16/08/2009 - 11:23h Após pressão, Lula e Agnelli selam acordo

Insatisfeito com ação da Vale na crise, presidente ameaçou pressionar Previ e BNDESPar a mudar comando da empresa

Governo mandou recado ao Bradesco, que indicou Agnelli; nome de Sérgio Rosa, da Previ, chegou a ser aventado para presidir Vale

KENNEDY ALENCAR E JULIANNA SOFIA – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Nos bastidores, o governo Lula ameaçou interferir no comando administrativo da Vale a fim de levar a empresa a fazer investimentos considerados estratégicos pelo Planalto -sobretudo na área de siderurgia.
Segundo a Folha apurou, Lula mandou um recado ao Bradesco, que indicou o presidente da empresa, Roger Agnelli, a partir de acordo de acionistas que envolve o grupo privado japonês Mitsui, um consórcio de fundos de pensão e o BNDES.
Insatisfeito com a ação da Vale durante a fase mais aguda da crise global -grande exportadora, foi uma das empresas mais atingidas-, o presidente ameaçou pressionar a Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e a BNDESPar, braço do BNDES para ser sócio de empresas, a usar suas ações com direito a voto para mudar o comando da mineradora. O ápice da pressão foi em julho, segundo um auxiliar direto de Lula.
Reservadamente, circulou no governo a ideia de indicar alguém com o perfil do presidente da Previ, Sérgio Rosa, para o posto de Agnelli. Mas, por ora, isso perdeu força.
Nas palavras de um ministro, Lula e Agnelli “são amigos e acertaram os ponteiros” em conversa recente.
Na crise, Lula se queixou reservada e publicamente da Vale. O presidente reclamou do corte de US$ 3 bilhões em investimentos e de demissões de mais de mil funcionários sem aviso ao governo.
Para ele, a Vale passou um sinal ruim, uma expectativa negativa, numa hora em que o governo se esforçava para evitar um colapso econômico.
A Vale é controlada pela Valepar, que tem 53% do capital votante da companhia. Na Vale, o consórcio de fundos de pensão, cujo mais forte é a Previ, detém 49% das ações. A BNDESPar tem 11,5%. O Bradesco, 21%. E o Mitsui, 18%.
A pressão do Planalto sobre a Previ e o BNDES poderia dinamitar a gestão de Agnelli. Mas o governo não quer comprar briga com um dos maiores bancos do país na véspera de ano eleitoral. O gesto de Lula foi como um tiro de advertência.
O nome de Sérgio Rosa foi aventado por seu perfil discreto. Ele venceu a queda de braço com Daniel Dantas pelo controle acionário da antiga Brasil Telecom. É da confiança da cúpula do PT e preside o Conselho de Administração da Vale.
Como seu mandato terminará em maio de 2010, sem direito a nova recondução, Rosa é forte candidato a ser indicado pelo governo para atuar em uma diretoria ou na presidência de uma grande companhia -uma estatal ou empresa de capital privado com participação da Previ.
Além da Vale, o fundo de pensão do BB tem participação relevante em outras companhias privadas, como a telefônica Oi (fusão Telemar-Brasil Telecom) e a Brasil Foods (fusão Sadia-Perdigão).
Reservadamente, a direção da Vale argumenta que a empresa realiza em 2009 o maior plano de investimentos de sua história e que está desenvolvendo quatro projetos em siderurgia, apesar de dificuldades.
No Pará, falta a liberação total do terreno. O governo do Estado está pagando desapropriações e ainda não tem todo o controle da área.
“Recebi a diretoria da Vale, que se comprometeu que vai ter siderúrgica no Pará. Há obras que foram incluídas no PAC justamente para viabilizar esse projeto”, disse a governadora Ana Julia Carepa (PT). “Foi uma luta. Houve muita pressão, mas deu certo.”
No Espírito Santo, houve desistência de um sócio privado. No Ceará, a Vale mudou o projeto de siderurgia. No Rio, faz o maior investimento do setor no país, depois de ter ampliado sua participação numa parceria com outra empresa.

Fundos de pensão
Apesar do discurso da Vale, há insatisfação entre os fundos de pensão. Segundo fundo com maior participação na cadeia acionária da Vale, a Funcef -ligada à Caixa Econômica Federal- avalia que a importância estratégica da companhia e seu passado de empresa estatal obrigam a mineradora a ampliar seus investimentos na infraestrutura do país.
“A Vale não pode agir como uma empresa de frango, de linguiça. É uma empresa estruturante, que atua por concessões. É bem administrada, mas não podemos fechar os olhos e não nos dar conta das decisões tomadas por seu presidente”, disse à Folha o presidente da Funcef, Guilherme Lacerda.
A Funcef detém 2% do capital total da Vale. Para Lacerda, a mineradora deve entrar em investimentos que abram caminho para o desenvolvimento do país nem que isso não garanta boas taxas de retorno. “Às vezes, é preciso levar em conta outros elementos que não a maximização do lucro.”
O presidente da entidade pondera que a Funcef não tem participação no Conselho de Administração da Vale, por isso, formalmente, não é chamada a participar das discussões sobre os investimentos.
Procurada, a Previ informou via assessoria que não poderia receber a Folha nesta semana para tratar de assuntos referentes à Vale. Nos bastidores, a Previ demonstra insatisfação parecida com a da Funcef.
Lacerda questiona os princípios de governança adotados pela Vale e os considera insatisfatórios para uma empresa de padrão mundial. “A governança corporativa precisa melhorar. Hoje, o investidor fica fora do circuito.”
Os outros fundos que têm participação na Vale são Petros (Petrobras) e Funcesp (Cesp).

ROGER AGNELLI

Uma nova Pangeia


Na África estão as grandes oportunidades de negócios; estar lá é ter uma enorme vantagem competitiva

A INTEGRAÇÃO das Américas à África foi um dos temas da conversa, no último dia 5, entre empresários brasileiros e o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jim Jones, um homem inteligente e conhecedor de questões estratégicas e de logística.
O encontro, do qual participei, demonstrou a disposição do presidente Barack Obama em reaproximar os Estados Unidos de países da América do Sul e do continente africano, bem como em abrir janelas estratégicas de parcerias entre eles. Isso é muito positivo. As Américas e a África, que há 200 milhões de anos formavam uma única massa continental, a Pangeia, são absolutamente complementares.
Os EUA precisam muito da América do Sul, por conta de nossos mercados e de nossa capacidade de fornecer energia e alimentos. Esse fato poderá assegurar o crescimento das economias do Sul e do Norte. A interação também fortalecerá os americanos no relacionamento com blocos econômicos, como a Europa, os asiáticos e a China -gigantesco bloco de consumo e competição.
Já a aproximação com a África traz a possibilidade de acesso a fontes ainda intactas de recursos naturais, que vêm atraindo a atenção de países asiáticos. Lá estão grandes oportunidades de negócios para empresas brasileiras e americanas. A África, que necessita de infraestrutura, possui enorme potencial de petróleo e de geração de energia hidráulica, a gás e a carvão, sem falar nas jazidas de urânio, em suas terras férteis e na posição geográfica única -no meio do caminho entre o Ocidente e o Oriente. Estar na África é ter vantagem competitiva enorme.
O general Jones ouviu com atenção os relatos que nós, empresários brasileiros, fizemos sobre nossas relações com os países africanos. Ficou claro ser possível começar a aproximação pela política e, ao mesmo tempo, levar oportunidades de desenvolvimento econômico, o que os ajudaria a fortalecer a democracia. Conversamos sobre a possibilidade de os Estados Unidos e o Brasil ajudarem a canalizar recursos do Banco Mundial e de bancos de fomento, como Eximbank e BNDES.
Da união estratégica das Américas do Norte e do Sul com a África surgiria um gigante, com potencial para ser o maior produtor de alimentos, energia, biocombustíveis e siderurgia do planeta, sem falar no grande mercado consumidor. O esforço para a integração, contudo, não cabe apenas aos governos; é preciso que a iniciativa privada entenda sua importância. Como nenhum outro estadista brasileiro, o presidente Lula vem dando grande relevância às negociações com governantes da América do Sul e do continente africano, o que ainda renderá muitos frutos ao nosso país.
A integração sul-americana é uma questão imediata. Contudo, é necessário que se agilize a compatibilização dos interesses geopolíticos e que se acelerem os interesses empresariais, com destaque para acordos de bitributação que facilitem o comércio entre os países.
A união com a África é um projeto para a próxima década, mas para ser iniciado já. Cabe agora à iniciativa privada descobrir o mercado africano, começar a desbravar negócios por lá. Assim, ajudará na construção de uma nova Pangeia.


ROGER AGNELLI , 50, economista e diretor-presidente da Vale, escreve neste espaço a cada quatro semanas.

06/03/2009 - 09:49h Indústria tem recuperação localizada

 

Silvia Costanti / Valor

Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit: “Os estoques já acabaram no varejo e é hora da reposição”

Sergio Lamucci, Sergio Bueno e Vanessa Jurgenfeld, de São Paulo, Porto Alegre e Florianópolis – VALOR

Os impactos da crise financeira sobre a atividade industrial foram díspares em fevereiro. Segmentos cuja demanda está ligada à renda da população, como calçadistas e têxteis, já sentiram claramente uma recuperação de encomendas e consideram que a pior fase da crise passou. Para empresas e setores cuja produção é alimentada por crédito ou investimento, as realidades são distintas. Ao mesmo tempo em que grandes usinas siderúrgicas desligam alto-fornos, fabricantes de máquinas e equipamentos, como Randon e Marcopolo, já sentiram uma melhora nas encomendas em fevereiro e março. Mesmo as empresas e setores que relatam uma recuperação em fevereiro e neste começo de março, contudo, indicam queda de produção em relação ao mesmo período do ano passado.

Hoje o IBGE divulga o resultado da produção industrial de janeiro. Os analistas esperam forte crescimento em relação a dezembro de 2008, feito o ajuste sazonal. A LCA Consultores projeta alta de 9,2%. Na comparação com janeiro do ano passado, contudo, a estimativa é de recuo de 10,2%. O Santander aposta em crescimento de 11% sobre dezembro e queda de 9,5% em relação janeiro de 2008.

