18/11/2009 - 15:00h ÁGORA PROMOVE ENCONTROS SOBRE A CIDADE

TEATRO

O Ágora Teatro, que faz dez anos em 2009, realiza, a partir de hoje, o ciclo “A Cidade Teatralizada”, com seminários que discutem as relações entre metrópole e teatro. Serão quatro encontros até 9/12, sempre às quartas, às 21h, grátis. A convidada para o debate de hoje é a filósofa Regina Favre. A mediação é de Celso Frateschi, diretor do Ágora (r. Rui Barbosa, 672; tel. 0/xx/11/ 3284-0290).

29/10/2009 - 17:32h Ágora revisita “Ricardo 3º” com olhar político

Comemorando dez anos, grupo de Celso Frateschi propõe releitura de clássico de Shakespeare montado em 2006

Discussão em blog ajudou a abrir processo de criação da peça, que concentra a atenção nas alianças para alcançar o poder


Águeda Amaral /Divulgação
Ricardo3_Frateschi
Celso Frateschi, ator e diretor de ‘Reconstruindo Ricardo 3º’, em cena de peça que estreia hoje


JOSÉ ORENSTEIN COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

“Peter Brook já dizia que Shakespeare é como um pedacinho de carvão: a gente acende para aquecer ou iluminar em determinados momentos da vida.” Seguindo a ideia do diretor inglês, Celso Frateschi, do Ágora, acende o fogo de “Ricardo 3º”, peça que estreia hoje em São Paulo.
Mas, para o Ágora, desta vez, o trabalho de acender foi menor: bastou assoprar a brasa da última montagem, ocorrida em 2006. O grupo, em 2009, comemora dez anos de existência e, nesse sentido, revisita seu repertório, “mas de forma muito crítica”, salienta Frateschi.
Depois de remontar “Diana”, “Antes do Café” e “Sonho de um Homem Ridículo”, o Ágora volta a Shakespeare e a “Ricardo 3º”. “É outra montagem, não tem nada a ver com a de 2006, a não ser o texto. Não estamos nem sequer fazendo integralmente.” É que a peça, desta vez, será apresentada por partes.
Com o nome “Reconstruindo Ricardo 3º – Parte 1″, o espetáculo seleciona cenas do primeiro ato para enfocar a trama de alianças políticas que Ricardo 3º costura para chegar ao poder. “Estamos pesquisando qual é a ética que ele inaugura. É quase que um Maquiavel encenado”, diz Frateschi, que, além de dirigir, também atua.
E, se de um lado é a política que emerge nessa releitura de Shakespeare promovida pelo Ágora, de outro, é a visceralidade dos personagens que o grupo visa aprofundar. “É a grandeza de Shakespeare. Os vícios humanos são expostos de forma viva”, comenta o diretor. Uma outra novidade que o Ágora traz ao completar sua primeira década e que aponta talvez o caminho para os próximos anos é o processo de montagem da peça. No site do grupo (www.agorateatro.com.br), um blog buscou abrir as discussões dos ensaios ao público.
“Estamos inaugurando essa ferramenta. A internet é um instrumento a mais que pode dar outra dinâmica ao trabalho, ajudar a ampliar e a divulgar o que refletimos no ensaio”, analisa Frateschi. Mas a internet não é a grande meta do Ágora.
“O teatro se dá no exercício presencial. A presença ainda é o que nos diferencia.”

RECONSTRUINDO RICARDO 3º – PARTE 1

Quando: estreia hoje, às 21h
Onde: teatro Ágora (r.Rui Barbosa, 672; tel. 3284-0290); até 17/12
Quanto: de R$ 10 a R$ 20
Classificação: 14 anos

28/10/2009 - 16:25h Vida na periferia, por quem é de lá

Hospital da Gente, da trupe de Taboão, é brilhante radiografia do cotidiano nas bordas da metrópole


Beth Néspoli – O Estado SP

Começa na Rua Santa Luzia, em Taboão da Serra, o espetáculo Hospital da Gente, mais especificamente diante do portão da sede do Grupo Clariô. É noite de sábado e a reportagem do Estado junta-se aos espectadores para acompanhar a criação dessa companhia que há algum tempo vem despertando atenção pela qualidade de seu trabalho, provocando a chamada propaganda boca a boca. Acostumados às sessões teatrais dos fins de semana, moradores já se colocam às varandas para ver o início da apresentação. Através da janela de uma das casas, no momento mesmo em que uma atriz começa sua cena é possível ver um homem secar a cabeça com uma toalha.

video Assista a cenas da peça

Mas a atmosfera de precariedade característica das periferias urbanas se dissipa às primeiras palavras da atriz Martinha Soares. Sua atitude corporal, os gestos precisos e expressivos, a voz colocada num tom de voz audível sem perda de nuances e, sobretudo, a segurança que se apropria das palavras de Marcelino Freire, cujos contos são base da dramaturgia da montagem, logo dão ao espectador a certeza de que estará diante de um espetáculo profissional, termo usado aqui no sentido da elaboração cuidadosa, do burilamento necessário à boa arte. Martinha, assim mesmo no diminutivo, é uma das sete atrizes desse grupo dirigido por Mario Pazini que nasceu em 2002, ali mesmo em Taboão da Serra, e há quatro anos conseguiu abrir sua sede, alugando duas casinhas, mantida durante os primeiros três anos sem nenhum apoio financeiro, público ou privado.

Quando o portão se abre, o espectador – conduzido pela personagem do prólogo, uma mulher indignada por ter sido impedida de vender seu rim – se depara com uma cenografia impactante, feita não para olhar, mas para “estar”. Em simbiose com as duas casas, construiu-se uma “ocupação” com madeira e centenas de elementos cênicos como varais de roupas, mobiliário e utensílios domésticos, reprodução artística da paisagem visual e sonora característica de uma favela, com seus becos, botecos e barracos. Dentro dessa cenografia-instalação, o público “vivencia” o cotidiano dos moradores.

Flagrantes da vida da periferia? Sim, mas numa abordagem original dessa temática cada vez mais presente em telas e palcos. E não é só uma qualidade “de origem”, do lugar de onde se fala, de dentro para fora. Antes de mais nada há um desejo manifestado por esses artistas de entender e discutir a vida nas bordas da metrópole – sem drama. A ausência de autopiedade é elemento essencial na poética da trupe e se faz presente na encenação, na dramaturgia e, sobretudo, nas interpretações. Por exemplo, Naloana Lima, no papel da mulher que “dá” seus filhos paridos, não busca explorar a dor, mas a aguerrida firmeza de quem dela se defende, e assim revela o que a mulher nega. Mérito da direção, essa cena se estrutura numa discussão comum de vizinhas, o que retira dela a intenção de comover. Recurso que, com variantes, perpassa toda a encenação. Aparentemente, são recortes da vida. Na verdade, está-se diante de construção simbólica, da simplicidade fruto de consciente elaboração estética.

Mesmo quando a dor se faz presente, como na cena da prostituta cuja memória do pai que abusou dela na infância vem à tona pelos olhos azuis de um cliente idoso, a atriz Alaíssa Rodrigues consegue expressar sentimentos contraditórios sem cair na autopiedade. Há cenas densas, como a da mãe (Janaína Batuíra) em busca da filha raptada ou da mulher que se recusa a ir à passeata pela paz, uma bela interpretação de Nanura Costa. Há ainda “respiros”, como na figura patética encarnada por Maíra Galvão, a dona do “boteco Fênix”, que após levar uma surra do marido, compensa o presente árido relembrando (fantasiando?) sua beleza física no passado. A leveza chega em toques de humor, como faz Paloma Oliveira tanto no papel de uma bêbada ressentida, quanto na “evangélica” numa tragicômica discussão com a vizinha prostituta, que pede remédio para o filho.

Pelo menos um espectador soltou o riso na plateia, Gabriel Mota, de 6 anos. “A gente não tinha como deixá-lo”, argumentou o casal Gisele e Eduardo Duwal. Na cena do lixão, Gabriel não se conteve: “Não come isso, é sujo, você vai pegar vírus.”

Um conjunto de atrizes expressivas integra o Clariô. Naruna, uma das fundadoras, já foi “descoberta” pela televisão, vai estar no elenco da próxima novela da Globo, Tempos Modernos. Não por acaso, a força das mulheres de periferia foi o tema sobre o qual a montagem começou a ser construída, antes mesmo de “entrar em cena” o texto de Freire. “Tínhamos feito algumas peças, o grupo passou por transformações, algumas pessoas saíram, outras se integraram e, de repente, nos demos conta de que éramos sete mulheres e três homens”, comenta Naruna. Os homens, no caso, são o ator Will Damas, responsável pela iluminação; o diretor Pazini e o cenógrafo Alexandre Costa, o João, como é chamado. Esse é especial. Assina a cenografia, opera luz e som. “E cozinha muito bem”, falam as atrizes em coro. Do processo, o que João mais lembra é das enchentes. “A gente já tinha construído boa parte do cenário e perdeu tudo, tivemos de recomeçar.” Não por acaso, a trupe avisa no site: “Se chover não tem peça, risco de enchente” (leia no quadro).

Um encontro feliz de Naruna com o compositor Chico César – cuja canção Beradêro está na trilha e inspirou o título do espetáculo – foi a ponte para conhecer Marcelino Freire. Assim surgiu o texto, tessitura de 12 contos extraídos de seus livros e um inédito, que embasaram as imagens já criadas. A montagem estreou em 2008, recebeu cinco indicações para o Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro e venceu em três categorias: grupo revelação, ocupação de Espaço e trabalho desenvolvido no interior ou litoral.

Até o final de 2008, custos do espaço e montagem sempre foram divididos pelos artistas do Clariô, que têm outras atividades. “O poder público local nunca apoiou. Felizmente temos ótimos vizinhos e apoio da comunidade”, diz Pazini. Este ano, pela primeira vez, além de um edital de circulação, o Clariô ganhou o Prêmio Miriam Muniz, da Funarte. Entusiasmados, já preparam uma nova montagem. “Existe uma estética de periferia? O que é estar na borda? Se há margem, o que está no centro? Queremos discutir isso em cena”, diz Naruna. Até lá, apresentam Hospital da Gente e abrem a casa para receber outros grupos, todo mês, para apresentações, encontros, debates.

Serviço:
Hospital da Gente. 90 min. 12 anos. 25 lug. Espaço Clariô. Rua Santa Luzia, 96. Reservas pelo tel. 9995-5416. Sábs., 21 h. R$ 10. Se chover, não haverá sessão


Enchente mais uma vez destrói parte da cenografia

Beth Néspoli

PREJUÍZO: O fantasma das enchentes que sempre ronda os artistas do Grupo Clariô se fez presente apenas dois dias depois da passagem da reportagem do Estado pelo espaço da trupe, em Taboão da Serra. Em conversa com os artistas, no sábado à noite, muitas foram as histórias de enchente narradas pelas atrizes e pelo técnico de palco Alexandre Souza, o João, que construiu passo a passo a cenografia do espetáculo Hospital da Gente. Tudo parecia remoto, distante. Mas ontem pela manhã, texto dessa página já escrito, um telefonema da atriz Naloana Lima dá conta de que na noite de segunda, a água atingiu 1,5 metro nas paredes do espaço. “Perdemos todA a cenografia móvel, feita para viajar, e muito, muito do nosso cenário”, conta Naloana. Enquanto muitos evitavam seguir para Taboão da Serra durante a chuva forte que caiu na tarde de segunda, os atores, ao contrário, deixavam seus trabalhos – eles não sobrevivem de teatro – e corriam para lá na expectativa de mais problemas. Não deu outra. “A gente fica indignado porque a peça ficou um ano e meio em cartaz, a gente sempre falando de enchente, e não consegue mobilizar o poder público. Para nós, atores, a perda é grave, mas a gente limpa tudo, ajeita, e mesmo faltanto coisas vamos fazer a peça no próximo sábado, na garra, como sempre. Mas e os nossos vizinhos? É a vida deles. Na casa em frente, que fica mais baixa, caiu uma parede. Nós perdemos a geladeira, muitos objetos, mas podemos nos virar. Mas eles, a cada chuva perdem coisas essenciais, é preciso recomeçar, isso quando não se perde vidas”, protesta a atriz, sob forte emoção.

