01/12/2008 - 09:48h Safra menor no Brasil é mais um problema para economia mundial

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Lauren Etter, The Wall Street Journal - VALOR

Num momento em que o mundo precisa de mais comida, os efeitos da crise global do crédito sobre o Brasil aumentam o risco de falta de alimentos.

Muitos produtores brasileiros tinham a esperança de que a alta no mercado de grãos os ajudaria a pagar as dívidas e se tornarem mais competitivos em relação aos produtores americanos, que há muito são os líderes mundiais em produtividade agrícola. Agora, porém, com falta de capital, os brasileiros estão reduzindo o tamanho das plantações e até deixando de pagar dívidas. A acentuada a queda nos preços de diversos produtos no mercado mundial e o aumento no custo dos suprimentos agrícolas, combinados com o aperto no crédito, estão reduzindo o ritmo de um dos fornecedores de alimentos que mais cresce no mundo.

O desaquecimento do cinturão agrícola brasileiro pode afetar toda a economia do país, a maior da América Latina e que vinha, ao lado de Rússia, China e Índia, puxando o crescimento do mundo emergente.

Nos últimos anos, com o aumento da demanda global por grãos, os produtores brasileiros cultivaram a terra a um ritmo febril para plantar soja; estradas foram abertas no interior do país para transportar a produção. O aumento no preço dos grãos em todo o primeiro semestre de 2008 acelerou essa expansão.

Agora, os produtores estão tendo dificuldade de conseguir empréstimos para cobrir o alto custo dos fertilizantes, pesticidas e sementes. Para esses empréstimos, eles sempre dependeram muito de um punhado de cerealistas multinacionais, como Archer-Daniels-Midland Co., Bunge Ltd. e Cargill Inc.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde os fazendeiros dependem de empréstimos do governo e de bancos privados, no Brasil até 40% do financiamento vêm de empresas agrícolas. Essa porcentagem pode cair para até 25% este ano, segundo o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinicius Pratini de Moraes, hoje conselheiro independente do JBS SA.

Agora que a volatilidade no mercado de commodities e a crise financeira global aumentaram os riscos e os custos de fazer negócios no Brasil, as grandes empresas cerealistas estão freando o os empréstimos.

“Cada empresa está tentando garantir o máximo possível de capital (para suportar) os efeitos de longo prazo da crise do crédito”, diz Stefano Rettore, gerente-geral da CHS Brasil. “Isso está deixando menos capital disponível para financiar a agricultura brasileira.”

Esse aperto deve contribuir para uma queda de 2% na produção brasileira de soja para a safra de 2008-2009, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.

Na última quarta-feira, a fabricante americana de equipamentos agrícolas Deere & Co. divulgou sua previsão de que as vendas desses equipamentos na América do Sul cairão em até 20% no ano que vem, em parte devido à “difícil situação do crédito no Brasil”, diz Susan Karlix, diretora de comunicações, em uma teleconferência com os investidores.

A Bunge, um dos maiores processadores mundiais de soja, cortou em 70% os pagamentos adiantados em dinheiro aos produtores agrícolas brasileiros desde o final do ano passado, segundo informes da empresa. A Bunge, tal como outras cerealistas, concede empréstimos e pagamentos adiantados em dinheiro aos produtores, em troca de entregas futuras de cereais.

“Basicamente, estamos sendo mais seletivos”, disse Stewart Lindsay, porta-voz da Bunge, “a fim de gerir melhor nosso capital de giro em um nível global, e sermos prudentes em termos de risco, em um ambiente de preços que já demonstrou ser volátil”.

As americanas ADM e Cargill informam que aumentaram o volume total de crédito disponível para os produtores brasileiros. Mesmo assim, os fazendeiros dizem que os empréstimos não bastam para cobrir seus custos cada vez maiores.

Na última década, o financiamento privado para os fazendeiros incentivou o rápido crescimento da agricultura e da infra-estrutura na região Centro-Oeste, ajudando o país a tornar-se um dos maiores produtores agrícolas mundiais. Hoje o Brasil é o maior produtor de soja depois dos EUA, respondendo por uma quarta parte da produção mundial desse grão.

Ao longo dos anos, os fazendeiros brasileiros acumularam vultosas dívidas depois de uma série de colheitas fracas e de taxas de câmbio desfavoráveis, no início da década. Essas dívidas estão fazendo com que muitos encontrem dificuldade para tomar novos empréstimos.

O custo total da produção das três principais lavouras de Mato Grosso - soja, milho e algodão - deve aumentar 42% este ano em relação ao ano passado diz Michael Cordonnier, presidente da consultoria americana Soybean & Corn Advisor.

Agora, além de economizar com fertilizantes e insumos - o que aumenta o risco de redução da safra -, muitos produtores estão deixando de pagar dívidas e equipamentos importantes para garantir produtividade estão sendo retomados pelos bancos. Mais de cem máquinas como tratores e colheitadeiras confiscadas nos últimos dias no Mato Grosso, o campeão nacional da produção de soja, diz Glauber Silveira, presidente da Aprosoja, Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso.

(Colaborou Tony Danby)

10/11/2008 - 12:13h O que fazer com a China na crise

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Sergio Leo - VALOR

O Brasil tem dois tipos de preocupações em relação à China, que, apesar do tamanho, é um participante discreto das reuniões de cúpula convocadas para evitar uma ameaçadora recessão mundial. Analistas buscam na peculiar macroeconomia chinesa pistas da reação do país à crise e da capacidade de ajudar o mundo a atravessá-la. Ao mesmo tempo, o Brasil debate a melhor estratégia para lidar com a crescente voracidade chinesa no mercado internacional.

Em Brasília, as autoridades esperam receber neste mês um sinal de como a China vai combinar a retração dos mercados consumidores e as sensibilidades afetadas pelo apetite dos exportadores chineses. Vence em dezembro o prazo combinado na OMC para que os países sócios pudessem impor salvaguardas contra produtos têxteis chineses. Com a extinção das salvaguardas hoje aplicadas pelo Brasil, estará liberada a entrada de têxteis da China no mercado brasileiro, o que apavora os concorrentes nacionais. O governo brasileiro sugeriu uma alternativa às salvaguardas; os chineses fazem mistério.

O Brasil quer um “mecanismo de consultas” entre os setores privados dos dois países, sob a supervisão dos governos: sempre que houver alta muito forte nas vendas chinesas ao Brasil, se não houver acordo privado para evitar danos sérios aos concorrentes nacionais, o governo brasileiro poderia adotar “medidas administrativas” contra as “distorções” no comércio.

“É um mecanismo muito mais suave do que existe hoje”, defende o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, que não dá detalhes sobre as “medidas administrativas” cogitadas. Os chineses temem criar precedentes contra as próprias importações e estão calados desde meados de outubro, quando receberam respostas a pedidos de esclarecimento sobre a proposta brasileira.

Neste ano, haverá déficit recorde no comércio com a China. As compras de produtos chineses vão superar em mais de US$ 2 bilhões as vendas do Brasil àquele país. Até outubro, mesmo com menor ritmo de crescimento, o déficit já chegou perto do alcançado em 2007 (US$ 1,87 bilhão): as importações brasileiras foram quase US$ 1,8 bilhão superiores às vendas para aquele mercado. “Precisamos diversificar a pauta de exportações para a China, que importa muitos manufaturados, mas não do Brasil”, diz Ramalho.

No último trimestre, houve aumento forte no ritmo de aumento das vendas à China, e uma redução do ritmo de crescimento das compras. Mas os negócios com grãos e óleo de soja são os maiores responsáveis pelo melhor desempenho, e representam, sozinhos, 42,5 % das exportações brasileiras à China. Com as exportações de minério, somam 70% do total. No caso da soja, pelo menos, é boa notícia o fato de que se destinam ao mercado consumidor interno, como reflexo da melhoria nas condições locais de alimentação e urbanização - algo que a recessão mundial não abalará muito..

O governo prepara um esforço de exportação para a China e, baseado nas estatísticas de comércio, já identificou setores como máquinas para têxteis e couros, autopeças e motores, preparações alimentícias e equipamentos diversos que os chineses compram de outros países. “Estamos na fase de identificar, no caso de máquinas e equipamentos, que produtos são comprados, de quem e por quê”, relata Ramalho. No próximo ano, missões comerciais para vender manufaturados serão enviadas à China.

O secretário-executivo da Câmara de Comércio Brasil-China, Rodrigo Maciel, argumenta que o principal fator responsável pelo aumento de importações de produtos da China são as compras feitas pela própria indústria brasileira, de máquinas e equipamentos. Essas importações de bens de capital representam, há anos, mais de 50% do total das importações, e o crescimento até setembro de 2008 chegou a 78% em relação ao mesmo período do ano passado, lembra ele.

As vendas chinesas de têxteis ao Brasil aumentaram 50%, mas perderam espaço no total das importações originadas na China, pela primeira vez nos últimos anos, de 7,9% para 7%. As de brinquedos também decresceram de 2% do total para 1,2% do total (o aumento das exportações de brinquedos em relação a 2007 foi de quase 35%). Maciel desdenha dos temores de uma invasão potencial de produtos chineses deslocados pela recessão dos mercados desenvolvidos. “O esforço estratégico das exportações chinesas para diversificar mercados já aconteceu e eles ocuparam o que podiam”, argumenta. “O Brasil foi um dos países para os quais mais cresceram as vendas da China.”

