14/11/2009 - 19:31h Tomo y obligo
Marcelo Alvarez canta Gardel
- Luis Favre
Marcelo Alvarez canta Gardel

A herança afro no tango argentino fica evidente pela sensualidade dos passos desta forma de “caminhar pela vida”
Um relatório elaborado por Cynthia Quiroga, psicóloga colombiana (o cantor Carlos Gardel morreu em 1935 na colombiana Medellín), integrante da Universidade de Frankfurt (Alemanha, terra onde foi inventado o bandonenón) afirma que o tango eleva o desejo sexual.
A Universidade recomenda o tango para casais com problemas de baixa testosterona
Sexo à parte, o tango – ritmo musical do rio da Prata (pois é praticado em ambas margens, a uruguaia e a argentina) – foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, no mês passado.
“O tango é uma dança que não é dorsal como o flamenco. O tango é postero-pélvico…sua representação é um simulacro erótico”. (do escritor espanhol Rafael Salillas em 1898)
“…Dança-se entre um homem e uma mulher, mas sem cópula”.(Salillas, 1898)
Para o escritor Jorge Luis Borges, o tango era “uma forma de caminhar pela vida”. Para o poeta Enrique Santos Discépolo, “um pensamento triste que pode ser dançado”. No exterior, o tango é a música emblemática que representa a Argentina, embora o mesmo gênero musical também seja símbolo do vizinho do outro lado do rio da Prata, o Uruguai. Os argentinos se ufanam da definição dada pelo filósofo americano Waldo Frank, que sustentou que o tango é “a dança popular mais profunda do mundo”.
A palavra tango talvez seja a mais associada à Argentina em todo o planeta. A crise econômica de dezembro de 2001 foi chamada de “efeito tango” pela imprensa mundial. O caráter fatalista e pessimista que muitos argentinos exercem diariamente sobre a política, a economia e suas próprias vidas pessoais também é apontado como “um tango”.
Mais do que triste, o tango é introvertido e introspectivo, ao contrário de outras danças populares que são extrovertidas e eufóricas. Para o escritor Ernesto Sábato, “somente um gringo pode fazer a palhaçada de aproveitar um tango para conversar e se divertir”. Segundo o autor, “um napolitano dança a tarantela para se divertir. O portenho dança um tango para meditar sobre seu destino”.
O tango é multifacético. Suas letras falam da mãe “santa”, da turma de amigos, das ruas do bairro e da pérfida – e perdida – mulher que os abandonou. Mas além disso, o tango também fala do hedonismo e da aparência, das divisões sociais e dos picaretas. Ele também é frequentemente satírico, com letras que disparam ácidas farpas contra tudo e contra todos.
NASCIMENTO
Na Argentina (no Uruguai a História é outra), mais do que ‘argentino’, o tango é portenho, já que o interior da Argentina seria melhor representado por outros ritmos, como o chamamé, o malambo e a zamba.
O bairro da Boca não foi o berço do tango, ao contrário do que indicam certas lendas, especialmente de guias turísticos estrangeiros.

Tango nasceu no ‘barrio del Mondongo’, atual bairro de Montserrat. O bairro está marcado em vermelho nesse mapa antigo de Buenos Aires.
O tango surgiu ao redor de 1877 no bairro de Montserrat, situado entre a Casa Rosada e o atual Congresso Nacional. Na época, ali residiam os descendentes dos escravos negros que haviam sido liberados em 1813.
Em Montserrat, também chamado de “barrio del Mondongo”, os afro-argentinos organizaram-se em associações beneficentes, que de noite – em barracos de sapé – preparavam festas para angariar fundos.
Nesses eventos, tocavam batucadas lânguidas, que para os escandalizados vizinhos brancos da área eram danças “luxurientas” e “indecentes” na coreografia.
As reuniões em Monserrat-Mondongo muitas vezes acabavam subitamente com a intervenção da polícia, que aparecia para “colocar ordem” no lugar.
Na época de carnaval as associações de afro-argentinos saíam às ruas para dançar ao som da batucada, denominada na região do rio da Prata como “candombe”.
A rivalidade dos grupos – cada um queria mostrar que era melhor na coreografia – provocava confrontos sangrentos nas ruas. Por este motivo, depois de anos de incidentes, o governo ordenou a dissolução das associações.
Sem poder sair às ruas, os afro-portenhos organizaram lugares exclusivos de dança, os “tambos”. Com esta palavra começa a polêmica sobre a origem do tango. Para alguns “tangólogos”, “tango” viria de “tambo”. Para outros, vem de “Xango”, ou “Xangô”, deus africano da guerra.
A própria palavra “tango”, com essa grafia, apareceu em 1836 no “Diccionario Provincial de Voces Cubanas”. O livro define “tango” como “a reunião de negros para dançar ao som de seus tambores ou atabaques”. Outra teoria indica que “tango” vem de “tambor”.
A polêmica e a discussão são elementos altamente cotados na mesa dos argentinos. Portanto, abundam versões sobre o assunto. Uma teoria indica que “tango” vem de “tang”, palavra pertencente a um dialeto africano que poderia ser traduzida como “aproximar-se, tocar”.

Uma forma de caminhar pela vida com raízes africanas que posteriormente foram europeizadas
Curiosamente, outra versão sustenta que a palavra vem do latim “tangere”, que também significa “tocar”. No espanhol antigo, “tangir” equivale a tocar um instrumento.
Para complicar, no século XIX existia na Espanha um “tango andaluz”. E no México, no século XVIII, uma dança com o mesmo nome.
Nenhuma dessas teorias (há várias teorias adicionais sobre a origem da palavra) foi comprovada. Os argentinos continuam dançando este gênero sem se preocupar por sua etimologia.
Desta forma, os afro-portenhos tiveram que resignar-se a ficar dentro de seus “tambos”, dançando o embrião daquilo que em poucas décadas seria o tango tal como o conhecemos hoje em dia.
A forma de dançar era – de certa forma – vagamente similar ao samba brasileiro atual: dança solta, eventualmente segurando o/a parceiro/a, além de muito requebro.
Mas, nesse momento em que essa forma prototípica do tango está em plena ebulição nos lugares de encontros dos afro-argentinos, ocorre uma guinada que seria fundamental para o desenvolvimento do tango: o surgimento do “compadrito” nos “tambos”.

Gabino Ezeiza, um dos expoentes agro-argentinos do tango em seus primórdios
(Veremos o surgimento do compadrito no tango nos próximos dias e também a vida de Gabino Ezeiza)

