14/10/2008 - 09:31h ‘É como dar transfusão durante hemorragia’

ENTREVISTA Joseph Stiglitz

Joseph Stiglitz

A crise é cada vez mais emaranhada, mas ficaram pelo caminho do investidor comum dúvidas básicas sobre o que, afinal, está acontecendo. Semana passada, O GLOBO pediu que um ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz — agraciado em 2001 —, respondesse a algumas dessas questões. No sábado, antes de o fim de semana fervilhar de novidades, Stiglitz enviou, por e-mail, suas idéias sobre crédito, juros e eleições.

Maria Fernanda Delmas - O GLOBO


Esta é uma crise de curto, médio ou longo prazo? Já há recessão?

JOSEPH STIGLITZ: Os EUA não estão tecnicamente em recessão.
Mas isso é menos importante que o fato de que a economia vai operar bem abaixo de seu potencial, e o desemprego vai crescer. A economia americana está se encaminhando para uma grande desaceleração, Quando a economia americana entra em declínio, você ouve especialistas discutindo se ele será em V (curta e acentuada) ou em U (mais longa, porém mais branda).
Os EUA podem estar entrando em um declínio melhor descrito como em L: está num ponto muito baixo e deve permanecer lá por algum tempo.

Houve sinais de que a crise vinha. Por exemplo: com os juros a 1% nos EUA, após a recessão de 2001, a população financiou a compra de imóveis, e, quando o Fed (o banco central americano) começou a elevar as taxas, veio a crise de não pagamento das hipotecas subprime (de risco maior). Também se gastou na guerra do Iraque. Ninguém viu isso?
STIGLITZ: Uma das razões da crise é que o Fed inundou a economia com liquidez e deixou a regulação frouxa. Parte pela ideologia de que regulação era ruim, mas parte porque a economia estava fraca. E uma das razões para a economia fraca era o preço do petróleo subindo. Antes de entrarmos em guerra com o Iraque, em 2003, o barril custava US$ 23.
Os mercados futuros anteciparam o aumento na demanda, mas pensaram que haveria um aumento no fornecimento. A guerra mudou a equação. Isso é importante porque os americanos estavam gastando centenas de bilhões de dólares para comprar petróleo. Normalmente, isso teria tido um efeito muito negativo em nossa economia. Mas o Fed construiu uma bolha imobiliária para substituir a bolha de tecnologia que construíra nos anos 90. A bolha imobiliária tornou mais fácil as pessoas tirarem dinheiro de suas hipotecas e de seus imóveis; em um ano, as retiradas com a diferença entre o valor do imóvel e o da hipoteca (graças à valorização do preço da casa) passaram de US$ 900 bilhões. Assim, tivemos uma explosão de consumo tão forte que, mesmo gastando tanto dinheiro fora do país, pudemos manter a economia crescendo.
Era muita miopia. Estava claro que estávamos vivendo com recursos que não eram nossos e fora do tempo regulamentar.
Outra razão é que não tínhamos um cumprimento efetivo das políticas antitruste. Acabamos com instituições que eram grandes demais para quebrar, e há um perigo real de elas tomarem risco excessivo, porque sabem que podem lucrar quando as coisas vão bem, mas, quando as perdas aparecem, também sabem que vamos socorrê-las. Como resolvemos esse problema com três bancos — JPMorgan Chase, Bank of America e Citigroup — detendo 30% dos depósitos dos americanos, estamos exacerbando o potencial de futuros problemas.

O pacote de US$ 700 bilhões será suficiente? O governo está socorrendo bancos em vez de ajudar contribuintes? E o pacote britânico?
STIGLITZ: O plano britânico é muito melhor que o americano.
Nos EUA, o que é preciso é uma injeção de capital nos bancos, com uma participação acionária concedida ao governo (o governo americano deve anunciar hoje, efetivamente, a compra de fatias de bancos). O plano de Paulson (Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA) é um socorro não transparente a Wall Street, em que tiramos deles os ativos ruins e os deixamos com os bons. É uma decepção, mas não uma surpresa, que o governo tenha apresentado um projeto de lei, mais uma vez, baseado em uma política econômica de inflar o ganho dos ricos, com a crença de que, jogando bastante dinheiro em Wall Street, este chegará à Main Street (a economia real), beneficiando trabalhadores e mutuários. É como um paciente que recebe uma transfusão de sangue maciça enquanto há hemorragia interna.
Não resolve a fonte básica da hemorragia, que é a execução de hipotecas. Tomara que depois das eleições possamos reparar os erros. Os mercados responderam com a mesma falta de entusiasmo que eu senti.

A ação coordenada dos bancos centrais ao cortar juros foi uma decisão certa? Pode causar uma nova bolha?


STIGLITZ:
Agora, não resolverá muito de fato, mas também não causará muitos danos.
Para a maioria das pessoas, não importa se pode tomar empréstimos a 4% ou 3%.

O crédito está secando nos EUA, na Europa, no Brasil…Onde está esse dinheiro?
STIGLITZ: Essencialmente, com tantas dívidas ruins e tanta incerteza sobre sua magnitude, há uma crise de crédito.
Os bancos nem sabem a extensão de seus próprios problemas.
Então, como podem ter muita confiança em emprestar para os outros? Não é apenas um problema de falta de liquidez. É mais profundo que isso — balanços foram duramente afetados, e terão de ser consertados. Não importa que plano coloquemos em marcha, haverá uma contração de crédito.

Há alguma racionalidade nas bolsas ou é só especulação? Na hora em que a Câmara americana aprovou o socorro, por exemplo, o índice Dow Jones, que estava subindo, começou a despencar.
STIGLITZ: O real problema com a lei (de socorro), mesmo tendo passado pelo Senado e pela Câmara, é que não tenta resolver os verdadeiros problemas que afligem nossa economia.
Paulson vendeu o problema como uma restauração da confiança. A questão não é apenas uma crise de confiança em nosso sistema bancário (e em nossa liderança econômica).
Há uma razão para as pessoas terem perdido a confiança.
A economia estava se enfraquecendo. Os bancos fizeram muitos empréstimos ruins. Para muitos, enquanto o governo (Bush) falava sobre seu programa para restabelecer a confiança, tratava-se na verdade de um truque com a confiança na economia americana — um presente para Wall Street às custas dos contribuintes comuns. No fim das contas, o truque não funcionou — um dia depois do anúncio (do plano), as bolsas de todo o mundo tiveram o pior pregão de sua história, com os papéis dos bancos tendo as maiores perdas. Paulson e sua equipe trabalharam duramente para conquistar a falta de confiança, à medida que pulavam de uma estratégia para outra. Apesar de o Congresso ter melhorado muito o pacote, também não conseguiu fazer o que era preciso, e quando isso se tornou visível, a confiança ficou ainda mais corroída. Se US$ 700 bilhões não bastaram, o que funcionaria?

A queda recente dos mercados pode ser, de alguma forma, efeito das eleições presidenciais americanas?

STIGLITZ: Enquanto pode não ser um efeito direto das eleições, terá um grande efeito em quem as pessoas votarão, à medida que muitas das razões para a crise surgiram durante o governo Bush. É difícil acreditar que os americanos vão reconduzir à Casa Branca o partido do presidente.

“Estávamos vivendo com recursos que não eram nossos e fora do tempo regulamentar Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia

13/10/2008 - 08:17h Belo presente os ”futuros” nos deram…

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Marco Antonio Rocha* - O Estado de São Paulo

Na semana passada, um artigo de Peter Goodman no New York Times mencionava fatos que merecem ser repetidos aqui, porque vêm a calhar com os últimos acontecimentos. Por exemplo, Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, e dos mais espertos, dizia, segundo Goodman, há cinco anos atrás (sic!), que os chamados derivativos eram “armas financeiras de destruição em massa, embutindo perigos que, latentes por ora, são potencialmente letais”.

Muito mais gente, além dele, via com desconfiança essas criativas inovações, trazidas pelos jovens audazes do trapézio volante das finanças mundiais. Em 2003, o Comitê dos Bancos, do Senado norte-americano, achou que já era hora de examinar a conveniência de regulamentar mais estritamente os tais contratos de derivativos (papéis transacionados nos chamados mercados “futuros”). Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve (o banco central dos EUA), se opôs dizendo que “nós pensamos que seria um erro regular mais profundamente os contratos”. Na opinião dele, os derivativos eram úteis como instrumentos de transferência de riscos “daqueles que não devem assumi-los para aqueles que estão desejosos e são capazes de fazê-lo”.

Mas os desejosos de assumir riscos e capazes de fazê-lo não parecem, agora, arcar com as conseqüências dessa vocação; e quem está ou em breve estará pagando o pato, diriam nossos avós, são as pessoas honestas e trabalhadoras que têm aversão aos riscos.

O nome do vírus causador desse inferno astral dos mercados está na Bíblia: é ganância - até Mr. Greenspan, que continua convencido de que os contratos de derivativos eram uma boa coisa, admite que o problema foi a greedy com que são manipulados, causando “um tipo de crise de aperto financeiro que acontece apenas uma vez em cada século”. Se o conhecêssemos, diríamos a ele para lembrar que a greedy é latente no espírito humano desde Adão e Eva. Então compete aos governos baixar bons regulamentos que coíbam a audácia da greedy.

A incúria dos governos, a negligência dos políticos e a irresponsabilidade dos banqueiros modernos - herdeiros de milenar sovinice, mas indignos da prudência dos seus antecessores - pavimentaram a autopista onde a ganância ganhou o ímpeto de um Aston Martin do agente 007.

No ano que vem, terá 30 anos o episódio que ficou conhecido como o “choque dos juros”. A média das taxas de juros internacionais deu um salto astronômico em 1979, apenas 6 anos depois de outro choque, o dos preços do petróleo, que provocou um tsunami de dinheiro em direção aos países produtores de petróleo, principalmente do Oriente Médio. Esses “petrodólares” entupiram os bancos ocidentais. O excesso de liquidez desandou, então, em empréstimos subprime - vocábulo que ainda não surgira. Mas já existiam tomadores subprime de empréstimos - Brasil e vários países do Terceiro Mundo, que pegavam dinheiro adoidados sem saber como pagar, como os atuais subprimes americanos, que compraram casas animados pela cantoria dos bancos e agências de crédito. Com o choque dos juros, os mutuários subprime de então (países) ficaram de calça na mão - formou-se o grande quebra-cabeça da dívida do Terceiro Mundo.

