11/06/2009 - 13:51h A atual política anticrise do governo Lula está dando certo e a recessão começa a passar


A recessão começa a passar no mundo

Alberto Tamer* – O Estado SP

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Já existe um consenso entre os economistas e instituições internacionais: a recessão deve terminar neste ano e a recuperação se iniciará em 2010. Mas será uma recuperação lenta e desigual, maior nos EUA e nos países emergentes e irrisória na Europa. Até mesmo um economista sempre severo em suas análises, como Paul Krugman, afirmou nesta semana que a recessão nos EUA deve terminar no segundo semestre. O crescimento do PIB deve fechar o ano em torno de 0%. Pouco interessa se for um pouco mais ou menos, o importante são os sinais de que a economia americana e grande parte da mundial deixou de afundar.Não se devem repetir PIBs de 6%. A confirmar-se isso, teremos passado por uma recessão profunda, mas curta. Ou, podemos dizer, uma recessão grande, mas não uma grande recessão.

BRASIL NA LINHA DE FRENTE

brasil_olho.jpgO resultado menos negativo do PIB no primeiro trimestre mostra que isso é ainda mais válido no Brasil. Previa-se uma retração de até 2% e foi de 0,8%. Tendo em vista a queda de 3,6% no último trimestre de 2008, é difícil ver algum crescimento significativo nos próximos meses, mas está claro que estamos saindo da recessão. Insisto, porém, em reafirmar que não há muita diferença entre recuar 1% ou crescer 1%; ambos resultados significam uma economia frágil,ainda exposta a crises externas, o que exige do governo intensificar a atual política anticrise, que está dando certo. É a ela que devemos esse desempenho menos negativo do PIB e à perspectiva de que estamos em condições de superar tudo ainda neste ano.

Vejam, somente as medidas de estímulo ao consumo estão injetando na economia cerca de R$ 100 bilhões neste ano. E, mais acertadamente ainda, o governo anuncia que estuda redução do imposto sobre salários para aumentar o poder de compra do consumidor.

NEM TUDO É MENOS MAU

minhacasa1.jpgO resultado do IBGE apresenta pontos altamente negativos, como a queda de 12,6% nos investimentos, a forte e resistente retração da produção industrial e o recuo das exportações. Isso certamente vai afetar o crescimento nos próximos meses.

Cabe ao governo insistir em três pontos básicos: intensificar as medidas de incentivo ao consumo, pôr em pratica uma política de comércio exterior por meio de impostos sobre a produção e incentivos diretos às exportações; e, finalmente, continuar estimulando o setor de construção civil, grande gerador de demanda de emprego. Cumpre, assim, a meta social, de oferecer casa à população, e econômica, de reativar o crescimento. Felizmente, já vem fazendo uma boa parte disso.

DÁ PARA CONFIAR NELES?

dinheirocorrendo.gifMas, de qualquer forma, continuamos na dependência do que vier a acontecer lá fora. Será que as economias desenvolvidas e outras emergentes, que representam a maior parte do PIB mundial, não vão desandar novamente, impedindo que voltemos a crescer?

Pode ser, mas, pelo menos no momento não parece muito provável, principalmente em países que têm hoje um papel decisivo na recuperação mundial, como os EUA e a China.

E o que estamos vendo? Nos EUA, dez grandes bancos devolveram ao Tesouro US$ 68 bilhões recebidos em momento de extrema urgência. E insinuam que é só o começo. Levantaram recursos no mercado, até mesmo vendendo ativos, para livrar-se da fiscalização direta e da intervenção do governo em suas atividades e decisões. Mas o Tesouro mostrou que continua vigilante: só aceitou o pagamento depois de analisar as contas e ver se não iria enfraquecê-los, expondo-os a novos problemas. Não quer que comece tudo de novo… Assim, até ontem recusavam receber devoluções de grandes bancos. Entre estes, o Citi e o Bank of American, que pretendia repagar US$ 90 bilhões. O fato de o sistema financeiro começar a buscar soluções de mercado é um indício de mudança em relação ao pânico de há alguns meses.

OBAMA CAUTELOSO

obama_caricatura.gifO presidente americano, a cuja política anticrise devemos tudo isso, mostrou-se cauteloso diante desses fatos. “Não é sinal de que nossos problemas passaram. Muito longe disso. A crise que esta administração herdou ainda está criando efeitos dolorosos nas empresas e nas famílias. Mas é um sinal positivo.”

Foi esse também o tom do seu secretário do Tesouro, para quem há ainda um longo e difícil caminho pela frente. Haverá avanços e recuos, mas o caminho de saída está sendo aberto.

VEJAM OS NÚMEROS!

A coluna concorda, e aproveita para responder a leitores que nos criticam por estarmos sendo otimistas demais. Não. Estamos apenas confrontando situações de há algumas semanas com a atual e registrando os sinais não para o futuro distante, mas para os próximos meses, a curto prazo. Para mim, isso é realismo, é não se deixar impressionar e influenciar por fatores altamente negativos do passado, desde que eles não estejam se repetindo no presente. Bastam duas estatística do IBGE: o PIB do último trimestre de 2008 despencou catastróficos 3,6% e no primeiro trimestre deste ano apenas 0,8%. Será que isso não significa nada? Não é sinal de recuperação? Não há como negar.

No cenário externo, a economia americana recua menos e a da China – o grande mercado – não deverá crescer neste ano apenas 5%, como o governo previa, mas 7,5%, pela estimativa oficial divulgada ontem. Estão injetando trilhões na economia. Ambos são nossos mercados preferenciais e projetam um cenário de relativa esperança.

Só resta a Europa, o “Continente Perdido”, onde o BC recusa-se a baixar o juro mesmo com inflação 0. Mas isso não afetará nosso crescimento. Ele vai depender ainda por algum tempo do mercado interno, que hoje representa 60% do PIB. Ele vai bem. E o governo tem ainda espaço para continuar intensificando a política anticíclica de incentivo ao consumo.

*E-mail: at@attglobal.net

10/05/2009 - 11:08h Brasil, caso único. Mais crédito mesmo em recessão

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Alberto Tamer* – O Estado SP

 


Tudo indica que já estamos tecnicamente em recessão, pois se espera mais um Produto Interno Bruto (PIB) negativo. Espera-se mais um PIB negativo no primeiro trimestre, após uma queda brusca de 3,6% nos últimos três meses do ano passado. Apesar disso, a confiança externa no Brasil continua em alta porque os fundamentos da economia são positivos. Entre janeiro e quarta-feira, o Tesouro captou US$ 1,77 bilhão.

O último lançamento de títulos era de US$ 500 milhões, mas a demanda foi bem maior, chegando a US$ 750 milhões. Tudo vencendo em 2019 e a taxa de juros declinante, o que é um forte indício de confiança. O primeiro lançamento em janeiro foi com juro de 6,1% e o desta semana 5,80%. Outros países, como a Colômbia, pagaram 7,3%.

E, atentem, isso em meio a um mercado financeiro ainda tenso, dominado por medo, cautela e incerteza.

Nesta semana, houve um pouco de alívio com o resultado do teste de estresse feito nos 19 maiores bancos, revelando uma situação menos grave do que o esperado.

O Tesouro afirma que esses bancos americanos precisam de cerca de US$ 75 bilhões do setor privado ou serão socorridos pelo governo. O Tesouro e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) afirmaram na sexta-feira que há recursos para atender imediatamente a todos, afastando, assim, o fantasma de um novo Lehman Brothers.

ELES ESTÃO VOLTANDO

Um bom sinal foi que logo após o anúncio do resultado do teste, dois bancos, o Morgan Stanley e o Wells Fargo, conseguiram levantar em apenas um dia, na sexta-feira, US$ 11,5 bilhões no setor privado. Para Wall Street, há sinais de que os investidores estão voltando ao mercado. “Não é o fundo do poço, mas o apetite dos investidores por ações e títulos é espantoso”, afirmou Michael Halaby do BNP Paribas, em Nova York ao Financial Times.

SAÍMOS NA FRENTE

Mas o Brasil saiu na frente. Antes mesmo do resultado do teste, o Tesouro nacional voltou ao mercado externo, em janeiro, e captou US$ 1,025 bilhão com prazo de vencimento em 2019 a juros declinantes. O mesmo foi feito pelo setor privado.

Nos últimos dias, corria no mercado financeiro que a agência Moody’s estaria estudando a elevação do grau de investimento do Brasil, o que poderia ocorrer muito em breve.

O Tesouro já anunciou que tem a maior parte dos dólares necessários para pagar o vencimento da dívida externa neste ano. Deve continuar aproveitando a excepcional imagem do Brasil no exterior para reforçar as reservas cambiais que praticamente continuam intactas. Nós continuamos a caminhar bem enquanto os outros tropeçam e até ameaçam cair.

VAMOS CONTINUAR ASSIM?

Depende. No momento, estão entrando tantos dólares que até incomoda… Esse cenário poderá manter-se se não houver nenhuma outra catástrofe no mercado financeiro internacional. Poucos esperam que isso ocorra, mas a maioria não descarta essa hipótese.

PERDA DE US$ 590 BILHÕES!

Ao mesmo tempo, o Fed informou na sexta-feira que os 19 grandes bancos submetidos ao teste podem sofrer perdas de US$ 599 bilhões até o fim do próximo ano. Esse é um quadro que não inspira muita confiança, mesmo com o governo declarando-se disposto a socorrer aos que precisarem.

PODE PIORAR

E é exatamente por isso que o Tesouro está aproveitando o bom momento para o Brasil.Quer captar tudo o que for preciso ainda este ano, prevenindo-se contra um eventual agravamento da crise financeira.

Afinal, não se sabe bem qual é o valor dos chamados títulos tóxicos. O Fundo Monetário Internacional estima que sejam US$ 2,8 trilhões só nos EUA. Ampliando-se para o mundo, o FMI chega a US$ 4 trilhões!

Muito ainda pode acontecer.

Certo, o Tesouro e os bancos centrais dos países mais envolvidos começam a enfrentar esse desafio com mais vigor, mas chegaram atrasados, principalmente, na União Europeia.

Tudo seria menos difícil se a economia desses países voltassem a crescer. Mas para isso é imprescindível resolver a crise no sistema financeiro que, associada à desconfiança e à redução do crédito, está provocando uma forte retração da demanda. Um grave efeito colateral é o aumento do desemprego que, nos EUA, chegou a 8,9%. No Brasil ele está em 8,5% sem dar sinais de se estabilizar.

ESTAMOS CERTOS

A coluna apresentou esse panorama para concluir que a equipe econômica está certa ao “entesourar” o que puder para se prevenir contra o pior, mesmo que essa possibilidade não seja imediata e até mesmo remota. Está certa também ao atacar desde o início as duas frentes, estímulo à demanda com a redução seletiva de impostos, ao mesmo tempo em que manejam a liquidez em um mercado financeiro felizmente sólido.

Devemos ter ainda pela frente tempestades e furacões que rugem lá fora, mas as barragens que estamos construindo para sermos menos afetados estão funcionando até agora.

Estou quase tentado a dizer que em meio a tanto infortúnio externo, somos até “felizes” e não sabíamos, mas não digo para não me chamarem de novo de otimista inconsequente.

Não sou não.Nem um pouco.Apenas um pessimista em fase de conversão.

*E-mail: at@attglobal.net

08/05/2009 - 11:09h Para os investidores o Brasil é um porto seguro

Tesouro capta mais US$ 750 mi no exterior

Oferta era de US$ 500 milhões, mas demanda foi maior

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Renata Veríssimo e Fabio Graner – O Estado SP

Aproveitando o maior apetite dos investidores internacionais pelo risco, o Tesouro Nacional realizou ontem mais uma emissão de títulos de dívida externa com vencimento em 2019. Foi a segunda venda desses papéis brasileiros no ano. A oferta inicial de títulos foi de US$ 500 milhões, mas, diante da demanda “muitas vezes” maior que a oferta, o Tesouro colocou no total US$ 750 milhões.

