14/11/2008 - 09:34h Para Soros, EUA correm risco de depressão

Agências Internacionais - O Estado SP

http://images.businessweek.com/ss/06/11/1117_phil_top20/image/g_soros.jpgUma recessão profunda nos Estados Unidos é inevitável e não se pode descartar a possibilidade de uma longa depressão, na avaliação do megainvestidor George Soros. Ele participou de uma audiência no Comitê de Supervisão e Reforma na Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Segundo Soros, a crise financeira “dizimou” os fundos de alto risco (hedge), que foram obrigados a reduzir suas carteiras entre 50% e 75%.

Ele preside o Soros Management Fund e fez fortuna com a especulação de moedas. Soros afirmou que o Departamento do Tesouro, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e a Comissão de Valores Mobiliários (SEC, na sigla em inglês) devem “aceitar a responsabilidade de impedir que as borbulhas dos mercados se inflem muito no futuro”.

16/10/2008 - 09:14h Os deuses que fracassaram

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Harold Meyerson* - O Globo

Em 1949, escritores famosos escreveram ensaios explicando por que não eram mais comunistas, reunidos no volume “O Deus que fracassou”.

Hoje, intelectuais conservadores talvez considerem escrever sobre os fracassos de sua amada divindade: o capitalismo sem regulação.

A queda do sistema financeiro tem sido tão rápida e ampla que não houve tempo para considerar suas implicações para a teoria econômica que reinou nos últimos 30 anos. No que exatamente economistas conservadores acreditam, agora que seu deus está morto? Não nos surpreende ver um desorientado John McCain. O que ele deve fazer? Admitir que a crença de Ronald Reagan e Margaret Thatcher no capitalismo sem regulação, no qual todo candidato republicano apoiava até o último inverno, desmoronou? Na verdade, a crença da auto-suficiência do mercado também teve apoio de importantes democratas. Nos anos 90, o republicano Alan Greenspan e o democrata Robert Rubin agiram para que o mercado de derivativos seguisse sem regulação, apesar de Warren Buffett e George Soros terem alertado para o risco.

Se o colapso dos mercados deixou o conservadorismo em farrapos, deu aos liberais a tarefa de construir uma economia mais sustentável. Foram os liberais do Congresso que insistiram que o governo deveria ter poder para adquirir participações em bancos.

Agora, liberais devem ficar atentos ao tipo de nacionalização financeira que estão prestes a adotar. Henry Paulson (secretário do Tesouro dos EUA) quer injetar recursos públicos em bancos, mas continuar confiando nosso sistema aos banqueiros que nos colocaram nessa situação.

Esses bancos não deveriam incluir membros do governo em seus conselhos de administração para evitar as mesmas besteiras? A atual crise de ideologia não está confinada à doutrina do laissez faire. A crença no equilíbrio do orçamento se tornou sem sentido com a economia se encaminhando para uma recessão. Com bancos parando de emprestar, empresas demitindo funcionários, governos locais e estaduais suspendendo serviços, proprietários de imóveis com dívidas recordes e consumidores reduzindo compras, um maciço estímulo federal é o que separa a nação de uma calamidade econômica.

McCain e Obama discordam no que se refere ao papel do governo no estímulo à economia.

Tendo passado a vida defendendo políticas que levaram ao “derretimento”, McCain agora defende políticas que transformarão recessão em depressão. Ele pode ter suas crenças, mas a nação não pode rezar no altar desses deuses que fracassaram.

*HAROLD MEYERSON é colunista do “Washington Post”

14/10/2008 - 08:50h ”Consertar o sistema financeiro não impede a recessão”

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Investidor diz que mercado não pode corrigir a si mesmo e que agora o poder econômico está pendendo para a Ásia

Nathan Gardels - O Estado de São Paulo

O investidor e filantropo George Soros conversou com o editor da Global Viewpoint sobre a crise financeira internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Falemos sobre a natureza da crise.