A “década perdida” - os 10 ou 15 anos em que a economia brasileira ficou arrastando os pés, a partir mais ou menos de 1982 (ano da “quebra” do México) - se deveu ao aperto do crédito internacional provocado pelo fantasma das dívidas impagáveis, nascido da esbórnia do excesso de liquidez da década anterior.

Alguma coisa a ver com o momento atual, por acaso?

Não?

Tomara.

Mas por acaso a economia mundial não viveu, de novo, um período prolongado recente de vacas gordas, propiciado por excesso de liquidez financeira? Por acaso esse excesso de liquidez não foi, em boa parte, anabolizado pelo aumento (mais uma vez) dos preços internacionais do petróleo, que gerou novo tsunami de dinheiro para os cofres de países produtores - entre os quais, a Venezuela, cujo presidente gasta os tubos numa espalhafatosa pretensão de se impor ao mundo como estadista? Fortunas espantosas não apareceram, nos últimos dez anos, nas mãos de figuras até então desconhecidas e que ninguém sabe o que realmente fazem ou fizeram para ganhar dinheiro?

Esse segundo momento mágico mundial de dinheiro fácil contou com um acelerador: a tecnologia de informática, que facilitou aos especuladores e espertalhões do mundo inteiro uma plataforma de operações do tamanho de um laptop. E sua vantagem não foi somente permitir transações financeiras com a velocidade da luz ou transferências instantâneas de himalaias de dinheiro. O mais importante é que esses aparelhinhos possibilitam cálculos e simulações que, nas esbórnias precursoras - anos 20 ou anos 70 -, demandavam semanas para serem completadas nas mãos de doutos matemáticos das universidades. Hoje, basta saber digitar os comandos certos do laptop e os resultados das simulações podem ser apreciados instantaneamente, mais precisos que os do passado.

Esse não foi um avanço apenas técnico. Nas entranhas dos laptops são testadas as grandes criações dos magos das finanças modernas: como obter lucros presentes só com expectativas futuras; como transformar papo furado em dinheiro no banco; como tornar débitos em créditos, prejuízos visíveis em realizáveis diferidos, papéis da Merposa em ações valorizadas; enfim, neles nasceu a engenharia da gigantesca indústria que nem Bill Gates teria imaginado nos seus mais criativos momentos: a indústria dos derivativos, que não fabrica nada, não tem instalações, não fica em lugar nenhum, mas está em todos eles e cujo insumo é só um: a ganância.

É hora, sem dúvida, de lhe pôr freios eficazes.

*Marco Antonio Rocha é jornalista.
E-mail: marcoantonio.rocha @grupoestado.com.br

11/10/2008 - 09:39h ”Eu não falo em morte se visito alguém no hospital”

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Presidente Lula explica seu otimismo e diz que seu papel é passar serenidade à sociedade brasileira

João Domingos - O Estado de São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo vai ajudar as empresas brasileiras a obterem os empréstimos necessários para enfrentar a crise econômica mundial. “Nunca fiz tantas reuniões com o presidente do Banco Central (Henrique Meirelles) e o ministro da Fazenda (Guido Mantega), porque nós temos que acompanhar (tudo) com lupa, para não sermos pegos de surpresa”, disse o presidente em entrevista aos portais na internet, entre eles o limão.com.br, do Grupo Estado.

Lula disse que seu papel é o de passar serenidade para que a sociedade continue acreditando no País. Ele admitiu que a crise é “profundamente forte”, mas o Brasil está preparado. “Essa é a diferença básica, e por isso nós vamos continuar incentivando (as empresas)”. Ele afirmou ainda que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e os programas sociais estão mantidos.

Apesar do otimismo, Lula disse que, se a crise implicar diminuição dos investimentos, ou o governo for obrigado a diminuí-los, tomará as medidas necessárias. “Com a mesma serenidade que digo que o Brasil está em um momento bom, eu vou dizer: ?companheiros, a situação está se agravando e nós vamos ter que fazer isso, fazer aquilo?, e anunciar as medidas”, disse o presidente.

NATAL

“Eu continuo otimista que nós vamos ter um Natal extraordinário. Até porque, embora o Brasil participe da economia global, a crise não chega do mesmo tamanho em todos os países. No Brasil, nós ainda não temos nenhum grande projeto que tenha sofrido qualquer arranhão. A decisão do governo é manter todas as obras do PAC.

Portanto, eu acho que precisamos nos preparar para comprar tudo aquilo que a gente sonha comprar no Natal e torcer para que o Ano Novo seja infinitamente melhor.”

ATÉ ONDE A CRISE VAI

“Os dados do IBGE mostram que o emprego continua crescendo. Portanto, embora essa seja uma crise muito maior que todas as outras que aconteceram, seja a russa, a asiática ou a do México, o Brasil está mais preparado.

É como se tivéssemos tomado uma vacina contra uma doença. Então, ela está demorando para chegar ao Brasil. Talvez, se chegar, chegue em proporção muito menor do que nos Estados Unidos ou na Europa.”

O POVO E A CRISE

“O povo está vendo na televisão, e é preciso saber como essa crise é vendida todo santo dia. Eu me lembro de uma vez em que morreu uma galinha em Marília e colocaram na televisão que era gripe aviária. O que aconteceu? Diminuiu o consumo de frango no Brasil, e a gripe aviária não tinha nem chegado aqui. A questão da febre amarela, dos macacos aqui, foi vendida como uma coisa nacional, quando era uma coisa localizada. Então, é preciso que a gente dê às crises a dimensão que elas têm.”

LULA, O OTIMISTA

“Tem muita gente que fala ‘o presidente Lula está muito otimista, não está vendo a crise’. Ora, meu Deus do céu! Eu sou um tipo de ser humano que, quando vou visitar alguém no hospital, não fico contando para ele quantas pessoas já morreram daquela doença, eu fico contando das pessoas que se curaram. O meu papel é passar serenidade para a sociedade brasileira, a verdade absoluta para o povo brasileiro.”

BANCOS ESTÃO BEM

“Não há sinal de que os bancos estejam metidos no subprime. Se tiverem, vai aparecer em algum momento. Isso é como boletim de criança que tira nota baixa e quer esconder do pai. Não adianta, um dia aparece. Então, é melhor que as pessoas contem logo, para as pessoas tomarem posição.”

O PROER DE FHC E HOJE

“Alguns já estão agindo com mais sabedoria. Eu já vi pessoas mais conservadoras dizerem: ‘nós vamos disponibilizar recursos para os bancos, mas comprando ações dos bancos’. As pessoas já não querem mais dar, como nós demos o Proer.

As pessoas agora estão fazendo o seguinte: ‘Está precisando de dinheiro para garantir a conta corrente das pessoas’ Então, é o seguinte: vou pôr tanto, e isso significa que estou comprando ações desse banco?. Na hora em que a situação melhorar você pode vender, devolver as ações.”

MEDIDAS

“Tomamos medidas para garantir que o Banco Central pudesse fazer redesconto. Nós tomamos como primeira medida diminuir o compulsório para que os bancos grandes pudessem comprar as carteiras dos menores. O Banco do Brasil, por exemplo, comprou três carteiras.

Nós fomos informados depois de que havia uma pressão dos bancos grandes em cima dos pequenos, ou seja, é aquele negócio, não é? As pessoas querem levar vantagem em tudo. Não vamos permitir que os bancos pequenos fiquem reféns dos bancos grandes. Vai o próprio Banco Central fazer o redesconto.”

07/10/2008 - 09:12h Contágio pode quebrar a zona do euro

Angela Merkel, primeiro-ministro da Alemanha
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Larry Elliott * - O Estado de São Paulo

De certo modo, quando o ministro das Finanças da Alemanha, Peer Steinbrueck, disse no mês passado que o aperto do crédito era um problema americano, houve a sensação de que ele estava desafiando o destino. Quanto tempo levaria para que o contágio que limpou Wall Street e a City de Londres também fizesse uma ou duas vítimas no setor bancário da zona do euro? Bom, as palavras presunçosas de Steinbrueck mal saíram da sua boca, e recebemos a resposta. Belgas e holandeses tiveram de resgatar o banco Fortis; os irlandeses trataram de estender uma garantia geral para os seus depósitos, com medo de que pelo menos um, e provavelmente dois de seus grandes bancos estivessem perto de capotar.

A reflexão de Steinbrueck sobre a possibilidade de os Estados Unidos estarem perdendo seu status de potência hegemônica da economia mundial foi interrompida pela necessidade de buscar a aprovação de Bruxelas para a malfadada operação de resgate do grupo HRE alemão, de 35 bilhões de euros. E no final de semana os líderes dos quatro grandes países da Europa - Alemanha, França, Itália e Grã-Bretanha - convocaram uma reunião de cúpula global de emergência para o próximo mês. Uma lição para os ministros das Finanças: procurem não irritar os deuses.

O crescimento da França no terceiro trimestre baixou de 0,7%, no terceiro trimestre do ano passado, para 0,4% em cada um dos dois trimestres seguintes, depois tornou-se negativo em 0,3% no segundo trimestre deste ano. Christine Lagarde, a ministra das Finanças, prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) sofrerá nova contração no terceiro trimestre. O que equivale tecnicamente a uma recessão: dois trimestres consecutivos de resultados em queda.

A Itália teve um desempenho ainda pior. O PIB caiu tanto no quarto trimestre de 2007 quanto no segundo deste ano, empurrando a taxa de crescimento anual já anêmica para zero. Na França, é 1,1% e na Grã-Bretanha, 1,4%. A Alemanha obteve o melhor desempenho das quatro principais economias da Europa, mas também está reduzindo o crescimento, porque a demanda de suas exportações foi afetada pela crise global. A produção alemã caiu 0,5% no segundo trimestre, empurrando sua taxa anual de crescimento para 1,7%.