“Os chineses estão aumentando o valor agregado dos produtos vendidos para cá e isso preocupa cada vez mais setores industriais”, responde o presidente do Conselho d e Comércio Internacional da Fecomercio, Mario Marconini, que, amanhã, promove um seminário em São Paulo dedicado às conseqüências da crise para a China e o Brasil. “Todos precisamos da China, para dar fôlego ao mercado mundial. A a questão é como irão reagir à crise”, acrescenta.

Muito do que acontecerá no comércio com os chineses dependerá da reação da China ao desaquecimento na economia mundial. Até setembro, apesar da redução no ritmo de crescimento, as exportações chinesas aos EUA continuam firmes, e mesmo os bancos mais expostos a maus negócios no mercado americano mostraram bons resultados no terceiro trimestre, segundo a consultoria GaveKalDragonomics. O setor imobiliário contraiu-se com as medidas oficiais de restrição de crédito, e a produção industrial perde fôlego, mostrando sinais de acúmulo de estoques.

Ainda não se sabe se são estoques de bens intermediários, sinal de gestão de preços nas indústrias, ou de bens finais, que mostrariam preocupante retração na demanda tradicional por mercadorias chinesas. Na semana passada, as autoridades locais anunciaram liberação de quase US$ 600 milhões para incentivar o mercado interno. Mas a resposta chinesa ainda é um dos maiores enigma da crise.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

07/11/2008 - 11:42h Exportações do campo já somam US$ 62 bi no ano

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Mauro Zanatta - VALOR, de Brasília

Empurrado pela boa performance das vendas do complexo soja, complexo carnes, produtos florestais, açúcar, álcool e café, o agronegócio brasileiro embarcou US$ 62 bilhões ao exterior nos primeiros dez meses de 2008, um resultado 26,8% superior ao período entre janeiro e outubro de 2007. Como as importações cresceram 41,8% neste intervalo, para US$ 9,9 bilhões, o superávit comercial do setor atingiu US$ 52,1 bilhões.

Os mercados que mais contribuíram para o crescimento das exportações do agronegócio estão situados na América Latina, Ásia, Europa Oriental, Mercosul e União Européia. Os maiores compradores foram os europeus ocidentais (33%), asiáticos (24%), norte-americanos (10%) e europeus orientais (8%).

A forte elevação das vendas para China (78%) colocou o país asiático no topo do ranking de destinos nos primeiros dez meses do ano com uma fatia de 12,2% de participação. A China ultrapassou os 9% dos Países Baixos e os 8,6% dos Estados Unidos. As vendas tiveram forte aumento para Venezuela (129%), Tailândia (71%), Arábia Saudita (51%), Japão (41%) e Rússia (41%).

Em outubro, as exportações do agronegócio brasileiro totalizaram US$ 6,6 bilhões, um crescimento de 9,8% em relação a outubro de 2007. Como resultado, houve superávit de US$ 5,5 bilhões. Em soja, foram vendidos US$ 1,1 bilhão. As vendas externas de carnes cresceram 31,4%, somando US$ 1,4 bilhão. As exportações do complexo sucroalcooleiro chegaram a US$ 870 milhões, 40,5% acima de outubro do ano passado.

As vendas de fumo cresceram 56,2%, chegando a US$ 406 milhões. As exportações de café cresceram 29,7%, para US$ 524 milhões. As importações de outubro cresceram 27,5%, para US$ 1,1 bilhão. Os mais importados foram trigo e borracha natural, mas as compras de milho (- 43%) e arroz (- 55,5%) recuaram bastante na comparação com igual período do ano passado.

Nos últimos 12 meses encerrados em outubro, as exportações do agronegócio alcançaram a marca histórica de US$ 71,5 bilhões, ou 24,6% acima dos 12 meses anteriores. O superávit comercial acumulado bateu em US$ 59,8 bilhões. Nesse caso, os setores mais dinâmicos foram: carnes (+37%), produtos florestais (+11%), café (+19%), fumo (+25,5%) e lácteos (+162%).

04/11/2008 - 14:03h Agroindústrias terão linha de até R$ 2,5 bi

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Mauro Zanatta, de Brasília - Valor

O pacote de medidas do governo para auxiliar o setor rural será reforçado nesta semana com ações para irrigar o caixa de tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos aos produtores. O Banco do Brasil deve anunciar uma nova linha de crédito de até R$ 2,5 bilhões para financiar o capital de giro dessas empresas com recursos da poupança rural, apurou o Valor.

A preocupação do governo é suprir com crédito adicional a demanda por Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), cujo principal objetivo é incentivar as exportações. O crédito para ACC, usado no pré-embarque das mercadorias, está bastante restrito desde o aprofundamento da crise financeira global, iniciada nos Estados Unidos. Por isso, as tradings e agroindústrias têm reclamado por uma medida específica do governo de auxílio ao segmento.

A nova linha deve ter um custo mais baixo do que os empréstimos contratados a juros livres. Para manter o estímulo ao exportador, a linha de crédito deverá ter alíquota de IOF reduzida, à semelhança do crédito para ACC.

Os empréstimos do BB, que também poderiam ser operados pelos demais bancos federais (BNB e Basa), além das instituições financeiras ligadas a cooperativas, devem ter os juros reduzidos, já que a fonte de recursos será a poupança rural. Estima-se uma taxa final semelhante à Selic - hoje em 13,75% ao ano.

O desenho da nova linha de crédito prevê o repasse, com o compromisso de recompra, de parte das carteiras de recebíveis de tradings e agroindústrias, como as Cédulas de Produto Rural (CPR), em garantia das operações. As CPRs são um título emitido pelos produtores como forma de antecipar os recursos necessários ao custeio ou comercialização da safra.

Os empréstimos dessa linha estarão lastreados nesses papéis e as empresas continuarão com os riscos das operações. Ao fim do contratado, que pode ter prazo de seis a 12 meses, as empresas serão obrigadas a recomprar os papéis. As tradings e agroindústrias precisam desses papéis para resgatar a produção física em mãos do produto rural.

A criação da nova linha foi permitida pela elevação da parcela de aplicação obrigatória em crédito rural pelos bancos (exigibilidades) sobre os depósitos da caderneta de poupança. Na semana passada, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aumentou de 65% para 70% as exigibilidades da “poupança rural” e permitiu o financiamento de tradings, agroindústrias e fornecedores de insumos com até 40% desses recursos. Até então, apenas cooperativas podiam ser financiadas, e até o limite de 5% dessas exigibilidades.

As tradings vinham sofrendo um estrangulamento na concessão de crédito de suas matrizes desde antes do início do atual ano-safra. Na safra passada, elas tiveram que usar boa parte de seu caixa para cobrir as chamadas “margens” na Bolsa de Chicago. Como as cotações das commodities dispararam por causa de uma corrida dos fundos e especuladores, as empresas precisaram cobrir a diferença entre o preço contratado (”hedge”) e as cotações efetivas de produtos como soja, milho e trigo.

O reforço no pacote rural soma-se à prévia autorização da antecipação de R$ 5 bilhões em recursos operados pelo BB para o plantio da atual safra. Também potencializa os efeitos da elevação de 25% para 30% das exigibilidades sobre os depósitos à vista e da redução, de 45% para 42%, nos depósitos compulsórios, que devem antecipar outros R$ 9,1 bilhões para a safra.

O governo federal ainda estuda a adoção de novas medidas, como a criação de uma linha de R$ 1 bilhão para a capitalização das cooperativas e a realização de leilões específicos de US$ 1 bilhão em recursos para a contratação de ACCs ao campo.

02/11/2008 - 21:20h Argentina, contra sus propios fantasmas

La crisis internacional ya afecta a un país que también arrastra graves conflictos endógenos

ALEJANDRO REBOSSIO - El País

cristina_kirchner.jpgGeneral Motors despidió el 24 de octubre pasado a 435 obreros en Argentina, ante las menores ventas a Brasil, contagiado por la crisis mundial. Ese mismo día, el Gobierno de Cristina Fernández de Kirchner le ordena que frene los despidos y negocie con el sindicato. Tres días antes, la intervención gubernamental había llevado a que Renault redujera de 620 a 300 el número de contratados que dejaba en la calle. La crisis internacional ya afecta a la economía de Argentina, que además arrastra conflictos endógenos.

“En Argentina, el tema central era la inflación, pero con la crisis internacional ha pasado a ser la actividad económica y el desempleo”, observa el jefe local de la Comisión Económica para América Latina (CEPAL), Bernardo Kosacoff. De una inflación del 22% o el 24% en 2008 se pasará a una del 14% o el 20% en 2009; de un crecimiento del 7% este año se bajará a uno del 1% al 5%, según los analistas.

“La crisis internacional contagió las expectativas”, admite el ex ministro de Economía Aldo Ferrer, profesor de la Universidad de Buenos Aires, “pero la mayor parte de los problemas argentinos no son los que vienen de afuera, como la caída del precio de las materias primas o el impacto de la crisis financiera en Brasil, sino los que están dentro, como la continuidad del enfrentamiento del Gobierno y el campo, la inflación, la credibilidad del Instituto Nacional de Estadística y la nacionalización del sistema privado de pensiones”.

