12/11/2008 - 15:02h Senado aprova descriminação do aborto no Uruguai

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Presidente Tabaré Vázquez, no entanto, deve vetar projeto de lei.

BBC Brasil - Agencia Estado

De Buenos Aires para a BBC Brasil - Os senadores uruguaios aprovaram, nesta terça-feira, um projeto de lei que descrimina o aborto, deixando para o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, o peso de vetar a iniciativa aprovada seis dias antes, quarta-feira, 5, pelos deputados.

Vázquez afirmou, mais de uma vez, que vetará este projeto de lei que foi apresentado por integrantes de sua base parlamentar, Frente Ampla.

A discussão gera forte polêmica a onze meses das eleições presidenciais, em outubro de 2009, em um país onde, entre idas e vindas, o assunto vem sendo debatido há pelo menos oito anos.

Segundo especialistas, o Uruguai é o primeiro país da América do Sul a avançar com a medida. Por isso, não se descarta que a polêmica acabe sendo definida, no futuro, em um plebiscito, como é tradição no país.

Governistas divididos

A aprovação no Senado do projeto - chamado Lei de Saúde Sexual e Reprodutiva e que prevê a descriminação do aborto em um de seus artigos - foi por 17 votos a favor e 13 contra.

Pelo telefone, a senadora Margarita Percovich, líder da Frente Ampla, e autora do projeto de lei, contou à BBC Brasil que todos os 17 votos foram de integrantes da base governista.

Entre os que votaram a favor, destacou, estavam o vice-presidente do país e presidente do Congresso, senador Rodolfo Nin Novoa, e os prováveis candidatos do governo Vázquez à Presidência, os senadores Danilo Astori e José Mujica.

Astori e Mujica deverão disputar para saber quem será o cabeça da chapa oficial à sucessão presidencial.

“Tabaré é médico, mas, como muitos políticos uruguaios, é muito conservador e é uma pena para o país que não sancione a iniciativa”, disse Percovich, professora de teologia.

Para ela, ao levar a proposta adiante, mesmo sabendo que Vázquez não a sancionaria, os parlamentares que defendem a legalização do aborto estão atendendo o que prometeram a suas eleitoras.

“Pelo projeto, a mulher terá até doze semanas para interromper a gravidez, com a garantia de que poderá realizá-lo com apoio médico e em condições seguras”, afirmou.

Ela disse que o projeto prevê que a mulher entregue sua decisão escrita ao médico para que “fique claro” que é vontade dela e que será atendida. O médico poderá orientá-la também, de acordo com o texto, a concluir a gravidez e encaminhar o bebê a um centro de adoção.

Polêmica

A oposição é contra a descriminação do aborto no país.

“Somos da oposição, mas nesse ponto (de descriminar o aborto) estamos com o presidente”, afirmou o senador Eber da Rosa, do Partido Nacional.

Na sua opinião, caberá a Vázquez a decisão do veto porque a base governista está “dividida”.

Ouvidos pela BBC Brasil, Percovich e Rosa, basearam-se nos acordos internacionais assinados pelo Uruguai para defender suas posições divergentes.

Percovich baseou a defesa do projeto em acordos internacionais como os de Viena e do Cairo, destacando que os presidentes, muitas vezes, não colocam estas iniciativas em prática em seus governos.

Por sua vez, Rosa votou contra o projeto de lei e argumentou que seu país assinou o tratado de direitos humanos de São José da Costa Rica. “Este tratado prevê que o direito à vida existe desde o útero, porque está cientificamente comprovado que o embrião demonstra sinais vitais, que tem vida própria e, por isso, a mulher não pode (abortá-lo) como se fosse parte de seu corpo”, disse.

A oposição, afirmou Rosa, aprovou praticamente todos os artigos do projeto de lei, incluindo a distribuição de anticoncepcionais e a implementação de educação sexual, principalmente nas áreas carentes. O veto foi ao artigo que permite a interrupção da gravidez.

Veto presidencial

Pela Constituição uruguaia, Vázquez terá dez dias para aprovar ou rejeitar o projeto, a partir do momento em que o texto chegar ao Executivo.

Se ele realmente vetar a iniciativa, os legisladores poderão convocar uma sessão do Congresso para tentar derrubar este veto presidencial.

