29/10/2008 - 17:03h Apertem os cintos

Blog de Paul Krugman

The mother of all currency crises

I invented currency crises. No, really — not the thing itself, of course, but I did publish the first paper in the modern academic literature on the subject, back in 1979. And as I like to say, business has been good ever since.But I never anticipated anything like what’s happening now.I’ve been reading reports from Stephen Jen, a former student of mine who’s now the chief currency strategist at Morgan Stanley. He points out that since the fall of Lehman, we’ve been seeing clear signs of currency crises throughout the world of emerging markets, including Eastern Europe. This time, it’s not an Asian crisis or a Latin American crisis, it’s a global crisis. He adds,

So far,the US financial sector has been the epicentre of the global crisis. I fear that a hard landing in EM assets and economies will become the second epicentre in the coming months, with very damaging feedback effects on the developed world.

Right now I feel like the guy who was told, “Cheer up — things could be worse!” So he cheered up, and sure enough, things got worse.

24/10/2008 - 00:20h ‘Economist’: indústria dos fundos ‘hedge’ vai encolher

Para revista britânica, setor terá de resolver suas falhas estruturais para manter ganhos

O GLOBO

http://www.economist.com/images/covers/currentcoverrow.jpgLONDRES. Na edição que chegou às bancas britânicas ontem, a revista “Economist” analisa o desempenho dos fundos hedge, que há um ano “eram a vanguarda onipotente do capitalismo financeiro”. Mas, este ano, a indústria ficou humilde: perdeu cerca de um quinto de suas aplicações. “A carnificina é indiscriminada.

Na Ásia, em Londres e nos EUA, os fundos hedge estão fechando parte ou todas as suas operações”, diz a revista. Citando dados da consultoria Hedge Fund Research (HFR), a revista ressalta que só os fundos de “arbitragem conversível” (que exploram anomalias de preço entre papéis corporativos) perderam 46% este ano.

Desde que a HFR começou a registrar os dados, em 1990, 2008 é o pior ano para os fundos hedge.

“Nos próximos trimestres, a queda deve ser brutal”, afirma a “Economist”. De 1990 até 2007, a indústria cresceu em quase 50 vezes, para cerca de US$ 2 trilhões. Agora executivos do setor prevêem que os ativos podem cair entre 30% e 40% este ano, com os clientes em disparada. E o número total de fundos, que atingiu sete mil, deve cair à metade.

O curioso é que a maior parte dos fundos hedge se orgulha de garantir aos clientes retornos positivos em qualquer clima financeiro. Mas, explica a “Economist”, a proibição da venda de ações a descoberto inviabilizou muitas estratégias. Também pesou a má administração dos fundos hedge, que investiram pesado em ativos de pouca liquidez. “Mas também parece que a venda forçada de ativos por fundos hedge derrubou os preços, afetando seu desempenho — caso típico de contágio”.

A revista analisa os motivos dessa venda. Um seria a carência de crédito, que obrigou os fundos a se desfazerem de ativos. “Os céticos sempre argumentaram que, apesar de toda a habilidade que dizem ter, os fundos hedge apenas usam dinheiro barato para ampliar ganhos medíocres. Por essa análise eles seriam somente outra parte de um vasto ecossistema dependente de dívida, que agora está sendo privado de oxigênio”. Para a “Economist”, porém, há outro fator além da elevada alavancagem: os próprios clientes dos fundos.

À base de clientes da original, “formada por pessoas muito ricas e (supostamente) leais”, somaram-se empresas e até “fundos-de-fundos-hedge”, que atuam como intermediários e respondem hoje por 40% dos ativos da indústria. Teme-se que esses “fundos-de-fundos” sejam os mais afetados em tempos de crise, por isso as retiradas são mais velozes. Em setembro a retirada atingiu o montante recorde de US$ 40 bilhões, segundo dados da consultoria TrimTabs. Os mais afetados pela debandada dos clientes serão os fundos pequenos, que representam cerca de três quartos dos sete mil fundos hedge, apesar de administrarem menos de um décimo dos ativos da indústria. E muitos podem não sobreviver.

A “Economist” afirma que os sobreviventes, para manter seus lucros, terão de “resolver as falhas estruturais tão cruelmente expostas pela crise”. “Mais importante, terão de desacostumar seus clientes da noção de que eles podem desfrutar de ganhos excessivos e retirar seu dinheiro a qualquer hora”.

07/10/2008 - 09:06h Mundo está à beira de estatizar sistema bancário

Especialistas vêem retorno a velhas ideologias e regulação mais rígida

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Fernando Dantas - O Estado de São Paulo

O mundo assiste a uma grande onda de intervenção estatal no setor bancário privado. Nos Estados Unidos, o governo ajudou financeiramente o JP Morgan Chase a comprar o Bear Stearns em março, quando tudo começou, e deu garantias contra perdas ao Citi para este absorver o Wachovia (que agora podem ser suspensas como resultado da disputa do Citi com o Wells Fargo).

Fora do sistema estritamente bancário, o governo americano assumiu o controle das gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac e virtualmente estatizou por US$ 85 bilhões (em forma de empréstimo) a seguradora AIG. Além disso, estendeu em centenas de bilhões de dólares as linhas de liquidez aos bancos, fechou os olhos para a qualidade das garantias recebidas, decidiu remunerar os depósitos compulsórios e usou seu poder de pressão para provocar outras fusões de bancos.

Na Europa, a Islândia parece na iminência de estatizar o sistema bancário, e países como Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal, Dinamarca e Irlanda anunciaram medidas para introduzir ou estender a garantia aos depósitos. No caso da Irlanda, a garantia é tão ampla que provocou a ira dos seus pares na União Européia (UE), temerosos de uma corrida bancária em que depositantes transfiram recursos de bancos de outros nacionalidades para os irlandeses. Houve socorro estatal a bancos específicos como o Fortis, do Benelux, o alemão Hypo Real State, o britânico Bradford & Bingley e o belga Dexia.

No caso do Fortis, a Holanda literalmente estatizou a parte nacional do banco. Entre os emergentes, medidas de socorro aos sistema bancário já foram tomadas na Rússia, Coréia, Chile e Brasil.

Há uma ironia no fato de que a maior onda de intervenção do Estado no sistema financeiro ocorre num momento em que a estatização bancária havia se tornado bandeira ideológica do passado, que hoje mal é desfraldada pelas poucas correntes mais à esquerda do espectro político. Esta invasão do setor público no sistema financeiro, aliás, não vem na esteira da política, mas sim das próprias finanças, já que os bancos quase quebrados, depois da farra da desregulamentação excessiva, são uma enorme ameaça à economia real.