Além do volume acima do inicialmente projetado, o Tesouro vai pagar menos juros para os investidores que compraram os papéis. A taxa de retorno dos títulos ficou em 5,80% ao ano, ante 6,127% anuais da emissão realizada em janeiro. Naquele mês, o mercado teve um período de relativa euforia em decorrência da posse do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o Tesouro aproveitou a oportunidade para acessar o mercado externo, em uma operação que na ocasião foi considerada um sucesso pelo governo.

A venda de ontem teve um spread (diferença em relação ao papel americano de prazo semelhante) de 2,52 pontos porcentuais, ante 3,70 pontos porcentuais da emissão do mesmo título em janeiro. Essa diferença a menor, na avaliação do Tesouro, decorre da combinação de maior taxa dos títulos americanos com o menor juro pago pelo Brasil.

Segundo o Tesouro, o objetivo da reabertura do Global 2019 foi melhorar a estrutura da dívida externa, aproveitando as melhores condições do mercado. “A emissão teve caráter eminentemente qualitativo”, informou uma fonte. O Tesouro considera que um volume mínimo adequado para um papel ter liquidez no mercado é de US$ 2 bilhões. O Global 2019 conta, com a emissão de ontem, com um total de US$ 1,75 bilhão, o que indica que uma nova reabertura pode acontecer no futuro.

O Tesouro também divulgou que já tem a maior parte dos dólares necessários para o pagamento dos vencimentos da dívida externa este ano. Segundo o Plano Anual de Financiamento (PAF), o montante a vencer em 2009 é de R$ 16,1 bilhões.

O órgão destacou ainda que o Brasil tem conseguido colocar seus papéis no mercado com custo menor do que o de outros países emergentes.

Lembrou que a Colômbia emitiu US$ 1 bilhão em abril em papéis de 10 anos com a taxa de retorno (Yield) de 7,375% ao ano. Segundo outra fonte, os fundamentos econômicos do País deram flexibilidade para que o governo acesse o mercado somente nos melhores momentos, sem ter de captar recursos a qualquer custo.

O Tesouro anunciou ainda a possibilidade de emitir adicionalmente até US$ 37,5 milhões do Global 2019 no mercado asiático. Essa decisão seria tomada na noite de ontem e anunciada hoje.

NÚMEROS

US$ 500 milhões foi a oferta inicial de títulos da dívida pública externa feita pelo Tesouro Nacional para captação no mercado externo.

US$ 750 milhões foi quanto o Tesouro acabou emitindo, em razão da grande demanda.

5,8% é a taxa de juros que será paga pelo Brasil no vencimento dos títulos, em 2019

6,127% é a taxa de retorno da operação anterior

08/05/2009 - 08:34h Poupança com saldo maior pagará IR. Para 95% dos poupadores nada mudara

http://www.terra.com.br/istoedinheiro/409/fotos/poupanca.jpgPara evitar custo político, Lula quer excluir mais de 95% dos poupadores da mudança da regra causada pela queda nos juros

Para estimular investidor a permanecer nos fundos de investimento, governo prepara medidas para desonerar o setor

KENNEDY ALENCAR – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Com receio do desgaste político, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu anteontem em reunião com a equipe econômica que a maioria dos aplicadores não será atingida pelas mudanças de regras de remuneração que irão fazer a caderneta de poupança render menos.
Segundo a Folha apurou, o governo vai cobrar IR (Imposto de Renda) sobre os rendimentos a partir de um patamar alto de aplicação -o que deixaria, nas palavras de um ministro, “mais de 95%” dos aplicadores com as atuais regras de ganho. Lula pediu que a equipe econômica elaborasse uma proposta para desonerar os atuais fundos de investimento, medida que deverá ser finalizada até a semana que vem.
Dessa forma, Lula estimularia grandes aplicadores a optarem pelos fundos, que recuperariam atrativos apesar da queda da taxa básica de juros, a Selic, que reduz os ganhos dessas aplicações.
Um auxiliar direto de Lula disse à Folha que o temor de dar uma bandeira à oposição na reta final do governo e nas eleições de 2010 levou o presidente a optar por não alterar as regras da poupança para os pequenos e médios aplicadores, a imensa maioria na poupança.
PSDB, DEM e PPS, partidos de oposição, têm criticado a possibilidade de mudança na poupança desde que o governo anunciou que cogitava tal medida após a queda dos juros. Com a redução de 3,5 pontos da Selic desde setembro, os fundos de investimento, que aplicam recursos nos títulos do Tesouro e financiam a dívida pública, perderiam atratividade na comparação com a poupança, que não paga IR e tem remuneração garantida de 6% ao ano mais a variação da TR (Taxa Referencial).
Números do Banco Central mostram que, em dezembro, 80,580 milhões de clientes (89,55% do total) tinham contas com saldo até R$ 5.000,00. Outros 6,578 milhões de contas (7,3% do total) eram de clientes com saldo de R$ 5.000,01 a R$ 20 mil. Menos de 4% dos poupadores possuíam contas acima de R$ 20.000.
Lula fez reuniões com a equipe econômica sob forte contrariedade. Alegava que Fazenda e BC foram imprevidentes ao não alterar com antecedência regras da caderneta e que tomar uma medida impopular na véspera de ano eleitoral seria suicídio político. A decisão de Lula de não mudar as regras para a grande maioria busca minimizar o desgaste político.
As alternativas, avaliou, dariam munição à oposição para falar que o governo “tungou” os pequenos poupadores. O PPS chegou a fazer propaganda na TV comparando a mudança de regras na poupança com o traumático bloqueio de contas do governo Collor, em 1990.
A não alteração das regras para a grande maioria dos aplicadores deverá ser anunciada em breve. Também pesou na decisão de Lula a avaliação de que o espaço para a queda dos juros não será tão grande e permitiria a manutenção do atual formato até o início do próximo governo. A Selic está em 10,25% ao ano, e o mercado prevê 9,25% até dezembro.
Além de tributar parte dos poupadores, Lula recebeu outras propostas da área econômica, que preferia simplesmente acabar com os juros fixos de 6% ao ano. Uma das ideias era vincular o ganho da poupança a um percentual da Selic. Também se cogitaram rendimentos diferenciados de acordo com o saldo ou mudança no cálculo da TR.
Na fórmula decidida por Lula, os grandes aplicadores da caderneta de poupança terão de pagar IR sobre os rendimentos ao fazer a declaração anual. Diante dessa possibilidade, o governo avalia que esses poupadores preferirão aplicar seus recursos nos fundos de investimento. A intenção de desonerar esses fundos seria uma forma de torná-los mais atraentes.
Os fundos de renda fixa são tributados com IR e IOF (Imposto sobre Operação Financeira). O IOF tem uma tabela regressiva. A partir de 30 dias de aplicação, há isenção desse imposto. Já o IR na renda fixa tem uma regressão mais longa.
Até 180 dias, os ganhos nos fundos de renda fixa são taxados em 22,5% de IR. Entre 181 dias e 360, essa cobrança cai para 20%. No intervalo de 361 a 720 dias, há nova queda (17,5%). E acima de 720 dias de aplicação são cobrados 15% de IR. A tributação é feita em maio, outubro ou na data do resgate.
Nos fundos de renda variável, não há cobrança de IOF, mas são pagos 15% de IR no resgate da aplicação.

14/04/2009 - 14:43h EUA podem sair da recessão neste ano, afirma Krugman


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Cenário, contudo, ainda será de baixa atividade econômica; alta do desemprego se estenderá também por 2010, diz economista

Hipótese de crise piorar não é descartada pelo vencedor do Nobel de Economia, para quem estatizar bancos pode ser saída inevitável nos EUA

FERNANDO CANZIAN – Folha SP

DE NOVA YORK

Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia em 2008 por ter analisado com precisão os riscos de o mundo chegar à atual crise, afirmou ontem que os EUA podem sair da recessão ainda neste ano.

Mas, segundo ele, “isso não quer dizer muita coisa”, já que o desemprego no país deve continuar crescendo em 2010 dentro de um cenário de baixíssima atividade econômica.

“Nós devemos desculpas aos japoneses por termos criticado, no início dos anos 1990, a lentidão com que agiram na recuperação do sistema bancário. A década [de 1990] perdida no Japão até que parece um bom negócio vista de onde estamos agora”, disse Krugman em entrevista à imprensa estrangeira em Nova York.
Krugman lembrou que não existe método específico para definir uma recessão nos EUA. Isso se dá, normalmente, quando todos os indicadores econômicos apontam para baixo.

“Em 2001, quando a recessão terminou oficialmente, o desemprego seguiu aumentando por mais um ano e meio”, disse. Ele prevê que isso volte a ocorrer novamente na atual crise.

O economista frisou que a recuperação a partir de 2002 foi justamente impulsionada pela farra na concessão de crédito, que armou o cenário para a atual crise. “A “bolha” de crédito foi a salvação para aquela recessão. Agora, estamos muito pior do que estávamos lá atrás.”

Krugman diz não existir o risco de “depressão” econômica, mas não afasta a hipótese de uma nova e surpreendente piora da crise. “Não sabemos o que pode vir pela frente. Se um país de porte médio estoura, ou se o mercado de imóveis comerciais cair muito mais, o quadro pode piorar rapidamente.”

Doutor em economia pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology) e colunista do “New York Times”, Krugman comparou os últimos oito meses ao período 1930-31, no início da Grande Depressão.

“A diferença com o que ocorreu no passado é que, a partir de 1931, o sistema bancário norte-americano entrou em verdadeiro colapso. Até aqui, estamos tentando preservar o conjunto dos bancos”, disse.

Krugman afirmou, no entanto, não acreditar que o atual plano do Departamento do Tesouro para livrar os bancos dos chamados “ativos tóxicos”, que vêm entupindo o sistema de crédito nos EUA, venha a dar os resultados esperados e diz esperar que o Tesouro norte-americano terá de estatizar parte do sistema bancário.

28/03/2009 - 14:25h A mística do mercado

ARTIGO

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” - FOLHA SP

NA SEGUNDA-FEIRA, Lawrence Summers, o chefe do Conselho Econômico Nacional, respondeu às críticas ao plano do governo Obama para subsidiar a compra privada de ativos tóxicos. “Não conheço nenhum economista que não acredite que mercados de capitais funcionando melhor, nos quais os ativos possam ser negociados, não sejam uma boa ideia.”
Deixe de lado por um momento a questão de se um mercado em que os compradores têm de ser subornados para participar pode realmente ser descrito como “funcionando melhor”. Mesmo assim, Summers precisa sair mais. Alguns economistas reconsideraram sua opinião favorável sobre os mercados de capitais e a negociação de ativos à luz da crise atual.
Mas ficou cada vez mais claro nos últimos dias que autoridades graduadas do governo Obama ainda estão presas à mística do mercado. Elas ainda acreditam na magia do mercado financeiro e na proeza dos magos que a executam.
A mística do mercado nem sempre dirigiu a política financeira. A América saiu da Grande Depressão com um sistema bancário rigidamente regulamentado, que fez das finanças um negócio sóbrio e até aborrecido. Os bancos atraíam os depositantes fornecendo localizações convenientes de agências e talvez uma ou duas torradeiras de brinde; usavam o dinheiro assim captado para fazer empréstimos, e era isso.
E o sistema financeiro não era apenas aborrecido. Também era, pelos padrões de hoje, pequeno. Mesmo durante os “anos go-go”, o mercado altista da década de 1960, finanças e seguros juntos representavam menos de 4% do PIB. A relativa desimportância das finanças se refletia na lista de ações que formavam a Média Industrial Dow Jones, que até 1982 não continha uma única companhia financeira.
Tudo parece primitivo pelos padrões de hoje. Mas aquele sistema financeiro aborrecido e primitivo serviu a uma economia que duplicou os índices de padrão de vida no período de uma geração.
Depois de 1980, é claro, surgiu um sistema financeiro muito diferente. Na era Reagan, de mentalidade desregulamentadora, a banca à moda antiga foi cada vez mais substituída pela especulação em grande escala.
O novo sistema era muito maior que o antigo regime: à véspera da crise atual, finanças e seguros representavam 8% do PIB, mais que o dobro de sua participação nos anos 60. No início do ano passado, o Dow Jones incluía cinco companhias financeiras -entre elas gigantes como AIG, Citigroup e Bank of America.
E as finanças tornaram-se nada aborrecidas. Atraíram muitas de nossas mentes mais agudas e fizeram algumas pessoas imensamente ricas. Sob o novo mundo glamouroso das finanças estava o processo de securitização. Os empréstimos não ficavam mais com o credor. Em vez disso, eram vendidos para outros, que cortavam em fatias, picavam e faziam purê das dívidas individuais para sintetizar novos ativos. Hipotecas “subprime”, dívidas de cartão de crédito, empréstimos para carros -tudo entrava na processadora do sistema financeiro.
Do outro lado, supostamente, saíam doces investimentos AAA. E os magos financeiros foram generosamente recompensados pela condução desse processo.