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Paulo de Brasília me indicou este grupo de tango eletrônico ou arqueológico. Vale a pena descobrir.
Milonga Sentimental
Sin rumbo
Amor que se baila
Mi Noche Triste
Carlos Gardel
Percanta que me amuraste en lo mejor de mi vida,
Dejandome el alma herida y espina en el corazn,
Sabiendo que te queria, que vos eras mi alegria
Y mi sueo abrasador,
Para mi ya no hay consuelo y por eso me encurdelo,
Pa olvidarme de tu amor.
Cuando voy a mi cotorro y lo veo desareglado,
Todo triste, abandonado, me dan ganas de llorar,
Y me paso largo rato campaneando tu retrato
Pa poderme consolar.
De noche cuando me acuesto, no puedo cerrar la puerta,
Porque dejandola abierta me hago ilusion que volvs
Siempre traigo bizcochitos pa tomar con matecitos
Como cuando estabas vos.
Y si vieras la catrera cmo se pone cabrera
Cuando no nos ve a los dos
Ya no hay en el buln aquellos lindos frasquitos
Adornados con moitos todos de un mismo color,
Y el espejo est empaado si parece que ha llorado
Por la ausencia de tu amor.
La guitarra en el ropero todavia esta colgada,
Nadie en ella canta nada ni hace sus cuerdas vibrar,
Y la lmpara del cuarto tambin tu ausencia ha sentido,
Por que su luz no ha querido Mi noche triste alumbrar
Pascual Contursi
Ver também a versão de Anibal Troilo, no Intermezzo, na barra vermelha a direita
1vln: Fernando Travassos
2vln: Heitor Fujiname
3vln: Oxana Dragos
4vln: Flávio Geraldini
1vla: Silvio Catto Ribeiro
2vla: Tânia Kier
1vc: Mauro Brucoli
2vc: Joel Souza
J’Oublie (Oblivion) (Piazzolla/McNeal)
Lourds, soudain semblent lourds
les draps, les velours, de ton lit
quand j’oublie jusquà notre amour…
Lourds, soudain semblent lourds tes bras,
qui mentourent déjà dans la nuit
Un bateau part, s’en va quelque part
des gens se séparent
J’oublie, j’oublie…
Tard autre part dans un bar d’acajou,
des violons nous rejouent notre mélodie
Mais j’oublie…
Tard, dans ce bar dansant
joue contre joue
tout devient flou et j’oublie, j’oublie…
Court, le temps semble court
le compte à rebours de nos nuits
quand j’oublie jusquà notre amour…
Court, le temps semble court
tes doigts qui parcourent ma ligne de vie…
Sans un regard
des amants s’égarent sur un quais de gare
j’oublie, j’oublie…






18 dias de puro tango e um tour gardeliano
por Ariel Palacios – Blog Os Hermanos

Segundo Jorge Luis Borges, o tango é uma forma de caminhar pela vida
Desde a sexta-feira 14 até o dia 31 de agosto Buenos Aires viverá jornadas intensas de tango. No total, serão 18 dias de tango com mais de 90 concertos, 50 aulas de baile e duas competições de dança nas categorias de salão e cenário.
Até o dia 23 Buenos Aires será embalada pelo XI Festival de Tango (na sequência virá o Campeonato de Baile). O epicentro dos espetáculos é o histórico edifício da Harrod’s, na calle Florida. Música, dança, mas também conferências, documentários, lançamento de livros. A cidade estará imersa em no ritmo imortalizado por Carlos Gardel e Astor Piazzolla.
Link para o festival:
http://www.mundialdetango.gob.ar/home09/web/es/index.html
O Festival começou neste ano com a Orquestra Típica El Porvenir, grupo musical composto por 60 músicos das orquestras infantis das areas favelizadas dos bairros de Villa Lugano e o Baixo Flores, além da favela Villa 31.
Ao longo desta semana dançarão figuras como Carlos Copes e Iñaki Urlezeaga, cantará Elena Roger (uma argentina que fez sucesso em Londres com a montagem britânica de “Evita” e que agora está em B.Aires com “Piaf”) e interpretarão tangos personalidades de alto calibre como Rodolfo Mederos e Chico Novarro, entre outros.

O campeonato do ano passado foi eletrizante. Na foto, o casal vencedor na categoria “Tango Cenário”: Melany Celati e José Fernández
Outras estrelas: Leopoldo Federico e sua orquestra a cantora Susana ‘la tana’ Rinaldi, o Sexteto Mayor.
O festival pretende também recuperar velhos tangos esquecidos e também dar oportunidades às novas tendências desse gênero musical do Rio da Prata.
Na sequência do Festival de Tango começará o Campeonato Mundial de Dança, que será encerrado no dia 31. Mais de 400 casais – de todas as partes do planeta – foram selecionados.

“En tus brazos”, uma animação francesa sobre o tango. O link para o desenho:
http://www.entusbrazos.fr/
E, para quem quiser aprofundar a semana do tango, aqui embaixo segue um tour gardeliano de Buenos Aires.

Gardel, em um dos diversos filmes que rodou para a Paramount
TOUR GARDELIANO
Uruguaio de Tacuarembó? Francês de Toulouse? Os argentinos não se preocupam muito com o lugar de nascimento de Carlos Gardel (embora a maioria acredite que nasceu na França e descartem a teoria uruguaia). Todos admitem que o cantor que fez o tango famoso em todo o planeta não nasceu em Buenos Aires. Mas, da mesma forma que Carmem Miranda, nascida em Portugal, agiu em relação ao Brasil, Gardel fez de seu país de adoção sua pátria. De quebra, ele declarou seu amor à cidade em uma miríade de tangos, desde o clássico “Mi Buenos Aires querido” até o “Anclao em Paris”, no qual relata a vida de um portenho em Paris que olhando os boulevards sente uma profunda saudade das ruas de Buenos Aires.
Link do Youtube para Anclao en Paris:
http://www.youtube.com/watch?v=5n3_5ELv0-Y&feature=PlayList&p=6D2C7FDD629C87E9&playnext=1&playnext_from=PL&index=5
O que está fora de discussão é que Gardel – francês ou uruguaio – cresceu no portenho bairro do Abasto, próximo do centro de Buenos Aires.
Ali, segundo as boas línguas, ele teria sido um garoto prestativo, preocupado com a mãe viúva. Essa versão indica que teria trabalhado como ajudante no mercado de alimentos do Abasto, carregando caixas de legumes e frutas.
Mas, a más línguas sustentam que o garoto teria, na verdade, sido um ladrãozinho que batia carteiras. O velho mercado onde Gardel realizava indefinidos afazeres em seus tempos de teenager, foi substituído nos anos 30 por outro, um marco da arquitetura portenha. E, esse edifício, nos anos 90 foi transformado em um shopping center. O antigo Mercado del Abasto é hoje o Shopping do Abasto, sobre a Avenida Corrientes, número 3247.
O bairro tenta manter uma imagem “gardeliana”, embora já diste muito de ter as características dos tempos de Gardel. Hoje em dia, a maior parte do bairro engloba uma substancial comunidade peruana, além de concentrar grande parte dos judeus ortodoxos de Buenos Aires.
Ali perto, na rua Jean Jaurés, número 735, Gardel morou com sua mãe entre 1927 e 1933. O casarão, abandonado durante décadas, foi tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional e transformado no Museu Carlos Gardel, que além de objetos que o cantor utilizou, realiza exposições sobre sua vida e obra (e do tango, de forma geral).
Na vizinhança também está o “Pasaje” (Beco) Carlos Gardel, onde estava o restaurante “Chanta Cuatro”, onde o cantor costumava reunir-se com seus amigos para comer (ele era bom garfo) e cantar tangos e milongas. Hoje, no mesmo lugar, está a “Esquina Carlos Gardel”. No beco também está uma estátua do cantor, inaugurada há três anos.