Em recentes artigos no seu blog no site do Financial Times, o economista holandês Willem Buiter abordou provocativamente (mas sem um apoio claro) a questão da estatização do sistema bancário. Segundo Buiter, “há um antigo argumento de que não há razão real para a propriedade privada de instituições bancárias que recebem depósitos, porque elas não podem existir seguramente sem esquemas de garantia de depósito ou de emprestador de última instância, que são em última instância bancadas pelo contribuinte”.

Armando Castelar, da Gávea Investimentos, acha que, se a crise for às últimas conseqüências, pode-se chegar até o ponto da estatização em alguns países, mas como uma etapa temporária, ao fim da qual os bancos seriam repassados novamente à iniciativa privada. Ele nota que perdas ao contribuinte também muitas vezes ocorrem com bancos públicos, como no caso do Brasil, em que recapitalizações do Banco do Brasil tiveram um custo de vários bilhões de reais. “O Proer foi mais barato do que o socorro aos bancos estaduais e federais”, diz Castelar.

Ele prevê um futuro de regulação mais dura dos bancos, visão com a qual concorda o economista Fernando Ferrari Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e presidente da Associação Keynesiana Brasileira. “Não diria que tem de haver um processo de estatização, mas não há dúvida de que devemos entrar numa fase de regulação muito mais forte”, diz Ferrari Filho. Ele defende a restauração de alguns pontos da chamada arquitetura financeira internacional de Bretton Woods, como mais controles de capital e a recuperação por parte das autoridades econômicas da capacidade de estabelecer parâmetros para a trajetória do câmbio e do crédito.

30/09/2008 - 14:10h Est-ce la fin du capitalisme financier de type anglo-saxon ? Six économistes répondent

Six économistes pensent que la crise économique est majeure mais tous n'en concluent pas qu'un renforcement de la régulation financière soit une nécessité.
AP/Richard Drew - Six économistes pensent que la crise économique est majeure mais tous n’en concluent pas qu’un renforcement de la régulation financière soit une nécessité.

par Claire Gatinois et Yves Mamou - Le Monde

Daniel Cohen, professeur à l’Ecole normale supérieure

Toute la finance de marché doit être remise à plat. L’attention des régulateurs, depuis la crise de 1929, avait essentiellement porté sur les banques commerciales. La panique des déposants ayant été le principal vecteur de la crise financière des années 1930, la régulation s’est concentrée sur les banques de dépôt. Et cela a plutôt bien fonctionné. On n’observe aucune crise majeure du système bancaire américain après guerre.

L’un des buts principaux de la finance de marché a été de sortir de l’habitat réglementaire imposé aux banques. Les règles classiques imposent aux banques de détenir un dollar de capital environ pour 12 dollars de crédit. La finance de marché a permis à ses acteurs d’accorder 32 dollars de crédit pour un dollar de capital ! Les banques d’investissements, les hedge funds, les compagnies d’assurances ont profité des mailles de la régulation pour accroître le volant de leurs opérations. Les banques commerciales ont, de leur côté, créé des “véhicules” logés hors bilan pour s’affranchir (légalement) de la réglementation. Le résultat, on le connaît maintenant. Les 700 milliards de dollars que le gouvernement américain veut injecter dans le système en est le prix.

Tout le travail des prochaines années consistera à élaborer des règles qui remettront le dentifrice du capitalisme financier dans son tube. Il faudra imposer des règles prudentielles nouvelles à l’ensemble des acteurs, réguler la titrisation des créances, surveiller les agences de notations, réviser les normes comptables… Cette remise à plat concernera tous les pays. Un rôle “en or” pour le FMI…

Nicolas Baverez, économiste-historien

L’expression “capitalisme financier de type anglo-saxon” laisse entendre que seuls les Etats-Unis, la Grande-Bretagne et l’Irlande seraient en crise. En réalité, le choc ébranle le capitalisme mondialisé, dont la finance était la pointe avancée. Les pays qui épargnent et exportent comme la Chine, l’Allemagne ou le Japon sont touchés : l’excédent chinois diminue déjà, tandis que Chine, Russie ou Brésil volent au secours de leurs banques.

Nous assistons à une déflation par la dette comme en 1929 : l’éclatement d’une bulle de crédit mène à une contraction violente des patrimoines et des revenus, de l’activité et de l’emploi.

Deux grandes leçons se dégagent de la déflation des années 1930 : enrayer la cascade des faillites bancaires ; privilégier des solutions coopératives au plan international pour éviter la spirale des barrières protectionnistes et des dévaluations compétitives.

Aujourd’hui, le sauvetage des banques est engagé, mais sur une base nationale. La coopération internationale est inexistante, à commencer par le dialogue entre la Fed et la BCE. Ces politiques du “chacun pour soi” impliquent un coup d’arrêt à la mondialisation, à l’intégration des marchés et à l’ouverture des sociétés.

Le capitalisme sortira profondément transformé de cette crise : priorité à la sécurité sur le risque, avec une diminution de la croissance potentielle ; rééquilibrage entre l’Etat et le marché ; retour en grâce de l’industrie au détriment de la finance ; changement du modèle économique des banques avec une concentration des acteurs et un recentrage sur la banque commerciale ; déclin relatif des pays développés - notamment des Etats-Unis - et accélération du passage à un système économique multipolaire et hétérogène.

Nouriel Roubini, professeur d’économie à l’université de New York, président de Roubini Global Economics Monitor

La crise est le résultat des excès du libéralisme et du “laisser-faire” de ces dix dernières années. Les régulateurs ont cru aux vertus du marché libre et de l’autorégulation. Leur jugement était inapproprié. La leçon est claire : nous avons besoin d’une meilleure régulation. Aujourd’hui, le paradoxe est que, pour résoudre ces excès, l’Etat américain vire dans l’excès inverse. Il injecte tantôt 200 milliards de dollars pour nationaliser Freddie Mac et Fannie Mae, les deux géants du refinancement hypothécaire, tantôt 85 milliards pour recapitaliser l’assureur AIG. Les “USA” deviennent l’”URSSA”, l’Union des républiques socialistes soviétiques d’Amérique. Le gouvernement prend dans la précipitation des décisions lourdes de conséquences. On a le sentiment d’être dans une république bananière ! On passe ainsi d’un extrême à l’autre. La bonne voie est au milieu, avec une régulation plus stricte qui n’empêche pas l’innovation. On y arrivera sans doute après quelque temps.