Eram fraudes
Mas os magos eram fraudes, quer eles soubessem disso quer não, e sua magia veio a ser nada mais que uma coleção de truques baratos. Acima de tudo, a promessa chave da securitização -que tornaria o sistema financeiro mais robusto ao espalhar mais os riscos- veio a ser uma mentira. Os bancos usaram a securitização para aumentar seu risco, e não para reduzi-lo. Nesse processo tornaram a economia mais, e não menos, vulnerável aos distúrbios financeiros.
Mais cedo ou mais tarde as coisas tinham de dar errado, e acabaram dando. O Bear Stearns faliu; o Lehman faliu; mas principalmente a securitização faliu. O que nos traz de volta à abordagem do governo Obama para a crise financeira.
Grande parte da discussão sobre o plano de ativos tóxicos se concentrou nos detalhes e na aritmética, e com razão. Além disso, no entanto, o que é marcante é a visão manifestada tanto no conteúdo do plano financeiro como em declarações de autoridades do governo. Na essência, o governo parece acreditar que quando os investidores se acalmarem a securitização e os negócios financeiros poderão retomar de onde pararam um ou dois anos atrás.
Para ser justo, as autoridades estão pedindo mais regulamentação. Na verdade, na quinta-feira Tim Geithner, o secretário do Tesouro, explicou planos para aumentar a regulamentação que teriam sido considerados radicais pouco tempo atrás. Mas a visão subjacente permanece a de um sistema financeiro mais ou menos igual ao que havia dois anos atrás, embora um pouco mais controlado por novas regras. Como você pode adivinhar, eu não compartilho essa visão.
Não acho que isso seja apenas um pânico financeiro; eu acredito que representa o fracasso de todo um modelo de banca, de um setor financeiro que cresceu demais e causou mais dano que bem. Não acho que o governo Obama seja capaz de trazer a securitização de volta à vida, e não acredito que deva tentar isso.

PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do jornal “The New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

24/03/2009 - 10:36h Plano Geithner: Política financeira do desespero

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Paul Krugman, THE NEW YORK TIMES * – O Estado SP

No fim de semana, The Times e outros jornais noticiaram os detalhes, que haviam vazado, do plano de salvamento dos bancos elaborado pelo governo Obama. Se os artigos estiverem corretos, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, convenceu o presidente Barack Obama a reciclar a política do governo Bush – especificamente, o plano “cash for trash” (dinheiro por lixo) abandonado, há seis meses, pelo então secretário do Tesouro, Henry Paulson.

É mais do que uma decepção. Na realidade, isso me enche de desespero. Afinal, acabamos de passar pela tempestade provocada pelas bonificações pagas pela AIG aos seus executivos. Ao mesmo tempo, o governo não conseguiu dirimir as indagações a respeito do que os bancos estão fazendo com o dinheiro dos contribuintes.

E agora Obama aparentemente montou um plano financeiro que, em essência, pressupõe que os bancos são fundamentalmente sadios e que os banqueiros sabem o que estão fazendo. É como se o presidente estivesse determinado a confirmar a crescente percepção de que ele e sua equipe econômica não têm senso de realidade, que sua visão econômica está obnubilada por vínculos excessivamente estreitos com Wall Street. Quando Obama se der conta de que precisa mudar de curso, seu capital político talvez já tenha desaparecido.

Falemos um pouco da situação. Neste exato momento, nossa economia é arrastada para o buraco por um sistema financeiro deficiente, paralisado pelas enormes perdas dos títulos atrelados a hipotecas e outros ativos. Como os especialistas em História da economia poderão explicar, é uma situação que continua se repetindo, em nada diferente de dezenas de outras crises semelhantes ocorridas ao longo dos séculos. Existe um procedimento consagrado pela prática para tratar dos efeitos de uma crise financeira abrangente: o governo assegura a confiança no sistema garantindo muitas dívidas dos bancos. E, ao mesmo tempo, assume o controle temporário dos bancos, para limpar seus livros contábeis.

É o que a Suécia fez no início dos anos 90. É também o que nós fizemos depois da debacle das instituições de poupança e empréstimos dos anos Reagan. Não há motivo para, agora, não fazermos a mesma coisa.

Mas o governo Obama, como o do Bush, aparentemente procura uma saída mais fácil. O elemento comum aos planos de Paulson e de Geithner é a insistência em que os ativos podres valem muito mais do que qualquer um está disposto a pagar. E, portanto, o plano deve usar o dinheiro dos contribuintes para que os preços dos ativos podres cheguem a níveis “justos”. Paulson propôs que o governo pagasse diretamente pelos ativos. Geithner propõe um esquema complicado, segundo o qual o governo empresta dinheiro a investidores privados, que o usam para comprá-los. A ideia, afirma o principal assessor econômico de Obama, é usar “a capacidade e a experiência do mercado” para estabelecer o valor dos ativos tóxicos.

Mas o plano de Geithner oferece uma aposta segura: se os valores dos ativos subirem, os investidores lucrarão, mas se caírem, abandonarão a dívida. Portanto, não se trata de deixar que os mercados façam seu trabalho. Trata-se de uma forma indireta de subsidiar.

Deixando de lado o custo provável da operação para os contribuintes, há algo estranho ocorrendo. Na minha opinião, é a terceira vez o governo Obama lança um remanejamento do plano Paulson, cada vez acrescentando coisas supérfluas e garantindo que estão fazendo algo completamente diferente.

Mas o problema real é que não funcionará. Sim, os ativos podres talvez sejam um tanto subvalorizados. O fato é que os executivos do setor financeiro apostaram literalmente seus bancos na convicção de que não havia bolha da habitação e na crença de que níveis de endividamento sem precedentes com a compra da casa própria não constituíam nenhum problema. Perderam a aposta. E nenhuma mágica financeira – pois o plano de Geithner não passa disso – poderá mudar esse fato.

Perguntarão: por que não adotar o plano e ver o que acontece? Uma resposta é que o tempo está se esgotando: a cada mês que passa sem que se encontre uma solução para a crise financeira, mais 600 mil empregos serão eliminados.

Mas o mais importante é que Obama está desperdiçando sua credibilidade. Se seu plano falhar – como quase certamente falhará – é improvável que consiga convencer o Congresso a desembolsar mais recursos para fazer o que ele deveria ter feito logo de início.

Entretanto, nem tudo está perdido: o público quer que Obama consiga o que pretende; o que significa que ele ainda pode salvar seu plano de ajuda aos bancos. Só que o tempo está se esvaindo muito depressa.

*Paul Krugman é articulista

24/03/2009 - 10:06h Pacote de Obama é alternativa à estatização

Detalhes do plano de Geithner afastam por enquanto o temor de soluções radicais temidas pelos investidores

http://cinie.files.wordpress.com/2009/02/data-geithner.jpg
Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner

Fernando Dantas – O Estado SP

O mercado respirou aliviado ontem, com o sinal de que o governo americano finalmente fez uma opção firme sobre a direção a tomar para superar a gravíssima crise financeira, optando por uma solução de mercado e não estatizante para lidar com o problema trilionário dos ativos tóxicos.

“Havia uma crítica de que faltava diagnóstico, ação e consenso político, e hoje nós começamos a ver algum movimento, o que é positivo”, analisou Beny Parnes, diretor-executivo do Banco BBM e ex-diretor do Banco Central (BC). Ele ressalva, porém, que “o problema é complexo e de solução muito demorada”. Para Parnes, ainda não está claro se a velocidade de execução do plano, se ele tiver de fato a adesão do setor privado, será suficiente para conter a queda na economia real.

Há quase um consenso entre economistas e participantes do mercado de que o problema dos ativos tóxicos – rebatizados como ativos “legados” ou “herdados” (o que significa o rescaldo ruim do passado recente) – é o principal nó da crise global. “Este plano revela os preços (dos ativos) e injeta liquidez nos bancos, com um pouco de incentivo aos investidores (privados)”, diz o economista Otaviano Canuto, que está em transição de uma vice-presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para uma do Banco Mundial.

O plano de Geithner é criar vários fundos que disputarão as carteiras de crédito e os títulos de securitização de crédito considerados tóxicos. Esses fundos serão parcerias público-privadas, em que o investidor e o Tesouro dividem o capital em 50%. O detalhe crucial, porém, é que, para comprar os ativos tóxicos, no caso das carteiras de crédito, o investidor recebe empréstimos do governo garantidos pela Corporação de Seguro de Depósito Federal (FDIC, na sigla em inglês).

No exemplo do próprio Tesouro, o investidor que arriscar US$ 6 poderia alavancar, em parceria com o Tesouro, US$ 84. Mas perderá, no máximo, os US$ 6 iniciais. “Se o fundo perder tudo, US$ 72 serão prejuízo do contribuinte”, explica um analista de banco.

Essa abordagem, em que o governo estimula o próprio setor privado a comprar os ativos tóxicos, tira de cena – pelo menos por enquanto – as hipóteses de nacionalização ou da formação do chamado “banco ruim” ou “agregador”, onde seriam jogados todos os ativos podres. Tanto num caso como no outro, é provável que os credores dos bancos tivessem perdas ou fossem forçados a converter os créditos em capital (o que também prejudica os acionistas atuais, pela diluição).

A circulação dessas hipóteses de uma abordagem mais traumática da crise bancária pelo governo Obama, nos últimos meses, é um dos fatores que explicam a queda das ações dos bancos a níveis ínfimos.

18/03/2009 - 16:02h Estados pedem revisão de dívidas com a União

Com o fim iminente do subsídio federal, pelo menos 13 das 27 unidades da Federação já discutem meios de realizar repactuação dos contratos

O Estado SP

De olho na queda dos juros prevista para os próximos meses, governadores e prefeitos decidiram que vão cobrar do governo federal uma nova renegociação das dívidas dos Estados e dos municípios com a União. Em pelo menos 13 das 27 unidades da federação, já estão sendo discutidos meios de se realizar essa repactuação, como a ocorrida em 1997.

“Não tem cabimento agora Estados e municípios pagarem juros maiores do que aquele que passou a prevalecer”, afirmou o governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Ele se referia à possibilidade de que, pela primeira vez em mais de 10 anos, os juros cobrados dos Estados deixarem de ser subsidiados, ou seja, inferiores à taxa Selic. Para o governador paulista, a taxa básica de juros precisa cair ainda mais e essa discussão sobre as dívidas públicas terá de acontecer.

“Esse é um problema que ou já apareceu ou vai aparecer, na medida em que os juros declinam”, declarou Serra. “E quero dizer que é necessário que os juros declinem para que a economia brasileira não continue nesse mergulho para baixo.”

Hoje, o custo da dívida renegociada é de 6% ao ano mais correção pelo Índice Geral de Preços (IGP-DI), a inflação medida pela Fundação Getúlio Vargas. Se a Selic (taxa básica de juros da economia) ficar abaixo de 6% ao ano, em termos reais (descontada a inflação), os governos estaduais e municipais estarão subsidiando a União – ou seja, o custo das dívidas renegociadas será maior do que o Tesouro Nacional paga para captar dinheiro no mercado.

O prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab (DEM), também defende a flexibilização da dívida. Com um gasto mensal de mais de R$ 200 milhões para honrar essa dívida, Kassab afirmou ontem em Brasília que tem o “maior interesse em encontrar um caminho para atenuar um pagamento tão pesado” – o que não aconteceria com a mudança dos juros, mas com a alteração na parcela da receita líquida atualmente destinada ao pagamento da dívida (13%).

O prefeito, porém, diz ser contra qualquer alteração na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para que essa renegociação seja efetivada. “É fundamental para o País que essa fique como está. Ela veio para ficar”, disse Kassab.

É que, para fazer uma nova renegociação das dívidas, o governo teria de propor uma mudança da LRF, pois seu artigo 35 proíbe a realização de operação de crédito entre um ente e outro da Federação, “ainda que sob a forma de novação (uma nova dívida para substituir a anterior), refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente”.

O governo da Bahia tem mesma posição. O secretário estadual da Fazenda, Carlos Martins, afirma que o governador Jaques Wagner (PT) é favorável à renegociação dos contratos, “mas sem rasgar a Lei de Responsabilidade Fiscal”.

INVESTIMENTOS

Em São Paulo, na Bahia e em Mato Grosso, os governos defendem redução das parcelas mensais de pagamento da dívida. O secretário da Fazenda de São Paulo, Mauro Ricardo, explica que o Estado já aderiu ao movimento liderado pelo Mato Grosso de pedir a renegociação das dívidas, desde que haja comprometimento de que os recursos que deixarem de ser pagos à União sejam usados em investimentos em infraestrutura, para atenuar os efeitos da crise.

“Em vez de pagar juros altíssimos à União, poderíamos ter esses recursos circulando na economia real, para garantir a perenidade dos empregos e gerar novos postos de trabalho”, afirma Eder Moraes, secretário da Fazenda do Mato Grosso.

Outros Estados que confirmaram que defenderão uma nova renegociação das dívidas são Acre, Amazonas, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Piauí, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os governadores de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), e de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB), se declararam indecisos.

CONTRAPROPOSTA

O coordenador do Grupo dos Gestores Financeiros (Gefin), órgão auxiliar do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), Cesar Ferreira, disse ontem que até sexta-feira apresentará aos secretários de Fazenda dos Estados uma minuta, em que são propostas algumas alterações no trato das dívidas com a União. Entre as propostas está uma reivindicação antiga, que é a mudança do indexador do IGP-DI para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA).
ADELSON BARBOSA DOS SANTOS, ANDREA VIALLI, EDUARDO KATTAH, ELDER OGLIARI, EUGÊNIA LOPES, EVANDRO FADEL, JOÃO NAVES, JÚLIO CASTRO, LUCIANO COELHO, RICARDO BRANDT, RICARDO RODRIGUES, WILSON LIMA,
SILVIA AMORIM e TIAGO DÉCIMO


RJ e ES são contra proposta

Wilson tosta – O Estado SP

Os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, e do Espírito Santo, Paulo Hartung, ambos do PMDB, declaram-se contrários à ideia de renegociar os contratos das dívidas dos Estados com a União. “Acho extremamente delicado abrir uma discussão dessas em um momento em que o País acabou de receber completamente os efeitos da crise internacional, com efeitos no mercado de trabalho em dezembro e agora com os números do PIB, com queda de receitas da União, dos Estados e dos municípios”, avaliou Hartung. “Em uma hora dessas, não ajuda o País.”

Para o governador capixaba, no momento, “os entes federados devem cortar custeio, controlar despesas e ver o que é possível investir, sobretudo em setores que gerem maciçamente empregos”.

Cabral propõe alternativas para o momento. “Talvez, no curto prazo, o mais importante seja o Ministério da Fazenda dar mais espaço de endividamento sempre que os limites estejam abaixo do teto da Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso pode ter um efeito maior do que abrir uma grande discussão”, afirmou. “No curto prazo, o teto de 13% (da receita, para pagamento da dívida) protege os Estados, e se o real não se depreciar mais, o IGP-DI mais 6% ainda se compara com o custo de financiamento da União”, diz Cabral.

11/03/2009 - 11:08h A crise e a política econômica

Cristiano Romero – VALOR

Se alguém ainda acredita que o Brasil foi atingido apenas por uma marolinha da crise mundial, é bom dar uma olhada nos números do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2008. Uma boa imagem para retratar o que aconteceu é a do atleta que, correndo uma maratona, acelerou o passo nas últimas voltas, aproximou-se dos primeiros colocados, mas, repentinamente, escorregou e levou um tombo. O acidente não foi capaz de debilitá-lo de forma definitiva, mas ele ainda não sabe quando voltará a correr como antes.

No trimestre anterior ao do desastre, o PIB brasileiro cresceu, quando comparado ao mesmo período de 2007, 6,8% em termos anualizados. Entre outubro e dezembro, expandiu-se apenas 1,3% em relação ao último trimestre do ano anterior. Foi uma desaceleração brutal. Ainda assim, o resultado não foi capaz de tirar o brilho do desempenho de 2008, quando a economia cresceu, pelo segundo ano consecutivo, acima de 5%.

Está claro, portanto, que o que derrubou o PIB brasileiro nos últimos meses foi exclusivamente a crise financeira internacional, apontada por muitos analistas como a mais grave desde a Grande Depressão, de 1929. Não fosse a crise, o Brasil poderia ter fechado 2008 com a maior taxa de crescimento em duas décadas. E o melhor: com a inflação sob controle (dentro do intervalo de variação previsto no regime de metas).

O que levou o país ao seu melhor momento em quase 30 anos foi uma política persistente de estabilização iniciada em 1994, com o lançamento do Plano Real, aperfeiçoada em 1999, com a adoção do tripé superávit primário-câmbio flutuante-metas para inflação, e fortalecida em 2003, com a decisão do governo Lula de incrementar o esforço primário. A severa crise internacional, que reduziu fortemente a demanda externa e secou as fontes de financiamento, interrompeu o ciclo de crescimento da economia brasileira, mas não a desorganizou nem colocou em xeque o modelo adotado há dez anos.

Apesar da gravidade da crise, e ao contrário das turbulências anteriores, o Brasil não quebrou. Além disso, diferentemente de algumas nações emergentes, o país dispõe hoje de vários instrumentos, e os está utilizando, para enfrentar as dificuldades. Abandonar, a essa altura, o modelo escolhido e testado ao longo de uma década seria colocar em risco a construção institucional que, antes da crise, acelerou o crescimento. Por incrível que pareça, há, no governo, quem defenda mudança de rumo, mas, justiça seja feita, fora também – ontem, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, instou o presidente Lula a intervir no BC.

O diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, João Sicsú, propôs que o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) promova um corte significativo da taxa básica de juros (Selic) – ele não deixa sua proposição muito clara, porque, na verdade, recomenda que a taxa caia 5,75 pontos percentuais gradativamente até outubro, mas também sugere que se faça isso de uma só tacada, na reunião de hoje do Copom. Sicsú sustenta que a redução da Selic geraria economia fiscal em 2009 de algo entre R$ 30 bilhões (se a queda da Selic for gradual) e R$ 43 bilhões (se for imediata). Com isso, o governo manteria um dos componentes da demanda funcionando – o gasto público.

O cálculo foi feito sobre a parcela da dívida pública indexada à Selic. Não se levou em conta o que aconteceria com o restante da dívida e também com a inflação (em 11 páginas da nota técnica, a palavra não aparece uma só vez), na hipótese de uma redução imediata dos juros na magnitude sugerida por Sicsú. O corte da taxa Selic provocaria a deterioração imediata das expectativas de inflação. No momento em que isso acontecesse, a inflação implícita nos papéis indexados a índices de preços subiria. No momento em que o Tesouro fosse renovar essa parcela da dívida, o custo de rolagem aumentaria. Nos papéis prefixados, a curva de juros empinaria, porque haveria expectativa de inflação mais alta.

Hoje, registre-se, a curva de juros está flat para negativa, porque o mercado está projetando juros cadentes. As incertezas, que surgiriam em função do movimento sugerido por Sicsú, elevariam os prêmios de risco embutidos na dívida, contribuindo também para aumentar seu custo.

Sicsú trata a despesa oficial com juros como um gasto discricionário, algo que se decide fazer ou não. No texto, o diretor do Ipea diz que a despesa com juros “tem uma capacidade aproximadamente nula de gerar empregos e renda”, ao contrário dos investimentos em infraestrutura e dos gastos sociais. O sujeito que ganha dinheiro comprando títulos públicos, alega Sicsú, já tem “suas necessidades de consumo satisfeitas”. O que ele apura é transformado em poupança ou é gasto em “produtos importados que não geram empregos no país” – ora, se o sujeito que lucra emprestando ao governo tem sua “necessidade de consumo já satisfeita”, por que ele, quando torra os caraminguás, opta por comprar produtos estrangeiros?

Sicsú alega que a redução da Selic, neste momento de crise, estimularia de forma modesta o aumento dos gastos privados, mas teria efeitos fiscais importantes. “Cortar gastos sociais, correntes ou de investimento significa reduzir a demanda da economia e reduzir ainda mais as possibilidades de crescimento”, afirma.

Por trás da argumentação do diretor da Ipea está o conceito de dominância fiscal, segundo o qual, a definição dos juros pelo BC deve ser guiada por questões de natureza fiscal. Desde 1999, só houve um momento em que o Copom agiu desse maneira – em 2002, mas naquele momento a crise era genuinamente brasileira e o Estado caminhava para a insolvência. Nos anos seguintes, o país se livrou dessa armadilha e a taxa de juros voltou a ser calibrada apenas para controlar a inflação.

Neste momento, em todo o mundo, os bancos centrais estão derrubando os juros para tentar livrar suas economias da depressão. O BC brasileiro está no mesmo caminho. Há grande chance de promover uma forte queda da Selic nesta e nas próximas reuniões, sem descuidar, porém, da inflação. O modelo segue funcionando.

Cristiano Romeroé repórter especial e escreve às quartas-feiras.

21/02/2009 - 10:08h Roach prevê contração de 1% na economia global

Para o presidente do Morgan Stanley na Ásia, em 2010 poderá haver expansão de 2,5% a 3%, haverá nova retração no ano seguinte

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Cláudia Trevisan – O Estado SP

A economia global deverá encolher 1% este ano, na primeira queda desde o fim da 2ª Guerra Mundial, enquanto o o crescimento da China ficará em torno de 5,5%, o menor em 19 anos. Essas previsões foram feitas ontem pelo presidente do Morgan Stanley na Ásia, Stephen Roach, célebre por alertar para o potencial devastador dos desequilíbrios globais muito antes de a crise atual ter início.

Para ele, a situação poderá melhorar em 2010, com expansão mundial entre 2,5% a 3%, impulsionada principalmente pelos investimentos em infraestrutura previstos nos pacotes de estímulo de Washington e Pequim.

Mas a economia poderá perder fôlego novamente no ano seguinte. O resultado serão três anos (2009-2011) com crescimento médio mundial de 2%. “Teremos contrações simultâneas em todos os grandes países ricos e recessão ou desaceleração no mundo em desenvolvimento”, disse Roach, durante encontro com um grupo de jornalistas em Pequim.

Segundo ele, a economia chinesa está em pior situação que o crescimento de 6,8% no quarto trimestre de 2008 leva a crer. Na comparação com o trimestre anterior, o ritmo de expansão ficou próximo de zero e deverá permanecer assim no início de 2009, acredita.

Pelo menos desde 2004, o economista sustentava que o modelo de crescimento norte-americano, amparado no consumo e no endividamento excessivos, era insustentável e terminaria em uma severa recessão. Seu cenário demorou a se concretizar, mas seus efeitos se espalharam com rapidez impressionante pelo mundo a partir de setembro de 2008.

“Os consumidores norte-americanos gastaram muito além do que podiam nos últimos 14 anos e o consumo atingiu o recorde de 72% do PIB em 2007″, ressaltou. Agora, Roach espera um período de 3 a 5 anos de “redução significativa” no crescimento do consumo nos Estados Unidos.

