21/12/2008 - 15:03h Casamento é ‘missão quase impossível’, afirma psiquiatra

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Maria Vianna - O GLOBO

Arquivo O Globo

RIO - Antes de mais nada, esqueça a idéia de “felizes para sempre”. Esta é a sugestão do psicoterapeuta Eduardo Ferreira-Santos, médico-supervisor do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital da Clínicas de São Paulo, autor do livro “Casamento, missão quase impossível”, lançado este mês pela editora Claridade. Para o médico, manter a individualidade é a base para uma união feliz. Em entrevista ao site do Globo, ele aponta os principais problemas que levam ao fim de um relacionamento e mostra os caminhos para quem quer ser mais feliz no amor.

Por que dizer que o casamento é uma missão ‘quase’ impossível? Não seria uma afirmação meio radical?

Sim, de fato é. A expressão ‘quase’ foi colocada apenas para mostrar que, em alguns casos e com muito esforço de ambos os cônjuges, é possível manter uma relação matrimonial estável, saudável e verdadeira. O crescente número de divórcios e a observação de que tantos casamentos se mantêm apenas na aparência, mantidos por motivos financeiros, de dependência emocional e de pressão social mostram claramente o quanto é difícil a convivência e a manutenção de um vínculo verdadeiro e duradouro.

A sexualidade permite e propicia a intimidade necessária à manutenção da união


Quais os principais motivos que fazem um casamento fracassar?

O principal motivo, na minha maneira de ver, é a imposição de que o coletivo deva prevalecer sobre o individual em uma relação estável. Em tempos modernos, em que se luta tanto pela individualidade, surgem enormes conflitos de interesse que, se não trabalhados exaustivamente através do diálogo franco e aberto em busca do consenso, levam fatalmente à situação de concessões, de submissão de um ou de outro que, por sua vez, levam ao desgaste pessoal devido às frustrações geradas. As frustrações, como se sabe, geram sentimentos antagônicos de depressão e raiva, acumulando-se ao longo do tempo e exigindo reparações por parte daquele que submete o outro e que, por fim, esgotam a expectativa de uma vida feliz e harmoniosa a lá “Família Margarina”.

Por que as pessoas ainda se casam? Há motivos certos e motivos errados que levam a um casamento ou isto é uma questão individual?

Há vários enfoques teóricos que procuram explicar este fenômeno, desde o biológico (a tendência natural à perpetuação da espécie) até o meramente social que ainda exige a qualificação de casado ou mesmo descasado, com observações pejorativas em relação às ’solteironas’ ou ’solteirões’, além da intensa propaganda subliminar ou mesmo explícita de uma suposta estabilidade só encontrada na família. O fator psicológico que fica entre o biológico e o social é um determinante importante, pois as pessoas acreditam que sozinhas estão incompletas e procuram em um outro a “outra metade da laranja”, na esperança de se sentirem completas e satisfeitas.

Como explicar casais que se juntam, brigam sem parar e não conseguem se separar?A explicação mais plausível para este fato é a dependência, seja ela financeira ou emocional. Há, ainda, mesmo com toda a evolução ocorrida nos últimos tempos, particularmente com a ascensão da mulher no mercado de trabalho, uma enorme dependência econômica e emocional que torna principalmente a mulher uma refém do marido provedor e estabilizador.

Sexo é fundamental para um casamento feliz?

Sim, pois ainda numa visão romântica, a sexualidade permite e propicia a intimidade necessária à manutenção da união. Por outro lado, o “sexo por sexo” tem se tornado tão banalizado que perde em muito pelo quesito respeito, em minha opinião, o fundamental para uma união feliz.

A falta de comprometimento consigo mesmo e com a própria vida acaba por levar as pessoas a realizarem atos impensados e desastrosos


Há características comuns em pessoas que são mais felizes em relacionamentos e que conseguem manter relações saudáveis?

Acredito que há dois lados nesta questão. Um deles, a maneira mais antiga, é o daquelas relações que parecem estáveis e felizes porque um dos cônjuges abdicou de sua individualidade e, inconscientemente, se deixa submeter pelo outro, “curtindo” sua solidão a dois em nome de pressões culturais . A outra forma, como já falei, é a mais trabalhosa, pois exige um constante diálogo através das longas e cansativas “discussões da relação”, a DR, como já se fala jocosamente, em que ambos procuram encontrar pontos de vista em comum sobre as várias adversidades que a vida apresenta.

Como saber se é a hora certa de se casar ou de se separar?