Gardel na frente do Abasto. ‘Carlitos’ cresceu nesse bairro (hoje, aliás, um bairro com um interessantíssimo mix: judeus ortodoxos e imigrantes peruanos
No centro da cidade está o Café Tortoni, na Avenida de Mayo 825, do qual Gardel era habitué. Ali, cantando tangos, homenageou o escritor italiano Luigi Pirandello. Gardel também era um habitué do Palais de Glace, um salão de baile (hoje transformado em museu) em plena Recoleta, na rua Posadas 1725. Ele nunca cantou ali. Mas, o Palais foi o cenário de uma briga que resultou em um tiro que colocou uma bala em um dos pulmões de Gardel.
Anos depois, em 1935, essa bala seria reencontrada na autópsia realizada em Medellín, após o acidente de avião que causou a morte de Gardel. Uma das especulações surgidas na época – e e que ainda tem vários seguidores – é que dentro do avião no qual Gardel partia da Colômbia, houve uma violenta discussão, com troca de tiros. O caos teria causado o desvio do avião da pista, e sua posterior colisão com outro aparelho.
Outro ponto do tour gardeliano é o Hipódromo de Palermo, ao qual dedicou vários tangos (um dos versos diz “Palermo, me tenés loco y enfermo”, ou, “Palermo, vocês me deixa louco e doente”, em alusão ao vício do cantor de apostar nas corridas de cavalo). Ele também dedicou tangos aos jóckeis, especialmente a seu amigo Irineo Leguizamo, que galopava o cavalo de Gardel, “Lunático”.
Link do Youtube para ver Gardel cantando “Por una cabeza”, un tango de conteúdo hípico-amoroso:
http://www.youtube.com/watch?v=xG_ilGAPhzk
Um endereço gardeliano, no entanto, não passa de mito, especialmente para aqueles que não residem em Buenos Aires. O famoso “Corrientes, 348″, é apenas um endereço poético. Gardel nunca morou na avenida Corrientes, número 348, nem teve uma garçonière, tal como indica a letra do tango de “A media luz” (A meia luz, ou, Na penumbra). O endereço, na verdade, é um prosaico estacionamento.
O tango, de 1925, tem música de Edgardo Donatto e letra de Carlos Lenzi.
Este é o link do Youtube com Gardel cantando “A media voz”:
http://www.youtube.com/watch?v=TwEAF3clZys&feature=related
Após sua morte trágica em Medellín, o corpo de Gardel foi levado à Buenos Aires, onde foi velado no “Luna Park” (uma espécie de mini-estádio coberto, onde realizavam-se disputas de boxe, ciclismo e shows musicais), que ainda hoje está na esquina das ruas Corrientes e Bouchard, em pleno centro da cidade.

Estátua de Gardel no cemitério de La Chacarita. ‘El bronce que sonríe’ é um dos apelidos de Gardel, isto é, “O bronze (pela estátua) que sorri”
Dali, Gardel foi transportado, acompanhado por centenas de milhares de pessoas, até o cemitério de La Chacarita, no bairro homônimo, onde repousa pela eternidade. O mausoléu é vigiado por uma estátua do cantor, que sempre conta com flores frescas a seus pés, especialmente cravos. De quebra, com frequência (mas não sempre, ao contrário do que diz o mito) um fã coloca um cigarro aceso entre os dedos de uma das mãos. O dia 24 de junho, data de sua morte, é um evento que reúne admiradores de todo o planeta em La Chacarita.
GASTRONOMIA GARDELIANA

Gardel – que durante breve tempo chegou a pesar 118 quilos – oscilava de peso com muita frequência. Por questões artísticas, policiava-se, e tentava manter-se dentro do peso aceitável para exibir uma figura elegante. A maior parte dos restaurantes que Gardel frequentava fecharam ou transformaram-se radicalmente, não mantendo as características nem os menus dos tempos de Gardel.
Mas, o turista que deseje seguir os passos da gastronomia gardeliana, poderá pedir, em outros restaurantes, os pratos que deliciavam o cantor. Entre os quitutes preferidos estavam os raviólis com recheio de carne de vitela, risoto com funghi e açafrão, além do “puchero criollo”, o mais típico cozido da Argentina.