16/10/2009 - 14:33h França e Brasil unidos em Pawana


Texto de Le Clézio, Nobel de Literatura, é encenado pelo prestigiado diretor francês Georges Lavaudant, com elenco nacional

Beth Néspoli – O Estado SP

No palco do Tusp um tablado de madeira remete a um ancoradouro, uma ponta de cais. Ouve-se o barulho de mar, de gaivotas. Vagarosamente, o ator Celso Frateschi caminha sobre a madeira. Sobre seu rosto incide uma luz tênue, vinda de baixo. As palavras se encadeiam na criação de imagens poderosas. É possível “ver”, por meio delas, a beleza fascinante da enseada, na costa da Califórnia, onde centenas de baleias se refugiam para parir suas crias. Há momentos em que a respiração parece ficar suspensa na plateia.

O poder das imagens tecidas com palavras faz pensar ter sido merecido o Nobel de Literatura do francês Jean-Marie Gustave Le Clézio. Ele é o autor de Pawana, texto editado pela Cosac Naify, com tradução de Leonardo Fróes e ilustrações de Guazzelli), e agora encenado sob direção do francês Georges Lavaudant, com Frateschi e Otávio Martins no elenco, para apenas duas apresentações, hoje e amanhã no Tusp, com entrada grátis, e uma terceira sessão, na segunda-feira, em Curitiba. Em São Paulo, a encenação contará ainda com o coral Infanto-Juvenil da Escola Municipal de São Paulo, sob a regência de Mara Campos, entoando, apenas para criar uma atmosfera, canções de marujos. O espetáculo integra a programação do Ano da França no Brasil.

No palco, Frateschi narra a aventura de Charles Melville Scammon, capitão do navio Léonore, que se lança pelos mares na certeza de que existe, e ele pode descobrir, o Eldorado das baleias. E foi o que realmente ocorreu, em 1856, época em que o óleo de baleia era um dos principais combustíveis, usado em candeeiros para a iluminação. A descrição da beleza dessa descoberta, sob a luz da lua, é seguida de imagens chocantes do extermínio em massa, da destruição sangrenta desse Eldorado.

Otávio Martins dá voz ao grumete John, nascido em Nantucket – não por acaso o cenário de Moby Dick, de Herman Melville – que compartilha a aventura, mas traz sobretudo o lado sombrio dessa descoberta, não restrito à matança animal. Sua paixão por uma índia, igualmente tratada como “presa”, amplia a ideia central abordada pelo autor: “Por que os homens matam aquilo que amam?”

Lavaudant evita interromper os atores, mas após cada bloco narrativo, com a ajuda atenta da tradutora Isabelle Ribot, pede pequenas nuances, e que se evite gestos, expressões definidas por ele como “ilustrativas”. Em conversa após o ensaio, explica: “Não são personagens, não é realista, é narrativo, um poema sensorial”, diz. Amigo de Le Clézio há mais de dez anos, conta que vivia cobrando dele uma peça teatral. “Um dia ele me trouxe esse texto.” Lavaudant o encenou pela primeira vez no México, e depois na França. É um contundente libelo contra a destruição, qualquer que seja. Teria o teatro potência para transformar o homem? “Não”, responde imediatamente. Mas emenda. “Veja bem, talvez sim, mas não é essa sua função. A arte deve fazer o espectador sentir que a vida vale a pena ser vivida.”

O Diretor

PRESTÍGIO: Se Le Clézio, o autor de Pawana, venceu o Nobel de Literatura em 2008, premiação que atrai o olhar mundial sobre a qualidade de uma obra, não menos importante é a trajetória do diretor Georges Lavaudant. Nascido em 1947, em Grenoble, na França, foi diretor de grandes teatros nacionais europeus, entre eles o Teatro Popular Nacional de Villeurbanne (1986-1996), sucedendo Patrice Chéreau, e Teatro Odeon (1996-2007). Criou encenações para textos clássicos e contemporâneos, de Shakespeare a Genet, de Brecht a Michel Deutsch, de Pirandello a Artaud. Foi um dos pioneiros na arte de criar dramaturgia a partir de oficinas com atores. Dirigiu espetáculos no México, na Rússia e no Vietnã. B.N.

24/09/2009 - 17:21h Sinfonia de Navios Andantes

“Sinfonia de Navios Andantes”- peça musical do maestro e compositor Gilberto Mendes, baseada em poema do escritor Flávio Viegas Amoreira, será apresentada nessa quinta-feira, a partir das 21 horas, no Sesc-Santos,
dia 24 de setembro. Entrada franca; encerramento do “Festival Música Nova” – 2009

18/09/2009 - 17:58h Et cetera

Sobre el error: arte-política-vida-etc

por Cristina Civale – Civilización & Barbarie

Etcétera…
No ha de ser definido…
Imagine usted lo que viene después…
Etcétera… es la palabra que quiebra el sistema lingüístico
Etcétera… cierra y abre el discurso
Etcétera… «es» en todos los idiomas
Por lo tanto es un aliado en todo el mundo
Etcétera… es tiempo presente
Sus miembros no pueden ser contados
Etcétera… es singular y plural, femenino y masculino
Etcétera… se suma se resta se divide y se multiplica

El grupo Etcétera se está luciendo en la Bienal de Estambul que acaba de inaugurarse con su intervención “Kabaret errorista”.
Según la corresponsal de El País de España, Angeles García, este grupo de artistas”aportan la pieza con más fuerza visual de la bienal”.

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La puesta consiste en la presentación de un escenario teatral rodeado de varias siluetas humanas en tamaño real. Las piezas constituyen lo que llaman ” la gente armada”, tomando la palabra “armada” en dos sentidos: el de portar armas y el de ser construidos.
Estas siluetas representan a distintos miembros de la “Internacional Errorista” un movimiento que tiene estos postulados:
1. El “Errorismo” basa su concepto y su acción, sobre la idea que el “error” es el principio ordenador de la realidad.
2. “Errorismo” es una posición filosófica equivocada, ritual de la negación, una organización desorganizada: La falla como perfección, el error como acierto.
3. El campo de acción del “Errorismo” abarca todas las prácticas que tiendan hacia la LIBERACION del ser humano y del lenguaje.
4. Confusión y Sorpresa
Humor Negro y el Absurdo son las herramientas preferidas de los “erroristas”.
5. Los “lapsus” y actos fallidos son un deleite “errorista”

En el escenario, como un susurro, tiene lugar una “discusión surrealista entre intelectuales, artistas, revolucionarios y gente de todo tipo sobre los deseos y las esperanzas.
¿Quiénes los escuchan? El público de la Bienal que es invitado a tomar parte activamente. Allí escuchan no sólo la posición ante la vida de los “hombres” sino también de una botella de vino, una silla, un cuadro y hasta una taza de té.

Según explican, “una comedia sociopolítica” desde la perspectiva errorista.

Para el movimiento, cuya última intervención tuvo lugar en el marco de la paranoia de la gripe porcina en el centro de Buenos Aires, “política es vida y el errorismo es re-evolucionario ya que sus practicas r-evolucionan hacia la búsqueda de la autonomía y autosuficiencia social y el Capitalismo es el más grande error disimulado de acierto”.

Pero Etcétera tiene una historia que empieza hace más de 10 años, exactamente en 1997 cuando convirtieron en arte los escraches de la organización H.I.J.O.S como el inicio de su intención medular: llevar arte a las zonas donde se producen conflictos sociales y políticos.

Aquí ningún error, vale la pena seguir los pasos de este colectivo de artistas, uno de los más innovadores e inquietantes en el arte performático de este siglo.

08/08/2009 - 16:40h E o teu olhar era de doloroso adeus

O fim de um relacionamento é o tema de A Música Segunda, de Marguerite Duras, dirigida por José Possi Neto, no Rio

Roberta Pennafort – O Estado SP

Um homem e uma mulher se apaixonam e se casam. Moram num hotel por três meses até se mudarem para a casa nova. Com o convívio, a relação desmorona. Vem a separação. Três anos depois, o reencontro, no hall do mesmo hotel, logo depois da assinatura do divórcio. A conversa que se segue é intensa, reveladora, dolorosa – mas necessária. Ainda existem o amor e o desejo, só que os dois têm consciência da impossibilidade da relação.

Assim se desenrola A Música Segunda, peça da escritora francesa de origem asiática Marguerite Duras que está em cartaz no teatro da Maison de France, no Rio, com direção de José Possi Neto. Leonardo Medeiros é Michel Nollet e Helena Ranaldi, Anne-Marie Roche, um casal que se une por se amar demais, e acaba se separando pelo mesmo motivo.

“Eles não conseguem esquecer as cicatrizes porque continuam se amando. É uma história universal, arquetípica, de todo casal que se separa. Fiquei fascinado pelo texto, porque a autora não dá um caminho. Não existe uma mensagem”, avalia Medeiros. “Eu li o texto e não tive dúvida alguma de que queria fazer a peça. Sempre tive sorte porque meus personagens têm relações muito intensas. As relações humanas me interessam muito, acho importante falar disso”, diz Helena. Tanto para ela quanto para ele é o primeiro contato com a obra de Marguerite Duras para teatro.

O público viu os atores juntos recentemente, na novela da TV Globo A Favorita. Medeiros era o “prefeito corno” e Helena, a esposa adúltera. Embora entre os cônjuges franceses também haja a questão da traição, a relação aqui é bem diferente. Em certo momento, surge a frase: “Vamos amar menos as outras pessoas.” Para Medeiros, trata-se da vontade de viver amores menos passionais. “Esse casal se casou muito jovem. Para mim, é como se essa frase fosse um chamado para um amor mais sereno.”

Possi ressalta a modernidade do texto. “É muito provocante para mim como encenador. É quase uma colagem de cenas do cotidiano que vão construindo um universo de sensações. Há muitos anos não pegava um texto assim.” Para mostrar ao espectador as emoções escondidas do homem e da mulher, o amor e a paixão não-realizados, o diretor, entusiasta do “teatro-dança”, leva ao palco dois bailarinos, que, posicionados atrás de uma tela transparente, por vezes são como alter egos das personagens; noutras, são imagens refletidas no espelho, ou, ainda, sombras.

Nascida em 1914, Marguerite, escritora, roteirista e diretora de cinema, escreveu A Música em 1965 e adicionou uma segunda parte 20 anos depois – daí o título A Música Segunda. A produtora Lulu Librandi assistiu à montagem com Fanny Ardant no papel de Anne-Marie em 1996, ano da morte da autora. Ficou encantada com a força do texto, mas só conseguiu adquirir seus direitos quase dez anos depois.

A peça vai estar de quinta a domingo, até 27 de setembro, no Teatro Maison de France PSA Peugeot Citroën (Av. Presidente Carlos de Campos, 58, Centro, Rio).

02/08/2009 - 10:46h Cortina de fumaça

Ecoando discurso de um fumante inveterado, seu personagem em “Restos”, monólogo de Neil LaBute que estreia em São Paulo dia 20, ator

Antonio Fagundes, 60, que vai estrelar o monólogo “Restos’, sob direção de Márcio Aurélio; ator encarna fumante que, durante velório, relembra a relação com sua mulher, vítima de câncer

Rafael Hupsel/Folha Imagem
fagundes.jpg
Antonio Fagundes critica a Lei Antifumo e diz que vai “peitar” a medida e acender cigarro em cena

 

LUCAS NEVES – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Se todo ator incorpora traços dos tipos que interpreta, parece que Antonio Fagundes, 60, escolheu o que levar de seu personagem em “Restos”, de Neil LaBute, antes da estreia no dia 20, em São Paulo, no teatro Faap: o ataque à patrulha antitabagista.

Em cena, dirigido por Márcio Aurélio (”Agreste”), ele encarna um fumante inveterado que repassa -com suspiros saudosistas e certa birra dos modos contemporâneos- as fases de sua relação com a mulher cujo corpo está sendo velado.

Ela morreu de câncer, ele está na fila. Pouco importa. “Guardem seus panfletos ou qualquer outra merda sobre o assunto, ok? A vida é minha, pelo menos o que resta dela”, diz à plateia.

O texto de LaBute é farto em rubricas que pedem um cigarro à mão. Mas a Lei Antifumo que entra vigor na sexta no Estado de São Paulo impede que atores fumem em cena sem autorização judicial. É aí que Fagundes toma emprestado o tom incisivo do personagem:
“Vou peitar isso e fumar. Temos um problema de censura. É um precedente grave se a gente não fala nada. Fiquei surpreso que os fumantes tenham ficado quietos. O brasileiro está muito quieto para tudo. Espero que os fumantes não votem nas pessoas que aprovaram essa lei. É engraçado, porque parece que o [governador José] Serra é ex-fumante. Não tem coisa pior do que ex”.

Para Fagundes, “começa assim; amanhã, vão dizer que não pode beijar na boca porque passa gripe suína; depois, não pode mostrar assassinato [em cena], porque é contra a lei. As pessoas ainda não perceberam, a liberdade não se perde de uma vez. Os puritanos proibiram o teatro na Inglaterra por décadas pois achavam que era satânico. Caminhamos para isso”.