Washington e Pequim estarão no centro dos ajustes necessários para a superação da crise, observou o economista. “Os Estados Unidos precisam poupar mais e consumir menos, enquanto a China precisa poupar menos e consumir mais.”

PROTECIONISMO

O grande risco é que a recessão nos Estados Unidos leve o Congresso e o governo a adotarem medidas protecionistas, algo já insinuado na cláusula do pacote de US$ 787 bilhões que exige que o aço e o ferro utilizado em projetos governamentais sejam produzidos nos Estados Unidos. A China reagiu e disse que a medida poderá minar o relacionamento entre os dois países.

Na terça-feira, Roach, em depoimento no Congresso americano, sustentou que medidas protecionistas vão agravar os problemas dos Estados Unidos e do restante do mundo. “Nenhuma relação bilateral é mais importante para o mundo do que a existente entre os Estados Unidos e a China e será trágico se esse relacionamento for prejudicado”, disse Roach.

No Congresso, ele lembrou que a China é o principal financiador do colossal déficit em conta corrente americano e afirmou que Pequim poderia retaliar, se ausentando dos leilões de venda de títulos do Tesouro.

“Essa não é uma consideração trivial para um país que precisa de cerca de US$ 3 bilhões de fluxo de capital a cada dia para financiar seu déficit. Se a China deixar de prover sua parcela de capital para a América, a cotação do dólar poderá despencar e a taxa de juros real de longo prazo, subir.”

No fim de 2009, a China tinha US$ 696,2 bilhões em papéis do Tesouro dos EUA, uma participação de 22,3% na dívida total, de US$ 3,12 trilhões.

15/02/2009 - 09:46h Agora, todos nós somos suecos

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Matthew Richardson Nouriel Roubini *, The Washington Post – O Estado SP

O sistema bancário dos Estados Unidos está à beira da insolvência e, se não quisermos ficar como o Japão nos anos 90 ou os Estados Unidos nos anos 30, o único meio de salvar os bancos é a estatização.

Como economistas defensores do livre mercado, professores de uma escola de administração no coração da capital financeira do mundo, sentimo-nos como se dizendo uma blasfêmia quando propomos que o governo assuma totalmente o controle do sistema bancário. Mas o sistema financeiro dos Estados Unidos chegou a um ponto tão crítico que não há muita escolha. E, embora o recente plano do secretário do Tesouro, Timothy Geithner, para salvar os bancos contenha muitos elementos corretos, basicamente ele chega tarde demais.

A enrascada dos empréstimos hipotecários subprime sozinha não nos forçaria a tomar essa atitude. A soma de US$ 1,2 trilhão envolvida foi apenas o início do problema. Os outros US$ 7 trilhões – que incluem empréstimos para imóveis comerciais, dívidas com cartão de crédito, empréstimos alavancados e títulos de alto rendimento – correm o risco de perder grande parte do seu valor. E ainda existem mais alguns trilhões de dólares em títulos corporativos com classificação AAA ou AA e empréstimos e hipotecas “jumbo”com pagamento garantido cujo valor também vai despencar, à medida que a recessão se aprofunda e mais empresas e famílias deixam de pagar seus empréstimos e hipotecas.

No ano passado, nossa previsão era de que os prejuízos a serem contabilizados pelas instituições financeiras dos Estados Unidos chegariam a US$ 1 trilhão, subindo possivelmente para US$ 2 trilhões. Fomos acusados de exagero. Mas a partir daí as baixas contábeis pelos bancos ultrapassaram a marca de US$ 1 trilhão.

Agora, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Goldman Sachs estão prevendo prejuízos de mais de US$ 2 trilhões.

Mas, se você acha que US$ 2 trilhões é uma soma muito grande, analise os nossos cálculos mais recentes no RGE Monitor, website financeiro que dirigimos: essas estimativas sugerem que o total de perdas sobre empréstimos feitos por bancos nos Estados Unidos, mais a queda do valor de mercado dos ativos mantidos por esses bancos chegará a US$ 3,6 trilhões. O setor bancário americano está exposto à metade desse valor: US$ 1,8 trilhão. Mesmo com os fundos recebidos do primeiro pacote de ajuda federal, no ano passado, o capital aplicado para respaldar os ativos dos bancos foi de apenas US$ 1,4 trilhão, deixando o sistema bancário americano com um rombo de US$ 400 bilhões.

Dois importantes elementos do plano de Geithner são: 1) “aplicar o teste de stress” aos bancos para separar as instituições viáveis daquelas próximas da bancarrota; 2) criar um fundo de investimento com dinheiro público e privado para compra de ativos podres. São medidas necessárias para se ter um setor financeiro próspero.

Mas, infelizmente, o plano não vai solucionar nossas dificuldades financeiras porque ele subentende que o sistema está solvente. Se executado de modo justo para os contribuintes (ou seja, fim dos “agrados” na forma de títulos abaixo do preço, ações preferenciais, garantias de empréstimo ou seguros sobre ativos), só vai confirmar o quão péssimas as coisas estão.

A estatização é a única opção que nos permitirá solucionar o problema dos ativos tóxicos de maneira disciplinada e permitirá também, finalmente, a retomada dos empréstimos. Naturalmente, a economia ainda continuará em má situação, mas a espiral da morte em que estamos será interrompida.

A estatização – ou “liquidação judicial”, se isso soar mais aceitável – não será fácil; entretanto, aqui vai uma série de princípios para o governo se pautar. Em primeiro lugar, e este é o ponto mais difícil, determinar quais são os bancos insolventes. O teste de stress de Geithner seria muito útil nesse caso.

O governo deveria começar com os grandes bancos que têm dívidas fora do país, e determinar quais são solventes e quais não são, para evitar o pânico. De outro modo, permitir a falência de um grande banco provocará uma corrida imediata àquela ação, e aos títulos da dívida de longo prazo de outros. Haverá muitas dificuldades, mas as autoridades reguladoras devem manter uma postura firme.

Em segundo lugar, estatizar imediatamente as instituições insolventes. Os investidores em ações serão eliminados, e os detentores de títulos da dívida de longo prazo terão créditos somente depois que os depositantes e outros credores de curto prazo forem reembolsados.

Em terceiro lugar, uma vez que uma instituição passe para o controle do Estado, separar seus ativos em bons e ruins. Os ativos ruins serão avaliados de acordo com os valores atuais (embora reduzidos). Novamente, como no plano de Geithner, o capital privado poderá adquirir uma fração desses ativos ruins. Quanto aos bons, voltariam a ser privados, quer mediante uma IPO (oferta pública inicial), quer por uma venda a um comprador estratégico.

Os ganhos auferidos pelos ativos bons e ruins iriam, em primeiro lugar, para os correntistas, e depois para os detentores de títulos da dívida, com a possível participação do governo para cobrir os custos administrativos. Se os correntistas forem reembolsados, o governo poderá de fato começar a ter lucros.

Em quarto lugar, fundir todos os ativos ruins restantes em um único empreendimento. Os ativos poderão aguardar o vencimento ou serem vendidos com os ganhos e os riscos decorrentes para os contribuintes.

O resultado final seria um sistema financeiro saudável com muitos bancos novos capitalizados com ativos bons. Os bancos insolventes, grandes demais para falir, seriam desmembrados em partes menores, com menos probabilidade de ameaçar o sistema financeiro como um todo.

Também seriam instituídas reformas em matéria de regulamentação, a fim de reduzir as chances de dispendiosas crises futuras.

A estatização dos bancos tem precedentes. Em 1992, o governo sueco assumiu o controle dos bancos insolventes, limpou-os e depois voltou a privatizá-los. Obviamente, o sistema bancário sueco era muito menor do que o americano. Além disso, algumas das atuais instituições americanas são muito maiores e mais complexas, o que dificulta a análise. E os mercados globais de capital permitem que jogar com o sistema seja mais fácil do que em 1992. Mas nós acreditamos que, se for aplicada de maneira correta, a solução sueca funcionará nos EUA.

A agência encarregada de reestruturar os bancos na Suécia não era uma entidade burocrática sem controle: ela delegou todos os detalhes da limpeza aos bancos privados e aos administradores contratados pelo governo. O processo foi surpreendentemente tranquilo.

Basicamente, hoje somos todos “suecos”. Usamos todas as nossas balas, mas o bicho-papão continua se aproximando. Vamos pegar nossa bazuca e acabar com ele.

*Matthew Richardson e Nouriel Roubini são professores da Escola de Administração Stern, na Universidade de Nova York. Ambos trabalharam no livro a ser lançado Restoring Financial Stability: How to Repair a Failed System (Restaurando a estabilidade financeira: como consertar um sistema falido)

11/02/2009 - 10:14h Por que o plano de Obama fracassará

Martin Wolf – Financial Times – VALOR

Será que a presidência de Barack Obama já fracassou? Em tempos normais, esta seria uma pergunta ridícula. Mas estes não são tempos normais. São tempos de grande perigo. Hoje, o novo governo dos Estados Unidos pode repudiar a responsabilidade por sua herança; amanhã, a responsabilidade será sua. Hoje, pode oferecer soluções; amanhã, terão se tornado o problema. Hoje, está sob controle dos eventos; amanhã, os eventos tomarão seu controle. Fazer pouco agora é muito mais arriscado do que fazer em excesso. Se ele falhar em agir de forma decisiva, o presidente corre o risco de ser sobrepujado, assim como seu antecessor. Os custos para os Estados Unidos e o mundo de outra presidência fracassada não podem nem ser contemplados.

O que é preciso? A resposta é: foco e ferocidade. Se Obama não resolver esta crise, tudo o que ele espera de sua presidência estará perdido. Se a resolver, poderá remodelar sua agenda. Esperar pelo melhor é tolice. Ele deveria esperar pelo pior e agir de forma correspondente.

Esperar pelo melhor, no entanto, é que se vê no programa de estímulo e – pelo que pude julgar até agora do anúncio incompleto, de ontem, do secretário do Tesouro, Tim Geithner – nos novos planos para reparar o sistema bancário. Comentei sobre o primeiro na semana passada. Somente acrescentaria que é extraordinário um presidente novo e popular, enfrentando uma crise econômica das que aparecem a cada 80 anos, ter deixado o Congresso modelar o resultado.

O programa bancário parece ser mais um irmão das intervenções fracassadas do último ano e meio. A credibilidade de Obama estará arruinada se esta “prole do programa governamental de recuperação de ativos problemáticos” (Tarp, na sigla em inglês) falhar. Agora é o momento para ações que pareçam estar próximas da certeza de se resolver o problema; estas, contudo, não parecem ser assim.

Desde o começo, sustentaram-se duas visões contrastantes sobre o que aflige o sistema financeiro. A primeira, é que se trata essencialmente de um caso de pânico. A segunda, é que este é um problema de insolvência.

Pela primeira visão, os preços de um conjunto definido de “ativos tóxicos” foram empurrados para baixo de seu valor de longo prazo e, em alguns casos, tornaram-se impossíveis de vender. A solução, segundo muitos sugerem, é que os governos criem um mercado, comprem ativos ou segurem os bancos contra perdas. Esta foi a lógica por trás do Tarp original e do “super-SIV” (veículo de investimento estruturado, em inglês) proposto pelo secretário do Tesouro anterior, Henry (Hank) Paulson, em 2007.

Pela segunda visão, uma proporção considerável das instituições financeiras está insolvente: seus ativos valem, sob suposições plausíveis, menos do que seus passivos. O FMI argumenta que as possíveis perdas apenas com ativos de créditos originados nos EUA agora estão em US$ 2,2 trilhões, acima do US$ 1,4 trilhão estimado em outubro. É algo quase idêntico às estimativas mais recentes do Goldman Sachs. Em comentários recentes no “Financial Times”, Nouriel Roubini, da RGE Monitor, e a Stern School of New York University estimam que o pico das perdas com ativos gerados nos EUA poderia ser de US$ 3,6 trilhões. Felizmente para os EUA, metade dessas perdas recairá no exterior. O resto do mundo, no entanto, contra-atacará: à medida que a economia mundial implodir, as imensas perdas no exterior – em dívidas soberanas, imobiliárias e empresariais – certamente também recairão sobre instituições dos EUA, com efeitos nefastos.