La crisis financiera internacional no ha perjudicado directamente a la tercera economía latinoamericana, dado que el Gobierno de Fernández y la mayoría de las empresas argentinas ya carecían de acceso a los mercados voluntarios de deuda y no había fuertes ingresos de capitales como en Brasil. El sistema bancario argentino no se ha resentido porque apenas prestaba a corto plazo a las empresas y a las personas, según explica Osvaldo Cado, economista de la consultora Prefinex. Ese crédito escaso para comprar televisores o prefinanciar exportaciones se ha acotado en las últimas semanas.

Pero Argentina no es inmune a la crisis de la economía real del mundo. Le impacta en los precios de las materias primas, en la demanda de productos industriales, sobre todo los destinados a Brasil, y en las cuentas fiscales, cuyo superávit primario (antes del pago de deuda) depende de los impuestos a la exportación agrícola. Alfredo García, analista del Banco Credicoop, calcula que el superávit comercial de los últimos 12 meses, que fue de 15.000 millones de dólares, habría sido de 6.300 millones si los precios internacionales hubiesen sido los actuales. La soja, el maíz y el trigo se depreciaron entre el 35% y el 45%, después de las marcas históricas batidas en la primera mitad de 2008. Esta caída reduce el consumo y la inversión del sector agrícola.

El Gobierno reaccionó primero ante la depreciación de la soja con un giro hacia políticas ortodoxas para atraer capitales y reducir gastos. Aumentó las tarifas de gas y electricidad para evitar nuevas subidas de los subsidios. Anunció que iba a saldar las deudas impagas desde 2001 con el Club de París (19 países acreedores, incluida España) y con los bonistas que rechazaron el canje con quita de 2005. Pero la reapertura del canje se ha estancado por la crisis internacional. Tampoco se ha concretado el pago al Club de París, para el que se iba a usar reservas del Banco Central, ahora necesarias para afrontar la depreciación del peso ante la salida de depósitos bancarios.

Fernández, aconsejada por su influyente marido y ex presidente, Néstor Kirchner, optó hace dos semanas por abandonar la ortodoxia y anunciar la nacionalización del sistema de pensiones. La jefa de Estado adujo que se busca rescatar a los actuales y futuros jubilados, cuyos ahorros estaban licuándose por las inversiones en títulos públicos y acciones. Fuentes del Gobierno admiten que la nacionalización les facilita casi la mitad de los pagos de deuda de 2009. Para contrarrestar la caída bursátil que produjo la nacionalización, obligaron a los fondos de pensiones a la repatriación de sus inversiones en Brasil.

La nacionalización agravó la salida de depósitos y la compra de dólares (tradicional refugio del ahorrador argentino). En un principio, el Banco Central intentó evitar que el peso se devaluara tanto como el real para evitar más inflación y la fuga de depósitos, pero esta semana no pudo impedirlo, con lo que los industriales de su país consiguieron la protección cambiaria que reclamaban. -

14/09/2008 - 10:26h Musculação fortalece o cérebro

Estudos mostram que exercícios físicos melhoram o funcionamento dos neurônios

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Antônio Marinho - O Globo

Ter um corpo com músculos definidos é sinal de inteligência. Pesquisas americanas indicam que os exercícios de força associados a treinamento aeróbio ativam os neurônios e retardam o envelhecimento do cérebro. Um dos motivos é que a atividade física estimula genes que regulam o órgão. Os dados foram apresentados este fim de semana no III Congresso Brasileiro de Nutrição Esportiva Funcional e IV Congresso Internacional de Nutrição Clínica Funcional, na sede da Fecomércio, em São Paulo. Especialistas discutiram ainda como usar os alimentos para prevenir e controlar desequilíbrios do organismo.

De acordo com estudos, a prática de exercícios aumenta a oxigenação no cérebro. Este é apenas um dos benefícios da malhação.

Segundo o pesquisador Michael Colgan, do American College of Sports Medicine e da British Society for Nutritional Medicine, o esforço produz novas mitocôndrias, organela responsável pela produção de energia.

Para fabricar mais mitocôndrias, o cérebro acaba estimulando a formação de neurônios, a neurogênese.

— Antes se dizia que isso era impossível, que as pessoas nasciam com certo número de neurônios e eles morreriam com os anos. Hoje sabemos que o cérebro cria novas células o tempo todo — diz Colgan, autor de livros sobre o tema, como “Save your brain” (Salve o seu cérebro), ainda não lançado no Brasil.

É por essa razão que o foco da pesquisa em atividade física tem sido quais genes ela regula e como eles afetam a expressão de DNA, a síntese de RNA, entre outras reações.

— Não se trata apenas de oxigenar o cérebro, mas como os exercícios afetam a base de nosso código genético e a sua expressão — afirma Colgan.

Malhação, portanto, é um dos melhores combustíveis para os neurônios. Se a pessoa tem pouca massa muscular tem dificuldade em oxidar as gorduras.

— Quando se perde músculos, há aumento de peso e maior risco de doenças, como diabetes, síndrome metabólica, problemas cardiovasculares, mal de Alzheimer e outros males crônicos. Os músculos são os principais órgãos capazes de oxidar a gordura.

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Má nutrição afeta a libido e causa impotência

Colgan recomenda o equilíbrio nas séries para obter mais vantagens. Os músculos têm duas fibras básicas: a de contração rápida, que oxida carboidratos, e a lenta, que oxida gorduras. Exercícios aeróbicos, como caminhada, corrida, ciclismo e natação, aumentam o número de fibras de contração lenta.

Já exercícios de força aumentam a massa muscular e o número de fibras de contração rápida, de explosão. Estas ajudam a queimar os açúcares (carboidratos). Se a pessoa pratica muito exercício de força, perde fibras lentas. Ao exagerar no treino aeróbico, perde massa muscular.

Outros estudos confirmam a teoria de que exercício físico é bom para o cérebro. Pesquisa realizada com 138 voluntários na Universidade de Melbourne, na Austrália, e publicada no “Journal of the American Medical Association”, indicou que a atividade física melhora a função cognitiva de pessoas acima de 50 anos e com leve falha de memória.

Porém, só malhar é pouco. Colgan e especialistas reunidos no congresso recomendam a nutrição funcional, que visa a recuperar o equilíbrio bioquímico nas células. A partir de uma boa história clínica, de exames laboratoriais, mapeamento genético e polimorfismo enzimático — quando necessários — é possível traçar o perfil nutricional de cada um. Os exames são feitos no exterior, principalmente nos Estados Unidos, por meio de laboratórios conveniados no Brasil (cobram a partir de R$ 800). Há testes que avaliam a hipersensibilidade a nutrientes, numa lista de 94 a 270 alimentos.

Essa hipersensibilidade muitas vezes é responsável por doenças crônicas, alergias, fibromialgia, obesidade, hiperatividade e até depressão e demência. A idéia da nutrição funcional é regular os desequilíbrios orgânicos de acordo com a individualidade bioquímica e controlar o estresse oxidativo.

Nem sempre é necessário se submeter a exames caros para descobrir isso. O mineralograma, por exemplo, muito usado em medicina ortomolecular não é reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina e só mostra a contaminação por metais tóxicos.

— Não há exame específico que aponte a necessidade exata de nutrientes em cada organismo.

O acompanhamento clínico permite observar a reação do organismo a determinados alimentos. Isto leva tempo e requer adesão do paciente. Até o aspecto das unhas revela deficiência ou excesso de nutrientes.

Há pessoas com testes laboratoriais normais que se sentem mal, o que pode ser causado por nutrição inadequada — diz Valéria Paschoal, diretora da VP Consultoria Nutricional e organizadora do Congresso de Nutrição Clínica Funcional.

Má nutrição afeta até a vida sexual. Valéria explica que a disfunção erétil e a frigidez ou falta de desejo sexual podem piorar ou serem desencadeadas por falta de nutrientes que produzem óxido nítrico, como alimentos ricos em arginina (soja e oleaginosas, por exemplo) que melhoram o fluxo de sangue.

Fontes de resveratrol, como chocolate amargo, suco de uva e vinho (sem excessos) e magnésio, encontrado em vegetais de folhas escuras, frutos do mar e peixes, são outros bons alimentos para produzir o óxido nítrico.

A frigidez na mulher pode estar associada à deficiência de zinco, que atua em hormônios. Mas a nutricionista lembra que um alimento bom para uma pessoa, pode fazer mal a outra.

— As dietas que focam apenas na contagem de calorias e açúcares não fazem mais sentido. É preciso escolher os alimentos de acordo com as características individuais. Até as queixas menos graves, como cansaço e falta de ânimo, são resultado de um estresse oxidativo por do desequilíbrio nutricional — diz Valéria.

Receitas para vida saudável

Nos dois congressos de nutrição especialistas discutiram ainda o uso de nutrientes no controle do estresse, no bem-estar físico e mental, na prevenção do envelhecimento precoce e em tratamentos de beleza

CORPO EM FORMA: Para o organismo funcionar bem é preciso consumir 54 nutrientes variados todos os dias, e muita gente não segue esta recomendação, segundo o pesquisador Michael Colgan.