Sem patrocínio para a montagem de “Restos”, o ator também tece críticas ao debate sobre a reforma da Lei Rouanet, que concede às empresas que investem em produções artísticas isenção de parte do Imposto de Renda devido.

“As pessoas que redigem a lei deveriam entender o mecanismo de produção de teatro, saber quanto custa manter um espetáculo em cartaz, anunciar num jornal. Não tem ninguém nessas comissões que já tenha feito teatro? [Quando se fala em mudar a lei] Dá a impressão de que é um movimento rancoroso, do tipo “só estes caras que não precisam [por serem famosos] recebem dinheiro”. É claro que precisam!”

Por conta das restrições previstas na Rouanet aos gastos com divulgação, os espetáculos estreiam, segundo Fagundes, com “morte anunciada”. “Você fica em cartaz por pouco tempo. Ou seja, se antes se falava em espetáculos de elite, agora são peças para a elite da elite, porque não são só para quem pode pagar, mas para quem corre para pagar”, observa.

Seu Zé e Dona Maria

Ao longo dos 43 anos de carreira teatral, transitou com desenvoltura entre a dramaturgia engajada do Teatro de Arena, musicais da Broadway, montagens de clássicos (como “Macbeth” e “Gata em Teto de Zinco Quente”) e empreitadas de risco, como “Carmem com Filtro”, estreia de Gerald Thomas na cena paulistana. Sempre com uma piscada de olhos para “seu Zé e dona Maria” -como se refere ao espectador pouco familiarizado com teatro.

“Estamos acostumados a ensinar filosofia a quem não sabe ler. Parte-se do princípio de que quem foi lá [ao teatro] sabe tudo”, afirma. “Defendo a tradição teatral para um público que não a conhece. Sempre pensei assim: só vou fazer experiência na minha vida quando tiver feito o resto todo. No Brasil, parte-se para a inovação antes de se ter experiência.”

Daí seu descontentamento com o abandono “da cortina, da sala convencional”. “Criaram-se espaços que não são teatros. Você pode inovar sem deixar de dar ao público conforto. Já cansei de sentar em cima de prego. Não acho interessante. A gente não tem mais maquiagem, grandes figurinos, cenários, efeitos. O próprio texto deixou de ter surpresas.”

Não é o caso de “Restos”, dotado de uma reviravolta que, nos momentos finais, atira no colo do público um segredo oculto pela cortina de fumaça.

31/07/2009 - 16:51h É Ágora, é Teatro


30/07/2009 - 17:45h Ágora comemora dez anos com releitura crítica de seu repertório

Estreia amanhã texto de Eugene O’Neill e, no sábado, monólogo de Frateschi

Águeda Amaral/Divulgação

Mawusi Tulani, Cynthia Chaves e Denise Cecchi em cena no Ágora

 

JOSÉ ORENSTEIN COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A ágora na Antiguidade Clássica era o espaço público por excelência, a praça da política e dos encontros. É esse espaço do encontro que o dramaturgo Celso Frateschi quis criar quando, há dez anos, fundou o teatro Ágora, em São Paulo.
Como parte das comemorações de sua primeira década de atividades, duas peças serão reencenadas. Uma é “Antes do Café”, texto do norte-americano Eugene O’Neill, apresentada em 2001 e que estreia amanha. A outra é “Diana”, monólogo do próprio Frateschi, apresentado na abertura do Ágora em 1999, e que volta à cena neste sábado. As releituras fazem parte de um processo de revisão crítica que Frateschi classifica como uma “radicalização de suas propostas estéticas iniciais”. Desde abril, peças do repertório do Ágora vêm sendo montadas, revistas e rediscutidas.
Na busca por flagrar o ser humano naquilo que tem de mais fundamental, na sua “menor grandeza”, Frateschi lança mão da perspectiva brechtiana para conceber suas peças.
A concentração é voltada para o mínimo de elementos cenográficos e o máximo de trabalho dos atores. “Os cenários começam entulhados no ensaio, mas aí vamos depurando, depurando, para deixar só o que é necessário, o elemento que sugere uma poesia ao espectador”, afirma Frateschi. E se o cenário é diminuto, a atuação é multiplicada por três.
Em “Antes do Café”, a personagem principal, uma mulher que prepara o café da manhã para o marido, é interpretada por três atrizes simultaneamente. As falas são as mesmas, mas não é combinada a hora em que cada uma deve entrar. “Criamos um estado de atenção e suspensão, que dá importância à visão que as atrizes têm do espetáculo”, analisa o diretor.”É uma perspectiva cubista, porque aborda o ser humano de vários ângulos”, prossegue Frateschi.
Nessa toada, até o fim do ano reencenações de “Ricardo 3º” e “Don Juan” voltam aos palcos do espaço que não desiste de promover o encontro: toda primeira quarta-feira do mês, o Ágora recebe convidados para discutir o teatro, com uma garrafa de vinho. Dionísio sorri.


ANTES DO CAFÉ
Quando: sex. e sáb., 21h, dom., 20h; até 13/9 (ambas as peças)
Onde: Ágora Teatro – Sala Gianni Ratto (r. Rui Barbosa, 672, tel. 3284-0290) Quanto: de R$10 a R$20
DIANA
Quando: sáb., 21h, dom., 20h; na sala Edith Siqueira; até 13/9
Quanto: de R$15 a R$30
Classificação: 12 anos (ambas)

18/07/2009 - 19:35h Celebração

http://mail.mailig.ig.com.br/mail/?ui=2&ik=059ef31cd9&view=att&th=1228f534b7703d29&attid=0.1&disp=inline&zw
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19/06/2009 - 21:00h Espetáculo leva ao palco “Sonho de um Homem Ridículo”, de Dostoiévski

Direção: Roberto Lage. Duração: 75 minutos. Não recomendado para menores de 12 anos.
Leia mais no roteiro

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FABIANA SERAGUSA Colaboração para a Folha Online

Será que um sonho pode ter a força de mudar toda uma vida e de dar sentido ao que antes só causava indiferença? O espetáculo “Sonho de um Homem Ridículo”, adaptado do conto homônimo do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), leva aos palcos a história de um funcionário público que vive em 1877 e que não vê sentido algum na vida, e que, por isso, compra uma arma e espera o melhor momento para se matar.

Águeda Amaral/Divulgação
Frateschi (foto) interpreta monólogo sobre conto de Fiódor Dostoiévski
Frateschi (foto) interpreta monólogo sobre conto de Fiódor Dostoiévski

Celso Frateschi interpreta o monólogo, que fica em cartaz até 28 de junho no Ágora Teatro (região central da capital paulista). A temporada, inicialmente prevista para terminar dia 21, foi prorrogada por causa da grande procura por ingressos, que custam R$ 20.

Já no início da história, o homem faz questão de dizer que tem plena consciência do quão ridículo é, e que sente pena daqueles que riem e zombam dele sem nem saberem de seu conhecimento.

Certo dia, ao voltar para casa durante a noite mais escura de todas, ele avista uma estrelinha muito brilhante que chama sua atenção, e isso acaba sendo o “aviso” que ele aguardava para, enfim, colocar fim a sua vida. Mas tudo muda ainda durante o trajeto, quando uma garotinha pede desesperadamente ajuda ao homem, que não entende bem o que ela grita, e mesmo assim lhe vira as costas.

Já em casa, e ainda atormentado pelo fato de ter sentido compaixão pela menina (mesmo ignorando seus apelos), ele adormece em sua poltrona (fato que nunca acontecia) e tem um sonho revelador sobre a humanidade e sobre a transformação do paraíso em um mundo cheio de pecados, inveja, ódio e dor.

A montagem, dirigida por Roberto Lage, faz parte do projeto Agora + 10, que celebra os 10 anos de atividades do Ágora Teatro. Saiba mais sobre a programação: www.agorateatro.com.br.

01/06/2009 - 19:48h Debates no ágora

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09/05/2009 - 15:06h ”Todo mundo é melhor do que pensa que é”

http://www.estadao.com.br/fotos/boal_c2.jpgCerca de um mês antes de sua morte, o diretor Augusto Boal concedeu esta entrevista em Paris

 

Taíssa Stivanin, PARIS – O Estado SP

 


No dia 25 de março, o dramaturgo, diretor e ensaísta Augusto Boal recebeu na sede da Unesco, em Paris, o título de Embaixador Mundial do Teatro. Poucas horas antes, no hall de um hotel na praça da República, na capital francesa, o criador do Teatro do Oprimido concedeu uma de suas últimas entrevistas. Boal, que morreu dia 2, no Rio, aos 78 anos, tinha chegado a Paris um dia antes de nossa conversa. Fui buscá-lo no quarto. Mancando, ele contou que tinha ordens médicas para não deixar o hospital, mas disse que não perderia a oportunidade de receber o prêmio por nada. Se o dramaturgo estava fisicamente tão debilitado, isso só ele sabia. Seu espírito e sua energia continuavam intactos. Bem-humorado, falante, gesticulando muito, e sem pedir nem um copo de água, o dramaturgo conversou sem se cansar. Desse papo, ficou a mensagem que resume sua vida: “Todo mundo pode fazer melhor do que acha que está fazendo.” Seu teatro é a descoberta dessa capacidade.

O sr. acompanha o trabalho do Teatro do Oprimido em Paris?

Em Paris acompanho pouco. Meu filho, Julian Boal, integra um grupo que se chama Grupo do Teatro do Oprimido. Existem vários lugares na França que fazem o teatro do oprimido. O movimento Planning Familial (Planejamento Familiar) o utiliza há muitas décadas em seu trabalho. As escolas e as ONGs também. Acompanho como posso. No site internacional do Teatro do Oprimido, existem mais de 50 países nomeados e 200 grupos. Mesmo no Brasil, ele está presente em todos os Estados, menos no Amazonas, Pará e Roraima, pois custa muito caro desenvolver um projeto por causa da distância. O volume de trabalho é imenso, na Índia, na África. Quando algum grupo introduz uma técnica diferente, a gente tenta seguir. No mais, a gente aplaude.

O sr. vai muito à Escandinávia? Como o trabalho se desenvolveu lá?

Começou na Suécia há 30 anos. Tinha amigos exilados, que nos anos 70 me convidaram para fazer uma oficina. Fui voltando nos anos seguintes. Durante muito anos fui para a Suécia e a Noruega. Mas agora canso muito se pego avião sempre. Meu filho leva o trabalho adiante. O Julian, segundo ele mesmo, faz o mesmo trabalho que eu, mas muito melhor (risos).

Ele acreditou no potencial dele, e essa responsabilidade é sua…

Exatamente, você matou a charada. Dizia para o Julian que ele era melhor do que pensava, ele acreditou. E me respondia: “Sou mesmo.” Julian trabalha muito no exterior. Na África, na Ásia. Na Índia, existe a Federação Indiana do Teatro do Oprimido. Em 2006, ela reuniu 12 mil pessoas numa praça em Nova Déli. Foi muito lindo de ver, porque 80% eram mulheres, vestidas com seus saris coloridos.Ver aquelas mulheres resolutas, fortes, gritando slogans, cantando hinos sobre teatro, sobre Arte, foi muito bonito. A Arte, afinal, pertence a elas. O Teatro do Oprimido está espalhado por toda a Índia, pelo Paquistão, pelo Sri Lanka. No Sri Lanka, quando houve o tsunami, eles faziam o arco-íris do desejo no campo de refugiados para tentar entender como ficou a cabeça das pessoas depois de um desastre daquelas proporções. É o que que queremos. Criar multiplicadores criativos. Multiplicar um sistema que já existe.O que importa é para quem você faz. Como aplico esse método para essas pessoas, nesse lugar e com esses problemas?

Como está a aplicação do método nos presídios brasileiros?