Não creio que haja uma hora certa para casa ou para se separar. Na verdade, penso que ambos devam estar bastante conscientes do ato que estão por realizar e saibam avaliar com clareza o que este ato significa na vida de cada um e, no caso de uma família, nas implicações para os filhos. Penso que a falta de comprometimento consigo mesmo e com a própria vida acaba por levar as pessoas a realizarem atos impensados e desastrosos, com repercussões traumáticas, muitas vezes para o resto da vida.

18/12/2008 - 21:17h Solidão

Guilherme Bergamini

 

Tonico Mercador

 

 

Tratado
oblíquo
da
solidão

 

 

 

 

   1   
(solidão)
sol sem luz
quando se está só e
(avassaladoramente)  
mal acompanhado.

  (solidão)
dia sem sol  
quando se está só  
sem o próprio corpo  
(sua bengala).
 

(solidão)
sombra do sol quando se está só
e são  (no mundo)
mudo e morto.

2
comparada à minha, a solidão dos outros
é cortina opaca de banheiro
rosa murcha entre seios lembrança
apagada em lençóis
de gelo.

minha solidão é como um deus
sem cara sem sexo sem tamanho
em um pequeno mundo efêmero.

3

minha solidão é maior do que a (solidão) da minha mulher
do que a (solidão) dos meus filhos do que a (solidão)
dos que ainda não nasceram
 

minha solidão é maior do que
a (solidão) dos amigos que deixei de beijar
(enquanto eram amigos) maior do que a (solidão) dos inimigos
que deixei de matar
(enquanto eram vivos)

minha solidão é a
(solidão) dos que estão suspensos
entre a lembrança e o esquecimento
sem pontes tapetes arames fios de navalha (nem isso).

6

solidão apavora (ou inspira?)
solidão devora e vomita

solidão enregela (ou dinamita?)
solidão é escuro e ausência

solidão é silêncio (ou abismo?)
solidão é desejo e desolação

solidão é espera (ou suicídio?)
solidão é avesso e abandono

solidão é pergunta (ou escolha?)
solidão é falta e disfarce

solidão é leito seco
de um rio seco rio sem leito
ou leito sem rio
sem corpos úmidos deitados nele?

11
dizem que a solidão
é fumaça de cigarro
numa sala muda

mulher nua
e seu batom
abandonados no tapete  

         luz de abajur 
tão distante que a
mão não alcança

homem e seu destino
na escuridão
da página em branco.

 

23

                            meus filhos longe
         dos meus abraços
         (longe)
         dos meus olhos
         envelhecendo longe
         de mim
         dos meus rios
         florestas
         mares ladeiras
         bares
         cafés da manhã 

                            eu tão longe de mim
         dos meus sonhos
         da lua (imóvel)
         na moldura da janela
         da sirene da polícia
         do motor da cidade 

                            eu só
         (tão longe)
         a música esculpindo (cenários)
         memórias

         (totens) para a saudade longínqua.


Tonico Mercador, poeta e jornalista, autor de diversos
livros, entre eles Perversos. tmercador@mac.com

Fonte revista electronica Tanto

12/11/2008 - 18:53h Três Quadros

por Virginia Wolf

http://blogdagalileu.com.br/wp-content/uploads/2008/05/wolf.jpg

Tradução: Alberto Augusto Miranda com Alexandra Bernardo

Fonte meninas vamos ao vira


O PRIMEIRO QUADRO

É impossível olhar e não ver quadros. Se o meu pai fosse ferreiro e o seu par do reino, nós próprias seríamos quadros uma para a outra. Provavelmente não conseguiremos sair da moldura do quadro usando palavras normais. A senhora ver-me-á sempre encostada à porta da oficina, com uma ferradura na mão e pensará, enquanto passa: “Olha que engraçado!”. Pela minha parte, vê-la-ei sempre no bem-bom do seu carro, quase como se estivesse a acenar ao zé-povinho, e pensarei: “Aqui está um quadro da velha e luxuriosa Inglaterra aristocrata!” Não há dúvida que estamos ambas enganadas nos nossos julgamentos, mas não deixamos de os fazer.

Ainda agora na curva da estrada vi um desses quadros. Poderíamos dar-lhe o nome de “O Regresso do Marinheiro” ou coisa parecida. Um marinheiro jovem carregando a trouxa; uma rapariga de braço dado com ele; os vizinhos indo ao seu encontro; um jardinzinho de flores radiosas; ao passarmos poderíamos ver no fundo desse quadro que o marinheiro tinha regressado da China, e havia um banquete à sua espera na sala; dentro da trouxa ele trazia uma prenda para a sua amada; e ela em breve traria no ventre o seu primeiro filho. Ficávamos com a sensação de tudo estar como devia.