Entre os indicadores já conhecidos, venda de automóveis e consumo de energia indicam que fevereiro voltou a crescer sobre janeiro. O licenciamento de automóveis e comerciais leves atingiu a média diária de 10,9 mil unidades, mais que os 10,1 mil de janeiro deste ano e os 10,4 mil de fevereiro do ano passado, na série com ajuste sazonal calculada pela LCA. O resultado é efeito da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), destacam analistas e empresários do setor. O consumo diário de energia elétrica, por sua vez, atingiu a média de 50,2 MW em fevereiro, 2,7% a mais do que no mês anterior, também na série livre de influências sazonais. Em relação ao mesmo mês de 2008, houve queda de 0,59%.

O setor têxtil brasileiro acredita que o pior da crise já passou e vê sinais de melhora das encomendas nos últimos dias, após um primeiro bimestre fraco. “O varejo retomou os pedidos, está conseguindo girar seus estoques. Ainda vai levar algum tempo para que esse movimento ganhe velocidade, mas há bons indicativos para março”, diz Zeno Fischer, diretor de controladoria e planejamento da Lepper, de Joinville (SC). Indústria de cama, mesa e banho, a Lepper fechou o primeiro bimestre com queda de 10% nas vendas em relação ao igual período de 2008. Em fevereiro, até registrou uma melhora de vendas em relação a janeiro deste ano em torno de 20%, mas as vendas ficaram 10% abaixo do mesmo mês do ano passado. Segundo Fischer, apesar de um começo de ano de vendas em queda, a Lepper projeta crescimento de 10% no faturamento do ano, para R$ 145 milhões em 2009.

Para o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, há sinais melhores no setor, mas fevereiro foi um período de vendas menores do que igual mês do ano passado. “Mas há um clima de retomada da atividade, os estoques já acabaram no varejo e é hora da reposição. Nossa expectativa é que o pior (da crise) tenha passado”, diz. Na sua avaliação, as empresas do setor não farão mais paradas de ajuste de estoques, e embora exista um crédito ainda caro e restrito, as têxteis poderão ter um desempenho no ano melhor do que outros setores porque as compras de vestuário dependem pouco de crédito.

Na Indústria São Roberto, que atua no segmento de papelão ondulado, as vendas em fevereiro caíram 10% em relação ao mesmo mês do ano passado, uma queda ligeiramente inferior aos 12% registrados em janeiro na comparação com janeiro de 2008. A expectativa do presidente da empresa, Roberto Nicolau Jeha, é de que em março haja uma queda de 5% sobre o mesmo mês de 2008. “Março começou um pouco melhor do que fevereiro”, diz ele, acrescentando que só acredita numa melhora mais consistente no segundo semestre. Jeha diz que a demanda por papelão ondulado caiu menos por parte de empresas de alimentos e produtos de limpeza. No caso das companhias que dependem mais do crédito, como fabricantes de televisores e eletrodomésticos, o tombo foi maior.

O presidente da distribuidora de aço Rio Negro, Carlos Loureiro, diz que houve uma melhora na demanda por parte da indústria automobilística, beneficiada pela redução do IPI para veículos. Segundo ele, montadoras e empresas de autopeças voltaram a comprar com mais força, o que ajudou um pouco nas vendas de fevereiro e continua a auxiliar nas de março. “Mas não houve melhora nos outros segmentos”, diz ele, dizendo que continua fraca a procura por parte de empresas de máquinas agrícolas, rodoviárias e equipamentos para infraestrutura.

A indústria calçadista iniciou o ano com cenários distintos no mercado interno e nas exportações. As vendas domésticas arrancaram bem, turbinadas em alguns casos por descontos e aumentos de prazos de pagamento. Os fabricantes aguardam a reposição dos estoques dos lojistas, em maio, para confirmar a tendência. As exportações recuaram 23,9% no primeiro bimestre em comparação com igual período de 2008, para
US$ 280,6 milhões, mas o setor espera algum crescimento em 2009, impulsionado pela desvalorização do real, após a queda em volume e faturamento no ano passado.

Segundo o diretor comercial da gaúcha Piccadilly, Marlon Martins, em janeiro e fevereiro a empresa aumentou prazos de pagamento em 30 dias e concedeu descontos de 5% a 15% em algumas linhas para estimular os negócios no mercado interno. O resultado foi um aumento de três vezes no volume de vendas em fevereiro na comparação com janeiro, para mais de 600 mil pares. Em relação ao mesmo período de 2008, a alta foi de 2,5 vezes, informa o executivo.

No mercado externo, o recuo das vendas apontado pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) no bimestre deveu-se à demora na reposição dos estoques dos importadores em função da desaceleração econômica na América do Norte e Europa, avalia o diretor da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Ricardo Wirth. “Não esperávamos uma queda tão alta, mas não chegou a ser surpreendente.” Em fevereiro, as exportações renderam US$ 138 milhões, 3,3% a menos do que em janeiro e 29,3% abaixo do mesmo mês de 2008. Para o empresário, março ainda será um mês de “transição” entre as encomendas das coleções de verão e de inverno para o hemisfério norte.

Alguns setores e empresas ainda não sentiram recuperação da atividade, como a Usiminas e a CSN. A primeira anunciou que vai paralisar, a partir de segunda-feira e por tempo indeterminado, o alto-forno n 1 da usina de Cubatão na Baixada Santista. A CSN, que também produz aços planos, vai paralisar por 40 dias o alto-forno n 2, que responde por 40% da produção da usina de Volta Redonda (RJ). O presidente da Usiminas, Marco Antônio Castello Branco, justificou a decisão pela falta de sinais mais consistentes de demanda para o segundo trimestre.

Por outro lado, a Marcopolo, maior fabricante brasileira de carrocerias para ônibus, após fechar o primeiro bimestre com vendas 10% menores, sentiu recuperação em março. A Randon, que produz implementos agrícolas, também espera retomada das vendas.

04/02/2009 - 11:46h A crise e o investimento público

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Cristiano Romero – VALOR

Preocupado com o aprofundamento da crise econômica no Brasil, o governo Lula anuncia hoje medidas para ampliar o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC). O plano é elevar em cerca de R$ 100 bilhões, neste e no próximo ano, os investimentos do setor público no programa, incluídos nessa conta os recursos de empresas estatais, como a Petrobras e a Eletrobrás. Um dos setores que mais receberão atenção nesta nova fase do PAC é o ferroviário.

Por meio de concessões ao setor privado, o governo pretende licitar a construção de novas ferrovias e também de trechos de ferrovias existentes ou em construção. Um exemplo é a ligação da Ferrovia Norte-Sul entre Anápolis (GO) e Panorama (SP). Outro projeto prevê a construção de uma ferrovia entre Ilhéus (BA) e o Estado de Tocantins – a chamada Ferrovia Leste-Oeste – e de uma outra de lá até Rondônia, cujo objetivo é fazer a ligação do Brasil com o Oceano Pacífico, porta de saída das exportações ao continente asiático.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, deve anunciar hoje uma mudança importante no modelo de concessão. A ideia é que os ganhadores de concessões no setor ferroviário sejam obrigados a investir num determinado prazo, do contrário, perderão a permissão. Hoje, não existe a obrigatoriedade. Assessores do governo informaram que a nova regra valerá também para os casos antigos, de empresas que receberam a concessão de um serviço, mas cruzaram os braços.

“Vamos acabar com essa história da empresa que ganha uma concessão apenas com o objetivo de que seu concorrente não possa explorá-la”, disse um ministro do núcleo decisório do governo em Brasília. Um exemplo de concessão não-explorada, mas já superado, segundo o governo, é o da Ferrovia Transnordestina, a cargo da Companhia Ferroviária do Nordeste, uma subsidiária da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). “Agora, quem quiser uma concessão será obrigado a explorá-la.”

Ainda no setor ferroviário, a menina dos olhos do governo é o trem de alta velocidade que deverá ser construído entre o aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), e o Rio de Janeiro. A obra será incluída hoje no PAC. Como o governo vai promover uma licitação internacional e exigir transferência de tecnologia, o plano é criar o Instituto Ferroviário, uma pequena estatal voltada para a administração dessa tecnologia e a elaboração do planejamento estratégico do setor, a exemplo do que faz a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) no setor elétrico.

Há uma explicação óbvia para o esforço do governo em aumentar os investimentos públicos. Os investimentos do setor privado, que vinham crescendo, antes da crise, a uma velocidade 2,5 vezes superior à do Produto Interno Bruto (PIB), estão evaporando. Os dados da produção industrial divulgados ontem pelo IBGE mostram que a categoria de uso que mais caiu em dezembro foi a de bens de capital (máquinas e equipamentos) – 22,2% em relação a dezembro de 2007 (resultado já dessazonalizado).

As empresas, portanto, pisaram no freio no que diz respeito à compra de máquinas para sustentar a expansão da produção. Os números do último trimestre de 2008, justamente a fase mais aguda da crise, até agora, para o Brasil, vão certamente mostrar forte recuo da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), o indicador que mede a taxa de investimento da economia.

Para se ter uma ideia, no terceiro trimestre do ano passado, a FBCF expandiu 19,69% em relação ao mesmo período de 2007, levando a taxa de investimento nominal a 20,42% do PIB. É verdade que, como a economia vinha crescendo de forma acelerada – entre julho e setembro passados, avançou 6,8% em termos anualizados -, as empresas estão agora desovando estoques, num processo que pode levar alguns meses ainda para ser concluído – quando isso acontecer, presume-se que a produção volte a crescer, embora não nos níveis anteriores ao da crise.

Não é à toa, portanto, que o governo conte com a Petrobras para alavancar investimentos no setor produtivo. Em 2007, a Petrobras respondeu, sozinha, por 9% da Formação Bruta de Capital Fixo do país. Neste ano, com os US$ 28,6 bilhões (cerca de R$ 66,3 bilhões) em novas aplicações já anunciados, a estatal deverá aumentar a sua proporção na FBCF, uma vez que o setor privado está retraído.