A cadeia é o único lugar onde temos problemas para trabalhar, por conta de tanta burocracia. É um trabalho que está parado atualmente, mas tivemos experiências maravilhosas. Havia uma prisão no Estado de São Paulo que parecia um leprosário, ninguém chegava perto de ninguém. Conseguimos trazer os prisioneiros para o meio da praça, usando o teatro-fórum, como se fossem cidadãos livres. Eles entraram em cena e contracenaram com os outros. Deu certo. Os presos aceitaram que estavam pagando pelos crimes que cometeram e voltariam a viver em sociedade se fosse possível. Uma vez fizemos uma peça onde um preso contava sua história, trágica. Ele era inocente e estava preso há dois anos porque não sabia como se defender. Durante sua apresentação, coincidentemente, tinha uma juíza na plateia. Espantada, ela prometeu o alvará de soltura dele e cumpriu. Situações como essas, existem muitas. Numa cadeia paulista onde aplicamos o teatro legislativo, por exemplo, conseguimos fazer creches para as detentas que tinham filhos. O problema é a burocracia. Os funcionários do Depem, órgão que administra as cadeias, são impenetráveis. Na cabeça deles não entra nada. Não compreendem que o que está na lei tem de estar subordinado a um bem maior. Sei que a lei deve ser obedecida. Existe uma lei que diz: é proibido pisar na grama. Não quero pisar na grama, porque acho que é uma lei justa. Mas se uma criança está sendo atacada por um cachorro, você tem de pisar na grama, dar um pontapé no cachorro e salvar a criança. Violar a lei às vezes é necessário. Trabalhamos também com o Ministério da Cultura em 16 Estados, e com o Ministério da Saúde, nos Capes (Centros de Atendimento Psicossocial). Tentamos enquadrar o delírio patológico no delírio estético. Afinal, teatro é uma forma de delírio, uma forma de alucinação.Também trabalhamos em comunidades violentas. A violência ocorre pela obtusidade das pessoas. Alguns continuam nesse caminho, mas outros felizmente entendem que o diálogo é a forma soberana da comunicação.

No contexto da globalização, da sociedade de consumo, o seu método pode ser aplicado da mesma forma que há 30 anos ou precisa ser readaptado levando em consideração as mudanças sociais?

O Teatro do Oprimido se torna mais útil ainda nesses novos tempos. Ele é o contrário da globalização, faz parte da mundialização. A globalização é uma pirâmide da desigualdade. No topo, ficam os ricos, as pessoas desonestas, responsáveis pelo crash da bolsa e a crise mundial. A globalização é uma fagocitação, esses ladrões todos querem comer os outros. É uma coisa antropofágica. A mundialização não. Se você tem um saber, você tem de espalhar esse saber. Não pode ser aquele sábio que vive no topo de uma montanha. Isso me lembra uma piada mineira. O homem pergunta: “Senhor sábio, o que é a vida?” O sábio responde: “Meu filho, a vida é um rio.” “Um rio?”, desconfia o homem. O sábio vacila: “Uai, não é não?” Esses velhos sábios não me interessam. Temos de ser generosos e solidários com os outros e deixar que eles usufruam do seu saber.

Poderia esclarecer um pouco as derivações do Teatro do Oprimido? Teatro Legislativo, invisível….

O Teatro do Oprimido é uma grande árvore. Essa árvore tem as raízes na ética e na filosofia de humanizar a humanidade. É a nossa base. Depois começam os jogos, para restaurar a capacidade criativa das pessoas. Em seguida, vêm os diversos ramos da árvore, como o teatro invisível, o teatro legislativo, o arco-íris do desejo, que serve para exteriorizar as opressões internalizadas. O mais usado é o teatro-fórum, que significa colocar um problema e discutir teatralmente esse problema. É a forma mais difundida, porque produz resultados mais imediatos. O arco-íris do desejo requer uma reclusão maior, em grupos pequenos. Trata problemas individuais. Todas as formas de teatro são úteis, têm uma função. O sucesso extraordinário desse teatro, no mundo todo, se deve à revelação de que o teatro não é o palco, não são as luzes, não é um texto escrito necessariamente, não é iluminação, não é nada disso. Teatro somos nós. Cada um de nós traz em si mesmo um ator. Nesse momento, por exemplo, estou sendo ator. Estou agindo e ao mesmo tempo sendo espectador. Estou ouvindo o que estou dizendo, minha voz, estou pensando no que vou dizer. Teatro é isso. Você percebe que pode avançar num sentido que não é aquele previsto pela sociedade, tecnicamente e mecanicamente. Você sai da moldagem e passa a ser você mesmo, descobrindo coisas insuspeitadas. Que você é melhor do que você pensa que é. Todo mundo é melhor do que pensa que é. Todo mundo é mais capaz de fazer o que já está fazendo. Meu teatro é a descoberta dessa capacidade.

O que ainda falta fazer?

Já fiz muita coisa e tenho intenção de fazer muitas mais. Estou terminando um livro que se chama As Estéticas do Oprimido. Muita gente fala de diversidade cultural, o que defendo. Mas quando pensa em estética, pensa em uma só. Como ser diverso culturalmente, com uma só estética, se a estética é produto de uma cultura? Por exemplo, aquele pintor norte-americano, Jackson Pollock. Nos Estados Unidos, todo mundo acha que ele é um gênio. Leva uma pintura dele para Bangladesh e pergunta o que vão achar. Tudo isso para dizer que os americanos criam a estética deles, da Guggenheim Foundation. Tudo isso para dizer que não existe uma soberana estética à qual todos nós devemos nos curvar e obedecer.

No ano passado, seu nome teria sido cogitado para o prêmio Nobel da Paz, como recebeu a notícia?

Não tenho nada com isso (risos). Achei muito simpático, principalmente porque recebi indicações dos cinco continentes. Até na Austrália, que é do outro lado do mundo, recebi cartas de apoio.Pelo que soube, o que ficou faltando foi o apoio de algum Prêmio Nobel. Não tem importância, não me preocupo se vou ganhar ou não neste ano. Mas tenho muito orgulho de ter sido indicado.

E sua história com a química?

Sou engenheiro químico porque meu pai queria que eu fosse doutor e teatro não dava doutorado na época. Tinha uma namorada de quem eu gostava muito e ela foi fazer Química. Fui atrás. Entrei na faculdade e ela não, acabou fazendo Letras. Eu não era o primeiro aluno da sala, mas não era o último. Ficava na média. Mas já esqueci tudo. Só lembro que a fórmula da água é H2O.

Esta entrevista com Boal foi concedida originalmente à Rádio França Internacional (RFI)

Livro inédito

TESTAMENTO: O Teatro do Oprimido, de Boal, é uma metodologia cênica que ele desenvolveu nos anos 70 e combina drama e ação social. Poucos dias antes de morrer, o embaixador mundial do teatro pela Unesco entregou à editora Garamond o texto final do seu novo livro, A Estética do Oprimido. Já considerado o testamento artístico de Boal, o livro sintetiza suas principais concepções sobre arte e deve ser publicado ainda em 2009. Boal abre o livro com uma dedicatória: “Sinto sincero respeito por todos aqueles artistas que dedicam suas vidas à sua arte – é seu direito ou condição. Mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida.”

03/05/2009 - 15:46h Augusto Boal, teatrólogo

obituário

Ricardo Daehn e Tiago Faria – Correio Braziliense

Paulo de Araújo/CB/D.A Press – 13/3/08
Augusto Boal em sua última visita a Brasília, em março do ano passado: dinâmica de teatro-fórum

Referência das artes cênicas brasileiras no mundo, o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal morreu na madrugada de ontem, aos 78 anos. Fundador do Teatro do Oprimido, sedimentado na encenação como meio de reflexão social e ação política, foi expoente do Teatro de Arena de São Paulo até os anos 1970. Ele sofria de leucemia e morreu de insuficiência respiratória. “Boal é um dos deuses do arquipélago do teatro, um dos mitos da nossa religião. Uma perda irreparável”, lamentou o diretor Aderbal Freire-Filho, que enviou a notícia aos amigos.

Uma forte corrente em favor da candidatura do teatrólogo ao Nobel da Paz, em 2008, com endosso de países como França, Venezuela, Suécia e Guiné-Bissau, referendou ainda mais o valor do autor de mais de 30 publicações, com teorias (difundidas em mais de 70 países) que nutriam a ação de mais de 300 grupos mundo afora. O diretor do Centro de Teatro do Oprimido, porém, não tinha vaidade: “Sou orgulhoso, mas pelo fato de aquilo que comecei ser praticado hoje por centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro”. O movimento calcado em princípios pedagógicos de Augusto Boal preza princípios democráticos caros ao artista, que, nos anos 1970, esteve exilado na Argentina. Mecanismo de transformação social, as bases pregadas por ele incitavam a liberdade em cena. “A arte é criativa, ela não pode ser amarrada em coisas preestabelecidas”, defendia.

“Desejamos que a plateia abandone sua prisão, que é a poltrona”, disse Boal ao Correio, por ocasião de uma dinâmica de teatro-fórum com alunos da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e da Universidade de Brasília em março de 2008. Com gênese nos tempos da ditadura, o teatro dele servia como modalidade lúdica, qualificada por questionamentos e pela participação. “Sou um homem da paz. Mas a paz tem um inimigo: a passividade”, sublinhou o teórico, que, na prática, concebia a estética com “a comunicação através dos sentidos”.

O homem de teatro capaz de agrupar 12 mil pessoas numa marcha, como aconteceu em Calcutá (Índia), recebeu grandes homenagens em vida. Uma das mais recentes foi na Maison Fontenoy (em Paris), numa proposta da Unesco em comemoração ao Dia Mundial do Teatro (27 de março). Na capital francesa, ele recebeu o título de Embaixador Mundial do Teatro. Discursos de representantes do Internacional Theatre Institute embalaram os festejos, marcados por exposição de fotos e apresentação da peça O cozinheiro disse para o coelho: vamos preparar o jantar?, criação do filho dele, Julián Boal.

Contestação
Nos palcos, Boal levou ao limite o espírito de contestação. A partir do golpe de 1964, encenou espetáculos de protesto como Opinião, que reuniu Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão. O objetivo era plantar a semente de um foco artístico de resistência política. Como consequencia, assinou projetos que aliaram crítica social a invenções de linguagem. Em Arena conta Zumbi (1965), experimentou o “sistema curinga”, em que oito atores se revezavam para interpretar os personagens. A boa repercussão permitiu a produção do também histórico Arena conta Bahia, com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Tom Zé. Em Arena conta Tiradentes, o diretor abandonou a narrativa linear em prol da conexão livre de fatos e personagens que refletiam o período de repressão.

Apesar de reforçado nos anos de chumbo, o papel protagonista na renovação do teatro brasileiro começou antes. Em 1956, ao entrar para o Teatro de Arena de São Paulo, ajudou a consagrá-lo como uma das principais companhias do país. O sucesso veio rapidamente. Logo na primeira direção (Ratos e homens, de John Steinbeck, de 1956), venceu o prêmio de revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte. Ainda que a ligação com temas políticos já aflorasse, seu primeiro texto encenado foi uma comédia de costumes, Marido magro, mulher chata. A pesquisa teatral se aprofundou no sentido de estreitar as relações entre arte e realidade, sempre com a proposta de formar novos dramaturgos. Em 1960, agregou a criação artística à oficina de atores na montagem de Fogo frio, de Benedito Ruy Barbosa, em conjunto com o Teatro Oficina.

Aos 9 anos, Boal já ensaiava peças em casa com os irmãos. Quando decidiu estudar engenharia na Universidade do Brasil (atual UFRJ), aos 18, não abandonou o trabalho com textos para o palco. Nos anos 1950, dividiu a rotina entre estudos acadêmicos na Columbia University (Ph.D em engenharia química) e aulas de dramaturgia na School of Dramatic Artis, com John Gassner. Tratado pelo jornal britânico The Guardian como o “reinventor do teatro político”, Boal manteve-se defensor da liberdade de expressão. “Não me incomodo de perder quando existe um debate ideológico e social. Mas ser derrotado por um Estado armado, com canhões e tanques de guerra, dá uma tristeza enorme”, disse ao Correio em junho de 2007.

Colaborou Nahima Maciel

É uma perda enorme para a cultura brasileira e para os povos oprimidos da Terra
Guilherme ReisNo teatro brasileiro, é o artista que conseguiu maior projeção, talvez menos pelo trabalho artístico do que pelos escritos teóricos
Antonio AraújoEra instigante como conseguia conjugar a arte teatral e a educação, a arte teatral e cidadania
Fernando Villar

A importância do teatro do Boal é descobrir que, quando você protagoniza uma cena, protagoniza sua vida, deixa de ser oprimido e cria ferramentas para lutar contra o sistema
Silvia Paz

Em Boal, o importante é o ser humano. Tudo é possível, inclusive transformar a realidade, a fome, a miséria, as opressões, o trabalho escravo, o meio ambiente
Geo Brito

02/05/2009 - 18:30h Morre dramaturgo Augusto Boal, aos 78 anos, no Rio

colaboração para a Folha Online

O diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal morreu na madrugada deste sábado no Hospital Samaritano, do Rio de Janeiro. Ele tinha 78 anos.

