13/03/2009 - 22:00h Boa noite

Ária de St. John Passion BWV 245 – “Erwäge wie sein blutgefärbter Rücken” de J.S. Bach

tenor solista: Thomas Moser
Violino I/II, Viola I/II, Continuo
instrumental ensemble: Concentus Musicus Wien
regente: Nikolaus Harnoncourt

07/03/2009 - 14:00h ”Queremos a ópera inserida na cultura contemporânea”

Diretor do Metropolitan, Peter Gelb fala do cinema como meio de atingir novas plateias e prevê dificuldades por causa da crise

Em São Paulo, Lucia de Lammermoor será exibida no Cine Bombril, no Unibanco Arteplex e no Unibanco Pompéia amanhã, às 17 h, e terça, às 20h.

João Luiz Sampaio – O Estado SP

Em setembro de 2008, o todo poderoso chefe do Metropolitan Opera House de Nova York, Peter Gelb, deu uma entrevista ao site Time Out. A certa altura, o repórter lhe pergunta como vê o futuro de Nova York. “Se não houver outro ataque terrorista, uma crise econômica e se o aquecimento global não fizer o Rio Hudson inundar a cidade, imagino que seja um grande futuro”, disse. Pouco mais de seis meses depois, uma das maiores crises econômicas da história virou do avesso a vida dos norte-americanos. “Para instituições culturais sem fins lucrativos, como o Metropolitan, o quadro ainda é incerto, não se sabe como seremos afetados”, diz Gelb ao Estado. Ele foi contratado há três anos para modernizar e devolver ao Met o posto de maior teatro de ópera do mundo. E agora? “Vamos devagar. Mas iniciativas como a transmissão de óperas pelo cinema são promissoras.” O projeto começou há dois anos e consiste na exibição em cinemas das óperas apresentadas no teatro; há duas semanas, chegou ao Brasil, onde continua amanhã com Lucia di Lammermoor, de Donizetti.

“Ao todo, 1,25 milhão de pessoas já assistiram às exibições. Para este sábado (hoje), nos EUA, já há 150 mil ingressos vendidos. É claro que a receita que temos com as bilheterias não pagam as produções em si, mas ao menos tem pago todas as despesas de filmagem e transmissão dos espetáculos. É um caso único de projeto autossuficiente em instituições culturais norte-americanas. E mais: é um bom veículo para vender a imagem do Met em todo o mundo, para não falar da sensação boa que temos ao perceber que aquilo com que trabalhamos, no caso a ópera, não perdeu a capacidade de emocionar e mobilizar as pessoas. É engraçado: em algumas sessões, o público aplaude entre as árias. Eles estão aplaudindo quem? Acho que estão aplaudindo a ópera como gênero e a possibilidade de estar ali, em comunidade, tendo acesso a ela. Em uma época na qual a tecnologia isola as pessoas dentro de casa, o que acontece aqui é justamente o inverso. Esse é um fenômeno social que em nenhum momento antecipamos. Foi de fato surpreendente”, diz.

Para Gelb, porém, o mais importante é que tudo isso está sendo feito sem que se perca o respeito pela ópera e sua produção. “A nossa única preocupação é que a ópera coloque um pé na cultura contemporânea, que abrace as possibilidades oferecidas pela tecnologia. Como gênero, ela á ainda profundamente atraente, precisa apenas quebrar essa barreira que se colocou entre ela e a sociedade. É o que tentamos fazer, mas com um respeito profundo pela forma de arte que ela é. E, claro, sem expectativas irreais. A ópera requer um público inteligente e sensível, interessado em compreendê-la. Ela não vai ser pop, mas precisamos torná-la disponível ao maior número de pessoas possíveis. O cinema é um excelente caminho para isso.”

COMO NOS ESPORTES

E em que medida ter em mente a exibição no cinema interfere no processo de criação das montagens? Gelb diz que isso não ocorre. “É tão difícil colocar uma ópera de pé, é uma tarefa que envolve tantos detalhes, dos cantores aos técnicos, que seria uma enorme irresponsabilidade colocar ainda mais essa pressão sobre a equipe”, diz. “Temos em mente que não estamos fazendo nem cinema nem televisão, mas, sim, teatro. É claro que a exigência por cantores que saibam atuar existe, mas isso não é exatamente novo. O cantor de ópera completo, hoje, é aquele que sabe cantar e atuar; e quando alguém assim aparece, nossa, é maravilhoso. Mas tem que ser maravilhoso no palco, esse é o critério. É por isso que não filmamos a estreia de uma produção. Esperamos algumas récitas e, a cada uma delas, vamos estudando a melhor maneira de filmá-la. Só então fazemos a transmissão.”

