08/09/2008 - 16:25h Como no Japão, talvez pior

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Martin Wolf, talvez o colunista financeiro mais influente no mundo, acaba de surgir em vídeo para comentar a estatização de Fannie e Freddie (clique aqui).

Começa dizendo que “os passivos (liabilities) dessas empresas chegam a 40% do PIB dos EUA”. No balanço do país, “subitamente os Estados Unidos vão se parecer com a Itália”.

Ele compreende a intervenção, diz que sem ela haveria “o derretimento do dólar”, mas alerta que “os riscos morais são muito, muito grandes”, com Washington sinalizando que o risco no crédito é do Estado, não mais da iniciativa privada. Citando a frase de que “é o provisório que perdura”, afirma que se surpreenderá muito “se eles conseguirem sair com facilidade” da intervenção.

Wolf prevê “até dez anos” para o mercado imobiliário americano se recuperar, como aconteceu no Japão. E com a diferença de que o Japão era credor mundial e “solvente”, enquanto os EUA são hoje devedores e dependem do resto do mundo para o crédito interno.

Escrito por Nelson de Sá

08/09/2008 - 16:05h Estatização nos EUA é “o enterro do neoliberalismo”, diz Maria da Conceição Tavares

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EDUARDO CUCOLO – da Folha Online, em Brasília

A economista Maria da Conceição Tavares afirmou hoje que a intervenção do governo dos EUA nas duas maiores empresas de hipotecas do país representa o “enterro do neoliberalismo”.

Ontem, o governo norte-americano anunciou uma ajuda de até US$ 200 bilhões para as gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac. Essa é a maior intervenção do governo dos EUA para evitar uma crise sistêmica na economia.

“É fantástico o país mais liberal do mundo ter de estatizar. É o enterro do neoliberalismo de uma maneira trágica”, afirmou Maria da Conceição.

A economista comparou a operação ao Proer, programa de socorro a instituições financeiras realizado no primeiro governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Custou uma fortuna”, afirmou, em relação à intervenção dos EUA. “O nosso Proer foi mais baratinho.”

O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser Pereira afirmou também que a intervenção é “o fim do neoliberalismo”. Segundo ele, a crise deve provocar o ressurgimento de uma nova onda desenvolvimentista, como ocorreu após a crise de 1930, com maior participação do Estado na economia.

“Essa crise marca o fim da onda neoliberal”, afirmou. “É fundamental que haja uma intervenção do Estado.”

Bresser defendeu uma complementação entre a intervenção do mercado financeiro e do Estado na economia. Disse também que a situação seria pior caso não houvesse uma intervenção mais forte do banco central dos EUA na economia do país nesse momento.

08/09/2008 - 15:57h FMI e analistas elogiam intervenção em Fannie Mae e Freddie Mac

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Medidas devem ajudar a tranqüilizar o mercado financeiro mundial

José Meirelles Passos*, Nadja Sampaio e Ramona Ordoñez – O Globo

WASHINGTON e RIO. O pacote de ajuda anunciado ontem pelo governo americano às gigantes do setor hipotecário foi bem recebido por analistas. Eles avaliam que a intervenção na Fannie Mae e na Freddie Mac era inevitável e poderá ajudar a tranqüilizar os mercados. O socorro também foi apoiado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em nota, o diretor-gerente do Fundo, Dominique Strauss-Kahn, afirmou que o organismo ainda estava estudando os detalhes do pacote, mas elogiou a atitude, definindo-a como “uma ação decisiva”, que ajudará a apoiar os mercados “e a perspectiva econômica e financeira”.
Num sinal de que os mercados financeiros devem receber bem as medidas, as ações da Bolsa de Nova York subiam quase 2% no pregão eletrônico de futuros ontem à noite.

Para especialistas brasileiros, ao ajudar a tranqüilizar o mercado americano, o pacote do governo dos EUA será, por tabela, positivo para o Brasil.

— Este socorro foi importante porque acalma a economia americana e sinaliza para o mundo que a crise está sob controle — afirma Aloísio Araújo, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Analistas prevêem alta de 0,75 ponto percentual na Selic

Araújo explica que o mercado americano tem, por tradição, organismos reguladores fortes. Mas que, neste caso, demoraram a agir.

— O erro começou antes. As empresas eram privadas, mas tinham garantia implícita do governo americano, que deixou de agir quando deveria.
Agora, era inevitável.

O economista-chefe do WestLB no Brasil, Roberto Padovani, acha que a intervenção é boa para os EUA e, se afetar o Brasil, será apenas a curto prazo, com a valorização do dólar pressionando o real. Padovani não acredita que as medidas influenciarão o Banco Central (BC) brasileiro na sua decisão sobre a taxa de juros. O BC se reúne esta semana para fixar a nova Taxa Selic e, para Padovani, deverá repetir a alta de 0,75 ponto percentual, como na última reunião.

Mas, para Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC, as medidas nos EUA poderão afetar negativamente o Brasil. Ele avalia que a crise americana está longe de terminar. E também prevê alta de 0,75 ponto percentual nos juros brasileiros.

— A economia mundial está reduzindo seu ritmo, e isso já se reflete no Brasil. Essa situação, aliada a uma alta exagerada dos juros, poderá desaquecer demais nossa economia.

Nos EUA, os candidatos à presidência apoiaram com ressalvas o socorro do governo. O democrata Barack Obama afirmou que se tratava de uma “medida necessária”, mas destacou que era preciso preservar os contribuintes. O republicano John McCain avaliou a medida como um “passo na direção correta”, mas disse que, no futuro, Fannie e Freddie deveriam ser privatizadas, segundo declarações de seu conselheiro econômico Douglas Holtz-Eakin. O presidente George W. Bush afirmou que o socorro era necessário para evitar que Fannie ou Freddie fossem à falência, o que seria um “risco inaceitável”.