Zé Paulo Cardeal/Tv Globo
Dramaturgo Augusto Boal morreu na madrugada deste sábado (2) no Rio de Janeiro
Dramaturgo Augusto Boal morreu na madrugada deste sábado (2) no Rio de Janeiro

Boal sofreu uma insuficiência respiratória às 2h40 de hoje.

Segundo a assessoria do hospital, ele estava internado desde o dia 28 de abril.

O corpo foi removido da instituição às 16h deste sábado.

Boal nasceu no dia 16 de março de 1931, no Rio de Janeiro.

Fundador do Teatro do Oprimido, ele também ficou conhecido por sua participação no Teatro de Arena da cidade de São Paulo (1956 a 1970).

03/04/2009 - 18:04h Teatro Ágora

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30/03/2009 - 20:32h Ágora 10 anos

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Celso Frateschi no espetáculo “Sonho de um Homem Ridículo”, que estreia dia 3 de abril e marca o início da programação comemorativa dos 10 anos do Ágora
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ÁGORA TEATRO COMEMORA SUA PRIMEIRA DÉCADA DE
ATIVIDADES COM O PROJETO “AGORA + 10”, A PARTIR DE 03/04

Nova montagem ”Sonho de um Homem Ridículo, de Dostoievski,
com Celso Frateschi, abre a programação, nesta sexta-feira

Uma revisão crítica de sua produção nessa primeira década de atuação, que possa nortear os trabalhos nos próximos anos. Essa é a síntese do “Agora + 10”, evento que celebra os 10 anos de atividades Ágora Teatro.

A programação, elaborada pelos diretores do espaço, Celso Frateschi, Roberto Lage e Sylvia Moreira – entre abril e dezembro – traz espetáculos teatrais, ciclos de debates e seminários, lançamento de livro e cursos. A abertura acontece com três montagens em abril: dia 3, “Sonho de um Homem Ridículo,” espetáculo-solo com Celso Frateschi, dirigido por Roberto Lage, baseado em conto de Dostoievski; dia 4, “GL. 5,17: Um Experimento no Purgatório”; e no dia 4, “A Missa do Galo”. Esses dois últimos espetáculos fazem parte do projeto “Machadianas” e são baseados em contos de Machado de Assis. (ver sinopses e fichas técnicas a seguir).

Conceito – Celso Frateschi explica o eixo conceitual do “Ágora mais 10”: “é a depuração dos nossos pressupostos estéticos experimentados nos 10 anos de trabalho. Para tanto, serão revisitadas quatro de nossas principais montagens: ‘Sonho de um Homem Ridículo’ de Dostoievski; ‘Antes do Café’ de Eugene O’Neill; ‘Ricardo III’ de Shakespeare; e ‘Don Juan’ de Molliere”.

É importante salientar que não se tratam de reestreias, mas sim de espetáculos completamente novos, com base no pressuposto da “busca pela menor grandeza”, conceito inspirado no verso de Bertolt Brecht. “Tal busca sempre esteve presente nas nossas montagens e julgamos que depois de dez anos de trabalho seja o momento de refletir sobre ela, sobre como a desenvolvemos e radicalizá-la para enfrentarmos os nossos próximos dez anos”, analisa Sylvia Moreira.

Para Frateschi, revisitar esses espetáculos emblemáticos para a história do Ágora “significa estranhá-los e recolocá-los num contexto diferente daquele em que foram criados. Serão montagens onde a depuração estética irá gerar novas adaptações, uma vez que trabalharemos sobre o que já foi trabalhado. Nossa intenção é criar as bases para um salto de qualidade em nosso trabalho artístico”.

Machadianas – Paralelamente às novas montagens do repertório revisitadas, serão apresentados seis espetáculos do projeto “Machadianas”, baseados em textos de Machado de Assis. “A proposta é trabalhar na busca da teatralidade das formas narrativas para ampliar a comunicação entre o palco e a platéia contemporânea”, explica Robero Lage. O “Machadianas” – que está em sua terceira edição – conta com a criação de diversos núcleos de trabalho, em que diretores e atores se dedicam à criação dos espetáculos, sob a coordenação de Roberto Lage e com a direção de arte de Sylvia Moreira.

Publicação e Debates – Em maio, no dia 6 (quarta-feira), ainda como parte do evento “Ágora+10”, será lançado o livro “Teatro Paulistano século V”. A publicação é o resultado de um painel de debates promovido pelo Ágora, sobre o vigor do teatro paulistano contemporâneo. No mesmo dia, tem início o primeiro dos dois ciclos de debates programados: “Teatro, vinho e pensamento”. “Serão colocadas em discussão questões estéticas e filosóficas que nos provocam como artistas”, adianta Frateschi. O segundo encontro acontece no encerramento da programação, em novembro e vai abordar o tema “A cidade teatralizada”.

ÁGORA +10 – SINOPSES, FICHAS TÉCNICAS E SERVIÇOS
Rua Rui Barbosa, 672 – Bela Vista – Telefone: 3284-0290

“SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO”

Estreia: 03 de abril – Temporada: até 21 de junho.
Sextas e Sábados às 21h. Domingos às 19h

SINOPSE – Peça baseada no conto de Dostoiévski. Segunda metade do século XIX. Um homem do subterrâneo. Cenário e personagem típicos do autor russo, um dos principais narradores da alma humana. Nosso herói sabe que é ridículo desde a infância – motivo de desprezo e zombaria de seus semelhantes- e já não tem mais nenhum interesse na continuação da sua existência. Num dia inútil como todos os outros, em que mais uma vez esperava ter encontrado o momento de meter uma bala na cabeça, foi abordado por uma menina que clamava por ajuda. Ele não só recusa o apoio à criança, como a espanta aos berros. Ao voltar para casa, não consegue dar fim a sua existência. Adormece e sonha. Ele narra como conheceu a verdade em toda a sua glória e mostra como tudo aquilo deve ter sido real, pois as coisas terríveis que sucederam não poderiam ter sido engendradas num sonho.

A MONTAGEM – A adaptação se preocupa em manter o texto original de Fiódor Dostoiévski, que faz parte do livro Diário de um Escritor, publicado pela primeira vez em 1877. Propõe um espetáculo que explora o essencial das questões humanas de Dostoiévski, estabelecendo um diálogo direto com o contemporâneo. Sua arquitetura cênica é construída a partir da rua, do cortiço, do paraíso e do inferno – elementos da obra-, numa composição que sugere o onírico, onde o sentido do sonho é recuperado através do espanto ao colocar em um mesmo plano, o imaginário do contemporâneo e a infância da humanidade. O real e o sonho se justapondo em um diálogo permanente durante o jogo cênico. O ator solitário em cena é uma opção estética inerente ao tema, que aborda a solidão e a sua superação.

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia e interpretação: Celso Frateschi
Direção: Roberto Lage
Cenário e figurino: Sylvia Moreira
Corpo: Vivien Buckup
Luz: Wagner Freire
Trilha sonora: Aline Meyer

SERVIÇO
Duração: 75 minutos
Capacidade: 80 lugares
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada)
Recomendação etária: 12 anos
Ágora Teatro – Sala Gianni Ratto

“GL. 5,17: UM EXPERIMENTO NO PURGATÓRIO” (Machadiana)
Estréia: dia 4 de abril
Temporada: até 17 de maio.
Sextas e sábados às 23h e domingos às 21h

SINOPSE – O Diabo decide criar a sua igreja – “escritura contra escritura, breviário, contra breviário” – e após comunicar a Deus sua intenção, desce à terra para atingir seus propósitos.

A MONTAGEM – A investigação foi pautada pelo estudo do narrador multifacetado, a razão da genialidade da literatura machadiana; “um misto de poeta, guerreiro e profeta” – e agregou outros contos de temática religiosa. A direção ousou em transferir o gênio narrativo ao teatro, e adotou a metáfora do pregador hipócrata num surto de honestidade “que retira da experiência o que ele conta; sua experiência ou a relatada pelos outros, e incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes” citando Benjamim, o que resultou num roteiro de cenas que inclui também o imaginário do ator – o pós-cena – e que não pretende criar nada de novo, como citado no Eclesiastes, tanto lido por Machado, “nada de novo debaixo do sol”. Busca criar uma teia desaforada que confunde o discurso do intérprete com o do autor e beira o despropósito. Iniciativa de um teatro narrativo que não se limita ao palco, de atores que insinuam uma sedução para compreender a platéia e serem compreendidos por ela.

FICHA TÉCNICA
Baseado nos contos de Machado de Assis
Direção: Tânia Granussi
Coordenação: Roberto Lage
Elenco: André Martins, Daniela Perim e Wilson Canhas
Direção de Arte: Sylvia Moreira

SERVIÇO:
Duração: 60 minutos
Capacidade: 45 lugares
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada)
Recomendação etária: 12 anos
Ágora Teatro – Espaço Ágora

“A MISSA DO GALO” (Machadiana)
Estreia dia 4 de abril. Temporada até 17 de maio
Sextas e Sábados às 21h30. Domingos às 19h30
SINOPSE
No conto, um acontecimento da adolescência do Sr. Menezes ainda o perturba depois de muitos anos. Um encontro a sós com uma mulher casada e mais velha apresentou, na ótica de Menezes, uma manancial de possibilidades que terminaram por não realizarem-se. Memórias truncadas de uma certa noite envolta em desejos, sensualidade e insinuações.

A MONTAGEM – A direção busca estabelecer um diálogo entre a tradição humana de contar histórias, transmitindo conhecimento, experiência e vivência com modernas técnicas de interpretação e encenação. O processo de criação coletiva, a utilização de partituras corporais, a troca de papéis entre os atores, a precisão das marcações e o distanciamento crítico dos interpretes estão a serviço da busca de um equilíbrio entre a composição estética, a transmissão do enredo e o estímulo à reflexão proposta por Machado de Assis.

No que diz respeito ao aspecto temático, a direção buscou ressaltar elementos que considera chaves na obra de Machado de Assis; destacando-se o papel da memória, mais precisamente de sua falibilidade, na consolidação da personalidade presente. “A Missa do Galo” parte-se da análise das características individuais de cada personagem Machadiano do século XIX para a proposição de uma reflexão sobre o indivíduo e a sociedade de hoje, especialmente evidenciando forças que acabam por interromper a realização da vida em todas as suas possibilidades.

FICHA TÉCNICA
Baseado no conto homônimo de Machado de Assis.
Direção: Luiz Eduardo Frin
Coordenação: Roberto Lage
Elenco: Arô Ribeiro e William Rosa.
Assistente de Direção: Carolina Soledad
Direção de Arte: Sylvia Moreira
Iluminação: Roberto Lage e Luiz Eduardo Frin
Direção musical e Trilha original: Charles Raszl
Produção de Trilha sonora: Rafael Agra

SERVIÇO:
Duração: 60 minutos
Capacidade: 50 lugares
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada)
Recomendação etária: 12 anos
Ágora Teatro – Sala Edith Siqueira

23/03/2009 - 10:27h “Gestão” Kassab: licitação do municipal sob suspeita

MP apura compra de instrumentos; há indícios de superfaturamento e dúvidas quanto a origem das peças

Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise – O Estado de São Paulo

Uma harpa comprada por R$ 93.600 custaria R$ 18.870. Um contrabaixo comprado por R$ 50.800 custaria R$ 15.300. Um glockenspiel – instrumento de percussão – comprado por R$ 22.000 custaria R$ 11.667,35. Esses são alguns exemplos de instrumentos musicais adquiridos, no valor total de R$ 226.779, pelo Teatro Municipal de São Paulo – em licitação ocorrida em 13 de novembro de 2007. Com suspeitas de superfaturamento e dúvidas quanto à licitude da origem dos equipamentos, o processo está sendo apurado pelo Departamento de Procedimentos Disciplinares (Proced) da Prefeitura e pela 3ª Promotoria de Justiça da Cidadania do Ministério Público Estadual (MPE), onde virou inquérito civil.

São três os alvos da investigação: o microempresário e músico Leônidas Júnior de Souza Faria, que entre 2004 e 2007 trabalhou como arquivista musical do Teatro e cuja firma ganhou a licitação; a funcionária pública Isleyd Pereira Smarzaro, então diretora do Departamento Técnico do Teatro; e o também funcionário público Clésio André de Melo que, em desvio de função, realizou as cotações preliminares do processo de licitação sob investigação.