Le “Far West” sauvage (de la finance) appartient-il au passé ? Il faut être prudent. D’ici à quelques années, on aura peut-être tout oublié. On a vécu beaucoup de crises : celle des années 1980, la récession des années 1990, l’éclatement de la bulle Internet en 2001. A chaque fois, une bulle se reforme avec de l’argent facile et des régulateurs qui s’endorment. Nous verrons !


Dominique Plihon, universitaire, président du conseil scientifique d’Attac

La crise actuelle signe la faillite d’un capitalisme financier de spéculation et de prédation préjudiciable à la société. Les pays d’Europe qui se sont le mieux coulés dans les règles de ce capitalisme financier - l’Irlande et l’Espagne - sont ceux qui souffrent le plus.

Les banques centrales et les autorités de tutelle ont laissé faire. Jean-Claude Trichet, président de la BCE, ne pouvait ignorer les achats massifs des banques sur des titres risqués sur des marchés de gré à gré opaques et non régulés.

Ce capitalisme-là va devoir être réformé en profondeur. De nouvelles règles vont devoir être instaurées. Nous, altermondialistes, réclamons depuis longtemps un encadrement des acteurs financiers. Puisque le mouvement de nationalisation des banques est lancé, pourquoi ne pas constituer des pôles publics de développement, pays par pays, pour financer des projets qui étayent une croissance à long terme ? Rien n’empêche non plus une coordination au sein de l’Union européenne.

On peut objecter que les nationalisations bancaires du début des années 1980 ont été un échec, mais la faute en revient aux gouvernements qui ont imposé aux banques les mêmes règles de rentabilité que le secteur privé.


Pascal Salin, professeur à l’université Paris-Dauphine

Le capitalisme financier n’est pas seulement anglo-saxon. Il est universel et a de beaux jours devant lui, tout simplement parce qu’il n’est pas une création arbitraire, comme pouvait l’être un système de type soviétique. Ce capitalisme-là est l’expression d’innombrables processus spontanés créés pour répondre aux besoins des êtres humains. Il remplit deux fonctions fondamentales : orienter les ressources d’épargne vers les activités où elles obtiennent la plus forte rentabilité et prendre en charge les risques de la manière la plus efficace. Certes, le capitalisme financier ne peut pas remplir ces fonctions de manière parfaite, parce que l’information ne peut jamais être parfaite. Mais il les remplit mieux que n’importe quel autre système imaginable.

Les difficultés actuelles ne sont en rien une manifestation de la faillite de ce système. En effet, la crise financière est essentiellement une crise de l’interventionnisme étatique. Elle résulte en particulier de l’extraordinaire instabilité de la politique monétaire américaine au début du XXIe siècle, politique monétaire qui n’est évidemment pas contrôlée par le marché, mais décidée arbitrairement par des autorités publiques.

Pour que ce capitalisme financier prenne fin, il faudrait ou bien que tout le système financier soit étatisé - ce qui est exclu - ou qu’il explose parce qu’il constituerait un système incohérent, ce qui n’est pas le cas. Sur le long terme, la crise actuelle apparaîtra comme un simple accident de parcours qui aura peut-être permis de liquider les entreprises financières les plus mal gérées et d’inciter les autres à mieux évaluer les risques. La plus grande menace vient du renforcement probable des réglementations.

Pierre-Alain Muet, économiste et député PS du Rhône

Il est essentiel de réintégrer, dans le champ de la réglementation et du contrôle, les activités de crédit effectuées par des organismes non bancaires, car ce sont ces fonds spéculatifs non régulés qui sont à l’origine des crises financières récentes.

Il faut imposer une obligation de transparence sur les produits financiers et sur le niveau des fonds spéculatifs détenus par les banques.

Il faut enfin, comme c’était le cas autrefois, séparer les activités de banques de marché de celles des banques commerciales.

La titrisation, c’est-à-dire la possibilité laissée à un créancier de se défaire de la totalité de sa créance, entraîne une forme d’irresponsabilité. Les fonds spéculatifs ont prêté sans tenir compte du risque sachant qu’ils arriveraient à se défausser de ce risque sur un tiers. Pour éviter cette dissémination du risque, il faut, d’une part, appliquer les règles définies dans les accords de Bâle II de la Banque des règlements internationaux en réintégrant la titrisation dans le bilan des banques et, surtout, obliger le premier créancier a conservé pour lui-même 30 % à 40 % du risque sur le prêt initial. Tout organisme autorisé à prêter serait ainsi obligé d’évaluer son risque comme un banquier doit le faire.

En bref, il faut revenir en partie à une économie d’intermédiation et sortir d’une économie de marché financier ou les effets de levier sont trop importants.

Les agences de notations ont certes une responsabilité, mais la régulation et le contrôle relèvent aussi de l’Etat vers qui tout le monde se tourne quand ca va mal. Le contrôle des organismes de marché, c’est le retour de l’Etat.

01/04/2008 - 04:18h A estratégia Dilbert

Objetivo do plano apresentado pelo governo Bush é criar a aparência de que as autoridades respondem à crise, sem na prática fazer nada de substantivo

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” - FOLHA DE SÃO PAULO

criseusa.jpgSE VOCÊ já trabalhou para uma grande organização ou, aliás, se você é leitor da tira de quadrinhos “Dilbert”, decerto conhece a “estratégia do organograma”.
Para esconder a falta de idéias práticas sobre o que fazer, dirigentes gostam de promover grande algazarra quando reorganizam as caixinhas e linhas de um organograma informando quem se reporta a quem.
Pronto: você acaba de descobrir o princípio que embasa a nova proposta do governo Bush para a reforma financeira, anunciada formalmente ontem. O objetivo é criar a aparência de que as autoridades estão respondendo à crise atual, sem na prática fazer nada de substantivo.
Os eventos financeiros dos últimos sete meses, e especialmente das últimas semanas, convenceram todo mundo, exceto os mais renitentes, de que o sistema financeiro norte-americano precisa de uma séria reforma. De outra forma, cambalearemos de crise em crise, e as crises se tornarão cada vez mais graves.
Os bancos tradicionais, que oferecem contas a depositantes, operam regulamentados desde os anos 1930, porque a experiência da Grande Depressão demonstrou de que maneira falências de bancos podem ameaçar toda a economia. Instituições que não aceitam depósitos, como o Bear Stearns, no entanto, supostamente não precisavam de regulamentação, porque a “disciplina do mercado” asseguraria que fossem dirigidas de maneira responsável.
Quando a situação ferveu, no entanto, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) não ousou permitir que a disciplina do mercado resolvesse a situação. Em lugar disso, correu em resgate do Bear Stearns, colocando em risco bilhões de dólares dos contribuintes, porque temia que o colapso de uma grande instituição financeira colocasse em risco o sistema financeiro como um todo.
E se protagonistas das finanças como o Bear Stearns vão receber essa espécie de resgate, anteriormente limitada aos bancos que aceitam depósitos, a implicação parece óbvia: eles também devem ser regulamentados como bancos.
Mas o governo Bush passou os últimos sete anos tentando eliminar a fiscalização governamental sobre o setor financeiro. De fato, o novo plano havia sido originalmente concebido como uma forma de “promover um setor de serviços financeiros competitivo, que lidere o mundo e apóie a inovação continuada das finanças”.