Gardel em filme com uma de suas parceiras preferidas, Rosita Moreno
O compositor André Previn declara seu amor a Anne Sophie Mutter.
Um filme de Thomas Grube
© 2002 Deutsche Grammophon e BOOMTOWN MEDIA
Astor Piazzolla (bandoneon); Oscar Lopez Ruiz (guitarra); Fernando Suarez Paz (violino); Pablo Ziegler (piano); Hector Console (baixo). Enregistrado ao vivo no festival de Jazz de Montreal.
Invierno porteño de Astor Piazzolla – Quarteto Tanguardia: Jean Marc Fouché, Anne Pagès, Ludovic Nicot, Gilberto Pereyra
Mi noche triste – El cabrero
MI NOCHE TRISTE
(1915)
Percanta que me amuraste
En lo mejor de mi vida,
Dejándome el alma herida
Y espina en el corazón,
Sabiendo que te quería,
Que vos eras mi alegría
Y mi sueño abrasador,
Para mí ya no hay consuelo
Y por eso me encurdelo
Pa’ olvidarme de tu amor.
De noche cuando me acuesto
No puedo cerrar la puerta,
Porque dejándola abierta
Me hago illusión que volvés.
Siempre llevo bizcochitos
Pa’ tomar con matecitos
Como si estuvieras vos,
Y si vieras la catrera
Cómo se pone cabrera
Cuando no nos ve a los dos.
Cuando estoy en mi cotorro
Lo veo desarreglado,
Todo triste, abandonado,
Me dan ganas de llorar.
Me detengo largo rato
Campaneando tu retrato
Pa’ poderme consolar.
Ya no hay en el bulín
Aquellos lindos frasquitos
Adornados con moñitos
Todos del mismo color.
Y el espejo está empañado
Y parece que ha llorado
Por la ausencia de tu amor.
La guitarra en el ropero
Todavía está colgada :
Nadie en ella toca nada
Ni hace sus cuerdas vibrar.
Y la lámpara del cuarto
También tu ausencia ha sentido
Porque su luz no ha querido
Mi noche triste alumbrar.
Letras de tango,
selección (1897 – 1981) José Gobello,
Centro editor de cultura Argentina, page 40
MA TRISTE NUIT
Toi qui m’as abandonné
En plein bonheur,
Tu m’as laissé l’âme blessée,
Une épine au cœur.
Tu savais que je t’aimais,
Ni ma joie ni mon rêve
Ne comptaient pour toi…
Je ne peux plus me consoler
Et je me suis soûlé
Pour oublier ton amour.
La nuit quand je me couche,
Je ne peux pas fermer la porte,
Alors elle reste ouverte
Et je me donne l’illusion de ton retour.
J’apporte toujours des biscuits
Pour prendre avec le maté
Comme quand tu étais là ;
Et si tu voyais le lit
Comme il est tout retourné
De ne plus nous voir ensemble.
Quand je rentre dans la chambre
Je la retrouve en désordre,
Toute triste, abandonnée,
Elle me donne envie de pleurer,
Et je passe un long moment
A contempler ta photo
Pour pouvoir me consoler.
Il n’y a plus dans la chambre
Ces jolis flacons
Décorés de petits rubans
Tous de la même couleur,
Le miroir est terni,
Comme s’il avait pleuré
Le départ de ton amour.
La guitare dans la penderie
Reste à sa place ;
Personne ne chante avec elle,
Personne ne touche ses cordes…
La lampe dans la chambre
Ressent aussi ton départ,
Sa clarté ne veut pas
Eclairer ma triste nuit.
Traduction proposée par Henry Deluy dans l’anthologie Tango, présentée par Henry Deluy et Saul Yurkievich, aux éditions P.O.L, page 85
Sarita Montiel canta “Fumando espero” no filme “El Último Cuple”
FUMANDO ESPERO
(Garzo-Villadomat)
Fumar es un placer
Genial, sensual.
Fumando espero
Al hombre quien yo quiero,
Tras los cristales
De alegres ventanales.
Y mientras fumo,
Mi vida no consumo
Porque flotando el humo
Me suelo adormecer…
Tendida en la chaise longue
Fumar y amar…
Ver a mi amante, solícito y galante,
Sentir sus labios
Besar con besos sabios,
Y el devaneo
Sentir con más deseos
Cuando sus ojos veo,
Sedientos de placer
Por eso estando mi bien
Es mi fumar un edén.
Dame, el humo de tu boca.
Anda, que así me vuelvo loca.
Corre que quiero enloquecer
De placer,
Sintiendo ese calor
Del humo embriagador
Que acaba por prender
La llama ardiente del amor.
Ignacio Corsini (gravado em 1929)
A versão completa vale uma leitura
Música: Juan Viladomat Masanas (o Juan Viladomat i Massanes)
Letra: Félix Garzo
Fumar es un placer
genial, sensual.
Fumando espero
al hombre a quien yo quiero,
tras los cristales
de alegres ventanales.
Mientras fumo,
mi vida no consumo
porque flotando el humo
me suelo adormecer…
Tendida en la chaisse longue
soñar y amar…
Ver a mi amante
solícito y galante,
sentir sus labios
besar con besos sabios,
y el devaneo
sentir con más deseos
cuando sus ojos veo,
sedientos de pasión.
Por eso estando mi bien
es mi fumar un edén.
Dame el humo de tu boca.
Anda, que así me vuelvo loca.
Corre que quiero enloquecer
de placer,
sintiendo ese calor
del humo embriagador
que acaba por prender
la llama ardiente del amor.
Mi egipcio es especial,
qué olor, señor.
Tras la batalla
en que el amor estalla,
un cigarrillo
es siempre un descansillo
y aunque parece
que el cuerpo languidece,
tras el cigarro crece
su fuerza, su vigor.
La hora de inquietud
con él, no es cruel,
sus espirales son sueños celestiales,
y forman nubes
que así a la gloria suben
y envuelta en ella,
su chispa es una estrella
que luce, clara y bella
con rápido fulgor.
Por eso estando mi bien
es mi fumar un edén…
A letra em português, sem os versos finais da versão completa acima
Fumando Espero
(J. Villadomat Masanas versão: Eugênio Paes)
Fumar é um prazer
que faz sonhar
fumando espero
aquele a quem mais quero
se ele não vem
então me desespero
enquanto eu fumo
depressa a vida passa
e a sombra da fumaça
me faz adormecer
e assim sempre a fumar, sonhar, amar
ver todo instante
aquele a quem mais quero
sentir seus lábios, beijar com desespero
seu coração bater juntinho ao meu
sentindo entre carícias meu corpo estremecer.
antes de adormecer é o fumar um prazer
dá-me, dá-me a tua boca
beija até que eu fique louca
quero assim enlouquecer de prazer
sentindo esse calor
do beijo embriagador
que acaba por prender a chama ardente desse amor!
Tango a Tierra, de Guillermo Salvat y Silvia Grynt
SÃO PAULO-Citibank Hall, dias 27 e 28 /3
RIO DE JANEIRO-Canecão, dia 29 /3 BELO HORIZONTE-Palácio das Artes, dia
31 /3 JUIZ DE FORA-Cine Teatro Central, dia 1 de abril
O espetáculo “TANGO-A-TIERRA” traz um corpo de baile e uma orquestra para apresentar um panorama, do século 20 ao século 21, do glamouroso ritmo. O passeio pelo tango começa na década de 30 retratando os diferentes estilos, os mitos, os lugares onde o Tango nasceu e cresceu, o repertório clássico e ortodoxo, e algumas inovações.
Considerado uma nova expressão do gênero, a companhia Tango 21 comprova que o Tango, centenário, continua se reinventando, passando de geração em geração, mantendo-se sempre vivo e jovem.
Com coreografias de alta complexidade e refinamento, o grupo traz um espetáculo que encanta os sentidos reunindo dança, canto e música: 17 bailarinos de alto vigor, habilidade e sensualidade somados a uma orquestra com oito excelentes jovens talentos formam o conjunto.
Tango 21 apresenta-se pela primeira vez no Brasil, apôs uma turnê de grande êxito no Canadá, em Miami e na Europa, na Russia, em St. Petersburg e em Kiev, além da Bulgaria, Hungria e Polônia.
GUILLERMO SALVAT & SILVIA GRYNT
A dupla Guillermo Salvat & Silvia Grynt é reconhecida como uma referência no mundo do Tango. Ano ápos ano, percorrem o mundo inteiro para apresentar o Tango e suas diversas facetas.
Desde 2001, com os espetáculos Una Noche de Tango, Estampas Portenhas, Equina Carlos Gardel, e finalmente Tango-a-Tierra apresentam-se arredor do mundo, nas capitais da América do Sul, Austrália, Japão, EUA, México, Panama, Costa Rica, Honduras, Guatemala.
O Evento em São Paulo está confirmado no CITYBANK HALL, dias 27 e 28 de março.
Serviços:
Cia Tango 21 e sua orquestra Alto Tango
Espetáculo “Tango-A-Tierra”
Dias 27 e 28 de março
Horário: 22h00
Teatro : Citibybank Hall
Endereço: Av. dos Jamaris, 213; Moema
Tel: 2163-7300
Ingressos: à venda no teatro e pelo ticketmaster
<http://www.ticketmaster.com.
Poème exquis numéro 61
Poésie libre et exquise inspirée des cadavres exquis des poètes surréalistes. Le clip est créé à la suite des exercices poétiques des Mordus, membres courtois du forum des cruciverbistes. Le montage des mots et des images est toujours effectué sans filet…
Les Mordus
LP3
Solochat
Denisem
Vieuxmordu
Brutus
Muso
GML
Costumes et décors
Edward Robert Hugues
Ford Madox Brown
Casper Davis Friedrich
Musique
Gotan project
La revancha del tango
Madeleine Peyroux
Dance me to the end of love
Documents cinéma
Gotan project
La revancha del tango
Sally Potter
La leçon de tango
Charlie Chaplin
La ruée vers l’or
Réalisation
Mô