Em comparação, a expansão anual dos Estados Unidos é de 2,2%, embora seu forte desempenho no segundo trimestre se devesse a um corte único dos impostos de US$ 150 bilhões, e agora a economia pareça estar baixando seu ritmo ainda mais rapidamente. Há evidências de que em todo o mundo desenvolvido está havendo uma redução do ritmo, e isto ocorre nos países que seguem tanto o modelo da Europa continental quanto o anglo-saxônico: nos países em que surgiram bolhas no mercado da habitação, e nos que não houve bolha; nos países que adotaram o euro assim como nos que não o adotaram. A Espanha, por exemplo, está na união monetária, mas na sexta-feira anunciou uma ampla queda de 7% da produção industrial e apresenta um aumento acentuado do desemprego.

Três pesquisas realizadas na semana passada entre gerentes de compras na Grã-Bretanha - nos setores da manufatura, serviços e construção - advertiram que há uma recessão. A primeira reunião do gabinete da guerra econômica de Gordon Brown, realizada ontem, havia muito o que discutir.

O quadro é variado no que se refere a Islândia, Noruega e Suíça, que não fazem parte da União Européia. A Islândia está numa situação calamitosa, a confiança em seu sistema bancário em frangalhos e a economia já em marcha a ré acelerada. A Noruega, graças à alta do preço do petróleo, cresce a 3,3%, 1 ponto porcentual acima da Suíça.

Não é fácil enxergar através dessa névoa estatística, mas é possível tirar algumas conclusões. A primeira delas é que nenhum país do mundo desenvolvido ficará imune à crise. A segunda é que os seus efeitos para a “economia real” demoraram para se fazer sentir, mas agora estão se intensificando.

A este respeito, as medidas - ou a falta de medidas - do Banco Central Europeu são curiosas. Ao contrário do Federal Reserve (Fed, banco central americano) ou do Banco da Inglaterra, o BCE decidiu que o aumento da inflação, este ano, causado pelo aumento dos preços do petróleo e dos alimentos , merece a elevação das taxas de juros.

Agora, a inflação está caindo e, a julgar pelos comentários de Jean-Claude Trichet, seu presidente, o BCE pretende abrandar sua estratégia até o início de 2009, quando haverá abundantes evidências de que Europa, Japão e Estados Unidos estão em recessão, e isto terá um efeito enorme para a Grã-Bretanha, onde 50% das exportações vão para o restante da Europa. Entre os presidentes dos bancos centrais. talvez Mervyn King seja o que mais se aproxima dele.

Queimar lentamente Uma terceira conclusão é que o efeito do enfraquecimento lento do sistema bancário europeu provavelmente tem mais a ver com as diferenças nos sistemas contábeis do que com a maneira como é administrado. Como Steinbrueck sabe muito bem, os bancos alemães imitaram seus equivalentes britânicos e americanos no cassino subprime e fizeram as mesmas apostas questionáveis em derivativos arriscados. O que aconteceu foi que demorou mais tempo para os prejuízos aparecerem.

Uma quarta observação - novamente bastante óbvia - é que a zona do euro continua um híbrido. É uma união monetária, mas não uma união política, e portanto, países como a Irlanda tiveram de se arranjar sozinhos na operação de resgate dos bancos em dificuldades. Há uma nítida distinção entre os Estados Unidos, onde o governo tem peso financeiro em todos os 50 Estados, e a União Européia.

Convocar uma cúpula global não é a mesma coisa que fazer algo concreto, e Angela Merkel deixou claro que a Alemanha não ajudará bancos malandros de outros países da União Européia. O Banco Europeu de Investimentos decidiu liberar uma ajuda de emergência de 12 bilhões de libras esterlinas (US$ 2 bilhões) para as pequenas empresas, mas dada a dimensão e a escala da crise da União Européia, a quantia é insignificante.

No longo prazo, as uniões monetárias não sobrevivem sem uma união política, e portanto a quinta conclusão é que há pressões tanto para uma integração maior quanto para a desintegração. A crise poderá fortalecer os que argumentam que as medidas corretivas são intrinsecamente instáveis e continuarão assim até que haja uma união fiscal e monetária. Por outro lado, a crescente ameaça de recessão poderá levar alguns países a questionarem se valerá realmente a pena continuar numa união monetária.

Charles Goodheart, da School of Economics de Londres, observou na semana passada que nos últimos anos houve variações extremas na competitividade, nos custos da mão-de-obra e nas balanças comerciais em toda a zona do euro. As preocupações do BCE com a inflação só poderão ser corrigidas pelos países que registram grandes déficits da conta corrente, como a Espanha, ou que sofrem de uma profunda falta de competitividade, como a Itália, crescendo mais lentamente e reduzindo o padrão de vida. Evidentemente, estas não serão medidas populares.

Goodheart conclui que, se tivessem de decidir agora, alguns membros da união monetária votariam contra seu ingresso.

Optar não aderir é muito diferente de decidir sair, e haveria consideráveis conseqüências para um país que voltasse a adotar sua moeda nacional em lugar do euro. Goodheart aponta para o risco de que a união monetária possa quebrar-se em 10% a 20%, o que é pouco, mas certamente não deixa de ser significativo.

*Larry Elliott é editor de Economia do jornal britânico ‘The Guardian’

03/10/2008 - 11:17h Crédito e commodity são risco para AL, diz revista

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Leandro Modé - O Estado de São Paulo

A despeito das mudanças econômicas promovidas nos principais países da região nos últimos anos, a América Latina ainda é mais dependente dos Estados Unidos do que muitos supõem. A avaliação é da revista britânica The Economist, que publicou ontem, em seu site, uma reportagem sobre o impacto da crise dos EUA nas Américas do Sul e Central.

Segundo a revista, uma prova de que os laços ainda são muito próximos foi a forte queda do Índice Bovespa na última segunda-feira, quando a Câmara dos Representantes rejeitou o pacote de socorro do sistema financeiro apresentado pelo governo Bush. Enquanto o Índice Dow Jones perdeu 7% naquele dia, o principal termômetro da bolsa paulista caiu 9%.

Ainda assim, a Economist reconhece que alguns países da região - notadamente Brasil, México, Colômbia e Peru - estão mais bem preparados para enfrentar a crise.

No caso brasileiro, a revista destaca a solidez do sistema bancário, em parte pelo fato de que as instituições financeiras do País não estavam expostas aos papéis lastreados em hipotecas subprime. A outra razão é que os bancos brasileiros “não são dependentes do crédito estrangeiro”.

Crédito, aliás, é um dos dois vetores de contaminação da região. “Particularmente para os exportadores”, diz o texto. “Se (a restrição) se prolongar, os bancos vão se voltar aos clientes domésticos, deixando menos crédito para o resto.”

O outro vetor de preocupação diz respeito aos preços das commodities, uma vez que praticamente todos os países da região se beneficiaram das altas desses produtos. Alguns, para a Economist, sofreriam mais: Venezuela, Argentina e Equador.

“O Brasil, maior economia latino-americana, parece melhor posicionado. Mas as commodities respondem por 50% das exportações, deixando-o, também, vulnerável a uma queda nos preços.”

23/09/2008 - 08:49h O Brasil e a turbulência global

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Antonio Corrêa de Lacerda* - O Estado de São Paulo

O agravamento da crise oriunda do mercado subprime norte-americano traz à tona o debate sobre os possíveis impactos na economia brasileira. Não sem razão. Primeiro, porque, com a economia cada vez mais globalizada, o efeito contágio entre os mercados se amplia; segundo, porque, em nossa experiência histórica, sempre que havia uma turbulência internacional isso diretamente implicava instabilidade e um freio no crescimento do Brasil, com a chamada restrição externa ao crescimento.

Vale uma primeira consideração a respeito da profundidade e extensão dessa crise. Ninguém sabe ao certo até que ponto a turbulência pode chegar, porque isso depende de vários fatores: qual o sucesso das medidas adotadas pelos governos e bancos centrais, como reagem empresários, consumidores e investidores, entre outras variáveis. A economia não vive só de fatores concretos e objetivos, mas também de aspectos subjetivos e comportamentais - as expectativas.

A economia norte-americana goza do privilégio de ser emissora exclusiva do dólar, ainda a moeda de referência internacional, que concentra cerca de 75% de todas as transações mundiais e em torno de 65% das reservas cambiais dos bancos centrais dos demais países, estimadas em US$ 7 trilhões. A despeito da crise, o dólar e os títulos emitidos pelo Tesouro norte-americano seguem exercendo o papel de refúgio para as aplicações. Isso significa um importante trunfo para a recuperação da crise norte-americana. Outro fator importante é a extraordinária capacidade de inovação das empresas e do mercado financeiro daquele país, o que também poderá amenizar e encurtar a instabilidade, dependendo ainda dos fatores já apontados.

No entanto, até lá, devem mesmo prevalecer a volatilidade dos mercados, o encurtamento e encarecimento do crédito e suas conseqüências sobre bancos e empresas, afetando a economia real. O crescimento dos países emergentes, embora em ritmo menor do que nos anos recentes, deve também contribuir para amenizar os impactos negativos advindos das economias centrais.

Para o Brasil, a grande mudança estrutural veio da substancial diminuição da dependência do petróleo. Isso se deveu a um bem-sucedido programa de ampliação da produção de petróleo, assim como a mudança na matriz energética, com a incorporação do etanol e de outras energias renováveis. Nossa dependência de importação de petróleo, que era de 90% do consumo interno nos dois choques da década de 70, foi reduzida a apenas 5% nos tempos atuais.

Outra mudança veio da diversificação dos destinos de exportações. O Brasil ainda exporta pouco pelo seu porte e depende excessivamente de commodities. No entanto, um fator positivo é que houve uma significativa diversificação de destinos das exportações. Apenas 15% se destinam aos EUA, enquanto 25% vão para a Europa, 20% para a América Latina e 15% para a Ásia, destacando os principais. Bem ao contrário do México, que dirige 90% das vendas externas para o mercado norte-americano.

Nas contas externas brasileiras houve uma melhora expressiva, o que diminuiu nossa vulnerabilidade. Nesse ponto, os anos de superávit em conta corrente - aliás, em má hora revertido -, o conforto de US$ 207 bilhões de reservas e a relativamente pequena dívida externa pública representam defesas importantes. No lado fiscal, a dívida interna, além de ter sido reduzida dos 57% para 41% do PIB, nos últimos sete anos, também teve zerada a sua parcela de títulos cambiais, que sempre implicaram ônus em períodos passados de instabilidade cambial.