Graças às baixas taxas de juros, à liquidez global e à desregulamentação, vivemos durante 25 anos numa bolha de expansão do crédito que aumentava a si mesma, o que levou à “exuberância irracional” nos mercados financeiros. Agora vemos uma quebra dos mercados de ações e de crédito que alimenta a si mesma - “desespero irracional” - sem encontrar justificativa nas leis fundamentais da economia real.

Como este padrão reflete seu novo paradigma para a compreensão das finanças?

A chave para a compreensão da crise é perceber que ela foi gerada dentro do próprio sistema financeiro. Não é o resultado de algum tipo de choque exógeno que tirou as coisas do seu equilíbrio, conforme sugeriria o paradigma mais difundido, que supõe a existência da capacidade do mercado de se autocorrigir. A realidade é que os mercados financeiros desestabilizam a si mesmos; ocasionalmente eles tendem ao desequilíbrio, e não ao equilíbrio. O paradigma que proponho difere da sabedoria convencional. Em primeiro lugar, os mercados financeiros não refletem as verdadeiras leis fundamentais da economia. As expectativas dos corretores e dos investidores estão sempre distorcendo essas leis. Em segundo lugar, essas distorções no mercado podem afetar as leis fundamentais - como vemos tanto nas bolhas quanto nas quebras. A euforia pode elevar os preços das moradias e das empresas ponto.com; o pânico é capaz de derrubar bancos sólidos. Essa conexão de mão-dupla - você afeta aquilo que você reflete - é o que eu chamo de “reflexividade”.

Qual deveria ser o “circuit-breaker” capaz de subverter as distorções que inevitavelmente desestabilizam os mercados?

Se as bolhas são endêmicas ao sistema, os reguladores têm de intervir para impedir que se tornem grandes demais. Os governos precisam reconhecer o fato de que os mercados não são capazes de corrigir a si mesmos. Não basta recolher os pedaços depois da crise.

O sr. acha que a presença de um ciclo de notícias econômicas de 24 horas amplifica e exagera as distorções nos mercados financeiros?

Sem dúvida isso acelera o processo. Ao mesmo tempo, eu não atribuiria a isso uma importância excessiva. No final do século 19, não havia transmissão de notícias durante 24 horas, mas ainda assim formava-se o mesmo tipo de bolha. Durante o século 19, quando a regulação era insuficiente, as crises aconteciam sucessivamente. Cada crise provocava alguma reforma. Foi assim que se desenvolveu a instituição do banco central.

Como é possível que todo o esforço do governo americano - incluindo o pacote de resgate de US$ 700 bilhões e a baixa taxa de juros - não tenha sido capaz de impedir a crise?

As autoridades americanas compraram uma ideologia de fundamentalismo de mercado. Elas pensaram que afinal os mercados iriam corrigir a si mesmos. O secretário do tesouro, Henry Paulson, representou a epítome deste raciocínio. Ele pensou que, seis meses depois da crise do Bear Sterns, o mercado teria se ajustado e, “Bem, se o Lehman Brothers quebrar, o sistema será capaz de suportar as conseqüências”. Ao invés disso, tudo começou a desabar. Por não compreender a natureza do problema não viram necessidade de intervenção por parte do governo. Eles não prepararam um plano B. Conforme o choque da falência do Lehman começou a se fazer sentir, Paulson foi obrigado a mudar de idéia e socorrer a AIG. No dia seguinte viu-se uma corrida aos mercados monetários e de papel de curto prazo, e então deu meia-volta novamente e disse que precisávamos de um pacote de resgate de 700 bilhões. Mas ele queria botar o dinheiro no lugar errado - tirando das mãos dos bancos os valores mobiliários tóxicos. Finalmente voltaram ao rumo certo - com o governo comprando participação nos bancos - porque percebem que o sistema financeiro está à beira do colapso.

Quais são os elementos-chave para a solução da crise?

