09/11/2009 - 18:29h Diante de pais intoleráveis, o melhor é abandoná-los

newyorktimes_folha

ENSAIO

RICHARD A. FRIEDMAN,
MÉDICO


Deixar de lado um vínculo daninho pode ajudar a preservar a saúde mental

Uma pessoa pode se divorciar de um cônjuge abusivo. Mas o que fazer se a fonte do sofrimento são os seus pais?
É claro que os pais não são perfeitos. Mas, da mesma maneira que existem pais comuns e bons em suas funções que misteriosamente geram filhos difíceis, há algumas pessoas boas que sofrem o azar de terem pais intoleráveis.
O assunto recebe pouca, se alguma, atenção nos manuais da disciplina ou na literatura psiquiátrica, talvez como reflexo da concepção comum, e errônea, de que os adultos, diferentemente das crianças e dos idosos, não estão vulneráveis a esses abusos emocionais.
Acredito que os terapeutas sintam inclinação demasiada a tentar salvar relacionamentos, mesmo aqueles que podem ser prejudiciais a um paciente. Em lugar disso, é crucial que tenham a mente aberta e considerem se manter aquele relacionamento é realmente saudável e desejável.
Da mesma forma, a suposição de que os pais estão predispostos a amar os filhos incondicionalmente não é universalmente verdadeira. Lembro-me de um paciente, um homem de 20 e poucos anos, que me procurou por sofrer de depressão e graves problemas de autoestima.
Não demorei a descobrir o motivo. Ele havia recentemente assumido sua homossexualidade diante dos pais, profundamente religiosos, cuja reação foi repudiá-lo. Posteriormente, em um jantar de família, seu pai o chamou para uma conversa reservada e disse que teria sido melhor que ele, e não seu irmão mais novo, tivesse morrido em um acidente de carro anos antes.
Apesar de terrivelmente magoado e zangado, o jovem ainda tinha a esperança de que seus pais aceitassem sua opção sexual e me pediu para organizar uma sessão com a família.
A conversa não foi bem. Os pais insistiam em que o “estilo de vida” do filho era um grave pecado, incompatível com suas crenças. Quando tentei lhes explicar de que o consenso científico era o de que os seres humanos têm tanto poder de escolha sobre sua orientação sexual quanto sobre a cor de seus olhos, os dois não se deixaram convencer. Pareciam simplesmente incapazes de aceitar o filho como ele é.
Fiquei atônito diante de sua hostilidade e convicto de que representavam uma ameaça psicológica ao meu paciente. E, em função disso, era preciso que eu fizesse algo que jamais havia contemplado como parte de um tratamento. Na sessão seguinte, sugeri que, para preservar seu bem-estar psicológico, ele poderia considerar, ao menos por algum tempo, abrir mão de seu relacionamento com os pais.
A esperança é a de que os pacientes venham a compreender os custos psicológicos de uma relação daninha e ajam para mudá-la.
Por fim, meu paciente se recuperou completamente da depressão e começou a namorar, ainda que a ausência dos pais em sua vida sempre ocupasse seus pensamentos.
Não é de se admirar. Pesquisas sobre vínculos primários, conduzidas tanto com seres humanos quanto com primatas não humanos, demonstram que estamos predispostos a estabelecer essas conexões, mesmo para com aqueles que não nos tratam assim tão bem.
Também sabemos que, embora traumas de infância prolongados possam ser tóxicos ao cérebro, os adultos mantêm a capacidade de reordenar o cérebro, posteriormente, por meio de novas experiências, entre as quais terapia e medicação com psicotrópicos.
É claro que a terapia não permite reverter a História. Mas é possível curar mentes e cérebros por meio de remoção ou redução do estresse. Às vezes, por mais que isso pareça drástico, o processo pode requerer o abandono de contato com um pai intolerável.


