente. Dizer que hoje estamos com sobreoferta de aço não significa muito para quem vai tomar decisões de investimento olhando pra frente.

Valor: Por que isso pode ser um bom negócio?

Rosa: Se acreditarmos que o Brasil vai ter uma indústria de petróleo forte, demandando investimentos em plataformas e navios, gastos pesados em infraestrutura, vamos precisar de aço. A perspectiva do consumo de aço de hoje não é a mesma dos próximos anos.

Valor: A Previ está sobreaplicada na Vale. Vai vender um pedaço?

Rosa: Não estamos negociando nada. Temos prazo para fazer isso. Se interpretarmos a regulamentação de forma mais estrita, temos até 2014 para executar nosso plano de enquadramento. Originalmente, o prazo era 2012. Existe uma brecha na regulamentação para entender que, se esse desenquadramento for igual ou menor ao superávit que o plano (de benefícios) tem, podemos carregá-lo por mais tempo. Esta é uma interpretação que ainda não está clara, não sabemos se é assim que a Secretaria de Previdência Complementar (SPC) vai entender, mas é algo para examinarmos. Independentemente disso, quanto mais a Vale cresce, mais ela fica proporcionalmente grande no nosso portfólio. No tempo, a tendência será diminuir a nossa participação, mas temos condições de examinar uma boa oportunidade para nós e para a empresa, até porque não imaginamos vender toda a nossa parte.

Valor: O que fez a Previ, em meados dos anos 90, optar por investir em renda variável, numa hora em que a renda fixa era extremamente atraente por causa dos juros altos?

Rosa: Eu não estava aqui quando o portfólio foi montado. A maior parte dos investimentos ocorreu em função das privatizações, mas acho que houve uma combinação sui generis.

Valor: Que combinação?

Rosa: De um lado, havia os representantes do BB e do governo buscando contribuir para o processo de privatização, orientando o fundo a integrar os consórcios. Por outro lado, havia representantes dos participantes dentro da Previ com uma visão nacionalista, desenvolvimentista, dizendo: ‘já que vai privatizar, vamos entrar. Somos investidores de longo prazo, então, vamos ajudar essas empresas a não caírem na mão de qualquer um’. Não houve um grande plano de investimento.

Valor: E hoje, o governo decide os investimentos da Previ?

Rosa: Não. O nível de autonomia é muito grande. Obviamente, estamos sempre atentos a interpretar as políticas de governo, uma vez que elas influenciam o ambiente econômico. Fazemos isso como qualquer investidor. Temos tido um diálogo muito constante com o governo. Até em coisas que não andaram muito, como as parcerias público-privadas.

Valor: Recentemente, o Conselho Monetário Nacional (CMN) autorizou os fundos a aplicarem até 10% do patrimônio no exterior. A Previ planeja fazer isso?

Rosa: Vamos estudar ao longo de 2010. Ter liberdade para aplicar é muito bom porque os fundos competem no mercado e precisam se igualar ao máximo com os outros atores. A contrapartida da liberdade é muita prestação de contas e responsabilidade pelo que o fundo faz. Há uma coisa muito pesada sobre fundos de pensão. Às vezes, o fundo tem um resultado positivo em 99% do que faz, mas perde em 1% e, por isso, sofre muitas críticas.

Valor: Essa cobrança não decorre do fato de o Tesouro ser o garantidor dos fundos ligados a empresas estatais?

Rosa: Ele não é.

Valor: Se a Previ quebrar, o Tesouro não tem que cobrir os prejuízos?

Rosa: Não. Essa é uma compreensão errada. No caso do plano de benefício definido (o Plano 1 da Previ), há o compromisso da patrocinadora, o BB, para equacionar os déficits.

Valor: Se o BB tiver que fazer isso, a conta não acaba batendo no Tesouro?

Rosa: Esse raciocínio não é tão direto. Se o BB tem lucro, vai tirar isso (um eventual prejuízo do fundo) dele, dos acionistas e do Tesouro, que é o acionista majoritário do banco. É do jogo. Mesmo assim, a conta é repartida meio a meio com os participantes do fundo. Há, portanto, um limite desse esforço do Tesouro caso o fundo quebre, e nós estamos longe disso, não só a Previ como quase todos os fundos. Essa incompreensão sobre o que são os fundos vem do passado.

Valor: De quando?

