11/06/2009 - 13:51h A atual política anticrise do governo Lula está dando certo e a recessão começa a passar


A recessão começa a passar no mundo

Alberto Tamer* – O Estado SP

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Já existe um consenso entre os economistas e instituições internacionais: a recessão deve terminar neste ano e a recuperação se iniciará em 2010. Mas será uma recuperação lenta e desigual, maior nos EUA e nos países emergentes e irrisória na Europa. Até mesmo um economista sempre severo em suas análises, como Paul Krugman, afirmou nesta semana que a recessão nos EUA deve terminar no segundo semestre. O crescimento do PIB deve fechar o ano em torno de 0%. Pouco interessa se for um pouco mais ou menos, o importante são os sinais de que a economia americana e grande parte da mundial deixou de afundar.Não se devem repetir PIBs de 6%. A confirmar-se isso, teremos passado por uma recessão profunda, mas curta. Ou, podemos dizer, uma recessão grande, mas não uma grande recessão.

BRASIL NA LINHA DE FRENTE

brasil_olho.jpgO resultado menos negativo do PIB no primeiro trimestre mostra que isso é ainda mais válido no Brasil. Previa-se uma retração de até 2% e foi de 0,8%. Tendo em vista a queda de 3,6% no último trimestre de 2008, é difícil ver algum crescimento significativo nos próximos meses, mas está claro que estamos saindo da recessão. Insisto, porém, em reafirmar que não há muita diferença entre recuar 1% ou crescer 1%; ambos resultados significam uma economia frágil,ainda exposta a crises externas, o que exige do governo intensificar a atual política anticrise, que está dando certo. É a ela que devemos esse desempenho menos negativo do PIB e à perspectiva de que estamos em condições de superar tudo ainda neste ano.

Vejam, somente as medidas de estímulo ao consumo estão injetando na economia cerca de R$ 100 bilhões neste ano. E, mais acertadamente ainda, o governo anuncia que estuda redução do imposto sobre salários para aumentar o poder de compra do consumidor.

NEM TUDO É MENOS MAU

minhacasa1.jpgO resultado do IBGE apresenta pontos altamente negativos, como a queda de 12,6% nos investimentos, a forte e resistente retração da produção industrial e o recuo das exportações. Isso certamente vai afetar o crescimento nos próximos meses.

Cabe ao governo insistir em três pontos básicos: intensificar as medidas de incentivo ao consumo, pôr em pratica uma política de comércio exterior por meio de impostos sobre a produção e incentivos diretos às exportações; e, finalmente, continuar estimulando o setor de construção civil, grande gerador de demanda de emprego. Cumpre, assim, a meta social, de oferecer casa à população, e econômica, de reativar o crescimento. Felizmente, já vem fazendo uma boa parte disso.

DÁ PARA CONFIAR NELES?

dinheirocorrendo.gifMas, de qualquer forma, continuamos na dependência do que vier a acontecer lá fora. Será que as economias desenvolvidas e outras emergentes, que representam a maior parte do PIB mundial, não vão desandar novamente, impedindo que voltemos a crescer?

Pode ser, mas, pelo menos no momento não parece muito provável, principalmente em países que têm hoje um papel decisivo na recuperação mundial, como os EUA e a China.

E o que estamos vendo? Nos EUA, dez grandes bancos devolveram ao Tesouro US$ 68 bilhões recebidos em momento de extrema urgência. E insinuam que é só o começo. Levantaram recursos no mercado, até mesmo vendendo ativos, para livrar-se da fiscalização direta e da intervenção do governo em suas atividades e decisões. Mas o Tesouro mostrou que continua vigilante: só aceitou o pagamento depois de analisar as contas e ver se não iria enfraquecê-los, expondo-os a novos problemas. Não quer que comece tudo de novo… Assim, até ontem recusavam receber devoluções de grandes bancos. Entre estes, o Citi e o Bank of American, que pretendia repagar US$ 90 bilhões. O fato de o sistema financeiro começar a buscar soluções de mercado é um indício de mudança em relação ao pânico de há alguns meses.

OBAMA CAUTELOSO

obama_caricatura.gifO presidente americano, a cuja política anticrise devemos tudo isso, mostrou-se cauteloso diante desses fatos. “Não é sinal de que nossos problemas passaram. Muito longe disso. A crise que esta administração herdou ainda está criando efeitos dolorosos nas empresas e nas famílias. Mas é um sinal positivo.”

Foi esse também o tom do seu secretário do Tesouro, para quem há ainda um longo e difícil caminho pela frente. Haverá avanços e recuos, mas o caminho de saída está sendo aberto.

VEJAM OS NÚMEROS!

A coluna concorda, e aproveita para responder a leitores que nos criticam por estarmos sendo otimistas demais. Não. Estamos apenas confrontando situações de há algumas semanas com a atual e registrando os sinais não para o futuro distante, mas para os próximos meses, a curto prazo. Para mim, isso é realismo, é não se deixar impressionar e influenciar por fatores altamente negativos do passado, desde que eles não estejam se repetindo no presente. Bastam duas estatística do IBGE: o PIB do último trimestre de 2008 despencou catastróficos 3,6% e no primeiro trimestre deste ano apenas 0,8%. Será que isso não significa nada? Não é sinal de recuperação? Não há como negar.

No cenário externo, a economia americana recua menos e a da China – o grande mercado – não deverá crescer neste ano apenas 5%, como o governo previa, mas 7,5%, pela estimativa oficial divulgada ontem. Estão injetando trilhões na economia. Ambos são nossos mercados preferenciais e projetam um cenário de relativa esperança.

Só resta a Europa, o “Continente Perdido”, onde o BC recusa-se a baixar o juro mesmo com inflação 0. Mas isso não afetará nosso crescimento. Ele vai depender ainda por algum tempo do mercado interno, que hoje representa 60% do PIB. Ele vai bem. E o governo tem ainda espaço para continuar intensificando a política anticíclica de incentivo ao consumo.

*E-mail: at@attglobal.net

10/05/2009 - 11:08h Brasil, caso único. Mais crédito mesmo em recessão

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Alberto Tamer* – O Estado SP

 


Tudo indica que já estamos tecnicamente em recessão, pois se espera mais um Produto Interno Bruto (PIB) negativo. Espera-se mais um PIB negativo no primeiro trimestre, após uma queda brusca de 3,6% nos últimos três meses do ano passado. Apesar disso, a confiança externa no Brasil continua em alta porque os fundamentos da economia são positivos. Entre janeiro e quarta-feira, o Tesouro captou US$ 1,77 bilhão.

O último lançamento de títulos era de US$ 500 milhões, mas a demanda foi bem maior, chegando a US$ 750 milhões. Tudo vencendo em 2019 e a taxa de juros declinante, o que é um forte indício de confiança. O primeiro lançamento em janeiro foi com juro de 6,1% e o desta semana 5,80%. Outros países, como a Colômbia, pagaram 7,3%.

E, atentem, isso em meio a um mercado financeiro ainda tenso, dominado por medo, cautela e incerteza.

Nesta semana, houve um pouco de alívio com o resultado do teste de estresse feito nos 19 maiores bancos, revelando uma situação menos grave do que o esperado.

O Tesouro afirma que esses bancos americanos precisam de cerca de US$ 75 bilhões do setor privado ou serão socorridos pelo governo. O Tesouro e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) afirmaram na sexta-feira que há recursos para atender imediatamente a todos, afastando, assim, o fantasma de um novo Lehman Brothers.

ELES ESTÃO VOLTANDO

Um bom sinal foi que logo após o anúncio do resultado do teste, dois bancos, o Morgan Stanley e o Wells Fargo, conseguiram levantar em apenas um dia, na sexta-feira, US$ 11,5 bilhões no setor privado. Para Wall Street, há sinais de que os investidores estão voltando ao mercado. “Não é o fundo do poço, mas o apetite dos investidores por ações e títulos é espantoso”, afirmou Michael Halaby do BNP Paribas, em Nova York ao Financial Times.

SAÍMOS NA FRENTE

Mas o Brasil saiu na frente. Antes mesmo do resultado do teste, o Tesouro nacional voltou ao mercado externo, em janeiro, e captou US$ 1,025 bilhão com prazo de vencimento em 2019 a juros declinantes. O mesmo foi feito pelo setor privado.

Nos últimos dias, corria no mercado financeiro que a agência Moody’s estaria estudando a elevação do grau de investimento do Brasil, o que poderia ocorrer muito em breve.