“Mas são necessários três quintos e não temos estes votos. Para isso, precisaríamos dos votos dos outros dois partidos tradicionais (Nacional e Colorado) e isso seria impossível”, disse Percovich, deixando claro que o objetivo é manter a proposta na berlinda política e social.

Segundo pesquisas de opinião, cerca de 60% dos uruguaios aprovariam a descriminação do aborto. Mas até estes dados geram polêmicas, com alguns setores questionando as pesquisas.

Hoje, no Uruguai, já existe um hospital na capital do país, Montevidéu, que, de acordo com Percovich, atende a aquelas mulheres que se submeteram a um aborto, em local clandestino, e procuram ajuda médica para evitar infecções ou outras seqüelas.

Parlamentares que defendem a descriminação do aborto explicaram que a proposta surgiu diante dos altos índices de morte de mulheres que o realizam em lugares clandestinos e sem condições.

14/05/2008 - 08:54h ‘Religião é superstição infantil’

Em carta a ser leiloada, Einstein diz que Deus é fruto da fraqueza humana

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TRECHOS DA CARTA

“A palavra Deus, para mim, nada mais é do que expressão e produto das fraquezas humanas.” “A Bíblia é uma coleção de lendas bem intencionadas, mas, ainda assim, primitivas e bastante infantis. Nenhuma interpretação, não importa quão sutil, muda isso (para mim).” “Para mim, a religião judaica, como todas as outras, é uma encarnação das mais infantis superstições.” “E o povo judeu, ao qual eu pertenço com orgulho e com cuja mentalidade eu tenho profundas afinidades, não apresenta nenhuma qualidade diferente, para mim, em relação a todos os outros povos. Até onde vai a minha experiência, (os judeus) não são melhores do que outros grupos humanos, embora sejam poupados dos piores tipos de câncer pela falta de poder. Fora isso, não consigo ver nada de ‘escolhido’ sobre eles.”

LONDRES - O GLOBO

Uma carta escrita por Albert Einstein em 1954 e só agora divulgada ao público parece pôr fim ao intenso debate sobre o papel da religião na vida de um dos maiores cientistas da Humanidade.
No texto manuscrito em alemão, que será leiloado amanhã em Londres, Einstein diz que “a crença em Deus é um produto das fraquezas humanas”, uma superstição, e “que a Bíblia não passa de uma coleção de lendas primitivas e infantis, ainda que bem intencionadas”.

Ao longo de sua vida, o cientista fez algumas referências a Deus, interpretadas por religiosos como um sinal claro de sua crença num ser superior. Ateus, em contrapartida, argumentavam que essa interpretação seria leviana e que o “Deus” citado por Einstein seria uma referência às leis que regem o Universo.
A carta escrita por Einstein um ano antes de sua morte era endereçada ao filósofo alemão Eric Gutkind.

Passou os últimos 50 anos em mãos de um colecionador particular e, por isso, não era conhecida. O leilão do texto será na Bloomsbury Auctions e as expectativas é de que seja vendido por algo entre US$ 12 mil e US$ 16 mil.
A carta não deixa muito espaço para dúvidas sobre a posição de Einstein.

Nela, o criador da Teoria da Relatividade escreve: “A palavra Deus, para mim, nada mais é do que expressão e produto das fraquezas humanas; a Bíblia é uma coleção de lendas bem intencionadas, mas, ainda assim primitivas e bastante infantis. Nenhuma interpretação, não importa quão sutil, muda isso (para mim).” Einstein, que era judeu e declinou a oferta de ser o segundo presidente do Estado de Israel, também rejeita na carta a idéia de que os judeus seriam o povo escolhido por Deus.

“Para mim, a religião judaica, como todas as outras, é uma encarnação das mais infantis superstições.

E o povo judeu, ao qual eu pertenço com orgulho e com cuja mentalidade eu tenho profundas afinidades, não apresenta nenhuma qualidade diferente, para mim, em relação a todos os outros povos. Até onde vai a minha experiência, eles não são melhores do que outros grupos humanos, embora sejam poupados dos piores tipos de câncer pela falta de poder. Fora isso, não consigo ver nada de ‘escolhido’ sobre eles.” A carta não é listada como fonte da principal obra acadêmica sobre o tema, o livro “Einstein e a religião”, de Max Jammer. Um dos maiores especialistas em Einstein do Reino Unido, John Brooke, da Universidade de Oxford, diz que jamais ouviu falar no texto. O porta-voz da Bloomsbury, Richard Caton, disse que a casa está “100% segura da autenticidade da carta”.