Um dos aspectos mais interessantes das exibições é justamente o modo de filmar, a posição das câmeras. Antes de cada apresentação, artistas do teatro entrevistam o elenco e o maestro, que falam de suas concepções para o espetáculo que será exibido. E, durante a apresentação, há câmeras pegando a movimentação nos bastidores e até mesmo na cabine da direção de imagens. “Queremos deixar claro que o que temos ali é teatro filmado. Esses olhares sobre os bastidores permitem isso, além de saciar a curiosidade do público. É como se estivéssemos transmitindo um evento de esportes, um campeonato do tênis ou futebol. Todos os aspectos da produção são mostrados, dando ao público o máximo possível da sensação de se estar perto do teatro.”

DE VOLTA À CRISE

Segundo Gelb, as transmissões, se continuarem a atrair o público atual (no Brasil, por exemplo, a primeira exibição do projeto, há duas semanas, teve 90% de ocupação), não devem sofrer com falta de verbas, uma vez que se tornaram autossuficientes. O mesmo, no entanto, não vale para o cotidiano do Metropolitan. “O fato é que não temos como saber exatamente o que vai acontecer. Nos EUA, dependemos quase que exclusivamente do patronato. E, se as pessoas começarem a perder muito dinheiro, vão investir menos em artes, isso é fato. Quanto ao público, ainda não sofremos quedas na venda de ingressos. Mas a ópera é um tipo de espetáculo no qual manter o teatro sempre cheio não significa vida financeira saudável. Temos alguma seguranças em nosso fundo de investimentos, mas estamos de olho para ver o que vai acontecer.”

MONTAGEM DE ‘LUCIA’ TEM BOM ELENCO E DIREÇÃO CÊNICA

MODERNIDADE: A notícia vem logo no início da transmissão, dada pela soprano Natalie Dessay, mestre-de-cerimônias da noite: doente, o tenor mexicano Rolando Villazón não poderia se apresentar no papel de Edgardo, ao lado da soprano russa Anna Netrebko, como Lucia. “Mas quem sabe essa não é uma noite histórica, que vai fazer despontar para o sucesso um jovem tenor, chamado para substituir o colega?” Talvez seja um pouco de exagero, mas Peter Beczala dá – e bem – conta do papel. É uma voz que corre fácil, ágil, com graves levemente escuros. Entre os homens, no entanto, o destaque mesmo da produção de Lucia di Lammermoor que será exibida nos cinemas brasileiros amanhã e terça é o barítono polonês Marius Kwiecien. Ele, curioso, já esteve no Brasil, onde cantou em 2001 uma Lucia no Municipal de São Paulo. A impressão tinha sido das melhores e agora se confirma. E Lucia? Anna Netrebko é a grande sensação da ópera mundo afora. Sua Lucia é vocalmente precisa, mas a Cena da Loucura deixa um pouco a desejar em atuação cênica. A produção de Mary Zimmerman, por sua vez, é excelente, recria as colinas escocesas do romance de Walter C. Scott (que inspira a obra) e consegue ser moderna plasticamente dentro das possibilidades sugeridas pelo libreto e pela música. Em resumo, um grande espetáculo. Em São Paulo, Lucia será exibida no Cine Bombril, no Unibanco Arteplex e no Unibanco Pompéia amanhã, às 17 h, e terça, às 20 h. R$ 25.

28/09/2008 - 17:45h Serenata

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No Intermezzo desta semana (na barra lateral vermelha a direita na parte superior do blog) a Serenata de Schubert cantada pelo tenor Giuseppe di Stefano. Trata-se de uma adaptação em espanhol, em um filme mexicano de 1953.
As palavras em espanhol são:

“Al claror de triste luna, faro de pesar
el rigor de mi fortuna quiero aumentar.
Todo en paz con blando sueño duerme en derredor
Solo yo, mi dulce dueña, velo con dolor.
Bardo soy que busca errante lauros para ti
pues quedé tu esclavo amante, luego que te vi.
Tu quizá gentil señora, mientras peno yo,
soñaras que fiel te adora, quien infiel nació
Mas te ví por la ventana, ya piedad logré
tu que fuiste ayer tirana premias hoy mi fé…”

Aqui a mesma Serenata na sua versão original em alemão, na voz do tenor Richard Tauber, depois numa versão de Nana Mouskouri e por último na voz da soprano Hei-Kyung Hong.

