26/12/2008 - 19:03h Uma diva para os tempos modernos

Renée Fleming consolida seu lugar entre as grandes sopranos da história com novo disco, dedicado a Richard Strauss

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João Luiz Sampaio - O Estado de São Paulo

“A grande exposição faz com que carreiras hoje durem pouco, não mais do que cinco anos.” “Cantores gastam a voz cantando o que não devem.” “A época das grandes sopranos já se foi, e não volta mais.” “Esqueça, jamais vai aparecer uma nova Maria Callas.” Há muito de verdade em todas essas afirmações que, no mundo da ópera, se repetem com freqüência quase tediosa. No entanto, verdades à parte, o saudosismo costuma não nos deixar ver o que nossa época oferece de melhor. E, justiça seja feita, se a nova Callas ainda não apareceu, isso não quer dizer que estejamos mal de sopranos. Pelo contrário, nos últimos anos têm surgido artistas que criaram universos próprios de comparação e, entre elas, destaca-se a soprano norte-americana Renée Fleming, que está com disco novo na praça dedicado a canções de Richard Strauss (Decca, importado).

A nova Callas, a propósito, é bem provável que não apareça nunca. Ela foi caso único na história da ópera. De um lado, há a época em que atuou, bastante diferente da nossa, com um ritmo muito menos frenético de apresentações. De outro, está a sua própria personalidade. Callas viveu no palco todas - todas mesmo - grandes heroínas do repertório operístico; passou por cima de qualquer convenção vocal, cantou papéis de sopranos leves e dramáticas. Havia nisso tudo uma inconseqüência muito atraente, um talento quase animal que, no palco, se combinava à habilidade cênica que se tornou paradigma às gerações seguintes. No final das contas, transformou as grandes mulheres da ópera, nos fez ouvi-las - e assisti-las - de outra maneira. Não é pouca coisa.

Em uma época como a nossa, de especialização e compartimentação, os métodos de Callas dificilmente serão repetidos. O que não impede, porém, que se almeje o mesmo resultado final - oferecer interpretações frescas e diferenciadas do grande repertório. E isso Renée Fleming tem feito com habilidade ao longo dos últimos anos. E, para tanto, em vez da inconseqüência, escolhe bem seus papéis, permitindo que a ampliação do repertório acompanhe a evolução natural da voz. Isso parece dar a Fleming conhecimento pleno de seu instrumento e suas possibilidades, o que, talvez paradoxalmente, lhe permite sair-se bem em uma gama ampla de estilos e gêneros. Na ópera, fez de Haendel a Verdi, com destaque para Alcina, com William Christie, e para La Traviata, gravada em Los Angeles e lançada no começo do ano em DVD; seu disco com trechos de musicais, ao lado do baixo galês Bryn Terfel, é precioso; e, mesmo fora de seu habitat natural, ela fez um dos melhores discos de 2007 segundo a imprensa internacional - Haunted Heart, álbum com obras de Joni Mitchell, Beatles, Villa-Lobos, Mahler e Stevie Wonder interpretadas com pegada jazzística.

E então chegamos a Richard Strauss. Nos anos 90, ela já havia gravado as Quatro Últimas Canções com o maestro Cristoph Eschenbach em Houston; agora, é acompanhada por Christian Thielemann, à frente da Filarmônica de Munique (em um dos formatos oferecidos pela Decca, há um segundo CD dedicado a trechos de ópera, reunidos de gravações anteriores da soprano, em especial de Signature Roles, com regência do lendário Georg Solti). Entre os dois registros, há diferença muito grande. A voz, claro, mudou, está mais encorpada, ganhou cores escuras que enriquecem a interpretação, por sua vez mais precisa, mais madura.

As Quatro Últimas Canções de Strauss são um desafio para o intérprete, não apenas pela imensidão de versões disponíveis, sempre com grandes artistas. São as últimas quatro obras do compositor, que não as ouviu ao vivo. A princípio independentes, foram reunidas em um ciclo na época da estréia, nos anos 50, em Londres, com a soprano Kirsten Flagstad e o maestro Wilhelm Furtwängler (o registro ao vivo foi lançado em CD no ano passado pelo selo Testament). Baseadas em textos de Eichendorff e Herman Hesse, elas falam do fim contemplativo da vida e, ao mesmo tempo, de resignação e alegria, de calma perante a dor.