Feitas essas ressalvas, o efeito da crise se dará, como já ocorre, no mercado de capitais, com a reprecificação de ativos e nos fluxos de capitais. O crédito ficará mais escasso, assim como as exportações serão afetadas pela queda da demanda e dos preços internacionais das commodities. Os 6% de crescimento do PIB no primeiro semestre inevitavelmente serão reduzidos, embora não se espere uma parada brusca, mas uma diminuição de ritmo. Sem esquecer que a qualidade da gestão e a calibragem da política macroeconômica também serão determinantes, ainda mais em mares turbulentos…

*Antonio Corrêa de Lacerda, professor doutor da PUC-SP e doutor em economia pela Unicamp, é economista-chefe da Siemens e autor de Crise e Oportunidade: o Brasil e o cenário internacional (Lazuli) E-mail: aclacerda@pucsp.br

18/09/2008 - 10:24h A Cassandra e o Cavalo de Tróia

O Farol de Alexandria fantasiado de Cassandra, virou Oráculo do seu próprio Cavalo de Tróia
faroldealexandria.jpghttp://www.huffingtonpost.com/theblog/archive/Cassandra1.jpghttp://www.brasilescola.com/upload/e/oraculo.jpghttp://www.fflch.usp.br/dh/heros/humancondition/ensaios/CavaloTroiaLefevre.jpg

Em entrevista ao Programa do Jô, na TV Globo, previsto para ir ao ar ontem à noite, FHC recomendou ainda que o governo Lula segure os gastos. “O Brasil hoje vive um momento bom, com reserva de US$ 200 bilhões. Mas eu já vi, no meu tempo, uma reserva de US$ 70 bilhões desaparecer. Esse é um momento delicado. A mesma coisa que aconteceu lá (nos Estados Unidos) pode acontecer aqui dentro.”

O “Farol de Alexandria” reapareceu como Cassandra, pelo menos no que concerne a credibilidade da profecia. É que no caso, o oráculo é o mesmo que introduziu o Cavalo de Tróia aqui na praça.

Os R$ 70 bilhões que FHC viu desaparecer fugiam do Brasil por causa da política dele. Enquanto o real era artificialmente mantido numa paridade $1=R$1, a balança comercial acumulava déficit trás déficit; a dívida pública atingia cimas abismais e os juros mesmo estratosféricos não asseguravam ninguém, tamanho o buraco gerado pela política de FHC. Foi no governo dele que os gastos públicos crescentes serviam para cobrir os buracos dos juros e da dívida, enquanto o país crescia um pouco acima de zero e a carga tributária a ritmo da cavalaria descontrolada. As reservas fundiram porque o mundo temia o calote e a quebra do Brasil.

O Brasil não está imune a crise dos Estados-Unidos, que arrasta na sua descida aos infernos ao resto do mundo, começando pela Europa. Mas o sistema financeiro e bancário brasileiro não tem, pelo que se conhece, maior exposição no sistema do subprime americano, nem o Brasil depende tanto dos mercados dos países ricos. Mesmo assim, a retração violenta do crédito afetará a todos. A recessão na Europa e provavelmente nos USA vão afetar o comércio mundial e reduzir bruscamente o volume de suas transações por algum tempo.

O governo federal, e as autoridades monetárias e de fazenda estão atentos ao desenrolar da crise para agir reforçando a preservação das posições do país, da sua estabilidade e do seu crescimento econômico.

Mas para alguns é o momento de semear dúvidas, após terem sido os que presentearam o Brasil com o Cavalo de Troia do neo-liberalismo, do Estado mínimo e do mercado desregulado.

O oráculo da mitologia era o umbigo do mundo e ali se dirigiam os que procuravam orientação. O nosso oráculo tupiniquim ocupou o programa satírico de Jô para olhar para seu próprio umbigo e foi traido pelo seu inconsciente: o que acabou prevendo, foi sua própria responsabilidade no passado.

Luis Favre

18/09/2008 - 09:03h ”Crise é o Muro de Berlim do livre mercado”

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Instituições voltadas para os mercados nas economias de mercado quebram e pedem socorro ao governo, diz Stiglitz

Nathan Gardels e Global Viewpoint - O Estado de São Paulo

http://blogs.zdnet.com/open-source/images/joseph-stiglitz.jpgCom a profunda crise por que passa o sistema financeiro mundial, puxada pela quebra das principais instituições de crédito dos Estados Unidos, Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, avalia que a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo. A seguir, principais trechos da entrevista ao editor do Global Viewpoint.

Barack Obama disse que a quebradeira de Wall Street é a maior crise desde a Grande Depressão; John McCain afirma que a economia está ameaçada, mas que é fundamentalmente forte. Quem tem razão?

Obama está muito mais próximo da verdade. De fato, os Estados Unidos têm pessoas de talento, grandes universidades e um excelente setor de alta tecnologia. Mas os mercados financeiros desempenharam um papel muito importante e foram responsáveis por 30% dos lucros corporativos dos últimos anos. Os principais operadores dos mercados financeiros colheram esses lucros argumentando que estavam contribuindo para administrar o risco e alocar o capital de modo eficiente e, por isso, afirmam, “merecem” os altos retornos. Ficou claro que nada disso é verdade. Eles administraram pessimamente toda a situação. Agora esta se voltará contra eles e o restante da economia terá de pagar, enquanto as engrenagens da atividade econômica começam a rodar mais devagar em razão do aperto no crédito. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um vibrante setor financeiro. Portanto, o diagnóstico de Obama é correto: nosso setor financeiro se encontra numa situação desesperadora. E, se está numa situação desesperadora, significa que a nossa economia está na mesma situação. Mesmo se não analisarmos a turbulência financeira, mas o grau de endividamento nacional, federal e do setor da habitação, veremos que há um grave problema. Nós estamos afogando. Se considerarmos a desigualdade, a mais profunda desde a Grande Depressão, veremos igualmente um grave problema. Se considerarmos os salários estagnados, perceberemos outro grave problema. A maior parte do crescimento econômico nos últimos cinco anos teve base na bolha da habitação, que acaba de estourar. E os frutos desse crescimento não foram amplamente compartilhados. Em suma, os fundamentos não são fortes.

Que medida seria necessária para enfrentar a crise de Wall Street?

Evidentemente, não precisamos só de uma nova regulamentação, mas de uma reformulação do sistema regulador. Durante seu reinado à frente do Federal Reserve (Fed) - no qual a bolha financeira e hipotecária foi crescendo -, Alan Greenspan dispunha de inúmeros instrumentos para contê-la, mas não o fez. Afinal, ele foi escolhido por Ronald Reagan por suas atitudes contrárias à regulamentação. Paul Volcker, o chefe anterior da instituição, conhecido por manter a inflação sob controle, foi demitido porque o governo Reagan julgou que ele não atuava de maneira adequada à desregulamentação. Nosso país sofreu, então, as conseqüências da escolha para o cargo de principal regulador da economia de alguém que não acreditava em regulamentação. Portanto, em primeiro lugar, para corrigir o problema precisamos de líderes políticos e de estrategistas que acreditem em regulamentação. Além disso, precisamos adotar um sistema capaz de lidar com a expansão das finanças e de instrumentos financeiros além dos tradicionais bancos.Por exemplo, precisamos regulamentar os incentivos. É preciso começar a pagar bônus pelo desempenho referente a vários anos, e não só a um ano, porque isso acaba encorajando o jogo. As opções de ações estimulam a contabilidade desonesta e precisam ser limitadas. Em suma, criamos incentivos para um mau comportamento do sistema e foi o que tivemos. Também precisamos de “redutores de velocidade” . Historicamente, toda crise financeira esteve associada a uma expansão muito rápida de determinados tipos de ativos, das tulipas às hipotecas. Se conseguirmos reduzir isso, poderemos impedir que as bolhas escapem do controle. O mundo não teria desaparecido se expandíssemos o setor de hipotecas a 10% ao ano, em lugar de 25%. Conhecemos o esquema tão bem que deveríamos ser capazes de fazer alguma coisa para contê-lo. Acima de tudo, precisamos de uma comissão de segurança para produtos financeiros, assim como temos uma comissão para os bens. Os financistas inventaram produtos que não tinham o objetivo de administrar o risco, mas criar o risco. É claro que acredito totalmente em maior transparência. Entretanto, em termos de normas reguladoras, esses produtos eram transparentes do ponto de vista técnico, mas eram tão complexos que ninguém conseguia entendê-los. Se todas as cláusulas desses contratos tivessem sido divulgadas, não teriam acrescentado nenhuma informação útil sobre o risco para os mortais comuns. O excesso de informações não é informação. Nesse sentido, os que pedem maior transparência como solução do problema não compreendem as informações. Quando você compra um produto, quer conhecer o risco, essa é a questão.

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Os títulos respaldados em hipotecas, que estão na base da crise, estão espalhados pelo mundo, de bancos a fundos soberanos na China, Japão, Europa e Golfo. Qual o impacto da crise para eles?

É verdade. Os prejuízos das instituições financeiras européias relativos ao crédito hipotecário subprime foram maiores que nos EUA. O fato de os EUA terem diversificado esses títulos para os seus investidores no mundo todo, graças à globalização dos mercados, amorteceu o impacto nos EUA. Se não tivéssemos diluído o risco, o resultado nos EUA teria sido muito pior. Uma coisa que agora todos compreendem como conseqüência dessa crise são as informações assimétricas da globalização. Na Europa, por exemplo, não se entendia muito bem que as hipotecas americanas são non-recourse (o valor do financiamento não pode superar o valor de mercado do imóvel) - se o valor da casa cai abaixo do valor da hipoteca, você pode devolver a chave ao banco e ir embora. Na Europa, a casa é a garantia, mas o mutuário continua pendurado pela quantia que tomou emprestado, seja qual for. É esse o perigo da globalização: o conhecimento é local porque você está muito mais a par do que ocorre em sua sociedade do que nas outras.

Então, qual é o impacto da crise de Wall Street para a globalização impulsionada pelo mercado?