O Tesouro já anunciou que tem a maior parte dos dólares necessários para pagar o vencimento da dívida externa neste ano. Deve continuar aproveitando a excepcional imagem do Brasil no exterior para reforçar as reservas cambiais que praticamente continuam intactas. Nós continuamos a caminhar bem enquanto os outros tropeçam e até ameaçam cair.

VAMOS CONTINUAR ASSIM?

Depende. No momento, estão entrando tantos dólares que até incomoda… Esse cenário poderá manter-se se não houver nenhuma outra catástrofe no mercado financeiro internacional. Poucos esperam que isso ocorra, mas a maioria não descarta essa hipótese.

PERDA DE US$ 590 BILHÕES!

Ao mesmo tempo, o Fed informou na sexta-feira que os 19 grandes bancos submetidos ao teste podem sofrer perdas de US$ 599 bilhões até o fim do próximo ano. Esse é um quadro que não inspira muita confiança, mesmo com o governo declarando-se disposto a socorrer aos que precisarem.

PODE PIORAR

E é exatamente por isso que o Tesouro está aproveitando o bom momento para o Brasil.Quer captar tudo o que for preciso ainda este ano, prevenindo-se contra um eventual agravamento da crise financeira.

Afinal, não se sabe bem qual é o valor dos chamados títulos tóxicos. O Fundo Monetário Internacional estima que sejam US$ 2,8 trilhões só nos EUA. Ampliando-se para o mundo, o FMI chega a US$ 4 trilhões!

Muito ainda pode acontecer.

Certo, o Tesouro e os bancos centrais dos países mais envolvidos começam a enfrentar esse desafio com mais vigor, mas chegaram atrasados, principalmente, na União Europeia.

Tudo seria menos difícil se a economia desses países voltassem a crescer. Mas para isso é imprescindível resolver a crise no sistema financeiro que, associada à desconfiança e à redução do crédito, está provocando uma forte retração da demanda. Um grave efeito colateral é o aumento do desemprego que, nos EUA, chegou a 8,9%. No Brasil ele está em 8,5% sem dar sinais de se estabilizar.

ESTAMOS CERTOS

A coluna apresentou esse panorama para concluir que a equipe econômica está certa ao “entesourar” o que puder para se prevenir contra o pior, mesmo que essa possibilidade não seja imediata e até mesmo remota. Está certa também ao atacar desde o início as duas frentes, estímulo à demanda com a redução seletiva de impostos, ao mesmo tempo em que manejam a liquidez em um mercado financeiro felizmente sólido.

Devemos ter ainda pela frente tempestades e furacões que rugem lá fora, mas as barragens que estamos construindo para sermos menos afetados estão funcionando até agora.

Estou quase tentado a dizer que em meio a tanto infortúnio externo, somos até “felizes” e não sabíamos, mas não digo para não me chamarem de novo de otimista inconsequente.

Não sou não.Nem um pouco.Apenas um pessimista em fase de conversão.

*E-mail: at@attglobal.net

08/05/2009 - 11:09h Para os investidores o Brasil é um porto seguro

Tesouro capta mais US$ 750 mi no exterior

Oferta era de US$ 500 milhões, mas demanda foi maior

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Renata Veríssimo e Fabio Graner – O Estado SP

Aproveitando o maior apetite dos investidores internacionais pelo risco, o Tesouro Nacional realizou ontem mais uma emissão de títulos de dívida externa com vencimento em 2019. Foi a segunda venda desses papéis brasileiros no ano. A oferta inicial de títulos foi de US$ 500 milhões, mas, diante da demanda “muitas vezes” maior que a oferta, o Tesouro colocou no total US$ 750 milhões.

Além do volume acima do inicialmente projetado, o Tesouro vai pagar menos juros para os investidores que compraram os papéis. A taxa de retorno dos títulos ficou em 5,80% ao ano, ante 6,127% anuais da emissão realizada em janeiro. Naquele mês, o mercado teve um período de relativa euforia em decorrência da posse do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o Tesouro aproveitou a oportunidade para acessar o mercado externo, em uma operação que na ocasião foi considerada um sucesso pelo governo.

A venda de ontem teve um spread (diferença em relação ao papel americano de prazo semelhante) de 2,52 pontos porcentuais, ante 3,70 pontos porcentuais da emissão do mesmo título em janeiro. Essa diferença a menor, na avaliação do Tesouro, decorre da combinação de maior taxa dos títulos americanos com o menor juro pago pelo Brasil.

Segundo o Tesouro, o objetivo da reabertura do Global 2019 foi melhorar a estrutura da dívida externa, aproveitando as melhores condições do mercado. “A emissão teve caráter eminentemente qualitativo”, informou uma fonte. O Tesouro considera que um volume mínimo adequado para um papel ter liquidez no mercado é de US$ 2 bilhões. O Global 2019 conta, com a emissão de ontem, com um total de US$ 1,75 bilhão, o que indica que uma nova reabertura pode acontecer no futuro.

O Tesouro também divulgou que já tem a maior parte dos dólares necessários para o pagamento dos vencimentos da dívida externa este ano. Segundo o Plano Anual de Financiamento (PAF), o montante a vencer em 2009 é de R$ 16,1 bilhões.

O órgão destacou ainda que o Brasil tem conseguido colocar seus papéis no mercado com custo menor do que o de outros países emergentes.

Lembrou que a Colômbia emitiu US$ 1 bilhão em abril em papéis de 10 anos com a taxa de retorno (Yield) de 7,375% ao ano. Segundo outra fonte, os fundamentos econômicos do País deram flexibilidade para que o governo acesse o mercado somente nos melhores momentos, sem ter de captar recursos a qualquer custo.

O Tesouro anunciou ainda a possibilidade de emitir adicionalmente até US$ 37,5 milhões do Global 2019 no mercado asiático. Essa decisão seria tomada na noite de ontem e anunciada hoje.

NÚMEROS

US$ 500 milhões foi a oferta inicial de títulos da dívida pública externa feita pelo Tesouro Nacional para captação no mercado externo.

US$ 750 milhões foi quanto o Tesouro acabou emitindo, em razão da grande demanda.

5,8% é a taxa de juros que será paga pelo Brasil no vencimento dos títulos, em 2019

6,127% é a taxa de retorno da operação anterior

08/05/2009 - 08:34h Poupança com saldo maior pagará IR. Para 95% dos poupadores nada mudara

http://www.terra.com.br/istoedinheiro/409/fotos/poupanca.jpgPara evitar custo político, Lula quer excluir mais de 95% dos poupadores da mudança da regra causada pela queda nos juros

Para estimular investidor a permanecer nos fundos de investimento, governo prepara medidas para desonerar o setor

