04/11/2009 - 22:00h Boa noite
‘Chanson Russe’ (Canção Russa), de Stravinsky – Violino Christian Ferras
- Luis Favre
‘Chanson Russe’ (Canção Russa), de Stravinsky – Violino Christian Ferras
Dança infernal e final do Pássaro de fogo de Stravinsky – Orquestra Filarmônica de San Francisco – Regente: Michael Tilson Thomas
Último grande romântico da ópera italiana e influenciador dos musicais modernos, Puccini é homenageado pelos 150 anos
Eduardo Fradkin – O Globo
Dois gênios se encontram e fazem um mexerico que entra para o anedotário da música clássica. A iniciativa é do russo Dmitri Shostakovich, que inquire o inglês Benjamin Britten sobre sua opinião a respeito do italiano Giacomo Puccini. O interpelado responde: “Eu acho as óperas dele horrorosas”. Shostakovich retruca: “Não, Ben, você está errado. Ele fez óperas maravilhosas, mas música horrorosa”. Esse talvez seja o exemplo mais notório do desprezo de alguns modernistas do século XX por Puccini. Ele viveu até 1924, mas estilisticamente nunca se afastou muito de meados do século anterior, no qual nascera. Mais especificamente há 150 anos, a serem festejados no próximo dia 22 de dezembro.
Festejados por quem? Todos os amantes de doces melodias e enredos sentimentais baseados em dramas de cunho realista. Essas eram as especialidades do aniversariante e os principais motivos para ataques num século em que tais atributos foram considerados populismo de apelo fácil.
Chegou a ser taxado de efeminado, logo ele que cultivava fama de galanteador (“sou um caçador de aves selvagens, libretos operísticos e mulheres atraentes”, dizia). Parte da vanguarda e da crítica podem ter esnobado seu romantismo, mas não as platéias, que têm prestigiado suas óperas ao longo do tempo. Esta semana, dois recitais gratuitos o homenageiam.
O primeiro é hoje, às 18h30m, no Istituto Italiano di Cultura (Av. Antônio Carlos 40), com vários cantores e uma pianista num programa que traz árias de seis óperas. Na sexta, às 19h30m, a série “Ópera nas igrejas” apresenta uma versão para vozes e piano de “Suor Angelica”, de um só ato, na Paróquia Santa Mônica, no Leblon (Rua José Linhares 96).
Em tempos recentes, a reputação de Puccini foi bastante reabilitada.
Ironicamente, para alguém às vezes chamado de retrógrado, ele se mostra afinado com os dias atuais. Sua influência é palpável em musicais popularíssimos.
E isso é reconhecido por autores do gênero. A dupla Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, por exemplo, recontou a história da ópera “Madama Butterfly” em “Miss Saigon” e usou uma melodia dessa mesma fonte em outra famosa produção, “Les misérables” (na canção “Bring him home”).
O musical “Rent”, de 1996, é inspirado em “La bohème”, composta exatamente um século antes.
Operista criticava obras de colegas
Quem melhor, portanto, do que um cantor que transita entre o mundo da ópera e o dos musicais para opinar sobre o que o compositor tem de melhor? Com a palavra o barítono astro da Broadway Paulo Szot: — Puccini amava sopranos e tenores….
para barítono e mezzo-soprano não tem muita coisa. Mas eu adoro mesmo assim. Eu tive a oportunidade de cantar “La bohème” muitas vezes, por esse motivo é minha favorita.
A última montagem em que cantei foi em Bordeaux, em 2007. Quem sabe um dia encaro “Gianni Schicchi”? Opa, melhor seguir o conselho de Szot e procurar sopranos e tenores, então. A japonesa Eiko Senda cita “Madama Butterfly” — sobre uma conterrânea abandonada com um filho no colo por seu amante americano — como a ópera mais completa do italiano. Mas não é sua preferida.
— Eu gosto especialmente de “Edgar”, que é pouco montada no Brasil.
Adoro as melodias e a história — afirma a cantora, citando a segunda ópera da carreira de Puccini, um retumbante fracasso. — Já fiz “Madama Butterfly” muitas vezes. Sempre perco cinco quilos em cada apresentação.
É cansativa física e emocionalmente.
É muito dolorosa para qualquer mulher, ainda mais para quem tem um filho, como eu.
— Os personagens de Puccini equivalem aos personagens das novelas de hoje — diz o tenor Fernando Portari, que atuará numa montagem de “La bohème” na Deutsche Oper de Berlim em dezembro.
— Ele foi um profundo conhecedor da alma feminina — elogia a soprano Céline Imbert, cuja ópera favorita é “Suor Angelica”.
Uma das críticas mais comuns que se faz a Puccini é também um dos maiores deleites de seus fãs: o abuso das cordas em uníssono. Ele explorou a técnica da violinata, em que as cordas da orquestra, em diferentes oitavas, vão se agregando a uma melodia cantada pelo solista num crescendo de intensidade. O maestro Ricardo Prado rejeita a acusação de sacaroso que ocasionalmente ainda recai sobre o compositor por conta disso: — Uma de suas qualidades era a orquestração. Para lembrar apenas um exemplo, as cordas que acompanham Scarpia e Tosca no dueto “E qual via scegliete?”, no segundo ato da “Tosca”, são de uma escrita sofisticada e beleza extraordinária.
Em algumas óperas tardias, Puccini usa harmonias mais arrojadas, com dissonâncias e bitonalidade, sob influência de inovações trazidas por Debussy, Stravinsky e outros. Isso é particularmente notado em “La fanciulla del West” (elogiada por Anton Webern) e em “Turandot”, sua última grande obra-prima que ficou incompleta devido a um tratamento experimental para câncer na garganta que lhe tirou a vida. Embora tivesse reclamado das tendências mais radicalmente modernas de seu tempo (“música sem lógica que não faz sentido”, disse certa vez), Puccini se manteve antenado com as novidades.
Numa viagem a Florença em seu último ano de vida, assistiu a “Pierrot Lunaire”, obra atonal de Schoenberg. O musicólogo Luiz Paulo Sampaio lembra outros casos: — Sua correspondência com Giulio Ricordi (editor de suas óperas) mostra bem como ele reagiu aos modernistas, seus contemporâneos. Após ouvir “Pelléas et Mélisande”, destacou as “extraordinárias qualidades harmônicas e os delicados efeitos instrumentais” de Debussy. E concluiu: “Interessante, apesar de seu colorido sombrio e sem relevos, como o hábito de um monge franciscano”. Em relação à “Salomé” de Strauss, registrou o sucesso da obra mas disse que “a orquestra parecia uma salada russa mal misturada”. Sua reação à “Sagração da primavera” foi de choque: “a coreografia é ridícula e a música, mera cacofonia. Há alguma originalidade e um certo talento, mas, no todo, mais parece a criação de um louco”.
Sorte de Shostakovich e Britten que Puccini não tenha vivido para ouvir algumas de suas obras mais iconoclastas. Provavelmente retribuiria os comentários cáusticos que os dois lhe dirigiram.
Madama Butterfly de Puccini – Ópera imaginária