10/09/2009 - 16:38h “Spread” no Brasil só perde para Zimbábue, diz estudo


Diferença entre os juros captados e os cobrados pelos bancos é maior que a de 127 países

Para analista, tendência é que, com a estabilização da economia, “spread” fique menor no curto prazo, mas superior à média global

ÁLVARO FAGUNDES – FOLHA SP

Diferença entre os juros captados e os cobrados pelos bancos é maior que a de 127 países

Para analista, tendência é que, com a estabilização da economia, “spread” fique menor no curto prazo, mas superior à média global

ÁLVARO FAGUNDES – FOLHA SP
DA REDAÇÃO

O “spread” (a diferença entre o que as instituições pagam para captar recursos e o que cobram dos clientes) aplicado pelos bancos no Brasil é o segundo maior do mundo, ficando apenas atrás do Zimbábue, apesar de a taxa de inadimplência no país não estar nem entre as dez maiores do planeta.
Segundo levantamento do Fórum Econômico Mundial com base em dados do ano passado, o “spread” dos bancos brasileiros ficou em 35,6 pontos percentuais, maior do que a média das instituições financeiras de 127 países.
Somente o Zimbábue, cuja economia vive situação caótica e onde a inflação chegou na casa dos 231 milhões por cento em julho do ano passado, a diferença entre os juros captados e os cobrados foi maior: 457,5 pontos percentuais.
O cenário do estudo atual é similar ao do levantamento anterior -que analisava a situação em 2007-, mas, na ocasião, o “spread” brasileiro era um pouco menor: 33,1 pontos percentuais. “Spreads” altos significam custos maiores para empresas e consumidores pegarem empréstimos.
Ao mesmo tempo, a inadimplência no Brasil, que é uma das explicações usadas pelos bancos para justificar os juros altos, era a 16ª mais alta do mundo (em uma lista menos abrangente, com 34 países), de acordo com dados do FMI referentes ao quarto trimestre de 2008 -quando a crise global estava em um dos seus momentos mais agudos. Os números do Fundo mostram ainda que a taxa de inadimplência no país vem caindo nos últimos anos.
O presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, afirmou, por exemplo, no fim de julho, que o principal fator para o “spread” bancário é exatamente o nível de inadimplência, que atingiu seu recorde histórico.
Para Luis Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, é principalmente por meio dos juros altos (que se traduzem no segundo maior “spread” do planeta) que os bancos brasileiros estão entre os mais rentáveis do mundo, apesar de a relação entre crédito e PIB estar abaixo da média global.
Sobre o calote, ele disse que os bancos colocam nos empréstimos uma “estimativa que não se concretiza na vida real”.
O analista afirmou que a tendência no curto prazo é que, com a estabilização da economia brasileira, os bancos “devolvam uma parte da gordura” obtida com o aumento dos juros durante a crise, mas que o “spread” deve permanecer entre os mais altos do mundo.
Para que essa queda continue a ocorrer no médio prazo, Santacreu afirma que são necessárias mudanças como aumento da competição entre as instituições. “Nós não vimos uma corrida forte dos bancos para brigar pelos clientes.” Ele diz ainda que é preciso tempo para avaliar se é “”perene” o movimento de queda dos “spreads” pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal, incentivado pelo governo Lula.
Ele cita ainda, entre outras medidas, a necessidade da reforma tributária e da maior formalização das empresas.

Menores “spreads”
No topo do tabela, entre os dez com menor “spread”, aparecem países desenvolvidos (como Alemanha e Japão) mas também economias emergentes: os dois primeiros são Hungria e Lituânia.
Em 2007, porém, havia um predomínio maior das nações ricas, o que mostra também o efeito da crise nas instituições financeiras desses países, que ficaram menos dispostas ao risco. A Suíça, que tinha o menor “spread” em 2007, aparecia na 27ª colocação no estudo sobre os juros no ano passado.

Editorial O Estado SP

 

Inadimplência e spread

 


A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) argumenta em sua campanha contra os elevadíssimos spreads bancários – diferença entre o que os bancos cobram dos clientes nos empréstimos e o que pagam aos aplicadores -, que o grau de inadimplência, no País, é apenas ligeiramente superior ao de outros países. Portanto, não há por que os spreads serem tão mais elevados no Brasil.

Tanto a crítica da Fiesp como a resposta dos bancos foram reproduzidas em reportagem de Leandro Modé, publicada terça-feira pelo Estado. A Fiesp valeu-se das informações compiladas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), relativas ao último trimestre de 2008 ou a 2007 (no caso da França e da Alemanha). Segundo o FMI, a inadimplência, no Brasil, é de 2,9%, contra 2,7%, na França e na Alemanha; 2,5%, na Argentina, na China, no México e na Rússia; 2,3%, nos Estados Unidos e na Índia; e 1,5%, no Japão. Ou seja, a maior diferença entre os níveis de inadimplência é entre o Brasil e o Japão e não chega a duas vezes.

Já o spread médio, no Brasil, de 26,6 pontos porcentuais, é três vezes superior ao da Argentina (8,4%), e quatro vezes superior ao da Rússia (6,5%), Alemanha (6,2%) e França (6%). Com spreads ainda menores surgem o México (5,7%), a Índia (3,8%), a China (3,1%), os EUA (2%) e o Japão (1,3%). Além disso, o spread médio no Brasil é seis vezes superior ao de 42 países analisados pelo FMI, calcula o diretor do Departamento de Tecnologia e Competitividade da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho.

A Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban) põe em dúvida as conclusões do levantamento. “Não acho correto colocar os dados dessa forma”, afirmou o economista-chefe da entidade, Rubens Sardenberg. “Precisamos ter certeza de estarmos comparando as mesmas coisas.” Citando a consultoria Economática, a Febraban explica que a rentabilidade média dos cinco maiores bancos brasileiros equivaleu à média da rentabilidade dos bancos latino-americanos. “Não dá para imaginar que os bancos desses países sejam tão mais eficientes do que os nossos”, disse Sardenberg.

O Banco Central relaciona vários fatores para explicar os juros e spreads altos, tais como o custo administrativo dos bancos (que pesa 13,6% no spread total), os impostos (18,5%), os recolhimentos compulsórios (3,6%), além do lucro das instituições (26,9%). A inadimplência é o fator de maior peso (37,4%). E é evidente que o resultado final são os juros estratosféricos, cuja queda não acompanhou a da taxa Selic – reduzida de 13,75% ao ano, em setembro de 2008, para 8,75% ao ano.

“A inadimplência e a insolvência no Brasil estão dentro do padrão mundial e não justificam o juro e o spread que temos aqui”, afirma Alberto Borges Matias, professor da USP. Segundo Roriz Coelho, “entre setembro e março, o Brasil pagou em spread R$ 8,5 bilhões a mais do que deveria”.

Mas os bancos tem-se mostrado resistentes às pressões pela redução do spread – problema incluído há uma década entre as preocupações declaradas do Banco Central. Matias atribui o elevado spread ao baixo volume de crédito. “Como emprestam pouco, os bancos brasileiros têm de ganhar no preço”, diz ele. Há excesso de liquidez nos bancos, medida pelo saldo das operações compromissadas de curto prazo com o Banco Central, de R$ 444 bilhões, em meados de julho, segundo o jornal Valor. No Brasil, a relação entre o crédito e o PIB é da ordem de 45%, enquanto nos EUA supera os 180% e na Grã-Bretanha, os 200%. No exterior, emprestando muito a juros baixos, os bancos conseguem oferecer aos acionistas uma boa rentabilidade em relação ao patrimônio.

Nos últimos meses, o governo federal decidiu derrubar os spreads mediante uma política de oferta maciça de crédito do Banco do Brasil (BB) e da Caixa Econômica Federal, instituições que controla. Apoiado por ampla campanha publicitária, o presidente do BB, Aldemir Bendine, acaba de prometer novas quedas de juros. Não há dúvida de que os juros (e spreads) têm muito a cair, mas esta política não pode ameaçar a solidez dos bancos públicos.

08/09/2009 - 13:51h Usado para justificar spread alto, calote no País está na média mundial

http://dinheirama.com/blog/wp-content/uploads/2009/03/dinheirama_dinheiro_banco_educacao_financeira.jpg

Levantamento do FMI mostra que taxa de inadimplência no Brasil é semelhante à do resto do planeta

Leandro Modé – O Estado SP

Quando se pergunta a um banqueiro brasileiro por que o spread bancário (diferença entre o que a instituição paga ao captar o dinheiro e o que cobra ao repassá-lo aos clientes) no País é o mais alto do planeta, a resposta, de cara, incluirá entre as justificativas a inadimplência. Segundo eles, o nível de calote, no Brasil, é superior ao de qualquer outra nação que tenha um sistema financeiro organizado. No entanto, um levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que a relação entre empréstimos em atraso e crédito total, aqui, está dentro da média internacional.

Os dados do Fundo revelam que essa taxa era de 2,9% no último trimestre do ano passado – período mais recente disponível, uma vez que esse tipo de pesquisa não tem divulgação periódica. Na Argentina, o índice era de 2,5%, no México, também 2,5% e, na Venezuela, 2,3%.

O resultado não é muito diferente quando se consideram os países conhecidos como Brics. Na Rússia, a taxa era de 2,5%, na Índia, de 2,3% e, na China, também 2,5%. Por fim, levando-se em conta países desenvolvidos, os números tampouco diferem substancialmente: EUA, 2,3%, Japão, 1,5%, França, 2,7% e Itália, 4,6%.

“A inadimplência e a insolvência no Brasil estão dentro do padrão mundial e não justificam o juro e o spread que temos aqui”, disse Alberto Borges Matias, professor do campus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), especialista em análise de bancos. “Das duas, uma: ou o cálculo do Banco Central para a inadimplência (usado pelo FMI) não reflete o que ocorre no País ou a parcela da inadimplência no cálculo do spread não condiz com a realidade”, completa o analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu.

Ele refere-se a uma estimativa elaborada pelo Banco Central em 2007. Principal referência para discussões sobre o assunto, essa conta atribui à inadimplência o maior peso no spread total: 37,4%. O restante é dividido entre custo administrativo dos bancos (13,6%), impostos (18,5%), depósitos compulsórios (3,6%) e resíduo líquido (lucro das instituições, que chega a 26,9%).

Dados compilados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), também com base em estatísticas do FMI, mostram que o spread no Brasil encerrou 2008 em 26,6 pontos porcentuais. O distante segundo colocado do ranking era a Argentina, com 8,4 pontos. Entre os Brics, a Rússia registrava 6,5 pontos, a Índia, 3,8, e a China, 3,1 pontos. Nos EUA, eram 2 pontos e, no Reino Unido, 1,2 ponto.

SEIS VEZES MAIOR

A Fiesp também tem números mais recentes de spread, relativos à média do primeiro trimestre de 2009, mas o Estado preferiu publicar os dados de 2008, que coincidem com o período do levantamento do FMI.

“Os bancos não têm argumento (para justificar o alto spread)”, afirmou diretor do Departamento de Tecnologia e Competitividade da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho. “Vamos ter spread alto enquanto os bancos conseguirem.”

Segundo ele, o spread brasileiro é seis vezes maior do que a média dos 42 países que estão no levantamento do FMI. “Se considerarmos o cálculo de spread da Febraban (que inclui os recursos direcionados, como o crédito à produção agrícola), o spread aqui é 4,2 vezes maior. Ainda que fossem duas vezes, seria um absurdo.”

O economista-chefe da Febraban, a entidade que reúne os bancos, Rubens Sardenberg, contesta o levantamento da Fiesp. “Não acho correto colocar os dados dessa forma. Precisamos ter certeza de estarmos comparando as mesmas coisas”, argumentou. Ele observou que a rentabilidade do sistema bancário brasileiro, comparada a outros países, mostra números parecidos.

Além disso, citando números da empresa de informações financeiras Economática, Sardenberg diz que, no ano passado, a rentabilidade média dos cinco maiores bancos brasileiros ficou na média de seus pares latino-americanos.

“Não dá para imaginar que os bancos desses países sejam tão mais eficientes do que os nossos”, afirmou. “Como os bancos de um país com spread tão mais baixo do que o brasileiro conseguem uma rentabilidade maior?”

Aqui, diz ele, a rentabilidade foi de 19% (para um spread de 26,6 pontos), ante 28% da Venezuela (spread de 6,2 pontos), 21% da Colômbia (spread de 7,4), 17% do Chile (spread de 5,8), 15% na Argentina (spread de 8,4) e 13% no México (spread de 5,7).

Governo busca reduzir spread há anos

Tentativas de reverter quadro ainda não deram resultados satisfatórios

 

Leandro Modé – O Estado SP

 


O elevado spread bancário (diferença entre a taxa de juro que a instituição financeira paga na captação do recurso e a que cobra nos empréstimos) no Brasil está na mira do governo há anos. Os resultados práticos, porém, ainda demoram a aparecer. Segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o spread médio no País passou de 31,9 pontos porcentuais no fim de 2003 para 29,6 pontos no primeiro trimestre deste ano.

“Entre setembro e março, o Brasil pagou em spread R$ 8,5 bilhões a mais do que deveria”, reclama o diretor do Departamento de Tecnologia e Competitividade da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho. “O spread aqui é seis vezes maior do que a média mundial. Mesmo que fosse duas vezes, já seria um absurdo.”

Recentemente, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fizeram críticas públicas aos bancos por causa do spread alto. Em 1999, o Banco Central (BC), então comandado pelo economista Arminio Fraga, lançou um pacote de medidas para tentar reduzi-lo.

O professor do câmpus de Ribeirão Preto da USP e especialista em análise de bancos, Alberto Borges Matias, afirma que a raiz do spread alto no Brasil é o baixo volume de crédito. “Como emprestam pouco, os bancos brasileiros têm de ganhar no preço”, afirma. Em junho, a relação crédito/Produto Interno Bruto (PIB) atingiu 45% no País, segundo o BC. Embora seja um nível recorde, está abaixo de outros países. No Reino Unido, por exemplo, essa relação supera 200%. Nos EUA, está acima de 180%, na China, em 108% e na China, em 50%.

Para Luís Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, uma das formas de estimular os bancos a reduzir juros e spreads é por meio do sistema financeiro público – estratégia escolhida pelo governo Lula após a escassez de crédito que se seguiu ao aprofundamento da crise. “Os bancos públicos estão puxando a concorrência.” Ele elogia também as medidas do BC nos últimos anos. “O BC deu mais transparência às informações sobre juros”, afirma, citando a publicação, no site da instituição, de um ranking com as taxas cobradas pelas instituições.

24/08/2009 - 09:07h Risco-Brasil fica entre os menores

Dívida externa: Spread brasileiro cai 19,6% e se consolida abaixo do mexicano e do russo

Cristiane Perini Lucchesi, de São Paulo – VALOR

O Brasil teve destaque entre os emergentes no mercado internacional de crédito no período pós-quebra da Lehman Brothers e se consolidou como o de menor prêmio de risco entre os países mais negociados. O risco-Brasil está 19,6% abaixo do que era um dia antes de estourar a fase mais aguda da crise, em 15 de setembro, na comparação com o aumento de 12,9% na média de 14 países do índice CDX.

