13/04/2009 - 17:30h Diva cabocla

De um bairro pobre de Belém aos palcos da Ópera de Berlim, a soprano paraense Adriane Queiroz fala sobre sua trajetória e do desejo de cantar mais no Brasil

João Luiz Sampaio – O Estado SP

“Bora ver!” Adriane Queiroz abre um enorme sorriso. “Não gosto de morrer na beira, se é para fazer, então é para ir até o fim”, continua ela na tarde da última terça-feira, enquanto conversa com o Estado em Santa Teresa. Dali a algumas horas, a soprano paraense faria sua estreia carioca em recital no Auditório Finep, ao lado do barítono Manuel Álvarez, primeira parada do que espera seja uma temporada de mais atuações no Brasil. A passagem pelo Rio só teve uma chateação: a falta do sol. “Menino, você mora em Berlim, passa um inverno horrível e não vê a hora de chegar no Rio e ir à praia. E, quando chega aqui, só tem chuva e tempo feio. O pior é que meu marido me ligou ontem para dizer que abriu um sol danado lá na Alemanha. Pode?”

Adriane é soprano do elenco estável da Ópera Estatal de Berlim, onde foi “adotada” pelo diretor artístico Daniel Barenboim. Sua carreira está em ascensão e fica difícil evitar a alusão a uma cinderela do mundo lírico. Dá uma olhada. Ela nasceu em Belém, mais precisamente na Terra Firme, o bairro mais populoso e pobre da capital paraense. Iniciou seus estudos de canto com Marina Monarcha e Malina Minerva. Mas formou-se pedagoga e trabalhou na criação de uma nova metodologia que usa a música como ferramenta na alfabetização de crianças de rua. Casou-se, teve um filho. Tudo ia bem. “Mas meu sonho era viver de canto. E se aprendi uma coisa na vida é que preciso ser fiel a mim mesma. O que eu busco é a felicidade. Eu era feliz na baixada, trabalhando com as crianças. Mas queria ser feliz no palco. E pensei: depois de velha, eu posso ser pedagoga, agora, cantora, tinha que ser já. Além disso, com o canto tem um problema: cantar não é profissão, é doença.”

Isso foi há 12 anos. Com apoio do governo, “que me deu uma bolsa pequena mas que ajudava bastante”, arrumou as malas e partiu para Viena, onde pretendia completar seus estudos. O sorriso dá lugar a um semblante mais sério. “Abandonei meu emprego, deixei meu marido e meu filho de oito anos aqui. Foi difícil demais, menino, mas algo me dizia que era necessário, apesar da reação das pessoas. A sociedade não aceita muito bem essas coisas, mas, graças a Deus, meu marido aceitou.” O riso solto retorna. “Cheguei lá sem falar uma palavra de alemão. Eu acho que sou meio maluca mesmo.” Maluca ou não, ela foi aceita na universidade e terminar o curso passou a ser sua prioridade. Não foi fácil. “Tinha horas que não dava para controlar as crises de choro, dava um desespero danado. Mas eu parava, pedia a Deus que me guiasse e seguia adiante.” Começou a fazer audições, viajou a Berlim e lá ouviu de um maestro: “Você é gorda demais para os palcos alemães.” Gorda ou não, voltou a Viena. E conseguiu trabalho na Volksoper. Até que um dia, cinco anos após chegar na Europa, resolveu tentar uma audição na outra casa de ópera da capital austríaca, a Staatsoper. “Uma das diretoras assistentes do Ian Holländer, que era o mandachuva do teatro, estava se mudando para Berlim, onde ia ser diretora da Ópera Estatal. Gostou de mim e me convidou.”

“Em Viena, eu tinha um bom emprego na Volksoper e não sabia como seria na Alemanha. Mas não gosto de me sentir acomodada. Então, fui.” Começou cantando papéis pequenos, como a Barbarina das Bodas de Fígaro, de Mozart. Hoje, seus papéis incluem Susanna, protagonista da mesma ópera, Despina, em Così Fan Tutte, e Pamina, na Flauta Mágica, ambas de Mozart; Micaela, na Carmen, de Bizet, e Liù, em Turandot, de Puccini; no prestigiado Festival de Salzburgo, participou da gravação da ópera Tiefland, de Eugen D?Albert, regida por Bertrand de Billy. E foi escolhida pelo gigante da regência Pierre Boulez para a gravação da Sinfonia nº 8 de Mahler (selo Deutsche Grammophon), lançada no ano passado, peça que eles repetem este mês na Áustria, com a Filarmônica de Viena. “Menino, você acha que é pouca besteira? Pierre Boulez!!! Eu fiquei com um medo danado quando me chamaram. Eu estava acostumada com a energia do Barenboim, esse homem parece que tem um motor dentro dele. Já Boulez é uma paz, não tem energia extra, sabe? Não é de falar muito, mas conhece a música como poucos.” Em Berlim, Adriane diz ter encontrado um esquema de trabalho com o qual aprendeu muito. “A responsabilidade é enorme, não importa se você é protagonista ou se canta um papel pequeno. A cobrança é a mesma. Entendi isso a duras penas (risos). Você está sendo avaliado a todo instante.”

