Depois do Che Guevara fransciscano que passou de motocicleta por Cannes em 2004, a Croisette nesta quarta-feira reencontrou o guerrilheiro a partir do ponto de vista de Steven Soderbergh. Ou seja, com a perspectiva desromantizada. O cinema já viu Guevara de muitos jeitos. Na ficção e em documentário. Mas em tudo que já se filmou sobre ele, é difícil apontar um olhar que consiga somar sobriedade e poesia na medida que Soderbergh encontrou. Seu “Che” (Benicio Del Toro, na foto) nasceu para ser odiado. Os aplausos que varreram o Palácio dos Festivais em dois momentos vão apenas fortalecer esse ódio nos corações dos que não suportam abordagens não sacralizadas para o processo revolucionário no qual o guerrilheiro argentino se envolveu.
Tudo vai piorar para o lado do diretor americano se ele ganhar a Palma de Ouro neste domingo, como alguns críticos já apostam que deva acontecer. Com quatro horas e meia de duração, “Che” chegou a Cannes sem créditos de abertura e encerramento definitivamente terminados. Inicialmente, o projeto de Soderbergh dava conta de dois longas-metragens diferentes: “The argentine” e “Guerrilha”, ambos com Benicio Del Toro no papel de Guevara. A versão que chegou aqui na competição ainda está em construção.
Em vez de dois longas diferentes, foi exibido um só longa com quatro horas e meia, com um intervalo divindo em duas partes. A inicial, sem qualquer traço de apelação ou sensacionalismo, reconstitui a revolução cubana e o discurso de Guevara na ONU em meados dos anos 60 de uma só tacada. Numa montagem que favorece a clareza e a reflexão, sem deixar de eletrizar o espectador e o melhor de tudo, “Che parte 1″ não cai no modismo da hora de apelar para recursos documentais na narrativa. De posse de todas as potencialidades criativas que a ficção possui, Soderbergh monta sua cartilha estética, produzindo um épico sobre a vitória da utopia cubana sem se deixar contagiar por emotividades. Passadas cerca de duas horas e quinze houve a chamada “intermission”.
Rodrigo Santoro aparece nos dois filmes vivendo Raul Castro, irmão de Fidel
Preocupado com a hipótese de que a mastodôntica extensão do longa pudesse assustar os críticos, a produção de “Che” serviu sanduíches e água mineral durante o intervalo. Como a equipe de seguranças e porteiros do Palácio dos Festivais desconhece a palavra educação, os lanches quase foram arrancados da mão dos jornalistas para impedir que algum deles cometesse o crime de entrar na sala de exibição carregando um pão com queijo. No cartesiano código de conduta dos funcionários do Palácio uma atitude dessas merece repreensões severas, como puxar os repórteres pelo casaco para fora da sala. Isso é praxe aqui, principalmente em relação às mulheres. Mas grosserias fazem parte de qualquer festa cinematográfica.
Começada a parte 2, “Che” adquire uma nova estrutura dramática. A fragmentação do capítulo inicial dá lugar a uma narrativa mais crua, clássica, com uma montagem mais linear centrada inteiramente no personagem de Benicio Del Toro. É fácil entender a proposta de Soderbergh. A primeira parte fala de sonhos coletivos, portanto precisa de uma pluralidade de olhares, traduzida em lances de câmera picotados. Esses picotes são organizados numa espécie de colcha de retalhos utópica. O segundo seguimento de “Che”, ambientado quase que inteiramente na Bolívia, resgata os meses finais da vida do guerrilheiro, portanto fala de sacrifício, um gesto que costuma ser individual.
A atuação contida de Benicio Del Toro é fundamental para o tom que Soderbergh buscou para o projeto “Che”. O guevara de Del Toro é econômico, sem arroubos poéticos, sem falas magnânimas. Seu Guevara é um ser humano, cercado de vitórias e fracassos na trajetória político-guerrilheira a qual se devotou. Um Guevara como esse o cinema nunca viu. Aliás é difícil apontar uma interpretação tão boa, tão inteligente quanto a de Del Toro nesse festival. Apesar de que já se viu inspiradas atuações, como a de Joaquin Phoenix em “Two lovers” ou como a dos quatro protagonistas do brasileiro “Linha de passe”. Vamos ver nesta quinta-feira como Soderbergh se sai na coletiva com a imprensa. Só uma lembrança: Rodrigo Santoro aparece nos dois filmes vivendo Raul Castro, irmão de Fidel Castro. Sua participação é pequena, porém relevante. E o galã brasileiro se doa a ela com o máximo de si.