Richard A. Friedman é professor de psiquiatria no Richard A. Weill Cornell Medical College, em Nova York

20/08/2009 - 16:27h Discordar de nosso próprio desejo

CONTARDO CALLIGARIS – FOLHA SP


Um terapeuta deve deixar suas opiniões e crenças no vestiário do consultório, a cada dia

EM 31 de julho, o Conselho Federal de Psicologia repreendeu a psicóloga Rozângela Alves Justino por ela oferecer uma terapia para mudar a orientação sexual de pacientes homossexuais.
Não quero discutir a “possibilidade” desse tipo de “cura” (afinal, reprimir o desejo dos outros e o nosso próprio é uma atividade humana tradicional), mas me interessa dizer por que concordo com a decisão do Conselho.
A revista “Veja” de 12 de agosto publicou uma entrevista com Alves Justino, na qual ela explica sua posição. No fim, a psicóloga manifesta seu temor do complô de um “poder nazista de controle mundial”, que estaria querendo “criar uma nova raça e eliminar pessoas”, graças a políticas abortistas, propagação de doenças sexualmente transmissíveis etc.
Para ser psicoterapeuta, não é obrigatório (talvez nem seja aconselhável) gozar de perfeita sanidade mental. É possível, por exemplo, que um esquizofrênico, mesmo muito dissociado, seja um excelente psicoterapeuta (há casos ilustres). Mas uma coisa é certa: para ser terapeuta, ser inspirado por um conjunto organizado de ideias persecutórias é uma franca contraindicação.
Na verdade, pouco importa que as ideias em questão sejam ou não persecutórias e delirantes: de um terapeuta, espera-se que ele deixe suas opiniões e crenças (morais, religiosas, políticas) no vestiário de seu consultório, a cada manhã. Quando, por qualquer razão, isso resultar difícil ao terapeuta, e ele sentir a vontade irresistível de converter o paciente a suas ideias, o terapeuta deve desistir e encaminhar o caso para um colega. Por quê?
Alves Justino, com sua aversão por homossexualidade, sadomasoquismo e outras fantasias sexuais, ilustra a regra que acabo de expor. Explico.
A psicóloga defende sua prática afirmando que a psiquiatria e a psicologia admitem a existência de uma patologia, dita “homossexualidade ego-distônica”, que significa o seguinte: o paciente não concorda com sua própria homossexualidade, e essa discordância é, para ele, uma fonte de sofrimento que poderíamos aliviar -por exemplo, conclui Alves Justino, reprimindo a homossexualidade.
De fato, atualmente, psiquiatria e psicologia reconhecem a existência, como patologia, da “orientação sexual ego-distônica”; nesse quadro, alguém sofre por discordar de sua orientação sexual no sentido mais amplo: fantasias, escolha do sexo do parceiro, hábitos masturbatórios etc. Existe, em suma, um sofrimento que consiste em discordar das formas de nosso próprio desejo sexual, seja ele qual for (alguém pode sofrer até por discordar de sua “normalidade”). Pois bem, nesses casos, o que é esperado de um terapeuta?
Imaginemos um nutricionista que receba uma paciente que se queixa de seu excesso de peso, enquanto ela apresenta uma magreza inquietante: ela tem asco da forma de seu próprio corpo, que ela percebe como enorme e que ela não aceita como seu. O nutricionista não tentará nem emagrecer nem engordar sua paciente, pois o problema dela não é o peso corporal, mas o fato de que ela discorda de si mesma a ponto de não conseguir enxergar seu corpo como ele é.
No caso da orientação sexual ego-distônica, vale o mesmo princípio: o problema do paciente não é seu desejo sexual específico, mas o fato de que ele não consegue concordar com seu próprio desejo, seja ele qual for. As razões possíveis dessa discordância são múltiplas. Por exemplo, posso discordar de meu desejo sexual porque ele torna minha vida impossível numa sociedade que o reprime (moral ou judicialmente) e cujas regras interiorizei. Ou posso discordar de meu desejo porque ele não corresponde a expectativas de meus pais que se tornaram minhas próprias. E por aí vai.
Nesses casos, o terapeuta que tentar resolver o problema confiando em sua visão do mundo e propondo-se “endireitar” o desejo de quem o consulta, de fato, só agudizará o conflito (consciente ou inconsciente) do qual o paciente sofre. Ora, é esse conflito que o terapeuta deve entender e, se não resolver, amenizar, ou seja, negociar em novos termos, menos custosos para o paciente. Em outras palavras, diante da ego-distonia, o terapeuta não pode tomar partido nem pelo desejo sexual do paciente, nem pelas instâncias que discordam dele.
Ou melhor, ele pode, sim, só que, se agir assim, ele deixa de ser terapeuta e vira militante, padre ou pastor.

