08/09/2008 - 19:04h Justiça Federal proibe Kassab de terceirizar saúde, sem licitação e controle público

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Justiça proíbe prefeitura de SP de terceirizar saúde

Globo Online

SÃO PAULO - A Justiça Federal proibiu a prefeitura da capital paulista de usar recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) no pagamento de entidades privadas, nomeadas “organizações sociais”, para prestar serviço público de saúde. A determinação da juíza federal Maria Lúcia Lencastre Ursaia, da 3ª Vara Cível Federal de São Paulo, foi dada no último dia 26 de agosto, mas só foi divulgada nesta segunda-feira.

Segundo o Ministério Público Federal (MPF), autor da ação, a prefeitura passou a transferir bens e recursos públicos do SUS para entidades privadas mediante contratos de gestão, “terceirizando” dessa forma a prestação dos serviços públicos de saúde, à semelhança do que foi feito com o PAS (de 1995 a 2000, na gestão Paulo Maluf). De acordo com o MPF, essas “organizações sociais” seriam selecionadas sem licitação e receberiam do Poder Público bens e recursos financeiros, além de servidores que seriam objeto de cessão administrativa sem controle da atividade e da aplicação dos recursos públicos geridos pelas organizações.

Para Maria Lúcia Ursaia, não há razão que justifique a celebração de contrato de gestão com as “organizações sociais”, com destinação de recursos orçamentários e de bens públicos móveis e imóveis, sem que haja licitação. - A não observância ao regime de Direito Público, que deve reger as relações contratuais para a prestação do serviço público por parte do Estado, é rejeitada por nosso ordenamento jurídico porque ofende o princípio da igualdade - diz a juíza no despacho.

06/05/2008 - 13:39h Doença que não dá IBOPE faz vítimas, mas fica fora do radar da mídia

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AGNER, A MÃE NILCÉA E A IRMÃ LILIAN

por Conceição Lemes - Blog de Azenha

Há décadas 8 de maio é o Dia Mundial da Talassemia. A proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que este 8 de maio, quinta-feira, seja o Dia Mundial das Hemoglobinopatias, englobando a anemia falciforme. São doenças decorrentes de alterações genéticas da hemoglobina, a proteína que, dentro dos glóbulos vermelhos do sangue, “carrega” o oxigênio para todo o organismo. Definitivamente, a OMS incluiu a anemia falciforme em suas prioridades.

Nos dias 9 e 10, o diretor do Programa de Genética Humana da OMS, Victor Bulygin, se reunirá, em Campinas, interior de São Paulo, com organizações governamentais e não-governamentais para discutir uma proposta de diretrizes para os próximos cinco anos. A grande preocupação é o acesso dos portadores de hemoglobinopatias à medicina de qualidade, para prevenir as complicações e o melhor controle dos distúrbios. A anemia falciforme é a doença hereditária mais prevalente no mundo, inclusive no Brasil. É um problema de saúde pública, ainda não tem cura e pode afetar quase todos os órgãos. Atinge principalmente afro-descendentes.

É o caso de Agner Eduardo Gomes da Silva. “Aos 2 anos de idade, percebi que não acompanhava a irmã nas brincadeiras. Vivia cansado, febril e olhos lacrimejantes. Certa vez, a mãozinha inchou. O médico achou que um bicho havia mordido e engessou o bracinho dele”, relembra a mãe Nilcéa Gomes da Silva, 54. “Na segunda vez, prescreveu pomada e antitérmico. Acabei indo num médico particular, que suspeitou de anemia falciforme. O teste confirmou.”

Até os 18 anos, Agner foi tratado no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo. De lá para cá, no Ambulatório de Hemoglobinopatias do Serviço da Hematologia e Hemoterapia da mesma instituição. “Nas aulas de educação física, sempre joguei bola menos tempo do que meus colegas. Aos 11, fiz cirurgia para retirar cálculo renal”, recorda-se. “Aos 18, comecei a ter crises de priapismo [ereção prolongada, dolorosa], que, agora, com medicação, cessaram. De vez em quando, sinto bastante cansaço, dores fortes de cabeça e nas costas.”