De sua parte, o governo quer ampliar, em 2009, os investimentos da administração direta. Em 2008, o PAC (excluído o dinheiro de estatais e empresas privadas) representou apenas 24% do investimento pago pela União, em meio a um total que chegou a 0,9% do PIB (cerca de R$ 27 bilhões). A meta, agora, é elevar esse valor para pelo menos 1,2% do PIB. Já a Petrobras investiu, no último ano, o equivalente a 1,1% do PIB e pretende aumentar sua fatia neste ano para algo em torno de 2% do PIB.

O esforço do governo para ampliar os investimentos, desde mantendo o curso da responsabilidade fiscal, é louvável. Por causa da crise, Brasília tomou a si a responsabilidade de fazer os investimentos para manter a economia crescendo. O problema é que o governo, qualquer governo, não tem as condições operacionais para fazer muito mais do que já se tem feito.

Estima-se que uma obra pública de infra-estrutura leva, na melhor das hipóteses, ou seja, quando não enfrenta nenhum óbice de natureza judicial ou administrativa, 33 meses para sair do papel. Quando se acrescenta a isso o tempo de execução do projeto, fica claríssimo que não se trata de um prazo razoável – para ficar num exemplo, a usina hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, deve consumir dez anos desde a concepção até a conclusão da obra.

Hoje em dia, há interferências de toda ordem nas decisões de investimento do Poder Executivo. Entidades, como o Tribunal de Contas de União, que deveriam analisar os projetos após a execução, se transformaram em órgãos consultivos. Isto, evidentemente, atrasa as obras, quando não as bloqueia. Embora tenha o mérito de ser um projeto que estrutura a logística do país, o PAC é marcado pela lentidão, e o país tem pressa.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

E-mail cristiano.romero@valor.com.br

03/02/2009 - 14:47h China: menor apetite chinês vai tirar US$ 1,5 bi da exportação brasileira

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Menor apetite chinês vai tirar US$ 1,5 bi da exportação brasileira

Raquel Landim, de São Paulo – VALOR

Um dos países mais beneficiados pelo voraz apetite chinês por commodities, o Brasil vai sofrer com a desaceleração do gigante asiático. O país deve perder pelo menos US$ 1,5 bilhão em vendas de apenas três produtos – soja, minério de ferro e petróleo – para os chineses este ano. Especialistas em comércio exterior acreditam que a China está trocando os banquetes de commodities por uma dieta mais equilibrada. Por isso, além desta perda, investimentos futuros com alvo no mercado chinês devem ser bem estudados, dizem os analistas.

Conforme a estimativa do Conselho Brasil-China, as exportações para o país asiático de soja, minério de ferro e petróleo vão cair 12%, de US$ 12,7 bilhões em 2008 para US$ 11,2 bilhões em 2009. Essas commodities representam 77% da pauta de exportação do Brasil para a China. As projeções apontam queda de 19,4% nas vendas de soja para a China em 2009, 46,4% no petróleo, e alta de 13,7% no minério de ferro. O conselho parte da premissa que as exportações serão prejudicadas apenas pela queda de preços, porque os volumes de soja e petróleo vão se manter constantes, enquanto o do minério pode subir 10% graças ao pacote de estímulo fiscal chinês . A hipótese é considerada otimista por outros analistas, para quem a queda das exportações para a China pode ser ainda mais significativa.

“A corrente comercial entre os dois países inevitavelmente vai cair. Vamos enfrentar uma redução substancial em valor com a queda dos preços das commodities, mas o volume dificilmente será afetado”, disse Rodrigo Tavares Maciel, secretário-executivo do conselho. Maurício Moreira Mesquita, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), discorda e avalia que a tendência é de queda para as exportações brasileiras para a China, não apenas em preço, mas também em volume. “Se a desaceleração da economia chinesa se aprofundar, o impacto para a América Latina vai ser severo”, ponderou.

Em seis anos, os chineses quintuplicaram a compra desses produtos no Brasil. As exportações brasileiras de soja para a China saltaram de US$ 1,3 bilhão em 2003 para US$ 5,3 bilhões em 2008. No minério de ferro, as vendas saíram de US$ 765 milhões para US$ 4,9 bilhões no período. O petróleo – que sequer aparecia entre os principais produtos de exportação para a China em 2003 – rendeu US$ 1,7 bilhão ao país em 2008.

Dois fatores aplacaram a sofreguidão dos chineses por commodities brasileiras: a desaceleração do crescimento da economia do país – provocada pela crise global e pela fraqueza das exportações – e a consolidação da sua indústria pesada. O ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da China desacelerou de 13% em 2007 para 9% em 2008 e deve ficar em 8% em 2009 nas expectativas otimistas. A indústria pesada chinesa está contaminada pelo excesso de produção, o que vai exigir a consolidação em empresas maiores e mais competitivas e limitar a construção de novas plantas. A preocupação do país com a poluição também deve desestimular investimentos.

“A posição de exportadores de commodities como o Brasil é mais forte que uma década atrás, mas planos de expansão baseados no ritmo de crescimento dos últimos anos têm que ser revistos”, disse ao Valor Arthur Kroeber, diretor-executivo da Dragonomics, consultoria especializada em economia chinesa, sediada em Pequim. Kroeber avalia que a “chave” é que a demanda da China por commodities brasileiras vai seguir forte, mas a taxa de crescimento será bem menor, derrubando preços.

É o contrário do ciclo que levou as commodities às alturas. Entre 2003 e 2007, o crescimento da China saltou de 8% para 12% e a capacidade da indústria intensiva em recursos naturais aumentou muito. Como resultado, os preços de commodities como soja e petróleo saltaram 115% e 213%, respectivamente, entre 2003 e 2007, mas parte desses ganhos já foi devolvida. Desde 2008, as cotações da soja e do petróleo caíram 20,5% e 58,2%. No minério de ferro, que subiu mais de 70% só no ano passado, as siderúrgicas chinesas e a mineradora brasileira Vale estão travando uma queda-de-braço para definir o preço de 2009. A expectativa é de pelo menos 30% de queda.

O minério de ferro é bom exemplo das mudanças que estão ocorrendo na China e vão atingir o Brasil. Em 2000, a China produzia 100 milhões de toneladas de aço. Graças ao forte crescimento da economia local, chegou a um ritmo anualizado de 570 milhões de toneladas no início de 2008, quatro vezes mais do que em 2000. Preocupado com a inflação, o governo chinês introduziu medidas para desacelerar a economia. Em conjunto com a crise global, as medidas derrubaram a produção de aço para 420 milhões de toneladas no fim de 2008. Os analistas estimam que a China vai seguir produzindo entre 420 milhões e 450 milhões de toneladas de aço por ano, volume acima do de 2000, mas praticamente estável na comparação com o fim de 2008.

A demanda chinesa por soja – outro importante item da pauta de exportação do Brasil pela China – deve ser menos afetada. Para Trevor Houser, pesquisador do Instituto Peterson para Economia Internacional, o consumo de commodities agrícolas não sofre como as metálicas, já que a dieta alimentar da população varia muito menos que os ciclos de investimento. A soja é um produto importante na alimentação chinesa e sua substituição por outros alimentos é complicada. Os preços do grão, porém, devem permanecer baixos por conta da crise financeira, que reduziu a liquidez dos mercados.

O pacote de estímulo fiscal da China e a recuperação do mercado imobiliário local podem ajudar a sustentar o consumo de aço, cimento e cobre em 2009, evitando uma queda mais brusca da demanda pelo minério de ferro brasileiro. Mas o tamanho do impacto depende da eficácia do pacote, o que divide os analistas. O governo chinês anunciou US$ 586 bilhões em gastos para estimular a economia. Boa parte do investimento será destinado à infraestrutura, à recuperação das áreas afetadas pelo terremoto de Sichuan e à construção de casas populares.

“O declínio da demanda chinesa não será tão forte quanto alguns especulam, mas não é razoável esperar que os preços permaneçam no mesmo patamar dos últimos anos, porque os fundos de investimento inflaram as commodities”, disse Li Gang Liu, economista-chefe do BBVA do departamento de pesquisa econômica da China e ex-funcionário do Banco Central de Hong Kong. Para Houser, o Brasil deve se preocupar mais com o colapso dos preços nos últimos seis meses do que com uma eventual queda de demanda, que levaria à redução do volume exportado. “Os preços devem continuar fracos até que o apetite chinês se recupere, o que ainda pode demorar um ano.”

27/01/2009 - 10:54h Investimento estrangeiro é recorde

Em 2008, apesar da crise global, IED no País somou US$ 45 bilhões, melhor resultado desde 1947, segundo o BC

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Sérgio Gobetti – O Estado SP

O Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil bateu o recorde em 2008, atingindo a surpreendente cifra de US$ 45 bilhões, apesar de todo o pessimismo decorrente da crise financeira internacional. Foi o melhor resultado desde 1947, segundo os registros do Banco Central (BC).

O IED reúne todas as transações financeiras de entrada de dólares para investimentos produtivos ou aquisição de empresas no Brasil. Com esse resultado, o valor do IED mais do que compensou o déficit em transações correntes do ano passado, que atingiu US$ 28,3 bilhões, o pior resultado desde 1998.

A conta de transações correntes registra o saldo das operações de comércio, serviços e rendas do País com o exterior. Em2007, ela havia registrado superávit de US$ 1,5 bilhão.

Em 2008, a conta corrente foi deficitária tanto porque o saldo da balança comercial diminuiu – de US$ 40 bilhões em 2007 para US$ 24,7 bilhões no ano passado – quanto porque o déficit da balança de serviços piorou, com o aumento das remessas de lucros e dividendos ao exterior.

REMESSAS

No ano passado, as empresas multinacionais instaladas no Brasil aproveitaram os altos lucros obtidos no País e transferiram US$ 33,8 bilhões para tentar melhorar as contas de suas matrizes no exterior.

Levaram mais vantagem as empresas que fizeram essas remessas antes da desvalorização do real, a partir de setembro, mas muitas ainda faziam transferências em dezembro por causa da necessidade de ajudar as matrizes no fechamento de balanço anual.

Os analistas esperavam que, a partir do agravamento da crise financeira internacional, o movimento do IED acompanhasse a saída de dólares decorrente de remessa de lucros e dividendos e do refluxo de investimentos em títulos públicos e ações.