“A despeito de todos os problemas e desafios, o Brasil é percebido como mais disciplinado e previsível”, diz Octavio de Barros, diretor do Departamento de Economia do Bradesco. “Mesmo o cenário eleitoral do ano que vem, ainda que possa suscitar alguma volatilidade mais adiante, não tira o sono de ninguém, pois o mercado não identifica incentivos a se andar para trás”, diz ele. No seu entender, o risco-Brasil tende a seguir uma trajetória de queda, fechando nos níveis de 100 pontos básicos no final deste ano, na comparação com os 124,915 pontos básicos na sexta-feira do prêmio do swap de crédito (CDS) de vencimento em cinco anos da dívida externa brasileira.

“A performance relativa do risco-Brasil foi excelente durante a crise, superando a dos demais emergentes, o que já esperávamos”, diz Daniel Tenengauzer, diretor-gerente e chefe de estratégia global para juros e moedas do Bank of America Merrill Lynch. “O que é surpreendente é que o risco-Brasil está agora mais baixo inclusive do que o spread do México”, afirma o estrategista.

Enquanto o risco-Brasil está em 124,915 pontos básicos, o spread de crédito do México está em 163,695 pontos básicos, apesar de a dívida externa do governo mexicano ter rating dois degraus acima da dívida do governo brasileiro pela Standard & Poor’s e pela Fitch Ratings e três degraus acima pela Moody’s. De acordo com a Fitch e a S&P, o Brasil tem a nota “BBB” para sua dívida externa, o primeiro degrau do grau de investimento. O México é “BBB+”. Já a Moody’s considera o Brasil ainda investimento especulativo e dá a nota “Ba1″ para o país, na comparação com a classificação “Baa1″ da dívida externa do México. Antes de a crise explodir, no dia 12 de setembro, o prêmio de risco do México era de 134,1 pontos básicos, na comparação com os 155,30 pontos do Brasil. Enquanto o risco-México subiu 22,1% desde então, o risco-Brasil teve queda de 19,6%.

“O Brasil foi um dos primeiros países a sair da recessão e as perspectivas de crescimento para o ano que vem são ainda mais animadoras, dado o ciclo de investimentos nas áreas de petróleo e gás”, diz Octavio de Barros, que prevê crescimento de 2,1% no Produto Interno Bruto no segundo trimestre de 2009 na comparação com o primeiro. No terceiro trimestre, haverá estabilidade e no quarto, novo crescimento de 2%, prevê.

Enquanto isso, o México, que tem uma economia mais dependente das importações dos Estados Unidos e menos diversificada, está em situação mais difícil, diz Ernesto Meyer, coordenador de financiamento para aquisições e operações sindicalizadas para a América Latina do BNP Paribas. O governo mexicano acaba de anunciar uma queda de 1,1% no PIB no segundo trimestre na comparação com o primeiro e um tombo de 10,3% na comparação com 2008, o maior em 25 anos.

A Rússia também tem rating melhor do que o Brasil – um degrau pela S&P e pela Fitch Ratings e três degraus pela Moody’s, mas está com risco-país de 272,72 pontos básicos, mais do que o dobro do brasileiro. O PIB da Rússia também continuou em contração no segundo trimestre -tombo de 10,9% na comparação com o trimestre em 2008, o maior da história – e seu risco-país subiu 62,5% desde a quebra da Lehman Brothers.

A queda maior no prêmio de risco-Brasil na comparação com outros emergentes tem ajudado a derrubar ainda mais os spreads pagos “por uma elite de empresas brasileiras”, pois grande parte da liquidez antes destinada a outros países da América Latina foi direcionada para o Brasil, diz Meyer. Hoje, entre os latino-americanos, o Chile é o único que tem risco de crédito menor do que o do Brasil pelo CDS, de 81,9 pontos percentuais. Mas, apesar disso, segundo Meyer, as grandes empresas brasileiras já pagam menos do que qualquer empresa da região em empréstimos, inclusive as chilenas. A China tem prêmio de risco de 82,25 pontos, mas tem US$ 2,13 trilhões em reservas, contra US$ 213,956 bilhões do Brasil.

14/08/2009 - 10:32h Os vexames dos bancões privados

VINICIUS TORRES FREIRE


Banca critica desempenho dos estatais e leva tiro dos fatos, com o balanço do BB; é outro vexame da rica safra de 2009

FAZ PARTE do show petista espinafrar bancos. Mas a banca privada poderia ter dormido sem levar essa carraspana desmoralizante do ministro da Fazenda. Brandindo os números superiores do balanço do Banco do Brasil, Guido Mantega pôde sapatear alegremente sobre as críticas de banqueiros à concorrência estatal. Outro vexame dos bancos privados.
A vexação mais recente não tinha nem uma semana. Os bancos privados haviam feito enorme lobby para gorar o leilão das contas do INSS. Até 2008, o governo pagava mais de R$ 250 milhões aos bancos que faziam os pagamentos do INSS. Em vez de pagar, decidiu vender aos bancos o direito de prestar tal serviço, em leilão. A banca dizia que não iria ao “absurdo” leilão, que o governo pressionava os estatais para que a disputa não fosse um fracasso etc. Bem, houve o tal leilão. E o Bradesco levou um monte de contas do INSS.
Mais vexame da banca privada. Desde o estouro da crise, em outubro de 2008, os bancos estatais foram responsáveis por 83% do aumento do estoque de crédito para o setor privado no Brasil. Os bancos privados estrangeiros, aliás, chegaram a reduzir o total de empréstimos. De janeiro a setembro de 2008, os estatais respondiam por só 38% da variação do crédito. Logo, os estatais evitaram que o crédito desabasse na crise e, assim, recessão feia. Bancos privados e porta-vozes vários diziam que os bancos estatais faziam besteira, emprestando dinheiro que não receberiam. Dado o histórico de rombos e irresponsabilidade dos estatais, era um temor muito razoável. Mas não havia fatos bastantes para avacalhar, de pronto, a iniciativa estatal. Aliás, ainda pode ser que alguns empréstimos estatais desse período miquem. Até agora, os fatos desmentem tal possibilidade.
Roberto Setubal, do Itaú, motivo da ira de Mantega, disse nesta semana que a atitude da concorrência estatal é “insustentável”-em 12 meses, o crescimento da carteira de crédito do BB foi o dobro da alta da carteira do Itaú. Pode bem ser que Setubal, muito bem informado, tenha razão. Mas onde estão os seus fatos? Há mais vexames. Em maio, os números do crédito indicaram que a banca privada voltava a emprestar quase tanto quanto a estatal. Banqueiros diziam que podiam então fazê-lo responsavelmente, pois a economia dava sinais de vida. Bem, os dados de junho mostraram nova retirada dos bancos privados do front de crédito, cujo estoque só cresceu praticamente devido aos estatais.
Outra conversa fiada, outro vexame. Os bancos ainda bateram o pé para não baixar as taxas que cobram para administrar fundos de investimento. Diziam que a fuga dos investidores dos fundos em direção à poupança não era problema dos bancos, mas só dos juros altos da poupança. Os juros tabelados da poupança são decerto um problemão, mas muitas taxas de fundos são de fato extorsivas. Como o governo sentou sobre a solução do caso da poupança, em boa parte por populismo, a banca teve de se mexer e baixar suas taxas. Vexame.
Os bancos de resto foram flagrados pelos fiscais da concorrência aprontando com monopólios nos cartões de crédito. Foi um vexame dentro de casa, pois a banca afinal é amiga do capitalismo. Não é?

vinit@uol.com.br

14/08/2009 - 10:13h BB expande crédito, tem menos calote e lucra R$ 4 bi

O Número 1 em ativos

http://www.claudiohumberto.com.br/Portals/8/2007/08_agosto/BB%203.JPG

Direção do Banco do Brasil festeja volta à liderança do setor financeiro em ativos

Instituição supera Itaú Unibanco em R$ 2,4 bi em ativos, mas seu lucro no 1º semestre aumenta apenas 0,55% em relação a 2008

FABRICIO VIEIRA – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O Banco do Brasil comemorou o retorno ao topo do ranking de maior banco do país. Mas, no que se refere a lucro conquistado, ficou atrás de seus concorrentes privados. No primeiro semestre do ano, o BB reportou lucro de R$ 4,014 bilhões, um aumento de apenas 0,55% em relação ao mesmo período de 2008. O Bradesco registrou R$ 4,020 bilhões. E o Itaú Unibanco apresentou lucro de R$ 4,586 bilhões.
“Para nós, é motivo de extrema satisfação, de alegria, voltar à liderança”, afirmou o presidente do BB, Aldemir Bendine.
Encerrado o primeiro semestre, o BB computava ativos totais de R$ 598,8 bilhões, superando os R$ 596,4 bilhões registrados pelo Itaú Unibanco.
O balanço do BB mostrou claramente os reflexos da decisão do governo de utilizar os bancos públicos como instrumento de fomento do crédito.
Enquanto as carteiras dos gigantes privados encolheram entre março e junho, com as instituições temerosas em relação ao crescente risco de calote, o BB registrou expansão relevante, de 4,4%, alcançando R$ 252,5 bilhões. Em 12 meses, o aumento da carteira de crédito chegou a 32,8%.
A expansão da carteira destinada à pessoa física é ainda mais impressionante: 69% desde junho de 2008.
“O BB adotou a estratégia correta ao dar um voto de confiança ao país e trabalhar para o destravamento do crédito”, disse o presidente do BB.
Mais do que a simples continuidade no crescimento do crédito, o BB mostrou recuo na inadimplência, em sentido contrário ao experimentado pelos seus concorrentes.
Os atrasos acima de 90 dias no segmento de pessoa física recuaram de 5,9% em março para 5,7% no fim do segundo trimestre. A média da inadimplência do sistema financeiro nessa categoria ficou em 8,6% no segundo trimestre.

Aproveitar o espaço
“O resultado do BB ilustra a atitude do governo de usar os bancos públicos para ocupar os espaços deixados pelos privados após a crise. O crescimento da carteira do BB foge do ritmo que observamos nos grandes privados. Agora que o BB exerceu essa atividade anticíclica, vamos ver como os privados vão se comportar”, disse Luis Miguel Santacreu, analista da consultoria Austin Rating.
Além de buscar manter a oferta de crédito, o governo federal tem mostrado preocupação com a manutenção do “spread” em níveis elevados. O “spread” se refere à diferença entre os juros que os bancos pagam para captar dinheiro no mercado e a taxa cobrada nos empréstimos que concedem.
No caso do Banco do Brasil, houve pequeno aumento do “spread” à pessoa física entre março e junho, de 20,5% para 21,2%. Na comparação com junho de 2008, quando estava em 23,4%, houve queda expressiva.
Com a continuidade na expansão do crédito e a conjuntura econômica pouco favorável, o BB não teve como escapar de elevar suas provisões para liquidação duvidosa -recursos separados para compensar possíveis calotes futuros. A provisão total subiu 29,9% no ano e alcançou R$ 17,7 bilhões.
No segundo trimestre, o lucro líquido do banco alcançou R$ 2,348 bilhões. Nesse período, eventos extraordinários turbinaram o resultado -como a venda da participação na VisaNet, que gerou R$ 1,4 bilhão.
Segundo estudo da Economática, o BB apareceu como o mais rentável banco da América no primeiro semestre, com rentabilidade média sobre o patrimônio de 12,9%. Na segunda posição, o Bradesco apareceu com 11,2%.
A ação ON do BB subiu 2,37% no pregão da Bolsa de ontem.

12/08/2009 - 13:59h Consignado garante lucro a bancos médios

Mudança de regras no crédito para pensionistas ajudou instituições

Ivana Moreira, BELO HORIZONTE

A mudança nas regras do empréstimo consignado para aposentados e pensionistas do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) garantiu números recordes para bancos focados na modalidade. O mineiro Bonsucesso divulga hoje um lucro líquido de R$ 51,3 milhões no primeiro semestre. O resultado é 571,48% maior que os R$ 7,6 milhões apurados no mesmo período do ano passado. É o melhor resultado da história da instituição financeira.

“Para quem saiu de uma crise, é um número fantástico”, comentou o presidente do banco, Paulo Pentagna Guimarães. A margem consignável, valor máximo da renda que pode ser comprometida pelas parcelas do empréstimo, estava limitada a 20%. O aposentado podia comprometer outros 10% com o cartão de crédito consignado, produto com demanda menor. Para estimular o crédito no pós-crise, o governo liberou os 30% para empréstimo direto.

Como outros bancos médios, o Bonsucesso chegou a demitir 100 funcionários, prevendo tempos difíceis em 2009. Mas a tempestade não veio. A carteira total de crédito do Bonsucesso subiu de R$ 1,466 bilhão, em junho de 2008, para R$ 1,931 bilhões em junho de 2009.

O BMG, líder da modalidade, demitiu em torno de 500 trabalhadores no fim do ano passado. Mas também cresceu no semestre. O banco, que também é mineiro, divulgou um lucro líquido de R$ 176 milhões no primeiro semestre , resultado 16,3% superior ao do mesmo período do ano passado. A produção do semestre chegou a R$ 3,640 bilhões. A carteira total cresceu 12,4%, atingindo R$ 15 bilhões.

O empréstimo para aposentados e pensionistas representa entre 60% e 70% da carteira dos bancos focados na modalidade do crédito consignado. Segundo o presidente do Bonsucesso, o aumento da produção dos bancos provou que havia uma “demanda reprimida” por empréstimo.

Para Guimarães, a criação, por parte do Banco Central, dos Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGE), também contribuiu para os lucros. “A medida restabeleceu a confiança e a liquidez para os bancos médios.”

O Mercantil do Brasil, outro banco aposta no consignado, ainda não divulgou seus resultados. Mas surpreendeu ao arrematar cinco lotes no leilão da folha de pagamento do INSS.

12/08/2009 - 13:36h Crédito em banco privado cai 1,7% no 1º semestre

Carteiras de empréstimo dos 3 maiores bancos privados do País recuam de R$ 626 bilhões para R$ 616 bilhões

Leandro Modé – O Estado SP

Os balanços semestrais das grandes instituições financeiras deixaram claro o tamanho do impacto da crise global sobre o crédito no Brasil. No fim do ano passado, as carteiras de crédito dos três maiores bancos privados do País – Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Real – totalizavam R$ 626,6 bilhões. Ao final do primeiro semestre deste ano, a mesma soma resultava em R$ 616 bilhões.

Ou seja, houve uma queda de 1,7% no período. No Itaú, que divulgou ontem os resultados do segundo trimestre, o recuo foi de 2,2%. No Bradesco, de 1,2%, e no Santander Real, de 1,5%.