Agner tem 29 anos, cursa o último ano da faculdade de Direito e estagia em uma operadora de planos de saúde. Cristelene, sua noiva, já fez avaliação genética. O exame deu negativo. A realidade brasileira, porém, é outra.

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28/04/2008 - 09:36h Saúde está subfinanciada, admite Temporão

DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA DE SÃO PAULO

temporao.jpgO ministro da Saúde, José Gomes Temporão, diz que o maior problema da saúde pública é a falta de dinheiro e que diariamente tenta convencer a equipe econômica do governo a liberar mais recursos. A seguir, trechos da entrevista à Folha:

FOLHA - As pessoas têm razão quando consideram a saúde o maior problema do país?

JOSÉ GOMES TEMPORÃO - A saúde é um grande problema, mas isso pode ser visto por outra perspectiva. Até 20 anos atrás [antes da criação do SUS], a maioria da população não tinha direito a nada. Era tratada como indigente ou objeto de caridade. Hoje 100 milhões de pessoas têm acesso ao Programa Saúde da Família, doenças foram erradicadas, somos o segundo país em transplantes, a mortalidade infantil despencou, a expectativa de vida subiu, temos os programas de Aids e de vacinação. Tratamentos que algum tempo atrás o brasileiro mais pobre não conseguia acessar hoje estão presentes na vida de cada um. Mas o sistema não é perfeito.

FOLHA - Quais são as dificuldades?

TEMPORÃO - A saúde está subfinanciada. A solução se encontra na regulamentação da emenda 29 [que determina o valor mínimo a ser investido em saúde por prefeituras, Estados e União]. Defendo que recursos advindos do consumo de cigarros e bebidas alcoólicas sejam aplicados na saúde, além da criação de um tributo. Também há a questão do gerenciamento. No ano passado, o governo encaminhou ao Congresso o projeto que cria as fundações estatais de direito privado. É impossível administrar com competência, eficiência, qualidade e custos compatíveis e remunerar bem os trabalhadores [de saúde] dentro da administração direta. É por isso que propomos o modelo de fundações, com desempenho por metas e salários competitivos.

FOLHA - Especialistas dizem que investir em saúde é pôr dinheiro num saco sem fundo. O senhor concorda?

TEMPORÃO - Essa comparação faz sentido quando se fala apenas de assistência à saúde. Se você olha a saúde só do ponto de vista da atenção às doenças, você trabalha numa ponta e esquece a outra, que é onde o processo se origina. O Ministério da Saúde está tentando mudar essa agenda, no sentido de trabalhar mais com a promoção da saúde e a prevenção. Eu tenho de impedir que as pessoas adoeçam. Você tem hoje um caldo de cultura que leva a diabetes, hipertensão, doença coronariana, derrame cerebral. Com a doença, eu gasto com internações, cirurgias, CTIs etc. Com a promoção e a prevenção, entram as dimensões relacionadas à boa alimentação, à atividade física regular, a manter o peso, a parar de fumar e a não ingerir bebida alcoólica em excesso. Para prevenir as doenças, o custo é significativamente baixo, porque passa basicamente por políticas de educação, informação e prevenção.

FOLHA - A equipe econômica do governo realmente atrapalha?

TEMPORÃO - Quem cuida das finanças olha para o equilíbrio macroeconômico e para o superávit e segura os gastos. Quem trabalha na área social está mais perto dos problemas da população, é pressionado pela sociedade e evidentemente cobra mais recursos financeiros. Como os dirigentes não usam o sistema público, têm seus planos e seguros de saúde, eles ficam mais distantes. Se todos nós, dirigentes, políticos, deputados, senadores e ministros, fôssemos obrigados a usar o SUS, o sistema público estaria em melhores condições.

FOLHA - O senhor usa o SUS?

TEMPORÃO - Até uso. Como sou médico, acabo sendo atendido por colegas.

FOLHA - Faz parte de seu trabalho diário convencer a equipe econômica a liberar mais recursos?

TEMPORÃO - É um trabalho de todo dia, o tempo todo cobrando mais recursos. O governo tem uma política macroeconômica, metas, limites. Os recursos financeiros são finitos.