ccalligari@uol.com.br

14/06/2009 - 20:36h O amor romântico dará lugar ao de indivíduos que se somam, diz o mais pop dos terapeutas brasileiros

É preciso ser feliz sozinho

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Flávio Gikovate – Médico psiquiatra, terapeuta e escritor

Ivan Marsiglia – O Estado de S.Paulo

– São 18h45 de uma terça-feira chuvosa e o trânsito é de enlouquecer nos arredores da Avenida Paulista. Ainda assim, quase todas as 166 cadeiras do Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, em São Paulo, estão ocupadas para o próximo espetáculo. O que vai se encenar ali não é a peça O Homem da Tarja Preta, do psicodramaturgo Contardo Calligaris, nem A Alma Imoral, do rabino filósofo Nilton Bonder – ambas em cartaz na casa. Serão dramas e tragédias da vida real de brasileiros, ansiosos pelas palavras do protagonista que acaba de subir ao palco.

A cabeleira branca do psiquiatra Flávio Gikovate, 66 anos, reluz sob os holofotes. Vestindo um figurino composto de blazer, camisa social sem gravata, jeans e sapatos que lhe confere um ar sóbrio e informal, é ele o diretor de cena a conduzir as atenções do público – em sua maioria de classe média, bom nível de escolaridade e repartido igualmente entre mulheres e homens, jovens, maduros, idosos. Vai começar o programa No Divã do Gikovate.

Transmitido pela rádio CBN aos domingos das 21h às 22h – “na hora da fossa, do bolo no estômago”, como ele costuma dizer -, o consultório sentimental do doutor Flávio é acompanhado por uma média de 30 mil ouvintes só na capital paulista, segundo a emissora. Em geral, entra ao vivo e o público participa pelo telefone. Ocasionalmente, como hoje, é pré-gravado, pois o psiquiatra reservou o final de semana do dia dos namorados para ir a Nova York com a editora Cecília Pintchovsky Gikovate, sua segunda mulher. E a plateia pode expor suas angústias cara a cara com o psiquiatra.

Não são poucas. Do senhor que se ressente do desinteresse erótico de sua esposa à mulher que sente culpa cada vez que dá uma gargalhada. Da moça que passou a ter medo da morte, depois que o namorado se foi, ao adolescente raquítico com vergonha de tirar a camisa. A senhora desconfiada das carícias estranhas que o marido lhe pede e a comissária de bordo que, com o emprego, perdeu os amigos e ganhou 30 quilos.

Gikovate responde tudo com simplicidade e calma, sem perder o timing radiofônico. Seu tom é acolhedor, mas não complacente, e temperado às vezes por uma ironia sutil. “É curioso como as mulheres casadas com cafajestes jamais se recusam sexualmente a eles”, diz, em determinado momento. “A homossexualidade não está relacionada ao que se faz na cama, mas com quem”, afirma em outro. Mais adiante: “Sócrates bebeu cicuta sem medo, pois para ele a morte seria um sono sem pesadelos ou um reencontro com grandes filósofos que se foram. E dizia: ?Em ambos os casos está bom para mim?.”

Se o midiático terapeuta é um sucesso de público, nem sempre é de crítica. Embora a solidez de sua formação intelectual seja inegável, há quem torça o nariz para a ligeireza com que trata de temas profundos da psique humana no rádio, na internet, em revistas e jornais.

