22/04/2008 - 10:07h Aginflação e biocombustível

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Antônio Márcio Buainain* - O Estado de São Paulo

Nesta temporada de final de campeonatos estaduais vem à mente aquela imagem da bola roubada quando o gol já estava praticamente feito para caracterizar a polêmica global sobre inflação de alimentos, que coloca o biocombustível - visto até então como uma virtuosa contribuição para reduzir o aquecimento global e como alternativa para a escassez do petróleo - no papel de vilão. As declarações de personalidades mundiais (“o biocombustível é crime contra a humanidade”, Jean Ziegler, consultor da ONU; “é problema moral”, Strauss-Khan, diretor-geral do FMI) indicam o potencial explosivo do debate, cujos efeitos sobre o futuro deste promissor segmento não podem ser negligenciados.

É possível contra-atacar afirmando que “problema moral” é manter o “bolsa-vaca”, que distribui em média US$ 3,50 por dia às vacas européias, enquanto 75% da população africana vive com menos de US$ 2 por dia, e que “crime contra a humanidade” é praticar políticas protecionistas que impedem o desenvolvimento dos países mais pobres, ou destinar bilhões de dólares a guerras com pretextos mentirosos. Ainda que válidos, é provável que esses argumentos encontrem ouvidos de mercador pelo mundo afora e não sejam suficientes para evitar os efeitos negativos imediatos sobre o negócio do biocombustível.

Os fatos são relativamente claros. Os preços das commodities já se vinham elevando desde 2002, em resposta, antes de tudo, à elevação da demanda associada às mudanças estruturais na geografia comercial, à conjuntura favorável da economia mundial e ao crescimento da renda nos países em desenvolvimento. Outros fatores, como a elevação do preço do petróleo - insumo básico para a cadeia da produção e comercialização de alimentos - e a instabilidade financeira, também contribuíram. Só a partir de em 2006, e de forma mais forte em 2007, a demanda de grãos para a produção de biocombustível nos EUA e na Europa entra para reforçar a tendência de alta.

Tradicionalmente a oferta agrícola responde quase de imediato aos estímulos de mercado. A evolução recente da oferta mundial não acompanhou o ritmo da demanda, devido, entre outras razões, à incerteza que caracteriza o mercado agrícola mundial, sujeito a forte protecionismo e suscetível à influência das políticas americana e européia. Uma simples decisão da política agrícola dos EUA ou da União Européia pode mudar radicalmente o mercado, a favor ou contra, como comprova a decisão de produzir biocombustível de grãos. A agricultura moderna exige investimentos relevantes dos produtores e dos países. Como investir sem garantias de acesso aos mercados, sem recursos fiscais e sem financiamento internacional? O economista brasileiro Otaviano Canuto, vice-presidente executivo do BID, já tinha chamado a atenção para a seriedade da agflation e da assimetria dos impactos sobre a balança comercial, inflação doméstica e pobreza dos países da América Latina e do mundo (Global agflation, energy security and bio-fuels, in www.rgemonitor.com).

Também é fato claro que o vínculo entre aginflação e biocombustível se deve à decisão americana de produzir etanol a partir de grãos, e que pouco ou nada tem que ver com a produção brasileira à base de cana-de-açúcar. Ao contrário do que ocorre no EUA, a produção do etanol no Brasil vem crescendo juntamente com a de grãos e alimentos em geral. O dinamismo do agronegócio brasileiro contribuiu para conter a elevação de preços, que teria sido maior sem soja, carne, milho, açúcar, algodão e frutas brasileiros.