FOLHA - O Brasil algum dia vai ter uma saúde de Primeiro Mundo?

TEMPORÃO - Os melhores exemplos são a Inglaterra e o Canadá, que têm sistemas de saúde universais. A pessoa paga seus impostos e tem atendimento em tudo. O Brasil tem um sistema misto, com mais de 140 milhões de brasileiros que dependem do sistema público para tudo e 40 milhões que pagam seguro e plano de saúde. A tendência no Brasil é a convivência harmônica dos dois sistemas. O SUS é uma importantíssima política de redução de desigualdade social. As pessoas não param para pensar nisso. Nós aqui avaliamos tão mal o sistema, mas os estrangeiros ficam perplexos com a filosofia, a organização, o planejamento e os resultados do SUS.

FOLHA - O Brasil será um dia como a Inglaterra ou o Canadá?

TEMPORÃO - A Inglaterra começou seu sistema em 1948. Nós começamos em 1988. E lá as desigualdades sociais são muito reduzidas. É outra história. (RW)

28/04/2008 - 09:26h Para médico, ricos têm visão equivocada de que não precisam do sistema público

Folha de São Paulo

DA REPORTAGEM LOCAL

L'image “http://www.steril-aire.com.br/images/health.jpg” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.Para o médico Gilson Carvalho, especialista em saúde pública, falta dinheiro ao SUS (Sistema Único de Saúde) porque as classes mais ricas pensam que não precisam dele.
São tarefas do SUS o controle de doenças e a vigilância sanitária (fiscalização de medicamentos, alimentos, hospitais e restaurantes). Os procedimentos de hemodiálise, os transplantes de órgãos e a distribuição das drogas de Aids também são pagos pelo sistema público.
“O SUS, ainda que não seja, fica quase classificado como um sistema de saúde de pobres. Falta pressão da classe média e da classe rica em defesa do sistema”, diz Carvalho.
Antonio Ivo de Carvalho, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública, concorda: “O Brasil tem êxitos sanitários laureados internacionalmente”.
As falhas, porém, são grandes. O Rio enfrenta hoje a pior epidemia de dengue dos últimos anos. Os salários dos profissionais de saúde são baixos. O governo paga mal pelos serviços. Faltam remédios e leitos nos hospitais. A espera por uma cirurgia pode durar meses.
O médico Gastão Wagner, que foi secretário-executivo do Ministério da Saúde no início do governo Lula, aponta problemas na organização do sistema. Ele diz que a população nem sempre encontra todos os procedimentos médicos porque os hospitais não conversam entre si para dividir o trabalho. Todos, mesmo os vizinhos, acabam oferecendo apenas aqueles procedimentos que são mais bem remunerados pelo SUS. “Trabalham com a lógica do mercado.”
Para Renilson Rehem, secretário de Assistência à Saúde no governo Fernando Henrique, apesar dos problemas, a saúde pública tem melhorado. “Você tem problema de saúde em qualquer lugar.” (RW)

23/04/2008 - 19:57h Saúde terceiriza exames e entrega de remédios em SP

Deputados temem que haja descontrole e prejuízo à qualidade do serviço

Fabiane Leite - O Estado de São Paulo

O secretário estadual da Saúde de São Paulo, Luiz Roberto Barradas Barata, afirmou ontem que a centralização de exames em poucos laboratórios privados é um processo “irreversível” e revelou outras terceirizações em curso em sua pasta, como a de exames de imagem e da dispensação de medicamentos de alto custo, para doenças como hepatite C.

O secretário afirmou que todos os diagnósticos de dengue do Estado passarão a ser feitos por laboratórios privados. “A terceirização está sendo feita de maneira criteriosa, na busca de qualidade e rapidez”, afirmou o secretário durante audiência pública da Comissão de Saúde e Higiene da Assembléia Legislativa sobre a terceirização de exames clínicos que ocorre no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e em mais de 30 hospitais ligados ao governo estadual. Os deputados temem que as terceirizações impliquem em descontrole e prejuízos à qualidade dos serviços. Barradas, no entanto, destacou que só exames de rotina (urina, glicemia) têm sido terceirizados, não os de emergência.