KENNEDY ALENCAR – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Com receio do desgaste político, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu anteontem em reunião com a equipe econômica que a maioria dos aplicadores não será atingida pelas mudanças de regras de remuneração que irão fazer a caderneta de poupança render menos.
Segundo a Folha apurou, o governo vai cobrar IR (Imposto de Renda) sobre os rendimentos a partir de um patamar alto de aplicação -o que deixaria, nas palavras de um ministro, “mais de 95%” dos aplicadores com as atuais regras de ganho. Lula pediu que a equipe econômica elaborasse uma proposta para desonerar os atuais fundos de investimento, medida que deverá ser finalizada até a semana que vem.
Dessa forma, Lula estimularia grandes aplicadores a optarem pelos fundos, que recuperariam atrativos apesar da queda da taxa básica de juros, a Selic, que reduz os ganhos dessas aplicações.
Um auxiliar direto de Lula disse à Folha que o temor de dar uma bandeira à oposição na reta final do governo e nas eleições de 2010 levou o presidente a optar por não alterar as regras da poupança para os pequenos e médios aplicadores, a imensa maioria na poupança.
PSDB, DEM e PPS, partidos de oposição, têm criticado a possibilidade de mudança na poupança desde que o governo anunciou que cogitava tal medida após a queda dos juros. Com a redução de 3,5 pontos da Selic desde setembro, os fundos de investimento, que aplicam recursos nos títulos do Tesouro e financiam a dívida pública, perderiam atratividade na comparação com a poupança, que não paga IR e tem remuneração garantida de 6% ao ano mais a variação da TR (Taxa Referencial).
Números do Banco Central mostram que, em dezembro, 80,580 milhões de clientes (89,55% do total) tinham contas com saldo até R$ 5.000,00. Outros 6,578 milhões de contas (7,3% do total) eram de clientes com saldo de R$ 5.000,01 a R$ 20 mil. Menos de 4% dos poupadores possuíam contas acima de R$ 20.000.
Lula fez reuniões com a equipe econômica sob forte contrariedade. Alegava que Fazenda e BC foram imprevidentes ao não alterar com antecedência regras da caderneta e que tomar uma medida impopular na véspera de ano eleitoral seria suicídio político. A decisão de Lula de não mudar as regras para a grande maioria busca minimizar o desgaste político.
As alternativas, avaliou, dariam munição à oposição para falar que o governo “tungou” os pequenos poupadores. O PPS chegou a fazer propaganda na TV comparando a mudança de regras na poupança com o traumático bloqueio de contas do governo Collor, em 1990.
A não alteração das regras para a grande maioria dos aplicadores deverá ser anunciada em breve. Também pesou na decisão de Lula a avaliação de que o espaço para a queda dos juros não será tão grande e permitiria a manutenção do atual formato até o início do próximo governo. A Selic está em 10,25% ao ano, e o mercado prevê 9,25% até dezembro.
Além de tributar parte dos poupadores, Lula recebeu outras propostas da área econômica, que preferia simplesmente acabar com os juros fixos de 6% ao ano. Uma das ideias era vincular o ganho da poupança a um percentual da Selic. Também se cogitaram rendimentos diferenciados de acordo com o saldo ou mudança no cálculo da TR.
Na fórmula decidida por Lula, os grandes aplicadores da caderneta de poupança terão de pagar IR sobre os rendimentos ao fazer a declaração anual. Diante dessa possibilidade, o governo avalia que esses poupadores preferirão aplicar seus recursos nos fundos de investimento. A intenção de desonerar esses fundos seria uma forma de torná-los mais atraentes.
Os fundos de renda fixa são tributados com IR e IOF (Imposto sobre Operação Financeira). O IOF tem uma tabela regressiva. A partir de 30 dias de aplicação, há isenção desse imposto. Já o IR na renda fixa tem uma regressão mais longa.
Até 180 dias, os ganhos nos fundos de renda fixa são taxados em 22,5% de IR. Entre 181 dias e 360, essa cobrança cai para 20%. No intervalo de 361 a 720 dias, há nova queda (17,5%). E acima de 720 dias de aplicação são cobrados 15% de IR. A tributação é feita em maio, outubro ou na data do resgate.
Nos fundos de renda variável, não há cobrança de IOF, mas são pagos 15% de IR no resgate da aplicação.

14/04/2009 - 14:43h EUA podem sair da recessão neste ano, afirma Krugman


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Cenário, contudo, ainda será de baixa atividade econômica; alta do desemprego se estenderá também por 2010, diz economista

Hipótese de crise piorar não é descartada pelo vencedor do Nobel de Economia, para quem estatizar bancos pode ser saída inevitável nos EUA

FERNANDO CANZIAN – Folha SP

DE NOVA YORK

Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia em 2008 por ter analisado com precisão os riscos de o mundo chegar à atual crise, afirmou ontem que os EUA podem sair da recessão ainda neste ano.

Mas, segundo ele, “isso não quer dizer muita coisa”, já que o desemprego no país deve continuar crescendo em 2010 dentro de um cenário de baixíssima atividade econômica.

“Nós devemos desculpas aos japoneses por termos criticado, no início dos anos 1990, a lentidão com que agiram na recuperação do sistema bancário. A década [de 1990] perdida no Japão até que parece um bom negócio vista de onde estamos agora”, disse Krugman em entrevista à imprensa estrangeira em Nova York.
Krugman lembrou que não existe método específico para definir uma recessão nos EUA. Isso se dá, normalmente, quando todos os indicadores econômicos apontam para baixo.

“Em 2001, quando a recessão terminou oficialmente, o desemprego seguiu aumentando por mais um ano e meio”, disse. Ele prevê que isso volte a ocorrer novamente na atual crise.

O economista frisou que a recuperação a partir de 2002 foi justamente impulsionada pela farra na concessão de crédito, que armou o cenário para a atual crise. “A “bolha” de crédito foi a salvação para aquela recessão. Agora, estamos muito pior do que estávamos lá atrás.”

Krugman diz não existir o risco de “depressão” econômica, mas não afasta a hipótese de uma nova e surpreendente piora da crise. “Não sabemos o que pode vir pela frente. Se um país de porte médio estoura, ou se o mercado de imóveis comerciais cair muito mais, o quadro pode piorar rapidamente.”

Doutor em economia pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology) e colunista do “New York Times”, Krugman comparou os últimos oito meses ao período 1930-31, no início da Grande Depressão.

“A diferença com o que ocorreu no passado é que, a partir de 1931, o sistema bancário norte-americano entrou em verdadeiro colapso. Até aqui, estamos tentando preservar o conjunto dos bancos”, disse.

Krugman afirmou, no entanto, não acreditar que o atual plano do Departamento do Tesouro para livrar os bancos dos chamados “ativos tóxicos”, que vêm entupindo o sistema de crédito nos EUA, venha a dar os resultados esperados e diz esperar que o Tesouro norte-americano terá de estatizar parte do sistema bancário.

28/03/2009 - 14:25h A mística do mercado

ARTIGO

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” - FOLHA SP

NA SEGUNDA-FEIRA, Lawrence Summers, o chefe do Conselho Econômico Nacional, respondeu às críticas ao plano do governo Obama para subsidiar a compra privada de ativos tóxicos. “Não conheço nenhum economista que não acredite que mercados de capitais funcionando melhor, nos quais os ativos possam ser negociados, não sejam uma boa ideia.”
Deixe de lado por um momento a questão de se um mercado em que os compradores têm de ser subornados para participar pode realmente ser descrito como “funcionando melhor”. Mesmo assim, Summers precisa sair mais. Alguns economistas reconsideraram sua opinião favorável sobre os mercados de capitais e a negociação de ativos à luz da crise atual.
Mas ficou cada vez mais claro nos últimos dias que autoridades graduadas do governo Obama ainda estão presas à mística do mercado. Elas ainda acreditam na magia do mercado financeiro e na proeza dos magos que a executam.
A mística do mercado nem sempre dirigiu a política financeira. A América saiu da Grande Depressão com um sistema bancário rigidamente regulamentado, que fez das finanças um negócio sóbrio e até aborrecido. Os bancos atraíam os depositantes fornecendo localizações convenientes de agências e talvez uma ou duas torradeiras de brinde; usavam o dinheiro assim captado para fazer empréstimos, e era isso.
E o sistema financeiro não era apenas aborrecido. Também era, pelos padrões de hoje, pequeno. Mesmo durante os “anos go-go”, o mercado altista da década de 1960, finanças e seguros juntos representavam menos de 4% do PIB. A relativa desimportância das finanças se refletia na lista de ações que formavam a Média Industrial Dow Jones, que até 1982 não continha uma única companhia financeira.
Tudo parece primitivo pelos padrões de hoje. Mas aquele sistema financeiro aborrecido e primitivo serviu a uma economia que duplicou os índices de padrão de vida no período de uma geração.
Depois de 1980, é claro, surgiu um sistema financeiro muito diferente. Na era Reagan, de mentalidade desregulamentadora, a banca à moda antiga foi cada vez mais substituída pela especulação em grande escala.
O novo sistema era muito maior que o antigo regime: à véspera da crise atual, finanças e seguros representavam 8% do PIB, mais que o dobro de sua participação nos anos 60. No início do ano passado, o Dow Jones incluía cinco companhias financeiras -entre elas gigantes como AIG, Citigroup e Bank of America.
E as finanças tornaram-se nada aborrecidas. Atraíram muitas de nossas mentes mais agudas e fizeram algumas pessoas imensamente ricas. Sob o novo mundo glamouroso das finanças estava o processo de securitização. Os empréstimos não ficavam mais com o credor. Em vez disso, eram vendidos para outros, que cortavam em fatias, picavam e faziam purê das dívidas individuais para sintetizar novos ativos. Hipotecas “subprime”, dívidas de cartão de crédito, empréstimos para carros -tudo entrava na processadora do sistema financeiro.
Do outro lado, supostamente, saíam doces investimentos AAA. E os magos financeiros foram generosamente recompensados pela condução desse processo.