Os fatos precisam ser analisados e discutidos exaustivamente. Mas não é suficiente. Aqui estamos diante da “dimensão político-cultural dos mercados”, cuja importância o sociólogo Ricardo Abramovay, professor da USP, ressalta ao analisar o papel da ciência e das inovações tecnológicas (Bem-vindo ao mundo da polêmica, jornal Valor, 1º/11/2007). A racionalidade econômica e verdades científicas precisam ser sancionadas pela sociedade para se afirmarem como inovações e romperem paradigmas. E para isso uma comunicação adequada - não confundir com propaganda - é muito importante. O estrago está feito. Basta ver a imprensa européia ou a opinião cética ou contrária do cidadão nas principais capitais do mundo. Sem presunção, será preciso reconquistar corações e mentes para o biocombustível e para isso não podemos fechar os olhos para a questão alimentar. Nossa melhor resposta terá de vir do dinamismo do nosso agronegócio.

*Antônio Márcio Buainain é professor do Instituto de Economia da Unicamp. E-mail: buainain@eco.unicamp.br

20/04/2008 - 06:29h Etanol, questão moral

Celso Ming - O Estado de São Paulo

Até agora, a disparada dos preços dos alimentos era encarada como um problema econômico, um entre tantos que exigem respostas econômicas. Agora está sendo vista como questão moral e estratégica. E isso é sério, pois sugere respostas morais e estratégicas, sabe-se lá de que qualidade.

Os observadores têm repisado que acabaram as montanhas de trigo, leite em pó e manteiga que entulhavam os armazéns da Europa. E, de fato, os estoques estão baixando (veja o gráfico). Até aí, um fato econômico.

Há alguns meses, o presidente Lula afirmou que “no mundo, comida não é problema; problema é falta de renda”, portanto, provocada por fator econômico.

Há apenas algumas semanas, os analistas internacionais concentravam suas denúncias contra a ação dos especuladores nas bolsas de commodities, outro fator econômico. E a alta dos grãos era reconhecida como conseqüência do aumento do consumo de alimentos pelos asiáticos; das secas que há seis anos atingem a Austrália; e do uso de grãos alimentares para a produção de biocombustíveis - enfim, também derivados de fatores fundamentalmente econômicos.

Mas, há cerca de um mês, a ONU pareceu ter comprado o diagnóstico do consultor suíço Jean Ziegler, para o qual a crise dos alimentos passou a ser um “crime contra a humanidade”.

E, sexta-feira, foi a vez do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan. Ele afirmou que “o FMI está muito preocupado” e fez duas advertências: “a crise dos alimentos pode estar apenas começando”; e “se a alta das commodities alimentares continuar, pode derrubar governos e provocar novas guerras”. E arrematou com uma declaração grave: “A produção de biocombustíveis é um problema moral”.

Argentina, Egito, Índia e Paquistão impuseram barreiras às exportações de alimentos. No Haiti, caiu o governo, e em Bangladesh a população está sublevada. Analistas começam a martelar que a falta de comida é um risco para a democracia.

Até agora, Strauss-Khan eximiu a cana-de-açúcar brasileira do problema moral. E o presidente Lula tem defendido o etanol nacional com argumentos fortes. Primeiro, cana-de-açúcar não é alimento e, por isso, a produção de álcool no Brasil não está desviando comida para a produção de biocombustíveis, como nos Estados Unidos (com o milho) e na Europa (com a colza e o girassol). Segundo, a produção de cana ocupa áreas que em princípio são pastagens degradadas. E, terceiro, o produtor de cana aumenta a produção de alimentos na medida em que, a cada cinco anos, faz a rotação de culturas, substituindo-a por soja ou amendoim.

O problema é que, certo ou errado - não importa aqui -, se esse questionamento moral prevalecer, vai ser difícil justificar a destinação de tantas terras agricultáveis brasileiras para a produção de cana. Da mesma forma como reclamam que o milho americano está sendo desviado para a produção de etanol, vão disparar que o brasileiro está usando criminosa e imoralmente suas terras para alimentar os motores dos veículos.

O Brasil não está preparado para ataques dessa ordem. Tem de preparar-se.

11/04/2008 - 04:24h Jogo duro

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Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

etanol.jpg Ontem, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Khan, e o presidente Lula trataram do tema que vem provocando forte reação de chefes de Estado e de políticos: a disparada global dos preços dos alimentos.