Rosa: Até 1996, tivemos algumas CPIs de fundos, e isso foi reeditado em 2005 (durante a crise de mensalão). A CPI de 1996 fez um retrato muito negativo dos fundos. Na CPI de 2005, o relatório foi quase um atestado de bons serviços, um ‘nada-consta’ para nós. Mas existe um preconceito contra os gestores dos fundos. Isso é ruim. Por isso, há essa tese de que é preciso colocar muita trava na ação dos fundos. E há a memória de que os fundos fazem investimentos orientados politicamente e não pela rentabilidade e o mercado. Temos trabalhado muito para tentar mudar essa cultura, sabendo que ela não muda de uma hora para outra.

Valor: Os fundos são usados para alavancar empresários, que depois mandam nas empresas?

Rosa: Há empresários que querem mandar no corpo inteiro. Para não pagar por isso, eles compram uma perna. A outra perna eles querem usar os fundos de pensão para comprar, mas mandam no corpo inteiro.

Valor: Na Vale, a Previ é a maior acionista, mas não é o Bradesco quem manda?

Rosa: Não é assim. Temos ali uma condução muito mais equilibrada com os outros sócios, um compartilhamento.

Valor: No governo, é dito que os fundos estão numa posição desigual com os sócios privados?

Rosa: No caso da Previ, não é assim.

Valor: Quanto a Previ perdeu na crise?

Rosa: Aproximadamente R$ 20 bilhões.

Valor: O fato de o fundo estar sobreaplicado na Vale não acarretou uma perda maior, uma vez que as empresas exportadoras estão sofrendo mais?

Rosa: Perdemos menos por causa do critério de avaliação da Vale, o critério econômico. A Vale subiu muito no primeiro semestre de 2008 e depois caiu, mas a nossa avaliação era do fim de 2007, então, quando a reavaliamos no fim de 2008, já não pegamos esse sobe-e-desce das ações. Quando comparamos o balanço de 2008 com o de 2007, ela ficou estável. Dos R$ 20 bilhões que perdemos em toda a carteira, estamos próximos de recuperar tudo. A bolsa fechou 2007 próxima dos 63 mil pontos. Já voltou a esse patamar.

Valor: Com a queda da taxa Selic a um dígito, o que muda na vida dos fundos de pensão?

Rosa: A Previ já tem um portfólio bastante diversificado. Historicamente, migramos para aplicações fora da faixa da Selic, tanto que nossa rentabilidade nos últimos anos tem sido muito superior à média da Selic. Temos hoje mais de 60% dos recursos aplicados em renda variável, 3% em imóveis e cerca de 30% indexados à Selic.

Valor: A Selic responde por quanto da rentabilidade dos seus ativos?

Rosa: A Selic é praticamente o nosso piso de rentabilidade. Em dez anos, a Previ teve uma rentabilidade de aproximadamente 750%, enquanto a Selic no mesmo prazo acumulou 400%. Isso mostra que o investimento em renda variável tem puxado bem para cima a nossa rentabilidade. Isso não é verdade para a maioria dos fundos de pensão.

Valor: Por quê?

Rosa: Ao contrário da Previ, a maioria dos fundos tem no máximo 10% dos ativos aplicados em renda variável. Foi uma decisão estratégica da Previ tomada lá atrás. Muitos fundos de pensão estão associados ainda à ideia da renda fixa.

Valor: Por que eles são mais conservadores?

Rosa: Em parte, por causa da memória de rentabilidade alta da renda fixa, que não desaparece de uma hora para outra. Ainda ontem, havia títulos do Tesouro de longo prazo pagando juros de 13% ao ano. Quando o fundo não tem uma boa estrutura para gerir o risco de ativos mais alternativos, um título de 12 anos a 13% ao ano ainda é uma zona de conforto muito grande. Falta também um pouco de incentivo para buscar essa rentabilidade adicional em nome do participante do fundo.

Valor: De que forma?

Rosa: A resolução 3.792, do CMN, trouxe uma abertura para cada fundo adotar políticas próprias de controle de risco. Até então, a gente tinha que prestar contas de risco à SPC com base na tal ‘divergência não planejada’.

Valor: Como funcionava essa regra?

Rosa: Mês a mês, o fundo tinha que analisar o desempenho da sua carteira frente ao seu índice atuarial ou a um indexador escolhido do mercado. Quando o fundo escolhia um investimento que tinha um grau de volatilidade maior no curto prazo, embora no longo prazo ele pudesse dar resultados muito superiores, com a medida de risco amparada na ‘divergência não planejada’, calculada mensalmente, o fundo parecia estar numa situação de alto risco. Todo mês o resultado fugia do índice atuarial ou do índice de mercado escolhido.

Valor: O que mudou?