As instituições afirmam que pisaram no freio por causa da expressiva alta da inadimplência em decorrência da crise internacional. Os dados do Banco Central (BC) mostram que a inadimplência média entre as empresas cresceu de 1,8% do total das operações em dezembro de 2008 para 3,4% em junho. Nas pessoas físicas, o salto no intervalo foi um pouco menor: de 8% para 8,6%.

“Esse movimento é normal para um momento de crise como o que vivemos”, disse o presidente da agência de classificação de risco Austin Rating, Erivelto Rodrigues. “É ruim para a economia em geral, mas, do ponto de vista dos resultados dos bancos, é positivo.”

O analista de bancos da Corretora Planner, Pérsio Nogueira, concorda. “(A queda do crédito) não foi significativa. Os bancos precisaram se ajustar, tiveram de esperar passar toda essa marola”, afirmou. “Não se pode dizer que as instituições foram excessivamente conservadoras. É preciso lembrar que a procura por empréstimos também caiu.”

A área econômica do governo discorda dessa avaliação e, mesmo no auge da crise, determinou que os bancos públicos, notadamente o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, emprestassem mais. As autoridades defenderam a ideia de que a pressão dos bancos públicos levaria também os privados a emprestar mais.

No BB, por exemplo, a carteira de crédito cresceu 7,6% no primeiro trimestre ante os três últimos meses do ano passado, para R$ 241,9 bilhões. Os resultados do semestre só serão conhecidos amanhã, quando a instituição divulgará o balanço do segundo trimestre. Mas analistas de mercado dão como certo um novo avanço.

PERSPECTIVAS MELHORES

O fraco desempenho no primeiro semestre levou os bancos a rever para baixo as projeções para expansão do crédito em 2009. O Bradesco, por exemplo, esperava no início do ano um avanço entre 13% e 17%. Agora, passou para um intervalo de 8% a 12%. No Itaú Unibanco, a expectativa é de um crescimento entre 10% e 15%.

As previsões só não são mais modestas porque a expectativa é de uma melhora expressiva nas concessões de empréstimos daqui até o fim do ano. “Os sinais indicam que a crise já é passado aqui no Brasil”, disse o diretor executivo de Controladoria do Itaú Unibanco, Silvio de Carvalho. Segundo ele, a instituição avalia que o pico da inadimplência será atingido em setembro. “A partir daí, acreditamos em uma estabilização.”

Com o calote sob controle, analistas ponderam que o caminho natural será os bancos voltarem com força para o crédito – como nos últimos anos, quando o crescimento médio do estoque ficou entre 20% e 30%.

O analista de bancos da Corretora Spinelli, Jayme Alves, prevê um “movimento oposto” por parte dos bancos em relação ao crédito daqui para a frente. “As operações de consignado já voltaram para o nível pré-crise”, exemplificou.

“Sem poder reajustar as tarifas por causa das regras do Banco Central, com as taxas de administração em queda e os ganhos de tesouraria menores em razão da queda do juro básico, não há outro caminho para os bancos senão aumentar o crédito”, argumentou.Outras áreas que, segundo ele, também vão ganhar força são previdência privada e seguros.

Carvalho afirmou que o Itaú Unibanco vê boas perspectivas para os financiamentos, principalmente, entre as pessoas físicas e as pequenas e médias empresas. Ele ponderou que, com a melhora do crédito global, as grandes corporações estão bem atendidas pelo mercado internacional.

Para o ano que vem, Carvalho disse que o Itaú Unibanco espera uma expansão de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), que resultaria em um avanço do crédito total entre 20% e 25%. Para este ano, o banco prevê uma retração de 0,7% no PIB.

12/08/2009 - 13:00h ”Redução de spread de bancos públicos não é sustentável”

Enquanto bancos privados subiram juros para enfrentar a crise, diz Setubal, bancos públicos cortaram algumas taxas

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Para Roberto Setubal (centro da foto) ”Redução de spread de bancos públicos não é sustentável”

Ricardo Leopoldo – O Estado SP

Para o presidente executivo do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, a redução de algumas taxas de spread (diferença entre a taxa de captação de recursos e a taxa cobrada dos clientes nos empréstimos) promovida pelos bancos oficiais “não é sustentável”. Segundo ele, no início deste ano, enquanto os juros cobrados pelos bancos comerciais subiam, por causa do estancamento global do crédito, os bancos públicos diminuíram o valor dos spreads.

Em palestra para empresários em São Paulo, Setubal destacou, no entanto, que os bancos públicos tiveram um papel importante para elevar a concessão de crédito na economia, o que faz parte da estratégia “correta” do governo de adotar medida anticíclicas para atenuar os efeitos da crise no País.

Mas o executivo acredita que a tendência é as taxas cobradas tanto por bancos públicos quanto por privados se estabilizarem no mesmo nível. “O sistema financeiro reduziu os spreads no último trimestre e houve aumento da concessão de crédito. Estamos em uma fase de retomada do crédito com redução do spread”, afirmou.

Indagado pela Agência Estado se a alta rentabilidade dos bancos comerciais não permitiria uma queda mais intensa dos spreads, o que foi exortado há alguns dias pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, Setubal respondeu que “os bancos estão longe de ser o primeiro setor em termos de rentabilidade”. No entanto, reconheceu que o setor financeiro brasileiro tem se destacado em um contexto global. “Neste momento, evidentemente, quando a gente olha o que aconteceu com os bancos lá fora, a maior parte deles, inclusive, com prejuízos, a rentabilidade (dos bancos) do Brasil está bem superior.”

Para Setubal, a economia brasileira está se recuperando de forma satisfatória da crise e o Produto Interno Bruto (PIB) deve fechar o ano com um ritmo de expansão perto de 4%. “Estatisticamente, o PIB em 2009 deve ficar o próximo a zero, mas nos últimos meses do ano, estaremos com um ritmo avantajado de aceleração que deverá levar o País a crescer por volta de 4,5% em 2010 e até pode chegar a 5%”, afirmou. Segundo ele, o PIB no segundo trimestre indica um ritmo de crescimento entre 5% e 6% em relação ao primeiro trimestre deste ano.

FUSÕES

Na avaliação de Setubal, não há mais espaço no mercado brasileiro para fusões de grandes bancos, como a realizada entre Itaú e Unibanco, que criou o maior conglomerado financeiro da América do Sul. Com a operação, o Itaú superou o seu principal concorrente privado, o Bradesco. “O que está feito está feito. Até poderia ocorrer compra de bancos médios. Mas acho que entre os quatro grandes lá em cima não tem mais condição de acontecer nada.”

De acordo com Setubal, poderia ocorrer de forma excepcional alguma fusão caso um dos grandes bancos apresentasse problemas muito sérios. Mas ele ressaltou que não existe nenhuma perspectiva de que isso ocorrera no Brasil.

Setubal disse que o atual nível de concentração do País é adequado para os bancos de varejo, pois no mundo poucos países têm acima de cinco grandes instituições operando neste setor.

25/07/2009 - 09:07h Bancos médios superam a crise, mas concentração bancária deve aumentar

Captação e empréstimos já estão praticamente no nível de 2008

 

Renato Andrade e Fernando Nakagawa – O Estado SP

 


Os sinais de recuperação da economia já podem ser sentidos num dos segmentos que mais sofreram com a crise de crédito global que travou as operações de financiamento no fim do ano passado. Os bancos de pequeno e médio portes conseguiram recuperar boa parte das fontes de recursos e voltaram a emprestar praticamente o mesmo volume de dinheiro que giravam antes do agravamento da crise, em setembro, quando o banco de investimentos Lehman Brothers quebrou.

Em março, o saldo das operações de crédito ainda estava 6,5% abaixo do registrado antes da crise. Segundo dados do Banco Central (BC), o resultado melhorou em maio e ficou apenas 0,6% abaixo do desempenho de setembro de 2008. “Não há mais nenhum problema de liquidez e foi resolvido o problema de credibilidade no setor”, analisa Renato Martins Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representas as instituições pequenas e médias.

O congelamento do crédito produziu grandes efeitos sobre os bancos de menor porte. Para evitar consequências danosas ao segmento, que tem forte participação no financiamento de pequenas empresas e em operações como crédito consignado, o BC adotou uma série de medidas para garantir a retomada das captações – como a redução dos depósitos compulsórios, que liberou R$ 100 bilhões para o caixa dos bancos.

Mas a redenção ocorreu mesmo em abril, com a criação do Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE). O instrumento dá garantia de até R$ 20 milhões aos investidores que aplicarem recursos nessas instituições. Isso deu segurança para que grandes aplicadores voltassem a pôr dinheiro nesses bancos, opção de investimento que havia sido completamente excluída no auge da crise.

Desde então, foram captados R$ 9,5 bilhões com a garantia especial. “Esses recursos conseguiram encerrar a questão de falta de funding (captação) nos bancos médios, principalmente porque os grandes investidores voltaram”, diz o diretor-geral do Fundo Garantidor do Crédito (FGC), Antonio Carlos Bueno, instituição que dá a garantia a esses depósitos.

SPREAD

Para Rubens Sardenberg, economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), as medidas tomadas pelo BC no ano passado permitiram, num primeiro momento, a recomposição de caixa dessas instituições. Na sequência, os bancos voltaram a emprestar.

Nessa retomada, o empréstimo consignado e o financiamento de veículos foram os primeiros beneficiados. Dados do BC mostram que a média diária de concessão de crédito consignado ficou em R$ 286 milhões em maio, valor 121% maior que o de dezembro. No caso dos carros, a média de novas operações somou R$ 212 milhões em maio, um salto de 58,4%. No mesmo período, a média das operações para pessoas físicas cresceu 16,3%.

O desafio que se impõe agora aos bancos é a demanda ainda fraca, diz Sardenberg. “De maneira geral, não temos mais problema de oferta, mas a demanda ainda é fraca”, disse.

Para o economista, essa realidade forçará o aumento da competição entre os bancos, o que poderá resultar em reduções nas taxas de juros cobradas nas operações e até dos spreads bancários, a diferença entre a taxa de captação de recursos do banco e a cobrada do cliente.

O espaço para redução dessas taxas é claro, mas a queda sempre foi muito mais lenta do que o desejado pelos consumidores e pelo próprio governo, que tem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, como um dos porta-vozes das constantes reclamações sobre os spreads.

Depois de atingir o nível de 30,7 pontos porcentuais em dezembro, o spread médio do sistema financeiro nacional diminuiu lentamente ao longo dos primeiros cinco meses do ano, atingindo 28,1 pontos em maio, de acordo com os dados mais recentes do BC. No caso do juro médio nas operações com recursos livres, a taxa passou de 43,3% ao ano para 37,9% no mesmo período.

Crise acelera tendência de fusões e aquisições de bancos pequenos

A recuperação da capacidade dos bancos menores de tomar recursos e oferecer empréstimos não deve frear o processo de fusões e aquisições dessas instituições, avalia uma fonte do setor. “O mundo não vai voltar a ser exatamente como era antes da crise”, disse a fonte, que pediu para não ser identificada. “O que teremos, eventualmente, é um movimento de fusões e aquisições.”

O fato mais marcante do processo de consolidação do setor bancário brasileiro ocorreu no fim de 2008, quando Itaú e Unibanco se uniram, criando o maior banco da América Latina em ativos. “Deveremos ver dois movimentos: a fusão de bancos pequenos e médios e também a incorporação dessas instituições por bancos maiores.”

A consolidação do setor não é uma hipótese descartada pelo presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Renato Martins Oliva, entidade que representa os bancos de menor porte. O assunto, entretanto, assusta. “O ideal é termos uma grande quantidade de agentes econômicos para garantir a competição. Por esse aspecto, a consolidação preocupa”, diz.

Ele dá como exemplo a união entre Itaú e Unibanco. “Se uma empresa tinha crédito de R$ 100 em cada instituição, a fusão não fez com que esse cliente mantivesse R$ 200 em crédito. Ao contrário, ele passou a poder usar apenas um dos dois limites.”

Oliva admite, porém, que essa consolidação passa por decisões estratégicas de cada instituição e, caso isso ocorra, existem benefícios, como um sistema mais forte e com maior capacidade de emprestar.

Os bancos públicos, que têm sido pressionados pelo governo a aumentar o crédito, têm colaborado para essa consolidação. Desde 2008, o Banco do Brasil já adquiriu metade do Banco Votorantim, especializado em crédito para veículos e médias empresas, e incorporou a Nossa Caixa e o Banco do Estado de Santa Catarina. Além disso, comprou R$ 3,5 bilhões em créditos de bancos menores durante a crise.

Agora, há expectativa de que a Caixa Econômica Federal se associe a um banco médio para entrar em nichos que ainda não explora, como o das financeiras. Durante a crise, a Caixa adquiriu R$ 2 bilhões em carteiras de crédito de outras instituições.

O próprio Banco Central (BC) considera possível um novo ciclo de consolidação do sistema financeiro. Em seu último Relatório de Estabilidade Financeira, o BC avalia que as aquisições ocorridas no segmento de bancos de grande porte “prenunciam” esse novo ciclo. O processo já estaria se refletindo nos níveis de concentração do sistema, de acordo com cálculo feito pelo BC.

Na avaliação da autoridade monetária, as aquisições não ocorrerão apenas do lado das grandes instituições. Alguns bancos médios devem buscar o fortalecimento de suas operações por meio de aquisições, o que daria escopo para concorrerem com as instituições de grande porte.

24/07/2009 - 09:48h Empresários mudam o foco das pressões. Defesa do corte da Selic é substituída pela redução do spread bancário

Marcelo Rehder – O Estado SP

A avaliação de que o Banco Central (BC) chegou ao limite na redução da taxa básica de juros (Selic) levou representantes da indústria e do comércio a mudar o foco de pressão: em vez de insistir no corte da Selic, que tem tido efeito limitado nas taxas cobradas no mercado, as entidades empresariais cobram do governo uma atuação mais firme para redução do spread embutido nas operações de financiamento dos bancos.

Para entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio SP), o spread (a diferença entre a taxa que as instituições pagam para captar recursos e a taxa cobrada nos financiamentos a consumidores e empresas) é hoje o maior obstáculo para o crescimento da economia.

“Os altos spreads cobrados pelos bancos são absolutamente incompatíveis com a condição da economia brasileira”, afirma o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto. “Não há país no mundo que atue em condições tão hostis do ponto de vista do financiamento.”

Na sua avaliação, não há razão para os spreads permanecerem em níveis tão elevados, a começar pelo custo de captação, que caiu bastante. “Ainda temos spreads tão altos porque temos um mercado deformado, aonde prevalece um baixo grau de competição e um alto nível de concentração bancária”.

“O spread bancário é um atentado ao crescimento do Brasil”, diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. Segundo ele, o País ainda não superou os efeitos da crise global e é decisivo diminuir o custo do dinheiro para os setores produtivos e o mercado consumidor.

O economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi) Rogério César Souza observa que os bancos não repassaram para o spread os ganhos de escala obtidos nos últimos anos. Segundo ele, os empréstimos crescem a taxas superiores a 20% ao ano desde 2005. “Poderiam ter baixado os custos administrativos na formação do spread”, disse.

O economista Fábio Pina, da Fecomércio-SP, concluiu que a culpa é um pouco do próprio consumidor. “Enquanto o consumidor não entender o que está pagando e quanto está pagando, os bancos e as financeiras não vão diminuir de forma voluntária os seus spreads”, comentou.

O presidente da CNI diz que há muito por fazer. Primeiro, o ambiente precisa ser mais concorrencial. “Os bancos públicos agora estão cumprindo um papel importante, até induzindo um pouco a redução dos spreads.” Mas ressalta que apenas essa atuação estatal não resolverá o problema.

Para o Iedi, o governo deveria pensar em uma reforma ampla, que incluísse a implantação do cadastro positivo (lista de bons pagadores), corte de impostos, além da liberação do depósito compulsório.

24/07/2009 - 09:24h Selic cai mais rápido do que o spread

Taxa básica recua 4,5 pontos entre janeiro e maio, ante 2,4 pontos do spread; Febraban contesta comparação

Leandro Modé – O Estado SP

O spread bancário, diferença entre a taxa de juros que as instituições financeiras pagam na captação do dinheiro e a que cobram dos clientes, está caindo no Brasil em ritmo mais lento que o juro básico da economia (Selic). Segundo o Banco Central (BC), o spread médio do sistema caiu de 30,5 pontos porcentuais em janeiro para 28,1 pontos em maio, ou seja, 2,4 pontos. No mesmo período, a Selic saiu de 13,75% para 9,25% ao ano, diferença de 4,5 pontos.

“Isso se deve à inadimplência, que ainda está em ascensão”, disse o economista do Insper (ex-Ibmec São Paulo) Otto Nogami. Um colega que pede para não ser identificado tem explicação diferente. “Os bancos aproveitam que o produto que vendem (dinheiro) está escasso para cobrar mais caro.”

O economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Rubens Sardenberg, argumenta que a comparação entre spread e Selic não é correta do ponto de vista metodológico. “O certo é comparar o comportamento da Selic com o da taxa de aplicação (que mostra quanto os bancos cobram dos clientes)”, disse. Segundo o BC, a taxa de aplicação recuou de 42,4% em janeiro para 37,9% ao ano em maio, ou seja, 4,5 pontos – evolução idêntica à da Selic.

Sardenberg contesta, ainda, o peso que se dá no Brasil à questão do spread. “Ninguém compra um carro pensando no lucro da montadora, mas no preço que pagará pelo veículo”, compara. “O que importa (para o cliente bancário) é a taxa que paga.”

O debate sobre spread bancário não é novo no Brasil, mas tende a crescer por causa da queda da Selic para níveis historicamente baixos. Uma simulação feita pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) indica, por exemplo, que o juro médio cobrado no comércio fica em 106% ao ano com a Selic atual, de 8,75%. Ou seja, o financiamento equivale a mais de 12 vezes a taxa básica do País.

Segundo estudos internacionais (um deles do Fundo Monetário Internacional), o spread no Brasil é o mais alto do mundo. Os bancos atribuem essa situação a uma série de fatores: inadimplência mais elevada do que em outros países, impostos na intermediação financeira, depósitos compulsórios e despesas administrativas. O governo, porém, avalia que falta concorrência no setor.

O presidente da Anefac, Miguel de Oliveira, acha que as duas partes têm sua parcela de razão. “Os bancos estão certos em reclamar da cunha fiscal”, afirmou. “Em compensação, o governo está certo ao apontar para a falta de competição.”

Para o presidente da seguradora de crédito Coface, Fernando Blanco, o papel do consumidor (empresa ou cidadão) é fundamental para forçar a queda de juros e spreads. “Ambos não vão cair por oração, discurso, etc”, disse. Crédito, explica, é fruto de uma negociação individual. Por isso, o cliente deve fazer sua parte – por exemplo, pesquisar em várias instituições antes de tomar um empréstimo.

22/06/2009 - 11:33h Mirando o spread

Amir Khair* – O Estado SP

O Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu o mercado ao reduzir a taxa básica de juros da economia (Selic) em um ponto porcentual, passando-a a 9,25% ao ano, seu nível mais baixo desde a existência desse órgão. É ainda um nível elevado na comparação internacional, onde as economias emergentes praticam taxas ao redor de 6%. Isso irá reduzir as despesas do governo federal com os juros de sua dívida mobiliária, contribuindo para um déficit fiscal na casa de 2% do PIB para este ano, um dos melhores da série histórica.

Outra consequência importante é que, com essa redução, fica cada vez mais claro que o problema dos altos juros para o tomador de empréstimo está no elevado spread (diferença entre os juros pagos pelos bancos na captação de recursos e a taxa aplicada por eles nos empréstimos que concedem). É o maior do mundo e 11 vezes o dos países desenvolvidos, de acordo com levantamento feito pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) para 2008. A média simples da taxa das 62 nações em desenvolvimento que integram o relatório do Iedi ficou em 6,55 pontos porcentuais, no ano passado, ante 34,88, no Brasil. A comparação foi obtida a partir de dados sobre o custo do capital para os bancos de cada nação e os juros que cobram, informados pelos governos ao Fundo Monetário Internacional. Pela metodologia do Banco Central (BC) brasileiro, a média em 2008 ficou em 26,54 pontos. Em abril deste ano estava em 28,2 pontos.

Os bancos estão cada vez mais na defensiva para tentar explicar a prática abusiva das taxas de juros cobradas de seus clientes. Procuram justificar essa distorção usando como argumentos principais os níveis elevados da Selic e da inadimplência no mercado. Esses argumentos carecem de realismo, pois o spread não tem relação com essas variáveis. Na crise que o País atravessou em 2003, o spread foi, em média, 1,4 vez maior que a Selic. Em 2008, foi 2,1 vezes maior e, em abril deste ano, cresceu para 2,5. O mesmo ocorre em relação à inadimplência. A relação entre spread e inadimplência foi de 6,2, em 2003; de 4,1, em 2008; e de 2,7, em abril deste ano. É mais provável que as elevadas taxas de juros é que causem a inadimplência. Assim, nem a Selic nem a inadimplência podem servir de justificativa para a distorção causada há anos na economia pelo setor bancário.

Tudo parece indicar que o spread é elevado por causa, especialmente, da margem de lucros dos bancos, facilitada pela baixa concorrência no setor bancário.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, atribui ao spread, e não à Selic, a explicação para os problemas de crédito que as empresas brasileiras enfrentam. Para o governo, a sua forte redução é condição necessária para a retomada do desenvolvimento em bases sustentáveis. Mas o que pode ser feito para tornar as taxas de juros aos clientes no Brasil alinhadas com os níveis internacionais?

Pela via do mercado, isso poderá ocorrer em razão da queda da Selic, pois caem os lucros bancários obtidos com as aplicações em títulos do governo federal. Para compensar, os bancos serão cada vez mais forçados a ampliar seus empréstimos, o que gera uma maior concorrência entre eles.

Pela via do governo, além das várias medidas adotadas, tem-se a oportunidade de uso do estoque dos depósitos compulsórios dos bancos no BC. O depósito compulsório obriga que as instituições financeiras recolham para o Banco Central parte do dinheiro depositado pelos seus clientes. Com isso, os bancos ficam com menos dinheiro para emprestar e fazer outras operações, o que encarece o crédito. O BC já reduziu esses depósitos em R$ 100 bilhões, desde que a crise financeira atingiu nossa economia. Restam ainda cerca de R$ 170 bilhões, valor ainda elevado. Os riscos de retomada da inflação com novas liberações de depósitos compulsórios são pequenos e a prova disso é que os R$ 100 bilhões já liberados não causaram inflação.

O instrumento à disposição do governo ainda não utilizado e que pode acelerar o processo de queda do spread é a liberação seletiva dos depósitos compulsórios. O que é essa liberação seletiva? O Conselho Monetário Nacional poderá estabelecer regras de liberação dos depósitos compulsórios de acordo com os spreads ou juros bancários praticados pelos bancos. Como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal oferecem normalmente taxas de juros mais baixas do que o setor privado bancário, seriam os mais beneficiados, podendo ampliar ainda mais a conquista de novos clientes. Essas instituições oficiais vêm crescendo, com boa probabilidade de expansão de seus lucros em níveis superiores aos dos bancos que adotaram políticas conservadoras de concessão de crédito. Assim, o País ganha duplamente: reduz as taxas de juros em benefício das empresas e dos consumidores e reduz o poder oligopólico do setor bancário privado, com ganhos para toda a sociedade. É preciso que o governo utilize os poderosos instrumentos monetários a seu dispor, se quiser atingir algum nível de crescimento econômico ainda este ano e se proteger de eventual repique da crise externa.

*Amir Khair, consultor, é mestre em Finanças Públicas pela FGV

21/06/2009 - 11:49h ”O bode na sala é o spread”

ENTREVISTA- Guido Mantega: ministro da Fazendahttp://www.portalms.com.br/adm/imagens/%7B3E784947-A355-4FD7-AA38-89459A43C971%7D_guido-mantega.jpg

 

David Friedlander e Leandro Modé – O Estado SP

 


A queda de braço entre o governo e os bancos privados por causa do spread (diferença entre o custo que o banco paga na captação do dinheiro e o juro que cobra do cliente) esquentou. Depois de muita pressão, as instituições financeiras passaram a dizer que desejam baixar o spread, mas não conseguem em razão do peso elevado dos impostos e do depósito compulsório em seus custos. Nesta entrevista, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, contesta esse argumento sem fazer rodeios. “Os bancos têm margem para baixar o spread sem precisar de redução da cunha fiscal ou do compulsório”, afirma.

Bem-humorado com o desempenho acima da média do Brasil na crise econômica global, Mantega só mostra desconforto quando fala do câmbio e das mudanças anunciadas para a caderneta de poupança. No primeiro caso, afirma que está preocupado mas, no momento, não há nada a fazer. Sobre a poupança, deu a entender que o anúncio de mudanças nas regras é complicado, assusta as pessoas e trouxe algum desconforto ao governo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A última ata do Copom (Conselho de Política Monetária) diz que o espaço para redução dos juros básicos da economia ficou menor…

Com uma taxa de 9,25%, é óbvio que ficou menor. Uma das funções do Banco Central é mostrar que está sempre atento à inflação. O BC não pode dizer que vai baixar os juros, mas o fato é que está baixando.

Essa redução poderia ser mais rápida?

O custo financeiro no Brasil continua muito alto. É uma distorção em relação ao que acontece em outros países. A grande anormalidade é que os spreads (diferença entre o custo que o banco paga na captação do dinheiro e o juro que cobra do cliente) são muito altos no País. O consumidor brasileiro paga juros absurdos. Mas estamos caminhando. A vantagem é que antes havia três bodes na sala: tiramos dois, mas sobrou um.

O senhor está falando do spread?

O bode na sala é o spread. As instituições financeiras dizem que querem se garantir contra a inadimplência, mas abusam. Fora os períodos de crise, quando ela aumenta mesmo, nossa inadimplência é normal. Mas ela é superestimada pelas instituições financeiras. Existe também um pouco de concentração no setor financeiro. Antes da crise, o spread era muito menor. Mas os bancos ficaram com medo e chutaram para cima. No Brasil, como já há um exagero, ficou um exagero e meio.

Os banqueiros dizem que o spread é alto por causa dos impostos que pagam e do compulsório que são obrigados a recolher. O governo pensa mexer nisso?

Os bancos têm margem para baixar o spread sem precisar de redução da cunha fiscal ou do compulsório. O compulsório já diminuiu bastante nesta crise, nós liberamos mais de R$ 100 bilhões. Aliás, diga-se de passagem, na composição do spread 36% é a possibilidade de inadimplência. Evidentemente, isso está superestimado. Eles costumam prever uma inadimplência maior e com isso cobrar uma taxa maior. Outra é a margem de lucro. Os bancos brasileiros estão bem acostumados a ter margem de rentabilidade elevada. Não tenho nada contra isso, mas acho que aí tem espaço para diminuir.

Na sua opinião, quanto seria possível diminuir?

Da composição do spread, a cunha fiscal dá 7% a 8%, o compulsório não dá 3%, 36% é inadimplência e, se não me engano, 24% é custo administrativo. No custo administrativo tem a margem do banco. Então, quase 60% é risco de inadimplemento e mais custo administrativo.

E por que os bancos não baixam o spread?

É preciso ter concorrência. Hoje, mais de 70% do crédito é atendido por sete ou oito grandes bancos. O governo precisa criar condições para que haja concorrência. A queda da Selic (a taxa básica de juros) ajuda. A ação dos bancos públicos também. Eles estão liderando o processo de aumento do crédito e de redução de juros. Acho que está surtindo efeito. Pela primeira vez, percebo que os concorrentes (os bancos privados) estão sentindo essa agressividade que não existia antes.

Além de mobilizar os bancos públicos, que mais o governo pode fazer para aumentar a concorrência no mercado financeiro?

Pode fortalecer os bancos pequenos e médios. Já fizemos isso. Não deixamos que os bancos pequenos saíssem do mercado. Agimos para permitir aos bancos públicos adquirir instituições financeiras sem maiores problemas e direcionamos o compulsório para a compra de carteiras de bancos menores. Nós sabemos que os bancos menores sofreram saques, a saída de fundos, alguns bancos tiveram a reputação afetada por problemas de derivativos… Tudo isso foi superado. E agora vamos fazer o fundo garantidor de crédito para a pequena e média empresa.

O governo desistiu de mexer na fórmula da poupança?

Nós buscamos fazer a menor mudança possível. É que as coisas são complicadas. Vocês já viram a fórmula da TR (Taxa Referencial de Juros)? É complicadíssima. Só um grande especialista consegue entender. Você não consegue comunicar, transmitir isso à população. Aí aparece o uso político com gente querendo desinformar (a oposição disse que o governo quer acabar com a caderneta de poupança). Então, escolhemos o caminho da menor mudança possível.

É por isso que o governo anunciou e depois não falou mais no assunto?

Foi anunciado e foi dito que a medida de aumento de tributação é para o ano que vem. Temos tempo para entrar no Congresso. O projeto está pronto, não tem nenhum segredo. Cria o Imposto de Renda, tem lá um desconto e tal. A tributação é pequena. E o contribuinte vai declarar em 2010 e pagar em 2011. A poupança vai continuar sendo uma das melhores opções de investimento. Cerca de 99% das cadernetas têm até 50 mil de aplicação e aí não muda nada.

Já está havendo alguma migração dos fundos de investimento para a poupança. Não é perigoso para o financiamento da dívida pública?

Não preocupa porque não está havendo fuga do Tesouro (refere-se aos títulos públicos).