Pessoalmente, tenho poucas dúvidas de que a segunda visão é a correta e, à medida que a economia mundial se deteriora, ficará cada vez mais claro. Mas este não é o cerne da questão. O cerne é se, na presença de tais incertezas, é correto basear a política esperando pelo melhor. A resposta é clara: autoridades de política monetária precisam supor o pior. Caso a opção revele ter sido pessimista demais, acaba-se ficando com um sistema financeiro excessivamente capitalizado. Caso a opção otimista revele-se errada, ficamos com bancos zumbis e um governo desacreditado. Esta opção certamente não requer muito para se pensar.

O novo plano pareceria fazer sentido apenas se o principal problema fosse a iliquidez. Oferecer garantias e comprar uma parte dos ativos tóxicos, enquanto se limita a injeção de novo capital a menos do que os US$ 350 bilhões restantes no Tarp, não é suficiente para lidar com o problema de insolvência identificado pelos observadores mais informados. Na verdade, qualquer programa de garantias ou de compra de ativos tóxicos acaba sendo uma forma sem efeito, pouco eficiente e injusta de resgatar instituições financeiras mal capitalizadas: sem efeito, porque o governo precisa comprar vastos volumes de ativos duvidosos a preços excessivos ou fornecer garantias generosas demais, para fazer com que bancos insolventes fiquem solventes; ineficiente, porque grandes injeções de capital ou a conversão de dívidas em patrimônio são formas melhores de recapitalizar os bancos; e injusta, porque grandes subsídios iriam para instituições falidas e compradores privados de ativos problemáticos.

Então, por que o governo está fazendo o que parece ser um erro crasso? Pode ser que esteja esperando pelo melhor. Mas também parece estar fazendo-se a pergunta errada. Não se perguntou o que precisa ser feito para se ter a certeza de que haverá uma solução. Em vez disso, perguntou-se o que pode fazer de melhor sob três condições, arbitrárias e autoimpostas: nada de estatização; nada de perdas para os detentores de bônus; e nenhum dinheiro a mais do Congresso. Por que o novo governo, confrontado com uma crise gigantesca, não tenta mudar os termos do debate? Essa timidez é deprimente. Tentar compensar este erro impondo condições enganosas sobre as instituições resgatadas tem mais chances de complicar o erro do que reduzi-lo.

Presuma-se que o problema seja a insolvência e que o valor de mercado modesto dos bancos comerciais dos Estados Unidos (US$ 400 bilhões) sustente-se apenas no apoio do governo. Presuma-se, também, que seja impossível levantar grandes volumes de capital privado atualmente. Então, é preciso haver uma recapitalização de uma das duas formas indicadas acima. Ambas têm suas desvantagens: a recapitalização pelo governo é um resgate de credores e envolve a administração temporária pelo governo; as trocas de dívida por patrimônio prejudicariam os mercados de bônus, seguradoras e fundos de pensão. A opção, contudo, é inescapável.

Se Geithner ou Lawrence Summers, diretor do conselho econômico nacional, estivessem assessorando os EUA como o fariam com um país estrangeiro, destacariam isso, de forma brutal. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse o mesmo, de uma forma bem suave, na Malásia, no sábado.

O conselho correto continua sendo o que os EUA deram aos japoneses e outros países durante os anos 90: admitam a realidade, reestruturem os bancos e, acima de tudo, exterminem as instituições zumbis de uma vez por todas. Também é uma questão importante, mas secundária, se a resposta correta seria criar novos “bancos bons”, deixando os “bancos ruins” velhos para perecer, como meu colega Willem Buiter recomenda, ou criar novos “bancos ruins”, deixando os velhos bancos purificados para sobreviver. Também estou inclinado para o primeiro, porque a cultura dos bancos velhos continua a parecer muito tóxica.

Ao perguntar-se a questão equivocada, Obama está fazendo uma grande aposta. Ele deveria ter resolvido limpar os currais augianos dos bancos. Ele precisa reconsiderar, se já não for tarde demais.

Martin Wolf é colunista do “Financial Times”.

11/02/2009 - 09:27h EUA: Stiglitz e Roubini defendem estatização dos bancos

http://notasaocafe.files.wordpress.com/2008/10/chappatte_24102008_1.jpg

Para economistas, governo deve assumir controle de bancos falidos

 

Kuala Lumpur – O Estado de São Paulo

 


Embora contrária à ideia de livre mercado defendida pelos americanos, a estatização de bancos pode ser um antídoto para a crise financeira no país, segundo Joseph Stiglitz, ex-economista chefe do Banco Mundial e Nobel de Economia, e Nouriel Roubini, economista que previu a crise financeira.Em discurso a dirigentes de bancos centrais em Kuala Lumpur, na Malásia, Stiglitz disse que pode ser difícil para os americanos aceitarem a ideia, “mas nós devemos ir nessa direção”. Sobre o anúncio do pacote de mais de US$ 1 trilhão ao sistema financeiro feito ontem pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, Stiglitz disse que, se está oferecendo bilhões para financiar bancos com problemas, o governo deveria ter um poder maior sobre eles.

Para ele, os temores sobre o controle do governo nos negócios privados são “em grande medida equivocados”. Os bancos vão continuar operando, mas haverá uma prestação de contas muito maior, afirmou Stiglitz. Segundo ele, até agora, o programa de ajuda fracassou. “É muito estranho ter um sistema de alocação de capital quando os que alocam o capital não carregam o risco; isso não é capitalismo, isso não é uma economia de mercado”, disse. “Todas as teorias sobre como uma economia de mercado funciona bem foram totalmente destruídas pelo papel que o governo tem assumido ao absorver o risco”, completou. “É hora de recomeçar”, acrescentou.

ROUBINI

Em Nova York, Nouriel Roubini defendeu, antes da divulgação do novo pacote financeiro, a estatização temporária. “Ninguém é favorável a que os bancos fiquem por muito tempo em poder do governo, mas se isto não for feito, vamos acabar como o Japão, que manteve vivos por uma década bancos zumbis que nunca se reestruturaram”, disse em entrevista publicada no Financial Times.

Segundo ele, após um período nas mãos do Estado, a privatização poderia ocorrer novamente em dois ou três anos. Ele estima que as perdas do setor financeiro ultrapassem US$ 3,6 trilhões até o fim do ano. “Vai ser muito pior. Melhor limpar tudo agora, estatizar e depois vender de novo ao setor privado.”

FRASES

Joseph Stiglitz
Nobel de Economia

“Todas as teorias sobre como uma economia de mercado funciona bem
foram totalmente destruídas pelo papel que o governo tem assumido ao
absorver o risco”

Nouriel Roubini
Economista

“Melhor limpar tudo agora, estatizar e depois vender de
novo ao setor privado”

Para Krugman, plano não está claro

 


O pacote de estímulo fiscal anunciado ontem pelo secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, foi recebido com pessimismo pelo mercado. A falta de detalhes deixou muitas perguntas sem respostas.

Em entrevista ao ‘Wall Street Journal’, o Nobel de Economia e professor da Universidade Princeton, Paul Krugman, disse que para ele não estava claro o significado do plano. “Há uma interpretação de que (o pacote) não é tão ruim, mas não está claro se essa é a interpretação correta”.

Para o economista, em alguns pontos, o pacote parece ser melhor do que o pouco que havia sido vazado nas últimas semanas, mas mesmo assim, não está totalmente claro qual é o “plano”. “Eu realmente não sei, pelo menos baseado nas informações de hoje. Mas, talvez, apenas talvez, seja um Cavalo de Tróia trazendo a política certa”, disse Krugman.

09/02/2009 - 10:02h Queda de juros reduz dívida pública

A cada ponto porcentual da Selic cortado pelo Banco Central, a dívida cairá o equivalente a 0,25% do PIB

Ribamar Oliveira, BRASÍLIA – O Estado SP

O governo terá, este ano, uma ajuda inesperada para fechar suas contas. Por causa dos efeitos negativos da crise internacional sobre a economia, o Banco Central foi obrigado a mudar a trajetória de sua política monetária e, em vez de subir a taxa de juro, terá de derrubá-la. Com isso, a conta dos juros ficará menos pesada, o que permitirá a queda mais fácil da dívida pública líquida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

A trajetória da dívida líquida em proporção do PIB é o principal indicador de solvência das contas públicas e é acompanhada com lupa pelo mercado. A área técnica do Tesouro Nacional estima que a dívida pública mobiliária federal é reduzida em R$ 8,6 bilhões para cada ponto porcentual de queda da Selic (a taxa básica de juro da economia), após o período de um ano.

O Banco Central (BC) calcula que para cada ponto porcentual de redução da Selic, a dívida pública líquida cai 0,25% do PIB, também depois de um ano. Isso significa que, se a taxa de juro cair 3 pontos porcentuais este ano (incluindo o recente corte de um ponto), como estima o mercado – de acordo com o Boletim Focus -, a dívida cairá 0,75% do PIB. Esse impacto ocorrerá depois de um ano. Mas haverá um efeito sobre a dívida proporcional ao número de meses em que prevaleceram as novas taxas Selic.

A queda da taxa de juro impacta diretamente os títulos indexados à Selic em poder do público, que somavam R$ 453 bilhões em dezembro de 2008. Impacta diretamente também sobre títulos colocados no mercado pelo Banco Central nas chamadas operações compromissadas. Esses papéis são usados pelo BC para regular a liquidez diária do mercado. Em dezembro, essas operações chegavam a R$ 406 bilhões.

Há ainda um efeito indireto: a Selic baliza a rentabilidade de todos os demais títulos, como os pré-fixados. Esse efeito indireto, no entanto, não é mensurado pelos cálculos do Tesouro ou do Banco Central.

Essa ajuda da queda da Selic, no entanto, não é garantia absoluta para a redução da dívida pública líquida, alertam os técnicos do governo.

Outro fator terá efeito desfavorável para a trajetória da dívida. Se a economia crescer muito pouco este ano, advertem os técnicos, o ganho obtido com a queda dos juros poderá ser inteiramente anulado. Os técnicos estimam que, se o PIB apresentar uma expansão de apenas 1% este ano, a dívida líquida como proporção do PIB subirá, mesmo com a ajuda da queda dos juros. As estimativas foram feitas levando-se em conta um superávit primário de 3,8% do PIB e a manutenção da taxa de câmbio em R$ 2,2 por dólar.

No ano passado, a dívida líquida caiu 6% do PIB, principalmente por conta da megadesvalorização do real, provocada pela crise internacional. Como o Brasil é atualmente um credor líquido em dólar, ou seja, tem mais ativos em dólares do que dívidas, toda vez que há uma desvalorização da moeda brasileira, a dívida líquida cai. Mas o crescimento da economia acima de 5% em 2008 e o superávit primário de 4,07% do PIB também ajudaram muito.

O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, não tem dúvida de que a dívida líquida cairá este ano como proporção do PIB. “A trajetória que desenho é descendente”, disse ao Estado. “A velocidade da queda é que será menor”, afirmou, em referência à redução ocorrida no ano passado.

Augustin informou que a previsão que consta da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2009 é que a dívida líquida chegue a 38% do PIB em dezembro deste ano. “Ao final de dezembro de 2008, ela já ficou em 36% do PIB”, lembrou. Mas ele não arrisca projetar um número para o final deste ano.

Quando a sua estimativa era de que a economia brasileira cresceria 3,2% este ano, o BC chegou a projetar uma queda da dívida líquida em 1% do PIB. Essa estimativa foi feita quando a Selic estava em 13,75% ao ano. Em março, quando divulgar o primeiro Relatório de Inflação de 2009, é provável que o BC altere a previsão para o crescimento e faça cálculos com base numa Selic bem menor.

