08/01/2009 - 11:21h O talo do repolho

Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

celso_ming.jpgA crise global é como o repolho. Você tira a folha de fora, tem a seguinte, depois mais uma… Dá trabalho chegar ao talo.

Os analistas agora já não se contentam em conferir as manifestações externas do problema. Tentam se aprofundar. Não dá para parar nos créditos hipotecários podres (subprime), na crise patrimonial dos bancos, no estrangulamento do crédito. Para chegar às razões subjacentes é preciso avançar camada por camada.

Um dos atuais focos dos analistas é o enorme desequilíbrio macroeconômico que divide o mundo entre cigarras e formigas; entre gastadores contumazes e poupadores inveterados. Entre as cigarras se encontram os países ricos, especialmente os Estados Unidos. Entre as formigas, os emergentes, e nesse grupo não está apenas a China; estamos – quem diria – nós, do Brasil.

Simplificadamente, a China exporta produtos industrializados para os Estados Unidos e forma superávits comerciais (exportações substancialmente mais altas do que importações). Eles vão para as reservas que, por sua vez, são aplicadas em títulos da dívida americana (T-Bonds). Na prática, os dólares do superávit comercial chinês são reinjetados nos Estados Unidos que, assim, recuperam dólares para continuar a consumir, a importar produtos asiáticos… E assim vai.

Tudo se passa, então, como se o resto do mundo e, em especial os emergentes, estivessem aí a exportar produtos de consumo para os países ricos e estes se obrigassem a fazer dívidas para continuar financiando seu consumo e suas importações.

O problema agora é que o consumo das famílias americanas praticamente estancou. Ainda na segunda-feira saíram os números da indústria automobilística nos Estados Unidos que dão boa indicação das proporções do fenômeno. Em 2008, a queda das vendas da General Motors foi de 22,7%, pior desempenho em 49 anos; a da Ford, de 20,7%; e a da Chrysler, de 30,0%.

Para que a roda continue girando, o consumo das famílias tem de ser substituído pelo do governo americano (aumento das despesas públicas). É o que explica a necessidade de pacotes fiscais sucessivos.

Ontem o presidente eleito Barack Obama advertiu que o déficit orçamentário anual vai superar US$ 1 trilhão, número visto como conservador. Ainda ontem, o analista Martin Wolf avisou, em coluna do Financial Times, de Londres, que o rombo orçamentário necessário para manter o nível de consumo interno nos Estados Unidos (e de produção global) é de pelo menos 10% do PIB, o que dá US$ 1,5 trilhão. E não basta que ocorra só no primeiro ano; tem de se repetir ano após ano.

Como ficou dito, o Brasil é parte desse jogo global. É forte exportador para o mundo rico (37% do total para os Estados Unidos e União Europeia) e fornecedor de alimentos e matérias-primas para os emergentes asiáticos (19%). Além disso, na medida em que também acumula reservas e as aplica em títulos do Tesouro americano, o Brasil é financiador do consumo americano.

Ainda não está claro como o talo do repolho será recomposto. Mas um pedaço da solução está no aumento do consumo interno dos emergentes. E é essa a razão pela qual se pode dizer que a força do mercado interno do Brasil contribui para isso.

Confira

Destrancou – Nesta semana, o Tesouro voltou a tomar recursos em dólares por meio do lançamento de títulos públicos. É a primeira aguinha que chega desde maio do ano passado, quando o crédito externo ficou bloqueado pela crise.

Na cola do Tesouro, as grandes empresas brasileiras voltam agora a garimpar financiamentos em moeda estrangeira. A Petrobrás, por exemplo, está buscando US$ 12 bilhões.

Se esse movimento for bem-sucedido, aumentará a fatia disponível para pequenas e médias empresas. À medida que os bancos tiverem de disputar o cliente, o custo do crédito pode cair.

14/11/2008 - 10:15h Pouco a esperar

Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

celso_ming.jpgO presidente da França, Nicolas Sarkozy, é, no mínimo, um forçador de barra. Ou não tem lá muito compromisso com os fatos.

Ao embarcar ontem em Paris para Washington, onde participará da reunião dos chefes de Estado do Grupo dos 20 (G-20) que se realizará neste fim de semana, declarou aos jornalistas que vai demonstrar que 2008 não é 1945 e que o dólar deixou de ser a principal moeda do mundo. E não era o Berlusconi falando; era mesmo Sarkozy.

Ele não vai passar da primeira parte do objetivo declarado à imprensa. Nem precisa insistir; ninguém acha que 2008 repete 1945. Mas está errado no principal. O dólar continua, sim, reconhecidamente a principal moeda do mundo.

O país mais encrencado pela crise são os Estados Unidos. E, no entanto, na pior hora e apesar de tudo, quando é preciso encontrar um porto seguro, todos correm para o dólar e para os títulos do Tesouro americano (T-Bonds). Como negar isso, presidente Sarkozy?

Declarações assim parecem sugerir que a reunião de cúpula, que se imaginava destinada a traçar as diretrizes para a reformatação do sistema financeiro global, não vai passar de um congraçamento, se chegar a tanto.

Três obstáculos hoje aparentemente intransponíveis impedem que se espere mais do que isso desse encontro. O primeiro deles é que não há muito o que negociar com o presidente George Bush, que ainda representa a maior potência econômica da atualidade.