Nos últimos quatro meses, o Brasil perdeu mais de US$ 10 bilhões de investimentos especulativos. O IED, ao contrário, se manteve em alta e chegou a somar, em dezembro, US$ 8,1 bilhões – o segundo maior valor mensal da série do Banco Central.

Até mesmo o Banco Central foi surpreendido por esses números. Até agosto, quando o IED acumulava um valor de US$ 24,6 bilhões, projetava-se um ingresso de total de US$ 35 bilhões no ano – ou seja, mais US$ 10 bilhões. Desde setembro, entretanto, o movimento se intensificou e houve um ingresso de mais US$ 20,5 bilhões, principalmente para participação no capital de empresas.

“A despeito da crise, o investidor estrangeiro continua acreditando nos fundamentos da economia brasileira e essa credibilidade é disseminada por vários setores econômicos”, disse o chefe do Departamento Econômico do Banco Central , Altamir Lopes.

AGRICULTURA

O maior crescimento de Investimento Estrangeiro Direto ocorreu no setor de agricultura, pecuária e extração mineral, que pulou de US$ 4,7 bilhões em 2007 para US$ 13 bilhões em 2008. O alto valor de investimento verificado em dezembro (US$ 8 bilhões), por exemplo, foi influenciado por uma operação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que vendeu 40% da subsidiária Namisa para uma companhia formada por acionistas japoneses.

A venda da Namisa somou US$ 3,08 bilhões, segundo comunicado da CSN enviado à Bolsa de Valores de São Paulo. Mesmo descontando essa operação, o valor dos Investimento Estrangeiro Direto em dezembro foi substancial.

Altamir observou que esses recursos ingressaram no País pelo negócio, mas saíram em seguida em um investimento da CSN no exterior. Isso fez com que o Investimento Brasileiro Direto (IBD) somasse US$ 3,148 bilhões em dezembro.

Ou seja, essa operação teve um efeito nulo sobre o resultado global da balança de pagamentos, que terminou o ano com um superávit de US$ 2,9 bilhões. O balanço de pagamentos é resultado de todas as transações correntes e financeiras realizadas pelo País com o resto do mundo.

No ano passado, o Investimento Estrangeiro Direto ajudou o Brasil a ter um superávit financeiro ligeiramente maior do que o déficit corrente.

ONDE ESTÁ O DINHEIRO

Investimento Estrangeiro Direto (IED) nos principais setores, segundo levantamento do Banco Central

Extração de Minerais Metálicos: US$ 10,645 bilhões

Serviços Financeiros: US$ 5,109 bilhões

Metalurgia: US$ 4,984 bilhões

Comércio (Exceto veículos): US$ 2,564 bilhões

Produtos Alimentícios: US$ 2,226 bilhões

Atividades Imobiliárias: US$ 1,721 bilhões

Coque, derivados de Petróleo e Biocombustíveis: US$ 1,568 bilhões

Construção de edifícios: US$ 1,386 bilhões

Extração de Petróleo e gás natural: US$ 1,339 bilhões

26/01/2009 - 15:37h Investimento estrangeiro bate recorde em 2008, com o melhor resultado desde 1947

EDUARDO CUCOLO da Folha Online, em Brasília

Os investimentos estrangeiros no setor produtivo do país registraram em 2008 o valor inédito de US$ 45,06 bilhões. O resultado supera o recorde anterior, de 2007 (US$ 34,5 bilhões).

Esse é o melhor resultado da série histórica do Banco Central, iniciada em 1947. A previsão do BC para este ano é de investimentos no valor de US$ 30 bilhões.

“O investidor estrangeiro tem uma visão de longo prazo e vislumbra uma melhora no futuro”, diz o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.

O resultado superou em US$ 5 bilhões a previsão do BC para 2008 e foi impulsionado pelo resultado de dezembro. No mês passado, os investimentos estrangeiros somaram US$ 8,1 bilhões, o melhor resultado desde junho de 2007, quando foram de US$ 10,3 bilhões.

“Nesse mês de dezembro, nós tivemos uma operação no setor de mineração da ordem de US$ 3 bilhões, resultado de venda de uma parte de um empreendimento. A empresa que vendeu essa participação aplicou isso em sua filial no exterior”, afirmou Altamir.

Um consórcio de siderúrgicas sul-coreanas e japonesas comprou 40% da Namisa (National Minérios S.A.), vendida pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) por US$ 3,12 bilhões, pagos à vista. O dinheiro foi reinvestido pela empresa brasileira no Panamá.

Em janeiro, o BC já registra uma entrada de mais US$ 2,1 bilhões até o dia 26 e espera terminar o mês com US$ 2,5 bilhões.

Ações

Com a piora da crise, os investimentos estrangeiros em ações e títulos públicos terminaram o ano negativos em US$ 767 milhões. Os investimentos em ações ficaram negativos em US$ 7,6 bilhões, depois de registrarem uma entrada de US$ 26 bilhões em 2007. As aplicações em renda fixa, positivas em US$ 6,8 bilhões.

Impulsionados pelo processo de internacionalização das empresas brasileiras, os investimentos brasileiros no exterior chegaram a US$ 20,457 no ano, quase três vezes o resultado do ano passado (US$ 7 bilhões). Esse é o segundo melhor resultado da série, atrás apenas do valor de US$ 28,2 bilhões registrados em 2006.

O aumento dos investimentos estrangeiros atrai dólares para o país e ajuda a compensar o déficit nas transações correntes, que registraram em 2008 o pior resultado em dez anos.

“O investimento direto é mais que suficiente para compensar as transações correntes”, disse Altamir.

19/01/2009 - 09:10h BNDES conta com China para financiar projetos

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Sergio Leo – VALOR

Em segredo, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, busca no Oriente parte importante dos recursos para completar os US$ 100 bilhões que pretende desembolsar em financiamentos neste ano. No Palácio do Planalto, essa quantia é vista como dinheiro certo para bancar os projetos de desenvolvimento em 2009. No BNDES, quem aceita falar sob o tema, muito reservadamente e sem dar detalhes, assegura apenas que parte “importante” dos recursos do banco para este ano poderá vir do CDB. No caso, sigla de China Development Bank, o BNDES chinês.

Em dezembro, uma missão técnica do BNDES esteve na China, para conhecer melhor a economia chinesa e também para discutir com as autoridades os mecanismos de financiamento do CDB, que iniciou no mês passado uma reforma para poder operar como um banco comercial, investindo também em ativos reais e ações. O CDB tem sido pressionado para aumentar o retorno de seus investimentos, e as autoridades brasileiras acreditam que os projetos em infra-estrutura no Brasil podem ser resposta a esse tipo de pressão. Nesse namoro com a China, a recente desistência da Baosteel em instalar uma siderúrgica com a Vale no Espírito Santo é uma má notícia, pior do que aparenta.

Segundo os chineses, o projeto de instalar uma grande siderúrgica no Brasil tem quase oito anos, começou no Maranhão, onde atolou na briga entre os clãs políticos locais, e mudou-se para o Espírito Santo, graças à promessa do governo capixaba de ceder à empresa instalações consideradas ideais, em Anchieta, no litoral. Na sexta-feira, ao anunciar a desistência do projeto, a versão oficial, transmitida pela Vale, atribuiu à conjuntura negativa com desaquecimento na demanda mundial por aço. Meia verdade.

Como lembram interlocutores dos chineses, a nova usina só começaria a produção no fim de 2011, período em que, espera-se, possa ter sido superado o atual mergulho recessivo. Na decisão da estatal chinesa, pesaram mais do que se pensa as idas e vindas dos governadores na autorização do projeto. Há apenas dois meses, a Baosteel não dava sinais de rever a decisão do que seria sua primeira siderúrgica fora da China. Dias antes, o embaixador da China no Brasil, Chen Duqing, dizia a interlocutores no país que as atribulações da siderúrgica desanimavam a direção da Baosteel, e, pior, enviam péssimo sinal para outros potenciais investidores chineses.

“Os chineses reclamam muito das dificuldades de investir no Brasil e essa desistência da Baosteel é muito ruim”, confirma o secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, Rodrigo Maciel, que voltou há pouco tempo de Pequim. Lá, ouviu comentários preocupados sobre o caso da siderúrgica de instituições-chave, como a Academia de Ciências Sociais da China e o CCIIP, o Conselho Chinês para promoção de Investimento Internacional. “A Baosteel é emblemática na China; a má repercussão desse problema entre as empresas chinesas é muito grave.”

São coisas distintas a má sorte da Baosteel no Brasil e os entendimentos do BNDES com as autoridades chinesas para completar a necessidade de capital do BNDES. O BNDES, aliás, também mira outras fontes de financiamento: nesta semana volta da Índia uma missão técnica exploratória enviada na semana passada. As instituições financeiras chinesas e outras estatais deverão, nos planos de Luciano Coutinho, complementar fontes tradicionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Banco Mundial e o JBIC japonês. Com capital registrado de quase US$ 44 bilhões e uma carteira de quase US$ 300 bilhões em empréstimos, o gigantesco CDB encanta o BNDES.

O caso Baosteel, porém, demonstra as dificuldades dos investidores internacionais no país, que, como costuma enfatizar Chen Duqing, parece menos receptivo que a China ao capital estrangeiro. Muita burocracia, rigidez excessiva das regras e pouca informação são os males do Brasil. Palavra de chinês. “Eles se queixam da falta de informações em inglês, da burocracia, do custo: para montar um escritório de representação, o aporte mínimo é de US$ 200 mil”, diz Rodrigo Maciel.

O governo lançou iniciativas, como a agenda China, de prioridades na relação com o país, que ainda engatinha; e a Cosban, comissão de cooperação de alto nível que teve pouco avanço. A China incluiu o Brasil entre os nove países com quem mantém “diálogo estratégico”. Mas, enquanto organismo semelhante criado pela China com EUA tem, como representante americano, o poderoso secretário do Tesouro Henry Paulson, o Brasil nomeou para representá-lo um diplomata experiente e dinâmico, mas de pouco poder, o embaixador Roberto Jaguaribe.