O câmbio preocupa o senhor?

Sim, o câmbio preocupa. Do jeito que está, diminui a competitividade de nossas exportações e pode trazer um fluxo de importações indesejado. Essa parte é objeto de observação. Se for necessário, faremos medidas para atenuar. Agora, o câmbio flutuante é um regime positivo. Tem hora que ele flutua para um lado, tem hora que flutua para outro. O que não pode é flutuar só para um lado. Hoje, o excesso de valorização prejudica o País. E aí começa a preocupação. Mas estamos comprando mais reservas. O Brasil se deu muito bem comprando reservas. Foi uma estratégia que introduzimos no governo a partir de 2006 quando me tornei ministro da Fazenda, foi uma das primeiras questões que levei ao presidente Lula e ao Henrique Meirelles (presidente do BC).

Qual seria uma taxa ideal hoje?

Não tem taxa de equilíbrio. A taxa de equilíbrio é aquela que é resultado das transações do mercado. O governo não trabalha com taxa de equilíbrio e não tem meta de câmbio.

Os juros altos não contribuem para encher o mercado brasileiro de dólares?

Acho que potencialmente um diferencial de taxas de juros poderá no futuro fazer isso. No momento, não acho que cause esse impacto. Mas vamos separar as coisas. Existe uma valorização do real produzida diretamente pela desvalorização do dólar. Não há o que fazer. É o Barack Obama (presidente dos EUA) que precisa agir. Uma valorização um pouco maior do real em relação a outras moedas se deve também a virtudes da economia brasileira. Nosso mercado de capitais é mais sólido, tem regras mais claras e tem mais liquidez do que o mercado de capitais indiano, chinês e russo. Isso provoca entrada maior de capitais no Brasil. Isso também valoriza o câmbio.

A arrecadação caiu sete meses seguidos e os gastos correntes continuam subindo. Como fechar essa conta? O governo vai cortar gastos?

A queda da arrecadação era esperada porque está diretamente relacionada com o nível de atividade econômica. E nós tivemos uma retração. Além disso, fizemos desonerações (tributárias). Elas têm um impacto. Vamos fazer um superávit menor, mas calibramos isso de modo que a nossa dívida não cresça. A nossa dívida pública está estabilizada. Ela estava em 36% (do PIB) e foi para 39,8% porque tiramos a Petrobrás do cálculo. No ano que vem será menor. Quando a economia retomar, vamos voltar a ter arrecadação. Temos uma situação confortável que nos permite esse período em que estamos gastando mais. O gasto do governo é bom para a economia, ativa a economia.Estamos mantendo os investimentos, mantivemos todos os programas sociais e as despesas do governo. Então vai haver um certo desequilíbrio este ano que poderá até nos levar a cortar mais gastos correntes. Foi o que o Paulo Bernardo (ministro do Planejamento) falou. Se continuar havendo frustração de arrecadação, poderemos vir a cortar gastos correntes dos ministérios.

Que tipos de gastos podem ser cortados?

Gastos correntes dos ministérios. Não vamos mexer no Bolsa-Família, não mexeremos nos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas os demais gastos podem ser adiados. Nós já fizemos um contingenciamento e talvez tenhamos de fazer alguma restrição a mais para equacionar essa situação.

O governo estuda desonerar a folha de pagamentos?

São medidas clássicas, que sempre estarão em estudo. Porque o Brasil tem um custo de folha mais elevado que outros países, então é algo que sempre está na nossa alça de mira. No projeto de reforma tributária, está prevista a redução de 1% da contribuição previdenciária por ano, até chegar a diminuir para 6%. Poderemos antecipar alguma coisa, em vista do cenário que temos, mas aí temos de olhar o custo. Cada 1% de redução custa R$ 3,8 bilhões por ano. É bastante, mas não estamos descartando nada.

E os outros setores? Todos estão pedindo…

Todos os setores empresariais sempre pediram. Mas o governo não se influencia pela pressão de setores. Quem teve a ideia de fazer a redução do IPI fomos nós, não foram eles. Ontem (quarta-feira) fizemos uma avaliação com o Jackson Schneider (presidente da Anfavea) e ele acha que, graças a esse programa de desoneração de IPI, eles venderam 250 mil carros a mais. Nós perdemos IPI, mas em compensação pagamos menos seguro desemprego, aqueles funcionários que continuaram ganhando salário consumiram, pagaram outro tipo de tributo, houve compensações. Se você deixa a economia cair, se deixa o nível de atividade desacelerar, a arrecadação vai cair mais ainda.

O aumento da alíquota sobre a importação do aço não vai contra o próprio discurso do presidente Lula, de que num momento como este não deveria haver medidas protecionistas?

Com a crise, a indústria do aço no mundo caiu 50% e agora tem gente de outros países querendo exportar aço até a preço de custo. Nós observamos isso criteriosamente, esperamos a indústria nacional baixar o preço, eu quis ver as faturas e aí nós subimos 12% (o imposto de importação). É uma medida que a OMC (Organização Mundial do Comércio) aceita e não dá para deixar nosso mercado ser invadido por exportações de baixo custo de outros países.

O senhor e o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho, sempre foram associados a uma política chamada de desenvolvimentista, voltada para a produção. E isso entrou na agenda até dos liberais mais convictos…

Nós não somos estatistas. Sou desenvolvimentista sim, mas dos anos 2000, e não dos anos 60, ou dos anos 70. Moderno, dinâmico. A gente só entra onde o setor privado precisa de um impulso. Depois, ótimo. O Estado não precisa ficar, a não ser em certos setores, que precisam ficar vigiados. O setor financeiro é um deles, porque é uma concessão. Foi no setor financeiro que os Estados Unidos comeram bola, cometeram erros que estão corrigindo hoje com essa regulamentação extremamente positiva, que já temos no Brasil. Por isso nosso sistema é mais sólido.

Qual o plano para todas essas participações em empresas em crise que o BNDES está comprando? É vender depois ou permanecer como acionista?

No passado o BNDES precisou ajudar na implementação de alguns setores, ele floresceu e aí vocês vende as ações (das empresas do setor). Aliás,o BNDES tem lucrado muito com aquilo que fez no passado, o que significa que fez só coisas positivas. Quando estava no BNDES, me lembro que o lucro em 2003 tinha sido R$ 1,4 bilhão. Em 2004, foi de R$ 3,3 bilhões e daí para a frente só tem crescido. Portanto, só faz coisas sólidas. Os bancos públicos vieram para ficar, são atores econômicos importantes hoje e trabalham com princípios de eficiência, responsabilidade e produtividade. São lucrativos, eu faço exigência de metas de produtividade. A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil são instrumentos de política econômica e dessa participação do Estado estimulando a infraestrutura. Nós estávamos defasados em infraestrutura e os investimentos não vinham espontaneamente do setor privado. O governo precisou dar um impulso. Mas nós não somos estatistas.

Quem é:
Guido Mantega

É ministro da Fazenda desde março de 2006, quando substituiu Antonio Palocci

Também foi ministro do Planejamento e presidente do BNDES

É formado em Economia pela Universidade de São Paulo

PERFIL: “Sou desenvolvimentista sim, mas dos anos 2000, e não dos anos 60 ou 70. Moderno, dinâmico”

JUROS: “As instituições financeiras dizem que querem se garantir contra a inadimplência, mas abusam”

POUPANÇA: “Foi anunciado que a medida é para o ano que vem. Temos tempo para entrar no Congresso”

18/05/2009 - 10:44h “Conservadorismo” afetou lucro do BB


Entrevista: Presidente do banco diz que perda na rentabilidade decorre de “exagero” na restrição ao crédito


Ruy Baron / Valor

O presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine: “Sempre acreditei que o principal componente do resultado é a intermediação financeira”

 Alex Ribeiro, de Brasília – VALOR

O presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, afirma que a queda do lucro da instituição no primeiro trimestre é resultado de exagero na restrição de crédito e nas provisões para devedores duvidosos. “Veio um cenário de conservadorismo, consequência da crise”, afirma Bendine, em entrevista ao Valor. “Essa equação não ficou bem equilibrada.”

O lucro do BB no primeiro trimestre foi de R$ 1,655 bilhão, 12,9% menor que o mesmo período de 2008. Bendine pondera que essa cautela era natural, dado o ambiente de incerteza provocado pela crise financeira internacional. Mas diz que, a partir de maio, percebe-se a convergência da inadimplência a patamares mais próximo da normalidade, o que vai permitir que o banco amplie mais o crédito e recomponha a rentabilidade.

Bendine foi nomeado presidente do BB em abril porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava insatisfeito com a resistência do antigo titular do cargo, Antonio Francisco de Lima Neto, em reduzir spreads e ampliar o crédito em meio a um cenário econômico incerto.

A indicação de Bendine foi, no princípio, mal recebida pelo mercado financeiro, que receava ingerências políticas no BB. “Não tenho nem tive nenhum tipo de vinculação ou filiação partidária”, afirma Bendini, na entrevista. A seguir, os principais trechos.

Valor: A sua nomeação para a presidência do BB foi mal recebida pelo mercado. As ações do banco chegaram a cair 11%, embora tenham se recuperado. A que o sr. atribui essa repercussão?

Aldemir Bendine: Discordo que tenha sido mal recebida. Talvez tenha sido mal interpretada num primeiro momento. Nos dois primeiros dias, dada uma série de interpretações, que considero errôneas, houve queda nos preços das ações. A partir do terceiro dia, depois de eu ter feito uma conferência com os analistas de mercado, as ações têm se mantido em constante alta.

Valor: O mercado se preocupava com uma eventual politização do BB. O sr. tem vinculação com o PT?

Bendine: Nenhuma. Sou um funcionário com 30 anos de casa. Tenho uma carreira dentro do banco, com passagem nas mais importantes áreas. Subi os degraus naturalmente. Não tenho nem tive nenhum tipo de vinculação ou filiação partidária, nem agora nem ao longo de minha trajetória. É natural esse tipo de interpretação quando é feita a substituição no comando de uma empresa em que aproximadamente 70% do capital é do governo, em que o decreto de nomeação é do presidente da República. Mas não tenho vinculo partidário.

Valor: Outra preocupação é se o sr. vai se vincular mais aos interesses do governo do que aos dos acionistas, que esperam resultados.

Bendine: O que houve, na verdade, foi uma coincidência de visão e de postura. Sempre acreditei, ao longo de minha história no banco, que o principal componente do resultado é a intermediação financeira. O BB sempre foi um grande especialista em crédito. Para mim, a estratégia natural do banco é a alavancagem do crédito. Isso coincidiu com algumas interpretações (dentro do governo) de que o banco não vinha atuando de forma decisiva no crédito.

Valor: Haverá um compromisso formal de gestão com o governo?

Bendine: Não, não terá. De fato, assumi um compromisso com o ministro (da Fazenda, Guido Mantega), um compromisso moral de conduzir o banco para uma ação mais decisiva, mais pragmática.

Valor: Seria para reduzir os juros e o spread dos empréstimos?

Bendine: Não. Reduzir os juros e o spread é algo que já está dado, que faz parte de um processo econômico, das condições de mercado. Não é um processo exclusivo do BB e não se faz de forma artificial. Mas, ao aproveitar a nossa competitividade, que já existe, porque por tradição o BB pratica as menores taxas de juros do mercado, ao atuar de forma mais agressiva, vamos conquistar espaço, conquistar clientes. O movimento natural de defesa da concorrência é procurar se manter atrativo para manter os seus clientes. Então pode ser que, naturalmente, leve para uma redução do spread mais acelerada.

Valor: Ao mesmo tempo em que o sr. assumiu um compromisso com o governo de destravar o crédito, também assumiu com o acionista minoritário o compromisso de manter a rentabilidade. Como conciliar esses dois objetivos aparentemente conflitantes?

Bendine: Não acho conflitantes, acho convergentes. Quando você tem uma condição de queda do spread dada ao longo do tempo, a única forma para compensar a sua rentabilidade na intermediação financeira é com o aumento do volume de negócios. Há ainda espaço para crescer em áreas onde o banco não tem um volume compatível com o seu tamanho. Temos áreas novas para explorar e trazer resultado, notadamente no financiamento de veículos, financiamento imobiliário, cartões de crédito e, principalmente, seguridade.

Valor: Mas a redução da rentabilidade é um fato concreto. O resultado recorrente passou das casa dos 25% em 2008 para 19% em 2009, o que é o limite inferior da meta para o ano, definida entre 19% e 22%. Haveria espaço para continuar reduzindo o spread?

Bendine: A redução do spread foi dada, aconteceu, mas numa velocidade e num volume superior ao crescimento da carteira de crédito. A carteira de crédito não cresceu na mesma proporção.

Valor: Por quê?

Bendine: Veio um cenário de conservadorismo, consequência da crise. Essa equação não ficou bem equilibrada. A queda de spread não foi proporcional ao crescimento de crédito.

Valor: A restrição do crédito foi uma decisão gerencial equivocada?

Bendine: Era uma tendência natural, dada a crise, quando você tinha um ambiente de incerteza. Considerando que temos para frente um cenário macroeconômico com clareza um pouco maior, em que a gente enxerga que o país não está em uma situação tão agravada como se imaginava no início da crise, a gente vê uma possibilidade de evolução do crédito em uma velocidade muito maior do que a do primeiro trimestre. Notadamente, a partir de maio.

Valor: O resultado também foi afetado pelas provisões. O que houve?

Bendine: Talvez a gente não conseguiu, e isso vale para todo o mercado, e o BB especificamente, lidar com algumas questões que tiveram um impacto muito maior. Teve um leve descolamento da inadimplência, em função de um cenário de incerteza na economia, teve que trabalhar com um cenário de maior provisionamento.

Valor: Mas o que aconteceu com as provisões? A avaliação se mostrou equivocada?

Bendine: Foi um pouco de insegurança do ponto de vista do consumidor, em relação cenário de manutenção de emprego e renda. Mas o BB tradicionalmente tem a menor taxa de inadimplência do mercado e isso foi mantido. Inclusive esse descolamento (alta da taxa de inadimplência) no BB foi menor do que no mercado. O que a gente percebe é que voltou a um patamar mais próximo de normalidade.

Valor: O nível de provisionamento se mostrou exagerado para o cenário que houve mais tarde?

Bendine: Talvez um pouco.

Valor: Isso também teria afetado o resultado?

Bendine: Afetou, na medida em que você faz um provisionamento maior em relação a isso.

Valor: Como avançar no crédito sem abrir mão da segurança na avaliação de risco?

Bendine: Nossa técnica bancária e nossas regras na concessão de crédito estão mantidas e são rígidas. O que a gente vê como oportunidade não é alavancar crédito com empresas que já são tradicionalmente clientes. A gente vê espaço para buscar novos clientes que talvez não estejam tendo um atendimento que eles imaginam necessário para suas atividades.