O programa da globalização está estreitamente vinculado aos fundamentalistas do mercado - a ideologia dos mercados livres e da liberação do comércio. Nesta crise, vemos que instituições mais voltadas para os mercados nas economias mais orientadas para o mercado quebram e pedem o socorro do governo. Todo mundo dirá agora que esse é o fim do fundamentalismo do mercado. Assim, a queda de Wall Street representa para o fundamentalismo do mercado o que a queda do Muro de Berlim representou para o comunismo: ela diz que essa forma de organização econômica não funciona. A conjuntura mostra que a liberação do mercado financeiro não existiu. A maneira hipócrita com a qual o Tesouro americano, o FMI e o Banco Mundial lidaram com a crise asiática de 1997 e a maneira como a atual está sendo tratada enfatizou essa reação intelectual. Agora, os asiáticos dizem: Espera aí, vocês disseram que deveríamos imitá-los nos EUA. Se tivéssemos seguido o exemplo, também estaríamos no caos. Talvez vocês possam se permitir isso; nós, não.”

17/09/2008 - 12:52h 1929 pode acontecer de novo?

José Luis Oreiro e Gabriel Coelho Squeff - VALOR

“O evento econômico mais importante do período Pós-Segunda Guerra mundial foi algo que não aconteceu: não houve uma grande e prolongada depressão”. Essa frase do economista pós-keynesiano americano Hyman Minsky abre o capítulo introdutório do seu livro clássico: “Pode ‘aquilo’ acontecer de novo?”, publicado em 1982. Por “aquilo”, Minsky se referia à Grande Depressão de 1929, o evento mais traumático da história econômica dos Estados Unidos no século XX. Nesse livro, Minsky procura responder a uma questão fundamental, a saber: que ou quais razões têm impedido que a instabilidade crônica das economias de mercado se traduza numa queda profunda e prolongada do nível de atividade econômica, tal como ocorreu nos EUA e demais países desenvolvidos na década de 1930?

Essas questões ganham uma importância redobrada no atual cenário econômico internacional. Em apenas sete dias observou-se: 1) o anúncio de que o Tesouro americano assumiu o controle das gigantes do mercado hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac, conjuntamente a um aporte de US$ 200 bilhões nessas instituições; 2) o pedido de concordata do quarto maior banco do país, o Lehman Brothers; e 3) a solicitação de empréstimo da ordem de US$ 40 bilhões da seguradora AIG ao Federal Reserve (Fed). Como resultado, as principais bolsas de valores caíram: o Ibovespa teve o pior resultado dos últimos sete anos (-7,59%), o índice Dow Jones perdeu 4,42% e o Nasdaq 3,6%; comportamento similar foi observado nas bolsas de valores do Leste Asiático e na Europa Ocidental. Ao que tudo indica, a crise internacional, iniciada em meados do ano passado como decorrência do colapso do mercado de crédito subprime nos Estados Unidos, não só está bem longe do fim, como ainda parece ser muito mais grave do que a maior parte dos analistas acreditava até então. Nesse contexto, coloca-se mais uma vez a pergunta de Minsky: “Pode acontecer de novo?”.

De acordo com Minsky, foram duas as razões pelas quais uma Grande Depressão não surgiu no mundo capitalista desenvolvido, principalmente nos Estados Unidos, no período Pós-Segunda Guerra mundial. Em primeiro lugar, os bancos centrais do mundo inteiro, particularmente o Fed, aprenderam com a crise de 1929 que a sua função primordial é garantir o funcionamento adequado do sistema financeiro, fornecendo a liquidez necessária para a realização de suas operações. Quando a estabilidade do sistema financeiro está ameaçada devido a uma crise de liquidez, os bancos centrais devem deixar de lado quaisquer outros objetivos de política monetária, em especial o de controle da inflação. Se não o fizerem, tal como o Fed não fez na década de 1930, o resultado será o um “colapso do crédito”, com efeitos devastadores sobre o nível de produção e de emprego. Nesse cenário, é preferível “salvar alguns pecadores” (ou seja, impedir que bancos que se arriscaram demais na fase de expansão quebrem) do que permitir, em nome do combate ao “risco moral”, que os inocentes venham a perecer (ou seja, todos os demais indivíduos que não tiveram nenhuma participação direta na euforia especulativa).

A segunda razão é que o orçamento e os gastos do governo passaram a responder por um percentual muito maior do PIB no período Pós-Segunda Guerra mundial do que na década de 1930. O orçamento público funciona como uma espécie de estabilizador automático do nível de atividade econômica. Quando a produção e o emprego se contraem em função de uma diminuição da demanda agregada induzida, por exemplo, pela queda do consumo do setor privado, a arrecadação de impostos diminui e os gastos do governo aumentam (em função, por exemplo, do pagamento de seguro desemprego). O aumento do déficit fiscal do governo atua no sentido de sustentar o volume agregado de lucros, permitindo assim às empresas obterem um fluxo de caixa suficiente para fazer frente às suas obrigações com os bancos. A sustentação dos lucros por intermédio do aumento do déficit público impede que a economia entre num processo de “deflação de ativos”, no qual as firmas são obrigadas a vender seus ativos com maior liquidez para fazer frente às suas obrigações com os bancos comerciais, o que induziria uma queda dos preços dos ativos de capital, a qual teria efeitos negativos sobre as decisões de investimento das empresas e, portanto, sobre a demanda agregada, aprofundando a queda do nível de atividade econômica.

Em resumo, para Minsky uma grande depressão pode ser evitada se duas condições forem atendidas: 1) os bancos centrais devem atuar como “emprestadores de última instância” para impedir o aprofundamento de uma crise de liquidez; 2) o Tesouro deve sustentar os lucros a nível agregado por intermédio de uma política deliberada de aumento do déficit público.

Essas duas condições têm sido atendidas pelo Fed e pelo Tesouro dos EUA. O primeiro tem atuado intensamente por meio de suas linhas de redesconto para proporcionar a liquidez necessária ao funcionamento “normal” do sistema financeiro. Mais precisamente, o banco central dos EUA já emprestou centenas de bilhões de dólares a instituições financeiras em dificuldades para evitar o colapso das mesmas. O Tesouro americano, por sua vez, não só adotou uma política fiscal expansionista por intermédio de uma redução temporária do imposto de renda das pessoas físicas, como ainda socorreu com títulos públicos as operações das duas maiores empresas de hipoteca americanas.

Então podemos dormir tranqüilos, confiantes de que nada parecido com a crise de 1929 pode ocorrer outra vez? Não necessariamente. Somente a absorção das operações da Fannie Mae e da Freddie Mac no orçamento do governo americano aumenta o problema fiscal dos EUA. Sem contar as operações dessas empresas, o endividamento público dos EUA é superior a US$ 5 trilhões. O passivo dessas empresas é de um montante igual a esse valor. Se somarmos os dois valores, então teremos um passivo exigível do governo americano de cerca de US$ 10 trilhões, ou cerca de 80% do PIB dos EUA. O déficit fiscal para o ano fiscal de 2008 está estimado em mais de US$ 400 bilhões. Esses números indicam que o instrumento fiscal está bastante sobrecarregado. E se for necessário um novo pacote de estímulo fiscal para impedir que a economia entre em recessão, o Tesouro americano terá condições, nesse cenário, de aumentar o seu déficit? Até quando os mercados financeiros estarão dispostos a comprar títulos do governo americano num contexto de endividamento alto e crescente?

Não existem respostas prontas para essas perguntas. A única coisa que podemos fazer é torcer para que a resposta a elas seja “sim”. Do contrário, a pergunta lançada por Minsky há aproximadamente 25 anos poderá ser respondida de maneira afirmativa.

José Luis Oreiro é professor do Departamento de Economia da UNB e pesquisador do CNPq. E-mail: jlcoreiro@terra.com.br. Página pessoal: www.joseluisoreiro.en.br .

Gabriel Coelho Squeff é economista da Finep. E-mail: gabriel@finep.gov.br.

15/09/2008 - 05:33h Wall Street teme próxima vítima


criseusa.jpgInvestidores acreditam que apostas de especuladores ajudaram no colapso do Lehman Brothers

Para analistas, instituições com problemas de caixa podem se tornar vítimas de especuladores que apostam na queda no preço de ações