Rosa: Com a 3.792, passamos a pensar medidas de risco mais apropriadas dos investimentos. Se os fundos de pensão migrarem para essas novas medidas, isso pode melhorar a compreensão geral do que é uma alocação de longo prazo. Esta é a grande vantagem de um fundo de pensão. Diferentemente da maior parte da indústria financeira, que tem que olhar o curto prazo e a liquidez quase diária, com cotistas entrando e saindo o tempo todo, o fundo de pensão tem uma estabilidade para o investimento muito maior.

Valor: A aposta no risco é o melhor caminho?

Rosa: Uma estatística da bolsa americana, válida para as bolsas dos países mais desenvolvidos e que provavelmente vai começar a valer para o Brasil, mostra que, quando se calculam períodos de aplicação de 30 anos, em nenhum período, em qualquer parte do tempo, o investimento em bolsa perde para renda fixa. Há, portanto, um prêmio pela alocação de longo prazo em ativos considerados de maior risco e que são mais voláteis no curto prazo.

Valor: Não é arriscado investir o dinheiro das aposentadorias de milhares de pessoas do fundo em renda variável?

Rosa: Um livro antigo de Peter Drucker (filósofo e economista, de origem austríaca, considerado o pai da gestão moderna) diz que um fundo de pensão faz 10 investimentos: sete não vão dar certo, dois vão mais ou menos se pagar e apenas um vai pagar a conta de todos. O problema é que você tem que explicar isso e, às vezes, não consegue. Mas Drucker fala que isso é essencial para a economia. Se você não fizer isso, não criará nada novo.

Valor: A meta atuarial da Previ hoje é 5,75% ao ano, além da variação do INPC. Com a queda dos juros, vai ser necessário alterá-la?

Rosa: Nossa expectativa é que a rentabilidade seja superior a isso ao longo do tempo. Se mudarmos, será por uma questão de conservadorismo, prudência, algo permitido pelo superávit que temos hoje. Se tivéssemos que fazer essa mudança e ela fosse onerar os participantes, talvez, pudéssemos adiar isso porque efetivamente temos superávit e uma perspectiva de superávit superior à meta. Só neste ano, estamos com rendimento no Plano 1 (o dos aposentados com benefício definido) de 18%. No Plano 2 (em que a contribuição é definida), a taxa atuarial tem uma importância menor, portanto, temos um pouco mais de liberdade para discutir isso.

Valor: O governo está impondo uma mudança de meta?

Rosa: O governo vem tratando disso não como uma imposição, mas como uma diretriz. Vem apenas comentando o fato, sobretudo com os fundos que estão muito ancorados em renda fixa, mostrando que, se a estratégia de alocação continuar sendo essa, provavelmente os fundos vão ter que lidar com isso. É preciso criar uma cultura própria de investimento de fundo de pensão. A Previ criou uma história. Mais recentemente, a Petrus (fundação dos funcionários da Petrobras) e a Funcef (da Caixa Econômica Federal) passaram a ter uma história um pouco mais parecida, mas isso não gerou um pensamento hegemônico em termos de estratégia de investimento. Essas histórias ainda são vistas como algo isolado, que deu certo, mas que não pode ser replicado. É preciso criar uma cultura própria de investimento de longo prazo, inexistente no país. O Brasil não tem um Warren Buffett. Os Estados Unidos, por exemplo, têm uma indústria de fundos de pensão desde os anos 50.

Valor: O contencioso com Daniel Dantas chegou ao fim?

Rosa: Acho que sim. De vez em quando, ainda surgem alguns desdobramentos no âmbito judicial. Há ainda investigação no TCU sobre o contrato de ‘put’ que fizemos com o Citibank em 2005. Tem ainda a operação Satiagraha, em que somos testemunhas. Temos uma sociedade com ele numa pequena empresa, a Sanepar, no Paraná. Havia ali um problema de contratação muito inadequada, que dificultava o controle dos serviços contratados pela Previ (junto ao grupo Opportunity).

Valor: Isso ocorreu por incompetência da então diretoria da Previ ou por dirigismo político do governo (em 1998)?

Rosa: Houve uma imperícia, uma certa falta de acautelamento em definir as premissas concretas, a governança do próprio fundo (o CVC). Aquele era um fundo que tinha que ter governança. Hoje, temos um comitê de investimento na Previ que revisa as propostas que o gestor traz. Há uma condição de prestação de contas e até a possibilidade de substituir o gestor a partir de uma série de cláusulas. A gente aprende. Embora eu não tenha provas, acho também que houve uma certa influência (política) para que essa associação (com o Opportunity) fosse feita num padrão que não era muito rigoroso. Não tenho evidentemente elementos para dizer isso categoricamente, mas é essa a avaliação.