Filho de um imigrante judeu filiado ao Partido Comunista Brasileiro, ele cursou medicina na USP e formou-se psiquiatra em 1966. Nos anos 70, em plena euforia da liberação sexual, o jovem Flávio mudou-se para a Inglaterra para trabalhar como assistente clínico no Instituto de Psiquiatria da London University. Lá, deu-se conta de que, ao contrário do pai, não tinha gosto por instituições, acadêmicas ou partidárias. “Nunca aderi a nenhuma doutrina”, conta. “Para mim, se macumba ajudar o paciente, vale.”

De volta ao Brasil, já tinha uma agenda abarrotada de clientes, faz questão de frisar, quando o jornalista Samuel Wainer convidou-o para escrever sobre comportamento no Aqui, São Paulo, semanário que fundara em 1975. Dois anos depois, a coluna migrou para a revista Capricho, pioneira na orientação sexual a adolescentes no Brasil – e seu primeiro artigo causou polêmica ao ensinar às mocinhas que existia sexo sem amor. Também foi colunista da Folha de S.Paulo na década de 80 e assinou uma página na revista Cláudia até 1999.

Publicou mais de 20 livros que venderam ao todo 500 mil exemplares. Em um deles, Namoro – Relação de Amor e Sexo (Editora Moderna, 1993), lançou no País o termo “ficar”, que ouviu de um jovem paciente no consultório. E definiu a prática como “troca de intimidades físicas da cintura para cima, sem nenhum tipo de compromisso”.

O “ficar” não foi caso fortuito em sua obra. “Meus livros vêm só da clínica, não sou o fruto da minha bagagem teórica.” Quando fala de terapeutas e pensadores que o influenciaram, como Erich Fromm, Carl Rogers e Jose Ortega y Gasset, Gikovate ressalta neles a simplicidade da escrita e a opção pelo público leigo. E considera que um dos períodos mais ricos da produção intelectual em sua área se deu durante a 2ª Guerra Mundial, “quando toda uma geração de acadêmicos, na maior parte, judeus, migrou para os EUA e houve um choque criativo entre a cultura aristocrática europeia e o pragmatismo utilitarista norte-americano”.

Esse desdém pela academia não impediu que alguns de seus trabalhos fossem lá reconhecidos. Aquele que talvez seja seu melhor livro, O Mal, o Bem e Mais Além – Egoístas, Generosos e Justos (MG Editores, 2005), foi definido pela filósofa uspiana Olgária Matos como “inovador e de leitura urgente”. Em linguagem clara , Gikovate compara as impressões que colheu dos cerca de 8 mil pacientes atendidos por ele em 41 anos de clínica com a crítica à moralidade cristã formulada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche nas obras Genealogia da Moral e Além do Bem e do Mal.

O psiquiatra percebeu que a maior parte dos casais é formada por um generoso e um egoísta, numa confirmação do ditado que diz que opostos se atraem. Em seguida, embaralhou, a exemplo de Nietzsche, os juízos de valor contidos nessas duas categorias: “O egoísta não tolera frustrações, é mais estourado e procura sempre arrumar um jeito de levar vantagem, porque a vida dura não é parte de seu psiquismo. O generoso, por sua vez, não consegue dizer ?não? quando solicitado porque não sabe lidar com a culpa, sentindo-se envaidecido e superior por conseguir dar mais do que recebe”.

Para superar essa armadilha em que “um reforça a pior parte da alma do outro”, diz Gikovate, é preciso ir além da generosidade. É a atitude do “justo”, cuja característica é dar e receber de maneira equilibrada. Ocupar-se de seus interesses sem se descuidar do outro. Ser compreensivo, sem passar a mão na cabeça de quem erra. Uma sutileza descrita na máxima de Nelson Rodrigues: “Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe”.

Diante dos dilemas do amor moderno, em vez da ideia ultrapassada das “caras-metades”, Gikovate prefere a de “almas gêmeas”. Gêmeas bivitelinas, bem entendido. “Se tiver que optar entre o amor e a individualidade, fico com a individualidade.” Para esse entusiasmado defensor da independência entre os casais, no século 21, estar inteiro e feliz é uma condição anterior ao encontro amoroso. E uma onda passou sobre o verso da canção Wave, de Tom Jobim, que dizia “é impossível ser feliz sozinho”.