Em Washington, onde se realiza a Assembléia de Primavera do FMI, Strauss-Khan observou que, em pouco mais de um ano, a alta dos alimentos já é de 46%, fator de preocupação porque impede o acesso das camadas mais pobres ao próprio sustento e porque acelera a inflação no mundo.

Em pronunciamento feito em Roterdã, Holanda, o presidente Lula chamou a atenção para o fato de que a estocada dos preços não está sendo provocada pelos biocombustíveis, mas pelo novo acesso dos pobres da Ásia aos alimentos de melhor qualidade. Em apenas dez anos, na China e na Índia, 400 milhões de pessoas passaram a ter essas condições.

A chegada das novas camadas sociais aos mercados de trabalho e de consumo não só explica a aceleração dos preços dos alimentos, mas também das outras commodities, inclusive petróleo.

Ontem, o objetivo principal do presidente foi defender o etanol brasileiro do ataque de dirigentes políticos europeus. Já não são apenas Fidel Castro e Hugo Chávez que o denunciam como produto que tira o pão da boca dos pobres. Há uma semana, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, acusou os governos dos Estados Unidos e do Brasil de subsidiarem sua produção e, assim, contribuir para a alta dos alimentos. Não se deu ao trabalho de comparar o balanço energético do produto americano e do produto brasileiro.

A mesma acusação é feita na Europa por políticos e entidades ambientalistas. Para eles, os Estados Unidos usam quantidades crescentes de milho para produzir etanol e o Brasil planta cana onde antes se colhiam grãos ou havia florestas tropicais. Em artigo publicado no The New York Times de terça-feira, o economista Paul Krugman também condenou o produto brasileiro que, para ele, é um destruidor de florestas.

Esses ataques têm conseqüências práticas. Os governos da Alemanha e da Inglaterra estão desistindo de misturar álcool à gasolina. No Japão, o projeto está parado sob o argumento de que não há produto disponível no mercado internacional em volume suficiente para garantir as necessidades futuras.

É difícil nesses trancos separar protecionismo de desinformação. Diariamente, grandes jornais do mundo publicam artigos que buscam demonstrar que a produção e o uso de etanol como combustível lançam tanto ou até mais carbono na atmosfera do que os combustíveis fósseis, algo que pode valer para o de milho e não para o brasileiro, de cana-de-açúcar.

Mas a resistência ao etanol, que pega carona nos protestos contra a inflação dos alimentos, pode provocar estragos irreversíveis no setor de açúcar e álcool no Brasil, cujo projeto é transformá-lo em commodity internacional.

O etanol brasileiro está sob foco e qualquer pretexto, como as queimadas para a colheita manual ou as denúncias de uso de mão-de-obra sub-remunerada, pode complicar sua aceitação no exterior. A contra-ofensiva diplomática do Brasil parece insuficiente para neutralizar esse jogo duro.

27/01/2008 - 10:36h ‘Brasil não poderia estar melhor’, diz chefe do FMI


Dominique Strauss-Khan, Diretor do FMI

João Caminoto

O Estado de São Paulo

“O Brasil não poderia estar melhor para lidar com a crise.” Essa é a avaliação do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. Ele salientou a importância do fortalecimento dos fundamentos macroeconômicos do País nos últimos anos para enfrentar o risco de recessão nos Estados Unidos e a forte volatilidade que vem afetando os mercados financeiros.

“O Brasil está muito bem”, disse Strauss-Kahn, que participou de uma série de discussões sobre a economia global durante o Forum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. “Lógico que nenhum país deixará de ser atingido pelo menos um pouco, mas o Brasil está forte.”

Ele evitou comentar como o Fundo avalia o comportamento dos preços das commodities diante dos problemas econômicos, fator crucial para economias emergentes. “Em breve atualizaremos nossos prognósticos e esse tema será abordado.”

A avaliação do chefe do FMI sobre o Brasil coincide com a da maioria dos participantes do Fórum. Para eles, controle inflacionário, câmbio flutuante e fortalecimento das reservas colocaram o Brasil numa situação bem menos vulnerável.