Segundo Barradas, quatro entidades filantrópicas reconhecidas como parceiras do Estado contrataram laboratórios privados para fazer exames de sangue e urina gastando cerca de um terço do custo anterior, de R$ 17 por exame, e a mesma qualidade. Os valores, no entanto, são contestados por funcionários do instituto.O Ministério Público já abriu inquérito civil público sobre o caso e solicitou à comissão parecer sobre a terceirização no Emílio Ribas.

O relator do caso na comissão, deputado Uebe Rezeck (PMDB), foi contrário à entrega dos serviços a uma unidade privada ligada à empresa Diagnósticos das Américas.

Pela legislação do Sistema Único de Saúde (SUS), serviços públicos da área só podem ser terceirizados se comprovada a incapacidade do Estado para executá-los. As ações devem ser repassadas preferencialmente a entidades sem fins lucrativos.

Barradas foi questionado ontem por supostamente ter feito as terceirizações desrespeitando a legislação do SUS e a própria lei estadual que abriu a possibilidade de parcerias com entidades privadas na administração de hospitais, a chamada lei das Organizações Sociais do Estado. Em 1998, ela permitiu que o setor privado gerisse hospitais novos do Estado, desde que comprovassem capacidade na área, mas vetou o expediente em serviços já estabelecidos, antigos. Os laboratórios atuais foram escolhidos sem licitação, mas Barradas destacou que foram seguidas recomendações do Tribunal de Contas.

Funcionários do Emílio Ribas protestaram durante a audiência. “Estamos com atrasos em exames do ambulatório e enfermaria”, disse Carlos Frederico Dantas Anjos, diretor clínico do hospital. Ele afirmou que após a terceirização faltam kits mesmo para exames que continuaram a ser feitos na unidade.

14/12/2007 - 09:37h “Um dia de luto para a saúde”

Ministro José Gomes Temporão
foto: Tasso Marcelo/Agência Estado

CORPO A CORPO
JOSÉ GOMES TEMPORÃO

Menos de 24 horas depois da derrota no Congresso, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, sentenciou: ontem foi um dia de luto para a saúde pública no país.

O ministro teve taquicardia durante a votação e dormiu mal após o resultado.

Todos os senadores que votaram têm plano de saúde particular e são atendidos nos melhores hospitais brasileiros.

A disputa foi por poder. Votaram de olho em 2010. O interesse público ficou de lado. Isso ficou evidente para mim.

Evandro Éboli

GLOBO: Como o senhor avalia o resultado?

JOSÉ GOMES TEMPORÃO: Hoje é um dia de luto para a saúde pública. A perda é incomensurável.

Foi um grande baque. A história do SUS sempre foi um processo difícil.

Nos anos 90, chegou a ser preciso pegar empréstimo do FAT para pagar hospitais. Aí, veio a luta do Adib Jatene pela CPMF. Depois, Emenda 29

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14/12/2007 - 09:23h "Um dia de luto para a saúde"

Ministro José Gomes Temporão
foto: Tasso Marcelo/Agência Estado

CORPO A CORPO
JOSÉ GOMES TEMPORÃO

Menos de 24 horas depois da derrota no Congresso, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, sentenciou: ontem foi um dia de luto para a saúde pública no país.

O ministro teve taquicardia durante a votação e dormiu mal após o resultado.

Todos os senadores que votaram têm plano de saúde particular e são atendidos nos melhores hospitais brasileiros.

A disputa foi por poder. Votaram de olho em 2010. O interesse público ficou de lado. Isso ficou evidente para mim.

Evandro Éboli

GLOBO: Como o senhor avalia o resultado?

JOSÉ GOMES TEMPORÃO: Hoje é um dia de luto para a saúde pública. A perda é incomensurável.

Foi um grande baque. A história do SUS sempre foi um processo difícil.

Nos anos 90, chegou a ser preciso pegar empréstimo do FAT para pagar hospitais. Aí, veio a luta do Adib Jatene pela CPMF. Depois, Emenda 29

Que sensação o senhor teve logo após ver o placar eletrônico com o resultado?