Gikovate também discorda do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor de Amor Líquido (Jorge Zahar, 2004), um pessimista para quem os relacionamentos atuais são marcados pelo consumismo e os casais estabelecem laços frouxos para que possam ser desatados a qualquer momento. “Os laços têm se dissolvido porque sempre foram de qualidade duvidosa”, rebate o brasileiro.

“Vivemos uma crise de transição do amor romântico do século 19 para o de individualidades que se completam.” Percurso que, conta Gikovate, ele próprio fez em sua vida pessoal. “Quando me casei pela primeira vez, aos 21, estava no quarto ano da faculdade e não tinha o menor conhecimento sobre os problemas de casais com temperamento e caráter diferentes.” Com Ceci, sua atual mulher, compartilha afinidades há exatos 33 anos. “Somos extremamente íntimos e, ao mesmo tempo, respeitosos. Tentamos ser justos, o que não é nada fácil”, admite o mais pop dos psi brasileiros. “Ela é minha terapeuta particular.”

PRAGMATISMO

“Nunca aderi a nenhuma doutrina. Para mim, se macumba ajudar o paciente, vale”

ESCUTA ANALÍTICA

Lançou no País o termo ‘ficar’, que ouviu de um jovem em seu consultório

VELHOS VÍNCULOS

“Os casais em geral são formados por um generoso e um egoísta. Um reforça o pior do outro”

06/04/2009 - 15:28h Música vira receita médica contra doenças

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Por MATTHEW GUREWITSCH – The New York Times – Folha SP