A denúncia original foi feita pelo então diretor da Escola Municipal de Música, o músico Henrique Autran Dourado. Quando soube da compra, ele questionou os valores – para ele, os preços pagos foram “abusivos” – e a idoneidade da empresa vencedora do pregão – estabelecimento “não tradicional no ramo”. Em memorando enviado em 13 de março de 2008 à diretora do Teatro, Beatriz Franco do Amaral, recém-chegada ao cargo, Dourado exemplificou que um contrabaixo da mesma marca adquirida (por R$ 50.800) poderia ser comprado nos Estados Unidos pelo equivalente, na época, a R$ 15.300. “O valor (desembolsado) nos parece enormemente desproporcional”, escreveu ele. “A municipalidade poderia ter sido poupada de grandes ônus”.

Dourado ainda executou uma pesquisa de preços de equipamentos similares em cinco empresas brasileiras, obtendo valores entre R$ 17 mil e R$ 25 mil. Entre os instrumentos restantes, a Comissão de Avaliação Preliminar da Secretaria de Cultura efetuou cotações – com acréscimo de 100% sobre o preço do fabricante, a fim de cobrir tributos e despesas de importação – que confirmaram sobrepreço na maioria deles.

Em ofício enviado em maio do ano passado ao procurador geral de Justiça, Fernando Grella Vieira, o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, avaliou que há “indiscutível indício de superfaturamento”. “A suspeita surgiu após o encerramento das licitações (…), com a disparidade dos preços pagos pelo departamento, juntamente com o fato de toda a compra ter sido realizada com um único fornecedor não tradicional no ramo”, escreveu o secretário.

Na sequência das investigações, em agosto do ano passado, o Proced também recomendou ao Ministério Público que continuasse apurando, não só a “questão do superfaturamento dos instrumentos (…) mas inclusive quanto à procedência deles (…) posto que a municipalidade pode até ter adquirido bens que não foram obtidos de forma lícita”. “É certo que há algo errado nesse caso, mas por enquanto não é possível apontar culpados”, antecipa-se o procurador César Cordaro, presidente da comissão que investiga o caso no Proced.

Músicos do Teatro ouvidos pelo Estado confirmam que também entre integrantes da orquestra houve estranhamento em relação ao processo. “Ninguém entendeu a pressa com que os instrumentos foram comprados”, disse um deles. “De repente, apareceram com essa história, sem espetáculo marcado, nem nada. Depois, quando chegou o contrabaixo de R$ 50 mil, só se ouviam cochichos nos bastidores.”

Separadamente, os três suspeitos – Faria, Isleyd e Melo – entraram com recursos para tentar impedir a abertura do inquérito civil. Os pedidos, porém, não foram acatados pelo Ministério Público e a investigação continua. O secretário de Cultura não quis dar entrevista. Por meio de sua Assessoria de Imprensa, informou que está “aguardando a conclusão das investigações que ainda estão em curso para se manifestar”.

NEGATIVAS

Ouvidos em 26 de março de 2008 pela comissão, Melo e Faria negaram que houvesse algum tipo de favorecimento no processo licitatório. Em entrevista ao Estado, Faria afirmou que toda a investigação foi motivada por “uma situação política”, que acabou “descambando nele”. “Se eles encontraram por outro preço lá, por que não foi levantado antes? Eu tenho meu preço, compra quem quer”, disse. “Quando passar essa questão, vou entrar com processo pedindo indenização contra quem fez a denúncia (o músico Dourado), que inventou histórias.”

O funcionário público Melo – que em seu primeiro depoimento negou ter realizado pesquisa de preço para o processo licitatório; afirmação que desmentiu depois, em novo depoimento – foi removido do cargo por “desvio de função”. Atualmente, trabalha na Secretaria Municipal de Participação e Parceria, onde cuida do agendamento da frota de carros do órgão. “Não sou técnico, não tenho formação musical. Se houve erro na pesquisa de preços foi na inocência”, declarou Melo, em entrevista ao Estado. “Os instrumentos foram comprados em pregão presencial, aberto a todos, publicado, nada foi dirigido a uma empresa ou outra.” O ex-funcionário do Teatro também desqualifica a denúncia de Dourado. “Seria louvável fazer uma pesquisa de instrumentos em seu país de origem, mas a compra pelo Estado exige burocracia. Atender a todas as exigências fiscais encarece mesmo.”

A diretora do Teatro, Isleyd, já havia sido exonerada do cargo em fevereiro de 2008. Hoje, integra uma comissão que reavalia licitações da Secretaria Municipal de Turismo. Procurada pela reportagem, ela estava em Brasília na quarta-feira e chegou a agendar um horário para entrevista, via celular – mas deixou de atender ao telefone na sequência e nos dias seguintes.

Para o jurista Luiz Tarcísio Teixeira, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC), especialista em Direito de Estado e ex-secretário municipal de Negócios Jurídicos (2002-2004), só o fato de Faria atuar como funcionário do Teatro na época da licitação já desqualificaria todo o processo. “A defesa pode sustentar que ele não era funcionário, apenas prestava um serviço”, explica. “Mas é no mínimo suspeito: ele era contratado e participou de licitação na mesma secretaria. Conhecia e transitava pela estrutura interna da administração. Do ponto de vista moral, jamais poderia ter participado do processo.”

07/03/2009 - 14:00h ”Queremos a ópera inserida na cultura contemporânea”

Diretor do Metropolitan, Peter Gelb fala do cinema como meio de atingir novas plateias e prevê dificuldades por causa da crise

Em São Paulo, Lucia de Lammermoor será exibida no Cine Bombril, no Unibanco Arteplex e no Unibanco Pompéia amanhã, às 17 h, e terça, às 20h.

João Luiz Sampaio – O Estado SP

Em setembro de 2008, o todo poderoso chefe do Metropolitan Opera House de Nova York, Peter Gelb, deu uma entrevista ao site Time Out. A certa altura, o repórter lhe pergunta como vê o futuro de Nova York. “Se não houver outro ataque terrorista, uma crise econômica e se o aquecimento global não fizer o Rio Hudson inundar a cidade, imagino que seja um grande futuro”, disse. Pouco mais de seis meses depois, uma das maiores crises econômicas da história virou do avesso a vida dos norte-americanos. “Para instituições culturais sem fins lucrativos, como o Metropolitan, o quadro ainda é incerto, não se sabe como seremos afetados”, diz Gelb ao Estado. Ele foi contratado há três anos para modernizar e devolver ao Met o posto de maior teatro de ópera do mundo. E agora? “Vamos devagar. Mas iniciativas como a transmissão de óperas pelo cinema são promissoras.” O projeto começou há dois anos e consiste na exibição em cinemas das óperas apresentadas no teatro; há duas semanas, chegou ao Brasil, onde continua amanhã com Lucia di Lammermoor, de Donizetti.

“Ao todo, 1,25 milhão de pessoas já assistiram às exibições. Para este sábado (hoje), nos EUA, já há 150 mil ingressos vendidos. É claro que a receita que temos com as bilheterias não pagam as produções em si, mas ao menos tem pago todas as despesas de filmagem e transmissão dos espetáculos. É um caso único de projeto autossuficiente em instituições culturais norte-americanas. E mais: é um bom veículo para vender a imagem do Met em todo o mundo, para não falar da sensação boa que temos ao perceber que aquilo com que trabalhamos, no caso a ópera, não perdeu a capacidade de emocionar e mobilizar as pessoas. É engraçado: em algumas sessões, o público aplaude entre as árias. Eles estão aplaudindo quem? Acho que estão aplaudindo a ópera como gênero e a possibilidade de estar ali, em comunidade, tendo acesso a ela. Em uma época na qual a tecnologia isola as pessoas dentro de casa, o que acontece aqui é justamente o inverso. Esse é um fenômeno social que em nenhum momento antecipamos. Foi de fato surpreendente”, diz.

Para Gelb, porém, o mais importante é que tudo isso está sendo feito sem que se perca o respeito pela ópera e sua produção. “A nossa única preocupação é que a ópera coloque um pé na cultura contemporânea, que abrace as possibilidades oferecidas pela tecnologia. Como gênero, ela á ainda profundamente atraente, precisa apenas quebrar essa barreira que se colocou entre ela e a sociedade. É o que tentamos fazer, mas com um respeito profundo pela forma de arte que ela é. E, claro, sem expectativas irreais. A ópera requer um público inteligente e sensível, interessado em compreendê-la. Ela não vai ser pop, mas precisamos torná-la disponível ao maior número de pessoas possíveis. O cinema é um excelente caminho para isso.”

COMO NOS ESPORTES

E em que medida ter em mente a exibição no cinema interfere no processo de criação das montagens? Gelb diz que isso não ocorre. “É tão difícil colocar uma ópera de pé, é uma tarefa que envolve tantos detalhes, dos cantores aos técnicos, que seria uma enorme irresponsabilidade colocar ainda mais essa pressão sobre a equipe”, diz. “Temos em mente que não estamos fazendo nem cinema nem televisão, mas, sim, teatro. É claro que a exigência por cantores que saibam atuar existe, mas isso não é exatamente novo. O cantor de ópera completo, hoje, é aquele que sabe cantar e atuar; e quando alguém assim aparece, nossa, é maravilhoso. Mas tem que ser maravilhoso no palco, esse é o critério. É por isso que não filmamos a estreia de uma produção. Esperamos algumas récitas e, a cada uma delas, vamos estudando a melhor maneira de filmá-la. Só então fazemos a transmissão.”

Um dos aspectos mais interessantes das exibições é justamente o modo de filmar, a posição das câmeras. Antes de cada apresentação, artistas do teatro entrevistam o elenco e o maestro, que falam de suas concepções para o espetáculo que será exibido. E, durante a apresentação, há câmeras pegando a movimentação nos bastidores e até mesmo na cabine da direção de imagens. “Queremos deixar claro que o que temos ali é teatro filmado. Esses olhares sobre os bastidores permitem isso, além de saciar a curiosidade do público. É como se estivéssemos transmitindo um evento de esportes, um campeonato do tênis ou futebol. Todos os aspectos da produção são mostrados, dando ao público o máximo possível da sensação de se estar perto do teatro.”

DE VOLTA À CRISE

Segundo Gelb, as transmissões, se continuarem a atrair o público atual (no Brasil, por exemplo, a primeira exibição do projeto, há duas semanas, teve 90% de ocupação), não devem sofrer com falta de verbas, uma vez que se tornaram autossuficientes. O mesmo, no entanto, não vale para o cotidiano do Metropolitan. “O fato é que não temos como saber exatamente o que vai acontecer. Nos EUA, dependemos quase que exclusivamente do patronato. E, se as pessoas começarem a perder muito dinheiro, vão investir menos em artes, isso é fato. Quanto ao público, ainda não sofremos quedas na venda de ingressos. Mas a ópera é um tipo de espetáculo no qual manter o teatro sempre cheio não significa vida financeira saudável. Temos alguma seguranças em nosso fundo de investimentos, mas estamos de olho para ver o que vai acontecer.”

MONTAGEM DE ‘LUCIA’ TEM BOM ELENCO E DIREÇÃO CÊNICA

MODERNIDADE: A notícia vem logo no início da transmissão, dada pela soprano Natalie Dessay, mestre-de-cerimônias da noite: doente, o tenor mexicano Rolando Villazón não poderia se apresentar no papel de Edgardo, ao lado da soprano russa Anna Netrebko, como Lucia. “Mas quem sabe essa não é uma noite histórica, que vai fazer despontar para o sucesso um jovem tenor, chamado para substituir o colega?” Talvez seja um pouco de exagero, mas Peter Beczala dá – e bem – conta do papel. É uma voz que corre fácil, ágil, com graves levemente escuros. Entre os homens, no entanto, o destaque mesmo da produção de Lucia di Lammermoor que será exibida nos cinemas brasileiros amanhã e terça é o barítono polonês Marius Kwiecien. Ele, curioso, já esteve no Brasil, onde cantou em 2001 uma Lucia no Municipal de São Paulo. A impressão tinha sido das melhores e agora se confirma. E Lucia? Anna Netrebko é a grande sensação da ópera mundo afora. Sua Lucia é vocalmente precisa, mas a Cena da Loucura deixa um pouco a desejar em atuação cênica. A produção de Mary Zimmerman, por sua vez, é excelente, recria as colinas escocesas do romance de Walter C. Scott (que inspira a obra) e consegue ser moderna plasticamente dentro das possibilidades sugeridas pelo libreto e pela música. Em resumo, um grande espetáculo. Em São Paulo, Lucia será exibida no Cine Bombril, no Unibanco Arteplex e no Unibanco Pompéia amanhã, às 17 h, e terça, às 20 h. R$ 25.

