06/07/2009 - 18:17h SONETO XVIII

Gilberto Barbalho

Eu seguia tão só o meu caminho,
Tão triste e só o meu viver seguia,
Que se me procurassem noite ou dia,
Só me haveriam de encontrar sozinho.

Jamais sonhara com um futuro ninho,
Que outro sonho – o da glória – me iludia,
Mas eis que vieste com tua alegria,
Com teu afeto e teu fiel carinho.

Desde então minha vida transformou-se
E, unindo o riso alegre que trouxeste,
Ao riso amargo que comigo trouxe,

Seguimos juntos pela mesma estrada,
Eu querendo do bem que me fizeste,
Ver-te um dia, afinal, recompensada.

GILBERTO BARBALHO


Natural de São José do Mipibu, no Rio Grande do Norte, Barbalho tem 75 anos e é economista aposentado do BNDES. Formado também em Matemática, chegou a exercer o magistério antes de ingressar no Banco. Em 88, foi eleito Trovador do Ano pela União Brasileira de Trovadores. Recentemente lançou Ao sabor da emoção, seu primeiro livro de trovas. Fonte Blog Sopa no mel

24/05/2009 - 18:07h Bocage e Bilac

Saiba morrer o que viver não soube

Bocage

Meu ser evaporei na lida insana
do tropel de paixões que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta e si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, ó Deus!… Quando a morte à luz me roube
ganhe um momento o que perderam anos
saiba morrer o que viver não soube.

*Leia: Saiba descer o que subir não soube – paródia de Olavo Bilac

Saiba descer o que subir não soube

Olavo Bilac

Meus dias consumir de terra em terra,
em banquetes com reis todos os dias;
comigo a pança encheu também Tobias
na Alemanha, na França, na Inglaterra…
Oh! secretário que tão bem comias!
Não sejas mole: dente agudo ferra
na própria língua, que ainda agora encerra
o chorume daquelas iguarias!
Marinhas (1), meu nego, se tu visses
o que de bom nesta barriga coube,
é impossível que ao pranto resistisses.
Quando o Rio a Petrópolis me roube (2)
desça o trem com finas gulodices,
saiba descer o que subir não soube!

(1) – Conselheiro Marinhas, amigo íntimo do presidente Campos Sales
(2) – Crítica às freqüentes viagens do Presidente Campos Sales a Petrópolis,
durante o verão.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805), nasceu em Setúbal, Portugal. É o mais famoso dos satíricos e o mais popular dos poetas portugueses. Sua inspiração não foi só erótica e passional; também cantou sentimentos graves, “a desesperança e o lento gosto da morte”, em que atinge muitas vezes o sublime. Mas sua vida desregrada, além de arruinar-lhe a saúde, tornou desigual a sua vasta obra. É um dos melhores sonetistas da língua portuguesa.

Olavo Bilac, além de poeta parnasiano, cronista, contista, conferencista e autor de livros didáticos, deixou também na imprensa do tempo do Império e dos primeiros anos da República vasta colaboração humorística e satírica, assinada com os mais variados pseudônimos, entre os quais os de Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., assinando, em outras vezes, o seu próprio nome. Nascido no Rio de Janeiro a 16 de dezembro de 1865, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em que ocupou a cadeira nº. 15, que tem Gonçalves Dias por patrono. No seu principal livro, “Poesias”, incluiu Bilac alguns sonetos satíricos , sob o título de “Os Monstros”. Escreveu livros em colaboração com Coelho Neto, Manuel Bonfim e Guimarães Passos, sendo que, com este último, o volume intitulado “Pimentões”, de versos humorísticos.

Os sonetos acima foram extraídos do livro “Humor e Humorismo – Paródias”, Editora Brasiliense – São Paulo, 1961, organizada por Idel Becker, págs. 296 e 298. Fonte Releituras

10/03/2009 - 19:43h Soneto

Luís de Camões

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piedoso;
Quem o contrário diz não seja crido:
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens e inda aos deuses odioso.

Se males faz Amor, em mi se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de amor;
Todos estes seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

Luís Vaz de Camões presume-se tenha nascido em Lisboa por volta de 1524, de uma família do Norte (Chaves). Viveu algum tempo em Coimbra onde, segundo consta, freqüentou aulas de Humanidades no Mosteiro de Santa Cruz onde tinha um tio padre. Regressou a Lisboa, levando aí uma vida de boemia. Em 1553, depois de ter sido preso devido a uma briga, parte para a Índia. Fixou-se na cidade de Goa onde escreveu, de acordo com seus estudiosos, grande parte da sua obra. Regressa a Portugal em 1569, pobre e doente, conseguindo publicar Os Lusíadas em 1572 graças à influência de alguns amigos junto do rei D. Sebastião. Faleceu em Lisboa no dia 10 de junho de 1580. É considerado o maior poeta português, situando-se a sua obra entre o Classicismo e o Maneirismo. Obras: “Os Lusíadas” (1572), “Rimas” (1595), “El-Rei Seleuco” (1587), “Auto de Filodemo” (1587) e “Anfitriões” (1587).