Falta maior acompanhamento federal do que se faz nos Estados em relação à China, e o fiasco com a Baosteel serve de exemplo do desperdício de oportunidades. No início da década, começaram as negociações para instalação da siderúrgica com a Vale, no Maranhão. Grupos políticos locais, um liderado pelo senador José Sarney, o outro ligado ao então governador, José Reinaldo Tavares, acusam-se um ao outro pela demora na avaliação do projeto, que, após anos de discussões, teve sua localização vetada pelo atual governador, Jackson Lago, do PDT, por razões ambientais. Vale e Baosteel foram convidados pelo governo do Espírito Santo, e seus executivos chegaram a sobrevoar a área onde, menos de quatro meses mais tarde, as autoridades vetaram a localização do projeto, também por razões ambientais.

O vice-governador capixaba, Ricardo Ferraço, não acredita que haja outras razões para a desistência do projeto, além da alegada pela Vale, a retração do mercado. E garante que o risco de veto ambiental foi comunicado desde o início às empresas. Para os chineses, o que ficou, porém, foi a lembrança de um longo e frustrante processo, fracassado após o gasto de alguns milhões em estudos. O BNDES, que vê na China parte das respostas à crise global, deve ter esse caso em mente, ao tocar seu ambicioso plano de financiamento chinês do desenvolvimento.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

14/12/2008 - 11:35h ”É hora de medidas de exceção”

http://www.sergeicartoons.com/Cartoons/imagens/crise.jpg


David Friedlander – O Estado SP

 


http://decio.globolog.com.br/vale%20roger%20agnelli.jpgO presidente da Vale, Roger Agnelli, defende medidas de exceção para enfrentar a crise econômica global. Agnelli tem discutido o assunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem é um interlocutor privilegiado. Ele sugeriu a Lula a flexibilização temporária das leis trabalhistas, “para ganhar tempo até que a situação melhore”, e afirma que aceita abrir mão do próprio salário. Segundo ele, a proposta já foi apresentada também a alguns sindicatos.

Um dos executivos mais bem-sucedidos do País, Agnelli está no comando da Vale desde 2001. Segunda maior mineradora do mundo, a Vale tem faturamento superior a US$ 30 bilhões por ano, emprega mais de 60 mil pessoas e está presente em mais de 30 países. Observador privilegiado do cenário global, nesta entrevista Agnelli fala das dificuldades e dos planos da Vale para 2009, e brinca ao falar da própria sorte: “Eu pedi a Nossa Senhora, de quem sou devoto, e ela ajudou. Mas eu também corri muito atrás dos meus objetivos.” A seguir, os principais trechos da entrevista concedida na quarta-feira, horas antes de sua viagem para visitar clientes na Ásia.

Uma crise dramática como essa provoca nas pessoas medo de perder o emprego. Executivos do primeiro time como o sr. também têm esse tipo de preocupação? Isso passa pela sua cabeça?

Não, isso não passa pela minha cabeça. Estou tocando minhas coisas, fazendo o que precisa ser feito. Até porque já fiz bastante, não é? Quando cheguei à Vale, ela era a oitava empresa do mundo no setor de mineração. Hoje, é a segunda. Eu acho que ainda tenho muito para fazer.

Nesse tempo todo, o sr. teve a sorte de pegar um ciclo de prosperidade global. Agora, o sr. vai ter que se movimentar num ambiente muito desfavorável…

Para tirar proveito da sorte é preciso estar bem preparado. O crescimento da economia global ajudou todo mundo, mas ninguém aproveitou tão bem esse movimento quanto a Vale. Na indústria mundial de mineração, a Vale é a empresa que tem o maior volume de projetos para desenvolver, tem os melhores ativos e o maior caixa do setor. Apenas sorte não basta. Meu pai sempre dizia: ?Peça para Nossa Senhora e não corra atrás para ver o que acontece?. Eu pedi a Nossa Senhora, de quem sou devoto, e ela ajudou. Mas eu também corri muito atrás dos meus objetivos.

Como enfrentar a crise?

A Vale já vinha se preparando há muito tempo para o dia em que a situação virasse. Nos últimos anos, investimos em automação, em plataformas de informática, em novos processos industriais, no treinamento de pessoal. No começo do ano, sentimos que a euforia nos preços e na demanda não era sustentável. A partir de junho, tomamos algumas decisões duras. Uma foi a redução dos contratos com terceiros, que ficaram caros demais. Outra foi o aumento de capital de US$ 12,5 bilhões. Pusemos dinheiro para dentro de casa porque a gente não sabia quanto iriam custar os investimentos em 2009 e 2010. Não pretendemos desacelerar investimentos. O projeto é investir US$ 14 bilhões em 2009.

Mas a Vale acaba de demitir 1,3 mil pessoas, desativou minas…

Algumas minas voltarão a operar quando o mercado melhorar. Outras, nunca mais. São minas caras e de escala pequena. Elas só faziam sentido porque o preço do minério estava muito alto e a demanda era maluca. Quanto às demissões, elas não aconteceram só em razão da crise. As mudanças nos processos criaram sinergias e eliminaram funções. Até agora, graças ao crescimento acelerado, em vez de mandar embora, a gente contratava menos. Mas 2009 terá o crescimento limitado e tivemos de fazer o ajuste que até agora pudemos contornar. A maior parte dos demitidos era da área administrativa. Pena ninguém lembrar que a Vale contratou milhares de pessoas nos últimos anos. Entre demitidos e contratados, terminaremos 2008 com um saldo de 5 mil contratações.

A empresa vai continuar demitindo? E quando os 5,5 mil funcionários colocados em férias coletivas voltarem?

A gente coloca uma outra turma em férias coletivas. Depois outra. A gente pode levar isso por um certo tempo, mas tem limite. O que faremos quando todo mundo já tiver tirado férias? Isso tem limite. Eu tenho de manter a empresa saudável para que possa cumprir seus compromissos. O executivo que numa hora dessas for leniente com o ajuste, deixar de fazer o que precisa ser feito, vai comprometer o futuro da empresa. Se houver problemas para os quais a gente não tenha solução, vamos ter de demitir. Olha, estamos vivendo uma situação de exceção. Para lidar com ela, precisamos tomar medidas de exceção.

Que medida de exceção?

Eu tenho conversado com o presidente Lula no sentido de flexibilizar um pouco as leis trabalhistas. Seria algo temporário, para ajudar a ganhar tempo enquanto essa fase difícil não passa.

Quando o sr. conversou sobre isso com o presidente?

Falei disso na semana passada, ontem falei de novo. Estamos conversando com os sindicatos também. O governo e os sindicatos precisam se convencer da necessidade de flexibilizar um pouco as leis trabalhistas: suspensão de contrato de trabalho, redução da jornada com redução de salário, coisas assim, em caráter temporário.

Qual foi a reação do presidente?

Ele só ouviu. Sei que estamos propondo algo muito difícil. Mas é preciso entender que esta não é uma situação normal. É uma situação de exceção, e para lidar com ela precisamos tomar medidas de exceção. Imagine uma empresa exportadora, de qualquer setor. De repente, o mercado sumiu. Se a empresa for intensiva em mão-de-obra e a crise durar muito tempo, ela terá de demitir. Se puder flexibilizar de alguma maneira, você reparte um pouco o prejuízo e o impacto será menor.

E o sr.? Aceitaria reduzir seu salário e seu bônus?

Defendo isso para todos os níveis, eu inclusive. Aceitaria temporariamente, até a situação melhorar.

O sr. fala em dividir o prejuízo, mas a Vale captou US$ 12,5 bilhões antes da crise estourar. Já que está tão capitalizada, a empresa não poderia usar parte desse dinheiro para segurar as pessoas?

A Vale precisa gerar mais emprego, crescer, continuar se posicionando no mercado mundial,continuar sendo lucrativa para sobreviver no longo prazo. A Vale não está fazendo ajustes por ganância ou porque é malvada. É uma questão de necessidade. Nesses últimos dois meses, e provavelmente pelos próximos dois, a indústria siderúrgica vai trabalhar com 50% da capacidade de produção. Se ela não compra, o que vamos fazer com o minério? A mineradora Rio Tinto (da Austrália), nossa concorrente, anunciou a demissão de 14 mil pessoas. Todo mundo que depende do mercado internacional teve impacto.

Quais as prioridades do plano de investimentos para 2009?

Dos US$ 14 bilhões previstos, cerca de 80% serão investidos no Brasil. Em minério de ferro, fertilizantes, cobre, carvão e, principalmente, em logística. Nossos planos de longo prazo não foram alterados, porque acreditamos que os fundamentos da economia não mudaram. O mundo cresceu nos últimos anos por causa da entrada de milhões de pessoas no mercado de consumo. Isso aconteceu na China, na Índia, no Brasil. No curto prazo, a crise financeira vai nos forçar a um ajuste, mas isso não será suficiente para anular as conquistas que o mundo alcançou.

A Vale pode comprar uma empresa?

A verdade é que tem muita gente à venda neste momento. Muita, muita gente. E pouco comprador. Quase não tem comprador. Mas a prioridade é crescimento orgânico, é tocar nossos projetos.

Quanto tempo vamos esperar até que a situação melhore?

A situação é a seguinte: nosso problema hoje não é preço, é a falta de demanda. Nossos clientes não querem comprar, querem primeiro gastar seus estoques. Eles entendem que daqui a pouco os preços vão cair. Eu acho que esse processo dura mais três, quatro meses. Em março ou abril, a situação deixa de piorar, porque as empresas precisarão recompor os estoques. Assim, acho que ainda no primeiro semestre as coisas começam a voltar ao normal. É claro que posso estar errado. Pode ser que continue tudo ruim. Se isso acontecer, vamos ter de rever tudo. Mas acho que melhora. Teremos fatores novos ajudando.

De onde o sr. espera essa ajuda?

Tenho a impressão de que a partir de janeiro a Europa deve parar de piorar, a posse de Barack Obama nos EUA dará uma cortada na onda de pessimismo e a China começa a reagir. A China entrou num processo de retração forte, mas os fundamentos não mudaram e o governo de lá tem todas as opções para revigorar a economia: dinheiro, reserva cambial, mercado interno.