TEMPORÃO: Deixou um travo amargo para todos que militam na saúde pública. É frustrante. Eu, que milito há 30 anos na saúde pública, tinha a expectativa de um grande acordo. O governo acenou com essa proposta. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) foi claro ao dizer que como pode alguém recusar uma proposta assinada pelo presidente da República e garantindo que todo o dinheiro vai para a saúde? Foi um choque. Estou chocado.

O resultado prático foi o pior possível. Pergunto: quem ganhou com essa decisão

O senhor acreditou que o apelo de Simon pudesse sensibilizar a oposição?

TEMPORÃO: Fiquei impressionado com o não-acatamento.

A decisão foi política e não levou em consideração a necessidade do homem comum, que depende do SUS.

Todos os senadores que votaram têm plano de saúde particular e são atendidos nos melhores hospitais brasileiros.

A disputa foi por poder.

Votaram de olho em 2010. O interesse público ficou de lado. Isso ficou evidente para mim.

Quais serão as conseqüências para o atendimento?

TEMPORÃO: Quem depende do SUS perdeu. O impacto será muito grande. As medidas previstas no PAC da Saúde, como universalização da atenção básica, a ampliação do Samu, o aumento de medicamentos subsidiados na farmácia popular, a construção de hospitais e prontossocorros estão correndo sério risco. Na prática, significa que as filas irão se manter, o mau atendimento e o tempo de espera elevado também.

Vou tentar seguir o que me determinou o presidente, de que a saúde seja prioridade.

Faltou sensibilidade à oposição?

TEMPORÃO: A oposição…

Olha o que ocorreu nos últimos 15 dias: o Pnud mudou o Brasil de país em desenvolvimento para desenvolvido; o IBGE anunciou queda da mortalidade infantil; a expectativa de vida continua crescendo; a economia cresce mais de 5%; o governo Lula aparece na pesquisa CNI/Ibope com aprovação altíssima.

Isso é insuportável para a oposição. Ninguém tolera. É demais. Paradoxalmente, esses indicadores foram avanços na saúde

Deu vontade de deixar o ministério?

TEMPORÃO: Não! Nunca! O que é isso? A guerra nem começou.

As despesas com saúde

Os gastos da Saúde com verbas da CPMF em 2006, de acordo com o Ministério da Saúde: Consultas especializadas: R$ 546,8 milhões
Exames de patologia clínica: R$ 443,1 milhões
Raio X:R$ 468,3 milhões
Ultra-som: R$ 163,9 milhões
Tratamento de câncer: R$ 227,7 milhões
Hemodiálise: R$ 324,5 milhões
Doenças cardíacas e vasculares: R$ 336,2 milhões
Doenças respiratórias e pulmonares (adultos): R$ 320,5 milhões
Doenças respiratórias e pulmonares (crianças): R$ 193,1 milhões
Partos normais e cesarianas: R$ 927 milhões
Transplantes: R$ 147,9 milhões
Procedimentos associados a transplantes: R$ 34,7 milhões
Outros atendimentos ambulatoriais: R$ 334,7 milhões
Outras internações: R$ 903,7 milhões
Total: R$ 15,3 bilhões

08/10/2007 - 13:02h "Brasil precisa mudar rede de saúde para atender idoso"

Folha de São Paulo

Chefe de envelhecimento da OMS defende que os médicos aprendam a lidar com a terceira idade e que o jovem seja sensibilizado para o fato de que “envelhecer é bom’

O Brasil precisa mudar a rede de atenção básica à saúde para atender as necessidades da população idosa, que atinge a marca de 17,7 milhões no país. A análise é de Alexandre Kalache, chefe do programa de envelhecimento e saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde), que está no Brasil para lançar um guia mundial em que o Rio aparece como cidade amiga do idoso.

CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL

Às vésperas de completar 62 anos (dia 17) e se aposentar da OMS, Kalache vai montar no Rio de Janeiro o instituto latino-americano de gerontologia, ligado à Universidade de Londres e que tem como parceiros o Banco Mundial e a Academia de Medicina de Nova York.
“Em vez de ir para casa assistir à TV, vou agitar muito. Vamos levar o Brasil para o mapa da gerontologia internacional e vice-versa. Vou continuar ativo por muitos anos e, depois, vou plantar batatas na minha casinha na Espanha”, diz ele, dois filhos e uma neta.
Há 33 anos morando no exterior, o carioca Kalache é PhD em epidemiologia pela Universidade de Oxford, foi fundador da Unidade de Epidemiologia do Envelhecimento da Universidade de Londres e criador do primeiro mestrado em promoção da saúde da Europa. A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha de Nova York, por telefone, na última sexta.


FOLHA - A OMS tem difundido o conceito de envelhecimento ativo, mas, no Brasil, envelhecer com qualidade ainda é para poucos. Quais estratégias o país precisa adotar para colocar o discurso em prática?
ALEXANDRE KALACHE
- A definição do envelhecimento ativo é baseada em três pilares: saúde, participação e segurança. Na saúde, a coisa mais importante no Brasil é reforçar, capacitar a rede de atenção primária para que ela esteja mais voltada às necessidades dessa população que envelhece. Hoje o SUS está muito voltado para a saúde materno-infantil.
A OMS tem desenvolvido estudos-pilotos, criando uma espécie de caixa de ferramentas sobre como fazer para que o centro de saúde se torne mais amigo do idoso. No Brasil, envolvemos dois centros, em São Paulo [em São Miguel Paulista] e no Rio [em Manguinhos]. Simulamos o envelhecimento, colocamos a equipe no centro de saúde simulando como se tivesse catarata, usando uma lente meio opaca, peso nas pernas, nas coxas, braços, grãos no sapato para doer um pouco, cera no ouvido. As pessoas nunca esquecem dessa experiência.
Também precisamos mudar aspectos administrativos. Existem postos de saúde que não têm nenhum sistema de marcação de consulta. Esses pobres idosos levantam às 5h da manhã, vão até o centro, recebem um número e, ao final da manhã, descobrem que o médico já foi embora e que ele não será mais atendido. Isso é um absurdo, uma falta de respeito. Em relação ao ambiente físico, o centro de saúde precisa eliminar as barreiras físicas, colocar rampas, elevadores, sala de espera mais confortável com acesso ao banheiro.

FOLHA - Qualidade de vida na velhice está ou não diretamente ligada a um maior poder aquisitivo?
KALACHE
- É muito mais difícil conseguir qualidade de vida se não tiver um teto sobre a sua cabeça, se não tiver a certeza de como se alimentar ou, se ficar doente, se terá o mínimo de assistência médica. Por outro lado, você não precisa ser milionário ou rico para ter qualidade de vida. Você vê milhões de brasileiros que estão envelhecendo, inseridos na sua comunidade, com suas famílias, vivendo bem. Estou conversando com você de Nova York, uma cidade de primeiríssimo mundo, onde você encontra idosos que, embora tenham suas necessidades básicas satisfeitas, vivem isolados, numa família fragmentada, reflexo das grandes massas migratórias. São pessoas que estão envelhecendo fora do seu meio ambiente. Em São Paulo, por exemplo, a gente vê o imigrante nordestino, a mulher que foi trabalhar em casas de família e que, muitas vezes, não constituiu a sua própria família, e que, ao envelhecer, está só, triste, sem qualidade de vida.

FOLHA - O sistema de saúde continua a enfatizar o cuidado com as doenças agudas, enquanto as que mais afetam os idosos são as crônicas. Isso não tem que ser revisto?
KALACHE
- Sem dúvida. Temos no Brasil a idéia de que as doenças que podem ser prevenidas são as infecciosas e que as doenças não-transmissíveis são inevitáveis dentro do processo de envelhecimento. Hoje há muita gente com 60 anos e que está muito mal e outros com 80 que estão muito bem.
Se você controlar apenas quatro fatores de risco, o fumo, a dieta inadequada, a falta de exercício físico e o consumo excessivo de álcool, já terá um impacto muito grande. Se a gente não tiver política preventiva, de promoção de saúde fortemente ativa, isso, que já é um problema de saúde no país, vai se tornar uma epidemia.
Em segundo lugar, mesmo que o indivíduo se comporte muito bem, tenha um estilo de vida saudável, você ainda tem um ingrediente social muito grande. Por exemplo, na Inglaterra, se você compara as classes sociais A e B com as D e E, você tem um excesso de risco, que se traduz na redução de oito anos na expectativa de vida [das D e E], mesmo aqueles mais pobres que nunca fumaram, praticam exercício físico e comem razoavelmente bem.
No entanto, a diferença social, talvez pela falta de cidadania e auto-estima, faz com que os mais pobres vivam muito menos mesmo vivendo no mesmo ambiente físico. É preciso levar em conta essas determinantes sociais e agir sobre elas.