20/09/2008 - 08:35h Marta

Beniamino Gigli

MARTA

Música e letra de Moisés Simons

Linda flor de alborada
que brotaste del suelo
cuando la luz del cielo
tu capullo besaba.

De las rosas encanto,
el pensil te ama tanto
que ya loco de amor
siente celos del ave,
del aire y del sol.
Marta, capullito de rosa
Marta del jardín linda flor,
dime qué feliz mariposa
en tu cáliz se posa
a libar tu dulzor.

Marta, en tus claras pupilas
brilla una aurora de amor
Marta en tus ojos azules
de inefable candor,
veo en ellos amor.

07/09/2008 - 11:28h Quiéreme Mucho – Placido Domingo

No L'image “http://images.ig.com.br/blig/blogdofavre/images/bg_intermezzo.gif” ne peut être affichée car elle contient des erreurs. (na parte superior da barra lateral vermelha, a direita) durante toda a semana o vídeo Quiéreme mucho com a voz de Placido Domingo.

“Quiéreme Mucho” é uma das muitas composições de Gonzalo Roig (1890-1970), com letra de Agustín Rodríguez, e é probablemente a mais conhecida. Em 1911 o tenor Mariano Melendez estreou este bolero em Havana, considerado “Um hino cubano”, como o definiu muitos anos despois o cantante Fernando Albuerne, quem acrescentou que era o hino da alma cubana. (Fonte Youtube zoima1). A seguir a letra em espanhol e inglês.

Cuando se quiere de veras
Como te quiero yo a ti
Es imposible mi cielo
Tan separados vivir.

Cuando se quiere de veras
Como te quiero yo a ti
Es imposible mi cielo
Tan separados vivir
Tan separados vivir

Quiereme Mucho
Dulce amor mio
Que amante
Siempre te adorare
Yo con tus besos
Y tus caricias
Mis sufrimientos acallare.

Cuando se quiere de veras
Como te quiero yo a ti
Es imposible mi cielo
Tan separados vivir
Tan separados vivir.

———————
Love Me A Lot

When you are truly in love
As I am with you
It is impossible, my heaven
To live so far apart

When you are truly in love
As I am with you
It is impossible, my heaven
To live so far apart
To live so far apart

Love me a lot
Sweet love of mine
How loving you are
I will always adore you
With your kisses
And your caresses
My sufferings cease to speak

When you are truly in love
As I am with you
It is impossible, my heaven
To live so far apart
To live so far apart

22/08/2008 - 18:05h “T’amo qual s’ama un angelo”

Alfredo Kraus na Ópera Lucrezia Borgia de Donizetti, no Teatro del Liceu de Barcelona. 14 de junho 1989

13/08/2008 - 20:10h Zarzuela: Flor Roja

Bela interpretação da Zarzuela Los Gavilanes pelo tenor Antonio Comas

09/08/2008 - 20:00h Tu che le vanità e mais, da Ópera Don Carlos, de G. Verdi

Maria Callas

 

Blog valkirio

Don Carlo – Verdi – Um Grito de Liberdade

O Infante Dom Carlos, por Alonso Sánchez Coello

A ópera “Don Carlos” foi estreada em Paris em 1867, com libretto em Francês, baseado no romance “Dom Carlos, Infante de Espanha”, de Schiller. Mais tarde, Verdi fez alguns cortes para a estreia em Milão, já com a tradução do libretto em Italiano, sendo esta, “Don Carlo”, a versão representada com mais frequência.O Infante era filho de Filipe II de Espanha e de Maria Manuela de Portugal (filha de Dom João III e de Catarina de Áustria). Os seus progenitores eram primos por todos os lados: Filipe II era filho do Imperador Carlos V e de Isabel de Portugal, irmã de Dom João III, o avô materno de Dom Carlos. Parece muito complicado, mas não é. Veja-se a sua árvore genealógica aqui.Com um grau de consanguinidade tão elevado, alguma coisa havia de correr mal e Dom Carlos teve uma vida bastante infeliz. A sua mãe morreu poucos dias depois de o dar à luz e ele era uma pessoa fisicamente debilitada, que, além disso, sofria de perturbações mentais. Morreu com apenas vinte e três anos, em 1568, talvez de morte natural, ou, quem sabe, envenenado.Nada disto impediu que Schiller romanceasse a sua história nem que Verdi criasse uma personagem que pouco corresponderá ao verdadeiro Dom Carlos. E tudo isto vem a propósito de uma gravação que encontrei do dueto de Dom Carlos com o seu amigo Rodrigo, Marquês de Posa:O Infante confessa ao amigo que ama “Elisabetta” (Élisabeth de Valois), sua madrasta, que tinha sido sua noiva antes de casar com o Rei. Rodrigo tenta convencer Dom Carlos a partir com ele para a Flandres; têm de ajudar o povo flamengo a libertar-se do jugo de Filipe II (e da sua Inquisição). Ambos cantam juras de fidelidade:

Deus, que nos infundiste na alma
O amor e a esperança,
Acende-nos no coração
O desejo de liberdade.
Juramos viver juntos
E morrer juntos.
Na terra e no céu
Encontraremos a tua bondade.