Um episódio muito comentado no meio empresarial este ano foi a queda-de-braço entre a Vale e as siderúrgicas chinesas. A empresa não errou ao forçar um aumento no preço do minério exportado para a China apesar da crise?

Foi antes da crise. No começo do ano, acertamos com os clientes um reajuste de 71% no preço do minério de ferro. Era contrato de um ano, mas dissemos que, se o preço a ser fechado com as siderúrgicas australianas (concorrentes da Vale) fosse muito maior que o nosso, a gente queria ter o direito de reavaliar. Como aconteceu isso, resolvemos fazer uma mudança: igualar o preço cobrado das usinas asiáticas com o das usinas européias – tradicionalmente maior. Ou seja, cobrar dos asiáticos o mesmo que pagam os europeus. Os japoneses, os coreanos, os taiwaneses e as grandes siderúrgicas chinesas concordaram. Começamos a assinar os contratos. Quando chegou a vez dos chineses, já em agosto, o mercado começou a mudar. As pequenas usinas chinesas passaram a fazer barulho porque estavam altamente estocadas e não concordavam com a unificação de preço. Em setembro, explodiu a crise na China, a produção começou a cair e os chineses voltaram atrás.

Qual é a situação hoje?

Os japoneses, os coreanos e os taiwaneses pagaram o preço novo três meses. Depois voltamos ao valor antigo, para não criar diferença com a China. Agora, os japoneses, os coreanos e os taiwaneses continuam honrando seus contratos. Os europeus, com exceção do Mittal (a siderúrgica Arcelor Mittal), continuam comprando a quantidade de minério prevista em contrato. Os chineses não estão retirando o minério, querem negociar preço, a visão deles é mais de curto prazo. Eles romperam contratos com armadores, com produtores de carvão, com mineradoras, com produtores de níquel.

E agora eles querem reduzir o preço do minério em mais de 80%…

Eles querem tirar 82% não do preço, mas do aumento concedido nos últimos dois anos. Querem voltar aos valores de 2006, o que significaria queda de 40% no preço. Não tem o menor cabimento. E tem mais: temos contratos até abril com as siderúrgicas chinesas. Quando terminarem os estoques, eles vão tentar, mas acho que dificilmente vão conseguir se abastecer em outros mercados. Estamos fazendo um esforço para sair dessa situação. É preciso pensar a longo prazo. Se você pensar muito no curto prazo, acontece o que aconteceu recentemente com vários bancos de investimento: eles se arrebentaram.

Os preços das commodities subirão novamente?

Elas não voltam ao nível de antes da crise. Aquilo não era sustentável, aconteceu em razão do excesso de liquidez e isso acabou. Também não podem ficar no nível atual. Não pode sair do forno e ir direto para o freezer: nessas condições, qualquer pirex pode quebrar.

Com a proximidade da sucessão na presidência do Bradesco (marcada para março do ano que vem) surgiu o rumor de que talvez o sr. voltasse para o banco para suceder Márcio Cypriano…

Voltar ao Bradesco? Só se for para assistir à posse do próximo presidente. Vou lá bater palmas para ele. Eu deixei o Bradesco em 2000, não tenho nada a ver com a sucessão no banco. Estou feliz aqui na Vale. E acho que os acionistas também estão.

27/11/2008 - 08:54h Queda do consumo de aço na China provoca calafrios globais

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=iuy3Za0hzJd4

Andrew Batson, The Wall Street Journal – VALOR

A indústria chinesa do aço, que na fase de alta dos últimos anos se tornou a maior do mundo, enfrenta agora um longo e tenebroso inverno.

A demanda está caindo tanto no mercado doméstico quanto no externo. As exportações de aço do país, que vinham aumentando a um ritmo extraordinário de 60% ao ano, estão em queda. O declínio das exportações chinesas de aparelhos domésticos e maquinário reduziu a demanda pelo aço. O esfriamento no mercado imobiliário levou a uma forte queda na construção, deprimindo ainda mais a demanda de aço.

A atual baixa na siderurgia chinesa é a mais acentuada e mais profunda em pelo menos uma década, com uma queda de 17% na produção em outubro. Alguns executivos acreditam que os bons tempos do setor nunca mais vai voltar.

“Acreditamos que a época de altos lucros para as produtoras de aço já chegou ao fim”, disse Yang Siming, presidente do conselho da Nanjing Iron & Steel Group, uma siderúrgica de tamanho médio.

Com o rápido crescimento da indústria do aço no país nos últimos anos – hoje ela é cinco vezes maior do que na última contração do mercado e produz mais de um terço do aço consumido no mundo – a atual queda está causando impacto no país e no mundo.

A tendência ainda pode se inverter, claro, se a economia chinesa recuperar o recente furor. O governo está tomando medidas nesse sentido. Além de um enorme pacote de estímulo anunciado este mês, ontem o banco central chinês cortou juros, em mais uma tentativa de estimular a economia.

Mas o fim do túnel ainda parece longe, para desespero de grandes mineradoras como a Companhia Vale do Rio Doce, a BHP Billiton Plc. e a Rio Tinto Plc. Elas foram prejudicadas pelo colapso na demanda chinesa por minério de ferro e outros minerais utilizados na fabricação do aço. Produtores de carvão, que é consumido em grandes quantidades na indústria siderúrgica, também perderam um grande mercado com o esfriamento chinês. Com o declínio nos preços e fraqueza na demanda, a BHP está se concentrando agora em preservar suas finanças. Na terça-feira, a empresa abandonou sua proposta de comprar a Rio Tinto.

A queda na demanda também obrigou os fabricantes de aço de outros países asiáticos a cortar a produção e baixar os preços.

A japonesa Nippon Steel Corp., maior produtora mundial de aço depois da ArcelorMittal e dona de 24% da Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais SA (Usiminas), informou que aumentará os cortes na produção de 1 milhão para mais de 2 milhões de toneladas no segundo semestre fiscal que termina em março e não exclui a possibilidade de mais cortes no futuro.

A China Steel Corp., de Taiwan, informou que no primeiro trimestre de 2009 vai cortar os preços dos produtos de aço numa média de 22,56% para o mercado doméstico, que consome 75% de sua produção. Trata-se do primeiro corte em quase três anos. Essa medida se segue a onze trimestres consecutivos de alta de preços.

A China Steel também informa que sua produção em 2008 deve ficar cerca de 10% abaixo do patamar do ano passado, de 10,2 toneladas. A empresa também comunicou que no primeiro trimestre planeja fechar uma de suas fornalhas para manutenção, o que significa outro corte de 25% na produção.

Na Índia, os preços do aço baixaram em cerca de um terço desde julho, e caíram pela metade desde o início do ano.

As fábricas de aço indianas, incluindo a estatal Steel Authority of India, cortaram os preços entre 15% e 20% este mês, e muitos analistas acreditam que haverá outros cortes em breve.

Enquanto isso, as importações de aço em outubro diminuíram em um terço em relação ao mês anterior, segundo dados do governo indiano. Analistas dizem que o aço importado ainda é 5% a 10 % mais barato, em vista da queda nos preços do aço chinês.

A atual baixa também significa menos negócios para os portos, ferrovias e empresas marítimas que transportam commodities como carvão e minério de ferro. O Índice Báltico de Cargas Secas, ou Baltic Dry, que mede o preço do transporte marítimo de produtos a granel, já caiu mais de 90% em relação a junho deste ano, em grande parte devido à expectativa de menor demanda na China.

Uma retração na indústria do aço poderia ajudar a mudar o perfil da economia chinesa, que nos últimos anos tem se concentrado em indústrias pesadas, grandes consumidoras de energia. A expansão da produção de aço foi a base para a transformação da China em um gigante industrial, mas também contribuiu muito para o explosivo aumento no consumo de carvão e petróleo no país e suas emissões de poluentes e gases de efeito estufa. Uma indústria do aço de menor envergadura poderia significar uma China mais limpa, mais eficiente e que exerça menos pressão sobre os recursos mundiais.

“Se o crescimento da produção do aço se reduzir, conforme a tendências recente, para menos de 10%, e houver uma saudável consolidação do setor, até 2012 a China terá economizado mais de um bilhão de toneladas de carvão, fazendo um corte do tamanho da França no seu total anual de emissões de dióxido de carbono”, disse Trevor Houser, analista de energia do Rhodium Group.

(Colaboraram Yuzo Yamaguchi, Alex Pevzner, Arpan Mukherjee e Miho Inada)

04/11/2008 - 13:27h Aumenta pressão sobre o minério de ferro

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Robert Guy Matthews, The Wall Street Journal – VALOR

As grandes mineradoras, numa súbita reviravolta, estão se preparando discretamente para cortes significativos nas próximas negociações de preço com as siderúrgicas mundiais, devido ao enfraquecimento da demanda do setor automotivo, de construção civil, infra-estrutura e eletrodomésticos.

Embora os contratos só devam ser assinados ano que vem, há indícios de que as siderúrgicas vão barganhar por um corte de 20% a 40% em relação ao preço fechado este ano com a BHP Billiton, a Rio Tinto e a Companhia Vale do Rio Doce, que juntas têm 75% do minério de ferro do mundo. Isso representaria uma virada dramática em comparação a este ano, em que as mineradoras conquistaram reajuste de 85% e os preços à vista mais do que triplicaram, para US$ 200 a tonelada.

Numa tentativa de evitar que os preços desabem, as mineradoras estão cortando rapidamente a produção. No fim de semana, a Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo, começou a cortar 30 milhões de toneladas anuais, o que resultará em demissões e fechamento de minas. Diante da incerteza sobre quanto durará o esfriamento, a Vale não quis informar quando ou se pretende reiniciar a extração nessas minas.

“Acreditamos que esta decisão, neste momento, contribuirá para minimizar riscos de maiores danos no futuro, sobretudo no que diz respeito aos nossos empregados e às comunidades onde possuímos operações”, informou a Vale em comunicado.

Por enquanto, a BHP e a Rio Tinto já informaram que pretendem continuar com a produção atual, mas não está claro se continuarão resistindo caso as vendas e os preços das siderúrgicas continuem caindo.