(*) Correspondente

01/04/2008 - 04:18h A estratégia Dilbert

Objetivo do plano apresentado pelo governo Bush é criar a aparência de que as autoridades respondem à crise, sem na prática fazer nada de substantivo

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA DE SÃO PAULO

criseusa.jpgSE VOCÊ já trabalhou para uma grande organização ou, aliás, se você é leitor da tira de quadrinhos “Dilbert”, decerto conhece a “estratégia do organograma”.
Para esconder a falta de idéias práticas sobre o que fazer, dirigentes gostam de promover grande algazarra quando reorganizam as caixinhas e linhas de um organograma informando quem se reporta a quem.
Pronto: você acaba de descobrir o princípio que embasa a nova proposta do governo Bush para a reforma financeira, anunciada formalmente ontem. O objetivo é criar a aparência de que as autoridades estão respondendo à crise atual, sem na prática fazer nada de substantivo.
Os eventos financeiros dos últimos sete meses, e especialmente das últimas semanas, convenceram todo mundo, exceto os mais renitentes, de que o sistema financeiro norte-americano precisa de uma séria reforma. De outra forma, cambalearemos de crise em crise, e as crises se tornarão cada vez mais graves.
Os bancos tradicionais, que oferecem contas a depositantes, operam regulamentados desde os anos 1930, porque a experiência da Grande Depressão demonstrou de que maneira falências de bancos podem ameaçar toda a economia. Instituições que não aceitam depósitos, como o Bear Stearns, no entanto, supostamente não precisavam de regulamentação, porque a “disciplina do mercado” asseguraria que fossem dirigidas de maneira responsável.
Quando a situação ferveu, no entanto, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) não ousou permitir que a disciplina do mercado resolvesse a situação. Em lugar disso, correu em resgate do Bear Stearns, colocando em risco bilhões de dólares dos contribuintes, porque temia que o colapso de uma grande instituição financeira colocasse em risco o sistema financeiro como um todo.
E se protagonistas das finanças como o Bear Stearns vão receber essa espécie de resgate, anteriormente limitada aos bancos que aceitam depósitos, a implicação parece óbvia: eles também devem ser regulamentados como bancos.
Mas o governo Bush passou os últimos sete anos tentando eliminar a fiscalização governamental sobre o setor financeiro. De fato, o novo plano havia sido originalmente concebido como uma forma de “promover um setor de serviços financeiros competitivo, que lidere o mundo e apóie a inovação continuada das finanças”.

Desregulados
Isso é jargão de banqueiro para a eliminação de qualquer regulamentação que possa incomodar os grandes operadores financeiros.
Para reverter o curso agora, e procurar regulamentação mais ampla, o governo teria de recuar com relação à sua ideologia de livre mercado e também teria de encarar o fato de que estava errado. E esse governo nunca, nunca mesmo, admitirá que cometeu um erro.
Por isso, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, declara que não acredita que seja justo ou acurado imputar a culpa pelos recentes tumultos à nossa estrutura regulatória.
E, pelo menos de acordo com o sumário do novo plano do governo, a regulamentação certamente parece limitada a instituições que recebam garantias federais explícitas, ou seja, às instituições que já estão regulamentadas e não foram a origem dos atuais problemas.
Quanto aos demais componentes do sistema, o plano insensatamente declara que “a disciplina de mercado é a mais efetiva ferramenta para limitar o risco sistêmico”.
O que significa que o governo nada aprendeu com a crise atual. Mas é preciso, como questão política, que crie a ilusão de estar fazendo alguma coisa.
Assim, o Tesouro anunciou, com grande alarde -e vocês sabem o que virá a seguir-, seu apoio a uma reorganização das caixas do organograma. OCC, OTS e CFTC estão fora; PFRA e CBRA entram na parada. Quem se importa?

Alguma diferença?
Será que reorganizar as caixas fará alguma diferença? Fiquei decepcionado por algumas organizações noticiosas estarem reportando como notícia a história que o governo inventou para encobrir os fatos: a alegação de que a falta de coordenação entre as agências regulatórias foi um fator importante para as atuais dificuldades.
A verdade é que não foi isso o que aconteceu, de maneira alguma. As diversas agências regulatórias de fato se saíram bastante bem quanto à coordenação de suas ações. Infelizmente, elas foram coordenadas na direção errada.
Por exemplo, houve um evento montado para fins de relações públicas em 2003 no qual dirigentes de diversas agências posaram com podadeiras e serras como se estivessem podando e abatendo pilhas de regulamentações bancárias.
A ocasião simbolizava a determinação compartilhada dos funcionários apontados pelo governo Bush quanto a abandonar a fiscalização do mercado por adultos exatamente no momento em que este começava a se comportar de maneira irresponsável.
Oh, e o governo Bush na prática impediu que governos estaduais tentassem proteger famílias contra práticas predatórias de empréstimos. Assim, o plano do governo terá sucesso? Não pergunto se terá sucesso em prevenir futuras crises, já que não é esse o seu propósito. A questão, em lugar disso, é determinar se obterá sucesso em confundir a questão o bastante para bloquear reformas reais.
Esperemos que não. Como eu disse, as crises financeiras norte-americanas vêm crescendo. Uma década atrás, a perturbação nos mercados que se seguiu ao colapso da Long-Term Capital Management foi considerada um evento grave, assustador; mas, comparada à crise atual, não passou de uma sacudidela.
Se não reformarmos o sistema desta vez, a próxima crise poderá ser ainda maior. E eu tenho certeza de que não quero viver uma reprise da década de 1930.
PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do “New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de PAULO MIGLIACCI