Valor: O BB entrou no programa do governo “Minha Casa, Minha Vida”, que tem uma ênfase em baixa renda. Isso significa que o BB vai operar no segmento com menor margem sem ainda ter adquirido larga experiência no crédito imobiliário. Não seria uma estratégia perigosa?

Bendine: A gente entrou no crédito imobiliário já no ano passado e vem buscando esse aprendizado. Ao aderir ao programa “Minha Casa, Minha Vida”, não significa que estamos abrindo mão de atuar no segmento de maior renda. Essa política permanece. Naquela faixa de menor renda, não estamos entrando de forma decisiva porque essa é uma exclusividade da Caixa Econômica Federal. Estamos trabalhando no segmento acima de três salários mínimos. Nesse programa há uma oportunidade ímpar para financiar o produtor, a construção, o que é uma bela margem de negócio.

Valor: Outro programa de interesse do governo que o Banco do Brasil entrou é o financiamento de eletrodomésticos da linha branca. Mas é justamente esse segmento, nas estatísticas do Banco Central, que tem apresentado o maior aumento da inadimplência. Os riscos não seriam excessivos?

Bendine: Os bancos atuam normalmente em duas arenas no financiamento direto ao consumidor. Uma é o crédito a clientes do próprio banco, que têm um histórico, um relacionamento anterior. O outro é o financiamento do cliente não correntista, através de uma parceria com uma rede varejista, por exemplo. O histórico, o conhecimento desse cliente, o relacionamento, é um pouco menor do que aquele que é um cliente tradicional seu. No caso específico desse programa no BB, a gente criou uma linha voltada para o nosso correntista. Por isso que nós tivemos condições de colocar uma taxa bastante agressiva, acreditando numa demanda maior que vai existir em função da recente decisão do governo de reduzir o IPI para a linha branca.

Valor: No caso do cliente do BB, a inadimplência é menor?

Bendine: No dados do BC você não consegue separar isso. É natural que a inadimplência entre os não correntistas seja maior do que entre os clientes em que há um relacionamento anterior.

Valor: A compra de metade do Banco Votorantim devolveu a liderança do mercado ao BB, que foi perdida para o Itaú Unibanco?

Bendine: Deve-se tomar cuidado com esse tipo de afirmação. O Votorantim ainda não foi incorporado nos nossos ativos, até porque depende da aprovação do BC. Nas incorporações de bancos, como as recentes operações envolvendo bancos privados, ocorre uma sinergia negativa de ativos. Há uma sinergia positiva nos resultados, tarifas, receitas de serviços, mas nos ativos a sinergia é negativa.

Valor: Como assim?

Bendine: Ela ocorre, por exemplo, na exposição de crédito que os dois bancos têm com uma mesma empresa. O banco A, que é o controlador, já tem esse nível de exposição com a empresa. E verifica-se que o banco B também tem sua própria exposição a essa empresa. Ao trazer essas duas exposições à analise de risco de uma única instituição, a tendência é diminuir o grau de exposição. Então você tem uma tendência de ter uma redução nos ativos.

Valor: Há algum horizonte para o BB retomar a liderança?

Bendine: São duas variáveis: o crescimento orgânico (ampliar as operações do próprio banco) e o inorgânico (fusões e aquisições). O concorrente pode, a qualquer tempo, adquirir uma empresa. Essa é uma variável não controlável. Considerando só o crescimento orgânico, até o próximo ano o BB retoma a liderança.

Valor: O sr. tem repetido que a área de seguridade pode contribuir mais para o resultado do banco. Esta definida a estratégia?

Bendine: Por uma questão de acordo de confidencialidade assinado com parceiros ou interessados, não posso me alongar nessa questão. O que eu posso adiantar é que temos um modelo estabelecido no segmento de seguridade bastante diferente da concorrência, até por algumas características de um banco de sociedade de economia mista. O banco vinha com esse modelo há 15 anos e algumas alterações ocorreram nesse mercado. Por exemplo, a gente trabalha segmentado aqui no banco o ramo de vida do ramo de previdência, coisa que o mercado há muito tempo mostrou ser mais eficiente trabalhar isso no mesmo “business”. O banco tinha “n”, empresas que não estavam debaixo de uma “holding”. Então não havia ganhos de sinergia, havia “n” plataformas em cada uma das empresas.

Valor: O BB vai seguir sozinho na seguridade ou vai continuar com parceiros privados?

Bendine: Não posso falar. Tenho um acordo de confidencialidade e posso ferir compromissos com os meus parceiros se fizer comentários sobre isso.

Valor: As negociações para aquisição do BRB foram suspensas?

Bendine: Não tenho nenhum comunicado formal do governo do Distrito Federal ou do próprio BRB de que as negociações foram interrompidas. Soube de algumas declarações (que indicam a desistência do negócio), mas não tive ainda a oportunidade de estar com o governador. A gente tem uma agenda próxima marcada. Dada a troca de comando no BB e outros fatores extraordinários, talvez tenha tido alguma interrupção no cronograma, mas eu estou confiante que o cronograma siga o ritmo normal.

Valor: E no caso do Banestes?

Bendine: Esta dentro do cronograma, na fase de avaliação pelos dois lados. Ainda não estão concluídas

Valor: No fim do ano passado, o índice de Basiléia do BB caiu bastante, em virtude das aquisições. Esse pode ser um limite para ampliar o volume de crédito?

Bendine: Claro que, dado essas aquisições recentes, que reduzem o índice de Basiléia, isso vem se apertando. Mas a gente tem ainda uma folga que nos permite uma grande alavancagem em 2009. Mas a gente vai ter sim a preocupação de começar uma discussão sobre o patrimônio, sobre a estrutura de capital do banco para que a gente não fique refém de uma impossibilidade de maior alavancagem no próximo ano.

Valor: Quais são as alternativas?

Bendine: Pode ser aumento de capital, retenção de dividendos, divida subordinada e outros instrumentos. No devido momento, a gente vai conversar com o Tesouro Nacional e com a Fazenda para ver a melhor alternativa.

Valor: O BB tinha, antes da crise, um programa de internacionalização, que incluía atuar no varejo nos Estados Unidos. Esse projeto está mantido?

Bendine: Não só está mantido, como estamos fazendo uma revisitação sobre novas oportunidades, dado esse cenário que a gente vivenciou a partir de setembro. Não nos esqueçamos que ele tem também um lado voltado para a presença do brasileiro lá fora. Ainda temos um número expressivo de brasileiros no mercado americano, por volta de 1,5 milhão de pessoas. Então alí tem um nicho importante de alavancagem de negócios.

Valor: E a Visanet?

Bendine: Fizemos um pedido de registro na CVM, e é o máximo que eu posso falar porque estamos em um processo de oferta.

Valor: Vai ter alguma troca na presidência da Nossa Caixa?

Bendine: Eu desconheço.

17/04/2009 - 13:10h Comércio volta ao pré-crise e dá alento à indústria

Conjuntura: Vendas do varejo mostram que recuo na demanda foi muito inferior ao da produção

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Cibelle Bouças, de São Paulo – VALOR

O ajuste de estoques ocorrido nos últimos meses e a manutenção pelo comércio varejista do ritmo anterior à crise produziram um cenário que permite a recuperação da indústria a partir de abril. Dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, no conjunto, o comércio fechou fevereiro com um volume de vendas levemente superior ao desempenho de setembro (0,8% na série com ajuste sazonal, confirmando que a desaceleração no consumo foi muito menos intensa e mais lenta do que a ocorrida na indústria. Na mesma comparação, a produção industrial de fevereiro ainda foi 13,5% menor que a de setembro, no pré-crise, também na série livre de influências sazonais.

Esse descompasso confirma que a indústria foi muito mais afetada pelo baque nas exportações que pelo mercado interno. Entre economistas ganha força a perspectiva de uma recuperação lenta já no segundo trimestre, avaliação reforçada pelos indicadores conhecidos de março, como produção de automóveis, aço e papelão ondulado e consumo de energia. Essa retomada deve trazer junto a redução da distância entre os desempenhos de produção e consumo.

A Tendências Consultoria Integrada calcula que o índice de desempenho do comércio tenha alcançado 148,53 pontos no primeiro trimestre com ajuste sazonal e a produção industrial tenha atingido 108,24 pontos no mesmo período, também com ajuste sazonal. A diferença é de 40,29 pontos e supera aquela observada no quarto trimestre de 2008, de 28,84 pontos. O descolamento, afirma a economista Marcela Prada, resulta do ajuste de estoques, dado que as vendas no trimestre cresceram 0,7% na margem, sob efeito das promoções e do reajuste do salário mínimo. A indústria, por sua vez, encolheu 8,2%, influenciada sobretudo pelo baque nas exportações.

Analistas veem entre abril e junho a presença de fatores que favorecerão o desempenho das empresas. Entre eles, a inflação mais baixa e a absorção do reajuste do salário mínimo, que já impulsionaram as vendas do varejo em fevereiro. A progressiva queda no volume de importações – abrindo espaço para a indústria local – e o IPI reduzido para automóveis e outros segmentos são incluídos como elementos de estímulo à produção industrial.

De acordo com dados do IBGE, de setembro a fevereiro, o índice da produção industrial, com ajuste sazonal, baixou 22,09 pontos, saindo de 130,9 para 108,81 – queda de 13,5%. Já o comércio apresentou uma desaceleração lenta, recuperando o nível pré-crise já em fevereiro. No intervalo, o índice aumentou 1,2 ponto, para 150,76 pontos.

A recuperação do comércio, na média, mascara diferenças entre os segmentos. A recuperação está concentrada nas vendas de hipermercados e supermercados (alimentos, basicamente). Mas mesmo nos setores com fevereiro mais fraco que setembro, a queda é sempre muito inferior à indústria.

No segmento de bens duráveis, a disparidade entre o desempenho da indústria e do comércio foi mais evidente. No grupo equipamentos de escritório e informática, houve queda de 19% em produção e de 9% no varejo entre setembro e fevereiro. No setor automotivo, a produção caiu 31% e as vendas, 8%. O setor de móveis e eletrodomésticos registrou retração de 11% na produção e de 6% no varejo. Nas áreas de bens semiduráveis e não duráveis a diferença de desempenho foi menor. A produção dos setores têxtil, de calçados e vestuário teve queda de 10% a 13% entre setembro e fevereiro, enquanto as vendas no país recuaram 9%. O setor de alimentos cresceu 2,3% em produção e 5% em vendas entre setembro e fevereiro.

A melhora esperada para o próximo trimestre, porém, não altera as projeções de um PIB fraco ou negativo no ano. Ainda há dúvidas sobre os efeitos da desaceleração da renda nos meses seguintes e do fim do desconto tributário para veículos a partir de julho.

Para o segundo trimestre, Marcela Prada prevê recuperação da indústria, que termina o ajuste dos estoques e cresce 8,3% com ajuste sazonal. Para o comércio, a expectativa é de queda de 0,3% na margem, como reflexo da desaceleração da renda. “A indústria cresce neste trimestre, mas em ritmo lento pois ainda há setores com estoques acima do ideal”, afirma. Ela não descarta o risco de cortes no mercado de trabalho, sobretudo na área industrial.

O economista-chefe da Convenção Corretora, Fernando Montero, também elenca fatores que justificam as previsões de recuperação, como o ajuste de estoques concluído nos setores automotivo e de bens não duráveis, a recuperação nas vendas ampliadas do comércio e a queda das importações mais acelerada que as exportações. “No médio prazo, a indústria como um todo estará em patamar superior. Aí a questão será a demanda”, afirma Montero.

Entre fatores de favoráveis à expansão da demanda estão a expansão de 12% na massa de rendimentos nominais, a elevação em 20% dos gastos públicos federais, a inflação em queda e despesas fiscais contratadas para os próximos meses, cita Montero. Pesa contra os resultados divergentes divulgados pelas pesquisas de confiança. “Quanto mais tempo demora uma inflexão visível na produção, pior serão os desdobramentos sobre a confiança e o emprego. Em outras palavras, quanto mais tempo demora a retomada, mais lenta ela será”, pondera o economista.

Para Montero, preocupa a demora na recuperação de setores com grande peso na atividade econômica, como o caso do ramo siderúrgico. Pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) nessa semana apontou queda de 41,5% na produção de março e de 37,9% nas vendas ao mercado interno (superando a queda nas exportações, de 27,2%). “Alguns setores apresentam um ciclo de recuperação mais demorado, como o caso do aço”, observa o economista-chefe do Santander, Alexandre Schwartsman. A queda nas exportações do grupo de produtos metalúrgicos foi de 35% no trimestre, o que dificulta o reequilíbrio dos estoques pelas indústrias. “O efeito da queda das exportações já foi absorvido pela maioria dos setores industriais. Com os estoques normalizados, há espaço para uma recuperação mais forte no segundo semestre”, afirma. Ainda assim, diz Schwartsman, a produção industrial encerra o ano com queda de 5,5% sobre 2008 e recupera o nível pré-crise somente no primeiro semestre de 2010.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera precipitado afirmar que a indústria entra no ciclo de recuperação em abril. Em sua avaliação, a Páscoa em abril (em 2008 foi em março) pode mascarar em parte o resultado deste mês. Pesquisa do Serasa Experian apontou crescimento de 1,3% nas vendas do varejo na semana de Páscoa (6 a 12 de abril) em comparação com a mesma temporada em 2008 (de 17 a 23 de março). No Estado de São Paulo, as vendas cresceram 5% na mesma base de comparação, segundo a Associação Paulista de Supermercados (Apas). Na região metropolitana do Rio de Janeiro, o aumento foi de 10,4%, informou a Fecomércio-RJ.

O economista também considera que o salto na venda de automóveis verificada em março (de 36,1% sobre fevereiro) pode não se repetir – sem contar o risco de contração no mercado com o fim da redução do IPI após junho. “Para o resto do varejo basta ver o aumento da inadimplência nas estatísticas para mostrar que a situação no comércio está complicada”, afirma. O Indicador Serasa Experian de Inadimplência de Pessoa Física apontou alta de 22,6% em março sobre fevereiro. No trimestre, o incremento foi de 11,4%.

Outro ponto de interrogação à recuperação definitiva da indústria é a efetividade do pacote americano para estimular o crescimento no segundo semestre, na avaliação do economista Douglas Uemura, da LCA Consultores. “O pacote fiscal americano tem um impacto positivo, mas ainda não está claro se será suficiente para reverter o atual ciclo de crise”, avalia.

Uemura é menos pessimista, porém, no que se refere aos riscos ao comércio. Ele observa que o spread bancário para pessoa física teve um forte salto, saindo de 35% em meados de 2008 para 45% em dezembro, o que afetou o nível de inadimplência. Mas até fevereiro o spread baixou para 41,5% e sinaliza quedas futuras, com a redução da taxa básica de juros (Selic). “A recuperação nas vendas de automóveis são reflexo da melhora na oferta de crédito e da redução do spread bancário”, afirma o economista, para quem comércio e indústria começam a recuperar perdas passadas a partir de abril. Para o ano, ele prevê expansão de 3,6% no comércio e queda de 2,4% na produção industrial.