O fato de que a música nos toca no próprio cerne de nosso ser é uma descoberta tão antiga quanto a consciência humana. Mas será que a música pode ser considerada medicamento?
Uma especialista que aposta nisso é Vera Brandes, diretora do programa de pesquisas com música e medicina da Universidade Médica Privada Paracelsus, em Salzburgo, Áustria.
“Sou a primeira farmacologista musical”, disse Brandes no ano passado em Viena. Como tal, ela vem desenvolvendo medicamentos na forma de música, prescritos como receita médica. Para promover a linha de produtos, ela ajudou a fundar a Sanoson (www.sanoson.at), empresa que também cria sistemas de música sob medida para hospitais e clínicas.
“Estamos preparando o lançamento de nossas terapias na Alemanha e na Áustria no final de 2009 e prevemos o lançamento nos EUA em 2010”, disse.
O tratamento funciona assim: uma vez dado o diagnóstico médico, o paciente é enviado para casa com um protocolo musical para ouvir e músicas carregadas num tocador semelhante ao iPod. O timing é essencial. “Se você ouvir música para acalmar quando estiver num ponto ascendente de seu ciclo circadiano, isso não o acalmará”, explicou Brandes. “Pode até deixá-lo irritado.”
Brandes e seus colaboradores analisam músicas de todo tipo para retirar seus “ingredientes ativos”, que então são misturados e balanceados para formar compostos medicinais. Embora eles não procurem tratar patologias graves ou doenças infecciosas, afirmam que seus métodos têm aplicações amplas em desordens psicossomáticas, administração de dor e o que Brandes descreve como “doenças da civilização”: ansiedade, depressão, insônia e determinados tipos de arritmia. A farmacopeia contém até agora cerca de 55 faixas de música medicinal, e novas faixas estão sendo planejadas.
Num estudo piloto, que em 2008 foi citado na reunião científica anual da Sociedade Psicossomática Americana, Brandes e seus colaboradores estudaram os efeitos da música sobre pacientes com hipertensão sem causas orgânicas. “O tratamento convencional para pacientes hipertensos é com betabloqueadores, que suprimem seus sintomas”, disse Brandes. “A música pode tratar as causas psicossomáticas originais.”
Segundo seu estudo, depois de ouvir um programa musical criado especialmente para o paciente, por 30 minutos por dia, cinco dias por semana, durante quatro semanas, os pacientes apresentaram melhoras significativas na variação do ritmo cardíaco, um indicador importante da função nervosa autônoma.
Brandes, 52, já foi produtora de eventos e gravações musicais e tem um vasto currículo na área. Mas um acidente de carro quase fatal em 1995 a levou a pensar numa mudança de carreira.
“Quebrei as vértebras 11 e 12, passando a um milímetro da medula espinhal”, ela contou. “O médico disse: ‘Não vou poder fazer nada por você durante algum tempo, mas você pode cantar, se quiser’.” A equipe médica previa que Brandes teria que ficar imobilizada entre 10 e 14 semanas.
Ela estava dividindo o quarto do hospital com uma budista, cujos amigos vinham diariamente entoar cânticos para ela. Após apenas 15 dias no hospital, uma ressonância magnética mostrou que sua espinha estava curada. “Todo o mundo disse que era um milagre”, contou Brandes. “Os médicos me mandaram para casa. Aquilo me fez refletir.”
Brandes, que não tem diploma de estudos avançados em medicina ou ciência, sabia que suas teorias jamais ganhariam aceitação se não passassem por testes clínicos. “Desde o início, eu estava determinada a satisfazer os mais exigentes critérios científicos ocidentais”, disse.
Além dos esforços de Brandes, a Sourcetone Interactive Radio, que se descreve como “o maior serviço mundial de saúde com música”, emprega pesquisas feitas conjuntamente pelo Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston, e a Escola de Medicina Harvard, onde o neurologista Gottfried Schlaug estuda os efeitos da atividade musical sobre a função e a plasticidade cerebrais. “Acho que é importante participar, fazendo música, não apenas ouvir”, disse Schlaug.
Stefan Koelsch, pesquisador-sênior sobre o neurorreconhecimento da música e da linguagem na Universidade de Sussex, em Brighton, Reino Unido, concorda e está trabalhando com tratamentos musicais participativos para a depressão. No longo prazo, ele enxerga possibilidades mais amplas.
“Fisiologicamente falando, é perfeitamente plausível que a música afete não apenas as condições psiquiátricas, mas também as desordens endócrinas, autoimunes e do sistema autônomo”, disse ele.
Vera Brandes também está pensando no futuro. “Digamos que um paciente chegue sofrendo de depressão”, disse ela. “O primeiro passo sempre é procurar um médico. Mas, a partir disso, haverá opções de tratamento: com psicólogo, antidepressivo ou música.”

04/04/2009 - 16:31h Santo remédio à base de sustenidos e de bemóis

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Pesquisas, teorias e livros que defendem os fins terapêuticos de certos ritmos

Sérgio Augusto – O Estado SP

Ruim da cabeça? Angústia? Depressão? Estresse? Hipertensão? Tiques nervosos?

O divã pode ser uma solução; Prozac, Zoloft, Lexotan, Rivotril, betabloqueadores também; mas o único tratamento sem contraindicação para todos esses e outros males é a música. Seus efeitos colaterais praticamente inexistem, embora crianças assustadiças não devam ser submetidas às cortantes violinadas que Bernard Herrmann compôs para o assassinato de Janet Leigh em Psicose, sob pena de perderem o sono ou, pior ainda, sofrerem um ataque de “epilepsia musicogênica” semelhante ao que vitimou um crítico musical do século 19, chamado Nikonov, em quem a ópera O Profeta, de Meyerbeer, sempre provocava convulsões. Mas patologias como a de Nikonov são raríssimas.

Música é uma bênção para o corpo e o espírito. Pura superstição aquela história de que Tristão e Isolda poderia enlouquecer seus ouvintes mais delicados. Por ir fundo às mais recônditas regiões da psique, ativando quase todo o cérebro humano, dos centros nervosos sensitivos ao córtex pré-frontal, cerebelo, hipocampo e córtex motor, a música mexe com as atividades racionais, as emoções, a memória e os movimentos do corpo humano. Indutora de dopamina, serotonina e adrenalina, ela emociona, acalma, relaxa, enleva, consola, inspira, levanta o ânimo e excita (”Ouvimos música com os nossos músculos”, apregoava Nietzsche). Já se desconfiava disso desde, pelo menos, Platão.