Para o futuro, ela fala de dois papéis que gostaria de cantar. “Eu sei que vou ser Tosca e Butterfly, mas lá no final da carreira.” Até lá, segue com o repertório de soprano lírico, ao qual acrescenta o timbre escuro que é a grande marca da sua voz, colorindo de maneira especial os graves e oferecendo belo contraste às notas mais agudas. “Não sei até quando meu tipo de voz será valorizado pelo business da ópera. Soprano é doença, tem em todo lugar, de todos os tipos, com vozes lindas e silhuetas hollywoodianas. Mas a experiência, isso não tem plástica que dê jeito.”

Adriane vive hoje em Berlim com o marido, que trabalha como clown, e o filho. Gosta da rotina da cidade. “Berlim tem aquela paz de vilarejo, mas com todas as vantagens de uma grande metrópole. E como sou uma cabocla de Belém, dou muito valor ao verde da cidade. E, claro, com essa pele, eles me acham linda demais, é por isso que gosto tanto (risos)”, brinca. Chega a cantar entre 40 e 50 récitas por ano na Staatsoper. Mas está contente com o fato de que, depois de alguns anos, sua agenda está mais flexível. E quer cantar mais no Brasil. Há dois anos, fez uma Ceci inesquecível no Guarani, de Carlos Gomes, encenado no Teatro da Paz, em Belém. E aproveitou a passagem recente pelo Brasil para audicionar a maestros. “Não é porque estou cantando em Berlim que não vou me submeter a audições. Os maestros têm que me ouvir antes de me contratar, precisam gostar da voz. Não tenho essas frescuras não. Canto onde for, teatro grande, sala pequena. Se o Barenboim, que é o Barenboim, faz recitais em escolas, por que euzinha vou ficar escolhendo teatro?” No mais, nada de grandes planos para o futuro. “Não cheguei até aqui fazendo planos. Quero cantar cada vez mais, aproveitar o quanto posso minha voz.” ‘Bora ver’.

04/11/2008 - 19:04h In memoriam de Yma Sumac, a bela flor do Peru

28/09/2008 - 17:45h Serenata

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No Intermezzo desta semana (na barra lateral vermelha a direita na parte superior do blog) a Serenata de Schubert cantada pelo tenor Giuseppe di Stefano. Trata-se de uma adaptação em espanhol, em um filme mexicano de 1953.
As palavras em espanhol são:

“Al claror de triste luna, faro de pesar
el rigor de mi fortuna quiero aumentar.
Todo en paz con blando sueño duerme en derredor
Solo yo, mi dulce dueña, velo con dolor.
Bardo soy que busca errante lauros para ti
pues quedé tu esclavo amante, luego que te vi.
Tu quizá gentil señora, mientras peno yo,
soñaras que fiel te adora, quien infiel nació
Mas te ví por la ventana, ya piedad logré
tu que fuiste ayer tirana premias hoy mi fé…”

Aqui a mesma Serenata na sua versão original em alemão, na voz do tenor Richard Tauber, depois numa versão de Nana Mouskouri e por último na voz da soprano Hei-Kyung Hong.

09/08/2008 - 20:00h Tu che le vanità e mais, da Ópera Don Carlos, de G. Verdi

Maria Callas

 

