Não é de hoje que pesquisadores procuram e à vezes encontram - com muita controvérsia, como ocorreu com Simon LeVay ainda nos anos 1990 - estruturas e fisiologia cerebrais ligeiramente diferenciadas dentro da cabeça de homossexuais. Surge agora um novo estudo de Ivanka Savic e Per Lindström, do Instituto Karolinska de Estocolmo, revelando que a amídala - uma pequena área do cérebro importante para o processamento de emoções - de pessoas homossexuais têm semelhanças estatisticamente significativas com pessoas do sexo oposto (ou seja, homossexuais masculinos mais parecidos com mulheres e lésbicas mais parecidas com homens).

O trabalho aparece na edição desta semana do periódico da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, PNAS. Quando for publicado, o artigo ficará disponível aqui, em inglês. Savic e Lindström já haviam publicado algo semelhante em 2005, sobre a reação diferenciada a feromônios (leia mais aqui, em português).

Savic e Lindström procuraram assimetrias entre as duas metades do cérebro de 90 pessoas nos quatro grupos possíveis de sexo genético e orientação sexual, usando imagens de tomografia por emissão de pósitrons (PET) e ressonância magnética nuclear (MRI). Encontraram, como se pode ver na imagem acima.

No artigo, afirmam: “Os resultados não podem ser atribuídos a efeitos adquiridos e sugerem uma ligação com entidades neurobiológicas”. É um modo eufemístico e nem um pouco firme (”sugerem…”) de dizer que seriam características biologicamente inatas. É algo muito diferente de afirmar que são de fato características inatas e que portanto foi excluída a hipótese de que as diferenças resultem do que essas pessoas fizeram na vida, e não de como elas eram ao nascer.

Mesmo supondo que sejam estruturas inatas, “determinadas” por genes “do” homossexualismo, que conclusão seria possível tirar disso? Muitos homossexuais se sentiriam confirmados na sua orientação sexual e talvez com menos dificuldade de viver com ela, pois afinal eles “são” assim, biologicamente falando. Genes gays em lugar de orgulho gay, ou justificando o orgulho gay.

Genes gays, se existirem (quem me lê há algum tempo sabe que tenho sérias dúvidas a respeito), porém, podem ser lidos de outra maneira, especialmente por quem já tem inclinações homofóbicas: eles trariam a “prova” de que a homossexualidade é uma anormalidade, não um signo de liberdade. Uma doença, enfim, que poderia, e talvez devesse, ser curada ou prevenida, da proveta nas clínicas de fertilização in vitro ao útero e à infância, por meio de testes, psicoterapia e remédios.

Pessoalmente, acho o estudo intrigante e gostaria de saber mais. Jamais seria contrário a esse tipo de pesquisa, embora preveja que sua assimilação e uso pela opinião pública possam ser distorcidos. Mas podem também trazer esclarecimento - algo que é sempre desejável ter mais do que ter menos.