A musicofilia é inata no ser humano. A fala, aliás, teria derivado, segundo Darwin, da música primal que nossos ancestrais semi-humanos usavam para atrair um parceiro. Os hominídeos paleolíticos já cantavam, comprovou Steven J. Mithen em seu estudo sobre a origem da música, da linguagem, da mente e do corpo, The Singing Neanderthals (Harvard University Press), publicado em 2005.

Assim como a inteligência nada tem a ver com a sensibilidade musical (do contrário, Nabokov e João Cabral de Melo Neto, dois notórios ouvidos de chumbo, não teriam feito o que fizeram), a burrice nunca foi empecilho para o desenvolvimento de algum tipo de musicalidade, ativa e passiva. Oliver Sacks refere-se a um retardado mental que sabia de cor duas mil óperas, era um “dicionário de música ambulante” e assim foi definido num capítulo de O Homem Que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, reaparecendo, com maior destaque, no recente Alucinações Musicais – Relatos sobre a Música e o Cérebro, também traduzido pela Cia. das Letras.

Muito se progrediu desde as especulações de William James sobre a nossa “suscetibilidade à música” (e suas propriedades sedativas, consolativas e emocionais) e o hype em torno do Efeito Mozart (as crianças ficariam mais inteligentes, as galinhas poriam mais ovos e as vacas dariam mais leite se expostas a longas audições de sinfonias e concertos do Wolfgang Amadeus). Sobretudo no campo científico, graças à dobradinha neurociência-informática, que tornou possível estudar e monitorar a complexa orquestração dos milhões de neurônios que compõem o cérebro.

Datam de meados dos anos 1960 as primeiras observações de Sacks sobre os efeitos da música em pacientes com doença de Parkinson. O estudo pioneiro de Macdonald Critchley e R.A. Henson sobre as relações da música com o cérebro, Music and the Brain, foi publicado em 1977. Mas as pesquisas nesse campo atingiram novo patamar na Universidade Médica Paracelsus de Salzburgo, na Áustria, onde a dra. Vera Brandes implantou um programa de pesquisas sobre música e medicina. Com ela, a musicoterapia ganhou (ou está prestes a ganhar) uma farmacologia.

Nada em frascos, bem entendido. Nem comprimidos, nem cápsulas, nem gotas, nem injeções de Beethoven (ou de Mantovani), nem emulsões de Scott Joplin ou soros hardrock punk estão previstos. Florais de Bach? Já bastam os que o dr. Edward Bach legou à homeopatia. O que de benéfico Johann Sebastian nos tem a oferecer está em suas fugas – e, a exemplo dos benefícios à saúde proporcionados por outros músicos e compositores, contido num artefato de armazenamento digital de áudio. É “remédio” de aplicação exclusivamente auricular, capaz de fazer nosso cérebro zunir com intensa atividade neural.

“Ouvir música de qualidade e frequentar concertos com certa regularidade rejuvenesce as pessoas”, promete o dr. Michael F. Roizen, do Wellness Institute da Clínica de Cleveland, que admira e acompanha o trabalho da dra. Brandes. “Música de qualidade alivia o estresse, retarda o envelhecimento das artérias e ajuda a enfrentar fatores ambientes adversos e cancerígenos, benefícios que assistir a competições esportivas, por exemplo, não oferece”, assegurou ele no congresso Mozart & Ciência, realizado em Viena, em novembro passado.