Desregulados
Isso é jargão de banqueiro para a eliminação de qualquer regulamentação que possa incomodar os grandes operadores financeiros.
Para reverter o curso agora, e procurar regulamentação mais ampla, o governo teria de recuar com relação à sua ideologia de livre mercado e também teria de encarar o fato de que estava errado. E esse governo nunca, nunca mesmo, admitirá que cometeu um erro.
Por isso, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, declara que não acredita que seja justo ou acurado imputar a culpa pelos recentes tumultos à nossa estrutura regulatória.
E, pelo menos de acordo com o sumário do novo plano do governo, a regulamentação certamente parece limitada a instituições que recebam garantias federais explícitas, ou seja, às instituições que já estão regulamentadas e não foram a origem dos atuais problemas.
Quanto aos demais componentes do sistema, o plano insensatamente declara que “a disciplina de mercado é a mais efetiva ferramenta para limitar o risco sistêmico”.
O que significa que o governo nada aprendeu com a crise atual. Mas é preciso, como questão política, que crie a ilusão de estar fazendo alguma coisa.
Assim, o Tesouro anunciou, com grande alarde -e vocês sabem o que virá a seguir-, seu apoio a uma reorganização das caixas do organograma. OCC, OTS e CFTC estão fora; PFRA e CBRA entram na parada. Quem se importa?

Alguma diferença?
Será que reorganizar as caixas fará alguma diferença? Fiquei decepcionado por algumas organizações noticiosas estarem reportando como notícia a história que o governo inventou para encobrir os fatos: a alegação de que a falta de coordenação entre as agências regulatórias foi um fator importante para as atuais dificuldades.
A verdade é que não foi isso o que aconteceu, de maneira alguma. As diversas agências regulatórias de fato se saíram bastante bem quanto à coordenação de suas ações. Infelizmente, elas foram coordenadas na direção errada.
Por exemplo, houve um evento montado para fins de relações públicas em 2003 no qual dirigentes de diversas agências posaram com podadeiras e serras como se estivessem podando e abatendo pilhas de regulamentações bancárias.
A ocasião simbolizava a determinação compartilhada dos funcionários apontados pelo governo Bush quanto a abandonar a fiscalização do mercado por adultos exatamente no momento em que este começava a se comportar de maneira irresponsável.
Oh, e o governo Bush na prática impediu que governos estaduais tentassem proteger famílias contra práticas predatórias de empréstimos. Assim, o plano do governo terá sucesso? Não pergunto se terá sucesso em prevenir futuras crises, já que não é esse o seu propósito. A questão, em lugar disso, é determinar se obterá sucesso em confundir a questão o bastante para bloquear reformas reais.
Esperemos que não. Como eu disse, as crises financeiras norte-americanas vêm crescendo. Uma década atrás, a perturbação nos mercados que se seguiu ao colapso da Long-Term Capital Management foi considerada um evento grave, assustador; mas, comparada à crise atual, não passou de uma sacudidela.
Se não reformarmos o sistema desta vez, a próxima crise poderá ser ainda maior. E eu tenho certeza de que não quero viver uma reprise da década de 1930.
PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do “New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de PAULO MIGLIACCI

31/03/2008 - 18:09h Treasury Rolls Out Overhaul of Financial Regulators

Brendan Smialowski for The New York Times
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Treasury Secretary Henry M. Paulson Jr. presented a series of proposals to overhaul the regulation of Wall Street on Monday in Washington.

By STEPHEN LABATON - The New York Times

Published: March 31, 2008

WASHINGTON — Treasury Secretary Henry M. Paulson Jr. on Monday formally laid out an ambitious plan to overhaul the regulatory apparatus that oversees the nation’s financial system. Senior lawmakers and industry lobbyists predicted that most of the plan would run into difficulty.

The product of a lame-duck Republican administration facing a Democratically controlled Congress, the plan would consolidate federal agencies that regulate the nation’s securities and commodities futures markets and eliminate a third agency, the Office of Thrift Supervision, which oversees savings and loans. It proposes to create a commission that would set new minimum licensing standards for mortgage originators.

By his own account, Mr. Paulson, along with other senior officials, do not want lawmakers to act on the proposal until after the housing crisis is over — and that is likely to be after a new president takes office.

“Some may view these recommendations as a response to the circumstances of the day,” Mr. Paulson said in a speech Monday at the Treasury Department. “That is not how they are intended.”

Democratic leaders are already drafting bills to impose tougher supervision over Wall Street, and some say that Mr. Paulson’s plan does not go far enough in reining in risky practices among banks.

Insurance and some banking groups began over the weekend to formulate plans to oppose various provisions. And several features were criticized by regulators appointed by the Bush administration.

Senior lawmakers, while praising the administration for raising important points for further discussion, said the odds of a major overhaul in the remaining days of the Congressional session were long.

“Since this is opening day in baseball, I might as well make a baseball metaphor,” said Senator Christopher J. Dodd, the Connecticut Democrat who heads the Senate banking committee. “This is a wild pitch. It is not even close to the strike zone.”

Mr. Dodd and other Democrats were hoping to move legislation this week that would help homeowners facing foreclosure.

Still, elements of the Paulson plan — including a proposal to expand the authority of the Federal Reserve to examine investment banks and other financial institutions that have previously roamed free of federal oversight — clearly speak to the recent tumult on Wall Street that has hurt the economy. And President Bush, through his spokeswoman, urged Congress to quickly approve the proposed changes.

“Secretary Paulson has been working on this package for about a year, so it’s not like pulling a rabbit out of a hat,” Dana Perino, the White House press secretary, told reporters on Air Force One on Monday.