Soledad Gallego-Diaz, EL PAÍS – O Estado SP
O purgatório, segundo a doutrina da Igreja Católica, é o processo de purificação necessário antes de se entrar no reino dos céus e passa pela dor de não desfrutar a presença de Deus, a ausência, a perda do bem extraordinário que é a contemplação do amor e do ente querido. Purgatorio é, nesse sentido, o melhor título possível para o mais recente romance do escritor argentino Tomás Eloy Martínez (Tucumán, 1934): a história de uma perda e de um exílio. Sua personagem, Emilia Dupuy, procura, durante 30 anos, seu marido detido pelos militares argentinos e desaparecido. Um dia ela o encontra num pub dos Estados Unidos: o tempo não passou para ele. “Quando você volta ao lar do qual partiu, pensa que fechou o círculo, mas percebe que sua viagem foi só de ida. Do exílio ninguém regressa”, escreve o narrador da história. Mas Emilia não acredita nele.
Seu romance é uma história terrível de perda.
Pensei muito na dor das pessoas que perderam alguém, mas, sobretudo, na dor maiúscula que significa não ver esse alguém morto. A constatação da morte é, pelo menos, uma forma de consolo. O limbo ou o purgatório de não saber o que foi feito do ser amado, onde ele está, se está morto, ou se está perguntando por você em outro lugar, é desesperador. De fato, já se fala disso na tragédia grega, quando Antígona não consegue enterrar seu irmão.
Durante a época da ditadura militar desapareceram cerca de 30 mil argentinos. Esse sentimento de perda, que é tão opressivo no romance, acomete qualquer argentino de sua geração?
Em meu caso, fui expulso de meu país pouco antes da ditadura. A motivação que me levou a escrever este livro é, precisamente, a interrupção de uma vida pelo exílio. Há dez anos de minha vida que se foram para sempre e que são irrecuperáveis. Pensei em recuperá-los mediante a escrita. A privação dos afetos é terrível. Por alguma razão, os gregos já pensavam no exílio como um castigo equivalente à morte. Eles o arrancam de seus afetos, de seus filhos, de sua vida profissional. Eles o obrigam a ser outro. E nessa “alteridade” você se perde.
Chama a atenção que suas duas personagens, Emilia e Simón, sejam precisamente cartógrafos.
Não sei bem por que, mas me preocupa há algum tempo a ideia do mapa e da semelhança entre o mapa e o romance. A escrita do romance e a realização dos mapas são, ambas, invenções da realidade, imaginações. No princípio, os seres humanos, quando não sabiam em que terra estavam pisando, imaginavam o mundo e lhe punham nomes a seu critério.
Mas, ao mesmo tempo, os mapas existem para que as pessoas não se percam, para que alguém não desapareça.
Exatamente.
A personagem de Emilia está perdida, mas encontra Simón pela formidável intensidade de seu amor. O amor é o único sentimento capaz de desencadear tanta força?
É sobretudo a ansiedade de recuperar o amor que não se viveu, que nos converte em outro ser. Como eu digo, o impulso inicial que me moveu a escrever este livro foi tratar de recuperar, mediante a escrita e a imaginação, o que o exílio me tirou. A escrita e a imaginação têm um poder maiúsculo, um poder que tratei de medir com a escrita deste romance. A ideia original era narrar a vida cotidiana dos argentinos, não os campos de concentração, não os tormentos, não as mortes horrendas, e sim a mediocridade da vida cotidiana. Sobretudo, algo que me perturbava, estando fora por tanto tempo, como não se reage, como se olha para outro lado? As ditaduras não são possíveis sem uma cumplicidade coletiva; uma certa forma de resignação ou de cumplicidade coletiva. A fonte dessa cumplicidade, acredito, é a ignorância. O grande recurso dos autoritarismos é obrigá-lo a ignorar, a que só saiba o que eles querem que saiba.
A primeira coisa que as autoridades israelenses fizeram antes de invadir Gaza foi impedir a presença de jornalistas.
Sim. E outra coisa importante. Aqui, se você denunciava o que via, o regime o denegria imediatamente como “antiargentino” e como tal o condenava. Agora, se você publica fora de Israel alguma coisa sobre o que sucede em Israel, podem muito bem chamá-lo de antissemita. Quando Israel levantou o muro, que me pareceu contrário a toda tradição da perseguição aos judeus, publiquei um artigo em La Nación, dizendo que era uma barbaridade, uma forma lenta de morte, e você não imagina a quantidade de vozes que se ergueram aqui para me acusar de antissemita.
Uma personagem que me parece interessante é a de Dupuy, o pai de Emilia. Ele não é um homem que está louco, mas que é, basicamente, um sem-vergonha.
Isso mesmo. Um canalha. Ele tem um ideal de extrema direita, militar, a ideia de construir um país sobre a ideia de “Deus, Pátria e Lar”, a espada e a Igreja, a união das armas com a fé e tudo isso misturado com a corrupção que afeta os pressupostamente incorruptíveis e se revela avassaladora. É esse também o tema de outro romance meu, O Voo da Rainha. Neste caso, é um jornalista incorruptível, que, em seu empenho em lutar contra a corrupção, se corrompe.
É tão fácil se corromper?
Se você não tem uma estrutura moral muito sólida e a corrupção não o repugna por princípio ou por vergonha, então, sim, suponho que a corrupção é uma tentação muito importante. Ela assume formas às vezes imprevisíveis. Aqui se veem infinitas formas de corrupção, inclusive você pode se converter em um corrupto sem ter consciência disso. A corrupção não é somente corrupção do dinheiro. A corrupção no jornalismo, por exemplo, é a sedução do poder, fazê-lo acreditar que você pode derrubar um ministro ou ter alguma influência maior.
Um episódio curioso no romance é o momento em que Dupuy pai visita Orson Welles para lhe propor que faça um documentário sobre os campeonatos mundiais de futebol. Cheguei a acreditar que fosse uma história possível.
Assim se criam as personagens. Conheci Orson Welles tal como Dupuy o conhece, na última tourada de Antonio Bievenida, em Toledo. Eu era um jornalista e ele estava muito envolvido na cerimônia de apartar os touros, opinando como se fosse um especialista. Eu me contive e não lhe perguntei sobre o Quixote, que ele havia deixado pelo meio. Admiro muito Welles, para mim ele é eticamente muito valioso. Pareceu-me que se o episódio não tivesse verossimilhança não poderia ter força e pus-me a estudar Welles, de modo que quando Dupuy o visita, eu sabia onde ele estava, o que fazia. Descobri que nessa época Orson Welles emprestou sua voz a um filme que se chama Genocídio, e me pareceu interessante devolver-lhe a homenagem.
Com relação à personagem de Emilia, às vezes é desesperador o tempo que ela demora para se dar conta do que se passou com seu marido, apesar das muitas pessoas que lhe contam.
Ela o explica num dado momento: “Se Simón está morto, então meu pai é um assassino e minha mãe, uma cúmplice.” E sobre a morte de seu marido, que já seria uma carga suficiente para ela, pois é a esperança que a mantém viva, teria que somar a culpa por esses antepassados assombrosos. Emilia é um reflexo, ou uma metáfora, embora a palavra me pareça um pouco presunçosa, da sociedade argentina em geral, à qual estão ocorrendo as coisas diante de seus olhos e ela não os vê. Prefere esperar que ocorram milagres. Mas Emilia não espera passivamente, porque procura de todos os modos.
A história de amor, que é tão importante no romance, seria possível pensá-la igual se a desaparecida fosse ela e Simón quem a procura?
Creio que o gênero masculino não tem, em geral, a mesma força passional e a mesma tenacidade que as mulheres têm. Por algum motivo, são As Mães da Plaza de Mayo e não Os Pais da Plaza de Mayo. Embora os maridos acompanhem o símbolo da busca e da espera, foram as mulheres que bateram de frente com a ditadura.
Seu romance tem muitas leituras possíveis: é uma história de amor, mas também um romance político, mas também um romance metafísico… É um romance sem medo.
Sem medo das consequências. Caminhar sobre uma corda bamba sem cair. Nesses temas a gente pensa qual é o limite e até onde posso avançar, e quanto mais livre você se sente, mais seguro se sente e melhor avança. De todos os meus livros, este foi o que escrevi mais rapidamente, me deixando levar.
O senhor acredita que algo que existiu um dia existe para sempre?
Um ser que existiu persiste por intermédio da memória. Por isso, o livro insiste em que a identidade de cada um de nós está nas recordações. Não só nas recordações que se tem, mas nas recordações que se deixa. Por isso o céu e o inferno são suas boas e suas más ações, aquilo que você deixou e o que permanece na memória dos outros.
TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK
FLUÊNCIA NARRATIVA E BASES HISTÓRICAS MARCAM SUA FICÇÃO
CONTRA O PODER: A experiência com a ditadura militar argentina resultou em marca na militância e na ficção de Tomás Eloy Martínez, nascido na província de Tucumán, em 1934. Formado em literatura e especializado em Jorge Luis Borges, Eloy Martínez atuou como repórter na Argentina e na França, tendo iniciado a carreira jornalística como crítico de cinema. Durante o seu exílio, ele ajudou a fundar periódicos importantes como El Diario (Venezuela) e Siglo 21 (México). Ele criou o suplemento literário Primer Plano para o jornal Página/12, de Buenos Aires. Desde 1995, ele dirige o Programa de Estudos Latino-americanos da Rutgers University, em Nova Jersey. Marcados pela fluência narrativa e tramados em bases históricas, seus romances abordam, de modo geral, os efeitos do exercício do poder, visto sob um olhar cético, por vezes cáustico. Cinco de seus livros estão em catálogo: O Voo da Rainha (Objetiva), O Cantor de Tango, A Mão do Amo, O Romance de Perón, Santa Evita (todos Companhia das Letras).
Portenhos veem renascimento da dança em vários pontos da capital
Ariel Palacios – O Estado de S.Paulo