Até pode ser, mas o conceito de “música de qualidade” é relativo. O produtor de discos e neurocientista Daniel J. Levitin, autor de um livro excelente e delicioso de ler sobre o funcionamento do cérebro sob o efeito de sons harmoniosos e dissonantes, This Is Your Brain on Music (Palmer, 2006), tem uma visão bem mais eclética da sedução e da eficácia terapêutica da música. Suas análises não se limitam aos clássicos; cobrem também o jazz, o pop e o rock; de Abdul (Paula) a Zeppelin (Led). A música que me encanta e constaria da minha receita pode não ser a mesma de que o prezado (& angustiado & deprimido & estressado) leitor prefere e talvez precise aplicar em sua complexa máquina cognitiva.

Os mais estranhos sortilégios da música estão registrados em toda parte. Em seu último livro, Oliver Sacks registra dois casos extremos de musicofilia: o de um ortopedista que aprendeu música depois de atingido por um raio e o de um musicólogo inglês que teve toda a memória apagada, menos a musical. Tony Cicoria, o ortopedista atingido por um raio, saiu do choque com uma vontade louca de ouvir piano, especialmente Chopin, e em questão de meses, partindo do zero, transformou-se num pianista. Clive Wearing, o musicólogo que uma infecção meningocócica condenou à amnésia, não se lembra de nada, só das músicas que ouviu desde a infância. O próprio Sacks recuperou-se das dores num joelho avariado nas montanhas norueguesas ouvindo repetidas vezes o Concerto para Violino, de Mendelssohn.

A dra. Vera Brandes, ex-produtora de shows e concertos, responsável pelos célebres improvisos ao piano de Keith Jarrett em Colônia, em 1975, descobriu sua vocação para farmacologista musical (”a primeira do ramo”, vangloria-se) quando se recuperava de um acidente de carro. Dividia o quarto do hospital com um budista, cujos parentes e amigos já entravam no recinto cantando e dançando. Vera sarou em duas semanas. A previsão era de meses.

“Só pode ter sido efeito da música”, matutou. E começou a desenvolver “medicações” em forma de música, pesquisando, misturando e balanceando temas, ritmos, timbres e sonoridades, em “compostos medicinais”. Primeira cobaia: sua mãe, vítima de câncer. Não a curou, claro, pois o poder de toda a escala musical não chega a tanto, mas ela durou muito mais tempo do que o previsto pelos médicos.

Para comercializar sua teoria, a dra. Brandes criou uma empresa, Sonoson, especializada em montar sistemas musicais personalizados para clínicas, que chegarão aos mercados alemão e austríaco no segundo semestre deste ano e ao americano, em 2010. Funciona assim: o paciente, depois de diagnosticado por seu médico, recebe uma espécie de iPod abarrotado de músicas, testadas em laboratório e com estímulos específicos, mais um fone de ouvido e um medidor de pulso para registrar batimentos cardíacos e outros índices fisiológicos. Parece musak de manipulação, homeopatia sonora, e é inútil, alerta a doutora, no combate a patologias complicadas e doenças infecciosas, mas tiro e queda para desordens psicossomáticas e o que ela qualifica de “doenças da civilização”: ansiedade, depressão, insônia e certos tipos de arritmia.

Experiência similar ocorreu ao psicólogo americano Jeff Berger, que, a partir de dados sobre as influências da atividade musical no cérebro, fornecidos pelo dr. Gottfried Schlaug, neurologista da Escola de Medicina de Harvard, criou na internet uma emissora de rádio alternativa (sourcetone.com), “o primeiro serviço de saúde musical do mundo”. Seu objetivo é promover o relaxamento, aumentar o vigor, estimular a criatividade e restaurar a felicidade dos ouvintes. Não tive tempo suficiente para testar sua eficácia. Cliquei a opção calmo/tranquilo, e na caixa de som do meu computador entrou Sade (Bullet Proof Soul), a seleção Rhythm & Blues, e , depois, Debussy (a seleção clássicos do século 20) e Joni Mitchell (jazz vocal). Não fiquei mais relaxado, nem mais criativo (de que este texto é uma prova cabal), mas meus tímpanos não se sentiram agredidos, um consolo.

Tentarei mais uma vez. Já me darei por satisfeito se diminuir a insônia.