The administration’s proposal will do almost nothing to regulate the alphabet soup of sophisticated financial products that have fueled the financial crisis. And it will not rein in practices that have been linked to the mortgage crisis, like packaging risky loans into securities carrying the highest ratings.

Hedge funds and private equity firms, which have enjoyed freedom from government oversight for years, would finally fall under federal watch. But that oversight would be minimal, enabling the government to do little beyond collecting information until a widescale crisis has already occurred.

The checks and balances in the plan reflect the mindset of Mr. Paulson, the plan’s architect, who came to Washington after a long career on Wall Street, including a stint as chief executive of Goldman Sachs.

Mr. Paulson has worried that any effort to substantially tighten regulation could hamper the ability of American markets to compete with foreign rivals — and, in fact, the proposal stemmed from a series of policy discussions that began well before the current tumult that has rocked the nation’s economic underpinnings.

The plan began last year as an effort by Mr. Paulson to streamline the different and sometimes clashing rules for commercial banks, savings and loans and nonbank mortgage lenders.

“This blueprint addresses complex, long-term issues that should not be decided in the midst of stressful situations,” Mr. Paulson said in his remarks on Monday. “These long-term ideas require thoughtful discussion and will not be resolved this month or even this year.”

Mr. Paulson also deflected blame for the current tumult away from the Bush administration. “I do not believe it is fair or accurate to blame our regulatory structure for the current turmoil,” he said.

Under the plan, the Fed would have some authority over Wall Street firms, but only when an investment bank’s practices threatened the financial system as a whole. The Fed would be able to examine internal bookkeeping of brokerage firms, hedge funds, commodity-trading exchanges and any other institution that might pose a risk to the overall financial system.

The plan would also merge the Securities and Exchange Commission with the Commodity Futures Trading Commission, which regulates exchange-traded futures for oil, grains, currencies and the like. And the blueprint suggests several areas where the S.E.C. should take a lighter approach to its oversight, including allowing stock exchanges greater leeway to regulate themselves.

Some agencies within Washington’s patchwork system of financial regulation would be consolidated. One new agency, which the Treasury calls a “prudential financial regulator,” would focus on the safety of financial institutions that have explicit government guarantees. The other watchdog would oversee business conduct to protect public investors and customers of financial firms.

Congress would have to approve almost every element of the proposal, and Democratic leaders are already drafting their own bills to impose tougher supervision over Wall Street investment banks, hedge funds and the fast-growing market in derivatives like credit default swaps.

Administration officials acknowledged last week that they did not expect the proposal to become law this year, but said they hoped it would help frame a policy debate that would extend well after the elections in November.

27/03/2008 - 05:39h China é o Bric que se mostra mais preocupado com crise

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Marcos de Moura e Souza - VALOR

À primeira vista, a desaceleração da economia americana e a consequente redução da demanda poderia até parecer útil à China. Pequim tem lançado mão de uma série de medidas para conter o acelerado crescimento do país e afastar o fantasma do superaquecimento. A redução do crescimento dos EUA - o principal mercado para as exportações da China - ajudaria, portanto, a esfriar um pouco o ritmo da economia. Mas autoridades chinesas não escondem que estão temerosas.

Na semana passada, o premiê Wen Jiabao disse que os reflexos da crise americana e dos riscos de expansão das turbulências financeiras tornarão mais difícil para Pequim encontrar um equilíbrio entre o controle do crescimento interno e o combate da inflação, que em fevereiro chegou a 8,7%.

“Estou acompanhando de perto e me sinto profundamente preocupado com a situação econômica mundial, especialmente com a economia dos EUA”, disse Wen. “O que me preocupa é a contínua depreciação do dólar e quando o dólar chegará ao seu nível mais baixo.” A queda do dólar levou a China a ver suas reservas se desvalorizarem (em relação ao iuan) em quase US$ 200 bilhões.

Wen pontuou que a piora das condições externas, deflagrada pela crise americana, tem pressionado o dólar, afetado as bolsas pelo mundo e alimentando a alta nos preços dos combustíveis.

O desafio para as autoridades chinesas é acertar a dose das medidas antiinflacionárias e de controle do crescimento econômico num momento marcado pelas incertezas das turbulências globais.

A China tem adotado uma sucessão ações para conter o aquecimento de sua economia - entre as quais aumento dos juros e do compulsório bancário. Nos últimos cinco anos, o país cresceu em média 10,6% - mais de cinco pontos acima da média mundial mundial. Este ano, graças às medidas e à desaceleração mundial, a previsão é de um crescimento de 9,6%.

As vendas para os EUA representam 11% das exportações chinesas - ou 8% do Produto Interno Bruto do país. No início do ano, essas vendas já tiveram uma forte queda, em parte pela redução da demanda, em parte pelas nevascas que atingiram a China e afetando o sistema de transportes. Outros países da Ásia dependem muito mais do mercado americano: as exportações de Cingapura, Hong Kong e Malásia, por exemplo, equivalem a 20% ou mais de seus PIBs.

Mas, como apontou Jiang Yong, do Instituto Chinês de Relações Internacionais Contemporâneas, num artigo publicado há uma semana no “China Daily”, “a economia dos EUA pode não afetar a economia da China toda vez que ‘espirrar’, mas a China não pode ficar totalmente imune quando Japão e Europa também estão sofrendo da mesma ‘gripe’”.

A opinião coincide com a avaliação do presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Charles Tang, que também prevê uma redução das exportações chinesas à medida que a desaceleração americana contagiar outras economias. Ele lembra, no entanto, que diferentemente do período inicial da abertura chinesa, a economia do país não tem mais uma dependência tão intensa das receitas das exportações. “Os investimentos e a fortíssima demanda interna assumiram uma papel muito importante. Há dez anos, a indústria têxtil chinesa exportava 50% de sua produção; hoje são 25%”.

A turbulência financeira global, no entanto, traz à tona também preocupações em relação a outra possível vulnerabilidade chinesa: seu sistema bancário.

“A história mostra que os piores sistemas bancários podem parecer razoáveis durante períodos de crescimento forte do PIB”, diz Charlene Chu, diretora sênior da Fitch Ratings. O foco das atenções é que os bancos chineses acumularam grandes quantidades de créditos podres. Os bancos dizem que os créditos estão em níveis administráveis. Mas alguns analistas já acenderam luz amarela para o risco de uma crise financeira no país, que num momento de choques externos. O que poderia detonar essa crise? Uma repentina desaceleração da economia chinesa, causada por uma redução da demanda global. “A Fitch continua preocupada com o fato de que os bancos chineses podem estar subestimando potenciais futuras perdas.”