Uma parcela grande da população ingere pouca quantidade necessária de todas as vitaminas e minerais. Por isso, a Academia Nacional de Ciências dos EUA e o Instituto de Medicina recomendam que a maioria dos americanos tome suplementos vitamínicos diariamente. Esses suplementos também devem ser usados pelas crianças e por mulheres durante a gravidez.

http://cache02.stormap.sapo.pt/fotostore01/fotos//90/50/6e/1723151_PU0pl.jpegMENOS ESTRESSE: O estresse físico e emocional causa desequilíbrio hormonal e gera um processo chamado fadiga adrenal, no qual as glândulas supra-renais funcionam mal. Hábitos alimentares e dieta inadequada pioram a situação, segundo a nutricionista Patrícia Davidson. Ela recomenda evitar produtos industrializados e com agrotóxicos, consumo exagerado de adoçantes (têm alta carga tóxica e não auxiliam a supra-renal a produzir hormônios), baixo consumo de alimentos ricos em vitamina C e de gorduras (deve-se evitar as saturadas) — os hormônios da suprarenal são obtidos a partir de colesterol —; pouco consumo de vitaminas do complexo B (principalmente B5 que ajuda na produção de hormônios e está presente em cereais integrais e leguminosas) e de alimentos ricos em magnésio (encontrado em maior quantidade em cereais integrais, leguminosas, folhas verdes escuras), importante para produzir os hormônios adrenais. Deve-se evitar abuso de carboidratos de alto índice glicêmico (pão francês, biscoito, massas, açúcar, arroz branco, batata, mel e doces) que elevam rapidamente a glicose e causam perda de energia. O álcool reduz a capacidade de o fígado lidar com as toxinas, fazendo com que elas permaneçam no sistema e levem ao acúmulo de gordura no coração e ao enfraquecimento do sistema imunológico. Para aliviar o estresse, Patrícia recomenda alimentos como aipo, gengibre e grãos integrais, que auxiliam na absorção de nutrientes, reduzem a liberação de hormônios estressantes e melhoram a concentração.

http://eyoga.uol.com.br/imagens/materia/semente-de-linhaca.jpgPLANTAS ANTIOXIDANTES: Uma maneira de neutralizar o dano oxidativo é fazer dieta rica em fitoquímicos com propriedades antioxidantes, encontrados em vegetais. A nutricionista e bioquímica Lucyanna Kalluf explica que o alho, por exemplo, previne o envelhecimento cerebral e a demência por ser rico em fitoquímicos antioxidantes. O chá verde tem potencial antiinflamatório e anticâncer graças ao componente EGCG. Ela destaca ainda a linhaça, que tem alto teor de lignanas que agem no equilíbrio dos receptores hormonais e diminuem a agregação de placas.

CÉREBRO SAUDÁVEL: O cientista Colgan diz que existem cerca de 20 nutrientes essenciais na prevenção do mal de Alzheimer. Os mais importantes são o ácido glicólico, o aminoácido L-carnitina, o ácido retinóico e a acetilcisteína. Deve-se consultar nutricionista ou médico para saber como consumir essas substâncias de forma saudável.

http://www.cienciapt.info/pt/images/stories/noticias/Saude/not9806.jpgREJUVENESCIMENTO: A nutrição influencia diretamente a saúde da pele, ao modular a síntese do colágeno e de hormônios. Segundo a nutricionista Eliane Tagliari, a recomendação diária deve ser de acordo com individualidade bioquímica de cada um, mas há nutrientes com um papel mais importante, como silício, selênio, coenzima Q10, ácido alfalipóico, quercetina, resveratrol, silimarina, magnésio, cálcio e complexo B. Mesmo os idosos podem se beneficiar, quando melhoram a absorção desses nutrientes através da recuperação da flora intestinal e da produção de enzimas digestivas. Uma boa hidratação é fundamental.

06/07/2008 - 22:07h Leite: tomar ou não tomar, eis a questão…

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Dilema de mamífero


Especialistas se dividem sobre tomar leite na idade adulta: para uns, é fundamental; para outros, prejudicial à saúde

Antônio Marinho - O Globo

A polêmica em relação aos benefícios do leite para a saúde de adultos parece não ter fim. De um lado estão os mais radicais, como o Comitê para Educação de Laticínios nos Estados Unidos, que condenam o alimento e o classificam como um veneno capaz de causar cânceres. Do outro, especialistas que afirmam que o leite é bom até para o coração por ser rico em cálcio, proteína e vitaminas.

O único consenso, pelo menos entre nutricionistas, é que ele faz bem quando usado de forma adequada.

Além de anti-hipertensivo, o leite teria efeito reidratante após exercícios, segundo a revista “British Journal of Nutrition”.

Outro estudo mostrou que ele proporciona maior crescimento muscular em comparação com uma bebida de proteína de soja.

— O cálcio ajuda a controlar a pressão. O efeito na massa muscular é associado à boa qualidade dos seus aminoácidos — diz Virgínia Nascimento, diretora da Clínica de Orientação Nutricional.

Mineral é essencial para a contração cardíaca Para Vilma Blondet, do Departamento de Nutrição e Dietética da UFF, não precisamos especificamente de leite, mas do cálcio. E ele pode ser obtido em iogurtes, queijos e outros laticínios. A recomendação para crianças de 1 ano a 3 anos é de 500mg / dia ; de 4 anos a 8 anos é de 800mg/dia; de 9 anos a 18 anos é de 1.300mg/dia.

— No adulto é de 1 mil mg/dia (quatro copos de leite).

Como qualquer nutriente, em excesso é prejudicial. O abuso de cálcio, por exemplo, pode formar cálculos renais — diz Vilma.

Com relação à ação anti-hipertensiva do cálcio, Vilma diz que há controvérsia e não se receita suplementação do mineral nesses casos: — Parece haver correlação entre hipertensão e dieta com menos de 600mg/dia de cálcio.

Hipertensos devem fazer alimentação rica nesse mineral.

A contração muscular, inclusive cardíaca, também precisa de cálcio, segundo Ana Beatriz Rique, co-autora de “Alimentação saudável, tabela de equivalências” (Tecmedd): — Um dos benefícios de consumir laticínios é que eles aumentam a saciedade por mais horas. E muitas pessoas intolerantes à lactose se dão bem com iogurte e queijos.

Mariana Schievano Danelon, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP, lembra que o “Guia Alimentar para a População Brasileira”, do Ministério da Educação, recomenda o consumo diário de três porções de leite e derivados. São a melhor fonte de cálcio, mas outros alimentos têm esse mineral, como as verduras escuras, soja, amêndoas, sardinha e laranja.

E apesar de alguns pesquisadores dispensarem o leite em adultos, Mariana diz que ele é essencial para a massa óssea, tendo em vista que há perda de minerais pela urina: — Cerca de 99% do cálcio no nosso organismo está nos ossos e nos dentes. E 1% encontrase no plasma, exercendo funções como coagulação e contrações musculares. Quando os níveis de cálcio começam a baixar no sangue, ele é retirado dos ossos.

O alerta é importante. Um estudo de 1996 em cinco cidades brasileiras continua atual, segundo Mariana. Ele revelou que 48,9% dos homens e 61,3% das mulheres acima de 18 anos ingeriam pouco cálcio. E levantamento recente, de abrangência nacional, da Faculdade de Saúde Pública da USP, confirmou a reduzida ingestão do mineral no país: 700mg, quase metade das necessidades diárias.

Argumentos contra o leite são antigos. O humano adulto não foi programado para digerir este alimento. Isto só ocorreu com adaptações da espécie.

Um estudo britânico na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences” comprovou que o homem neolítico tinha deficiência do gene da enzima da lactase. Ela quebra as moléculas de lactose (açúcar natural do leite) na digestão.

Sem o gene nossos ancestrais sofriam de intolerância.

A pesquisa foi feita em esqueletos de adultos que viveram na Europa entre 5.480 a 5 mil a.C.

A Humanidade surgiu na África há 200 mil anos e ficou restrita a este continente por dois terços de sua história evolucionária, só tendo saído de lá há 60 mil anos, lembra o professor Sérgio Danilo Pena, da UFMG e do GENE — Núcleo de Genética Médica.

Durante esse período, os humanos eram intolerantes à lactose após o desmame.

Com a domesticação do gado na Europa nos últimos sete a dez mil anos, a capacidade de digerir lactose passou a ser significativa, seletiva, porque o leite era fonte de calorias, proteína e cálcio.

Hoje não temos mais limitações de aporte de calorias e proteínas, a não ser em populações carentes.

— Com abundância de outras fontes de nutrientes, o leite integral perde importância porque contém de 3% a 4% de gorduras animais que aumentam o colesterol. Por outro lado, o desnatado é boa fonte de cálcio para adultos — diz.

A evolução não acabou de vez com a intolerância ao leite, incômodo que afeta metade dos adultos. Hoje já existem até produtos sem lactose.

Outra queixa é a alergia causada pela principal proteína do leite (a caseína), mal que atinge até 5% das crianças. E não são os problemas mais graves.

Segundo o Comitê para Educação de Laticínios, o leite destrói células. Eles até criaram o site www.notmilk.com para alertar os consumidores.

Porém, estudos sobre malefícios do leite precisam de mais análises.

Assim como são inconclusivos dados sugerindo que o alimento reduz o risco de síndrome metabólica (diabetes, aumento de gorduras no sangue e hipertensão). A hipótese foi apontada em artigo na “Journal of Epidemiology and Community Health”. Médicos do Brigham and Women’s Hospital também defendem o leite, e afirmam que meio litro por dia reduz em 12% o risco de câncer de intestino, graças ao efeito protetor do cálcio.