O soneto ora publicado foi extraído do livro “Inês de Castro e O velho do restelo”, de autoria de Sylmara Beletti e Frederico Barbosa, Landy Editora – São Paulo, 2001, pág. 39.

01/03/2009 - 19:12h Soneto – Mulher Abstrata


 Ângela Bretas


Sou quem sou, simplesmente mulher, não fujo, nem nego,
Corro risco, atropelo perigo, avanço sinal, ignoro avisos.
Procuro viver, sem medo, sem dor, com calor, aconchego,
Supro carências, rego desejos, desabrocho em risos…

Matéria cobiçada… na tez macia, no calor ardente.
Alma pura, envolta em completa fissura. Sem frescuras!
Encontro prazer na forma completa, repleta, latente.
Meretriz sem pudor,mulher no ponto, uva madura!

Sou quadro abstrato, me entrego no ato à paixão que aflora.
Sou enigma permanente, sem ponto final, sem continências,
Sou mulher tão somente, vivendo o momento, sorvendo as horas.

Sou pétala recolhida, sem forma, sem cor, completa em essência.
Exalo a esperança, transpiro vontades. Não me tenhas senhora.
Sou mulher insolúvel, nada volúvel. Vivo a vida em reticências…


Ângela Bretas é natural de Santa Catarina. Sempre gostou de escrever prosa e versos. Mudou-se para os EUA em 1985 e cursou língua inglesa no Lynn Community College, em Massachussetts. Tem três livros publicados e dois no prelo, e atua como free-lance para diversos jornais no Brasil e nos Estados Unidos, trabalhando como colunista e jornalista. Reside em Boca Raton – Florida/USA.

No momento ultima a produção do livro “BRAVA GENTE BRASILEIRA EM TERRAS ESTRANGEIRAS”, uma coletânea de poesias e crônicas de 29 brasileiros residentes nos mais diversos lugares desta Terra. O livro deverá ser lançado na Feira Internacional do Livro de Miami – “Miami International Book Fair” -,  em agosto de 2004, e na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2006.


Livros e trabalhos publicados:

- “ÉRAMOS QUATRO”, 1983
- “SONHO AMERICANO”, 1997
- “CONVERSANDO COM AS ESTRELAS”, 2002
- American Antology of Poetry. 1999
- Antologia de Poesias, Contos e Crônicas
17ª Bienal Internacional de São Paulo, 2002
- Antologia diVersos – Grupo Pax Poesis Encantada, 2002
- Antologia Poetrix – Movimento Internacional Poetrix, 2002
- Talento Feminino em Prosa e Verso
Rede Brasileira de Escritoras, 2002
- Antologia Tempo Limitado – Scortecci Editora, 2002

E- books:

- Poetrix
- Ecos Inspiracionais
– Prosas Poéticas
- 1º Concurso Verso e Prosa da Florida – coordenadora

Alguns prêmios, troféus e participações:

- Recebeu o prêmio Troféu Brasil 2001 na categoria jornalismo, evento realizado em Miami anualmente homenageando brasileiros que lutam para manter a cultura brasileira em terras norte-americanas.

- Foi indicada, através do voto popular, pelo terceiro ano consecutivo ao Brazilian Press Awards de Miami 2001.

- Finalista do prêmio ”Eccho of Literature” com base em Londres – Inglaterra, pela editora Rickmarck Publishing.

- Homenageada com o Troféu Imigrante 2002 – Miami – categoria jornalismo.

20/12/2008 - 20:04h Pornografia e Erotismo

Fonte Germina Literatura — Revista virtual de literatura e arte editada por Lucia Farias, Silvana Guimarães e Mariza Lourenço. Publica ensaios, resenhas e tem excelentes antologias de poesia e contos em seções como Uns, Outros, Poucos, Raros. Estes textos a seguir são da seção eróticos&pornográficos

por Dirceu Villa

Introdução

Tendo em vista evitar uma distinção de valor absolutamente ridícula, que vários teóricos e artistas propuseram (Boris Vian e José Paulo Paes, por exemplo) entre pornográfico e erótico, em que o pornográfico se destinaria pura e simplesmente ao estímulo sexual e o erotismo abocanharia a parte “nobre“, refinada e artística¹, entendamo-nos: erótico é um texto de poses, calculados subterfúgios que representam a sexualidade, e pornográfico é aquele que fala francamente, com todas as tão temidas palavras. Ambos igualmente artísticos, ambos podem igualmente ser bons ou maus, como o gentil leitor e a não menos gentil leitora poderão julgar adiante.

(mais…)

28/07/2008 - 18:19h A uma senhora que me pediu versos

machadodeassis.jpgMachado de Assis

Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das alma já ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

Soneto de Machado de Assis