25/03/2008 - 04:41h Domando a fera

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Paul Krugman - O Globo

 Estamos, agora, no meio de uma épica crise financeira, que deveria ser o centro do debate eleitoral. Mas não é.
Na verdade, não espero muito de John McCain, que admitiu ter pouco conhecimento sobre economia e negou ter dito isso depois.
Do lado dos democratas, é decepcionante que Barack Obama — em cuja campanha foi destacada sua oposição à guerra do Iraque em contraste com o apoio inicial de Hillary — tenha tentado ganhar alguns pontos sugerindo que a guerra, além de todos seus outros custos, tenha sido responsável por nossos problemas econômicos.
Hillary Clinton não fez, até onde posso dizer, qualquer comentário comparável.
Mas, assim como o senhor Obama, tem permanecido em silêncio sobre a questão chave: a necessidade de reformar nosso sistema financeiro sem controle.
Deixe-me explicar.
Os Estados Unidos saíram da Grande Depressão com uma rede de segurança financeira bastante efetiva, baseada no princípio quid pro quo (isto por aquilo, em português): o governo estava pronto para salvar os bancos se eles enfrentassem problemas, desde que aceitassem uma regulação dos riscos que assumiriam.
Com o tempo, no entanto, boa parte do papel que os bancos tradicionalmente exerciam foi assumido por instituições que não estavam sob regulação — “a sombra do sistema bancário”, que se apóia em arranjos financeiros complexos desenhados para burlar aquela regulação.
Agora, a sombra do sistema bancário está enfrentando o equivalente à onda de corridas bancárias que varreu os Estados Unidos no início dos anos 30. E o governo está correndo para ajudar, com centenas de bilhões.
Diante dos riscos para a economia se o sistema financeiro derreter, essa missão de resgate é justificada. Mas você não precisa ser um economista radical para perceber que o que está acontecendo agora é o quid sem o quo.
Essa lógica vai prevalecer politicamente? Não se o senhor McCain chegar à Casa Branca. Seu principal assessor econômico, o senador Phil Gramm, é um fervoroso defensor da desregulamentação.
Quanto aos democratas, nenhum deles se comprometeu com qualquer reforma financeira.
Agora, a indústria de seguros e de investimentos está colocando dinheiro tanto nas campanhas do senhor Obama quanto da senhora Clinton. E certamente acreditam que terão algo em troca.
Vamos esperar que eles estejam errados.

22/03/2008 - 12:17h Atuando como em 1929

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Paul Krugman - O Globo

Se Ben Bernanke conseguir salvar o sistema financeiro do colapso, será — corretamente — elogiado pelo esforço heróico. Mas o que devemos nos perguntar é: como chegamos até aqui? Por que o sistema financeiro precisa de salvação? A resposta é que estamos pagando o preço por uma amnésia intencional. Optamos por esquecer o que aconteceu nos anos 1930 — e, tendo nos recusado a aprender com a História, estamos repetindo-a.

Ao contrário da crença popular, o crash de 1929 não foi o marco da Grande Depressão.

O que transformou uma recessão normal em um colapso ameaçador foi a onda de corrida aos bancos que varreu a América em 1930 e 1931. A crise bancária mostrou que mercados não regulamentados também podem sofrer um colapso catastrófico. Com o passar do tempo, porém, a lição foi esquecida. Estamos reaprendendo, do pior modo.

Os bancos existem porque ajudam a conciliar desejos de poupadores e devedores. Às vezes — com base, freqüentemente, em boatos —, enfrentam corridas, em que muitas pessoas tentam retirar seu dinheiro ao mesmo tempo. E um banco que sofre uma corrida pode quebrar mesmo se o rumor for falso. Pior, as corridas podem ser contagiosas.

Isto, em suma, foi o que aconteceu em 1930-1931. O Congresso, então, tentou garantir que isso nunca mais ocorreria, criando um sistema de regras e garantias para fornecer uma rede de segurança.

E vivemos felizes por um tempo — mas não para sempre.

Wall Street operou sob regras que limitavam o risco, mas também o lucro. Pouco a pouco, libertou-se — em parte, persuadindo políticos a relaxar as regras, mas, sobretudo, criando “um sistema bancário sombrio”, com base em complexos arranjos financeiros para contornar os regulamentos.

Hoje, de fato, estamos atuando como se fosse 1929 — mas agora é 1930.

A atual crise é, basicamente, uma versão atualizada daquela onda de corrida aos bancos.

O resultado é um círculo vicioso de restrição financeira.

O Sr. Bernanke está fazendo o que pode para encerrar esse círculo. Podemos apenas torcer pelo sucesso. Caso contrário, os próximos anos serão muito desagradáveis. Mas, ainda que o Sr. Bernanke resolva, esta não é a maneira de gerir uma economia. É hora de reaprender as lições dos anos 30, e fazer com que o sistema opere, de novo, sob controle.

18/03/2008 - 07:44h Na bacia das almas

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Celso Ming - O Estado de São Paulo

Não se sabe o que provocou mais o estrago de ontem nos mercados, se o afundamento do Bear Stearns ou se as decisões extraordinárias e heterodoxas do maior banco central do mundo, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

O Bear foi arrematado na bacia das almas pelo JP Morgan por US$ 2 por ação, a mesma que, no início de maio do ano passado, era cotada a US$ 156. O mercado entendeu como um banco pode virar pó em um par de dias e temeu que este possa ser o fim de um punhado deles. (Veja a tabela e o Confira.) Como sempre nessas ocasiões, deixou o medo comandar seus movimentos.

O Fed não está mais lendo manual de procedimentos. Partiu para o tudo ou nada, sem olhar para prejuízos colaterais nem para aqueles que ainda resmungam que todo “proer” é imoral. Seu objetivo é conter a epidemia.

Nesse fim de semana, criou uma linha especial de crédito de seis meses - renovável sabe-se lá por quanto tempo mais - para bancos de investimento, instituições que estão de fora de seu guarda-chuva institucional. E anunciou a decisão na noite de domingo, antes da abertura dos mercados da Ásia, mostrando que está olhando para muito além do seu território. Como garantia da nova linha de crédito, vai aceitar títulos hipotecários, cujo preço de mercado seu próprio presidente, Ben Bernanke, não tem condições de avaliar, conforme reconhece.

O parágrafo acima mostra o quanto os mais poderosos bancos centrais são vulneráveis. Fundos de hedge (como o Carlyle Capital), bancos de investimento (como o Bear) e companhias de crédito imobiliário (como o Northern Rock) podem provocar terremotos no sistema financeiro, mas não estão sob a tutela de bancos centrais.