10/04/2009 - 09:45h A política e o Banco do Brasil

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Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

A demissão do presidente do Banco do Brasil, Antônio Francisco de Lima Neto, apenas por ele não ter cumprido a contento a determinação do acionista majoritário (o Tesouro Nacional) de derrubar os juros e o spread, encerra um punhado de equívocos. (Spread é a diferença entre o que o banco paga e o que cobra pelos recursos com que trabalha.)

O primeiro desses equívocos está em imaginar que, se o Banco do Brasil passar a praticar juros e spread substancialmente mais baixos, levará o mercado automaticamente a operar também a juros e spreads mais baixos. O Banco do Brasil não tem toda essa força. É, de fato, um bancão com boa densidade financeira, mas não detém mais do que 17,1% do mercado interno de crédito.

O segundo equívoco é o de imaginar que basta querer para poder. Juros e spreads altos são velhos de guerra no Brasil. Estão lá em cima por muitas razões bem conhecidas e outras menos conhecidas. Não vai ser apenas um ato de vontade política que será capaz de endireitar um pepino torto de nascença.

A derrubada do spread implica outras providências: queda do empréstimo compulsório a que estão submetidos os bancos, redução de impostos e taxas, compressão dos custos operacionais das instituições financeiras e baixa da inadimplência. (Veja no gráfico a composição do spread.) Ainda que a nova direção determine uma redução artificial dos juros e do spread, dia virá em que o Banco do Brasil não conseguirá mais enfrentar a parada sozinho.

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Um grande número de observadores argumentou que, por ser sociedade de economia mista, o Banco do Brasil teria de se ater ferreamente a uma administração técnica e que seus critérios de governança não poderiam estar submetidos a uma política de governo.

Mas um banco oficial tem, sim, certas funções políticas. Uma delas é mesmo a de ajudar o governo na quebra do oligopólio bancário existente no Brasil. É mais ou menos a função de uma empresa estatal de transporte público (caso da antiga CMTC em São Paulo), que tem por obrigação atuar de forma a facilitar o bom funcionamento das concessionárias privadas.

O erro aí não está em impedir que um banco público tenha uma governança racional. Está em deixar que seus resultados e seu balanço patrimonial se deteriorem por estar executando uma política que, em princípio, provoca prejuízos à instituição. As autoridades podem entender que o Banco do Brasil deva distribuir créditos subsidiados ou a juros favorecidos porque essa prática pode ser essencial para o cumprimento de determinado objetivo de governo. Mas, nesse caso, não podem deixar que a hemorragia leve o banco ao colapso; têm de prover a instituição com os recursos públicos previstos em orçamento em volume tal que “indenizem” o banco pelos custos ou pela perda de rentabilidade que decorram dessa política.

Falta examinar a reação da oposição à determinação do governo de substituir o presidente do Banco do Brasil. Foi um vexame atroz. Tão logo se espalhou a informação, saiu a atacar o governo por indícios de corrupção e desvios de recursos sem que, em nenhum momento, isso tenha sido a razão principal, ou mesmo algo significativo no episódio. Enfim, essa é a qualidade da oposição que temos por aqui.

Leia a integra da coluna de Celso Ming no jornal O Estado SP

09/04/2009 - 10:43h “Spread” bancários: transparência é um clamor nacional

Clique no artigo do jornal O Globo para ampliar

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09/04/2009 - 09:56h Sob nova direção, BB continua a prática de boa governança e de profissionalismo

A maneira em que a substituição do presidente do Banco do Brasil tornou-se pública provavelmente explique a queda no preço das ações do banco, mas rapidamente elas voltarão a uma situação normal. É ao menos o que explica o relatório elaborado pelo Bank of America Merill Lynch e penso que esteja certo.

Os jornais repercutiram temores de “ingerência política” no banco. Estes “temores” não se manifestaram, porém, quando o governador José Serra pediu para o Banco do Brasil comprar Nossa Caixa e ele poder ganhar recursos para melhor alavancar sua ambição presidencial. É quase cômico ver agora a oposição proclamar: “não é bom para o país que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, os dois principais bancos públicos brasileiros, realizem negócios sem licitação com instituições financeiras, empresas do ramo de seguro, previdência e capitalização, como vem acontecendo” (Nota do PSDB, DEM, PPS sobre a troca no BB). Porque não cobraram “licitação” para a venda da Nossa Caixa pelo governador Serra?

Uma parte dos que expressam esses “temores” está entre os que regularmente exigem a ingerência política do presidente Lula para obrigar o Banco Central a abaixar a taxa Selic a um ritmo mais brusco. Recentemente o presidente do PSDB, Sérgio Guerra e o próprio aspirante ao planalto, José Serra, questionaram a própria autonomia operacional do Banco Central. Outros pediram a demissão sumária de Henrique Meirelles. Ninguém falou em ingerência política.

Em fim, quando as autoridades americanas dizem que não hesitarão a intervir e até estatizar os próprios bancos privados, para assegurar o saneamento do setor e evitar uma recessão ainda maior, ninguém viu nada de mais visto os problemas a resolver por lá.

Outro aspecto da troca de comando no BB parece concernir o “spread” praticados pelos bancos, objeto de debate nacional, pois a medida em que a queda da taxa de juros se acelera é o peso desse “spread” que contribui a secar o crédito e a diminuir a liquidez para as empresas. A gritaria -amplamente justificada- contra tamanhas taxas, parecia generalizada. Bastou a mídia apurar que o descontentamento também atingia os bancos públicos e que o governo federal não ficaria passivo perante esta exigência razoável, para os que mais vociferavam falem agora em “ingerência política”.

O Banco do Brasil teve em 2008 um dos maiores lucros do setor bancário (R$8,8 bilhões). Em dezembro, dois meses após a crise internacional bater com força no Brasil, o BB aumentou seus juros enquanto o BC abaixava os seus. Precisamente quando a gritaria contra o BC e os bancos era ensurdecedora e a necessidade de liquidez das empresas era angustiante.

Na capa do jornal VALOR está afirmado: “Na origem da substituição de Antônio Francisco Lima Neto por Aldemir Bendine, até então vic-presidente de Novos Negócios do BB, esteve a resistência do ex-presidente em reduzir os juros nos empréstimos do banco para não comprometer os resultados da instituição.”

Sejamos lógicos, se reduzir o “spread” que os bancos cobram nos empréstimos fosse comprometer seus resultados, então esses “spread” não são escorchantes ou abusivos. Eles estariam na taxa normal, para evitar comprometer os resultados dessas instituições. A FEBRABAN ficará feliz de contar com o apoio entusiasta dos que até pouco diziam ser uma verdadeira pratica de usura as taxas praticadas pelos bancos.

Se ao contrário, a resistência dos bancos em abaixar suas taxas para preservar seus lucros cada vez maiores graças a pouca concorrência no setor e aos juros praticados, deve ser refreada; abaixar os juros dos bancos públicos constitui uma alavanca essencial para introduzir a libre concorrência e o libre mercado no sistema bancário brasileiro.

Mas o Banco do Brasil converteu-se quase no principal álibi dos bancos privados, que alegavam com razão que se o próprio banco administrado pelo governo federal aumenta seu “spread” é porque qualquer redução seria contrária a realidade do mercado. Com a queda da taxa Selic, hoje com o menor juro real dos últimos 20 anos, o álibi dos banqueiros dificilmente se sustenta.

O presidente Lula deu provas sobradas de seu pouco apego a práticas dirigistas e intervencionistas. Seu compromisso com o povo brasileiro é garantia do respeito aos contratos, a boa governança das instituições para-públicas e da autonomia operacional do Banco Central, chave da estabilidade do sistema financeiro brasileiro.

A troca de comando no BB não muda absolutamente nada a estes compromissos fundamentais e permitirá seguramente que o país continue enfrentando os efeitos da crise externa com a força que o mundo inteiro reconhece. Um Brasil no rumo certo.

Luis Favre

05/04/2009 - 10:59h ”Queda do juro é para toda a economia”

http://www.revistafator.com.br/imagens/fotos/henrique_meirelles

 

 

Ricardo Grinbaum e Leandro Modé – O Estado SP

 


O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, tem um recado para a sociedade que, à primeira vista, pode soar estranho: a redução da taxa de juros pode incomodar. “Não podemos ter queda para empréstimos e, ao mesmo tempo, dizer que não pode haver queda em alguns investimentos”, diz. “A queda dos juros no Brasil, em ocorrendo, tem de premiar toda a economia.” Em outras palavras, o mundo de rentabilidades altas sem muito esforço ficará na lembrança se os juros continuarem a cair fortemente, como indicam hoje os mercados futuros e as projeções de analistas. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC avisou que a remuneração da caderneta de poupança – TR mais 6% ao ano – é um empecilho à derrubada da taxa básica (Selic). Meirelles conversou com o Estado na sede do BC em São Paulo.

A última ata do Copom apontou que a poupança é um limitador para a queda dos juros. Como mexer em tema tão sagrado para o brasileiro comum?

Em primeiro lugar, temos de separar o que é o pequeno poupador, que não tem conhecimento do mercado financeiro, dos grandes investidores. A segunda questão é que a sociedade brasileira está aguardando por muitos anos uma queda dos juros. Temos de ser consistentes com a queda dos juros. Não podemos ter uma queda para empréstimos e, ao mesmo tempo, dizer que não pode haver queda em alguns investimentos. A queda dos juros no Brasil, em ocorrendo, tem de premiar toda a economia.

É possível preservar o pequeno poupador e mexer com o grande?

Não há, ainda, nenhuma decisão tomada.

Mexer na TR (taxa referencial, usada no cálculo da remuneração da caderneta de poupança) é uma possibilidade?

Pode ser uma solução, dependendo da evolução no longo prazo. A longo prazo, temos um limite que é o rendimento real de 6%. Essa é uma questão que, cedo ou tarde, terá de ser encaminhada.

O brasileiro está preparado para conviver com uma rentabilidade de suas aplicações bem mais baixa do que até agora?

Esse é o desafio. Espero que daqui a pouco o BC não comece a ser criticado por manter juro muito baixo. Uma das coisas que muitas vezes algumas pessoas não gostam que se diga, mas é realidade: é a primeira vez em décadas que o BC pode, numa crise, baixar os juros para estimular a economia. Não temos mais de estar preocupados com vulnerabilidades. É um ganho do processo de estabilização da economia.

Que fatores permitiram isso?

Em primeiro lugar, uma inflação consistente com a trajetória de metas nos últimos anos. Em segundo, a diminuição da relação dívida pública/PIB. Em terceiro, acumulação de reservas, que eliminou a vulnerabilidade cambial. Em consequência disso, o País se tornou credor líquido, o que permitiu ao Tesouro ter ganhos fiscais com a desvalorização do real.

Desses quatro fatores, três estão diretamente ligados à atuação do BC. Por que, então, o BC é tão criticado no Brasil?

Não sei. Talvez seja um fenômeno de comunicação. Não sinto essa crítica conversando com as pessoas nos restaurantes, nas ruas, nos aeroportos. Sinto hoje um reconhecimento muito grande da população. O que acho que existe são setores da liderança empresarial e políticos que elegem o combate aos juros como algo que seja um tema desejável e constante. A verdade é que assumimos com uma Selic a 25% e hoje está em 11,25%.

Preocupa a volta da inflação quando o País voltar a crescer?

A inflação, com política monetária mal conduzida, pode voltar em qualquer país a qualquer momento.

Por que demorou tanto para o juro cair no Brasil?

Se olharmos o que caiu nos últimos anos, não foi uma queda tão lenta. Foi uma velocidade razoável. Saímos de 14% (em termos reais) em 2003 para 5% hoje. É uma queda rápida. O fato de ter demorado tanto tempo até iniciar esse processo de queda está relacionado aos antigos fatores de vulnerabilidade da economia.

O BC tem manifestado preocupação com o spread bancário. Os bancos dizem que não dá para baixar o spread (diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o juro cobrado do cliente) sem reduzir impostos. Têm razão ou é choradeira?

O aumento de spreads foi mundial, principalmente a partir do episódio Lehman Brothers. Há uma série de componentes, como o aumento do risco. Acredito que, com as medidas já tomadas, devemos voltar aos níveis em que estávamos antes de iniciar esse processo. A partir daí, podemos discutir questões estruturais.

O spread brasileiro é o mais alto do mundo porque o juro brasileiro é o mais alto do mundo?

Não. Tivemos no período recente quedas da Selic com aumento forte dos spreads. Os fatores são outros e muitos serão encaminhados.

O cadastro positivo (banco de dados de bons pagadores que poderia ser usado por todos os bancos e lojas) enfrenta resistência no Congresso. De quem?

Há diversas resistências, algumas explícitas, como das associações de defesa do consumidor. Isso foi negociado, explicado e está diminuindo. Há outras resistências. O relevante é a consciência de que o cadastro positivo hoje é importante, o que fará com que seja aprovado num futuro próximo.

Os bancos estão ajudando ou estão resistindo?

Não acompanho o dia a dia do Congresso para dar uma resposta precisa sobre isso. Os presidentes de bancos com quem converso me asseguram que são favoráveis.

Nos últimos anos, houve um enorme aumento da concentração bancária. É um problema?

Existem países que têm um número pequeno de instituições financeiras, que são muito competitivas. É isso que precisamos criar no Brasil. Portanto, bancos públicos, bancos pequenos e médios crescendo, cadastro positivo, mais transparência, tudo isso ajuda.

Falta competição ao sistema financeiro nacional?

Não gosto de frases definitivas. Acho que existe uma boa competitividade no sistema financeiro nacional, mas temos uma realidade de spreads elevados. Portanto, aumentar essa competitividade via bancos pequenos e médios, cadastro positivo e uma ação mais forte do mercado é algo saudável para o País.

No pior momento da crise, houve risco de quebra de banco aqui?

Não houve risco no sentido de que o BC, naquele momento, colocou disponível ao mercado bancário o mecanismo do redesconto. Além do que, tínhamos R$ 260 bilhões em compulsórios. Se o BC não tivesse sido autorizado pelo Congresso e pelo presidente a fazer o redesconto, se não tivéssemos os compulsórios, poderíamos ter tido uma crise sistêmica.

O sr. trabalhou muitos anos nos EUA. Como teria lidado se estivesse à frente de um banco quando os produtos que provocaram a crise eram oferecidos no mercado?

Não fiz e não teria feito. Sempre achei essas operações muito arriscadas. Nunca concordei e mais: até aquele momento, achava que era algo peculiar meu por ter vivido em um país que tinha tido tantas crises. Isso mostra que crises financeiras não são peculiaridade de emergentes. Excesso de risco leva a excesso de perda. Uma das conclusões, hoje, é que a regulação deve ser diferente.

O que está na origem dessa crise?