Havia qualquer coisa que nos preenchia, uma plenitude diante de tal felicidade; a vida parecia mais fácil, mais doce.

Nessa atmosfera entrei no quadro tentando conhecê-lo o melhor que podia, captando a cor do vestido dela, a cor dos olhos dele, descobrindo o gato amarelo a roçar-se no portão do jardim.

O quadro flutuou nos meus olhos durante algum tempo; a maior parte das coisas tornou-se mais viva, mais quente, mais simples; outras coisas mais tontas; algumas erradas e outras certas, mais cheias de sentido. Em momentos estranhos desse dia e do dia seguinte o quadro voltava a aparecer; pensava nele, tinha inveja, apesar da simpatia, do marinheiro feliz e da sua amada; o que estariam a fazer, a dizer. Imaginava outros quadros a partir do primeiro, um quadro do marinheiro a cortar lenha, a tirar água; a falarem da China; a rapariga a colocar a prenda em cima da lareira, onde todos pudessem ver; a fazer as roupinhas do seu bebé, e todas as portas e janelas abertas para ouvir os pássaros cantar e as abelhas zumbir, e o Rogers – era o nome dele – não tinha palavras para dizer o quanto tudo isto o satisfazia depois dos mares da China. Enquanto fumava o seu cachimbo, com um pé no jardim.


O SEGUNDO QUADRO

A meio da noite um grito forte atravessou a aldeia. Depois ouviu-se o som de uma pequena barafunda; e a seguir um silêncio de morte. Tudo o que podia ser visto da janela era o ramo de um lilás dependurado imóvel e ponderoso no meio da estrada. A noite estava quente e inerte. Não havia lua. O grito fez com que tudo parecesse agoirento. Quem tinha gritado? Por que é que ela tinha gritado? Era uma voz de mulher, desencadeada pelo estado-limite de uma sensibilidade quase assexuada, quase inexpressiva. Era como se a natureza humana tivesse gritado contra alguma iniquidade, algum horror inexplicável. Havia um silêncio de morte. As estrelas brilhavam quietinhas. Os campos mantinham-se inertes. As árvores estavam imóveis. No entanto, todos pareciam culpados, condenados, agoirentos. Havia a sensação de que se devia fazer alguma coisa. Alguma luz devia surgir agitada, mexendo-se de um lado para o outro. Alguém devia aparecer correndo pela estrada abaixo. Devia haver luzes nas janelinhas. E então talvez outro grito, menos assexuado, menos mudo; conformado, apaziguado. Mas não veio nenhuma luz. Não se ouviram nenhuns passos. Não houve nenhum segundo grito. O primeiro tinha sido engolido, e estava um silêncio de morte.

Estava-se no escuro com o ouvido de prevenção. Tinha sido simplesmente uma voz. Não havia nada a relacionar com ela. Não veio nenhum tipo de quadro para a interpretar, para a descodificar. Mas quando finalmente o escuro se destapou tudo o que se via era uma forma humana obscura, quase sem contornos, erguendo em vão um braço gigantesco contra uma iniquidade esmagadora.


O TERCEIRO QUADRO

O bom tempo manteve-se intacto. Se não fosse aquele solitário grito na noite, ter-se-ia a sensação de que a Terra tinha aportado em segurança; que a vida tinha deixado de se antecipar ao vento; que tinha alcançado uma baía calma e se deixara ficar ancorada, quase imóvel, nas águas mansas. Mas o som insistia. Para onde quer que se fosse, por exemplo uma longa caminhada a subir os montes, algo parecia mexer-se inquietamente por baixo da superfície, tornando a paz, a estabilidade circundantes um pouco irreais. As ovelhas estavam agrupadas na encosta; o vale dividia-se em ondas longas e estreitas como a queda de águas suaves. Cada um na solidão da sua leira. O cão rebolava no pátio. As borboletas brincavam à volta da urze. Tudo estava muito sossegado, o mais seguro que era possível. No entanto, não se deixava de pensar, um grito tinha posto tudo em causa; toda esta beleza tinha sido cúmplice naquela noite; tinha consentido; permaneceu calma, continuou bela; a qualquer momento podia despedaçar-se outra vez. Esta divindade, esta segurança estavam apenas à superfície.