Eram fraudes
Mas os magos eram fraudes, quer eles soubessem disso quer não, e sua magia veio a ser nada mais que uma coleção de truques baratos. Acima de tudo, a promessa chave da securitização -que tornaria o sistema financeiro mais robusto ao espalhar mais os riscos- veio a ser uma mentira. Os bancos usaram a securitização para aumentar seu risco, e não para reduzi-lo. Nesse processo tornaram a economia mais, e não menos, vulnerável aos distúrbios financeiros.
Mais cedo ou mais tarde as coisas tinham de dar errado, e acabaram dando. O Bear Stearns faliu; o Lehman faliu; mas principalmente a securitização faliu. O que nos traz de volta à abordagem do governo Obama para a crise financeira.
Grande parte da discussão sobre o plano de ativos tóxicos se concentrou nos detalhes e na aritmética, e com razão. Além disso, no entanto, o que é marcante é a visão manifestada tanto no conteúdo do plano financeiro como em declarações de autoridades do governo. Na essência, o governo parece acreditar que quando os investidores se acalmarem a securitização e os negócios financeiros poderão retomar de onde pararam um ou dois anos atrás.
Para ser justo, as autoridades estão pedindo mais regulamentação. Na verdade, na quinta-feira Tim Geithner, o secretário do Tesouro, explicou planos para aumentar a regulamentação que teriam sido considerados radicais pouco tempo atrás. Mas a visão subjacente permanece a de um sistema financeiro mais ou menos igual ao que havia dois anos atrás, embora um pouco mais controlado por novas regras. Como você pode adivinhar, eu não compartilho essa visão.
Não acho que isso seja apenas um pânico financeiro; eu acredito que representa o fracasso de todo um modelo de banca, de um setor financeiro que cresceu demais e causou mais dano que bem. Não acho que o governo Obama seja capaz de trazer a securitização de volta à vida, e não acredito que deva tentar isso.

PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do jornal “The New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

24/03/2009 - 10:36h Plano Geithner: Política financeira do desespero

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Paul Krugman, THE NEW YORK TIMES * – O Estado SP

No fim de semana, The Times e outros jornais noticiaram os detalhes, que haviam vazado, do plano de salvamento dos bancos elaborado pelo governo Obama. Se os artigos estiverem corretos, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, convenceu o presidente Barack Obama a reciclar a política do governo Bush – especificamente, o plano “cash for trash” (dinheiro por lixo) abandonado, há seis meses, pelo então secretário do Tesouro, Henry Paulson.

É mais do que uma decepção. Na realidade, isso me enche de desespero. Afinal, acabamos de passar pela tempestade provocada pelas bonificações pagas pela AIG aos seus executivos. Ao mesmo tempo, o governo não conseguiu dirimir as indagações a respeito do que os bancos estão fazendo com o dinheiro dos contribuintes.

E agora Obama aparentemente montou um plano financeiro que, em essência, pressupõe que os bancos são fundamentalmente sadios e que os banqueiros sabem o que estão fazendo. É como se o presidente estivesse determinado a confirmar a crescente percepção de que ele e sua equipe econômica não têm senso de realidade, que sua visão econômica está obnubilada por vínculos excessivamente estreitos com Wall Street. Quando Obama se der conta de que precisa mudar de curso, seu capital político talvez já tenha desaparecido.

Falemos um pouco da situação. Neste exato momento, nossa economia é arrastada para o buraco por um sistema financeiro deficiente, paralisado pelas enormes perdas dos títulos atrelados a hipotecas e outros ativos. Como os especialistas em História da economia poderão explicar, é uma situação que continua se repetindo, em nada diferente de dezenas de outras crises semelhantes ocorridas ao longo dos séculos. Existe um procedimento consagrado pela prática para tratar dos efeitos de uma crise financeira abrangente: o governo assegura a confiança no sistema garantindo muitas dívidas dos bancos. E, ao mesmo tempo, assume o controle temporário dos bancos, para limpar seus livros contábeis.

É o que a Suécia fez no início dos anos 90. É também o que nós fizemos depois da debacle das instituições de poupança e empréstimos dos anos Reagan. Não há motivo para, agora, não fazermos a mesma coisa.

Mas o governo Obama, como o do Bush, aparentemente procura uma saída mais fácil. O elemento comum aos planos de Paulson e de Geithner é a insistência em que os ativos podres valem muito mais do que qualquer um está disposto a pagar. E, portanto, o plano deve usar o dinheiro dos contribuintes para que os preços dos ativos podres cheguem a níveis “justos”. Paulson propôs que o governo pagasse diretamente pelos ativos. Geithner propõe um esquema complicado, segundo o qual o governo empresta dinheiro a investidores privados, que o usam para comprá-los. A ideia, afirma o principal assessor econômico de Obama, é usar “a capacidade e a experiência do mercado” para estabelecer o valor dos ativos tóxicos.

Mas o plano de Geithner oferece uma aposta segura: se os valores dos ativos subirem, os investidores lucrarão, mas se caírem, abandonarão a dívida. Portanto, não se trata de deixar que os mercados façam seu trabalho. Trata-se de uma forma indireta de subsidiar.

Deixando de lado o custo provável da operação para os contribuintes, há algo estranho ocorrendo. Na minha opinião, é a terceira vez o governo Obama lança um remanejamento do plano Paulson, cada vez acrescentando coisas supérfluas e garantindo que estão fazendo algo completamente diferente.

Mas o problema real é que não funcionará. Sim, os ativos podres talvez sejam um tanto subvalorizados. O fato é que os executivos do setor financeiro apostaram literalmente seus bancos na convicção de que não havia bolha da habitação e na crença de que níveis de endividamento sem precedentes com a compra da casa própria não constituíam nenhum problema. Perderam a aposta. E nenhuma mágica financeira – pois o plano de Geithner não passa disso – poderá mudar esse fato.

Perguntarão: por que não adotar o plano e ver o que acontece? Uma resposta é que o tempo está se esgotando: a cada mês que passa sem que se encontre uma solução para a crise financeira, mais 600 mil empregos serão eliminados.

Mas o mais importante é que Obama está desperdiçando sua credibilidade. Se seu plano falhar – como quase certamente falhará – é improvável que consiga convencer o Congresso a desembolsar mais recursos para fazer o que ele deveria ter feito logo de início.

Entretanto, nem tudo está perdido: o público quer que Obama consiga o que pretende; o que significa que ele ainda pode salvar seu plano de ajuda aos bancos. Só que o tempo está se esvaindo muito depressa.

*Paul Krugman é articulista

24/03/2009 - 10:06h Pacote de Obama é alternativa à estatização

Detalhes do plano de Geithner afastam por enquanto o temor de soluções radicais temidas pelos investidores

http://cinie.files.wordpress.com/2009/02/data-geithner.jpg
Secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner

Fernando Dantas – O Estado SP

O mercado respirou aliviado ontem, com o sinal de que o governo americano finalmente fez uma opção firme sobre a direção a tomar para superar a gravíssima crise financeira, optando por uma solução de mercado e não estatizante para lidar com o problema trilionário dos ativos tóxicos.

“Havia uma crítica de que faltava diagnóstico, ação e consenso político, e hoje nós começamos a ver algum movimento, o que é positivo”, analisou Beny Parnes, diretor-executivo do Banco BBM e ex-diretor do Banco Central (BC). Ele ressalva, porém, que “o problema é complexo e de solução muito demorada”. Para Parnes, ainda não está claro se a velocidade de execução do plano, se ele tiver de fato a adesão do setor privado, será suficiente para conter a queda na economia real.

Há quase um consenso entre economistas e participantes do mercado de que o problema dos ativos tóxicos – rebatizados como ativos “legados” ou “herdados” (o que significa o rescaldo ruim do passado recente) – é o principal nó da crise global. “Este plano revela os preços (dos ativos) e injeta liquidez nos bancos, com um pouco de incentivo aos investidores (privados)”, diz o economista Otaviano Canuto, que está em transição de uma vice-presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para uma do Banco Mundial.

O plano de Geithner é criar vários fundos que disputarão as carteiras de crédito e os títulos de securitização de crédito considerados tóxicos. Esses fundos serão parcerias público-privadas, em que o investidor e o Tesouro dividem o capital em 50%. O detalhe crucial, porém, é que, para comprar os ativos tóxicos, no caso das carteiras de crédito, o investidor recebe empréstimos do governo garantidos pela Corporação de Seguro de Depósito Federal (FDIC, na sigla em inglês).

No exemplo do próprio Tesouro, o investidor que arriscar US$ 6 poderia alavancar, em parceria com o Tesouro, US$ 84. Mas perderá, no máximo, os US$ 6 iniciais. “Se o fundo perder tudo, US$ 72 serão prejuízo do contribuinte”, explica um analista de banco.

Essa abordagem, em que o governo estimula o próprio setor privado a comprar os ativos tóxicos, tira de cena – pelo menos por enquanto – as hipóteses de nacionalização ou da formação do chamado “banco ruim” ou “agregador”, onde seriam jogados todos os ativos podres. Tanto num caso como no outro, é provável que os credores dos bancos tivessem perdas ou fossem forçados a converter os créditos em capital (o que também prejudica os acionistas atuais, pela diluição).