As reflexões do autor da Teoria da Relatividade sobre religião deram origem a muitas conjecturas.
Os pais de Einstein não eram religiosos, mas ele estudou numa escola católica ao mesmo tempo em que tinha aulas particulares sobre o judaísmo.
Mas o idílio religioso durou pouco. Por volta dos 12 anos, ele já questionava a verdade de muitas histórias bíblicas.

Nem sempre coerente

Ao longo de sua vida, ele fez referência a “um sentimento religioso cósmico” que permearia e sustentaria seu trabalho científico. Em 1954, ele falou no desejo de “vivenciar o Universo como um único todo cósmico”.
Ele também costumava fazer referências religiosas, como em 1926, ao declarar que “Deus não joga dados”.

E ainda, na não menos famosa frase: “A ciência sem religião é manca; e a religião sem ciência é cega.” Mas ele também disse: “Eu não acredito no Deus da teologia que recompensa o bem e pune o mal. Meu Deus criou leis que tomam contam disso. Seu Universo não é governado por pensamentos positivos, mas por leis imutáveis.” Para o especialista John Brooke, professor de ciência e religião em Oxford, a carta reforça a teoria de que “Einstein não era teísta convencional, embora também não fosse um ateu”.

— Como muitos grandes cientistas do passado, ele era meio esquisito sobre religião e nem sempre coerente de uma época para outra — afirmou Brooke.

Na análise de Brooke, Einstein acreditava que “havia algum tipo de inteligência em ação na natureza. Mas certamente não era a visão tradicional das religiões cristãs e judaicas”.

04/04/2008 - 13:59h O arquiteto da igualdade

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O Globo

Martin Luther King Jr. foi o principal nome do movimento pelo fim da segregação racial nos EUA nas décadas de 1950 e 1960, sendo conhecido tanto por sua opção por uma luta pacífica em meio aos conturbados protestos no país, quanto por ser um dos mais brilhantes oradores do século XX.

 FAMÍLIA: Nasceu em Atlanta, na Geórgia, em 15 de janeiro de 1929. Foi o segundo filho — o primeiro homem — do pastor Martin Luther King, de quem herdou o nome, e Alberta Williams King, cujo pai também era um pastor protestante.

 EDUCAÇÃO: Aluno brilhante, ele pulou a oitava séria do ensino fundamental e o terceiro do ensino médio. Entrou na Faculdade Morehouse com 15 anos, se formando em sociologia em 1948. Após três anos num seminário, iniciou um doutorado em teologia, na Universidade de Boston, formando-se em 1955.

 PASTOR: King foi ordenado pastor em 1948, com 19 anos, se tornando pastor assistente na Igreja Batista Ebenezer, em Atlanta. De 1954 a 1959, foi pastor em Montgomery, no Alabama.Neste ano, passou a dirigir a Conferência da Liderança Cristã do Sul, em Atlanta. De 1960 até sua morte, foi o copastor de Ebenezer com o pai.

 BOICOTE: Martin Luther King se tornou conhecido nos EUA a partir de meados dos anos 1950. Como membro da Associação de Aprimoramento de Montgomery, ele foi o líder da campanha de boicote ao sistema de transporte público da cidade.
Os brancos que entravam nos ônibus deveriam sentar-se nas primeiras fileiras e continuar a preencher os lugares do início para o fim. Os negros, faziam o inverso. Quando um branco entrava, toda uma fileira de negros deveria se levantar. Em 1ode dezembro de 1955, Rosa Park se recusou a deixar o lugar, e foi detida e multada. Quatro dias depois, os negros passaram a boicotar os ônibus, exigindo a revogação da lei. Dezenas de negros foram presos, inclusive King (a primeira de mais de 30 detenções que sofreu). O caso ganhou atenção nacional e, em 13 de novembro de 1956, a Suprema Corte decidiu que a lei local era inconstitucional. O boicote acabou, em 20 de dezembro.