Há cinco elementos principais. (1) Em primeiro lugar, o governo precisa recapitalizar o sistema bancário através da compra de participação nos bancos. (2) Os empréstimos interbancários precisam ser reiniciados com garantias. Esse processo está em andamento. (3) Precisamos reformar o sistema hipotecário dos EUA, minimizando as execuções e renegociando empréstimos para que as hipotecas não tenham valor superior ao das casas. (4) A Europa precisa consertar uma fraqueza do euro com a criação de uma rede de segurança para seus bancos. Eles resolveram este problema no seu encontro em Paris. (5) O FMI precisa lidar com a vulnerabilidade dos países da periferia do sistema financeiro global através do oferecimento de uma rede de segurança. Esse processo também está encaminhado. Essas medidas darão início à recuperação. Se as implementarmos com eficácia, teremos suportado o pior da crise financeira. Mas temo que sejam inevitáveis as conseqüências sobre a economia real.Consertar o sistema financeiro não impedirá uma grave recessão mundial.

Quando tudo terminar, teremos uma paisagem financeira muito diferente?

A influência dos EUA vai minguar. Já entrou em declínio. Durante os últimos 25 anos, estivemos sustentando um contínuo déficit em conta corrente. Os chineses e os países produtores de petróleo mantiveram lucros. Consumimos mais que produzimos. Enquanto aumentávamos as dívidas, eles obtiveram riqueza com suas poupanças. Cada vez mais, os chineses serão os donos do mundo, pois estarão convertendo suas reservas de dólares e seus títulos do governo americano em ativos e bens reais.

02/10/2008 - 09:09h Como recapitalizar o sistema bancário

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GEORGE SOROS ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

A LEGISLAÇÃO de emergência em estudo pelo Congresso dos EUA foi mal calculada ou, para ser mais preciso, não foi calculada. E quando o Congresso tentou aperfeiçoar o que o Tesouro havia solicitado originalmente, emergiu um plano combinado que consiste do Programa de Alívio a Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês) que o Tesouro solicitou e de um programa bastante diferente de infusão de capital sob o qual o governo investiria em e estabilizaria bancos enfraquecidos, e sairia lucrando quando a economia vier a melhorar. A abordagem de infusão de capital custará menos aos contribuintes nos anos futuros e poderá até dar lucro a eles.

Duas semanas atrás, o Tesouro não tinha um plano preparado -é por isso que teve de solicitar total liberdade quanto ao desembolso dos recursos.

Mas a idéia geral era a de propiciar alívio ao sistema bancário ao assumir os títulos tóxicos dos bancos e estacioná-los em um fundo controlado pelo governo, de modo a que não fossem despejados no mercado a preços cada vez menores.

Com o valor de seus investimentos estabilizado, os bancos poderiam, então, levantar capital acionário.

A idéia estava repleta de dificuldades. Os títulos tóxicos não são homogêneos, e, em qualquer processo de leilão, os vendedores certamente transferirão ao governo os piores deles.

Além disso, o esquema trata só de metade do problema subjacente à indisponibilidade de crédito. Pouco faz para permitir que os proprietários de casas cumpram suas obrigações hipotecárias e pouco faz para resolver o problema da execução de hipotecas. Com os preços das casas ainda em queda, caso o governo estabeleça preços elevados aos títulos lastreados por hipotecas, os contribuintes poderiam sair perdendo; mas, se o governo não pagar mais do que os papéis valem, o sistema bancário não teria sua situação muito aliviada e não conseguiria atrair capital privado.

Um esquema que beneficie o mundo financeiro tão pesadamente, em detrimento da economia mais ampla, seria inaceitável politicamente. Os democratas, que detêm a maioria no Legislativo, alteraram os termos, de modo a punir as instituições financeiras que se beneficiem do plano. Os republicanos decidiram que não poderiam ficar para trás e impuseram o requisito de que os títulos oferecidos em leilão deveriam ser cobertos por seguros cujos prêmios seriam pagos pela empresa oferecedora. O pacote de resgate, em sua forma atual, constitui um amálgama de múltiplas abordagens. E existe risco real de que o programa de aquisição de ativos não venha a ser empregado plenamente devido às condições onerosas que foram impostas.