BUENOS AIRES - Nada de rosa na boca ou malabarismos que fazem o tango parecer twist, como nos vários shows turísticos oferecidos com insistência na capital. Nas tradicionalíssimas milongas, dança-se comme il faut, de forma verdadeira e espontânea. Sem espaço para mão no peito e falsas lágrimas quando os músicos tocam os acordes de Evita.
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Nesses salões, os protagonistas são senhores de terno e gravata, que trançam as pernas indistintamente com senhoras de vestido ou adolescentes de jeans e tênis. Sim, adolescentes. Nos últimos anos, o tango vive um período de renascimento e hoje a cidade conta com mais de 150 milongas.
Antes de embarcar nessa jornada, saiba que o tango tem etiqueta própria. Primeiro conselho: evite conversar enquanto dança. “Somente um gringo pode fazer a palhaçada de aproveitar um tango para conversar e se divertir”, escreveu Ernesto Sábato, em seu livro de ensaios sobre a dança.
As tanguerías não são ambientes para paquera explícita. Logo, seja sutil. Para convidar alguém para dançar costuma-se fazer um cabeceo, movimento que consiste em uma leve sacudida da cabeça em direção à pista. Se a resposta visual for positiva, as duas pessoas se dirigem ao centro do salão. Confira alguns endereços com muita diversão e nada de estereótipos:
Niño Bien
Instalada no primeiro andar da associação cultural de uma comunidade espanhola, essa milonga embala a noite portenha com música gravada e orquestras. O público costuma ser majoritariamente de terceira idade e se divide entre aqueles que admitem a passagem do tempo e os que se rebelam contra ela. Bigodes tingidos, perucas e alguns espartilhos convivem com cabelos brancos.
O ambiente do Niño Bien é agradável. O único problema é que fica na região de Constitución, bairro não tão seguro assim. Chame um táxi e encare a jornada, pois vale a pena. Na saída, peça um radiotáxi. Não caminhe pelas redondezas à noite. Fica na Rua Humberto Primo, 1.462, Constituición. Informações: (00–54-11) 4483-2588.
Parakultutal
Nesta famosa milonga, orquestras embalam os dançarinos. O local também oferece aulas para diversos níveis de tangueiros – sempre às segundas, terças, quintas e sextas-feiras. Fica na Rua Scalabrini Ortiz, 1.331, em Palermo. Informações: www.parakultural.com.ar (o site inclui a programação do mês).
La Catedral
O ambiente não é tipicamente tangueiro – moderninha, a milonga mais se parece com um celeiro ou uma fábrica abandonada decorada com eventuais toques kitsch -, mas La Catedral é um lugar onde se dança o autêntico tango, com a alma. A presença maciça de jovens e adolescentes chama a atenção dos visitantes.
Argentinos se misturam a estrangeiros residentes na cidade e alguns poucos (poucos mesmo) turistas. Fica na Rua Sarmiento 4.006, Almagro. Informações: (00–54-11) 4342-4794.
Lo de Celia
Point de grandes e exigentes dançarinos de tango. Os habitués são bastante rigorosos com os novatos. Quando notam alguém diferente entrar no salão, ficam de olho para ver como a pessoa dança antes de convidá-la para, enfim, sacar viruta al piso (ou tirar lascas do chão). Fica na Rua Humberto Primo, 1.462, San Telmo. Mais informações: (00–54-11) 4304-2438.
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De olho na bolsa
Desde a crise de 2002, furtos viraram uma constante em Buenos Aires, principalmente em locais turísticos. Veja quais:
Rua Florida: sempre lotada – e cheia de visitantes distraídos -, é um prato cheio para os batedores de carteira. Algumas das paralelas também são pouco recomendáveis
Avenida 9 de Julio: a ampla avenida e seu policiamento precário permitem uma fuga rápida dos assaltantes
Caminito: o entorno da rua colorida, em La Boca, está cheio de batedores, que se escondem nos cortiços da área
Recoleta: o elegante bairro é alvo da ação dos moto-chorros, ou bandidos de moto. O motoqueiro passa em velocidade e seu comparsa, na garupa, rouba sacolas e relógios
Táxi: use um radiotáxi, pois há bandidos disfarçados de taxistas. E cuidado para não receber dinheiro falso. Outra estratégia é o motorista fingir que “esqueceu” de ligar o taxímetro e pedir um valor fixo pela corrida, bem maior do que você pagaria normalmente.
Café dos Maestros, de Miguel Kohan, acompanha lendas do gênero durante preparação para concerto de gala no Teatro Colón
Luiz Carlos Merten – O Estado SP
Psicanalista formado em cinema na UCLA, a famosa escola de cinema de Los Angeles, o argentino Miguel Kohan festeja seus 51 anos na semana que vem. “51, uma boa idéia.” Miguel sabe do que está falando. Afinal, nas suas andanças pelo mundo, ele se estabeleceu por um tempo no Brasil, mais exatamente em Salvador, onde fez documentários para a TV Cultura.
Um de seus trabalhos, Salinas Grandes, de 2004, fez o ‘recorrido’ dos maiores festivais internacionais. O primeiro longa do diretor, também documentário, estreou ontem nos cinemas brasileiros. Café dos Maestros é uma jóia cinematográfica e musical. Miguel Kohan concretizou, mais de 20 anos depois – leia a entrevista -, o sonho de Gustavo Santaolalla.
Nos anos 80, o compositor duplamente vencedor do Oscar – em 2005 e 2006, por O Segredo de Brokeback Mountain e Babel – quis mapear as fontes da produção musical argentina, mas faltara dinheiro justamente para que ele pudesse documentar a música da capital, da província de Buenos Aires. Ficara faltando o tango, e é dele agora que trata Café dos Maestros.
Quem foi a Buenos Aires, com certeza já visitou uma daquelas tanguerias, casas de tango como a tradicional Viejo Almacén, que servem a cena (jantar) acompanhada de espetáculos de tangos para turistas. Não pense por isso que os artistas não são maravilhosos. Só que os de Café dos Maestros são ainda melhores.
Entre ensaios e performances ao vivo, o filme monta um mosaico da cultura do tango. Grandes artistas como Leopoldo Federico, Lágrima Rios, Aníbal Rios, José Libertella e Luis Stazo ensaiam para uma apresentação ao vivo de gala no Teatro Colón, na capital argentina. Eles possuem diferentes estilos, diferentes origens. Conversam, contam histórias e Miguel Kohan vai montando o que é muito mais do que um documento sobre esse ritmo que é tão importante para os argentinos quanto o samba para os brasileiros.
“A novidade que o filme traz é a reunião desses artistas que nunca haviam tocado juntos antes”, explica o diretor. “Todos eles estavam atuantes (alguns, como a uruguaia Lágrima, morreram antes da es tréia) e o próprio tango estava vivo. O que não havia eram gravações recentes. Não favorecemos nenhum estilo de tango, pois não há um só tango. Existem vários, desde o mais campestre até o mais orquestrado. Cada estilo é como se fosse um país. Na Argentina, a multiplicidade do tango é defendida com a mesma paixão com que se torce para os times de futebol”, diz o diretor.