NÚMEROS

R$ 8,6 bilhões
é o tamanho da redução da dívida pública federal, ao longo de um ano, para cada ponto porcentual de queda na taxa Selic, de acordo com cálculo do Tesouro Nacional

0,75% do PIB
é a estimativa de redução da dívida líquida caso a taxa básica de juros caia três pontos porcentuais até dezembro deste ano, como apontam as previsões

R$ 453 bilhões
é o volume total de títulos públicos emitidos e que podem ser impactados com a queda da taxa

38% do PIB
é a previsão do tamanho da dívida pública em relação a todas a riquezas que o País produzirá até o fim do ano, segundo consta na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2009

6% do PIB
foi quanto a dívida caiu em 2008

09/02/2009 - 09:10h Despesa cresceu menos que o PIB

Ribamar Oliveira, O Estado SP

email: ribamar.oliveira@grupoestado.com.br

Um resultado importante da política fiscal no ano passado não pode passar sem o devido registro. Pela primeira vez, nos últimos 14 anos, as despesas primárias da União (não incluem o pagamento dos juros das dívidas públicas) apresentaram um crescimento menor do que o Produto Interno Bruto (PIB). Em 2008, os gastos subiram 9,3% para uma variação nominal do PIB estimada em 11,7%.

Nessa avaliação, o ano de 2003 não foi considerado. Ele é atípico, pois a receita bruta do Tesouro Nacional naquela ano foi equivalente a 18,9% do PIB, contra 19,3% do PIB em 2002. Por causa dessa queda da arrecadação, o governo fez um corte em suas despesas equivalente a 0,5% do PIB. A política fiscal executada em 2003 não expressa, portanto, uma tendência e ela é considerada, na área técnica, como um ponto fora da curva.

Há uma particularidade que torna o resultado fiscal de 2008 ainda mais significativo: as despesas de custeio caíram, em proporção do PIB, enquanto os gastos com investimento subiram muito. De acordo com a Secretaria do Tesouro Nacional (STN), a variação dos gastos de custeio ficou 4,1% abaixo da variação nominal do PIB estimado para 2008. Os investimentos, por seu lado, subiram R$ 6,2 bilhões em relação a 2007 e cresceram 14,4% acima do crescimento nominal do PIB.

É importante observar que os gastos de custeio considerados na estatística da STN não incluem as despesas com pessoal. Essas cresceram muito no ano passado, por conta das reestruturações de carreiras e reajustes dos servidores civis e militares concedidos pelo presidente Lula. Elas passaram de 4,48% do PIB para 4,51% do PIB – o aumento nominal dos gastos com a folha salarial foi de R$ 14,5 bilhões em relação a 2007, de acordo com a STN.

Mesmo com o expressivo crescimento das despesas com pessoal, os gastos do Tesouro fecharam o ano passado em 10,20% do PIB, ante 10,32% do PIB em 2007, o que representa uma redução de 0,12 ponto porcentual. Essa queda, no entanto, precisa ser relativizada, pois decorreu, principalmente, da redução das despesas com subsídios, subvenções econômicas e reordenamento de passivos. Este item das despesas, que o governo administra sem muita transparência, caiu 0,18 ponto porcentual do PIB em 2008.

A análise dos dados fiscais de 2008 mostra que as despesas do Tesouro Nacional cresceram R$ 27,7 bilhões em relação ao ano anterior e, mesmo assim, caíram em proporção do PIB. Além do aumento da folha salarial, os gastos com educação, saúde e assistência social subiram muito. Ou seja, mesmo com as despesas do Tesouro Nacional crescendo 10,3% em 2008, acima, portanto, da inflação do período, elas diminuíram em proporção ao PIB. A explicação para esse fenômeno é que o crescimento nominal do PIB foi ainda maior.

O resultado de 2008 é uma prova irrefutável de que a estratégia definida pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci – de fazer a despesa crescer em ritmo menor do que o PIB – é factível e não implica arrocho. No final de 2005, o Palácio do Planalto rejeitou a proposta fiscal de Palocci, que, no entanto, foi colocada em prática, sem alarde, no ano passado.

Para o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, mais importante que a redução do gasto em proporção do PIB foi a mudança obtida em 2008 no perfil da despesa. “Os investimentos subiram muito e os gastos com custeio caíram”, observou, em conversa com este colunista. “Essa é a alteração que queremos fazer.”

O problema é que o resultado obtido em 2008 poderá ser também um ponto fora da curva. Este ano, as despesas crescerão muito e a expansão do PIB será pequena. Em outras palavras: os gastos deverão crescer novamente em proporção do PIB.

O crescimento das despesas já está contratado, pois resulta do aumento já concedido ao funcionalismo público federal (sob a forma de reestruturação de carreiras) e da elevação do salário mínimo, de R$ 415 para R$ 465. Para compensar o aumento do gasto, o governo não contará este ano com um crescimento expressivo do PIB. Em proporção do PIB, portanto, a despesa deve aumentar.

O secretário Augustin garantiu, no entanto, que o resultado obtido em 2008 não foi pontual. Ele afirmou que melhorar o perfil da despesa pública é uma estratégia de médio e longo prazo do governo. Vamos torcer para que o governo realmente execute essa estratégia.

02/02/2009 - 10:13h Nacionalização pode virar realidade

ANÁLISE

Um “banco podre” poderia absorver os títulos tóxicos

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=inAOZ2ZIZKuY

Por DAVID E. SANGER – The New York Times – Folha SP

WASHINGTON
Dias após o início do governo de Barack Obama nos EUA, membros da nova administração e líderes democratas no Congresso já estão às voltas com uma das questões mais politicamente delicadas sobre o socorro financeiro: o presidente está preparado para nacionalizar uma enorme parcela do sistema bancário do país?

Em conversas privadas, a maioria dos membros da equipe econômica de Obama admite que a rápida deterioração dos maiores bancos dos EUA, o Bank of America e o Citigroup, poderá exigir muito mais dinheiro dos contribuintes, além dos mais de US$ 300 milhões já despejados nessas duas instituições financeiras e em centenas de outras.

Mas se tantos bilhões de dólares em novos investimentos são necessários para aprumar esses bancos, e talvez seus concorrentes, o que os contribuintes receberão em troca? E como crescem os riscos na medida em que o papel do governo se expande de apenas alguns salvamentos ao controle de uma vasta porção do setor financeiro da maior economia do mundo? O governo Obama só está fazendo referências oblíquas a essas questões. Em uma recente entrevista em um programa político, a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, se referiu a um debate interno quando foi perguntada se a nacionalização, ainda que parcial, dos maiores bancos era uma boa ideia.

“Podem dar o nome que quiserem”, disse Pelosi, democrata da Califórnia. “Se nós os reforçarmos, então a população americana deverá receber parte das vantagens desse reforço. Alguns chamam isso de nacionalização. Não estou falando em propriedade total”, ela logo advertiu —e se conteve fazendo uma pergunta: “Algum dia pensamos que poderíamos usar esse termo? ‘Nacionalizar bancos’?”

Até agora, os principais assessores de Obama evitaram completamente essa palavra e ainda discutem ativamente outras alternativas, incluindo a criação de um “banco podre”, que nacionalizaria os empréstimos em moratória, tirando-os das mãos das instituições financeiras, sem realmente assumir a propriedade dos bancos. Outros falam em uma nacionalização de fato, em que o governo tem uma participação considerável nos bancos, mas não majoritária, com tudo o que isso conota.

Isso já aconteceu; os contribuintes hoje são os maiores acionistas do Bank of America, com cerca de 6% das ações, e do Citigroup, com 7,8%. Mas a influência do governo é muito maior do que sugerem esses números, porque ele garantiu que vai absorver os prejuízos de alguns dos ativos mais tóxicos dos bancos, cifra que poderá chegar a centenas de bilhões de dólares. Muitos acreditam que essa forma de propriedade híbrida —parte governo, parte privada— não será factível. “A tese da nacionalização total está muito mais forte hoje do que alguns meses atrás”, disse Adam Posen, vice-diretor do Instituto Peterson de Economia Internacional, instituição de pesquisa independente. “Se você não tiver a maioria, não pode demitir a direção, derrotar acionistas, declarar que vai apenas assumir os prejuízos e recomeçar.”

Membros da equipe econômica de Obama —entre eles Timothy Geithner, secretário do Tesouro, e Lawrence Summers, principal assessor econômico do presidente— argumentaram, durante a crise financeira asiática dos anos 1990, que os governos são péssimos administradores de bancos.

Os riscos da nacionalização sobre os quais eles advertiram então se aplicam igualmente aos EUA hoje. O primeiro é que a nacionalização pode ser contagiante. Se o governo encampasse o Bank of America e o Citigroup, investidores privados poderiam decidir sair de instituições como JP Morgan Chase e Wells Fargo, ou outros grandes bancos, temendo que elas sejam as próximas.

Além disso, assessores de Obama dizem ter consciência de que, frente à percepção de que está dirigindo bancos, o governo poderá sofrer forte pressão política para impedir falências ou para emprestar dinheiro a projetos em dificuldades nos redutos com eleitorados poderosos.

Mas a nacionalização talvez seja a única maneira de tirar as grandes instituições financeiras da espiral descendente. Neste momento, muitos bancos relutam em cancelar suas dívidas ruins e absorver enormes prejuízos, a menos que possam primeiro levantar capital suficiente para amortecer o golpe. Só que eles não podem atrair esse capital sem antes purgar os ativos tóxicos de seus balanços.

A nacionalização poderia tirar os bancos do abismo, ao menos temporariamente. Mas alguns republicanos acusariam Obama de estar levando os EUA ao socialismo. Segundo Charles Geisst, historiador financeiro do Manhattan College em Nova York, nacionalização “simplesmente não é um termo do vocabulário americano”. “Pensamos nisso como algo que os estrangeiros fazem contra nós, e não que nós fazemos”, continuou.

Outra opção é o governo comprar os ativos mais tóxicos dos bancos por meio de um fundo gigante ou, mais provavelmente, um “banco podre”, com apoio federal, destinado a comprar investimentos problemáticos. O problema é que daí os contribuintes deteriam todos os piores ativos dos bancos.

Limpar os ativos ruins sem impor um alto preço para diretores, acionistas e credores é sobre o que Summers e Geithner advertiram durante a crise asiática.

“Dissemos aos asiáticos que precisavam se dispor a deixar bancos e empresas falirem”, disse Jeffrey Garten, professor na Escola de Administração de Yale e integrante do governo de Bill Clinton (1993-2001). “Avisamos-lhes de que havia um grande risco moral se os governos os socorressem. E hoje estamos fazendo exatamente o contrário do que aconselhamos.”