O mercado funciona como um só rolo planetário. E, no entanto, a supervisão das finanças globais continua puramente paroquial. Apesar disso, o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Durão Barroso, reafirmou ontem sua convicção de que os bancos centrais saberão devolver a estabilidade dos mercados.

A capacidade de atuação do Fed parece próxima do limite sem que as duas pontas principais da megaencrenca tenham sido amarradas. Os mutuários estão devolvendo seus imóveis porque seu valor hoje é cada vez mais baixo do que o financiamento levantado para comprá-los, e não há remédio para isso. O investidor que forneceu recursos para o crédito hipotecário exige seu dinheiro de volta. Mas ele está aplicado em imóveis e tem de 20 a 30 anos para voltar. Também não há remédio para isso. Por enquanto, a cobertura contra os estragos provocados pela crise atinge apenas o segmento que está no meio do negócio: os bancos.

Parece cada vez mais inevitável a intervenção do Tesouro americano, como ocorreu na crise do crédito imobiliário em 1998. O presidente Bush está informado disso, mas ontem saiu da reunião com sua assessoria econômica na Casa Branca afirmando apenas que está atento e que os bancos americanos são sólidos.

Enquanto isso, o dólar vai derretendo nos mercados.

CONFIRA

Superalavancagem - O consultor Carlos Coradi analisou o último balanço anual (do exercício de 2006) do Bear Stearns e viu o seguinte: o banco tinha um patrimônio de US$ 12 bilhões, mas ativos de US$ 350 bilhões. Uma alavancagem de 29 vezes.

Entre esses ativos, US$ 43 bilhões correspondiam a hipotecas equivalentes a quase quatro vezes o seu patrimônio.

As receitas líquidas do Bear em 2006 alcançaram US$ 9,2 bilhões. No entanto, apenas na rubrica Compensações e Benefícios para seus funcionários foram distribuídos US$ 4,3 bilhões, ou 40% do total.

17/03/2008 - 15:30h Economia USA: tem um piloto no avião?

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A coisa esta para lá de feia. O FED esta esgotando sua capacidade de intervenção na crise e os instrumentos monetários já não parecem surtir efeito. Estamos assistindo a uma queda acelerada dos valores em bolsa um subida fulgurante do oro, típico refugio perante a depreciação generalizada das ações e das moedas. Não é só um guindaste que esta desabando em Manhatam, mas uma boa parte dos bancos, do sistema financeiro e da economia norte-americana.

Mais que nunca a crise do “lidership”, da pusilanimidade e incompetência do governo Bush reforça o pânico e sem uma ação a altura do buraco, as coisas podem estourar de vez.

Estamos ante a pior crise financeira dos Estados-Unidos desde os anos 30. Será ilusão pensar que nada temos a ver com isso. Seus efeitos, como ondas no mar, atingirão nossa praia.

Ainda bem que nossos fundamentos foram reforçados e que nosso mercado é menos dependente da recessão brava que tem como epicentro os USA. Dito isto, é bom reforçar esses fundamentos com uma boa dose de ortodoxia e de calma “palocciana”, porque tudo mundo vai sentir a turbulência.

Vai ser das bravas.

17/03/2008 - 10:18h Aviso aos navegantes: “A crise econômica vai durar bastante e terá conseqüências graves”

A frase é de Dominique Strauss-Kahn, diretor do FMI.

Recessão nos Estados-Unidos, pétroleo e outras commodities em alta, dólar em baixa e Euro nas alturas.

Dominique Strauss-Kahn, directeur général du FMI depuis le 28 septembre.
Dominique Strauss-Kahn, diretor geral do FMI desde 28 setembro.
REUTERS/VICTOR RUIZ CABALLERO

Estamos avisados.Para ele a crise não será passageira e não poupará ninguém. “Não existe “descolamento” entre os países desenvolvidos e os países emergentes, lamentavelmente estes últimos também serão atingidos pela crise. O que existe é um descompasso no tempo.”

Faltou dizer que mesmo quando a crise atinge a todos, ela não tem o mesmo impacto nos diferentes países.

Mas estamos avisados

(com AFP)

15/03/2008 - 10:21h O fantasma de 1929 assombra os Estados-Unidos

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Apostando o banco

*Paul Krugman - NYT - O ESTADO DE SÃO PAULO

criseusa.jpgQuatro anos atrás, um economista acadêmico chamado Ben Bernanke foi co-autor de um estudo técnico que poderia se intitular “Coisas que o Federal Reserve deve tentar se ficar desesperado” - embora isso possa não ficar evidente em seu título verdadeiro, “Monetary Policy Alternatives at the Zero Bound: An Empirical Investigation” (Alternativas de política monetária no limite zero: uma investigação empírica).

Hoje o Fed (banco central americano) está de fato desesperado, e Bernanke, na condição de seu presidente, está pondo em prática algumas sugestões do estudo. Infelizmente, porém, as ações do Fed de Bernanke - apesar de seu objetivo sem precedente - provavelmente não serão suficientes para conter a espiral descendente da economia.

E, se eu estiver certo sobre isso, há uma implicação adicional: a temível economia da crise financeira logo criará também algumas políticas temíveis.

Para compreender o que está acontecendo, é preciso saber um pouco como a política monetária normalmente opera.

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12/03/2008 - 12:17h Só resta orar?

Um leilão de cenários assustadores

MARTIN WOLF DO “FINANCIAL TIMES”

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QUAL É o lance quanto aos prejuízos do setor financeiro com a crise do setor de crédito imobiliário de risco (”subprime”) dos EUA? Há lances para os US$ 100 bilhões sugeridos por Ben Bernanke, presidente do Fed (BC dos EUA), em julho? E que tal os US$ 500 bilhões do Goldman Sachs? Ah, temos um lance de entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões do economista Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York. Alguém mais?

É fácil ser cínico quanto ao leilão de prognósticos assustadores a que temos assistido. Mas não podemos ignorá-los.

Em minha coluna de 27 de fevereiro, analisei as implicações de um prejuízo agregado de US$ 1 trilhão no setor financeiro. O número acompanha as estimativas do professor Roubini e de George Magnus, do UBS. Concluí que até mesmo esse montante seria administrável, se bem que não de modo indolor, para uma economia tão grande e um governo com histórico de crédito tão positivo quanto o dos EUA. Roubini diz que descartei sem muito alarde a possibilidade de que os problemas tenham sido ainda piores. Agora, ele argumenta que os prejuízos financeiros podem ter atingido US$ 3 trilhões.