Viveremos juntos e morreremos juntos.
Será o último suspiro,
Será um grito: Liberdade!

RODRIGO
È lui! Desso! L’Infante!

DON CARLO
O mio Rodrigo!

RODRIGO
Altezza!

DON CARLO
Sei tu ch’io stringo al seno?

RODRIGO
O mio prence… Signor!

DON CARLO
È il ciel che a me t’invia nel mio dolor,
Angiol consolator!

RODRIGO
O amato prence!
L’ora suonò; te chiama il popolo fiammingo!
Soccorrer tu lo dêi; ti fa suo salvator!
Ma che vid’io! Quale pallor, qual pena!…
Un lampo di dolor sul ciglio tuo balena!
Muto sei tu!… Sospiri! Hai tristo il cor!
Carlo mio, con me, dividi il tuo pianto, il tuo dolor.

DON CARLO
Mio salvator, mio fratel, mio fedele,
Lascia ch’io pianga in seno a te!

RODRIGO
Versami in cor il tuo strazio crudele,
L’anima tua non sia chiusa per me!
Parla!

DON CARLO
Lo vuoi tu? La mia sventura apprendi,
E qual orrendo stral il mio cor trapassò!
Amo d’un colpevole amor… Elisabetta!

RODRIGO
Tua madre! Giusto ciel!

DON CARLO
Qual pallor! Lo sguardo chini al suol!
Tristo me! Tu stesso, mio Rodrigo,
T’allontani da me?

RODRIGO
No, Rodrigo ancor t’ama! Io tel posso giurar.
Tu soffri? Già per me l’universo dispar!

DON CARLO
O mio Rodrigo!

RODRIGO
Mio prence!
Questo arcano dal Re non fu sorpreso ancora?

DON CARLO
No.

RODRIGO
Ottien dunque da lui di partir per la Fiandra.
Taccia il tuo cor, degna di te
Opra farai, apprendi omai
In mezzo a gente oppressa a divenir un Re!

DON CARLO
Ti seguirò, fratello.

RODRIGO
Ascolta! Le porte dell’ asil s’apron già; qui verranno
Filippo e la Regina.

DON CARLO
Elisabetta!

RODRIGO
Rinfranca accanto a me lo spirto che vacilla!
Serena ancora la stella tua nei cieli brilla.
Domanda al ciel dei forti la virtù!

DON CARLO E RODRIGO
Dio, che nell’alma infondere
Amor volesti e speme,
Desio nel core accendere
Tu dêi di libertà.
Giuriamo insiem di vivere
E di morire insieme;
In terra, in ciel congiungere
Ci può la tua bontà.

Vivremo insiem e morremo insiem!
Sarà l’estremo anelito,
Sarà un grido: Libertà!

Don Carlo – Carlo Bergonzi, tenor
Rodrigo – Piero Cappuccilli, barítono
(1970)

 

31/03/2008 - 04:13h José Carreras, o mito e o homem

Tenor espanhol fez o que pôde em apresentação em Curitiba, mas problemas técnicos evidenciaram problemas na voz

João Luiz Sampaio, CURITIBA – O ESTADO DE SÃO PAULO

O tenor espanhol José Carreras não precisou cantar uma só nota para conquistar a platéia presente a seu concerto na noite de sábado, em Curitiba. Bastou entrar no palco para ser ovacionado pelas mais de duas mil pessoas que estiveram no Teatro Positivo – ali estava uma das vozes mais belas da segunda metade do século 20, representante daquele punhado raro de artistas líricos cuja fama extravasa o mundo da ópera. Duas horas de música depois, no entanto, fica um gostinho melancólico nos ouvidos – o que vale mais, afinal: o mito ou o homem?