Para sair deste estado apreensivo, era preciso voltar ao quadro do regresso do marinheiro. Vê-lo uma vez mais destacando vários pormenores que não tinham sido aplicados antes: o azul do vestido dela, a sombra que caía da árvore de flores amarelas. Agora eles estavam no umbral, ele com a sua trouxa às costas, ela a tocar levemente a manga dele com a mão. E um gato amarelo tinha fugido pela porta. Ao lembrar gradualmente o quadro com todos os pormenores, percebia-se pouco a pouco que esta calma e contentamento e boa vontade permaneciam abaixo da superfície ocupando o lugar de algo traiçoeiro, sinistro. As ovelhas a pastar, as ondas do vale, a leira, o cão, as borboletas bailarinas eram de facto uma prova disso. E então voltava-se a casa, com a cabeça fixa no marinheiro e na sua mulher, criando quadro após quadro a partir deles para que todos os quadros de felicidade e satisfação se pudessem sobrepor àquele grito inquietante e odioso, até o esmagarem e silenciarem, impelindo-o para fora da existência.

Aqui estava finalmente a aldeia, e o cemitério que tínhamos de atravessar; ao entrar nele pensava-se mais uma vez na paz daquele sítio, com os seus ciprestes, as suas tumbas polidas, as suas covas anónimas. Sentia-se que a morte era agradável neste sítio. De facto, reparemos naquele quadro! Um homem a abrir uma cova, e as crianças a fazer um lanche mesmo ali ao lado enquanto ele trabalha. Ao mesmo tempo que as pás de terra amarela são atiradas para cima, as crianças empanturram-se de pão com doce e bebem leite por canecas enormes. A mulher do coveiro, uma mulher gorda e bonita, senta-se numa campa e estende o avental na relva ao lado da cova aberta para servir de mesa. Algumas pedrinhas de cimento caem no meio das loiças. Quem vai ser enterrado?, perguntei eu. O velho senhor Dodson morreu finalmente? “Ah! não. É para o Rogers, o marinheiro,” -respondeu a mulher, fitando-me nos olhos- “morreu há duas noites, de uma febre desconhecida. Não ouviu a mulher dele?” Ela veio para a rua gritar… “Oh Tommy, estás todo sujo de terra!”

Que quadro!

30/07/2008 - 18:53h A solidão - La solitude

Balé de Bejart e canção La solitude (A solidão) de Barbara, dança: Keisuke Nasuno et Gil Roman

La solitude, cantado por Barbara com legenda em espanhol

La solitude

Je l’ai trouvée devant ma porte,
Un soir, que je rentrais chez moi.
Partout, elle me fait escorte.
Elle est revenue, elle est là,
La renifleuse des amours mortes.
Elle m’a suivie, pas à pas.
La garce, que le Diable l’emporte !
Elle est revenue, elle est là

Avec sa gueule de carême
Avec ses larges yeux cernés,
Elle nous fait le cœur à la traîne,
Elle nous fait le cœur à pleurer,
Elle nous fait des matins blêmes
Et de longues nuits désolées.
La garce ! Elle nous ferait même
L’hiver au plein cœur de l’été.

Dans ta triste robe de moire
Avec tes cheveux mal peignés,
T’as la mine du désespoir,
Tu n’es pas belle à regarder.
Allez, va t-en porter ailleurs
Ta triste gueule de l’ennui.
Je n’ai pas le goût du malheur.
Va t-en voir ailleurs si j’y suis !

Je veux encore rouler des hanches,
Je veux me saouler de printemps,
Je veux m’en payer, des nuits blanches,
A cœur qui bat, à cœur battant.
Avant que sonne l’heure blême
Et jusqu’à mon souffle dernier,
Je veux encore dire “je t’aime”
Et vouloir mourir d’aimer.

Elle a dit : “Ouvre-moi ta porte.
Je t’avais suivie pas à pas.
Je sais que tes amours sont mortes.
Je suis revenue, me voilà.
Ils t’ont récité leurs poèmes,
Tes beaux messieurs, tes beaux enfants,
Tes faux Rimbaud, tes faux Verlaine.
Eh ! bien, c’est fini, maintenant.”

Depuis, elle me fait des nuits blanches.
Elle s’est pendue à mon cou,
Elle s’est enroulée à mes genoux.
Partout, elle me fait escorte
Et elle me suit, pas à pas.
Elle m’attend devant ma porte.
Elle est revenue, elle est là,
La solitude, la solitude…