“Não temos planos de cortar”, disse Alberto Calderon, diretor comercial da BHP. “Até o momento estamos entregando todos os nossos contratos.”

O diretor-presidente da Rio Tinto, Tom Albanese, disse mês passado que a empresa estava reavaliando as despesas de capital diante da desaceleração econômica mundial. A produção de ferro, entre outras coisas, pode ser reajustada.

O enfraquecimento da demanda por ferro pode colaborar com a oferta da BHP para comprar a Rio Tinto, que tem resistido. As autoridades da União Européia devem divulgar esta semana as condições para aprovarem a fusão, entre as quais a de que a BHP venda produção equivalente a cerca de 50 milhões de toneladas de ferro. As autoridades do mercado em todo o mundo estão preocupadas com um possível controle excessivo da BHP-Rio Tinto sobre a oferta mundial de minério de ferro e a insistência por preços mais altos. Diante do declínio na demanda e na cotação do ferro, não está claro se a BHP conseguirá se desfazer de tanta capacidade de produção.

O preço do ferro à vista ficou recentemente abaixo do preço dos contratos, revertendo uma tendência dos últimos anos. O ferro era vendido ontem a cerca de US$ 70 a tonelada no mercado à vista. Os preços de longo prazo estão na faixa dos US$ 80 a US$ 90 a tonelada. Um fator crucial nesse declínio é o enfraquecimento da demanda por aço, cujo preço do produto de referência, o laminado a quente, caiu cerca de um terço.

A associação de siderúrgicas da China informou que a produção será cortada em 20%. A ArcelorMittal, maior siderúrgica do mundo em produção, já começou a reduzir em 15% a produção de algumas de suas unidades. Amanhã, durante a divulgação de seus resultados, ela também deve anunciar novos cortes de produção diante do contínuo enfraquecimento mundial de setores como o automotivo e o de construção, entre outros.

Antes da crise de crédito, as siderúrgicas pressionavam por negociações antecipadas com as produtoras de minério de ferro, na esperança de fechar um preço menor e garantir o suprimento. Os contratos geralmente são assinados em abril. Agora os produtores querem esperar para o caso de a demanda se recuperar. Os analistas do setor, entretanto, não prevêem que os preços ou a demanda se recuperem antes de meados de 2009, o que fornece às siderúrgicas mais poder de negociação e melhores chances de obter preços menores.

“Nossa visão é que o preço do minério vai cair 20% no ano que vem”, disse Alex Hacking, analista do Citigroup Investment Research.

25/08/2008 - 11:19h O centro não é a nova estatal

http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/foto/0,,14724740-EX,00.jpg

Ribamar Oliveira, O Estado de São Paulo

email: ribamar.oliveira@grupoestado.com.br

A partir de 2010, o Brasil se tornará exportador de petróleo – um feito inimaginável uma década atrás. É importante observar que o País alcançará o status de exportador de petróleo antes mesmo de explorar as enormes reservas da camada do pré-sal. Sem contar o pré-sal, a Petrobrás vai produzir cerca de 2,8 milhões de barris de óleo condensado por dia em 2015, segundo estimativa da empresa.

Como a demanda brasileira prevista para 2015 é de 2,3 milhões de barris de óleo ao dia, a estatal poderá vender ao exterior 500 mil barris por dia de petróleo, ou algo como 18% de sua produção total. Estimando que o preço do barril de petróleo de longo prazo fique em torno de US$ 100, o excedente exportável pela Petrobrás permitirá uma receita anual de cerca de US$ 18 bilhões, o que elevará o superávit comercial do País e ajudará a valorizar o real.

Essa realidade será potencializada com o início da exploração comercial da camada do pré-sal, onde os especialistas do mercado estimam existir algo entre 50 bilhões e 70 bilhões de barris de petróleo. Para se ter uma idéia do que isso significa, as reservas atuais do Brasil estão em torno de 14 bilhões de barris equivalentes (óleo e gás). Se as estimativas se confirmarem, o País passará a ocupar uma posição de destaque entre os 10 maiores produtores de petróleo do mundo.

Somente o campo de Tupi, onde a Petrobrás já dimensionou reservas de 5 bilhões a 8 bilhões de barris, produzirá cerca de um milhão de barris de óleo por dia, antes do final da próxima década. Em Tupi, a Petrobrás planeja instalar 11 plataformas com capacidade para produzir 100 mil barris diários cada uma. Por isso, a receita do Brasil com o petróleo poderá ser acrescida em US$ 50 bilhões ao ano ainda na próxima década.

Os economistas costumam falar da “maldição do petróleo” e de “doença holandesa” quando se referem aos efeitos negativos que as receitas dos recursos naturais podem ter sobre toda a economia de um país. Na década de 1970, o preço do gás natural apresentou substancial elevação. Como era um grande produtor de gás, a Holanda viu suas receitas aumentarem muito, o que provocou forte valorização da moeda local (na época, o florim). A valorização cambial afetou as outras exportações holandesas, pois os seus produtos perderam competitividade.

O petróleo também é chamado de “maldito” porque os grandes produtores mundiais nunca conseguiram desenvolver as suas indústrias, nem mesmo aquela relacionada à atividade. O risco que o Brasil corre, portanto, é de que as grandes receitas com o petróleo resultantes da exploração da camada do pré-sal valorizem o real e, com isso, as demais atividades industriais sejam desestimuladas. O medo é que ocorra uma desindustrialização do País.

Mas a “doença holandesa” não é uma fatalidade para os países ricos em recursos naturais. Ela pode ser evitada, como mostrou a Noruega. O governo brasileiro namora o modelo norueguês de exploração de petróleo, que usa uma empresa 100% estatal para administrar os recursos de suas reservas. Aquele país também tem uma empresa de economia mista (a Statoil), nos moldes da Petrobrás. O debate no Brasil passou a ser em torno da criação de uma empresa estatal, quando isso não é o mais importante.

Depois que descobriu as imensas reservas do mar do Norte, a Noruega conseguiu desenvolver sua indústria ligada ao petróleo, com base na proteção governamental aos setores industriais domésticos responsáveis pelo fornecimento de equipamentos, como mostrou a série de reportagens do jornalista Sérgio Gobetti, publicada pelo Estado.

O governo da Noruega obrigou os operadores privados dos campos de petróleo a usar fornecedores noruegueses de equipamentos nas diversas fases de desenvolvimento e produção. Uma pequena ilha habitada por pescadores descendentes de vikings, chamada de Fosnavag, tornou-se um dos principais centros de construção de navios e embarcações usadas na extração de petróleo.

É essa questão que deve estar no centro do debate em torno das reservas de petróleo do pré-sal. O desafio brasileiro é desenvolver a sua indústria ligada ao petróleo. “O Brasil precisa fortalecer sua indústria naval e de equipamentos para a exploração do petróleo, ao mesmo tempo em que amplia a sua capacidade de refino”, sintetizou o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e atual consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

A produção de embarcações, de sondas e demais equipamentos para a exploração e refino de petróleo vai dar um impulso considerável, lembrou Gomes de Almeida, à indústria siderúrgica brasileira e à indústria de bens de capital. Segundo ele, o Iedi vai apresentar sugestões ao governo. “É preciso reabrir a discussão sobre a política industrial, na perspectiva de exploração do pré-sal”, defendeu.

Para ele, o governo precisa oferecer apoio financeiro aos empreendimentos por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e conceder incentivos fiscais, que possam atrair os investidores estrangeiros. “A política para a indústria do petróleo precisa se antecipar a qualquer decisão sobre o pré-sal”, aconselhou.

05/05/2008 - 10:20h Aquecido, setor de construção civil lidera criação de vagas

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Trabalhadores atuam em obra da construção civil em Brasília (Foto: Roberto Fleury/UnB Agência)

VALOR

O setor de construção civil liderou a criação de vagas com carteira assinada no país no primeiro trimestre de 2008, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Do saldo de 554,4 mil postos de trabalho registrados no país entre janeiro e março, 99,6 mil foram no setor da construção. O número é 189% superior às vagas criadas no primeiro trimestre de 2007. Com o crescimento explosivo, o setor passou a responder por 18% da abertura de vagas de emprego formais no país, ante 8,6% no mesmo intervalo do ano passado.

“A indústria de construção pesada está muito aquecida. Só para as obras no Rio Madeira serão contratadas 9 mil pessoas”, diz Paulo Lacerda de Melo, vice-presidente de engenharia da Construtora Norberto Odebrecht, que atualmente conta com 51 mil funcionários. Antonio de Sousa Ramalho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP) estima que no total as obras das duas hidrelétricas do Madeira exigirão a contratação de 31 mil profissionais da construção civil neste ano e em 2009. Para a construção do novo porto em Peruíbe (SP), serão necessários outros 30 mil operários. A expectativa é de que o setor registre um crescimento de 10,2% em 2008, considerando os investimentos já anunciados de R$ 180 bilhões em novos projetos, dos quais 45% são de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “Existe uma falta de 200 mil profissionais qualificados para o setor de construção civil no país”, diz Ramalho.

Com a demanda por empregados aquecida, o setor da construção ultrapassa a área agrícola na criação de vagas no país. De janeiro a março, o saldo de criação de empregos formais no campo foi de 48,7 mil, 3,6% abaixo do registrado no primeiro trimestre do ano passado. O resultado está associado ao aumento do grau de mecanização da colheita e do fato de a safra de cana-de-açúcar não ter sido antecipada neste ano, como ocorreu em 2007. Até março, o setor agrícola respondeu por 8,8% do saldo de empregos criados no país, quase quatro pontos percentuais abaixo da participação que tinha no ano passado.

Entre os setores que registraram maior incremento na criação de postos de trabalho está a indústria de transformação, que apresentou um aumento de 32,8%, totalizando 153 mil novas vagas. No trimestre, o setor respondeu por 27,6% do saldo de vagas criadas no país, participação pouco inferior aos 28,8% verificados no mesmo intervalo de 2007. “Os setores metalúrgico, de tecnologia da informação, construção naval e siderurgia são os que mais buscam profissionais com formação no mercado. Muitos deles pedem diariamente ajuda ao governo para que qualifiquem os trabalhadores. Em alguns casos, pode-se dizer que se vive um apagão de mão-de-obra qualificada”, afirma Ezequiel Nascimento, secretário de Políticas Públicas de Emprego do Ministério do Trabalho e Emprego.