Saiba mais sobre o alimento

NUTRIENTES: O leite é uma das melhores fontes de cálcio e energia, contém proteínas de alto valor biológico e vitaminas lipossolúveis como a D (essencial para a absorção do cálcio) e A (auxilia no crescimento e desenvolvimento ósseo, manutenção da visão normal e na imunidade), e hidrossolúveis, como a B1 e B2 (importantes para a integridade do sistema nervoso e uso de proteínas, gorduras e carboidratos). O leite integral contém 3,5g de gordura em 100ml; o semidesnatado contém até 2g de gordura e o desnatado até 0,5g. Adultos devem optar por desnatados. Para gestantes e crianças recomendase o leite integral, que possui maior quantidade de vitaminas A, D, E e K.

PROTEÇÃO CONTRA DOENÇAS:
A professora Mariana Danelon diz que alguns estudos, na maioria epidemiológicos (avaliam a relação entre os hábitos alimentares e a incidência de doenças na população), associam o consumo de leite à redução de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, câncer no intestino e obesidade. Mas o mecanismo pelo qual o leite propiciaria esses benefícios ainda não está totalmente esclarecido.
A seqüência de aminoácidos das proteínas do leite, a cadeia de ácidos graxos poliinsaturados (presentes no leite materno), as propriedades das proteínas do soro do leite e o cálcio teriam ação contra as doenças crônicas.

01/06/2008 - 10:23h Os ricos estão mais famintos

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Amartya Sem * - O Estado de São Paulo

A crise dos alimentos que está ameaçando as vidas de milhões de pessoas vai abrandar-se ou se agravará com o passar do tempo? A resposta é: ambas as coisas. A alta recente dos preços dos alimentos foi causada em grande parte por problemas temporários, como seca na Austrália, na Ucrânia e em outros países. Embora a necessidade de vultosas operações de ajuda seja algo da maior urgência, a crise profunda dos dias de hoje deve chegar ao fim.

Entretanto, subjacente a essa crise se encontra um problema fundamental que só poderá intensificar-se, a não ser que nos conscientizemos dele e procuremos solucioná-lo.

É a história de dois povos. Segundo uma versão da história, um país onde os pobres são muito numerosos registra repentinamente uma expansão econômica, mas apenas a metade da população participa dessa nova prosperidade. Os que se beneficiam com ela gastam grande parte da renda recém-adquirida em alimentos e, se a oferta não aumentar com bastante rapidez, os preços poderão disparar. O restante dos pobres agora enfrenta uma alta dos preços dos alimentos, mas não da renda, e começa a morrer de fome. Tragédias como esta ocorrem repetidamente no mundo.

O exemplo mais devastador é a fome no Bengala, em 1943, nos últimos dias do governo britânico na Índia. Os pobres que viviam em centros urbanos experimentaram um aumento acelerado da renda, principalmente em Calcutá, onde os enormes gastos com a guerra contra o Japão provocaram uma explosão que quadruplicou os preços dos alimentos. Os pobres que moravam na zona rural experimentaram esses aumentos vertiginosos dos preços com um aumento mínimo da renda.

Uma equivocada política do governo acentuou essa divisão. As autoridades britânicas tentaram evitar o descontentamento urbano durante a guerra, e o governo passou a adquirir alimentos nas aldeias e a vendê-los nas cidades, a preços altamente subsidiados, numa medida que contribuiu para uma alta ainda maior dos alimentos na zona rural.

Nas aldeias, as pessoas que ganhavam remunerações mínimas começaram a morrer de fome. Na carestia que se seguiu, assim como na esteira dela, morreram de 2 milhões a 3 milhões de pessoas.

Neste momento, discute-se intensamente, como não poderia deixar de ser, a divisão entre a população afluente e a não afluente na economia global, mas os pobres do mundo também estão divididos entre os que registram uma elevada expansão e os que não se beneficiam dela. O rápido crescimento econômico em países como China, Índia e Vietnã tende a aumentar acentuadamente a demanda de alimentos. Evidentemente, isto é excelente em si, e se esses países conseguirem reduzir a desigualdade da divisão interna do crescimento, mesmo os que não são beneficiados comerão muito melhor.

Mas esse crescimento também pressiona os mercados globais de alimentos - às vezes mediante o aumento das importações, outras vezes, por meio de restrições ou proibições das exportações, como ocorreu recentemente em países como Índia, China, Vietnã e Argentina. Os mais particularmente afetados foram os pobres, principalmente na África.

Há também uma versão da história dos dois povos que tem a ver com a alta tecnologia. Produtos agrícolas como milho e soja podem ser usados para produzir o etanol utilizado como combustível automotivo. Portanto, os estômagos dos famintos também precisam competir com os tanques de combustível.

Nesse caso, também influi uma equivocada política governamental. Em 2005, o Congresso americano começou a exigir que se aumentasse o uso do etanol nos veículos. Prevendo um subsídio para a utilização desse produto, a lei criou um florescente mercado de milho nos EUA, mas ao mesmo tempo fez com que recursos agrícolas fossem desviados dos alimentos para a produção do combustível, o que torna ainda mais difícil a concorrência para os estômagos famintos.

O uso do etanol pouco contribui para evitar o aquecimento global e a deterioração ambiental, e, se os políticos americanos permitissem, deveriam ser implementadas com urgência reformas muito claras na política. O uso do etanol poderia ser restringido, em vez de ser incentivado e subsidiado.

O problema global dos alimentos não é provocado por uma tendência de queda da produção mundial, ou da produção de alimentos per capita (o que tem sido muitas vezes afirmado sem muitas evidências). Ele é o resultado da aceleração da demanda. Entretanto, um problema induzido pela demanda também exige a rápida expansão da produção de alimentos, o que pode ser feito mediante uma maior cooperação global.

Embora se deva atribuir ao crescimento populacional apenas uma modesta parcela da crescente demanda de alimentos, ele pode contribuir para o aquecimento global, e, no longo prazo, as mudanças climáticas podem ameaçar a agricultura. Felizmente, o crescimento populacional já está diminuindo, e existem provas esmagadoras de que o aumento do número de mulheres capacitadas para exercer funções de responsabilidade (bem como a ampliação da educação para as jovens) poderá rapidamente reduzi-lo ainda mais.

O problema maior é elaborar políticas eficientes para tratar das conseqüências de uma expansão extremamente assimétrica da economia global. Há uma crucial necessidade de reformas nacionais no âmbito da economia em muitos países que apresentam um lento crescimento, mas há também uma grande necessidade de uma maior cooperação e assistência globais. A primeira tarefa consiste em compreender a natureza do problema.

*Amartya Sem, que leciona economia e filosofia em Harvard, recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1998. Mais recentemente, escreveu “Identity and Violence: The Ilusion of Destiny”. Ele escreveu este artigo para o ‘The New York Times’

22/04/2008 - 12:03h Biocombustíveis não vão aumentar preços dos alimentos, diz UE

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Plantação dedicada a produzir biocombustível na Inglaterra

Estudo realizado pela União Européia sugere que um aumento no consumo de biocombustíveis nos 27 países do bloco não faria subir o preço final dos alimentos e não distorceria o mercado internacional.

Em março a UE determinou que 10% dos combustíveis consumidos pelos automóveis do bloco até 2020 deverá ser de origem biológica. Para suprir esse novo mercado estima-se que a indústria européia precisará de 59 milhões de toneladas de cereais –18% da produção interna - e ainda terá de importar 20% do biocombustível necessário.

A conclusão vai no sentido contrário do que defendem a FAO (Organização da ONU para Agricultura e Alimentação) e a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em relatórios publicados nos últimos dois meses.

Segundo especialistas das duas organizações, a maior demanda por grãos e óleos vegetais, que servem de matérias-primas para os biocombustíveis, já está causando um aumento nos preços internacionais desses produtos.

Como os grãos são muito utilizados na alimentação animal, esse aumento se refletiria nos custos de criação de animais e seria indiretamente transferido para os preços de produtos de origem animal.

“Estamos de acordo em que o preço dos grãos subirá. Mas eu afirmo que isso não se refletirá no preço final dos alimentos”, explicou Wolfgang Munch, autor do estudo europeu.

Ele defende que FAO e OCDE não levam em conta fatores que equilibrariam a ascensão no preço dos grãos e, paralelamente, impediriam que fosse transferida para os custos de criação animal.

Soja deve seguir os passos da canola

“A produção de biocombustíveis a partir de sementes oleaginosas dá origem a um subproduto rico em proteínas, que também é usado na alimentação de animais. Então, se por um lado a ração a base de grãos ficará mais cara, por outro lado a ração a base de oleaginosas ficará mais barata, porque a maior produção de biocombustíveis aumentará a oferta desse subproduto.”

Segundo o especialista, a pasta de canola –subproduto da fabricação de biodiesel a partir de sementes de canola– custa atualmente 60% menos em relação há dois anos.

“O mesmo acontecerá com a soja no futuro. O preço da semente aumentará, mas óleo e pasta obedecerão o caminho contrário. Haverá tanta quantidade desses subprodutos que talvez os fazendeiros até recebam incentivos para usá-los”, estima.

Biocombustíveis de segunda geração

Munch também ressalta que o desenvolvimento de biocombustíveis de segunda geração aumentará em até 40% o aproveitamento das terras cultivadas.

“Essa nova geração usará não apenas as sementes, mas a palha, o grão, toda a planta para gerar energia. Com isso, economizaremos área e reduziremos significativamente a concorrência entre alimentos e energia”, explica.

Essa tecnologia deverá alcançar dimensão industrial e ser competitiva por volta de 2015.