LOUISE STORY DO “NEW YORK TIMES” - FOLHA SP

Em maio, David Einhorn, uma das mais importantes vozes entre os especuladores que lucram com a piora do mercado, não fez nenhum segredo de que estava apostando contra o Lehman Brothers. Agora, alguns investidores temem que gestores de fundos como ele se aproveitam do atual clima de pânico detonado pelos problemas com o Lehman para escolher outra instituição financeira em dificuldades, cujas ações com preços declinantes possam trazer a eles outros prêmios gordos.
Em encontros de emergência ao longo do final de semana, os chefes das maiores instituições financeiras deram um ultimato em Timothy Geithner, presidente do Federal Reserve de Nova York, e no secretário de Tesouro americano, Henry Paulson, para que considere a possibilidade de a SEC (equivalente à CVM dos Estados Unidos) trazer de volta uma regra temporária para limitar o risco -potencialmente lucrativo- de apostar no derretimento do preço de ações de uma empresa, de acordo com duas pessoas próximas às negociações.
Eles estão preocupados que esses especuladores possam fixar um novo alvo em outra grande instituição financeira. Mas os investidores de Wall Street talvez podem respirar melhor agora que o Merrill Lynch, outra instituição freqüentemente mencionada, parece ter fechado a sua venda para o Bank of America, e a gigante seguradora AIG deslanchou um plano de reestruturação para fortalecer seu caixa.
Em julho, a SEC interrompeu a prática conhecida como posição vendida (que aposta na baixa) de curto prazo após especuladores terem feito grandes apostas que as ações da Fannie Mae e da Freddie Mac, as gigantes problemáticas das hipotecas, poderiam desabar. Isso também tornou mais difícil, apesar de não impossível, apostar contra as ações de outras 19 instituições financeiras, incluindo bancos de investimento como Lehman Brothers e Morgan Stanley.
A tática de apostar que uma ação vai cair não é nova, mas se tornou particularmente controversa no último ano, quando as empresas de Wall Street começaram a ser escolhidas à medida que a crise virou o setor financeiro de cabeça para baixo.
Esses investidores e os apoiadores do seu mercado livre dizem que não fizeram nada de errado. Se alguma coisa eles fizeram foi meramente apontar problemas em instituições financeiras antes de todos, proporcionando um alerta para o resto do mercado. Os críticos acreditam que eles contribuíram com a velocidade de queda de inúmeras ações do setor financeiro.
Apostar contra instituições financeiras provou-se particularmente lucrativa para fundos de hedge. As acusações de Einhorn incluem a reclamação de que o Lehman falhou em contabilizar adequadamente os ativos prejudicados pela crise.
As ações do Lehman já estavam sob pressão quando Einhorn pegou o microfone em maio para falar sobre o caso. O banco, disse à época, se utilizou de uma “contabilidade ingênua” para evitar assumir perdas gigantescas e acabou mantendo em carteira papéis ruins do setor imobiliário.
Einhorn lucrou bastante convencendo pessoas sobre essa visão -as ações do Lehman estavam por volta de US$ 40 quando ele falou, em julho, e na semana passada, foram negociadas abaixo de US$ 4.
A pressão dos especuladores teve um papel importante em erodir o valor das ações do Lehman Brothers porque os investidores perderam a confiança na habilidade do banco em recuperar o seu balanço nos quatro meses seguintes às declarações de Einhorn.
Einhorn nunca sentiu vergonha de criticar publicamente o Lehman. Ele apontou erros em dois investimentos do banco em empresas do setor imobiliário -Archstone e Sun Cal- e disse que o Lehman não estimou corretamente as perdas dessas companhias.
Para muitos, Einhorn simplesmente viu o problema antes de todos, e os executivos do Lehman falharam ao reconhecer quanta credibilidade ele tinha na comunidade financeira. Eles afirmam que o banco de investimento teria se dado melhor se tivesse reconhecido mais cedo antes as perdas contábeis e feito um aumento de capital para melhorar o caixa.
Mas, para outras pessoas do mundo das finanças, Einhorn e investidores como ele são perigosos para o sistema financeiro como um todo.
“Uma penca desses homens com grandes bastões estão circulando por aí, rondando certas empresas e atirando contra elas até derrubá-las”, disse Jim Hardesty, presidente do Hardesty Capital Management.
Por suas visões, Einhorn sabe que uma falência pode ser criada. “Nós não iríamos ganhar se o Lehman desabasse e levar todo o sistema financeiro com ele. Um colapso do Lehman não seria uma boa coisa”, afirmou ele em junho.
Einhorn preferiu não comentar sobre esse texto e um porta-voz seu não soube dizer se ele continuava apostando na queda do preço das ações do Lehman Brothers.

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Preocupação é que crise continue a se espalhar e chegue até empresas saudáveis

DO “NEW YORK TIMES”

A reunião no final de semana entre as autoridades do governo americano e os principais dirigentes de Wall Street não ficou restrita ao destino do Lehman Brothers. O grupo discutiu a condição financeira de outras instituições e a situação geral dos mercados financeiros. O temor é que outras grandes instituições como a seguradora AIG e o banco de investimento Merrill Lynch passem por crise similar e também necessitem de bilhões de dólares para fortalecerem seus negócios.
A disseminação dos problemas é mais um sinal de que mesmo a intervenção do governo no setor privado nos últimos meses não foi suficiente para conter a crise em instituições famosas -e que até pouco tempo atrás eram consideradas inatacáveis.
Na verdade, o Lehman e outras firmas vinham dizendo há meses que estavam cuidando dos seus ativos problemáticos ligados ao setor imobiliário, mas as suas ações continuaram a despencar. O resultado disso é que vários investidores não têm mais certeza de quanto valem essas instituições financeiras e não querem mais aplicar nelas enquanto não souberem. Ao mesmo tempo, vários gerentes de fundos de hedge e outros corretores tiveram lucros expressivos com apostas de que essas ações iriam perder valor.
As empresas que assumiram riscos maiores e usaram o endividamento agressivamente para expandir seus negócios foram as primeiras a cair quando o mercado de crédito começou a afundar, e agora as companhias saudáveis é que estão sob pressão. Empréstimos que eram considerados muito melhores do que as hipotecas “subprime” (de alto risco, que deram origem à crise) se tornaram apenas marginalmente mais seguras.
“Você tem que imaginar isso como se estivesse ocorrendo uma epidemia -uma epidemia de destruição de capital”, afirmou James Melcher, do fundo de hedge Balestra Capital.
O governo americano assumiu uma pouco usual posição ativa na crise atual. O Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) organizou, em março, um rápido resgate do banco de investimento Bear Stearns. Há oitos dias, os reguladores federais assumiram o controle das duas maiores empresa de financiamento hipotecário do país, Fannie Mae e Freddie Mac.
Em cada um desses momentos, as autoridades esperavam que o que eles tinham feito era o necessário para retomar a confiança dos mercados, apenas para serem presenteadas com uma nova crise.

15/09/2008 - 05:22h Fed comanda operação de guerra para segurar crise global de crédito

Na iminência da quebra do Lehman Brothers, BC americano orquestra medidas para resguardar outras instituições

O Estado de São Paulo - Agências Internacionais, Nova York


O fracasso nas negociações para a venda do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos americano, após o principal candidato à compra, o Barclays, ter desistido do negócio, colocou a instituição à beira da liquidação. Mas o medo da crise que a quebra do banco provocaria nos mercados financeiros globais precipitou ontem uma série de medidas, que envolvem a ampliação da ajuda do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) aos bancos e uma linha de crédito de US$ 70 bilhões para instituições em dificuldades, criada por um grupo de dez bancos internacionais.

Além disso, o Bank of America fechou acordo para a compra do Merrill Lynch, o terceiro maior banco de investimentos dos EUA, o que ajuda a restaurar a confiança nos mercados. E a American International Group, gigante dos seguros americana, que também vem sendo afetada com a crise das hipotecas de alto risco, deve anunciar hoje uma grande reorganização .

Uma das principais medidas anunciadas ontem pelo Fed é a ampliação dos tipos de garantias que os bancos podem apresentar para conseguir linhas especiais de crédito. Essas linhas foram aumentadas de US$ 175 bilhões para US$ 200 bilhões. A ampliação da ajuda do Fed às instituições financeiras é uma reviravolta em relação à decisão anterior do governo americano - depois de duras críticas - de não mais socorrer as vítimas da crise de crédito.

O primeiro socorro foi em março, ao Bear Sterns, quando o Fed intermediou negociações envolvendo US$ 30 bilhões para que o JP Morgan Chase ficasse com o banco. No fim de semana passado, as gigantes Fannie Mae e Freddie Mac receberam um aporte de US$ 200 bilhões.

A incerteza criada após o impasse nas negociações para a venda do Lehman Brothers acabaram forçando o banco central americano a tomar uma nova atitude nesse sentido. O Fed participou de uma série de reuniões nos últimos três dias com representantes das principais instituições financeiras em Wall Street “para identificar debilidades potenciais no mercado à luz dos problemas de uma grande instituição financeira, e para considerar as respostas apropriadas”, disse o presidente do órgão, Ben Bernanke. Os passos anunciados ontem, segundo Bernanke, “têm como objetivo mitigar os riscos e alterações potenciais nos mercados”.

O medo de uma quebra do Lehman Brothers, com seu potencial efeito devastador sobre os mercados financeiros globais, também foi a mola propulsora da decisão de dez bancos - Bank of America, Barclays, Citibank, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, JP Morgan, Merrill Lynch, Morgan Stanley e UBS - de criarem um fundo de US$ 70 bilhões para ajudar instituições financeiras em dificuldades. Cada um dos bancos entra com US$ 7 bilhões no fundo.

Outra boa notícia para os mercados financeiros é a compra do Merrill Lynch pelo Bank of America. O terceiro maior banco de investimentos dos Estados Unidos também vinha atravessando momentos de grande turbulência, e fechou o segundo trimestre com prejuízo de US$ 4,6 bilhões. Para analistas, com uma eventual quebra do Lehman Brothers, o Merrill Lynch poderia se transformar na próxima vítima, com conseqüências ainda mais imprevisíveis para os mercados.

Segundo o Wall Street Journal, o Bank of America vai pagar US$ 29 por ação do Merrill Lynch, em uma transação de cerca de US$ 44 bilhões. Ironicamente, até o sábado, o Bank of America era considerado um forte candidato à compra do Lehman.

Com toda essa movimentação, o que ainda não fica claro é o destino do próprio Lehman Brothers. Com 158 anos de atividade, a instituição foi derrubada pela crise das hipotecas de alto risco, o subprime, e acumula US$ 85 bilhões em ativos podres, principalmente os de caráter imobiliário. Ontem, uma das hipóteses aventadas para o banco, segundo o The New York Times, seria fazer com que as subsidiárias do Lehman permanecessem solventes, enquanto a holding seria liquidada.