23/02/2009 - 15:50h Todos os talentos de Jacques Prévert

A exposição Paris la Belle, na França, e o lançamento em DVD, no Brasil, de Trágico Amanhecer resgatam um artista de gênio

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Luiz Carlos Merten – O Estado SP

Cidade-luz, Paris é a Meca e a Medina dos cinéfilos, que nela encontram, permanentemente, ciclos de filmes e autores que não podem ser rastreados com tanta facilidade em nenhum outro lugar do mundo. Mas Paris não é só uma festa de cinema. Se você quer saber o que ocorre no mundo do design e das artes visuais deve seguir de olho na capital francesa. O Centro Charles Pompidou, o Beaubourg, dedica uma grande mostra – até março – ao arquiteto e designer Ron Arad. Só para ver os móveis que ele cria – verdadeiras obras de arte, mas fica a dúvida se são também confortáveis – já valeria a pena ir à França, mas Paris, encerrada a grande retrospectiva Picasso et les Maitres, no Grand Palais, agora sedia, até dia 28, no Hôtel de Ville, a mais completa exposição sobre Jacques Prévert feita na França.

Paris la Belle. O título vem de um curta que Jacques realizou em parceria com o irmão Pierrre, em 1928, Paris Express, e que foi rebatizado como Paris la Belle, ao ser resgatado, em 1960. Houve outras grandes exposições sobre o artista, antes, mas elas privilegiavam partes de sua obra – as colagens, as fotografias. N.T. Binh, crítico e historiador – autor de uma acurada análise da obra de Joseph L. Mankiewicz na coleção Cahiers du Cinéma – e Eugénie Bachelot-Prévert, neta de Jacques, coassinam a curadoria do evento que revela a multiplicidade dos talentos do grande artista. Se há um artista multimídia, é ele. Homem de teatro, cinema, poeta, autor infantil, pintor, compositor, deixou uma notável contribuição em cada uma dessas mídias. Eugénie sonhava com essa exposição há dois anos, quando se completaram 30 anos da morte de seu avô, em 1977. A falta de patrocínio, na época, inviabilizou o projeto, mas ela teve a sorte de encontrar N.T. Binh, que organizara em 2006, no Hôtel de Ville – a Prefeitura de Paris -, o evento Paris no Cinema e tinha cacife para propor outra grande mostra. Binh propôs Prévert. Por quê? No catálogo da exposição, ele explica singelamente – “Porque Prévert foi sempre um artista identificado com os parisienses…”

O próprio prefeito de Paris, Betrand Deanoë, escreve, na abertura do catálogo, que, durante toda a sua vida, Jacques Prévert estabeleceu (e manteve…) uma excepcional cumplicidade com a capital francesa. Conhecedor das passagens mais secretas dos Grands Boulevards, amigo dos operários, dos pintores de Montmartre e dos escritores de Saint-Germain-des-Près, Prévert cravou a essência de sua poesia no coração de Paris e de seus habitantes. A questão é que não existe um Prévert, mas vários, compondo o itinerário de um artista que foi engajado – e libertário – como poucos. N. T. Binh sustenta que, durante toda a sua vida, Prévert não fez outra coisa senão tentar reencontrar a Paris de sua infância. A exposição estabelece etapas do percurso – a infância, próxima dos Jardins de Luxemburgo; a juventude, quando ele se liga aos surrealistas, integrando a república ‘boullionnante’ da Rua Chateu (Castelo).

Após o rompimento com os surrealistas, Prévert produz para o teatro, escrevendo textos engajados para o grupo Outubro. Os anos 30 foram de muita agitação social na França. Prévert, que visitou a Rússia em 1933, voltou militante de causas radicais. Os operários da Citröen preparavam uma greve para hoje à tarde e lhe pediam um texto – ele o produzia num piscar de olhos. O Prévert dramaturgo vira roteirista de cinema, associando-se a Marcel Carné numa memorável série de filmes que instala a tendência do chamado ‘realismo poético’. O maior desses filmes, O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis, de 1945) foi considerado numa pesquisa, há cerca de dez anos, como a obra-prima de toda a história do cinema francês, mas a parceria Carné-Prévert inclui outros filmes, como Trágico Amanhecer (Le Jour Se Lève, de 1939), com a dupla clássica Jean Gabin/Arlétty, que acaba de sair em DVD.

Como as coisas ocorrem por ciclos na obra de Prévert, em 1946, ele começa a se afastar do cinema, orientando-se para a poesia (com Paroles) e a canção. É muito interessante assistir aos trechos de filmes e aos clipes que mapeiam o Prévert roteirista e letrista. Ele produziu letras para Edith Piaf, Yves Montand, Juliette Gréco e Nat King Cole. Os três últimos apresentam suas diferentes versões de Feuilles Mortes. Para o espectador brasileiro, é um choque ver a musa do existencialismo cantar Folhas Mortas. Juliette Gréco foi o modelo de Maysa. Existem ainda o Prévert autor infantil, o pintor das colagens e o retratista. Amigo de Juan Miró, Pablo Picasso e Alexander Calder, Jacques brincava com Picasso e dizia que ele era um grande cineasta, embora não soubesse filmar. Picasso retrucava que ele era um grande pintor, mesmo sem saber pintar (nem desenhar). Suas colagens são de uma riqueza – e uma criatividade e um humor – extraordinários. O legado da exposição é que Prévert não se fixou em rótulos nem dogmas. Foi libertário de si mesmo. Criou-se, por isso, um verbo. O diretor Jean-Pierre Jeunet conta que, enquanto escrevia O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, ao dar-se conta de que algumas coisas simplesmente não iriam funcionar, ele pedia à sua roteirista, Guillaume Laurant – “Aqui, nós precisamos prévertizar.”

Juliette Greco

Yves Montand – Les feuilles mortes

12/02/2009 - 15:05h Cursos de teatro


04/01/2009 - 18:22h O mundo revelado no palco de Pinter

Harold Pinter
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A política começava, em suas peças, no quarto escuro dos medos humanos

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Ariel Dorfman, The Washington Post – O Estado SP

Foi no Chile, no começo dos anos 60, que vi pela primeira vez uma peça de Harold Pinter. Foi quando e onde ouvi falar pela primeira vez de Harold Pinter, morto na semana passada, aos 78 anos. Foi onde, quando e como algo na minha vida e obra mudou para sempre.

O mais extraordinário daquela hora durante a qual assisti The Dumb Waiter em espanhol foi como incrivelmente familiar a peça era, praticamente latino-americana em sua familiaridade, apesar de ter sido escrita originalmente em um inglês elíptico de um autor de Hackney. À medida em que mergulhei em sua obra nos anos seguintes, Pinter tornou-se insubstituível, uma inspiração única. Ele me mostrou como a arte dramática pode ser lírica, poética, simplesmente ao se misturar aos ritmos enterrados do discurso cotidiano. Ele me sussurrou que normalmente falamos para esconder, e talvez evitar, o que realmente pensamos e sentimos. Ele não tinha medo do silêncio ou de deixar seus personagens caírem na hesitação ou na inescrutabilidade. Ele entendia que se você estica os limites da realidade, encontra sob ela uma outra dimensão – fantástica, absurda, delirante. Ele sugeriu que as piores alucinações do medo não estão imunes ao pêndulo do humor.

Mas todas essas lições do artesanato dramático são pálidas perante aquilo que ele me ensinou sobre a existência humana e sobre – será que ouso usar a palavra? – política. Desde aquela primeira peça, senti que Harold Pinter estava desvendando um mundo profundamente político. Não diretamente (como aconteceria mais tarde, a partir dos anos 80), no sentido de que suas criaturas seriam afetadas por aqueles que as governavam. Não, esses produtos da psique de Pinter, pelo menos nos anos 60, não estavam preocupados em disputar a arena pública, não tinham interesse em mudar o mundo, para pior ou melhor. Eles eram, ao contrário, cidadãos tristes e intimistas, obcecados apenas com sua sobrevivência. E, ainda assim, ao nos aprisionar dentro da vida daqueles homens e mulheres, Pinter revelava as muitas gradações e degradações do poder com uma profundidade que eu nunca havia percebido em outros autores que supostamente se dedicavam a examinar e denunciar contingências políticas. Todo poder, toda dominação e libertação começava ali, naqueles quartos claustrofóbicos onde cada palavra conta, cada pequena expressão precisa ser contabilizada, paga em alguma moeda secreta de esperança ou sofrimento. Você quer livrar o mundo, a humanidade, da opressão? Olhe para dentro de você, olhe a seu lado, olhe para a violência escondida da linguagem. Nunca esqueça que é na linguagem que a violência, a crueldade exercida sobre o corpo, começa.

Dois homens esperando em um porão para mater alguém. Uma velha reivindicando um quarto abandonado. Uma celebração de aniversário interrompida por intrusos. Uma mulher com medo de ser despejada. Um filho que retorna à sua família disfuncional com uma mulher enigmática. Cenas de traição que poderiam ocorrer em qualquer lugar do planeta, corporificações de uma paisagem vasta e inquietante de medo, as condições precárias habitadas por boa parte da humanidade contemporânea, a narrativa negligenciada do século 20.

Talvez fosse natural que eu projetasse nessas histórias nascidas na Inglaterra as sombras perturbadoras da minha América Latina. Quantos Davies cruzaram as ruas de Santiago? Quantas peruanas temiam e desejavam aquele visitante de seu passado? Quantos assassinos esperavam nos porões da Argentina de ontem? Quantos nos esperariam nos porões da São Paulo de amanhã? E como contar essas histórias, respeitando a incerteza daquelas existências no limite da extinção, arrancando sem misericórdia as máscaras forjadas a partir das vidas que criamos para nós mesmos e, ao mesmo tempo, ser gentil com essas vítimas de suas próprias desilusões?

Pinter sabia como. E eu fui assombrado de tal maneira por esse conhecimento, fiquei tão obcecado, que meu primeiro livro foi uma análise de suas peças. Muitos anos depois, quando comecei a escrever para teatro, foi a sua influência, a sua estética, que me guiou. Na época em que dediquei A Morte e a Donzela a ele, já havíamos nos tornado próximos, eu, ele e nossas mulheres, Antonia e Angélica, mas todos os nossos encontros, jantares e saídas foram realmente a continuação de um diálogo iniciado muito antes que eu fosse honrado com sua amizade.

Seus personagens podiam não se comunicar uns com os outros, sem dúvida perdidos no pântano de suas próprias palavras e solidão, mas Pinter era diferente. Ele conversou comigo com clareza sem igual, desde o primeiro dia até quando se tornou o autor contemporâneo que sabia como dispersar o terror de minha solidão apenas ao nomeá-la. Agora que ele se foi, eu devo encarar um mundo no qual não posso mais ligar para ele e ouvir sua voz seca, ou sentar com esse meu irmão mais velho e lamentar por horas os novos abusos contra os direitos humanos ou encontrar seu último poema na correspondência. Agora, me resta aquilo que descobri quando pela primeira vez fui envolvido por uma de suas peças, há 45 anos, aquele coração, aquela mente misteriosa com a qual ele continuará a me ajudar, e a tantos outros, a compreender as glórias e misérias de nosso tempo.

Nascido no Chile, o escritor Ariel Dorfman é professor da Duke University e autor, entre outros livros, de O Longo Adeus de Pinochet

25/12/2008 - 20:30h Morre Prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter

O Prêmio Nobel de Literatura britânico Harold Pinter morreu aos 78 anos, no Reino Unido, nesta quarta-feira (24)

Carl de Souza/AP
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O dramaturgo Harold Pinter, Nobel de Literatura de 2005, morreu aos 78 anos

Harold Pinter morreu de câncer aos 78 anos.

Pinter sofria de câncer no fígado há vários anos. “Era um grande homem e foi um privilégio viver com ele durante 33 anos”, disse sua mulher, Lady Antonia Fraser, ao jornal “The Guardian”.

Laureado com o Nobel em 2005, o prêmio recompensou um autor que, “em suas obras revela o precipício que se esconde sob a conversa fiada diária e força sua entrada no âmbito fechado da opressão”, afirmou o júri da Academia Sueca na ocasião.

“Nascido em 1930 em Londres, Pinter geralmente é considerado o maior expoente do teatro dramático inglês da segunda metade do século 20″, acrescentou a Academia.

Aos nove anos, foi retirado de Londres durante a Segunda Guerra Mundial e só retornou à cidade três anos mais tarde. A experiência dos bombardeios permaneceu indelével em sua memória, como admitiu muitas vezes.

Em 1957 estreou como dramaturgo com “The Room”. Uma de suas primeiras obras “The Birthday Party” (’A festa de aniversário’, 1957), inicialmente um fracasso, com o passar dos anos se tornou uma de suas peças mais encenadas.