16/08/2009 - 11:23h Após pressão, Lula e Agnelli selam acordo

Insatisfeito com ação da Vale na crise, presidente ameaçou pressionar Previ e BNDESPar a mudar comando da empresa

Governo mandou recado ao Bradesco, que indicou Agnelli; nome de Sérgio Rosa, da Previ, chegou a ser aventado para presidir Vale

KENNEDY ALENCAR E JULIANNA SOFIA – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Nos bastidores, o governo Lula ameaçou interferir no comando administrativo da Vale a fim de levar a empresa a fazer investimentos considerados estratégicos pelo Planalto -sobretudo na área de siderurgia.
Segundo a Folha apurou, Lula mandou um recado ao Bradesco, que indicou o presidente da empresa, Roger Agnelli, a partir de acordo de acionistas que envolve o grupo privado japonês Mitsui, um consórcio de fundos de pensão e o BNDES.
Insatisfeito com a ação da Vale durante a fase mais aguda da crise global -grande exportadora, foi uma das empresas mais atingidas-, o presidente ameaçou pressionar a Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e a BNDESPar, braço do BNDES para ser sócio de empresas, a usar suas ações com direito a voto para mudar o comando da mineradora. O ápice da pressão foi em julho, segundo um auxiliar direto de Lula.
Reservadamente, circulou no governo a ideia de indicar alguém com o perfil do presidente da Previ, Sérgio Rosa, para o posto de Agnelli. Mas, por ora, isso perdeu força.
Nas palavras de um ministro, Lula e Agnelli “são amigos e acertaram os ponteiros” em conversa recente.
Na crise, Lula se queixou reservada e publicamente da Vale. O presidente reclamou do corte de US$ 3 bilhões em investimentos e de demissões de mais de mil funcionários sem aviso ao governo.
Para ele, a Vale passou um sinal ruim, uma expectativa negativa, numa hora em que o governo se esforçava para evitar um colapso econômico.
A Vale é controlada pela Valepar, que tem 53% do capital votante da companhia. Na Vale, o consórcio de fundos de pensão, cujo mais forte é a Previ, detém 49% das ações. A BNDESPar tem 11,5%. O Bradesco, 21%. E o Mitsui, 18%.
A pressão do Planalto sobre a Previ e o BNDES poderia dinamitar a gestão de Agnelli. Mas o governo não quer comprar briga com um dos maiores bancos do país na véspera de ano eleitoral. O gesto de Lula foi como um tiro de advertência.
O nome de Sérgio Rosa foi aventado por seu perfil discreto. Ele venceu a queda de braço com Daniel Dantas pelo controle acionário da antiga Brasil Telecom. É da confiança da cúpula do PT e preside o Conselho de Administração da Vale.
Como seu mandato terminará em maio de 2010, sem direito a nova recondução, Rosa é forte candidato a ser indicado pelo governo para atuar em uma diretoria ou na presidência de uma grande companhia -uma estatal ou empresa de capital privado com participação da Previ.
Além da Vale, o fundo de pensão do BB tem participação relevante em outras companhias privadas, como a telefônica Oi (fusão Telemar-Brasil Telecom) e a Brasil Foods (fusão Sadia-Perdigão).
Reservadamente, a direção da Vale argumenta que a empresa realiza em 2009 o maior plano de investimentos de sua história e que está desenvolvendo quatro projetos em siderurgia, apesar de dificuldades.
No Pará, falta a liberação total do terreno. O governo do Estado está pagando desapropriações e ainda não tem todo o controle da área.
“Recebi a diretoria da Vale, que se comprometeu que vai ter siderúrgica no Pará. Há obras que foram incluídas no PAC justamente para viabilizar esse projeto”, disse a governadora Ana Julia Carepa (PT). “Foi uma luta. Houve muita pressão, mas deu certo.”
No Espírito Santo, houve desistência de um sócio privado. No Ceará, a Vale mudou o projeto de siderurgia. No Rio, faz o maior investimento do setor no país, depois de ter ampliado sua participação numa parceria com outra empresa.