Na UE, prevê o especialista, outro fator que contribuirá para manter estável o preço dos alimentos é o movimento demográfico previsto. “Como a população européia diminuirá até 2020, também diminuirá a demanda por alimentos, ao mesmo tempo em que sabemos que a extensão de terra cultivável está aumentando entre 1% e 2% ao ano. Ou seja: a produtividade está crescendo mais que o consumo”, afirma o autor.

Fonte jornal expressão.com

22/04/2008 - 11:55h ‘Não há nada contra o etanol do Brasil’

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Produção americana de biocombustível de milho é o que causa a alta no preço dos grãos, e não o etanol de cana, diz economista

Lourival Sant’Anna - O Estado de São Paulo

Roma - O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, prometeu criar um grupo de estudos sobre a crise dos alimentos. Na ONU, a pessoa a ouvir sobre isso é o economista Abdolreza Abbassian, secretário do Grupo Intergovernamental sobre Grãos da Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura (FAO): “Quando falamos da influência dos biocombustíveis na economia dos grãos, estamos falando do milho dos Estados Unidos, não da cana-de-açúcar do Brasil”, diz Abbassian, um iraniano de 49 anos, há 17 na FAO.

“Não temos nada contra o etanol brasileiro”, garante o economista, que antes trabalhou na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e no Fundo Monetário Internacional (FMI). Entretanto, pondera, isso não quer dizer que, no futuro, não possa haver relação, ainda que indireta, entre a produção de etanol no Brasil e a redução de terras para a criação de gado e, com ela, o avanço dos pastos na Amazônia.

Em entrevista ao Estado, na sede da FAO em Roma, Abbassian reconhece que os subsídios nos EUA e na Europa inviabilizam projetos de biocombustíveis em países pobres. Mas estima que, independentemente dos subsídios, com exceção do Brasil e outros poucos que podem produzir álcool da cana, é “discutível” que países da África ou a Índia venham a ter produção comercialmente viável de biocombustíveis, como quer o presidente Lula.

A partir da revolução verde, há 30 anos, dizia-se que o mundo passou a produzir alimentos mais que suficientes para a população mundial, e o problema era de distribuição e de renda. Isso deixou de ser verdade?

Não. O problema principal, seja no Haiti ou no Egito, continua sendo o mesmo: acesso. A fome existia antes do boom de biocombustíveis e segue existindo com ele.

O fato de os asiáticos estarem comendo mais não mudou isso?

Não. A produção mais do que triplicou nesses 30 anos, acompanhando o crescimento da população e da renda e a mudança na dieta tanto na Ásia quanto no resto do mundo.

A produção de biocombustíveis pode prejudicar a de alimentos?

Pode. Os biocombustíveis introduzem uma nova demanda. Mas nossas afirmações têm sido tiradas do contexto e por isso estamos nessa confusão. Em junho, quando expusemos nossa posição sobre a influência dos biocombustíveis na economia dos grãos, não mencionamos açúcar. Quando citamos etanol, estávamos falando do derivado do milho.

Mas fomos alvo de um bombardeio do Brasil: “O que vocês têm contra o nosso etanol?”

Nada. Leiam o relatório. Não falávamos do Brasil, que tem uma história de 30 anos de produção sustentável de álcool de cana-de-açúcar. Quando falamos de grãos, estamos falando dos Estados Unidos - o maior produtor, consumidor e exportador de milho. É lógico que, quando uma demanda tão forte de grãos emerge tão depressa, terá de ter implicações. Quem disser que não, deve morar em Marte. No ano passado, 84 milhões de toneladas de milho foram destinadas ao etanol. O comércio mundial de milho é de cerca de 90 milhões de toneladas. Em quatro anos, a produção dobrou. Os fazendeiros americanos foram capazes de aumentar a produção tão rapidamente que não só houve milho suficiente para a expansão dos biocombustíveis, mas os EUA ainda exportaram mais, destinaram mais milho à ração de animais e aumentaram ligeiramente seu estoque.

Então, qual o problema?

Os EUA tiveram de reduzir sua produção de soja e de trigo na mesma proporção em que aumentaram a de milho. A partir de março do ano passado, há um gargalo de suprimento de soja. A produção de trigo dos EUA e de outros países também caiu. Resultado: os preços dos dois grãos subiram. E o milho, apesar da produção recorde nos EUA, começou a subir também. Na safra 2007-2008, os biocombustíveis foram um dos principais fatores, não o único. Houve seca também. Na próxima safra, os biocombustíveis podem ser o fator determinante, se os preços continuarem altos.

A soja brasileira pode entrar substituindo o milho para alimentar rebanhos?

O aumento da demanda do milho para o etanol (nos EUA) pressionará o preço da soja. O Brasil é um dos poucos países com potencial de crescimento da produção de praticamente qualquer coisa, e talvez aumente a produção de soja, para atender à demanda da China e dos EUA, que têm capacidade limitada de expandir o uso da terra. O que acontecerá com as terras destinadas ao pasto? Se elas se deslocarem, irão para onde? Muitos ambientalistas têm nos dito que terão de avançar na floresta. Sabemos que o desmatamento não é para plantar cana. Essa é a cadeia que torna o biocombustível responsável. O grau de influência dele é assunto para futuras pesquisas. É um fenômeno recente demais para fazermos análises estatísticas. O que não se pode dizer é que o biocombustível é irrelevante.

No Brasil se argumenta que há terras improdutivas suficientes para a expansão da produção.

É possível. Mas, com o crescimento da demanda por grãos, as terras para pasto vão encolher, o preço da terra vai subir e a fronteira agrícola subirá para o norte. Não será do dia para a noite, não há relação direta e depende de quanto crescerá a demanda por soja e biocombustível no mundo.

O governo brasileiro se defende dizendo que os subsídios e barreiras americanos e europeus prejudicam muito mais o acesso dos pobres aos alimentos do que o biocombustível, porque impede a venda de produtos agrícolas aos seus mercados, que aumentaria a renda dos países em desenvolvimento. O que o senhor acha desse argumento?

Os subsídios foram a causa dos preços baixos no passado. De repente, o mundo está tentando ver esses preços baixos com simpatia, mas é uma falácia. Eram preços artificialmente baixos, que prejudicaram os países em desenvolvimento, que não puderam aumentar sua produção por causa desse dumping. Seus preços eram sempre mais altos. Mas isso tem mudado sob a Rodada Doha (da Organização Mundial do Comércio) nos últimos dez anos. Não vamos chegar a nenhum lugar discutindo o que é pior: subsídios ou biocombustíveis. Ambos são prejudiciais.

E quanto à possibilidade de os países pobres gerarem renda produzindo biocombustíveis?

Há cerca de um ano, a FAO recebeu propostas de projetos nesse sentido. Isso nunca foi adiante porque os EUA, a União Européia e mais alguns países desenvolvidos começaram a dar enormes subsídios para seus fazendeiros produzirem grãos. Se não fosse isso, seria válido pensar em estimular a produção de grãos na África e na Índia, que fixaria o homem no campo e geraria renda. Quando começou esse boom, houve muita discussão sobre o volume de recursos necessário para criar as condições de os países pobres produzirem biocombustíveis para os EUA e a Europa. Eu mesmo tenho três pequenos projetos de sorgo na Ásia, mas o que existe são projetos-piloto para fixar agricultores aqui e ali. Nada na escala do Brasil ou dos EUA. E provavelmente continuará assim, porque os subsídios e todos os mecanismos de dedução de impostos que os EUA colocam na produção de milho tornam impossível para esses países competir. Se é a isso que o presidente Lula se refere, faz sentido. Mas há outra questão: faz sentido para os africanos e indianos destinar a sua terra e água à produção exclusiva de matéria-prima para biocombustíveis? Isso tem implicações econômicas e ambientais, e ainda está em estudos. A economia terá a palavra final, e não a emoção ou o interesse nacional.

22/04/2008 - 10:07h Aginflação e biocombustível

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Antônio Márcio Buainain* - O Estado de São Paulo

Nesta temporada de final de campeonatos estaduais vem à mente aquela imagem da bola roubada quando o gol já estava praticamente feito para caracterizar a polêmica global sobre inflação de alimentos, que coloca o biocombustível - visto até então como uma virtuosa contribuição para reduzir o aquecimento global e como alternativa para a escassez do petróleo - no papel de vilão. As declarações de personalidades mundiais (“o biocombustível é crime contra a humanidade”, Jean Ziegler, consultor da ONU; “é problema moral”, Strauss-Khan, diretor-geral do FMI) indicam o potencial explosivo do debate, cujos efeitos sobre o futuro deste promissor segmento não podem ser negligenciados.

É possível contra-atacar afirmando que “problema moral” é manter o “bolsa-vaca”, que distribui em média US$ 3,50 por dia às vacas européias, enquanto 75% da população africana vive com menos de US$ 2 por dia, e que “crime contra a humanidade” é praticar políticas protecionistas que impedem o desenvolvimento dos países mais pobres, ou destinar bilhões de dólares a guerras com pretextos mentirosos. Ainda que válidos, é provável que esses argumentos encontrem ouvidos de mercador pelo mundo afora e não sejam suficientes para evitar os efeitos negativos imediatos sobre o negócio do biocombustível.