09/09/2008 - 15:42h Conservator Tabajara e estatização

VINICIUS TORRES FREIRE


Para o governo Bush, controle estatal de megaempresas é “conservatorship”. Para Paul Krugman, é “desprivatização”

http://images.publicradio.org/content/2008/04/18/20080418_freddie_mac_and_fannie_mae_logos_18.jpg“CONSERVATORSHIP” é o nome que o governo Bush deu ao controle estatal das duas maiores empresas de financiamento imobiliário do país.
Um “conservator” é um tutor ou interventor. “Conservator” lembra Organizações Tabajara. Os problemas do mercado podem não ter acabado, mas o “Conservator” limpa de graça a lambança que o mercadismo promoveu, em propaganda e atos.
Paul Krugman chamou a coisa de “desprivatização”. O economista de Harvard, da “esquerda” americana, é colunista do “New York Times” (no Brasil, Krugman seria “ortodoxo”, mas passemos). Escreveu em seu blog: “Prefiro que as pessoas não digam que Fannie e Freddie foram “nacionalizadas” [estatizadas]. Quer dizer, está basicamente certo, mas passa uma impressão errada”.
Krugman lembra que a Fannie Mae era uma agência estatal criada em meio à Grande Depressão, em 1938, e privatizada em 1968. Acha que tais empresas não devem ser privadas. Por isso, diz meio sarcasticamente que elas foram “desprivatizadas”. “Não é como o caso do governo britânico, que [no passado] tomou as siderúrgicas. É algo como despedir o pessoal da Blackwater [os mercenários contratados pelo governo dos EUA] e devolver a responsabilidade pela segurança dos diplomatas para os fuzileiros [marines]”.
Bradford DeLong é outro economista reputado, professor de Berkeley. Foi subsecretário-assistente do Tesouro no governo Clinton. Em seu blog, DeLong duvida que o negócio de empacotar dívidas imobiliárias deva ser privado. Chama a “conservatorship” de estatização.
Gregory Mankiw também é de Harvard e autor de um popular livro-texto de introdução à macroeconomia. Foi presidente do Conselho de Assessoria Econômica de George Bush, filho. É ultraliberal, mas não se opôs à inevitável “conservatorship”, que para ele resultou de um “takeover” (tomada de controle ou aquisição). Mas diz no seu blog que fica “entristecido toda vez que uma empresa que visa o lucro é socorrida, seja a Chrysler, o LTCM, o Bear Stearns ou a Fannie Mae e a Freddy Mac”. É o argumento tradicional: socorro para falidos (e para quem tem negócios com eles) é um incentivo ao risco irresponsável.
O governo “conservator” será dono de Fannie Mae e Freddie Mac. Vai emprestar dinheiro às empresas a 10% ano (caro, mas menos que bancos estão pagando na praça). Vai fazer dívida pública a fim de financiar a comprar títulos lastreados em prestações imobiliárias (os ativos dessas empresas) e não vai vender tais papéis no mercado a fim de evitar que percam ainda mais valor, tentando conter assim o aumento do buraco em bancos e fundos.
Difícil imaginar outra saída. Dir-se-á que os donos dos negócios socorridos estão sendo expelidos do controle ou vendo suas ações virarem pó (mas não é o caso do seguro grátis que o Fed dá para os papéis podres dos bancos, que servem de garantia para empréstimos oficiais).
Mas tais negócios já não valiam nada. O dinheiro grosso foi feito durante a festa e ficou com os convidados, que não pagam o seguro implícito, fornecido pelo Estado e que limpa a sujeira. Não é, óbvio, o caso de jogar o mercado fora, mas de dar cabo da gororoba ideológica do mercadismo.

vinit@uol.com.br

09/09/2008 - 12:07h O poder da deflação

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PAUL KRUGMAN - DO “NEW YORK TIMES” - FOLHA SP

SALVAR AS instituições de crédito hipotecário salvará o mundo? Quem dera fosse simples assim.

A tomada de controle das gigantes Fannie Mae e Freddie Mac era decerto a coisa certa a fazer, e a maneira pela qual foi realizada também merece elogios. O plano ajudará a sustentar instituições que desempenham papel crucial na economia, enquanto reduzirá os custos para os contribuintes ao mais ou menos zerar os valores dos ativos dos acionistas.

Mas a medida precisa ser vista em contexto mais amplo, o da tentativa do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) e do Departamento do Tesouro de conter os efeitos adversos da crise financeira. E essa é uma luta que as autoridades parecem estar perdendo.

Passou muito tempo desde que Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, declarou que uma bolha nacional no setor de habitação era “altamente improvável”. Tivemos a tal bolha e, desde que ela estourou, dois anos atrás, os preços dos imóveis residenciais vêm caindo mais rápido do que o fizeram durante a Grande Depressão.

A queda nos preços das casas, por sua vez, conduziu ao muito temido fenômeno da “deflação de dívidas”. Sim, deflação: os preços estão subindo no varejo, mas o valor dos ativos, aqueles que importam nos balanços, está em rápida queda.

Como observou o economista Irving Fisher em 1933, quando indivíduos e empresas altamente endividados encontram dificuldades, em geral vendem ativos e usam os proventos para saldar suas dívidas. O que Fisher apontou, no entanto, foi que vendas como essas terminam por se tornar contraproducentes nos momentos em que todos agem do mesmo jeito: a queda resultante nos preços de mercado solapa as posições financeiras dos devedores mais rápido do que é possível liquidar as dívidas. Assim, a deflação nos preços dos ativos pode se tornar um círculo vicioso.

E uma das conseqüências do que ele chamou de “estouro de liquidação” é uma severa desaceleração econômica. É isso que está acontecendo agora, e a deflação de dívidas passa por problemas especialmente espinhosos porque os principais protagonistas do mercado estão altamente alavancados -ou seja, seus ativos foram em larga medida adquiridos com dinheiro que tomaram de empréstimo.

Como definiu Paul McCulley, do fundo de investimento Pimco, em ensaio recente intitulado “O Paradoxo da Desalavancagem”, nos últimos meses mais ou menos todas as instituições financeiras estavam tentando reduzir sua alavancagem, mas a queda nos valores dos ativos ainda assim fez com que suas dívidas crescessem, como proporção de seus ativos totais.

E os números continuam a piorar. Em julho de 2007, Ben Bernanke, atual presidente do Fed, sugeriu que os prejuízos com o mercado de títulos hipotecários de risco (”subprime”) seriam de menos de US$ 100 bilhões. No mês passado, o total ultrapassou os US$ 500 bilhões e seguem crescendo.

O que nos conduz a Fannie e Freddie -as duas únicas instituições de grande porte que não haviam entrado na corrida da desalavancagem, e é por isso que respondem no momento por 70% dos novos empréstimos hipotecários. Mas suas fundações financeiras foram solapadas pela deflação de dívidas, mesmo que seus empréstimos demonstrem mais responsabilidade que a média.

Assim, era preciso resgatar as duas instituições, ou a deflação de dívidas teria se tornado ainda pior. Mas será o suficiente?
Duvido. A crise financeira nos EUA se parece muito com a do Japão no final dos anos 1980, que levou a uma desaceleração de uma década e preocupou muito economistas americanos e o Fed. Imaginávamos se a mesma coisa poderia acontecer aqui, e economistas do Fed desenvolveram estratégias que supostamente deveriam impedir esse desfecho. Acima de tudo, a resposta a uma crise financeira ao estilo japonês deveria envolver uma combinação muito agressiva de cortes nos juros e medidas de estímulo fiscal, para impedir que uma crise virasse forte desaceleração na economia real.

Quando surgiu a crise atual, Bernanke de fato agiu de forma muito agressiva no corte dos juros e fornecimento de fundos ao setor privado. Mas o crédito se tornou mais, não menos, escasso. E o estímulo fiscal foi tanto pequeno demais quanto mal direcionado.

Como resultado, o esforço de conter a crise parece estar fracassando. Os preços dos ativos continuam a cair, os prejuízos ainda crescem, e o índice de desemprego acaba de atingir sua marca mais alta em cinco anos.

A cada mês que passa, os EUA parecem mais japoneses.

Portanto, sim, resgatar Freddie Mac e Fannie Mae foi uma boa idéia. Mas isso acontece no contexto de uma luta econômica mais ampla. E parece que estamos perdendo.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

23/08/2008 - 09:51h USA: a cratera da crise das hipotecas


O ônus das hipotecas

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Jenny Anderson* - O Estado de São Paulo

Quando as ações da Fannie Mae e da Freddie Mac despencaram, as ações de companhias financeiras padeceram. Mas poucas sofreram tanto quanto as do Lehman Brothers, o encrencado banco de investimento cuja ação perdeu mais de 10% em 11 dias do último trimestre.

Nos últimos 12 meses, o preço das ações da Freddie recuou 95%. Nesse período, o Lehman caiu 76%. O índice financeiro Standard & Poor’s diminuiu 42%. A título de comparação, o Merrill Lynch caiu 68% e o Citigroup, 64%.

A conexão entre Lehman, Fannie e Freddie é clara, diz Richard X. Bove, analista da Ladenburg Thalman. “Os negócios do Lehman são mais amplos que os da Fannie e da Freddie, mas o vínculo é que eles estavam fazendo a mesma coisa - montando pacotes hipotecários e os vendendo”, diz ele.

Ademais, o banco de investimento e as agências patrocinadas pelo governo retinham as hipotecas, que agora estão gerando prejuízos e obrigando as empresas a levantar capital num mercado que não se mostra muito disposto a fornecê-lo.

Os infortúnios do setor imobiliário se espalharam por Wall Street. O Merril Lynch deu baixa de US$ 45 bilhões e o Citigroup de US$ 49 bilhões nos ativos. Eles também embarcaram na farra das hipotecas, e seus acionistas e empregados agora estão pagando o preço.

Mas o Lehman ficou no centro do furacão por causa de seu tamanho menor, sua exposição significativa em hipotecas - cerca de US$ 61 bilhões em hipotecas e ações lastreadas em ativos - e sua aparente relutância em adotar medidas drásticas.

O Citigroup vendeu sua grande franquia alemã de banco de consumo, enquanto o Merrill Lynch se conformou e vendeu um portfólio de US$ 31 bilhões de obrigações de dívida colateralizada relacionada a hipotecas por 22 centavos por dólar, além de sua participação na Bloomberg LP. O Lehman não quis comentar seus planos.

Depois de um trimestre desastroso, analistas rebaixaram suas estimativas para o terceiro trimestre do Lehman. Onde haviam previsto um pequeno lucro, eles agora esperam uma baixa contábil de até US$ 4 bilhões e um prejuízo de US$ 3,30 por ação no trimestre.

Na quinta-feira, Bove elevou a classificação do Lehman para compra, mas isso não confortará os funcionários do Lehman. Ele diz que a companhia está madura para um take over (compra de controle acionário) hostil por causa do desencontro entre o que os investidores pensam que a companhia vale e o que a administração pensa que ela vale - bem mais.

“Os investidores não estão dispostos a aceitar nenhuma visão positiva da companhia; a administração não está disposta a vender por um valor profundamente deprimido”, escreveu Bove. “O palco está pronto para uma oferta hostil pelo controle da companhia inteira.” Com a incerteza reinante nos mercados, não está claro que compradores poderiam se apresentar.

O Lehman vem tentando sair da encrenca. Depois de perder US$ 2,8 bilhões no segundo trimestre, sobretudo por conta de baixas em investimentos em imóveis residenciais, ele levantou US$ 6 bilhões.