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10/11/2007 - 10:14h L’épargne chinoise finance l’endettement des consommateurs et de l’Etat américains

Un épargnant chinois passe devant un écran électronique montrant les cotations d'actions chinoises, à Pékin le 6 novembre 2007. L'épargne chinoise finance largement l'économie américaine et ses déficits. | AFP/PETER PARKS

AFP/PETER PARKS

Un épargnant chinois passe devant un écran électronique montrant
les cotations d’actions chinoises, à Pékin le 6 novembre 2007.
L’épargne chinoise finance largement l’économie américaine et ses déficits.

Les pays “pauvres” sont-ils devenus les nouveaux banquiers des pays “riches” ? L’accroissement spectaculaire des réserves de change des pays asiatiques (1 400 milliards de dollars pour la seule Chine à la fin de l’année 2007, soit 955 milliards d’euros), l’accumulation de pétrodollars dans les pays du Golfe et en Russie, les remboursements anticipés des dettes de l’Argentine ou du Brésil font penser que les pays en développement financent désormais les pays industrialisés.

“Sur le plan moral, cette situation est assez choquante”
, juge Dominique Plihon, professeur d’économie à Paris-XIII et président du conseil scientifique de l’association Attac. La fuite des capitaux vers les pays du Nord briderait, en effet, le développement des économies émergentes qui sont loin de disposer des capitaux nécessaires pour améliorer leurs infrastructures.

Ce paradoxe n’est que partiellement vrai. Les chiffres des investissements directs étrangers publiés par la Conférence des Nations unies sur le commerce et le développement (Cnuced) l’attestent : les pays industrialisés ont reçu 857 milliards de dollars de capitaux en 2006, mais ils en ont exporté plus encore (1 022 milliards). Pour les pays en développement, la situation est inverse : ils ont reçu plus (379 milliards de dollars) qu’ils n’ont exporté (174 milliards).

“En fait, analyse Boris Cournède, économiste à la division des politiques économiques et monétaires de l’Organisation de coopération et de développement économiques (OCDE), le déficit de la balance courante du G7 est surtout un phénomène américain. Aux Etats-Unis, le déficit atteindra 842 milliards de dollars cette année. La nouveauté est qu’il est financé par le surplus commercial de la Chine et par celui des pays pétroliers, alors qu’autrefois, les rééquilibrages se faisaient entre pays développés.”

Ce que confirme Patrick Artus, chef économiste chez Natixis, lorsqu’il passe en revue les grandes zones économiques : “L’Amérique latine et l’Union européenne à quinze sont grosso modo à l’équilibre. La première devrait être déficitaire pour financer son développement, mais le traumatisme de la crise de la dette a été si fort que les pays d’Amérique latine préfèrent ne plus avoir de dettes - au risque de ralentir leur croissance - plutôt que de revivre des plans de rigueur et le chômage qui en a résulté.”

M. Artus ajoute : “Les pays pétroliers enregistrent un excédent équivalent à 18 % de leur produit intérieur brut ; la Chine, un excédent de 8 % à 9 % ; l’Asie est à + 4 %. L’Inde est en déficit de - 3 % ; l’Europe centrale et orientale, de - 6 % et les Etats-Unis dépassent les - 6 %.”

In fine, “nous arrivons à une situation étonnante“, qui dure maintenant depuis plusieurs années, commente Xavier Musca, directeur du Trésor. Certains pays émergents, la Chine en tête, investissent massivement dans les bons du Trésor américain. En d’autres termes, la Chine finance une grande partie du déficit colossal de la première économie mondiale.

Pour le reste, elle investit désormais directement ses capitaux excédentaires dans le capital des sociétés occidentales. “D’où la création d’un fonds souverain chinois pour optimiser les placements du pays”, indique Yves Zlotoswski, économiste à la Coface. Il a fait notamment parler de lui en prenant près de 10 % de Blackstone, l’un des principaux fonds d’investissement américain.

En 2007, l’excédent commercial de la République populaire devrait atteindre 220 milliards de dollars, alors que le déficit des Etats-Unis se creusera à 750 milliards.

Le déséquilibre des relations financières entre les deux économies ne manque pas d’inquiéter. “Nous sommes en présence d’une anomalie des épargnes dans ces deux pays”, explique M. Artus. “La Chine épargne trop, car ses ménages mettent de côté pour compenser l’absence de protection sociale et ses entreprises, qui ne peuvent obtenir des prêts d’un système bancaire bloqué, aussi”, ajoute le chef économiste de Natixis.

En revanche, aux Etats-Unis, les particuliers comme l’Etat fédéral sont habitués à vivre à crédit et n’épargnent pas assez. “Les Américains vivent très largement au-dessus de leurs moyens”, insiste M. Plihon. Outre-Atlantique, l’afflux des devises en provenance de Chine ou du Golfe contribue à maintenir les taux d’intérêt à des niveaux très bas, ce qui n’encourage pas l’épargne.

Beaucoup d’économistes soulignent les effets pervers d’une croissance chinoise essentiellement tournée vers l’extérieur. Les pays du G7 estiment que l’économie tourne à plein régime grâce à la sous-évaluation du yuan, par rapport au dollar ou à l’euro.

Cette sous-évaluation “de l’ordre de 20 % à 30 %”, calcule M. Plihon, favorise les exportations au détriment des importations. Mais seule une partie de la population récolte les fruits d’une croissance de plus de 11 % l’an. “Il y a les laissés-pour-compte. Entre les villes et les campagnes, les inégalités se creusent”, indique M. Plihon.

En outre, cette politique monétaire génère de l’inflation qui est estimée à plus de 6 %. Et alimente des tensions sociales. Dans ce contexte, les ménages chinois investissent massivement dans l’immobilier ou en Bourse et contribuent à former des bulles spéculatives.

D’autre part, la multiplication des investissements chinois en Afrique est critiquée, car les pays industrialisés soupçonnent Pékin de tenter de s’approprier les matières premières du continent grâce à ses montagnes d’excédents.

Cette situation explique le rapport de force que les Etats-Unis cherchent à imposer à la Chine à laquelle ils ne cessent de réclamer une réévaluation du yuan, pensant que la faiblesse de la monnaie chinoise contribue à détruire des emplois chez eux.

Le G7 et le Fonds monétaire international ont joint leurs voix à celle de Washington pour demander au gouvernement chinois de réviser sa politique monétaire, le 19 octobre.

Alain Faujas et Claire Gatinois - Le Monde