 DIREITOS CIVIS: Após a vitória, ele passou a liderar o movimento pelos direitos civis dos negros, baseado em desobediência civil não violenta. Em 63, comandou uma marcha em Washington, coroando-a com o discurso “Eu tenho um sonho”.
Em 64, se tornou o mais jovem ganhador do Nobel da Paz.

 MORTE: Em 4 de abril de 1968, King recebeu um tiro disparado por James Earl Ray, quando estava na sacada do motel Lorraine, em Memphis, onde estava para apoiar protestos por melhores condições para trabalhadores do sistema de água e esgoto. O presidente Lyndon Johnson decretou um dia de luto nacional. Ray foi condenado a 99 anos de prisão.

21/08/2007 - 22:31h The Politics of God

Times Magazine

Thomas Struth

Milan Cathedral, Milan, 1998

Published: August 19, 2007

I. “The Will of God Will Prevail”


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Thomas Struth

Chiesa dei Frari, Venice, 1995

The twilight of the idols has been postponed. For more than two centuries, from the American and French Revolutions to the collapse of Soviet Communism, world politics revolved around eminently political problems. War and revolution, class and social justice, race and national identity — these were the questions that divided us. Today, we have progressed to the point where our problems again resemble those of the 16th century, as we find ourselves entangled in conflicts over competing revelations, dogmatic purity and divine duty. We in the West are disturbed and confused. Though we have our own fundamentalists, we find it incomprehensible that theological ideas still stir up messianic passions, leaving societies in ruin. We had assumed this was no longer possible, that human beings had learned to separate religious questions from political ones, that fanaticism was dead. We were wrong.

An example: In May of last year, President Mahmoud Ahmadinejad of Iran sent an open letter to President George W. Bush that was translated and published in newspapers around the world. Its theme was contemporary politics and its language that of divine revelation. After rehearsing a litany of grievances against American foreign policies, real and imagined, Ahmadinejad wrote, “If Prophet Abraham, Isaac, Jacob, Ishmael, Joseph or Jesus Christ (peace be upon him) were with us today, how would they have judged such behavior?” This was not a rhetorical question. “I have been told that Your Excellency follows the teachings of Jesus (peace be upon him) and believes in the divine promise of the rule of the righteous on Earth,” Ahmadinejad continued, reminding his fellow believer that “according to divine verses, we have all been called upon to worship one God and follow the teachings of divine Prophets.” There follows a kind of altar call, in which the American president is invited to bring his actions into line with these verses. And then comes a threatening prophecy: “Liberalism and Western-style democracy have not been able to help realize the ideals of humanity. Today, these two concepts have failed. Those with insight can already hear the sounds of the shattering and fall of the ideology and thoughts of the liberal democratic systems. . . . Whether we like it or not, the world is gravitating towards faith in the Almighty and justice and the will of God will prevail over all things.”

This is the language of political theology, and for millennia it was the only tongue human beings had for expressing their thoughts about political life. It is primordial, but also contemporary: countless millions still pursue the age-old quest to bring the whole of human life under God’s authority, and they have their reasons. To understand them we need only interpret the language of political theology — yet that is what we find hardest to do. Reading a letter like Ahmadinejad’s, we fall mute, like explorers coming upon an ancient inscription written in hieroglyphics.

The problem is ours, not his. A little more than two centuries ago we began to believe that the West was on a one-way track toward modern secular democracy and that other societies, once placed on that track, would inevitably follow. Though this has not happened, we still maintain our implicit faith in a modernizing process and blame delays on extenuating circumstances like poverty or colonialism. This assumption shapes the way we see political theology, especially in its Islamic form — as an atavism requiring psychological or sociological analysis but not serious intellectual engagement. Islamists, even if they are learned professionals, appear to us primarily as frustrated, irrational representatives of frustrated, irrational societies, nothing more. We live, so to speak, on the other shore. When we observe those on the opposite bank, we are puzzled, since we have only a distant memory of what it was like to think as they do. We all face the same questions of political existence, yet their way of answering them has become alien to us. On one shore, political institutions are conceived in terms of divine authority and spiritual redemption; on the other they are not. And that, as Robert Frost might have put it, makes all the difference. More…

Mark Lilla is professor of the humanities at Columbia University. This essay is adapted from his book “The Stillborn God: Religion, Politics and the Modern West,” which will be published next month.