Ricardo Amorim, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), observa que a indústria havia perdido espaço enquanto empregadora nos anos 80 e 90, voltando a recuperar participação mais expressiva nesta década. “O que se percebe, de 2007 para cá, é que a demanda por trabalhadores cresceu rapidamente. No ano passado faltou mão-de-obra especializada para determinadas áreas e neste ano esse quadro ainda deve se manter”, afirma. De acordo com estimativas do Ipea, os setores que apresentam maior número de vagas em aberto são a indústria química e petroquímica (com um déficit de 25,4 mil trabalhadores), de produtos de transporte (23,9 mil), de produtos mecânicos (21,4 mil) e de minerais metálicos (15,8 mil).

“A maior demanda hoje não atendida pelo mercado é por trabalhadores com formação técnica, resultado da falta mesmo de cursos profissionalizantes na rede de ensino pública”, avalia Deyse Gomes, diretora de educação e desenvolvimento de pessoas da Vale. Segundo Deyse, faltam técnicos nos diversos segmentos que compõem a cadeia siderúrgica. Nos últimos três anos, a empresa investiu na formação de 18 mil profissionais de nível técnico, dos quais 5 mil foram incorporados à companhia e o restante foi absorvido por outras empresas ligadas à Vale. “Foi a maneira que a empresa encontrou de garantir oferta de mão-de-obra qualificada para os projetos que realiza”, diz Deyse. Até 2012, a Vale estima criar 62 mil empregos diretos e outros 152 mil indiretos no país para a realização de seus projetos de expansão, sendo 7 mil vagas dentro da empresa neste ano. Para isso, a Vale está destinando parte do orçamento de R$ 59 bilhões na realização de cursos em parceria com universidades, Senai e Cefets para qualificar a mão-de-obra disponível.

No primeiro trimestre deste ano, apenas dois setores reduziram a sua participação na criação de novas vagas. O segmento de serviços registrou um incremento de 26,6% no total de postos de trabalho gerados no país, o equivalente a 233,8 mil. No período, o setor respondeu por 42,2% das novas contratações, 4 pontos percentuais abaixo do registrado nos três primeiros meses do ano passado.

O comércio também arrefeceu o seu ritmo de contratações neste ano. No trimestre, o número de novas vagas ampliou-se em 30,7%, gerando um saldo de 19,3 mil postos. No período – um dos mais fracos para o comércio varejista – , o setor respondeu por 3,5% da geração de postos de trabalho, ante 3,7% em igual intervalo do ano passado. (CB)

02/04/2008 - 03:56h China já se prepara para crescimento de um dígito

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Andrew Batson, The Wall Street Journal, de Pequim – VALOR

A economia chinesa está finalmente perdendo furor.

O investimento em fábricas e infra-estrutura, há muito o principal motor de crescimento do país, começou a enfraquecer. Está mais difícil conseguir financiamento. As construtoras, em particular, sentem os efeitos dos limites ao crédito impostos pelo governo no final de 2007. Algumas empresas, apertadas pela alta de preço de matérias-primas, estão divulgando lucro menor, o que as deixa com menos caixa para financiar expansão.

Esse desaquecimento das bolhas especulativa e de investimento é algo que o governo da China buscava há algum tempo, sem muito sucesso. Agora, os efeitos já aparecem nos mercados. Os preços de imóveis se estabilizaram, após os fortes ganhos do ano passado, e a Bolsa de Xangai está 46% abaixo do recorde atingido em outubro.

A modesta desaceleração que as autoridades conseguiram na economia interna ocorre num momento em que há incertezas por todo o mundo. O crescimento das exportações chinesas tem diminuído há meses, à medida que se enfraquece a economia dos Estados Unidos, e é pouco provável que as vendas ao exterior ajudem muito a expansão econômica da China de uma maneira geral neste ano.

“No total, todos esses fatores já começam a ter impacto no crescimento. Já há evidências de que as empresas menores estão sentindo bastante”, diz Qu Hongbin, economista do HSBC em Hong Kong.

Os dados econômicos da China para os primeiros dois meses deste ano mostram desaceleração tanto no lado externo (o crescimento das exportações ficou abaixo de 20% pela primeira vez nos últimos anos) quanto no interno. Embora a economia continue em forte expansão, e alguns setores estejam resistindo bem, os números ainda apontam para crescimento bem mais lento no primeiro trimestre deste ano. A magnitude da redução só ficará mais clara quando a China divulgar seu Produto Interno Bruto (PIB) do período, dia 17.

“A questão crucial é como as pessoas vão reagir”, diz Qu. “Quantas pessoas estão pensando sobre uma redução significativa do crescimento na China?”

O Banco Mundial acaba de reduzir duas previsões para a China à luz da deterioração da economia dos EUA. Agora, prevê que o crescimento de 2008 cairá para 9,4%, dois pontos percentuais abaixo do de 2007. Ainda é muito para os padrões de qualquer outra economia, mas seria um ajuste para a China, após cinco anos seguidos com ganhos de 10% ou mais.

“Uma redução do crescimento para taxas de um dígito vai chocar os mercados e pode deflagrar um recuo dos preços de combustíveis e commodities industriais”, disse Carl Weinberg, economista-chefe da High Frequency Economics nos EUA, num relatório de análise distribuído esta semana.

Parte do enfraquecimento este ano foi devido ao mau tempo. Tempestades de neve em várias regiões do país interromperam o transporte e fecharam lojas e fábricas no fim de janeiro e início de fevereiro. Acredita-se que isso tenha reduzido temporariamente o crescimento no começo do ano. Indicadores preliminares mostram alguma recuperação em março.

Mas, segundo outros indicadores, a economia chinesa pode estar freando mais do que os números oficiais indicam. Por exemplo, a medida referencial de gastos de capital, chamada investimento urbano em ativos fixos, subiu 24,3% no primeiro bimestre, em relação ao início de 2007. É uma queda pequena em relação ao crescimento de 25,8% um ano atrás. Mas os números divulgados pelo Escritório Nacional de Estatísticas não são corrigidos pela inflação, que tem subido. Levando-se em consideração a alta de custos, o investimento cresceu 18% ou menos este ano, depois de ficar entre 23% e 25% na maior parte do ano passado. Analistas culpam o enfraquecido mercado imobiliário, assim como a redução da expansão industrial por parte de exportadores às voltas com menor demanda nos EUA.

A alta das matérias-primas também pode espremer as margens de lucro das empresas. A pesquisa anual com indústrias feita pela agência de estatísticas concluiu que os lucros no primeiro bimestre de 2008 subiram 16,5% em relação a um ano atrás; mas em 2007 esse porcentual chegou a 36,7%. Entre empresas de capital aberto, tanto na indústria pesada quanto na leve, mesmo as de bom desempenho agora estão sofrendo.

A Weiqiao Textile, produtora de tecidos e linhas negociada na bolsa de Hong Kong, divulgou esta semana queda de 20% no lucro líquido de 2007. O presidente do conselho, Zhang Hongxia, culpou a queda do dólar, as mudanças na lei tributária do país e a alta das matérias-primas. A Baoshan Iron & Steel também divulgou recentemente uma queda inesperada de 2,8% no lucro líquido do ano. A maior siderúrgica chinesa já elevou preços de vários produtos este ano para tentar compensar a alta do minério de ferro e dos combustíveis.

Esses primeiros sinais de esfriamento da economia não bastaram para os líderes chineses relaxarem o combate à inflação, que no acumulado de 12 meses até fevereiro chegou a 8,7%, maior nível em dez anos. Em resposta, o Banco do Povo da China, o banco central, fez a moeda local, o yuan, subir 4,1% ante o dólar no primeiro trimestre, a maior alta desde que o atrelamento informal ao dólar foi encerrado, em 2005. O BC divulgou nota na segunda, após sua reunião trimestral, dizendo que vai manter o “aperto” monetário e alertou que pressões inflacionárias ainda são fortes e que o investimento pode voltar a crescer mais tarde.

Contudo, o premiê Wen Jiabao também tem enfatizado que acompanha atentamente a economia mundial e que o governo está preparado para mudar a política com rapidez, se necessário. Depois de um inesperado superávit fiscal em 2007, o governo tem recursos de sobra para estimular o crescimento. Muitos analistas já prevêem uma expansão dos gastos em infra-estrutura ainda este ano.

“Precisamos achar um equilíbrio entre desenvolvimento econômico e controle da inflação”, disse em março Wen, que prometeu criar 10 milhões de empregos urbanos este ano. “Precisamos manter um certo ritmo de crescimento econômico para resolver a pressão do desemprego.”

31/03/2008 - 14:13h Gerdau quer comprar usina na França

O grupo Gerdau é “oficialmente” candidato à compra da usina metalúrgica de Gandrange, que pertence a Arcelor Mittal, o maior grupo siderúrgico do mundo. A notícia foi dada neste domingo pela Agência France Press, que cita como fonte Alain Sthal, responsável pelas negociações para tentar salvar o emprego de 595 trabalhadores.

Com um quadro de 1.108 funcionários, a usina de Gandrange corre o risco de ser parcialmente fechada, pois a Arcelor Mittal pretende transferir parte da produção a outros países. O caso tomou tamanha amplitude que o próprio presidente Nicolas Sarkozy visitou o lugar em fevereiro para garantir que o Estado está “pronto para investir na usina, com ou sem a Mittal”. A ministra da economia, Cristine Lagarde, se pronunciou hoje, garantindo que o “objetivo principal é salvar os empregos”.

A usina de Gandrange fica no nordeste da França e tem capacidade para produzir 1,04 milhão de toneladas de aço por ano. Ainda não existe informação sobre o valor que seria pago, mas segundo a France Press, o grupo brasileiro é, por enquanto, o único interessado na compra. A assessoria de imprensa da Gerdau, sediada em Porto Alegre, não tem nenhuma informação a respeito da transação. Fonte Mário Camera, Blog À francesa.