Blog valkirio

Don Carlo – Verdi – Um Grito de Liberdade

O Infante Dom Carlos, por Alonso Sánchez Coello

A ópera “Don Carlos” foi estreada em Paris em 1867, com libretto em Francês, baseado no romance “Dom Carlos, Infante de Espanha”, de Schiller. Mais tarde, Verdi fez alguns cortes para a estreia em Milão, já com a tradução do libretto em Italiano, sendo esta, “Don Carlo”, a versão representada com mais frequência.O Infante era filho de Filipe II de Espanha e de Maria Manuela de Portugal (filha de Dom João III e de Catarina de Áustria). Os seus progenitores eram primos por todos os lados: Filipe II era filho do Imperador Carlos V e de Isabel de Portugal, irmã de Dom João III, o avô materno de Dom Carlos. Parece muito complicado, mas não é. Veja-se a sua árvore genealógica aqui.Com um grau de consanguinidade tão elevado, alguma coisa havia de correr mal e Dom Carlos teve uma vida bastante infeliz. A sua mãe morreu poucos dias depois de o dar à luz e ele era uma pessoa fisicamente debilitada, que, além disso, sofria de perturbações mentais. Morreu com apenas vinte e três anos, em 1568, talvez de morte natural, ou, quem sabe, envenenado.Nada disto impediu que Schiller romanceasse a sua história nem que Verdi criasse uma personagem que pouco corresponderá ao verdadeiro Dom Carlos. E tudo isto vem a propósito de uma gravação que encontrei do dueto de Dom Carlos com o seu amigo Rodrigo, Marquês de Posa:O Infante confessa ao amigo que ama “Elisabetta” (Élisabeth de Valois), sua madrasta, que tinha sido sua noiva antes de casar com o Rei. Rodrigo tenta convencer Dom Carlos a partir com ele para a Flandres; têm de ajudar o povo flamengo a libertar-se do jugo de Filipe II (e da sua Inquisição). Ambos cantam juras de fidelidade:

Deus, que nos infundiste na alma
O amor e a esperança,
Acende-nos no coração
O desejo de liberdade.
Juramos viver juntos
E morrer juntos.
Na terra e no céu
Encontraremos a tua bondade.

Viveremos juntos e morreremos juntos.
Será o último suspiro,
Será um grito: Liberdade!

RODRIGO
È lui! Desso! L’Infante!

DON CARLO
O mio Rodrigo!

RODRIGO
Altezza!

DON CARLO
Sei tu ch’io stringo al seno?

RODRIGO
O mio prence… Signor!

DON CARLO
È il ciel che a me t’invia nel mio dolor,
Angiol consolator!

RODRIGO
O amato prence!
L’ora suonò; te chiama il popolo fiammingo!
Soccorrer tu lo dêi; ti fa suo salvator!
Ma che vid’io! Quale pallor, qual pena!…
Un lampo di dolor sul ciglio tuo balena!
Muto sei tu!… Sospiri! Hai tristo il cor!
Carlo mio, con me, dividi il tuo pianto, il tuo dolor.

DON CARLO
Mio salvator, mio fratel, mio fedele,
Lascia ch’io pianga in seno a te!

RODRIGO
Versami in cor il tuo strazio crudele,
L’anima tua non sia chiusa per me!
Parla!

DON CARLO
Lo vuoi tu? La mia sventura apprendi,
E qual orrendo stral il mio cor trapassò!
Amo d’un colpevole amor… Elisabetta!

RODRIGO
Tua madre! Giusto ciel!

DON CARLO
Qual pallor! Lo sguardo chini al suol!
Tristo me! Tu stesso, mio Rodrigo,
T’allontani da me?

RODRIGO
No, Rodrigo ancor t’ama! Io tel posso giurar.
Tu soffri? Già per me l’universo dispar!

DON CARLO
O mio Rodrigo!

RODRIGO
Mio prence!
Questo arcano dal Re non fu sorpreso ancora?

DON CARLO
No.

RODRIGO
Ottien dunque da lui di partir per la Fiandra.
Taccia il tuo cor, degna di te
Opra farai, apprendi omai
In mezzo a gente oppressa a divenir un Re!

DON CARLO
Ti seguirò, fratello.

RODRIGO
Ascolta! Le porte dell’ asil s’apron già; qui verranno
Filippo e la Regina.

DON CARLO
Elisabetta!

RODRIGO
Rinfranca accanto a me lo spirto che vacilla!
Serena ancora la stella tua nei cieli brilla.
Domanda al ciel dei forti la virtù!

DON CARLO E RODRIGO
Dio, che nell’alma infondere
Amor volesti e speme,
Desio nel core accendere
Tu dêi di libertà.
Giuriamo insiem di vivere
E di morire insieme;
In terra, in ciel congiungere
Ci può la tua bontà.

Vivremo insiem e morremo insiem!
Sarà l’estremo anelito,
Sarà un grido: Libertà!

Don Carlo – Carlo Bergonzi, tenor
Rodrigo – Piero Cappuccilli, barítono
(1970)