São tantas as emoções que fica difícil encontrar uma medida exata dos contrastes sugeridos pela música e o texto. Não que não seja possível - pelo contrário, é na conquista desse equilíbrio entre amor à vida e aceitação da morte, do fim, que está o pathos dessas canções. Encontrá-lo pode bem ser tomado como sinal de maturidade de um artista. Ouça com cuidado a terceira das canções, Beim Schlafengehen (Indo Dormir). Após o delicado e intenso solo de violino, a voz, em um crescendo, declara: “E minha alma, desprotegida/ voaria em longas asas/ para viver na esfera mágica da noite/ profundamente.” O encantamento que vai dando lugar à dor na interpretação de Fleming a coloca, desde já, entre as grandes intérpretes do ciclo e, conseqüentemente, entre as grandes do canto.


Beim Schlafengehen (Indo Dormir) - Renée Fleming dirigida por Claudio Abbado

16/11/2008 - 22:04h Tom e Jerry

12/11/2008 - 18:22h Não se fazem mais homens assim

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Último grande romântico da ópera italiana e influenciador dos musicais modernos, Puccini é homenageado pelos 150 anos

Eduardo Fradkin - O Globo

Dois gênios se encontram e fazem um mexerico que entra para o anedotário da música clássica. A iniciativa é do russo Dmitri Shostakovich, que inquire o inglês Benjamin Britten sobre sua opinião a respeito do italiano Giacomo Puccini. O interpelado responde: “Eu acho as óperas dele horrorosas”. Shostakovich retruca: “Não, Ben, você está errado. Ele fez óperas maravilhosas, mas música horrorosa”. Esse talvez seja o exemplo mais notório do desprezo de alguns modernistas do século XX por Puccini. Ele viveu até 1924, mas estilisticamente nunca se afastou muito de meados do século anterior, no qual nascera. Mais especificamente há 150 anos, a serem festejados no próximo dia 22 de dezembro.

Festejados por quem? Todos os amantes de doces melodias e enredos sentimentais baseados em dramas de cunho realista. Essas eram as especialidades do aniversariante e os principais motivos para ataques num século em que tais atributos foram considerados populismo de apelo fácil.

Chegou a ser taxado de efeminado, logo ele que cultivava fama de galanteador (“sou um caçador de aves selvagens, libretos operísticos e mulheres atraentes”, dizia). Parte da vanguarda e da crítica podem ter esnobado seu romantismo, mas não as platéias, que têm prestigiado suas óperas ao longo do tempo. Esta semana, dois recitais gratuitos o homenageiam.

O primeiro é hoje, às 18h30m, no Istituto Italiano di Cultura (Av. Antônio Carlos 40), com vários cantores e uma pianista num programa que traz árias de seis óperas. Na sexta, às 19h30m, a série “Ópera nas igrejas” apresenta uma versão para vozes e piano de “Suor Angelica”, de um só ato, na Paróquia Santa Mônica, no Leblon (Rua José Linhares 96).

Em tempos recentes, a reputação de Puccini foi bastante reabilitada.

Ironicamente, para alguém às vezes chamado de retrógrado, ele se mostra afinado com os dias atuais. Sua influência é palpável em musicais popularíssimos.

E isso é reconhecido por autores do gênero. A dupla Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, por exemplo, recontou a história da ópera “Madama Butterfly” em “Miss Saigon” e usou uma melodia dessa mesma fonte em outra famosa produção, “Les misérables” (na canção “Bring him home”).

O musical “Rent”, de 1996, é inspirado em “La bohème”, composta exatamente um século antes.

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Operista criticava obras de colegas

Quem melhor, portanto, do que um cantor que transita entre o mundo da ópera e o dos musicais para opinar sobre o que o compositor tem de melhor? Com a palavra o barítono astro da Broadway Paulo Szot: — Puccini amava sopranos e tenores….
para barítono e mezzo-soprano não tem muita coisa. Mas eu adoro mesmo assim. Eu tive a oportunidade de cantar “La bohème” muitas vezes, por esse motivo é minha favorita.

A última montagem em que cantei foi em Bordeaux, em 2007. Quem sabe um dia encaro “Gianni Schicchi”? Opa, melhor seguir o conselho de Szot e procurar sopranos e tenores, então. A japonesa Eiko Senda cita “Madama Butterfly” — sobre uma conterrânea abandonada com um filho no colo por seu amante americano — como a ópera mais completa do italiano. Mas não é sua preferida.
— Eu gosto especialmente de “Edgar”, que é pouco montada no Brasil.