Na última década, a globalização, a tecnologia e a deflação chinesa de produtos exportados permitiu que a política monetária americana fosse acomodatícia e sinalizou que os juros continuariam baixos. Isso levou os tomadores de empréstimos a assumir riscos partindo do pressuposto de que não havia risco macroeconômico. Isso mostrou não ser real. Esse tipo de política monetária foi uma lição que não deverá continuar.

O ano começou ruim, como tem mostrado a produção industrial. Como imagina que terminará?

Nossa previsão de crescimento é de 1,2% para o ano. Em relação à produção industrial, é importante notar que o processo de desestocagem foi liderado pela indústria automobilística, que já está em forte recuperação. Em seguida, bens duráveis, que também já estão em recuperação forte. Mas foi seguido por outras partes da cadeia produtiva. A partir do segundo trimestre, teremos uma visão mais clara, que mostrará a recuperação.

O que esse 1,2% representa ao longo do ano?

Certamente um país em expansão no fim do ano. O crescimento começará a ficar claro no segundo trimestre. Infelizmente, o PIB do segundo trimestre só será conhecido em setembro. Mas alguns dados setoriais serão conhecidos antes disso.

O Brasil pode ter recessão técnica antes desse crescimento?

Não fazemos previsão de PIB trimestral. Dito isso, se ocorrer, será um dado significativo que não muda esse quadro, pois temos um carry-over (carregamento) negativo importante considerando-se a queda no quarto trimestre, muito concentrada em dezembro.

Os números vão piorar antes de melhorar?

Não acredito que piorem. O vale foi de fato no quarto trimestre do ano passado.

A que o sr. atribui a queda tão violenta da economia?

Foi uma conjugação de fatores. Em primeiro lugar, o que de fato não era previsível foi a quebra do (banco) Lehman Brothers. A partir daí, houve uma paralisação – temporária, mas aguda – do sistema financeiro internacional, que atingiu o mundo todo. O crédito global foi dramaticamente reduzido. Isso levou a uma reação em cadeia das corporações globais, que tomaram decisões de redução de estoques e de centralização de caixa. Isso gerou, juntamente com o efeito dos mercados, um processo global de desestocagem sincronizada. Houve efeitos em cadeia em todos os países.

Muitos criticam o BC por não ter reduzido o juro em dezembro.

As avaliações que temos são de que o movimento do BC foi bem-sucedido. O que influencia de fato a atividade econômica é a taxa de juros de mercado. A mensagem e a decisão do BC (em dezembro) fizeram as taxas do mercado a termo caírem a partir daquele momento. Evidentemente, também pesou o decréscimo da atividade, mas o que prevaleceu foi a confiança em que o BC estava no controle do processo e não tomaria nenhuma medida que pusesse em risco a estabilidade dos preços. O fato concreto é que temos hoje a menor taxa de juros reais da história.

Daria para evitar essa forte queda da economia brasileira?

Quem disser que previa a queda do Lehman Brothers não está dizendo a verdade. Portanto, ter tomado medidas partindo do pressuposto de que o Lehman ia quebrar seria muito arriscado. O movimento foi extraordinariamente sincronizado no mundo por causa da globalização financeira, do comércio e do processo de tomada de decisões. Portanto, em alguns momentos, querer se descolar do mundo, como fizemos no passado, pode ter consequências graves e negativas. Podemos substituir uma crise externa de curta duração por uma interna de longa duração. O Brasil está na direção certa.

O que o atrai na vida pública? A vida de executivo de banco não era mais confortável?

Não há dúvida de que a vida de um executivo do mercado internacional oferece vantagens importantes do ponto de vista de tranquilidade pessoal. De outro lado, administrando um banco que tinha presença em 32 países e acompanhando esses países muito tempo, tinha ansiedade grande de poder aplicar tudo isso que vi acontecer no Brasil. Nesse aspecto, me sinto gratificado.

Muitas reportagens ao longo dos anos diziam que o sr. ia cair…

Há uma falta de hábito de muitas pessoas de ter um BC comprometido com a estabilidade de preços. Depois de décadas de desequilíbrio financeiro, é um processo que causa estranheza muitas vezes. Mas os resultados estão aí.

Se depender da sua vontade, o sr. deixa o BC em 31 de dezembro de 2010?

Vamos aguardar. Agora, estou focado no BC.

22/03/2009 - 11:06h ”A economia não está descendo a ladeira”

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Roberto Setubal: presidente do Itaú-Unibanco; presidente do maior banco brasileiro afirma que o País evitará a recessão em 2009 e vê indícios de que o pior já passou

 

Leandro Modé e Ricardo Grinbaum O Estado SP

 


Em meio ao terremoto que sacode o mercado financeiro mundial, o sistema bancário brasileiro tem exibido uma solidez que, segundo analistas, evitou que os efeitos da crise aqui fossem ainda mais drásticos. Essa situação privilegiada ante os concorrentes internacionais fez com que bancos brasileiros fossem alvo de rumores sobre potenciais aquisições em outros países nas últimas semanas. Nesse quesito, destaca-se o Itaú-Unibanco. Fruto da maior fusão bancária da história brasileira, a instituição é de longe a primeira do ranking no País, com R$ 632 bilhões em ativos. À frente do conglomerado está Roberto Setubal, que desmente negociações para expansão além das fronteiras nacionais. “A prioridade, neste momento, é fazer a integração do banco”, disse em entrevista ao Estado. Cauteloso, ele não se arrisca a dizer que o pior da crise passou. Em compensação, diz não acreditar em recessão no Brasil este ano. “Vejo crescimento próximo de zero, que já é positivo dada a queda do último trimestre do ano passado.”

O governo prepara um pacote para reduzir o spread bancário. De quem é a responsabilidade pelos spreads altos?

Essa agenda tem de ser pensada tecnicamente. O spread é alto por várias razões. Temos a taxa de juros, os compulsórios e a inadimplência mais elevados do mundo, além de altos impostos na intermediação financeira. Evidentemente, a decorrência disso tudo é termos o maior spread do mundo. Devemos, portanto, atacar cada um desses pontos.

Há uma avaliação no governo de que a competição bancária é baixa no País. Caixa e Banco do Brasil têm sido forçados a reduzir os juros para, com isso, induzir o restante do mercado a fazer o mesmo.

Essa é uma crítica injusta com o sistema financeiro. Se analisarmos os vários setores da economia, diria que o setor bancário é um dos que mais têm competição, se não for aquele onde a competição é maior. De qualquer forma, é possível ampliá-la criando condições mais adequadas, como mais transparência. O governo tem parcela significativa do crédito no Brasil, se levarmos em conta as instituições que controla. Justamente por isso, conhece as dificuldades. Portanto, reduzir o spread não é questão de vontade. Há uma questão técnica que precisa ser equacionada.

Há essa disposição no governo de fazer Caixa e BB reduzirem o juro.

Entendo a intenção do governo de manter uma oferta de crédito grande para reativar a economia. De outro lado, tenho certeza de que ninguém quer criar uma crise bancária, não vai fazer loucura. Muito menos os bancos privados. Em primeiro lugar, temos de zelar pelos recursos dos depositantes. Não devemos, de forma nenhuma, criar uma situação que fragilize essa condição.

O que pensa sobre a remuneração da poupança?

No Brasil, temos uma distorção que já vem de mais de 20 anos: a caderneta de poupança é isenta de impostos e tem um nível de juros básicos relativamente elevados para a economia mundial. Se queremos juros mais baixos, de alguma forma teremos de rever a remuneração da poupança. Há várias possibilidades. Temos de ficar muito atentos para evitar questionamentos jurídicos sobre a mudança. A forma que me parece mais adequada para enfrentar o problema neste primeiro momento seria introduzir o Imposto de Renda nas aplicações de poupança acima de um determinado valor, digamos R$ 100 mil, R$ 200 mil. Se pegarmos esse valor, provavelmente 99% dos poupadores continuarão isentos.

Sempre se disse que, quando os juros caíssem no Brasil, os bancos iam ter problemas.

Temos juros elevados há muitos anos. Sempre disse que, como em qualquer lugar do mundo, os bancos sobrevivem com qualquer nível de juros. O que muda é a dinâmica de resultados, a formação das receitas. Os bancos têm de ser flexíveis para se adaptar a isso. Vejo o Itaú-Unibanco preparado para juros menores.

Qual o cenário do juro para o fim do ano?

Pode chegar a 9% ou menos. No futuro, teremos de sentir como a economia reage, mas creio que está madura para um juro abaixo de 10%.

Vocês veem recessão no Brasil?

Não. Vejo neste ano um crescimento próximo de zero, que já é um número positivo dada a queda do último trimestre do ano passado. Podemos ter crescimento neste primeiro trimestre, o que seria uma surpresa positiva. Alguns indicadores estão reagindo bem, como o consumo de energia. A economia dá sinais de que encontrou um piso. Vários indicadores mostram que a economia não está descendo a ladeira.

O pior já passou?

É possível que sim. Não dá para fazer essa afirmação, mas já há indícios de que talvez tenhamos atingido o fundo do poço.

E lá fora?

É uma situação bem diferente. A crise é muito grave. O que ocorreu no sistema financeiro dos países desenvolvidos foi de uma dimensão inesperada. Levará três, quatro anos para que o PIB de EUA, Europa e Japão retorne aos níveis anteriores. Independente disso, a economia brasileira pode retomar o crescimento em 2010 – 3% é um nível bastante razoável.

O Citigroup e o Bank of America (BofA) vão sobreviver?

Sobreviverão. Claramente, o governo americano está dando todo apoio para que sobrevivam. Pela dimensão que ambos têm no mundo, é importante que esse apoio continue sendo dado.

Como vê a possibilidade de estatização desses bancos?

O fato de o governo americano ter colocado capital dentro desses bancos não significa que a intenção seja administrá-los, que são instituições muito complexas. A intenção do governo é reequilibrar o sistema financeiro e se livrar desse problema. É muito mais apagar um incêndio.

Isso resolve o problema? Há quem diga que pode virar um novo Japão (que demorou anos para resolver problemas e, por isso, enfrentou longa estagnação econômica).

O governo caminha para um caminho e alguns analistas apontam para outros. Vimos, nesta semana, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) injetar mais recursos na economia. Finalmente, estamos vendo propostas e soluções à altura do problema. Podemos estar começando a ver o início do fim da crise financeira, o que significa que o governo conseguirá estabilizar o sistema financeiro. Com isso, podemos ter a expectativa de ver a retomada do crescimento econômico daqui a alguns anos.

Como o sr. avalia uma estatização temporária dos bancos?

Sou pragmático. Não defendo nem ataco. Se essa for a melhor solução, tem de fazer o que é melhor para o país.

Se o Itaú-Unibanco operasse nos EUA, faria as mesmas operações que causaram esses problemas?

Seria muito fácil dizer não e eu sairia bem na fotografia. Dadas as condições do mercado, faríamos alguma coisa. Provavelmente não na intensidade que alguns bancos fizeram. Certamente não teríamos sido agressivos no mercado. Mas, quando se está inserido em um mercado, você não vê os riscos. Então, é muito difícil dizer que sairíamos incólumes. Não é razoável dizer isso.

É difícil ver o concorrente ganhar dinheiro com aquilo e não seguir o mesmo caminho.

Não é só isso. Além das perdas diretas pelo envolvimento na questão do subprime, há as perdas indiretas. Todos os bancos perderam. Nenhum banco tem anunciado crescimento dos resultados. O Itaú-Unibanco seria menos atingido.

Em que momento vocês perceberam que havia uma exuberância irracional lá fora?

Olhando hoje, o mercado em geral, e o próprio Fed, percebia que havia algo errado. O Alan Greenspan (ex-presidente do Fed) falou alguns anos atrás em exuberância irracional. Mais recentemente, apontou para o “conundrum”, um mistério relacionado aos spreads de longo prazo muito baixos. Tudo isso sinalizava que havia problemas. Ninguém sabia exatamente onde, mas havia indícios de que algo estava fora do lugar. Quando começaram a aparecer os problemas com mais gravidade, em 2007, as pessoas foram se dando conta do tamanho. A dimensão que tomou foi totalmente inesperada.

Disse-se que o financiamento de veículos foi o subprime brasileiro.

Não tem nada parecido aqui. No Brasil, vamos assistir a um aumento da inadimplência, mas nada como nos EUA. Estamos mais acostumados a flutuações. Vamos ver um ciclo novo de crescimento da inadimplência. Mas os bancos estão preparados para absorver essa onda. Até porque, no Brasil, não vejo a economia entrando em recessão profunda.

Há um expressivo aumento da inadimplência entre as empresas pequenas e médias, atribuído, em grande medida, à falta de crédito.

Não falta dinheiro. A demanda de crédito sobe quando o PIB está crescendo. Quando cai, ocorre o oposto. Além disso, com mais incerteza, os bancos ficam mais seletivos na concessão de crédito. De qualquer modo, quando olhamos o volume de crédito na economia, há um aumento. O próprio Itaú, no último trimestre (de 2008), aumentou em mais de 6% o volume de crédito ofertado. Neste primeiro trimestre, cresceram nossos empréstimos para pequenas empresas. E é uma época, sazonalmente, mais fraca.

A ideia do governo de comprar participação em bancos pequenos e médios preocupa?

A preocupação do governo é ter a possibilidade, caso algum banco tenha dificuldades insuperáveis, de absorvê-lo por um de seus bancos.

O Itaú-Unibanco já é o maior banco do País. Qual a próxima meta?

Integrar os dois bancos.

E as especulações sobre o mexicano Banamex?

Nossa prioridade, no momento, é fazer a integração do banco. É um mega esforço integrar duas empresas desse tamanho. Estamos muito focados. Essa etapa vem antes de qualquer outra coisa. Não fizemos a fusão para ter o banco maior, mas o mais forte, com mais capacidade até para fazer aquisições fora do Brasil.

Não tem um monte de bancos baratos no mercado hoje?

Banco barato, normalmente, é banco ruim. Queremos banco bom. Não vejo a possibilidade de tomarmos risco para comprar algo incerto. A crise é longa e as oportunidades não vão desaparecer rapidamente.

O Itaú-Unibanco tem cerca de 100 mil funcionários. Muitos estão aflitos com a possibilidade de demissões. O que o sr. diz a eles?

Não vamos fechar agências, vamos até continuar expandindo os negócios em algumas áreas. Pelo natural turnover (rotatividade) da organização, vamos ter condições de fazer as reduções inevitáveis de uma forma natural, no tempo e sem pressão. Evidentemente, isso vai exigir um esforço interno de transferência de funcionários de uma área para a outra, retreinamentos. Estamos dispostos a fazer isso.

Quem é:
Roberto Setubal

É presidente executivo do Itaú-Unibanco, o maior banco brasileiro por ativos

É formado em Engenharia pela Universidade de São Paulo e tem pós-graduação pela
Universidade Stanford

Presidiu o Banco Itaú entre 1994 e novembro passado. Foi treinado durante anos para exercer a função