Os fatos são relativamente claros. Os preços das commodities já se vinham elevando desde 2002, em resposta, antes de tudo, à elevação da demanda associada às mudanças estruturais na geografia comercial, à conjuntura favorável da economia mundial e ao crescimento da renda nos países em desenvolvimento. Outros fatores, como a elevação do preço do petróleo - insumo básico para a cadeia da produção e comercialização de alimentos - e a instabilidade financeira, também contribuíram. Só a partir de em 2006, e de forma mais forte em 2007, a demanda de grãos para a produção de biocombustível nos EUA e na Europa entra para reforçar a tendência de alta.

Tradicionalmente a oferta agrícola responde quase de imediato aos estímulos de mercado. A evolução recente da oferta mundial não acompanhou o ritmo da demanda, devido, entre outras razões, à incerteza que caracteriza o mercado agrícola mundial, sujeito a forte protecionismo e suscetível à influência das políticas americana e européia. Uma simples decisão da política agrícola dos EUA ou da União Européia pode mudar radicalmente o mercado, a favor ou contra, como comprova a decisão de produzir biocombustível de grãos. A agricultura moderna exige investimentos relevantes dos produtores e dos países. Como investir sem garantias de acesso aos mercados, sem recursos fiscais e sem financiamento internacional? O economista brasileiro Otaviano Canuto, vice-presidente executivo do BID, já tinha chamado a atenção para a seriedade da agflation e da assimetria dos impactos sobre a balança comercial, inflação doméstica e pobreza dos países da América Latina e do mundo (Global agflation, energy security and bio-fuels, in www.rgemonitor.com).

Também é fato claro que o vínculo entre aginflação e biocombustível se deve à decisão americana de produzir etanol a partir de grãos, e que pouco ou nada tem que ver com a produção brasileira à base de cana-de-açúcar. Ao contrário do que ocorre no EUA, a produção do etanol no Brasil vem crescendo juntamente com a de grãos e alimentos em geral. O dinamismo do agronegócio brasileiro contribuiu para conter a elevação de preços, que teria sido maior sem soja, carne, milho, açúcar, algodão e frutas brasileiros.

Os fatos precisam ser analisados e discutidos exaustivamente. Mas não é suficiente. Aqui estamos diante da “dimensão político-cultural dos mercados”, cuja importância o sociólogo Ricardo Abramovay, professor da USP, ressalta ao analisar o papel da ciência e das inovações tecnológicas (Bem-vindo ao mundo da polêmica, jornal Valor, 1º/11/2007). A racionalidade econômica e verdades científicas precisam ser sancionadas pela sociedade para se afirmarem como inovações e romperem paradigmas. E para isso uma comunicação adequada - não confundir com propaganda - é muito importante. O estrago está feito. Basta ver a imprensa européia ou a opinião cética ou contrária do cidadão nas principais capitais do mundo. Sem presunção, será preciso reconquistar corações e mentes para o biocombustível e para isso não podemos fechar os olhos para a questão alimentar. Nossa melhor resposta terá de vir do dinamismo do nosso agronegócio.

*Antônio Márcio Buainain é professor do Instituto de Economia da Unicamp. E-mail: buainain@eco.unicamp.br

22/04/2008 - 09:25h Eqüidade beneficia Paraguai e Brasil

Folha de São Paulo, 02/04/2008 - Fernando Lugo Méndez * (hoje Presidente eleito do Paraguai)

lugo_fernando.jpgCom freqüência procura-se retratar o projeto político que lidero no Paraguai como sendo “antibrasileiro”. Nada poderia estar mais distante da verdade. Todos os que integramos a Aliança Patriótica para a Mudança (APC, na sigla em espanhol) temos profundo respeito pelo povo, pelas instituições e pelo governo brasileiros. Nosso objetivo é avançar em direção a uma cooperação maior sobre bases justas.

Os povos do Paraguai e do Brasil herdamos problemas cujas raízes estão nas ditaduras militares. Estamos certos de que devemos enfrentar esses problemas e encontrar soluções para eles.

Durante a ditadura de Alfredo Stroessner, foram gerados negócios de fronteira, em muitos casos ilícitos.

Hoje, muitos paraguaios e brasileiros vivem dessa atividade. Precisamos acabar com a doença, mas sem matar o doente (os postos de trabalho) -pelo contrário, curando-o (com mais empregos dignos). Precisamos avançar juntos num processo de legalização e intensificação da produção em toda a região da fronteira.

Foi também na época das ditaduras que ocorreu uma forte migração de colonos brasileiros a território paraguaio virgem. Hoje, o meio ambiente está devastado, e a população camponesa paraguaia se vê encurralada pelos grandes produtores de soja (que não são apenas “brasiguaios”, mas também paraguaios ou de outras nacionalidades), que empregam agrotóxicos com pouco controle.

A maioria dos antigos colonos brasileiros hoje já tem filhos paraguaios e respeita as leis. Os que assim procedem não terão dificuldade com nosso governo. Em contrapartida, aqueles -seja qual for sua nacionalidade- que não obedecem às leis deverão começar a fazê-lo.

Nunca, por convicção própria, vamos discriminar ninguém por sua nacionalidade, raça, religião ou simpatia política. Esse é um compromisso de todos os integrantes da APC, avalizado por nossa trajetória de luta pelos direitos humanos.

Estamos convencidos de que -sob condições de eqüidade- Itaipu será o principal instrumento de integração dos povos paraguaio e brasileiro.

Alguns afirmam que, mesmo quando for muito injusto com o povo paraguaio, o tratado de Itaipu deve continuar em vigor até 2023 tal como foi firmado em 1973, sob as ditaduras militares do Brasil e do Paraguai.

Não existe fundamento para a manutenção dessa atitude. Queremos dialogar com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva partindo da própria base do tratado de Itaipu: a ata de Foz do Iguaçu (1966), firmada e ratificada pelo Brasil. Ela está em vigor e assinala que o Paraguai deve receber um “preço justo” pela energia que exporta ao Brasil. Queremos dialogar sobre esse ponto aceito pelas duas partes.

Quando foi assinado o tratado de Itaipu (em 26 de abril de 1973), o petróleo custava pouco mais de US$ 2 por barril. Hoje, seu preço está em torno de US$ 100 por barril.

O Paraguai recebe hoje por sua energia muito menos, em termos reais, que em 1973. Hoje podemos comprar muito menos petróleo que há 35 anos. E consta que, naquele ano, toda a opinião pública paraguaia viu como irrisórios os benefícios fixados no tratado. Não pretendemos cobrar o que não nos pertence. Aspiramos só a um “preço justo”, como o Brasil concordou em nos pagar em 1966.

Chegar a um acordo justo em Itaipu vai possibilitar o melhor desenvolvimento dos dois países. Quando não existe um “preço justo” entre um país mais poderoso e outro mais fraco, predomina o conflito, mais que a cooperação. As duas nações saem perdendo. Por isso, quando propomos chegar a um “preço justo”, estamos contribuindo para o desenvolvimento melhor de ambas as partes.

Assim se entendeu na Europa quando foram mantidas as assimetrias entre as nações e regiões menos desenvolvidas e as mais desenvolvidas. Assim entendemos nós, que desejamos um Paraguai soberano e integrado ao Mercosul, fortalecendo vínculos com o Brasil e seu povo sobre bases justas.

Nas eleições de 20 de abril, existem duas opções: o desenvolvimento harmônico dos dois países ou o desenvolvimento excludente do Brasil e a ruína do Paraguai, caso em que nosso país será mais uma vez pólo de tensões e problemas na região.

Não temos dúvida de que a primeira é a opção correta. Como dizemos em nossa língua indígena, “oñondive mante jajapóta” (”só juntos é que vamos poder fazer”). Nesse “juntos” incluímos não apenas o Paraguai, mas também o Brasil.

*FERNANDO LUGO MÉNDEZ, 56, licenciado em ciências religiosas, ex-bispo da Diocese de San Pedro (1994-2005), é candidato à presidência do Paraguai pela APC (Aliança Patriótica para a Mudança, na sigla em espanhol).


Publicado na Folha de São Paulo, 02/04/2008. Tradução de Clara Allain

20/04/2008 - 11:50h O preço da omissão

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ANTONIO PALOCCI - O GLOBO

O relator especial da ONU para o direito à alimentação, o suíço Jean Ziegler, encontrou uma inusitada explicação para a alta do preço dos alimentos: é culpa da produção de biocombustíveis, “um crime contra a humanidade”.

Outras autoridades européias se ocuparam, nas últimas semanas, num violento tiroteio contra o etanol. O argumento básico utilizado por eles é que a produção do etanol está ocupando áreas de plantio dos alimentos e de pastagens, encarecendo os produtos alimentícios.

Se estivessem seriamente preocupados com as reais razões para a onda altista dos alimentos eles poderiam se perguntar por que o Brasil, maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar nas últimas três décadas, se tornou, ao mesmo tempo, o maior exportador de soja, açúcar, café, milho, laranja e carne bovina e de frango. Não se fazem tal pergunta porque ela desmontaria suas apressadas conclusões.

A bem da verdade, os únicos casos em que os biocombustíveis pressionam preços acontecem exatamente nos países onde eles recebem fortes subsídios, inclusive na Zona do Euro, por decisões das próprias autoridades que agora atacam o etanol.

Mas mesmo se considerarmos a produção americana de etanol, com altos subsídios e baixa produtividade energética, e tendo como insumo o milho, causando alguma pressão sobre o preço dos grãos, ainda assim teríamos apenas uma explicação parcial. Serviria mais para demonstrar um claro exemplo de alocação ineficiente de recursos do que para justificar o comportamento do preço dos alimentos.