FOLHA - Temos no Brasil perto de 550 geriatras contra 30 mil pediatras. Com o envelhecimento da população, esse quadro deve mudar?
KALACHE
- Até certo ponto. A gente não vai conseguir formar geriatras em quantidade para atender, em planos mundiais, 2 bilhões de idosos no ano de 2060. A gente vai poder fazer com que todos os profissionais de saúde saibam aquilo que seja a essência, a base da atenção do idoso. Estou muito mais interessado em que todos os ortopedistas de amanhã, todos os oftalmologistas, todos ginecologistas, todos cirurgiões saibam lidar com idosos e entendam o mínimo sobre a fisiologia do idoso, a anatomia, a depressão, a saúde mental do que formar especialistas. Do contrário, o risco é você acabar medicalizando e tornando o envelhecimento uma especialidade e não uma etapa da vida. O papel do geriatra é muito importante porque, você tendo bons geriatras, terá bons treinadores daqueles profissionais que precisam ser treinados.

FOLHA - O que o futuro médico precisa aprender sobre o idoso?
KALACHE
- A OMS e a Associação Internacional de Geriatria e Gerontologia lançaram 15 pontos de currículo mínimo sobre cuidados relacionados ao envelhecimento que todos os estudantes de medicina deveriam ter: anatomia, farmacologia, a manifestação clínica das doenças, que é diferente quando você tem 80 anos do que num adulto de 40, como o organismo responde às dosagens de medicamentos etc. Daqui a 40 anos, o mundo terá envelhecido de forma irreconhecível. O médico vai lidar com mais e mais e mais idosos. Se você, desde o início, não tiver a atitude correta e o conhecimento adequado, você vai fazer mal, mesmo que inadvertidamente.
E não só em medicina, mas em enfermagem, em arquitetura, em direito. Temos que sensibilizar a juventude de que o país está envelhecendo e que isso é uma coisa boa, que envelhecer é a negação da morte precoce.

FOLHA - O modelo de aposentadoria não-contributiva do Brasil continuará sendo sustentável?
KALACHE
- Vários estudos mostram que com 2% do Produto Interno Bruto você consegue atender as necessidades de mais de 7 milhões de brasileiros. Se a economia crescer, como tem crescido, não há nenhuma razão para que isso não seja sustentável. Você tem que ver o que a sociedade está ganhando e não o que está perdendo. Ela “perde” 2% do PIB, mas tira da miséria 25 milhões de brasileiros [familiares dos aposentados]. Na avaliação do Banco Mundial, modelos como o Brasil e da África do Sul, que são muito parecidos, demonstram a sustentabilidade. O que não é sustentável é continuar com privilégios e distorções em que alguns poucos pesam 50, 60, 70 vezes mais do que esses miseráveis US$ 100 [da aposentadoria não-contributiva]. Esses são os pesos que estão fazendo com que o seguro social no Brasil se torne inviável.

FOLHA - Há no país uma cultura pelo padrão de beleza física jovem. É mais difícil para o brasileiro encarar o envelhecimento?
KALACHE
- Fica mais difícil, não há dúvida que existe essa obsessão. Por outro lado, se você anda pelas ruas de Copacabana, você vê milhares de pessoas idosas. E, embora em choque com a cultura do corpo, com a idealização da juventude, você vê pessoas de todos os formatos de corpo, pessoas gordas, magras. Existe no Brasil uma adaptação, uma coisa mais flexível, que não consegue punir aqueles que fogem à regra.