Depois de explorar os mercados e diluir a participação de acionistas, está ficando sem opções. Ele colocou à venda seus negócios lastreados em hipotecas comerciais e aproximadamente US$ 40 bilhões de investimentos em imóveis comerciais, segundo pessoas envolvidas nas negociações.

Ele também está buscando ofertas para sua divisão de administração de investimentos, incluindo o muito valorizado complexo de fundos Neuberger Berman, segundo fontes envolvidas nas discussões. Também está tentando vender uma participação a fundos de riqueza coreanos, segundo uma pessoa informada das discussões.

O banco de investimento está tentando agressivamente reduzir o risco em seu balanço com a venda de alguns ativos (no segundo trimestre, o Lehman vendeu US$ 22 bilhões em ativos ilíquidos de um total de US$ 147 bilhões em ativos).

Patrick Pinschmidt, um analistas do setor financeiro para o Morgan Stanley, disse num relatório de pesquisa no fim de julho que não esperava que as vendas de ativos e baixas contábeis seriam tão grandes como no segundo trimestre. Mas “vemos o Lehman continuando a reduzir exposições em imóveis comerciais de olho na redução de seus ativos ilíquidos totais em outros US$ 20 bilhões até o fim do ano”, ele escreveu.

Os investidores estão ficando cada vez mais nervosos com a falta de um plano declarado da administração, enquanto outras condições econômicas enfraquecem. O crescimento global está se desacelerando e o panorama para a Fannie e a Freddie continua nebuloso. Some-se a isso a contínua deterioração do mercado de hipotecas comerciais e residenciais, e o Lehman tem encontrado pouca margem de manobra.

Segundos dados que a Standard & Poor?s divulgou na quinta-feira, mais de 41% das hipotecas subprime contraídas em 2006 estão inadimplentes - uma proporção menor que as do Merrill Lynch e do Morgan Stanley, mas maior que as do Credit Suisse e do JP Morgan (O Lehman não precisa necessariamente reter os papéis hipotecários em pacotes para vender, embora seja mais provável que ele retenha mais pedaços desses que de outros.) Hipotecas para pessoas com o crédito um grau acima do subprime (alto risco), chamado Alt-A, estão sendo leiloadas. A Standard & Poor’s estima que mais de 21% dessas hipotecas feitas em 2006 estejam inadimplentes.

Para agravar ainda mais o panorama já tétrico do setor hipotecário, o desempenho geral dos mercados de capitais está ruim no terceiro trimestre - uma questão para todas as empresas, mas de novo, que parece atingir mais duramente o Lehman.

Os spreads de crédito aumentaram em algumas classes de ativos e grandes empresas continuaram mostrando fraqueza.

Segundo pesquisa do Goldman Sachs, a subscrição de dívida - um grande negócio do Lehman - despencou. Para o setor, a subscrição de dívida garantida por ativos caiu 47% em relação ao trimestre anterior, e a emissão garantida por hipotecas caiu 28%. No total, as emissões garantidas por ativos caíram 80% em relação ao terceiro trimestre de um ano atrás, e as ofertas garantidas por hipotecas caíram 87%.

Para o Lehman, a subscrição de dívidas garantidas por ativos caiu 89% desde o segundo trimestre, e 94% de um ano atrás; a subscrição de dívidas hipotecárias recuou 44% ante o trimestre anterior e 94% ante um ano atrás.

Bove vê todo esse clima ruim como uma oportunidade para um investidor hostil abocanhar o Lehman Brothers, cuja capitalização de mercado recuou para US$ 9,5 bilhões.

“Se vai acontecer, eu não sei”, disse ele. “Poderia acontecer? Seguramente. Oportunidades como essa raramente aparecem nos mercados.”

*O autor escreve para o “The New York Times”

24/07/2008 - 09:10h Crise será longa, mas sem colapso

Paul KrugmanA imagem “http://www.valoronline.com.br/images/edicoes/ed_0002056/imagens/foto_24pri-capa-a1.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

A atual crise financeira dos Estados Unidos e da Europa não deve levar a um colapso na economia global, mas o mundo pode se preparar para alguns anos de desaceleração no ritmo de crescimento. O professor Paul Krugman, da Universidade de Princeton, considera que a ação agressiva e pró-ativa dos bancos centrais foi providencial e deve evitar uma catástrofe econômica semelhante à registrada nos anos 30. Essa avaliação é compartilhada por analistas brasileiros como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. Os três economistas participaram ontem, em São Paulo, do Fórum CPFL Energia, evento que contou com o apoio do Valor e teve como tema “Crise Financeira Internacional e Crescimento da Economia Brasileira”.

Sobre o Brasil, a opinião dominante é de que o novo cenário internacional traz pressões inflacionárias e alguma desaceleração da atividade econômica, mas não a ponto de causar transtornos mais sérios. Krugman lembra que, no meio da crise, o país tem se beneficiado da alta dos preços das commodities, por ser um grande exportador de produtos primários. Com a perspectiva de alguma queda das commodities, ele acha possível que haja uma desvalorização do câmbio.


Luciano Coutinho, residente do BNDES e  Luiz Gonzaga Belluzzo, Pres. do conselho da TV Brasil

Horizonte de incertezas


Por Sergio Lamucci e Cristiane Perini Lucchesi - VALOR

A crise financeira dos Estados Unidos e da Europa que se seguiu ao estouro da bolha imobiliária americana não deve levar a um colapso na economia global, mas o mundo pode se preparar para alguns anos de desaceleração no ritmo de crescimento. Esse é o diagnóstico feito pelo professor Paul Krugman, da Universidade de Princeton, para quem a ação agressiva e pró-ativa dos bancos centrais - como o Federal Reserve, dos Estados Unidos, o Banco da Inglaterra e, em menor grau, o Banco Central Europeu - foi providencial e deve evitar uma catástrofe econômica semelhante à registrada nos anos 30. A avaliação de que os efeitos da crise não serão muito agudos, porém prolongados, é compartilhada por analistas brasileiros como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho.

Quanto ao Brasil, a opinião dominante é de que o novo cenário internacional traz pressões inflacionárias e alguma desaceleração da atividade econômica, mas não a ponto de causar transtornos mais sérios. No meio da crise, o país tem se beneficiado da alta dos preços das commodities, por ser um grande exportador de produtos primários, como nota Krugman. O economista americano participou ontem do Fórum CPFL Energia, realizado em São Paulo. O evento, que contou com o apoio do Valor, teve como tema “Crise Financeira Internacional e Crescimento da Economia Brasileira”.

Ao comentar as origens da crise americana atual, Krugman destacou uma mudança na economia global que teve início depois da crise asiática de 1997. Após a turbulência que acometeu a região naquele ano, muitos países asiáticos adotaram uma estratégia baseada no atrelamento de suas moedas ao dólar, formal ou informalmente, e na acumulação agressiva de reservas internacionais.

O excedente dos superávits comerciais dos asiáticos passou a ser aplicado principalmente na compra de títulos públicos do Tesouro dos EUA. Esse arranjo, pelo qual os países da Ásia passaram a financiar os déficits americanos, ficou conhecido como Bretton Woods II, definição cunhada pelos economistas Michael Dooley, David Folkerts-Landau e Peter Garber. As conferências de Bretton Woods aconteceram em 1944 e determinaram um sistema de câmbio fixo global, usando como base a paridade entre o dólar e o ouro. Esse sistema acabou nos anos 70.

No Bretton Woods II, “países que eram importadores de capital se tornaram exportadores de capital”, disse Krugman. Esse mecanismo ajudou a financiar as bolhas especulativas na economia americana, diz ele, lembrando que os preços dos imóveis nos EUA cresceram 70%, em termos reais, entre 2000 e 2006.

A bolha então estourou, primeiramente com a crise do subprime (as hipotecas de alto risco), que atingiu os mercados internacionais a partir de meados do ano passado. “De agosto de 2007 para cá, nós já tivemos quatro ondas sucessivas da crise. A mais recente foi a da Fannie Mae e da Freddie Mac”, apontou Krugman, em referência às dificuldades enfrentadas pelas gigantes do financiamento imobiliário americano.

Dado o tamanho do problema, seria factível pensar num cenário parecido com o colapso financeiro dos anos 30, disse ele. A grande diferença é que os bancos centrais agiram agressivamente para evitar o pior. Com essa atuação, Krugman acredita que um colapso financeiro como o ocorrido nos anos 30 é muito pouco provável, embora não completamente implausível. “Mas, há seis meses eu tinha mais dúvidas sobre isso”, afirmou ele. Krugman não negou a existência do chamado “risco moral” - moral hazard -, de bancos não-regulamentados receberem garantias governamentais iguais aos regulamentados. “Há o risco de estarem jogando com o dinheiro público”, afirmou. Atuação das autoridades monetárias não deve impedir, também, que os EUA cresçam alguns anos abaixo do seu potencial, advertiu Krugman, que vê o seu país em recessão. “O crescimento só não tem sido mais baixo por causa do dólar fraco, que tem feito aumentar as exportações.”

Belluzzo concordou com a avaliação de Krugman, apostando que a crise não “será aguda, mas será prolongada”. Para Belluzzo, já está em curso um “credit crunch”, ou seja, uma violenta contração do crédito. “Isso gera problemas graves para a economia real”, afirmou ele, para quem também é provável que a economia americana cresça algum tempo abaixo do potencial. Coutinho, por sua vez, enfatizou que os problemas financeiros nos EUA deverão demorar bastante para ser digeridos. Quem previu em maio o fim da crise mostrou-se totalmente precipitado, observou ele.

Krugman considera crucial o papel do câmbio desvalorizado nos EUA para explicar os efeitos globais da atual crise, num mundo em que países importantes como a China tem suas moedas em alguma medida atrelada ao dólar. Além do aumento dos preços das commodities em dólar, Krugman disse que, dado o arranjo de Bretton Woods II, os “EUA estão de fato exportando inflação para o mundo”, com o dólar fraco e os juros baixos. Nos Estados Unidos, que enfrentam uma crise financeira e uma desaceleração da atividade econômica, essa combinação não é inflacionária nem expansionista. Nos países que