A circulação dessas hipóteses de uma abordagem mais traumática da crise bancária pelo governo Obama, nos últimos meses, é um dos fatores que explicam a queda das ações dos bancos a níveis ínfimos.

18/03/2009 - 16:02h Estados pedem revisão de dívidas com a União

Com o fim iminente do subsídio federal, pelo menos 13 das 27 unidades da Federação já discutem meios de realizar repactuação dos contratos

O Estado SP

De olho na queda dos juros prevista para os próximos meses, governadores e prefeitos decidiram que vão cobrar do governo federal uma nova renegociação das dívidas dos Estados e dos municípios com a União. Em pelo menos 13 das 27 unidades da federação, já estão sendo discutidos meios de se realizar essa repactuação, como a ocorrida em 1997.

“Não tem cabimento agora Estados e municípios pagarem juros maiores do que aquele que passou a prevalecer”, afirmou o governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Ele se referia à possibilidade de que, pela primeira vez em mais de 10 anos, os juros cobrados dos Estados deixarem de ser subsidiados, ou seja, inferiores à taxa Selic. Para o governador paulista, a taxa básica de juros precisa cair ainda mais e essa discussão sobre as dívidas públicas terá de acontecer.

“Esse é um problema que ou já apareceu ou vai aparecer, na medida em que os juros declinam”, declarou Serra. “E quero dizer que é necessário que os juros declinem para que a economia brasileira não continue nesse mergulho para baixo.”

Hoje, o custo da dívida renegociada é de 6% ao ano mais correção pelo Índice Geral de Preços (IGP-DI), a inflação medida pela Fundação Getúlio Vargas. Se a Selic (taxa básica de juros da economia) ficar abaixo de 6% ao ano, em termos reais (descontada a inflação), os governos estaduais e municipais estarão subsidiando a União – ou seja, o custo das dívidas renegociadas será maior do que o Tesouro Nacional paga para captar dinheiro no mercado.

O prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab (DEM), também defende a flexibilização da dívida. Com um gasto mensal de mais de R$ 200 milhões para honrar essa dívida, Kassab afirmou ontem em Brasília que tem o “maior interesse em encontrar um caminho para atenuar um pagamento tão pesado” – o que não aconteceria com a mudança dos juros, mas com a alteração na parcela da receita líquida atualmente destinada ao pagamento da dívida (13%).

O prefeito, porém, diz ser contra qualquer alteração na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para que essa renegociação seja efetivada. “É fundamental para o País que essa fique como está. Ela veio para ficar”, disse Kassab.

É que, para fazer uma nova renegociação das dívidas, o governo teria de propor uma mudança da LRF, pois seu artigo 35 proíbe a realização de operação de crédito entre um ente e outro da Federação, “ainda que sob a forma de novação (uma nova dívida para substituir a anterior), refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente”.

O governo da Bahia tem mesma posição. O secretário estadual da Fazenda, Carlos Martins, afirma que o governador Jaques Wagner (PT) é favorável à renegociação dos contratos, “mas sem rasgar a Lei de Responsabilidade Fiscal”.

INVESTIMENTOS

Em São Paulo, na Bahia e em Mato Grosso, os governos defendem redução das parcelas mensais de pagamento da dívida. O secretário da Fazenda de São Paulo, Mauro Ricardo, explica que o Estado já aderiu ao movimento liderado pelo Mato Grosso de pedir a renegociação das dívidas, desde que haja comprometimento de que os recursos que deixarem de ser pagos à União sejam usados em investimentos em infraestrutura, para atenuar os efeitos da crise.

“Em vez de pagar juros altíssimos à União, poderíamos ter esses recursos circulando na economia real, para garantir a perenidade dos empregos e gerar novos postos de trabalho”, afirma Eder Moraes, secretário da Fazenda do Mato Grosso.

Outros Estados que confirmaram que defenderão uma nova renegociação das dívidas são Acre, Amazonas, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Piauí, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os governadores de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), e de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB), se declararam indecisos.

CONTRAPROPOSTA

O coordenador do Grupo dos Gestores Financeiros (Gefin), órgão auxiliar do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), Cesar Ferreira, disse ontem que até sexta-feira apresentará aos secretários de Fazenda dos Estados uma minuta, em que são propostas algumas alterações no trato das dívidas com a União. Entre as propostas está uma reivindicação antiga, que é a mudança do indexador do IGP-DI para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA).
ADELSON BARBOSA DOS SANTOS, ANDREA VIALLI, EDUARDO KATTAH, ELDER OGLIARI, EUGÊNIA LOPES, EVANDRO FADEL, JOÃO NAVES, JÚLIO CASTRO, LUCIANO COELHO, RICARDO BRANDT, RICARDO RODRIGUES, WILSON LIMA,
SILVIA AMORIM e TIAGO DÉCIMO


RJ e ES são contra proposta

Wilson tosta – O Estado SP

Os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, e do Espírito Santo, Paulo Hartung, ambos do PMDB, declaram-se contrários à ideia de renegociar os contratos das dívidas dos Estados com a União. “Acho extremamente delicado abrir uma discussão dessas em um momento em que o País acabou de receber completamente os efeitos da crise internacional, com efeitos no mercado de trabalho em dezembro e agora com os números do PIB, com queda de receitas da União, dos Estados e dos municípios”, avaliou Hartung. “Em uma hora dessas, não ajuda o País.”

Para o governador capixaba, no momento, “os entes federados devem cortar custeio, controlar despesas e ver o que é possível investir, sobretudo em setores que gerem maciçamente empregos”.

Cabral propõe alternativas para o momento. “Talvez, no curto prazo, o mais importante seja o Ministério da Fazenda dar mais espaço de endividamento sempre que os limites estejam abaixo do teto da Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso pode ter um efeito maior do que abrir uma grande discussão”, afirmou. “No curto prazo, o teto de 13% (da receita, para pagamento da dívida) protege os Estados, e se o real não se depreciar mais, o IGP-DI mais 6% ainda se compara com o custo de financiamento da União”, diz Cabral.

11/03/2009 - 11:08h A crise e a política econômica

Cristiano Romero – VALOR

Se alguém ainda acredita que o Brasil foi atingido apenas por uma marolinha da crise mundial, é bom dar uma olhada nos números do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2008. Uma boa imagem para retratar o que aconteceu é a do atleta que, correndo uma maratona, acelerou o passo nas últimas voltas, aproximou-se dos primeiros colocados, mas, repentinamente, escorregou e levou um tombo. O acidente não foi capaz de debilitá-lo de forma definitiva, mas ele ainda não sabe quando voltará a correr como antes.

No trimestre anterior ao do desastre, o PIB brasileiro cresceu, quando comparado ao mesmo período de 2007, 6,8% em termos anualizados. Entre outubro e dezembro, expandiu-se apenas 1,3% em relação ao último trimestre do ano anterior. Foi uma desaceleração brutal. Ainda assim, o resultado não foi capaz de tirar o brilho do desempenho de 2008, quando a economia cresceu, pelo segundo ano consecutivo, acima de 5%.

Está claro, portanto, que o que derrubou o PIB brasileiro nos últimos meses foi exclusivamente a crise financeira internacional, apontada por muitos analistas como a mais grave desde a Grande Depressão, de 1929. Não fosse a crise, o Brasil poderia ter fechado 2008 com a maior taxa de crescimento em duas décadas. E o melhor: com a inflação sob controle (dentro do intervalo de variação previsto no regime de metas).

O que levou o país ao seu melhor momento em quase 30 anos foi uma política persistente de estabilização iniciada em 1994, com o lançamento do Plano Real, aperfeiçoada em 1999, com a adoção do tripé superávit primário-câmbio flutuante-metas para inflação, e fortalecida em 2003, com a decisão do governo Lula de incrementar o esforço primário. A severa crise internacional, que reduziu fortemente a demanda externa e secou as fontes de financiamento, interrompeu o ciclo de crescimento da economia brasileira, mas não a desorganizou nem colocou em xeque o modelo adotado há dez anos.

Apesar da gravidade da crise, e ao contrário das turbulências anteriores, o Brasil não quebrou. Além disso, diferentemente de algumas nações emergentes, o país dispõe hoje de vários instrumentos, e os está utilizando, para enfrentar as dificuldades. Abandonar, a essa altura, o modelo escolhido e testado ao longo de uma década seria colocar em risco a construção institucional que, antes da crise, acelerou o crescimento. Por incrível que pareça, há, no governo, quem defenda mudança de rumo, mas, justiça seja feita, fora também – ontem, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, instou o presidente Lula a intervir no BC.

O diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, João Sicsú, propôs que o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) promova um corte significativo da taxa básica de juros (Selic) – ele não deixa sua proposição muito clara, porque, na verdade, recomenda que a taxa caia 5,75 pontos percentuais gradativamente até outubro, mas também sugere que se faça isso de uma só tacada, na reunião de hoje do Copom. Sicsú sustenta que a redução da Selic geraria economia fiscal em 2009 de algo entre R$ 30 bilhões (se a queda da Selic for gradual) e R$ 43 bilhões (se for imediata). Com isso, o governo manteria um dos componentes da demanda funcionando – o gasto público.

O cálculo foi feito sobre a parcela da dívida pública indexada à Selic. Não se levou em conta o que aconteceria com o restante da dívida e também com a inflação (em 11 páginas da nota técnica, a palavra não aparece uma só vez), na hipótese de uma redução imediata dos juros na magnitude sugerida por Sicsú. O corte da taxa Selic provocaria a deterioração imediata das expectativas de inflação. No momento em que isso acontecesse, a inflação implícita nos papéis indexados a índices de preços subiria. No momento em que o Tesouro fosse renovar essa parcela da dívida, o custo de rolagem aumentaria. Nos papéis prefixados, a curva de juros empinaria, porque haveria expectativa de inflação mais alta.

Hoje, registre-se, a curva de juros está flat para negativa, porque o mercado está projetando juros cadentes. As incertezas, que surgiriam em função do movimento sugerido por Sicsú, elevariam os prêmios de risco embutidos na dívida, contribuindo também para aumentar seu custo.

Sicsú trata a despesa oficial com juros como um gasto discricionário, algo que se decide fazer ou não. No texto, o diretor do Ipea diz que a despesa com juros “tem uma capacidade aproximadamente nula de gerar empregos e renda”, ao contrário dos investimentos em infraestrutura e dos gastos sociais. O sujeito que ganha dinheiro comprando títulos públicos, alega Sicsú, já tem “suas necessidades de consumo satisfeitas”. O que ele apura é transformado em poupança ou é gasto em “produtos importados que não geram empregos no país” – ora, se o sujeito que lucra emprestando ao governo tem sua “necessidade de consumo já satisfeita”, por que ele, quando torra os caraminguás, opta por comprar produtos estrangeiros?

Sicsú alega que a redução da Selic, neste momento de crise, estimularia de forma modesta o aumento dos gastos privados, mas teria efeitos fiscais importantes. “Cortar gastos sociais, correntes ou de investimento significa reduzir a demanda da economia e reduzir ainda mais as possibilidades de crescimento”, afirma.

Por trás da argumentação do diretor da Ipea está o conceito de dominância fiscal, segundo o qual, a definição dos juros pelo BC deve ser guiada por questões de natureza fiscal. Desde 1999, só houve um momento em que o Copom agiu desse maneira – em 2002, mas naquele momento a crise era genuinamente brasileira e o Estado caminhava para a insolvência. Nos anos seguintes, o país se livrou dessa armadilha e a taxa de juros voltou a ser calibrada apenas para controlar a inflação.

Neste momento, em todo o mundo, os bancos centrais estão derrubando os juros para tentar livrar suas economias da depressão. O BC brasileiro está no mesmo caminho. Há grande chance de promover uma forte queda da Selic nesta e nas próximas reuniões, sem descuidar, porém, da inflação. O modelo segue funcionando.

Cristiano Romeroé repórter especial e escreve às quartas-feiras.

21/02/2009 - 10:08h Roach prevê contração de 1% na economia global

Para o presidente do Morgan Stanley na Ásia, em 2010 poderá haver expansão de 2,5% a 3%, haverá nova retração no ano seguinte

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Cláudia Trevisan – O Estado SP

A economia global deverá encolher 1% este ano, na primeira queda desde o fim da 2ª Guerra Mundial, enquanto o o crescimento da China ficará em torno de 5,5%, o menor em 19 anos. Essas previsões foram feitas ontem pelo presidente do Morgan Stanley na Ásia, Stephen Roach, célebre por alertar para o potencial devastador dos desequilíbrios globais muito antes de a crise atual ter início.

Para ele, a situação poderá melhorar em 2010, com expansão mundial entre 2,5% a 3%, impulsionada principalmente pelos investimentos em infraestrutura previstos nos pacotes de estímulo de Washington e Pequim.

Mas a economia poderá perder fôlego novamente no ano seguinte. O resultado serão três anos (2009-2011) com crescimento médio mundial de 2%. “Teremos contrações simultâneas em todos os grandes países ricos e recessão ou desaceleração no mundo em desenvolvimento”, disse Roach, durante encontro com um grupo de jornalistas em Pequim.

Segundo ele, a economia chinesa está em pior situação que o crescimento de 6,8% no quarto trimestre de 2008 leva a crer. Na comparação com o trimestre anterior, o ritmo de expansão ficou próximo de zero e deverá permanecer assim no início de 2009, acredita.

Pelo menos desde 2004, o economista sustentava que o modelo de crescimento norte-americano, amparado no consumo e no endividamento excessivos, era insustentável e terminaria em uma severa recessão. Seu cenário demorou a se concretizar, mas seus efeitos se espalharam com rapidez impressionante pelo mundo a partir de setembro de 2008.

“Os consumidores norte-americanos gastaram muito além do que podiam nos últimos 14 anos e o consumo atingiu o recorde de 72% do PIB em 2007″, ressaltou. Agora, Roach espera um período de 3 a 5 anos de “redução significativa” no crescimento do consumo nos Estados Unidos.

Washington e Pequim estarão no centro dos ajustes necessários para a superação da crise, observou o economista. “Os Estados Unidos precisam poupar mais e consumir menos, enquanto a China precisa poupar menos e consumir mais.”

PROTECIONISMO

O grande risco é que a recessão nos Estados Unidos leve o Congresso e o governo a adotarem medidas protecionistas, algo já insinuado na cláusula do pacote de US$ 787 bilhões que exige que o aço e o ferro utilizado em projetos governamentais sejam produzidos nos Estados Unidos. A China reagiu e disse que a medida poderá minar o relacionamento entre os dois países.

Na terça-feira, Roach, em depoimento no Congresso americano, sustentou que medidas protecionistas vão agravar os problemas dos Estados Unidos e do restante do mundo. “Nenhuma relação bilateral é mais importante para o mundo do que a existente entre os Estados Unidos e a China e será trágico se esse relacionamento for prejudicado”, disse Roach.

No Congresso, ele lembrou que a China é o principal financiador do colossal déficit em conta corrente americano e afirmou que Pequim poderia retaliar, se ausentando dos leilões de venda de títulos do Tesouro.

“Essa não é uma consideração trivial para um país que precisa de cerca de US$ 3 bilhões de fluxo de capital a cada dia para financiar seu déficit. Se a China deixar de prover sua parcela de capital para a América, a cotação do dólar poderá despencar e a taxa de juros real de longo prazo, subir.”

No fim de 2009, a China tinha US$ 696,2 bilhões em papéis do Tesouro dos EUA, uma participação de 22,3% na dívida total, de US$ 3,12 trilhões.

15/02/2009 - 09:46h Agora, todos nós somos suecos

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Matthew Richardson Nouriel Roubini *, The Washington Post – O Estado SP

O sistema bancário dos Estados Unidos está à beira da insolvência e, se não quisermos ficar como o Japão nos anos 90 ou os Estados Unidos nos anos 30, o único meio de salvar os bancos é a estatização.

Como economistas defensores do livre mercado, professores de uma escola de administração no coração da capital financeira do mundo, sentimo-nos como se dizendo uma blasfêmia quando propomos que o governo assuma totalmente o controle do sistema bancário. Mas o sistema financeiro dos Estados Unidos chegou a um ponto tão crítico que não há muita escolha. E, embora o recente plano do secretário do Tesouro, Timothy Geithner, para salvar os bancos contenha muitos elementos corretos, basicamente ele chega tarde demais.

A enrascada dos empréstimos hipotecários subprime sozinha não nos forçaria a tomar essa atitude. A soma de US$ 1,2 trilhão envolvida foi apenas o início do problema. Os outros US$ 7 trilhões – que incluem empréstimos para imóveis comerciais, dívidas com cartão de crédito, empréstimos alavancados e títulos de alto rendimento – correm o risco de perder grande parte do seu valor. E ainda existem mais alguns trilhões de dólares em títulos corporativos com classificação AAA ou AA e empréstimos e hipotecas “jumbo”com pagamento garantido cujo valor também vai despencar, à medida que a recessão se aprofunda e mais empresas e famílias deixam de pagar seus empréstimos e hipotecas.