Ele não se incomoda quando, a título de simplificação, ouve os críticos comparararem seu filme a Buena Vista Social Club, de Wim Wenders. Café dos Maestros seria o Buena Vista Social Club do Tango. “Não é verdade, até porque as culturas musicais e as histórias dos dois países, Cuba e Argentina, são muito diversas. Mas eu adoro Buena Vista e sei que muita gente também gosta. Se, por aproximação, isso fizer com que mais público se sinta atraído por Café dos Maestros, tanto melhor. Só não gostaria que as pessoas começassem a pensar que vão ver exatamente a mesma coisa, pois não é verdade.”
Kohan explica que a logística do filme foi complicada, pois, além da idade dos músicos, havia outro fator complicador, que era a movimentada agenda de quase todos. “Por um lado, foi bom, pois não tínhamos tempo de preparar nada. Quando conseguíamos reunir as pessoas, tê-las todas juntas já era uma satisfação tão grande que, aí sim, podia-se planejar o que íamos fazer com certeza na hora.”
Miguel Kohan explica que alguns dos artistas nem tinham muita consciência de estar sendo filmados. “Em vários momentos, eu próprio fiz a câmera de Café dos Maestros. Acho natural que um diretor de documentários faça também a câmera, principalmente de um documentário musical, em que é preciso registrar linguagens tão diferentes. Usava um equipamento pequeno, bem móvel. Muitos dos maestros pensavam que estavam sendo fotografados, quando na verdade já estávamos filmando. Na maior parte do tempo, tenho de admitir que fui sendo contagiado por eles, pela música e, cada vez mais, queria eu mesmo filmar.”
Essa multiplicidade de linguagens era essencial desde o início, determinou o próprio conceito do projeto de Santaolalla. “O filme vem na esteira da pesquisa, de um livro de fotos, um disco e um show. Inclusive, depois da estréia, fizemos outro show em Buenos Aires, que teve ainda mais público”, ele conta.
Walter Salles associou-se ao projeto e a Videofilmes, empresa da família Salles, além de co-produtora, é que distribui o filme no Brasil. “Walter é amigo de Gustavo (Santaolalla) e foi o Gustavo quem o arrebanhou para o Café dos Maestros. Tenho grande carinho por Walter, que, além de tudo, é um grande conhecedor de cinema argentino.”
Kohan, que prepara sua primeira ficção, elogia a força e vitalidade atuais do cinema da Argentina. “Temos talentos muito diversos entre si, como Pablo Trapero e Lucrecia Martel, que trazem visibilidade internacional para o nosso cinema. No fundo, é um pouco como a diversidade do tango. Nós, argentinos, somos passionais, mas se há uma coisa de que não gostamos é do anonimato. Gostamos muito de externar nossas paixões, seja na música, no futebol, no cinema ou na vida. Nem as ditaduras conseguiram nos anular.”
O repórter, fã de tango, lembra Fernando Solanas, Tangos, o Exílio de Gardel – “hermoso” -, e principalmente Astor Piazzolla, o grande revolucionário do ritmo, cuja Reunión Cumbre com Gerry Mulligan é um dos discos mais belos do mundo. “Por Diós, si”, exclama Kohan. Años de Soledad e Adiós, Nonino são inesquecíveis para quem os ouve. E essa possibilidade de diálogo entre o tango e o jazz leva a uma reflexão final de Kohan. “A história do tango está muito ligada ao processo de imigração na Argentina. O tango nasceu na zona portuária de Buenos Aires. Foi por meio dele que muitos imigrantes adquiriram uma identidade. E o tango é sensual. Havia tanta coisa a trabalhar num filme como esse. Espero que os brasileiros gostem. Vai ser uma maneira de nos conhecerem melhor.”
Serviço
Café dos Maestros (Argentina/2008, 90 min.) Documentário. Dir. Miguel Kohan. 12 anos. Cotação: Bom
”Culturas musicais latinas poderiam dialogar mais”
Gustavo Santaolalla, idealizador do projeto, fala da união entre tango e samba
Gustavo Santaolalla conversa com o repórter do Estado, pelo telefone, desde sua fazenda em Mendoza. Cidade situada aos pés da Cordilheira dos Andes e lugar de passagem para o Chile, Mendoza é o principal centro produtor de vinho da Argentina e Santaolalla, como Francis Ford Coppola, é vitivinicultor. “Produzir o próprio vinho é uma dádiva dos deuses”, ele diz. Café dos Maestros é a concretização de um sonho de 25 anos. No começo dos anos 80, Santaolalla desenvolveu um projeto de mapear a produção musical argentina. Ele realmente viajou, e documentou-se, mas ficara faltando, por falta de recursos, a música de Buenos Aires, o tango.
Café dos Maestros é agora a dívida que ele paga consigo mesmo e com a música de seu país. Talvez por terem trabalhado juntos, Santaolalla, afinado com o diretor Miguel Kohan, destaca a mesma importância das origens do tango na zona portuária da capital. “O tango nasceu como uma música de imigrantes. Teve uma origem pouco nobre, praticada nos bajos-fondos. No início, não tinha nem o bandoneón. Era mais rupestre.” Santaolalla ganhou projeção internacional com seu grupo Bajofondo. Ganhou duas vezes o Oscar pela música de filmes. Apesar disso, ele se considera, até hoje, um outsider.
“Sempre trabalhei à margem. Minha raiz é o folclore, estudei muito as várias faces regionais da música argentina para fazer disso minha matéria de criação.” A multiplicidade do tango o encanta e ele cita os exemplos de duas intérpretes presentes em Café dos Maestros. “Virginia Luqui representa o lado mais dramático do tango, a teatralidade, e ela, por sinal, foi atriz antes de fazer carreira na música. Virginia é uma atriz que canta, ou uma cantora que atua. Lágrima Rios, que era uruguaia e morreu no final de 2006, foi a grande dama do candombe, a música dos negros, pois o tango, não sei se você sabe, tem um diálogo muito forte com a raiz africana.”
O repórter arrisca a pergunta – então é a matriz africana que une o tango, o samba e o jazz, e que permitiu inclusive que Astor Piazzolla e Gerry Mulligan fizessem aquele disco clássico, Reunión Cumbre? Santaolalla diz que sim e, inclusive, gostaria der todas essas culturas musicais dialogando mais entre si. Ele adoraria levar o espetáculo El Café de los Maestros para o Brasil. Mas sairia muito caro e há outro problema. “Muitos desses artistas são ‘viejitos’ de quase cem anos. Talvez não agüentassem a pressão de um tour internacional”, se bem que ele se lembra, com emoção, da alegria que os artistas de Café dos Maestros tiveram no set, a maioria deles cruzando-se pela primeira vez, contando suas histórias, interagindo musicalmente.