Bush não tem mais o que dizer. Não está em condições de decidir nada com quem quer que seja, porque o balcão atrás do qual está hoje terá outra administração em questão de semanas. A hora é mais de uma festa de adeus do que de reformatação das pilastras da economia. E Barack Obama, o novo chefe, não quer se meter antes da hora.

O segundo obstáculo é que o momento não é de confronto, por maior que sejam as divergências entre Estados Unidos e Europa. Os mercados estão especialmente vulneráveis a cabos-de-guerra entre os senhores do mundo. Se virem meia dúzia de chefes de Estado apontando para direções opostas, o risco é que se desmanchem.

E, finalmente, com Bush e depois de Bush, os Estados Unidos não querem mudanças. Ao contrário do que vai trombeteando Sarkozy, o mundo adora o dólar, confia nele muito mais do que se imaginava até agora e confia muito mais do que no euro ou na libra esterlina. E confia no título mais cobiçado, que ainda são as promissórias emitidas pelo Tesouro americano. Além disso, quem controla as máquinas que emitem os ativos mais cobiçados do planeta não quer mudar nada.

Para não decepcionar as platéias, os mais ansiosos líderes do G-20 provavelmente encaminharão alguns temas para análise de comissões de trabalho encarregadas de examinar as bases para a reestruturação dos fundamentos do capitalismo.

Se isso se confirmar, vai ser difícil obter dessas comissões mais do que estratagemas para ganhar tempo, sabe-se lá até quando e com que objetivo.

Enfim, não dá para esperar demais desse encontro. O que precisa ser perguntado é até quando a crise espera.

Confira

Disparada – O dólar deu ontem mais um salto, de 3,8%, fechando nos R$ 2,38. A volatilidade ainda é enorme. Basta dizer que, há apenas 43 dias, o dólar estava abaixo de R$ 2.

O Banco Central decididamente não quer esses níveis porque sabe o impacto que provocam na inflação, a partir da alta dos produtos importados.

Mas as intervenções que tem feito, por meio de leilões de dólares e de leilões de títulos amarrados à correção cambial, não estão nem segurando as cotações nem revertendo a tendência de alta. O Banco Central parece sem estratégia na sua política cambial.

26/09/2007 - 09:44h A crise mudou de lado

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

O Estado de São Paulo (para assinantes)

A conta-gotas, os analistas internacionais vão se apercebendo de que os países emergentes estão cada vez mais importantes e têm de ser levados mais a sério.

Ontem, por exemplo, o jornal parisiense Le Monde publicou matéria cujo título diz quase tudo: ‘A grande revanche dos países do Sul.’ Ainda em meio à turbulência da crise dos créditos de alto risco (subprime), multiplicam-se as observações dos comentaristas de que as coisas só não estão piores graças aos emergentes.

A crise mudou de lado. Ao longo das décadas de 80 e 90, foram os emergentes que contaminaram a economia mundial. Foi o México em 1982 e 1994, os tigres asiáticos em 1997, a Rússia em 1998, o Brasil em 1999 e a Argentina em 2001. Em seguida, as grandes crises foram geradas nos Estados Unidos: a da bolha da Internet, também em 2001, e agora a das hipotecas.

Quanto mais temem pelo mergulho na recessão global, tanto mais os analistas vão se dando conta de que o mundo rico já não é suficientemente denso para arrastar o resto do globo se algo grave acontece. Com as exceções de praxe, os emergentes já não afundam na crise e dispensaram tanto os recursos como as recomendações do Fundo Monetário Internacional, organismo hoje praticamente sem função.

A economia da China já produz mais riqueza do que a dos Estados Unidos. Fácil fazer as contas. O PIB americano é de US$ 13,3 trilhões e o da China é de US$ 3 trilhões. Se cresce a 2%, o PIB americano soma US$ 270 bilhões anuais à sua renda; se o PIB da China cresce a 11%, acrescenta US$ 330 bilhões. A Índia cresce a 8,4%; a Rússia, a 6,7%; a Turquia, a 6,0%; a Indonésia, a 6,3%; Cingapura, a 6,2%; e o Brasil, a 4,6% (projeções da revista Economist).

Outra novidade, os emergentes já dependem menos do mercado consumidor dos ricos para garantir a expansão econômica. Só a China incorpora a cada ano 40 milhões de bocas (mais do que uma Argentina) a seu mercado de trabalho. Aqui no Brasil, quase todos os dias um integrante da equipe econômica e o próprio presidente Lula lembram o distinto público que o consumo vai crescendo à velocidade de 7%.

Ao longo da segunda metade do século 20, eram os países ricos que tinham de emprestar recursos para os pobres para livrá-los da quebradeira. Hoje, acontece o contrário. Na medida em que são detentores de vastas reservas, os emergentes (Brasil entre eles) tornaram-se credores líquidos dos países ricos, especialmente dos Estados Unidos, pois esses recursos estão aplicados predominantemente em títulos do Tesouro americano (T-Bonds). Há anos a população dos Estados Unidos deixou de poupar. Para manter a economia de pé, precisam importar poupança. Para cobrir seu rombo em conta corrente, precisam garantir a entrada de US$ 3 bilhões a cada dia útil, recursos que lhes são fornecidos, outra vez, pelos emergentes.

Viradas assim não ficam só nisso. Conseqüências geopolíticas virão a galope. Falta saber quais serão.