No ano passado, nossa previsão era de que os prejuízos a serem contabilizados pelas instituições financeiras dos Estados Unidos chegariam a US$ 1 trilhão, subindo possivelmente para US$ 2 trilhões. Fomos acusados de exagero. Mas a partir daí as baixas contábeis pelos bancos ultrapassaram a marca de US$ 1 trilhão.

Agora, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Goldman Sachs estão prevendo prejuízos de mais de US$ 2 trilhões.

Mas, se você acha que US$ 2 trilhões é uma soma muito grande, analise os nossos cálculos mais recentes no RGE Monitor, website financeiro que dirigimos: essas estimativas sugerem que o total de perdas sobre empréstimos feitos por bancos nos Estados Unidos, mais a queda do valor de mercado dos ativos mantidos por esses bancos chegará a US$ 3,6 trilhões. O setor bancário americano está exposto à metade desse valor: US$ 1,8 trilhão. Mesmo com os fundos recebidos do primeiro pacote de ajuda federal, no ano passado, o capital aplicado para respaldar os ativos dos bancos foi de apenas US$ 1,4 trilhão, deixando o sistema bancário americano com um rombo de US$ 400 bilhões.

Dois importantes elementos do plano de Geithner são: 1) “aplicar o teste de stress” aos bancos para separar as instituições viáveis daquelas próximas da bancarrota; 2) criar um fundo de investimento com dinheiro público e privado para compra de ativos podres. São medidas necessárias para se ter um setor financeiro próspero.

Mas, infelizmente, o plano não vai solucionar nossas dificuldades financeiras porque ele subentende que o sistema está solvente. Se executado de modo justo para os contribuintes (ou seja, fim dos “agrados” na forma de títulos abaixo do preço, ações preferenciais, garantias de empréstimo ou seguros sobre ativos), só vai confirmar o quão péssimas as coisas estão.

A estatização é a única opção que nos permitirá solucionar o problema dos ativos tóxicos de maneira disciplinada e permitirá também, finalmente, a retomada dos empréstimos. Naturalmente, a economia ainda continuará em má situação, mas a espiral da morte em que estamos será interrompida.

A estatização – ou “liquidação judicial”, se isso soar mais aceitável – não será fácil; entretanto, aqui vai uma série de princípios para o governo se pautar. Em primeiro lugar, e este é o ponto mais difícil, determinar quais são os bancos insolventes. O teste de stress de Geithner seria muito útil nesse caso.

O governo deveria começar com os grandes bancos que têm dívidas fora do país, e determinar quais são solventes e quais não são, para evitar o pânico. De outro modo, permitir a falência de um grande banco provocará uma corrida imediata àquela ação, e aos títulos da dívida de longo prazo de outros. Haverá muitas dificuldades, mas as autoridades reguladoras devem manter uma postura firme.

Em segundo lugar, estatizar imediatamente as instituições insolventes. Os investidores em ações serão eliminados, e os detentores de títulos da dívida de longo prazo terão créditos somente depois que os depositantes e outros credores de curto prazo forem reembolsados.

Em terceiro lugar, uma vez que uma instituição passe para o controle do Estado, separar seus ativos em bons e ruins. Os ativos ruins serão avaliados de acordo com os valores atuais (embora reduzidos). Novamente, como no plano de Geithner, o capital privado poderá adquirir uma fração desses ativos ruins. Quanto aos bons, voltariam a ser privados, quer mediante uma IPO (oferta pública inicial), quer por uma venda a um comprador estratégico.

Os ganhos auferidos pelos ativos bons e ruins iriam, em primeiro lugar, para os correntistas, e depois para os detentores de títulos da dívida, com a possível participação do governo para cobrir os custos administrativos. Se os correntistas forem reembolsados, o governo poderá de fato começar a ter lucros.

Em quarto lugar, fundir todos os ativos ruins restantes em um único empreendimento. Os ativos poderão aguardar o vencimento ou serem vendidos com os ganhos e os riscos decorrentes para os contribuintes.

O resultado final seria um sistema financeiro saudável com muitos bancos novos capitalizados com ativos bons. Os bancos insolventes, grandes demais para falir, seriam desmembrados em partes menores, com menos probabilidade de ameaçar o sistema financeiro como um todo.

Também seriam instituídas reformas em matéria de regulamentação, a fim de reduzir as chances de dispendiosas crises futuras.

A estatização dos bancos tem precedentes. Em 1992, o governo sueco assumiu o controle dos bancos insolventes, limpou-os e depois voltou a privatizá-los. Obviamente, o sistema bancário sueco era muito menor do que o americano. Além disso, algumas das atuais instituições americanas são muito maiores e mais complexas, o que dificulta a análise. E os mercados globais de capital permitem que jogar com o sistema seja mais fácil do que em 1992. Mas nós acreditamos que, se for aplicada de maneira correta, a solução sueca funcionará nos EUA.

A agência encarregada de reestruturar os bancos na Suécia não era uma entidade burocrática sem controle: ela delegou todos os detalhes da limpeza aos bancos privados e aos administradores contratados pelo governo. O processo foi surpreendentemente tranquilo.

Basicamente, hoje somos todos “suecos”. Usamos todas as nossas balas, mas o bicho-papão continua se aproximando. Vamos pegar nossa bazuca e acabar com ele.

*Matthew Richardson e Nouriel Roubini são professores da Escola de Administração Stern, na Universidade de Nova York. Ambos trabalharam no livro a ser lançado Restoring Financial Stability: How to Repair a Failed System (Restaurando a estabilidade financeira: como consertar um sistema falido)

11/02/2009 - 10:14h Por que o plano de Obama fracassará

Martin Wolf – Financial Times – VALOR

Será que a presidência de Barack Obama já fracassou? Em tempos normais, esta seria uma pergunta ridícula. Mas estes não são tempos normais. São tempos de grande perigo. Hoje, o novo governo dos Estados Unidos pode repudiar a responsabilidade por sua herança; amanhã, a responsabilidade será sua. Hoje, pode oferecer soluções; amanhã, terão se tornado o problema. Hoje, está sob controle dos eventos; amanhã, os eventos tomarão seu controle. Fazer pouco agora é muito mais arriscado do que fazer em excesso. Se ele falhar em agir de forma decisiva, o presidente corre o risco de ser sobrepujado, assim como seu antecessor. Os custos para os Estados Unidos e o mundo de outra presidência fracassada não podem nem ser contemplados.

O que é preciso? A resposta é: foco e ferocidade. Se Obama não resolver esta crise, tudo o que ele espera de sua presidência estará perdido. Se a resolver, poderá remodelar sua agenda. Esperar pelo melhor é tolice. Ele deveria esperar pelo pior e agir de forma correspondente.

Esperar pelo melhor, no entanto, é que se vê no programa de estímulo e – pelo que pude julgar até agora do anúncio incompleto, de ontem, do secretário do Tesouro, Tim Geithner – nos novos planos para reparar o sistema bancário. Comentei sobre o primeiro na semana passada. Somente acrescentaria que é extraordinário um presidente novo e popular, enfrentando uma crise econômica das que aparecem a cada 80 anos, ter deixado o Congresso modelar o resultado.

O programa bancário parece ser mais um irmão das intervenções fracassadas do último ano e meio. A credibilidade de Obama estará arruinada se esta “prole do programa governamental de recuperação de ativos problemáticos” (Tarp, na sigla em inglês) falhar. Agora é o momento para ações que pareçam estar próximas da certeza de se resolver o problema; estas, contudo, não parecem ser assim.

Desde o começo, sustentaram-se duas visões contrastantes sobre o que aflige o sistema financeiro. A primeira, é que se trata essencialmente de um caso de pânico. A segunda, é que este é um problema de insolvência.

Pela primeira visão, os preços de um conjunto definido de “ativos tóxicos” foram empurrados para baixo de seu valor de longo prazo e, em alguns casos, tornaram-se impossíveis de vender. A solução, segundo muitos sugerem, é que os governos criem um mercado, comprem ativos ou segurem os bancos contra perdas. Esta foi a lógica por trás do Tarp original e do “super-SIV” (veículo de investimento estruturado, em inglês) proposto pelo secretário do Tesouro anterior, Henry (Hank) Paulson, em 2007.