Mais recentemente verifica-se um movimento de caráter mais especulativo em direção aos mercados de futuros das commodities, com investidores financeiros buscando ativos aparentemente mais robustos diante da crise financeira em curso. Mas se esse movimento colabora com a alta de preços, também não é suficiente para justificá-la.

Parece claro que o principal fator explicativo para a alta dos alimentos é um desequilíbrio entre uma oferta que cresceu pouco nos últimos anos e uma demanda que tem crescido exponencialmente nos países emergentes, principalmente naqueles com grandes populações.

Como disse o presidente Lula de forma simples e direta, o fato é que o povo pobre dos países emergentes está comendo mais e a produção não está acompanhando.

Outro fator importante é a escalada do preço do petróleo, cujo patamar mais que dobrou nos últimos cinco anos. É bastante conhecido o efeito do preço dos combustíveis para produtos de baixo valor agregado, que têm no transporte uma parte importante de seu custo.

Mas ainda há, além desses fatores conjunturais, problemas crônicos, estruturais, que têm contribuído com o baixo crescimento na produção de alimentos: o protecionismo e os subsídios praticados pelos países ricos contra os alimentos produzidos nos países em desenvolvimento.

Essa prática anticoncorrencial tem desestimulado os países emergentes a investir mais na produção de alimentos, tendo em vista as fortes barreiras que encontram nas exportações.

E é exatamente essa questão que as autoridades européias tentam camuflar com seus insistentes ataques ao etanol.

É a velha arma do diversionismo.

Enfim, é de se esperar que os inimigos de ocasião dos biocombustíveis continuem sua cruzada, pois o protecionismo, quando posto em questão, sempre é sustentado por argumentos dramáticos. Mas pelo menos seria recomendável que estas autoridades não acreditassem na sua própria mentira. Se continuarmos aceitando diagnósticos pobres, interessados e simplistas sobre tendências de preços, talvez acordemos tarde demais para buscar soluções efetivas para a ampliação na produção de alimentos. Soluções que dependem de ações coordenadas dos países e das instituições multilaterais.

Sem isso sobrará aos Bancos Centrais a triste tarefa de aumentar juros e compulsórios para conter as pressões inflacionárias já presentes em todos os continentes. O preço dos alimentos é, antes de tudo, o preço da omissão.

Biocombustíveis só pressionam preços nos países onde recebem fortes subsídios

20/04/2008 - 06:29h Etanol, questão moral

Celso Ming - O Estado de São Paulo

Até agora, a disparada dos preços dos alimentos era encarada como um problema econômico, um entre tantos que exigem respostas econômicas. Agora está sendo vista como questão moral e estratégica. E isso é sério, pois sugere respostas morais e estratégicas, sabe-se lá de que qualidade.

Os observadores têm repisado que acabaram as montanhas de trigo, leite em pó e manteiga que entulhavam os armazéns da Europa. E, de fato, os estoques estão baixando (veja o gráfico). Até aí, um fato econômico.

Há alguns meses, o presidente Lula afirmou que “no mundo, comida não é problema; problema é falta de renda”, portanto, provocada por fator econômico.

Há apenas algumas semanas, os analistas internacionais concentravam suas denúncias contra a ação dos especuladores nas bolsas de commodities, outro fator econômico. E a alta dos grãos era reconhecida como conseqüência do aumento do consumo de alimentos pelos asiáticos; das secas que há seis anos atingem a Austrália; e do uso de grãos alimentares para a produção de biocombustíveis - enfim, também derivados de fatores fundamentalmente econômicos.

Mas, há cerca de um mês, a ONU pareceu ter comprado o diagnóstico do consultor suíço Jean Ziegler, para o qual a crise dos alimentos passou a ser um “crime contra a humanidade”.

E, sexta-feira, foi a vez do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan. Ele afirmou que “o FMI está muito preocupado” e fez duas advertências: “a crise dos alimentos pode estar apenas começando”; e “se a alta das commodities alimentares continuar, pode derrubar governos e provocar novas guerras”. E arrematou com uma declaração grave: “A produção de biocombustíveis é um problema moral”.

Argentina, Egito, Índia e Paquistão impuseram barreiras às exportações de alimentos. No Haiti, caiu o governo, e em Bangladesh a população está sublevada. Analistas começam a martelar que a falta de comida é um risco para a democracia.

Até agora, Strauss-Khan eximiu a cana-de-açúcar brasileira do problema moral. E o presidente Lula tem defendido o etanol nacional com argumentos fortes. Primeiro, cana-de-açúcar não é alimento e, por isso, a produção de álcool no Brasil não está desviando comida para a produção de biocombustíveis, como nos Estados Unidos (com o milho) e na Europa (com a colza e o girassol). Segundo, a produção de cana ocupa áreas que em princípio são pastagens degradadas. E, terceiro, o produtor de cana aumenta a produção de alimentos na medida em que, a cada cinco anos, faz a rotação de culturas, substituindo-a por soja ou amendoim.

O problema é que, certo ou errado - não importa aqui -, se esse questionamento moral prevalecer, vai ser difícil justificar a destinação de tantas terras agricultáveis brasileiras para a produção de cana. Da mesma forma como reclamam que o milho americano está sendo desviado para a produção de etanol, vão disparar que o brasileiro está usando criminosa e imoralmente suas terras para alimentar os motores dos veículos.

O Brasil não está preparado para ataques dessa ordem. Tem de preparar-se.

17/04/2008 - 09:04h As mangas, os alfaiates e o etanol brasileiro

Cana versus milho
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Fernando Reinach* - O Estado de São Paulo

Na caça aos culpados pelo aumento do preço dos alimentos, o sr. Jean Ziegler, representante da Organização das Nações Unidas, declarou esta semana que ‘os biocombustíveis são um crime contra a humanidade’. Esse ataque indiscriminado me fez recordar a história do alfaiate e seu freguês. A piada, que ouvi aos 12 anos, foi provavelmente o meu primeiro contato com o surrealismo. Um alfaiate recusa-se a fabricar camisas com manga. Diante da indignação do freguês, ele alega que deseja preservar a saúde do cliente. ‘Mas qual a relação entre as mangas e minha saúde?’, reclama o cliente. ‘Manga causa indigestão’, responde o alfaiate.

O que o sr. Ziegler não sabe (ou quis esconder) é que, da mesma forma que a manga de camisa só compartilha o nome com a fruta, o etanol produzido nos Estados Unidos só compartilha a estrutura química com o álcool brasileiro.

Nos Estados Unidos, o etanol é produzido a partir do milho, uma das principais fontes de proteína para alimentação humana e animal. As usinas de etanol americanas não precisam plantar o milho que consomem. Elas compram o produto no mercado, competindo diretamente com a indústria de alimentos. Hoje, os Estados Unidos produzem mais etanol que o Brasil e, para tanto, consomem quase 20% de todo o milho produzido no país. O resultado é que o preço do milho aumentou assustadoramente nos últimos anos. Como praticamente toda a área cultivável do país já está ocupada, a única maneira de aumentar a produção de milho é diminuir a produção de soja, prejudicando novamente a produção de alimentos.

MAIS EFICIENTE

No Brasil, produzimos álcool a partir da sacarose presente no caldo da cana. Como essa matéria-prima não pode ser estocada, cada usina é obrigada a plantar sua própria cana e só metade da sacarose produzida nos canaviais é convertida em álcool. A outra metade é vendida como açúcar. O resultado é que a produção de álcool tem crescido em paralelo à produção do açúcar. Além de não competir com a produção de milho e soja, o aumento do consumo de álcool incentivou a produção de açúcar, um alimento que exportamos para o resto do mundo. Como o Brasil ainda possui grandes extensões de pastagens e terras não cultivadas, o crescimento da cana-de-açúcar não exclui a possibilidade de aumentarmos ainda mais nossa produção de alimentos.

Nos Estados Unidos, a produção de etanol consome muito petróleo. Ele é usado para fabricar adubo e para movimentar as máquinas agrícolas. Quando os cientistas fizeram as contas de quanto etanol os americanos produzem para cada barril de petróleo consumido, descobriram que essa quantidade corresponde a somente 1,3 barril de petróleo. Gastam 1 barril para produzir o equivalente a 1,3. É muito esforço para economizar tão pouco petróleo e reduzir tão pouco as emissões de gás carbônico.

No Brasil, para cada barril de petróleo que queimamos para processar o álcool, produzimos etanol equivalente a 11 barris de petróleo. Gastamos 1 para produzir 11. Nosso sistema de produção a partir da cana é quase dez vezes mais eficiente do que o sistema dos EUA. Aqui, o uso do álcool realmente contribui para a redução do consumo de petróleo e para a diminuição dos gases que provocam o efeito estufa.

É claro que existem problemas no Brasil. Em boa parte dos canaviais, ainda queimamos a cana antes de colher, as condições de trabalho dos cortadores de cana são lamentáveis e ainda temos de garantir que nossa expansão agrícola possa conviver com a preservação da floresta amazônica e do cerrado.

Mas colocar sob o mesmo rótulo a produção de álcool brasileira e a produção americana é, no mínimo, desonestidade intelectual. O que ficou evidente esta semana é que o mundo está cheio de alfaiates, alguns ignorantes, outros desonestos.

*Biólogo - fernando@reinach.com