Mesmo assim, um pacote de resgate era desesperadamente necessário e, a despeito de suas deficiências, poderia alterar o curso dos acontecimentos. Ainda em 22 de setembro, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, expressava a esperança de evitar o uso de dinheiro dos contribuintes; por isso permitiu a quebra do Lehman Brothers. O Tarp estabelece o princípio de que fundos públicos são necessários e, se o programa atual não funcionar, outros programas serão instituídos.

Já que o Tarp foi mal calculado, seria previsível que causasse resposta negativa da parte dos credores dos EUA. Eles o veriam como tentativa de liquidar a dívida por inflação. O dólar deve sofrer pressão renovada, e o governo terá de pagar mais para colocar seus títulos de dívida, especialmente os de longo prazo. Essas conseqüências adversas poderiam ser mitigadas por um uso mais efetivo do dinheiro dos contribuintes.

Em lugar de apenas adquirir ativos problemáticos, o grosso do dinheiro deveria ser usado para recapitalizar o sistema bancário. Fundos injetados em nível de capital têm mais efeito do que fundos usados para equilibrar balanços por um fator mínimo de 12 -o que equivaleria, em termos práticos, a fornecer ao governo US$ 8,4 trilhões para reativar o fluxo de crédito. Na verdade, o efeito seria ainda maior porque a injeção de fundos do governo também atrairia capital privado. O resultado seria maior recuperação econômica e chance de lucro aos contribuintes.

Eis como o sistema poderia funcionar. O secretário do Tesouro dependeria de auditores bancários em lugar de delegar a implementação do Tarp às empresas de Wall Street. Os auditores bancários estabeleceriam as necessidades de capital acionário adicional para cada banco, a fim de que atingissem capitalização adequada nos termos das atuais normas de capitalização. Caso os administradores dos bancos não sejam capazes de levantar o dinheiro requerido junto ao setor privado, poderiam recorrer ao Tarp.

O Tarp investiria em ações preferenciais com prioridade de remuneração. As ações preferenciais ofereceriam juros baixos (digamos, 5%), para que os bancos mantivessem o interesse em continuar emprestando. Os acionistas anteriores, no entanto, pagariam um preço pesado, porque suas posições seriam diluídas pelas novas ações preferenciais prioritárias. Mas eles teriam o direito de subscrever novas ações emitidas nos termos do Tarp. Esses direitos seriam negociáveis, e o secretário do Tesouro seria instruído a estabelecer termos de modo a que os direitos possam ter valor positivo.

Investidores privados como eu provavelmente correriam para aproveitar a oportunidade. Os bancos recapitalizados teriam autorização para elevar seu endividamento e por isso retomariam os empréstimos.

Limites ao endividamento bancário seriam impostos posteriormente, depois que a economia se tiver recuperado. Caso o dinheiro fosse usado dessa maneira, a recapitalização do sistema bancário poderia ser conduzida com menos de US$ 500 bilhões em verbas públicas.

Uma legislação de emergência revisada também deveria oferecer mais ajuda aos proprietários de casas. O projeto requereria que o Tesouro desse financiamento barato a títulos hipotecários cujos termos tenham sido renegociados, com base no custo de captação do Tesouro. As companhias de serviços hipotecários poderiam ser proibidas de cobrar honorários pela execução de hipotecas, mas seria de esperar que os detentores de títulos oferecessem incentivos à renegociação, como a Freddie Mac e a Fannie Mae já vêm fazendo.

Os bancos considerados insolventes não seriam elegíveis para recapitalização. A FDIC (agência federal que oferece seguro aos depósitos bancários) tomaria o controle dessas empresas e seria recapitalizada com US$ 200 bilhões, como medida de emergência, e removeria o limite de US$ 100 mil aos depósitos que garante. Essa revisão na lei seria mais equânime, teria mais chance de sucesso e custaria menos aos acionistas no longo prazo.

GEORGE SOROS é presidente do conselho da Soros Fund Management

Tradução de PAULO MIGLIACCI