Fundos de pensão
Apesar do discurso da Vale, há insatisfação entre os fundos de pensão. Segundo fundo com maior participação na cadeia acionária da Vale, a Funcef -ligada à Caixa Econômica Federal- avalia que a importância estratégica da companhia e seu passado de empresa estatal obrigam a mineradora a ampliar seus investimentos na infraestrutura do país.
“A Vale não pode agir como uma empresa de frango, de linguiça. É uma empresa estruturante, que atua por concessões. É bem administrada, mas não podemos fechar os olhos e não nos dar conta das decisões tomadas por seu presidente”, disse à Folha o presidente da Funcef, Guilherme Lacerda.
A Funcef detém 2% do capital total da Vale. Para Lacerda, a mineradora deve entrar em investimentos que abram caminho para o desenvolvimento do país nem que isso não garanta boas taxas de retorno. “Às vezes, é preciso levar em conta outros elementos que não a maximização do lucro.”
O presidente da entidade pondera que a Funcef não tem participação no Conselho de Administração da Vale, por isso, formalmente, não é chamada a participar das discussões sobre os investimentos.
Procurada, a Previ informou via assessoria que não poderia receber a Folha nesta semana para tratar de assuntos referentes à Vale. Nos bastidores, a Previ demonstra insatisfação parecida com a da Funcef.
Lacerda questiona os princípios de governança adotados pela Vale e os considera insatisfatórios para uma empresa de padrão mundial. “A governança corporativa precisa melhorar. Hoje, o investidor fica fora do circuito.”
Os outros fundos que têm participação na Vale são Petros (Petrobras) e Funcesp (Cesp).

ROGER AGNELLI

Uma nova Pangeia


Na África estão as grandes oportunidades de negócios; estar lá é ter uma enorme vantagem competitiva

A INTEGRAÇÃO das Américas à África foi um dos temas da conversa, no último dia 5, entre empresários brasileiros e o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jim Jones, um homem inteligente e conhecedor de questões estratégicas e de logística.
O encontro, do qual participei, demonstrou a disposição do presidente Barack Obama em reaproximar os Estados Unidos de países da América do Sul e do continente africano, bem como em abrir janelas estratégicas de parcerias entre eles. Isso é muito positivo. As Américas e a África, que há 200 milhões de anos formavam uma única massa continental, a Pangeia, são absolutamente complementares.
Os EUA precisam muito da América do Sul, por conta de nossos mercados e de nossa capacidade de fornecer energia e alimentos. Esse fato poderá assegurar o crescimento das economias do Sul e do Norte. A interação também fortalecerá os americanos no relacionamento com blocos econômicos, como a Europa, os asiáticos e a China -gigantesco bloco de consumo e competição.
Já a aproximação com a África traz a possibilidade de acesso a fontes ainda intactas de recursos naturais, que vêm atraindo a atenção de países asiáticos. Lá estão grandes oportunidades de negócios para empresas brasileiras e americanas. A África, que necessita de infraestrutura, possui enorme potencial de petróleo e de geração de energia hidráulica, a gás e a carvão, sem falar nas jazidas de urânio, em suas terras férteis e na posição geográfica única -no meio do caminho entre o Ocidente e o Oriente. Estar na África é ter vantagem competitiva enorme.
O general Jones ouviu com atenção os relatos que nós, empresários brasileiros, fizemos sobre nossas relações com os países africanos. Ficou claro ser possível começar a aproximação pela política e, ao mesmo tempo, levar oportunidades de desenvolvimento econômico, o que os ajudaria a fortalecer a democracia. Conversamos sobre a possibilidade de os Estados Unidos e o Brasil ajudarem a canalizar recursos do Banco Mundial e de bancos de fomento, como Eximbank e BNDES.
Da união estratégica das Américas do Norte e do Sul com a África surgiria um gigante, com potencial para ser o maior produtor de alimentos, energia, biocombustíveis e siderurgia do planeta, sem falar no grande mercado consumidor. O esforço para a integração, contudo, não cabe apenas aos governos; é preciso que a iniciativa privada entenda sua importância. Como nenhum outro estadista brasileiro, o presidente Lula vem dando grande relevância às negociações com governantes da América do Sul e do continente africano, o que ainda renderá muitos frutos ao nosso país.
A integração sul-americana é uma questão imediata. Contudo, é necessário que se agilize a compatibilização dos interesses geopolíticos e que se acelerem os interesses empresariais, com destaque para acordos de bitributação que facilitem o comércio entre os países.
A união com a África é um projeto para a próxima década, mas para ser iniciado já. Cabe agora à iniciativa privada descobrir o mercado africano, começar a desbravar negócios por lá. Assim, ajudará na construção de uma nova Pangeia.


ROGER AGNELLI , 50, economista e diretor-presidente da Vale, escreve neste espaço a cada quatro semanas.