Sua posição enquanto clássico moderno está ilustrada pela criação, a partir de seu nome, de um adjetivo que descreve uma forma de atmosfera e de um entorno particular nas peças de teatro: ‘pinteresque’.

Segundo o comunicado da Academia Sueca há três anos, “no cenário típico de Pinter estão seres que se defendem contra intrusões forâneas ou contra os próprios impulsos, entrincheirando-se em uma existência reduzida e controlada”.

“Outro tema principal é o caráter fugitivo e inalcançável do passado”, prosseguia a nota de anúncio do vencedor da Academia.

Desde 1973, Pinter também era conhecido como um fervoroso defensor dos direitos humanos.

Além disso, também escreveu novelas radiofônicas e roteiros para cinema e televisão. Entre seus trabalhos mais conhecidos nesta área estão ‘The Tailor of Panama’ (’O alfaite do Panamá’, 2001),’ The Handmaid’s Tale’ (1990), ‘Accident’ (1967), ‘The French Lieutenant’s Woman’ (’A mulher do tenente francês’,1981) ou ‘Breaking the Code’ (1996). (Fonte France Presse e Folha Online)

Harold Pinter abraçou causas e foi contra invasão do Iraque

PEDRO ALONSO da Efe, em Londres – Folha Online

O célebre dramaturgo britânico e eterno rebelde Harold Pinter, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2005, morreu em Londres aos 78 anos após uma longa batalha contra o câncer.

A voz de Pinter, um dos escritores do Reino Unido mais influentes da segunda metade do século 20, se apagou para sempre nesta quarta-feira, segundo informou hoje sua segunda mulher, a também escritora Antonia Fraser.

Max Nash/AP
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Dramaturgo inglês Harold Pinter, ganhador do Nobel, morreu nesta quarta-feira

“Ele foi grande”, disse ela em uma breve declaração, na qual ressaltou que foi “um privilégio viver com ele durante 33 anos” e que Pinter “nunca será esquecido”.

A doença já impediu o dramaturgo este mês de ir a sua posse como doutor honoris causa na Central School of Speech and Drama de Londres.

O escritor ganhou vários prêmios, como a Legião de Honra da França, mas destacou-se acima de tudo pela conquista do Prêmio Nobel de Literatura em 2005.

Iraque

“Estou muito comovido. É algo que não esperava”, comentou um Pinter já com a saúde frágil na porta de sua casa em Londres, após saber de sua conquista do Nobel.

Por recomendação médica, Pinter não pôde assistir à cerimônia de entrega do prestigioso prêmio em Estocolmo, mas gravou seu discurso de aceitação, no qual, como vinha fazendo nos últimos anos, dedicou suas críticas políticas mais ácidas à Guerra do Iraque, na qual o Reino Unido foi fiel seguidor dos Estados Unidos.

“A invasão do Iraque foi um ato de bandidos, um ato de flagrante terrorismo de Estado que demonstrou um desprezo absoluto do conceito de normativa internacional”, afirmou Pinter, visivelmente débil e utilizando uma cadeira de rodas.

Sem papas na língua e mais rebelde do que nunca, o dramaturgo aproveitou o Nobel para pedir o processo do presidente dos EUA, George W. Bush, e do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair por crimes de guerra.

Durante sua vida, o autor, que se sentia obrigado a assumir uma posição política como “cidadão do mundo”, abraçou outras causas como o desarmamento nuclear, a defesa de Cuba frente ao embargo americano e a rejeição ao bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Sérvia em 1999.

Vida de prazer

Filho de um alfaiate judeu imigrante da Europa Oriental, Pinter nasceu em 10 de outubro de 1930 em Hackney, bairro popular do leste de Londres.

O gênio teatral teve um filho, Daniel, fruto de seu casamento com a atriz Vivien Merchant, de quem se divorciou em 1980 para casar-se com Antonia Fraser.

Pouco amigo dos eruditos tendentes ao excesso interpretativo de suas obras, Pinter dizia que sua vida literária era “uma vida de prazer, desafio e entusiasmo”.

Figura única

Após o anúncio da morte do artista, que descrevia a si próprio como “dramaturgo, diretor, ator, poeta e ativista político”, o mundo da cultura britânica chorou sua perda e exaltou seus talentos e méritos profissionais.

“Foi uma figura única no teatro britânico. Dominou a cena teatral desde os anos 50″, afirmou Alan Yentob, diretor da “BBC”.

Na opinião de Tim Walker, crítico do jornal “Sunday Telegraph”, Pinter “forneceu realismo” às artes cênicas mediante obras “com prolongados silêncios, nos quais os personagens nem sempre iam a algum lugar, como na própria vida real”.

Por sua vez, o amigo e autor de uma biografia sobre Pinter, Michael Billington, declarou-se “devastado” pela morte do dramaturgo, a quem descreveu como um “lutador” no terreno artístico e político.

Após publicar em 1957 sua primeira obra, “O Quarto”, Pinter iniciou uma carreira na qual escreveu 29 peças teatrais, mais de 20 roteiros para cinema (entre eles para o diretor americano Joseph Losey), uma infinidade de trabalhos radiofônicos e televisivos, poesia, ensaios, um romance e curtos relatos de ficção.

Entre títulos inesquecíveis de Pinter, pertencente à geração dos Jovens Irados britânicos, destacam-se peças teatrais como “The Birthday Party”, “The Caretaker” e “Old Times”.

Seu estilo peculiar, cheio de silêncios em dramas marcados por uma linguagem ambígua e, às vezes, cômica, mas que gera um ambiente de ameaça e alienação, se cunhou como “pinteresco”, adjetivo admitido pelo dicionário de inglês da Universidade de Oxford.

21/12/2008 - 09:46h O mundo à semelhança de seu autor


Obras de Puccini, com suas melodias líricas e dramaticidade apaixonada, são a tradução de sua visão das relações humanas

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Lauro Machado Coelho – O Estado de São Paulo

Houve um tempo em que o ocaso da obra de Puccini era decretado por musicólogos respeitados. Em 1912, em seu livro Giacomo Puccini e l’Opera Internazionale, o crítico Fausto Torrefranca dizia que a grande contribuição da Itália para a história da música não estava na ópera e, sim, na música instrumental dos séculos 17 e 18. Parece aberrante ouvir isso hoje mas, para Torrefranca, a ópera era uma “criação bastarda”. Puccini seria, assim, o exemplo acabado de “toda a decadência da música italiana atual” e representava “o cínico comercialismo, a impotência, a triunfante voga internacionalista”. Também o americano Joseph Kerman profetizou, em Ópera e Drama, o esquecimento de Puccini. Por que, então, passados 100 anos do nascimento desse compositor, não só parece improvável que ele seja esquecido, como há ainda, entre os músicos contemporâneos, quem o tome por modelo?

“Um dos sinais do talento do artista”, escreveu Mosco Carner em Puccini: a Critical Biography, “é saber criar, com a sua fantasia, um mundo que somos forçados a reconhecer como particularmente seu”. “Isso não é, necessariamente, um sinônimo de grandeza, mas exige um alto grau de personalidade, um dos dons criativos mais preciosos.” Puccini é, sem dúvida alguma, um desses artistas: o mundo que criou tem um clima emotivo e dramático, além de um estilo musical, tipicamente seus, a tal ponto que se pode falar de uma concepção pucciniana da ópera. Comparada ao universo de Mozart, Verdi, Wagner, Janácek, Strauss ou Britten, a órbita pucciniana é limitada na escolha dos argumentos, na caracterização das personagens e na profundidade musical. Mas ele é insuperável no nível com o qual sente afinidade: o da paixão erótica, da sensualidade, da ternura, das emoções dominadoras e desesperadas.

Puccini é o poeta das pequenas coisas, capaz de perceber o que há por trás do banal, do lugar-comum e de expressar o que ele mesmo chamou de “a pulsação do espírito sob as palavras, o non so che que pede a música, essa arte divina que começa exatamente onde as palavras terminam”. Puccini tem um senso teatral como poucos operistas jamais tiveram. Mas esse enorme talento é limitado por algumas contradições de sua índole: ele possuía mais ardor de sentimento do que profundidade espiritual. Possuía a capacidade de identificar-se totalmente com as suas personagens, mas não a de fazer delas seres humanos exemplares, que transcendessem suas características circunstanciais para assumir uma dimensão mais ampla – como acontece com o Verdi da maturidade.

O instinto teatral de Puccini era enorme, e sua técnica dramática estupenda. Mas, mesmo no fim da vida, produziu óperas que, no conjunto, são dramaticamente frágeis – como La Fanciulla del West ou Sor Angelica – em que pesem bons momentos isolados. “Puccini nunca é aborrecido ou prolixo, mas nunca consegue ser realmente sublime”, afirma Carner – e basta comparar a Tosca ao Otello, ou Madama Butterfly ao Cavaleiro da Rosa, em termos de profundidade na prospecção das paixões, para se certificar de que este não é um julgamento demasiado severo. “Sua arte o situa na fronteira entre o gênio e o talento”, conclui, com uma fórmula bastante apropriada.

A ópera pucciniana tem sido criticada pela insistência no erotismo e na sensualidade; pelo ataque sistemático à sensibilidade do espectador; por uma certa tendência à vulgaridade e à pieguice; pela sua falta de preocupação com questões éticas elevadas. Mas, na verdade, é um preconceito julgar uma obra por aquilo que ela não tem, condenando-a por não corresponder a determinados padrões de gosto, por não se preocupar com a afirmação ou a discussão de valores filosóficos ou espirituais, ou por apresentar uma visão da vida que parece superficial. O que realmente importa é saber se essa obra consegue traduzir a visão que o artista tem do mundo – seja ela qual for – com intensidade e força de persuasão. Ou seja, se esse artista consegue levar seus espectadores a se identificarem com suas personagens, a experimentarem por elas a sym-pathia no sentido etimológico de “sentir com”, de saber como a personagem se sente, de compreender por que ela se sente assim e age da maneira como o faz. E isso Puccini obtém de seu público, não só em relação a personagens “positivas” e dignas de compaixão (Mimì, Butterfly, Angelica, Liù), mas também às “negativas”, que inspiram antipatia (Scarpia, a Zia Principessa, Pinkerton ou Turandot).

Segundo Carner, Puccini ilustra perfeitamente a máxima de Henry James de que “um artista tem sorte quando suas realizações coincidem exatamente com as suas limitações”. E o faz pelo fato de nunca sair dos limites do que lhe é afim, de nunca se aventurar fora do terreno em que sabe poder dispor da plena medida de seu talento. Nesse sentido, não se pode dizer que Chopin, Bellini ou Hugo Wolf tenham sido “artistas menores” porque tenham preferido ficar dentro de um campo em que tinham a certeza de explorar ao máximo suas melhores potencialidades criativas. E Puccini tinha a plena consciência desses limites. Numa carta a Giuseppe Adami afirma não poder trabalhar em outra coisa, senão numa ópera: “Tenho o grande defeito de só saber escrever música quando os meus fantoches se movem no palco. Se pudesse ser um sinfonista puro, enganaria o meu tempo e o meu público. Mas quando nasci, tantos e tantos anos atrás… Deus santo tocou-me com o dedo mindinho e disse-me: ?Escreve para o teatro. Mas presta atenção: só para o teatro!? – e eu segui seu supremo conselho.”

Mas é absurda, por outro lado, a crítica que lhe foi feita de só saber fazer “musiquinha barata”. Seja para o intimismo da Bohème ou a grandiosidade da Turandot, a violência de filme policial da Tosca ou a profunda ironia do Gianni Schicchi, Puccini sempre soube encontrar a perfeita correspondência entre meios e fins. Descendente de quatro gerações de compositores de Lucca, tinha alto grau de profissionalismo e, além disso, possuía dotes pessoais que lhe dão um estilo inimitável: facilidade para compor melodias concisas, extremamente líricas e de uma dramaticidade apaixonada; refinamento harmônico e enorme talento para a orquestração; e um modo extremamente pessoal de escrever para a orquestra, que lhe permite assimilar procedimentos técnicos que estão sendo desenvolvidos por seus contemporâneos (por exemplo, o influxo de Stravinski ou dos impressionistas franceses) sem com isso alterar a personalidade própria de seu estilo.

Todas essas qualidades fizeram com que Puccini se tornasse o único compositor italiano, depois de Verdi, a conseguir que a maior parte de sua obra ficasse permanentemente no repertório. Numa fase em que muitos autores sobreviveram com apenas uma ou duas óperas, quando não foram sumariamente relegados ao esquecimento, dele apenas Le Villi e Edgar ficaram como curiosidades de especialista. De Manon Lescaut em diante, todos os títulos pertencem à lista das óperas prediletas do público.