Carreras surgiu no cenário nos anos 70. Foi logo adotado pelo maestro Herbert Von Karajan – o belo timbre, a técnica refinada, um canto que saboreava cada palavra de personagens como o jovem apaixonado Rodolfo, de La Bohème, um de seus primeiros grandes papéis: enquanto Luciano Pavarotti e Plácido Domingo disputavam o posto de maior tenor da época, Carreras corria por fora. Até que, no fim dos anos 80, foi diagnosticado com leucemia, iniciando uma longa luta contra a doença. Saiu vitorioso e, o destino faz dessas coisas, voltou à cena ao lado justamente de Pavarotti e Domingo, iniciando, em 1990, a série de concertos dos Três Tenores, franquia mais bem-sucedida da história da ópera.

Ao chegar a Curitiba, Carreras falou sobre o projeto. Repetiu aquilo que os três sempre defenderam – o objetivo da iniciativa foi criar, com concertos ao ar livre, quase sempre para multidões, um novo público para a ópera. Quase 20 anos depois do surgimento da série, porém, cabe a pergunta: será que se criou um novo público para a ópera ou, na verdade, se criou um novo gênero, uma mistura de música popular e ópera, com estilos e interpretações próprias emprestadas de uma para a outra, gerando filhotes como Sarah Brightman, Andrea Boccelli, Charlotte Church?

O próprio Carreras, hoje, sobrevive à luz dessa mistura. Longe da ópera, o repertório de sua apresentação em Curitiba foi um mosaico de canções italianas, catalãs, operetas austríacas e espanholas, as chamadas zarzuelas. Individualmente, cada uma delas têm seu encanto: Marechiare, Era de Maggio, Musica Proibita, Chitarra Romana, Granada. Em conjunto, no entanto, formam um programa que esbarra no kitsch, com arranjos sinfônicos bonitos, sim, mas que matam a espontaneidade de sentimentos que, afinal, está na gênese de sua criação.

Carreras, não há dúvida, é um grande artista. Extrai o máximo dessas canções, constrói momentos dramáticos interessantes onde é possível fazê-lo. O belo timbre ainda aparece e é notável a maneira como consegue preservar contrastes na voz, que, se perdeu o brilho nas notais mais agudas, ganhou força nos graves. Mas as falhas no sistema de microfones, duplicando sua voz e causando efeitos incômodos sempre que o cantor se movimentava, se distanciando ou aproximando dos microfones posicionados no chão do palco, eram um lembrete constante de que aquele era um artista longe de seu auge, com problemas de sustentação e emissão. Carreras, por tudo que significou e ainda significa, merecia tratamento melhor por parte da produção do espetáculo.

Ao seu lado, participou do concerto a soprano chilena Veronica Villarroel. É um timbre encantador, espontâneo, bonito mesmo. Couberam a ela os únicos trechos de ópera da noite – entre árias de Adriana Lecouvrer e A Força do Destino, seu melhor momento foi “Un Bel Dì”, de Madame Butterfly. Juntos, ela e Carreras fizeram um dueto muito bonito, “Lippen Schweigen”, da opereta A Viúva Alegre, de Franz Léhar; e o mesmo vale para o dueto da zarzuela El Dúo de la Africana, de Manuel Caballero, com sua complicada mistura de ritmos tradicionais espanhóis. Foram os dois grandes momentos do espetáculo, no que colaborou a atuação da Sinfônica do Paraná, regida por Enrique Ricci, evidenciando a boa acústica do novo teatro.

Como bis, uma homenagem à música brasileira – Carreras cantou Manhã de Carnaval, Veronica escolheu Eu Sei Que Vou Te Amar. Mas a elegante inclusão de músicas brasileiras no programa virou patriotada barata com uma enorme bandeira brasileira descendo no fundo do palco ao som de Aquarela do Brasil, levando a platéia de VIPs e autoridades (aquelas que permaneceram até o final, pelo menos) ao delírio.

A pergunta do começo permanece. O que vale mais: o mito ou o homem? É bem provável que a resposta esteja em algum lugar no meio do caminho, o que a gente chama de realidade. Ou na escolha da emoção – lágrimas, afinal, podem surgir da mais profunda satisfação; ou da melancolia mais nostálgica.

14/03/2008 - 16:48h Mais que merecido

ERUDITO: CRÍTICOS ELEGEM PLÁCIDO DOMINGO O MAIOR TENOR
O espanhol Plácido Domingo venceu os italianos Enrico Caruso (1873-1921) e Luciano Pavarotti (1935-2007), respectivamente segundo e terceiro colocados, em eleição para escolher o maior tenor de todos os tempos, feita com 16 críticos convocados pela revista “BBC Music Magazine”. “Desde os anos 60, o mundo da ópera parece inconcebível sem Domingo, e suas gravações darão testemunho de sua grandeza”, escreveu Michael Tanner, crítico da revista “The Spectator”. Fonte Folha de São Paulo