Colaborou Eric Dash, em Nova York

31/01/2009 - 15:48h Brasil passa de vidraça a estilingue para os países ricos. Para empresários, país continua “sólido”

http://www.revistafatorbrasil.com.br/imagens/fotos/wef2

ENVIADO ESPECIAL A DAVOS- FOLHA SP

José Sergio Gabrielli, o presidente da Petrobras, foi escolhido por seus pares das empresas do ramo para presidir a “Cúpula da Energia”, que faz anualmente seu encontro em Davos.
Passará, pois, a coordenar as reuniões do grupo, que conta com as grandes petrolíferas do planeta, estatais ou privadas.
A escolha de Gabrielli é uma óbvia homenagem à empresa que preside, especialmente em foco depois das descobertas no pré-sal. Mas é também um homenagem ao Brasil, que, neste ano, no encontro do Fórum Econômico Mundial, passou nitidamente da velha condição de vidraça para a de estilingue.
Tanto é assim que Ricardo Villela Marino, executivo-chefe para a América Latina do banco Itaú e eleito um dos jovens líderes globais deste ano pelo Fórum, estufou o peito para dizer que “o Brasil e os bancos brasileiros não são parte do problema, são parte da solução”, sendo o mal, como é óbvio, a crise.
Marino lembrou os “bilhões” despejados pelo mundo rico para evitar a quebra de seus bancos e emendou: “Nada disso aconteceu no Brasil”.
Logo depois, Gabrielli tomou a palavra para fazer outra comparação representativa da troca de vidraça por estilingue. Afirmou que não era só no setor bancário que o Brasil tinha algo a ensinar ao mundo rico. “Também em matéria de política fiscal sadia estamos melhor que os Estados Unidos” [cujo déficit cresce a cada hora].
O bordão “política fiscal sadia” foi usado pelo mundo rico anos a fio para passar sermões em empresários e autoridades brasileiros. Que Gabrielli o use agora tem sabor de vingança.
Na sua vez, o chanceler Celso Amorim lembrou, por exemplo, dos US$ 20 bilhões que as empresas brasileiras investiram no exterior, quando, em anos anteriores, empresários e autoridades brasileiras usavam Davos para uma espécie de passada de chapéu, implorando por investimentos externos.
O próprio tema do almoço já era uma homenagem ao Brasil, ao tratá-lo como “new power broker”, um mediador internacional de peso, em tradução livre. Claro que é preciso alguma ginástica para evitar pessimismo ou números negativos. Pouco antes do almoço, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, havia clamado pela retomada dos créditos por parte do sistema financeiro, “no mundo todo”.
Villela Marino, do Itaú, preferiu desconversar. Afirmou que “o crédito não desapareceu; apenas ficou mais focado e mais seletivo”. À Folha, depois da sobremesa, contou que continua havendo aumento dos empréstimos no Brasil, mas que a curva é bem inferior à anterior à crise, até setembro.
“O crédito tornou-se mais escasso e mais caro, mas continua crescendo”, afirmou.
O moderador do almoço, David Schlesinger, editor-chefe da agência Thomson-Reuters, introduziu uma provocação, ao perguntar a Amorim se o fato de o presidente Lula ter preferido ir ao Fórum Social Mundial, em Belém, em vez de Davos, era um “manifesto”.
Amorim, como é óbvio, disse que não, lembrando que Lula, em seus seis anos de mandato, esteve já três vezes em Davos. Brincou: “O problema é que a demanda por Lula é maior que a oferta de Lulas”. (CR)
Para empresários, país continua “sólido”

MARIA CRISTINA FRIAS
ENVIADA ESPECIAL A DAVOS

O Brasil e outros países emergentes devem ser os primeiros a sair da crise, dizem participantes do Fórum Econômico Mundial.
O presidente da Braskem, Bernardo Gradin, disse ontem acreditar que o país deva sair mais rapidamente da crise, tão logo a liquidez volte aos mercados, em razão de seus bons fundamentos. “Temos bancos sólidos, líquidos e sem ativos podres; grandes empresas também estão capitalizadas. Se éramos competitivos com dólar a R$ 1,50, mais ainda agora. Mas o pior ainda pode vir e devemos estar preparados caso o fundo do poço não tenha chegado.”
Mike Kubena, executivo da PriceWaterhouseCoopers baseado na República Tcheca, focado em mercados emergentes, também é da opinião de que mesmo os emergentes muito dependentes de commodities, como o Brasil, serão os primeiros a se recuperar, tão logo a liquidez melhore. De um lado, graças à sua flexibilidade e capacidade de se adaptar a muitas crises e, de outro, por não ter problemas no sistema financeiro e, sim, bons fundamentos.
“Esta crise não é dos emergentes”, disse, repercutindo uma frase comum entre palestrantes de países como Índia e África do Sul.
O secretário da Fazenda do Rio de Janeiro, Joaquim Levy, secretário do Tesouro na equipe do ex-ministro Antonio Palocci, por sua vez, disse que deverá haver uma sincronia na melhora dos países. “O mais provável é que os efeitos sejam menores no Brasil, mas é difícil não haver um certo sincronismo. Em vez de crescer 6%, cresceremos 3%, talvez, mas cresceremos”, afirmou.
“O Brasil tem sido visto aqui em Davos, é arriscado dizer, como um oásis, o que não é. Mas tem sido considerado um país onde as oportunidades são maiores que os problemas”, disse Gradin, depois de participar de sessão sobre o Brasil.
Um ponto a favor do país, comentado no encontro por mais de um participante, é a combinação do crescimento da renda familiar do país, sem alavancagem, e de programas sociais, como o Bolsa Família.
Brasileiros presentes em Davos compartilham o temor geral de que países se fechem em medidas protecionistas.
Mesmo assim, o painel sobre o Brasil foi repleto de otimismo da parte dos brasileiros. “As sessões sobre o Brasil tinham sempre como título algo que o evocasse como o país do futuro, e agora somos o “novo poder”. O país tem um papel na economia global”, disse Luiz Fernando Furlan, presidente do Conselho de Administração da Sadia.
Para ele, a queda da atividade será assimétrica. “Acabamos de ouvir neste painel que as vendas de Coca-Cola estão normais agora em janeiro, assim como as nossas. No mês passado, a Sadia teve recorde de vendas para meses de dezembro.”
Já Sérgio Fogel, membro do Conselho de Administração da Odebrecht S.A., disse que, apesar de o Brasil estar relativamente bem, “não devemos nos iludir”. “É preocupante ficarmos só entoando loas a nós mesmos. Seria bom aproveitar esse momento para avançar nas grandes reformas de que o país precisa.”

27/01/2009 - 15:28h O economista que previu a crise continua pessimista

 

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Emma Brockes, THE GUARDIAN* – O Estado SP

O escritório em Nova York da empresa de consultoria de Nouriel Roubini é tão austero como a situação atual: uma escrivaninha, um telefone, alguns blocos de anotações e 134 páginas impressas de uma lista da Wikipédia de todos os bancos do mundo.

Há três anos, Roubini foi repudiado, tachado de fatalista enganador, quando detectou uma enorme vulnerabilidade do sistema bancário dos Estados Unidos, prevendo o seu colapso. Agora, Roubini converteu-se num guru, atraindo o interesse de governos, diretores de bancos, mas e até de sites de fofocas de Nova York.

Foi o The New York Times que o apelidou asperamente de Dr.Doom (Dr. Catástrofe) ao fazer um perfil do economista no ano passado, identificando-o como um herói insólito da crise. Em 2006, Roubini fez um discurso no Fundo Monetário Internacional, quando, entre outras coisas, previu que a economia americana corria o risco de um colapso imobiliário e uma profunda recessão, com consequências tenebrosas para o resto do mundo.

Hoje, ele sorri timidamente e diz que outras pessoas também previram esse cenário, mas ninguém foi tão preciso como ele, nem tão grave, nem foi tão ridicularizado como ele pelo sóbrio mundo da economia. Na época, seu discurso foi recebido como uma idiossincrasia de alguém que gostava de fazer teatro. Mesmo hoje alguns dizem que ele só teve sorte. É o caso do economista Anirvan Banerjee, que, indagado pelo The New York Times sobre Roubini, respondeu que “até um relógio parado acerta a hora duas vezes por dia”.

Esse tipo de menção faz Roubini rapidamente esquecer a modéstia. Acusa de ingênuo o economista, que previu um crescimento quando a crise já se intensificava. “Dizer que foi apenas sorte da minha parte é um absurdo. Fiz previsões concretas que acabaram sendo certas. Exatamente.”

Ele cita um estudo elaborado em fevereiro do ano passado intitulado “Doze passos para o desastre financeiro”, onde “cada passo foi exatamente como a crise se desenvolveu nos últimos seis meses”. “Eu disse que as duas maiores corretoras do país (EUA) iriam à falência e não haveria nenhuma grande corretora independente nos próximos dois anos. Ora, bastaram sete meses para o Bear Stearns e o Lehman (Brothers) quebrarem. Não foi uma análise imprecisa da minha parte quando declarei que ocorreria uma crise financeira. Fui bem explícito. E acertei.” Ele encolhe os ombros e sorri ante o peso de estar certo em meio à estupidez generalizada.

As razões pelas quais Roubini foi o primeiro a prever a crise têm a ver, talvez, com seus antecedentes profissionais e pessoais, e com o que ele chama de abordagem “holística” na interpretação de dados econômicos. Roubini nasceu em Istambul, a família transferiu-se para o Irã quando ele ainda era bebê e depois para a Itália, onde cresceu.

Ele fala quatro línguas fluentemente (farsi, inglês, hebreu e italiano) e trabalhou em todo o mundo, incluindo dois anos como assessor político no Tesouro dos EUA. Segundo ele, o primeiro sinal de alerta foram as similaridades que observou entre regiões em desenvolvimento e o comportamento da economia dos EUA. Para sua surpresa, viu um padrão de movimento econômico nos EUA que, em 2005, parecia muito com a “economia de mercados emergentes”, com a mesma “exuberância irracional” que, na sua opinião, só poderia ser seguida de um enorme colapso.

“Você examina a história, os dados políticos, os modelos, e faz comparações”, diz. “Esta crise não é um evento totalmente extraordinário, uma consequência aleatória de uma distribuição aleatória. Foi um acúmulo de vulnerabilidades que aumentaram com o tempo”, diz. “Tivemos dezenas de sinais distintos de que tudo acabaria num ponto de não retorno. A ocorrência de uma crise era algo totalmente óbvio para mim.”

É tentador fazer perguntas a Roubini como se ele fosse um oráculo. Mas seu histórico recente faz com que seja irresistível. Para começar, ele acha que 2009 deve ser apagado completamente. Do ponto de vista financeiro, diz ele, está perdido. No “Jogo do Pior Cenário”, Roubini olha para o mundo avançado e considera que muitas economias estão sob o risco de seguir o caminho da Islândia e se tornarem insolventes. A maior parte é de pequenas nações da Europa Ocidental.

“Se uma grande instituição (financeira) na Suíça, na Holanda, na Bélgica ou na Irlanda enfrentar um problema, o país não tem recursos suficientes para resgatá-la”, avisa.

A Grã-Bretanha está em um estado tão ruim quanto os Estados Unidos do ponto de vista fiscal. Segundo ele, a necessidade de as decisões na zona do euro serem aprovadas por consenso faz com que resgates de instituições financeiras sejam mais difíceis de implementar.

Roubini diz que mais fundos hedge (os mais arriscados do mercado) vão quebrar, mas o efeito em cascata nem sequer começou a ser sentido. “As perdas agora estão concentradas nas hipotecas. Espere até que atinjam os imóveis comerciais, as companhias de cartão de crédito, os empréstimos automotivos, o crédito estudantil e os bônus corporativos. Há uma pilha de coisas. O sistema financeiro está insolvente. Está tecnicamente falido.”

*Emma Brockers é articulista

27/01/2009 - 10:03h Lula quer que crédito oficial gere empregos

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Paulo de Tarso Lyra, de Brasília – VALOR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ontem, durante o programa Café com o Presidente, que os empréstimos feitos por bancos públicos sejam condicionados à geração de empregos. Segundo o presidente, isso é o que “conta para a distribuição de riqueza e para a melhoria de vida das pessoas”. Lula lembrou que, apesar do mau resultado do emprego em dezembro, o país terminou o ano com um saldo positivo de 1,460 milhão de novos empregos. “Precisamos nos preparar para evitar que em 2009 a gente tenha um nível de desemprego grande”, disse ele.

“Vamos cuidar para que os empréstimos dos bancos públicos, seja BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNB e Basa, quando eles fizerem os empréstimos ou créditos, que isso esteja ligado à geração de postos de trabalho, porque é o que conta para a distribuição de riqueza e para a melhoria de vida das pessoas”, declarou Lula.

Lula também destacou as duas medidas anunciadas na semana passada como importantes na tentativa do governo de amenizar os impactos da crise internacional: o aporte de R$ 100 bilhões para o BNDES e o novo plano de investimentos de R$ 174 bilhões da Petrobras pelo período de 2009 a 2013.

“A Petrobras tem grandes investimentos, sobretudo na área de exploração do pré-sal. A quantidade de navios que ela tem que contratar, a quantidade de sondas, a quantidade de plataformas, a quantidade de barcos de apoio são extremamente importantes para o projeto de desenvolvimento do Brasil.” Quanto à injeção de recursos do Tesouro no BNDES, Lula acredita que ele vai ajudar as empresas que tomavam dinheiro emprestado em dólar e passaram dificuldades pela escassez de crédito internacional.