Quando se define como “outsider”, Santaolalla aplica a definição ao próprio cinema. Ele adora compor, mas não se encaixa ao modelo convencional do compositor hollywoodiano. Tem de ser com autores como Ang Lee (Brokeback Mountain), Alejandro González-Iñárritu (Babel) e Walter Salles (Diários de Motocicleta). “Não gosto de compor sobre as imagens filmadas. Meu sonho é uma integração mais funda entre imagem e música. Gosto de compor antes, a partir do roteiro e de diálogos com os diretores, para que a imagem já nasça com a música.” Quando encontra os autores que aceitam a parceria, Gustavo Santaolalla não merece menos do que nota 10.
Com História do Pranto, Alan Pauls faz seu exercício estilístico mais radical, cruzando o íntimo e o político numa só dimensão
Antonio Gonçalves Filho – O Estado de São Paulo
Mais Nietzsche do que Schopenhauer. A teoria do escritor argentino Alan Pauls sobre o problema da dor aponta para o primeiro filósofo não tanto por identificação com os ideais pagãos de uma Europa pré-cristã, que fizeram da filosofia de Nietzsche um manual de sobrevivência na selva das cidades. A uma certa altura de seu novo livro, A História do Pranto, Pauls diz que a dor que o protagonista sente “é sua educação e sua fé”. A dor, continua o autor, “o torna crente”. Como em Nietzsche, ela obriga o sofredor a se tornar mais forte. E, no caso, o sofredor é um adolescente de 13 anos, filho de pais divorciados, que acompanha a tragédia política da América Latina nos anos 1970, tentando inutilmente derramar uma lágrima pelas vítimas de ditaduras.
Dito assim, o livro de Alan Pauls pode parecer uma novela política lacrimosa. Não é lacrimosa e nem mesmo uma novela. A despeito de sugerir um gênero, ao incorporar o subtítulo Um Testemunho à História do Pranto, o talentoso autor de O Passado guia seus leitores por uma trilha enganosa, recheando esse “testemunho” de aforismos, à maneira de Nietzsche, e criando com esses o desejo de interpretar, não de conhecer, a história desse adolescente introspectivo e fixado na imagem do Super-Homem – outra pista que conduz o leitor à estrada principal, ou seja, ao sentido moral da crítica de Nietzsche à metafísica. Nada de platonismo pós-moderno. Pauls dá nome às ditaduras e faz da memória do menino sem nome um registro da história tenebrosa de uma Argentina afogada em sangue.
É bem verdade que o elogio do Super-Homem e a teoria da vontade de potência de Nietzsche acabaram servindo ao nacional-socialismo alemão – não por sua culpa, evidentemente, ele que considerava o nacionalismo uma neurose. Porém, no caso da admiração que o adolescente de Pauls sente pelo Super-Homem dos quadrinhos, trata-se inversamente de investigar a posição de fragilidade, de vulnerabilidade desse ser, acossado por um dilema moral e desgarrado da comunidade que pretende proteger. Mais uma vez recorrendo – deliberadamente ou não – a Nietzsche, Pauls adota uma narrativa marcada pelo tempo cíclico e pela alternância entre criação e destruição. Quando o leitor pensa que localizou no adolescente traços autobiográficos do autor, plasmado no narrador, ele desaparece como desapareceram milhares de crianças durante a ditadura argentina.
Críticos ciosos de uma revisão política do período ou de um ensaio antropológico sobre o modelo neoliberal que engendrou seres incapazes de se emocionar, como o garoto de Alan Pauls, vão se decepcionar com História do Pranto, mas não o leitor que anda atrás de um autor capaz de renovar a linguagem literária com uma escritura mais digressiva que a do chileno Bolaño, para citar um nome caro ao argentino.
As palavras surgem em cascata na narrativa desse garoto prodígio “que considera as lágrimas uma espécie de moeda, um instrumento de troca com o qual compra ou paga coisas”, um desses monstros que assombram as platéias de televisão respondendo a perguntas impossíveis em programas de auditório. Isso explica a sintaxe ornamental e a sofisticação barthesiana de Pauls, às voltas com a consciência de si, que se desdobra no outro e rememora a história coletiva por meio de lembranças pessoais. Esse exercício proustiano, intimista, que se choca com a tumultuada história argentina, é menos uma biografia – ou autobiografia – que um projeto mais ambicioso de atar numa única história todos os seus títulos anteriores (especialmente O Passado), a história da nostalgia da tragédia que têm os argentinos e deu origem ao tango.
O adolescente de História do Pranto não consegue evitar a lembrança da cena que comoveu seu pai até as lágrimas, a do show “mítico” de um cantor de protesto que reencontra os fãs após seis anos de exílio, chamado ironicamente de “Bondade Humana” pelo autor dessas memórias que a ninguém e a todos pertencem. Em outra ocasião, mais histórica, a da derrubada de Allende, vista pela TV, o protagonista tenta até chorar, ao ver seu amigo revolucionário desabar diante da invasão do Palácio de La Moneda pelos brucutus do general Pinochet, em 1973. Tempo perdido: não consegue verter uma só lágrima.
Numa entrevista, Pauls argumentou que, na origem do livro, está esse desejo de fundir o político e o íntimo num único registro em que ambas dimensões sejam indistinguíveis. Encontrou a saída nas memórias de um adolescente, um ser ainda em formação, um arauto além do bem e do mal que anuncia a urgência de ultrapassar os valores argentinos, dos quais o choro parece o mais evidente.
A companhia argentina No Bailarás vem pela primeira vez ao país para duas apresentações em São Paulo. Na sexta-feira (25) e sábado (26), os argentinos estréiam a coreografia “Grotesca Pasión Trasnochada” (”Paixão Grotesca de uma Noite sem Sono”, em tradução livre), no Teatro Municipal de São Paulo, às 21h.O espetáculo da coreógrafa e diretora Silvana Grill propõe um novo olhar sobre as relações entre os casais modernos que possuem vínculos cada vez mais flexíveis, mesmo sem abrir mão do compromisso. O enfoque é a maneira como estas relações se constroem especificamente nos salões de baile ou milongas (locais onde as pessoas se reúnem para dançar o tango).

No palco, três casais interpretam com sensualidade cada um dos 17 temas originais do programa, compostos em sua maioria por Ramiro Gallo e interpretados ao vivo no espetáculo pelo Ramiro Gallo Quinteto.Participam dos espetáculos os bailarinos Julieta Biscione, Mariano Bielak, Paula Gurini, Roberto Castillo, Gimena Aramburu e Juan Fossati.A companhia No Bailarás, fundada em 2004, em Buenos Aires, vem ao Brasil depois de apresentações bem recebidas pelo público na Itália, França e Tailândia.O nome da companhia foi escolhido com o propósito de soar como uma provocação. Segundo o grupo, quando alguém te diz para não fazer alguma coisa, essa é a primeira pessoa que vai fazer.Teatro Municipal – pça. Ramos de Azevedo, s/nº, Centro, centro, São Paulo, SP. Tel.: 0/xx/11/ 3222-8698. 80 min. Sex. (25) e sáb. (26).: às 21h. Ingr.: R$ 30 (setor 1), R$ 20 (setor 2) e R$ 10 (setor 3). www.ticketmaster.com.br.