Adoro as melodias e a história — afirma a cantora, citando a segunda ópera da carreira de Puccini, um retumbante fracasso. — Já fiz “Madama Butterfly” muitas vezes. Sempre perco cinco quilos em cada apresentação.

É cansativa física e emocionalmente.

É muito dolorosa para qualquer mulher, ainda mais para quem tem um filho, como eu.

— Os personagens de Puccini equivalem aos personagens das novelas de hoje — diz o tenor Fernando Portari, que atuará numa montagem de “La bohème” na Deutsche Oper de Berlim em dezembro.

— Ele foi um profundo conhecedor da alma feminina — elogia a soprano Céline Imbert, cuja ópera favorita é “Suor Angelica”.

Uma das críticas mais comuns que se faz a Puccini é também um dos maiores deleites de seus fãs: o abuso das cordas em uníssono. Ele explorou a técnica da violinata, em que as cordas da orquestra, em diferentes oitavas, vão se agregando a uma melodia cantada pelo solista num crescendo de intensidade. O maestro Ricardo Prado rejeita a acusação de sacaroso que ocasionalmente ainda recai sobre o compositor por conta disso: — Uma de suas qualidades era a orquestração. Para lembrar apenas um exemplo, as cordas que acompanham Scarpia e Tosca no dueto “E qual via scegliete?”, no segundo ato da “Tosca”, são de uma escrita sofisticada e beleza extraordinária.

Em algumas óperas tardias, Puccini usa harmonias mais arrojadas, com dissonâncias e bitonalidade, sob influência de inovações trazidas por Debussy, Stravinsky e outros. Isso é particularmente notado em “La fanciulla del West” (elogiada por Anton Webern) e em “Turandot”, sua última grande obra-prima que ficou incompleta devido a um tratamento experimental para câncer na garganta que lhe tirou a vida. Embora tivesse reclamado das tendências mais radicalmente modernas de seu tempo (“música sem lógica que não faz sentido”, disse certa vez), Puccini se manteve antenado com as novidades.

Numa viagem a Florença em seu último ano de vida, assistiu a “Pierrot Lunaire”, obra atonal de Schoenberg. O musicólogo Luiz Paulo Sampaio lembra outros casos: — Sua correspondência com Giulio Ricordi (editor de suas óperas) mostra bem como ele reagiu aos modernistas, seus contemporâneos. Após ouvir “Pelléas et Mélisande”, destacou as “extraordinárias qualidades harmônicas e os delicados efeitos instrumentais” de Debussy. E concluiu: “Interessante, apesar de seu colorido sombrio e sem relevos, como o hábito de um monge franciscano”. Em relação à “Salomé” de Strauss, registrou o sucesso da obra mas disse que “a orquestra parecia uma salada russa mal misturada”. Sua reação à “Sagração da primavera” foi de choque: “a coreografia é ridícula e a música, mera cacofonia. Há alguma originalidade e um certo talento, mas, no todo, mais parece a criação de um louco”.

Sorte de Shostakovich e Britten que Puccini não tenha vivido para ouvir algumas de suas obras mais iconoclastas. Provavelmente retribuiria os comentários cáusticos que os dois lhe dirigiram.

Madama Butterfly de Puccini - Ópera imaginária

05/04/2008 - 14:39h Herbert von Karajan

Richard Strauss - ‘Also Sprach Zarathustra’
Mussorgsky - ‘Promenade’ from ‘Pictures at an Exhibition’ (Ravel orchestration)
Richard Wagner - finale from ‘Das Rheingold’ (taken from Karajan’s 1979 film.)
J Strauss - ‘Radezky March’ (from the memorable 1987 New Year Concert in Vienna.)
Ludwig van Beethoven - finale from Symphony No. 9 (a Karajan favourite)

07/12/2007 - 18:34h Der rosenkavalier

Anne Howells (Octavian), Barbara Bonney (Sophie) sing ‘Mir ist die Ehre widerfahren’ from Richard Strauss’s ‘Der rosenkavalier, Royal Opera House Covent Garden 1985

11/08/2007 - 09:46h "Im abendrot" Renee Fleming - Strauss’ 4 Last Songs -