Pela segunda visão, uma proporção considerável das instituições financeiras está insolvente: seus ativos valem, sob suposições plausíveis, menos do que seus passivos. O FMI argumenta que as possíveis perdas apenas com ativos de créditos originados nos EUA agora estão em US$ 2,2 trilhões, acima do US$ 1,4 trilhão estimado em outubro. É algo quase idêntico às estimativas mais recentes do Goldman Sachs. Em comentários recentes no “Financial Times”, Nouriel Roubini, da RGE Monitor, e a Stern School of New York University estimam que o pico das perdas com ativos gerados nos EUA poderia ser de US$ 3,6 trilhões. Felizmente para os EUA, metade dessas perdas recairá no exterior. O resto do mundo, no entanto, contra-atacará: à medida que a economia mundial implodir, as imensas perdas no exterior – em dívidas soberanas, imobiliárias e empresariais – certamente também recairão sobre instituições dos EUA, com efeitos nefastos.

Pessoalmente, tenho poucas dúvidas de que a segunda visão é a correta e, à medida que a economia mundial se deteriora, ficará cada vez mais claro. Mas este não é o cerne da questão. O cerne é se, na presença de tais incertezas, é correto basear a política esperando pelo melhor. A resposta é clara: autoridades de política monetária precisam supor o pior. Caso a opção revele ter sido pessimista demais, acaba-se ficando com um sistema financeiro excessivamente capitalizado. Caso a opção otimista revele-se errada, ficamos com bancos zumbis e um governo desacreditado. Esta opção certamente não requer muito para se pensar.

O novo plano pareceria fazer sentido apenas se o principal problema fosse a iliquidez. Oferecer garantias e comprar uma parte dos ativos tóxicos, enquanto se limita a injeção de novo capital a menos do que os US$ 350 bilhões restantes no Tarp, não é suficiente para lidar com o problema de insolvência identificado pelos observadores mais informados. Na verdade, qualquer programa de garantias ou de compra de ativos tóxicos acaba sendo uma forma sem efeito, pouco eficiente e injusta de resgatar instituições financeiras mal capitalizadas: sem efeito, porque o governo precisa comprar vastos volumes de ativos duvidosos a preços excessivos ou fornecer garantias generosas demais, para fazer com que bancos insolventes fiquem solventes; ineficiente, porque grandes injeções de capital ou a conversão de dívidas em patrimônio são formas melhores de recapitalizar os bancos; e injusta, porque grandes subsídios iriam para instituições falidas e compradores privados de ativos problemáticos.

Então, por que o governo está fazendo o que parece ser um erro crasso? Pode ser que esteja esperando pelo melhor. Mas também parece estar fazendo-se a pergunta errada. Não se perguntou o que precisa ser feito para se ter a certeza de que haverá uma solução. Em vez disso, perguntou-se o que pode fazer de melhor sob três condições, arbitrárias e autoimpostas: nada de estatização; nada de perdas para os detentores de bônus; e nenhum dinheiro a mais do Congresso. Por que o novo governo, confrontado com uma crise gigantesca, não tenta mudar os termos do debate? Essa timidez é deprimente. Tentar compensar este erro impondo condições enganosas sobre as instituições resgatadas tem mais chances de complicar o erro do que reduzi-lo.

Presuma-se que o problema seja a insolvência e que o valor de mercado modesto dos bancos comerciais dos Estados Unidos (US$ 400 bilhões) sustente-se apenas no apoio do governo. Presuma-se, também, que seja impossível levantar grandes volumes de capital privado atualmente. Então, é preciso haver uma recapitalização de uma das duas formas indicadas acima. Ambas têm suas desvantagens: a recapitalização pelo governo é um resgate de credores e envolve a administração temporária pelo governo; as trocas de dívida por patrimônio prejudicariam os mercados de bônus, seguradoras e fundos de pensão. A opção, contudo, é inescapável.

Se Geithner ou Lawrence Summers, diretor do conselho econômico nacional, estivessem assessorando os EUA como o fariam com um país estrangeiro, destacariam isso, de forma brutal. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse o mesmo, de uma forma bem suave, na Malásia, no sábado.

O conselho correto continua sendo o que os EUA deram aos japoneses e outros países durante os anos 90: admitam a realidade, reestruturem os bancos e, acima de tudo, exterminem as instituições zumbis de uma vez por todas. Também é uma questão importante, mas secundária, se a resposta correta seria criar novos “bancos bons”, deixando os “bancos ruins” velhos para perecer, como meu colega Willem Buiter recomenda, ou criar novos “bancos ruins”, deixando os velhos bancos purificados para sobreviver. Também estou inclinado para o primeiro, porque a cultura dos bancos velhos continua a parecer muito tóxica.

Ao perguntar-se a questão equivocada, Obama está fazendo uma grande aposta. Ele deveria ter resolvido limpar os currais augianos dos bancos. Ele precisa reconsiderar, se já não for tarde demais.

Martin Wolf é colunista do “Financial Times”.

11/02/2009 - 09:27h EUA: Stiglitz e Roubini defendem estatização dos bancos

http://notasaocafe.files.wordpress.com/2008/10/chappatte_24102008_1.jpg

Para economistas, governo deve assumir controle de bancos falidos

 

Kuala Lumpur – O Estado de São Paulo

 


Embora contrária à ideia de livre mercado defendida pelos americanos, a estatização de bancos pode ser um antídoto para a crise financeira no país, segundo Joseph Stiglitz, ex-economista chefe do Banco Mundial e Nobel de Economia, e Nouriel Roubini, economista que previu a crise financeira.Em discurso a dirigentes de bancos centrais em Kuala Lumpur, na Malásia, Stiglitz disse que pode ser difícil para os americanos aceitarem a ideia, “mas nós devemos ir nessa direção”. Sobre o anúncio do pacote de mais de US$ 1 trilhão ao sistema financeiro feito ontem pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, Stiglitz disse que, se está oferecendo bilhões para financiar bancos com problemas, o governo deveria ter um poder maior sobre eles.

Para ele, os temores sobre o controle do governo nos negócios privados são “em grande medida equivocados”. Os bancos vão continuar operando, mas haverá uma prestação de contas muito maior, afirmou Stiglitz. Segundo ele, até agora, o programa de ajuda fracassou. “É muito estranho ter um sistema de alocação de capital quando os que alocam o capital não carregam o risco; isso não é capitalismo, isso não é uma economia de mercado”, disse. “Todas as teorias sobre como uma economia de mercado funciona bem foram totalmente destruídas pelo papel que o governo tem assumido ao absorver o risco”, completou. “É hora de recomeçar”, acrescentou.

ROUBINI

Em Nova York, Nouriel Roubini defendeu, antes da divulgação do novo pacote financeiro, a estatização temporária. “Ninguém é favorável a que os bancos fiquem por muito tempo em poder do governo, mas se isto não for feito, vamos acabar como o Japão, que manteve vivos por uma década bancos zumbis que nunca se reestruturaram”, disse em entrevista publicada no Financial Times.

Segundo ele, após um período nas mãos do Estado, a privatização poderia ocorrer novamente em dois ou três anos. Ele estima que as perdas do setor financeiro ultrapassem US$ 3,6 trilhões até o fim do ano. “Vai ser muito pior. Melhor limpar tudo agora, estatizar e depois vender de novo ao setor privado.”

FRASES

Joseph Stiglitz
Nobel de Economia

“Todas as teorias sobre como uma economia de mercado funciona bem
foram totalmente destruídas pelo papel que o governo tem assumido ao
absorver o risco”

Nouriel Roubini
Economista

“Melhor limpar tudo agora, estatizar e depois vender de
novo ao setor privado”

Para Krugman, plano não está claro

 


O pacote de estímulo fiscal anunciado ontem pelo secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, foi recebido com pessimismo pelo mercado. A falta de detalhes deixou muitas perguntas sem respostas.

Em entrevista ao ‘Wall Street Journal’, o Nobel de Economia e professor da Universidade Princeton, Paul Krugman, disse que para ele não estava claro o significado do plano. “Há uma interpretação de que (o pacote) não é tão ruim, mas não está claro se essa é a interpretação correta”.

Para o economista, em alguns pontos, o pacote parece ser melhor do que o pouco que havia sido vazado nas últimas semanas, mas mesmo assim, não está totalmente claro qual é o “plano”. “Eu realmente não sei, pelo menos baseado nas informações de hoje. Mas, talvez, apenas talvez, seja um Cavalo de Tróia trazendo a política certa”, disse Krugman.

09/02/2009 - 10:02h Queda de juros reduz dívida pública

A cada ponto porcentual da Selic cortado pelo Banco Central, a dívida cairá o equivalente a 0,25% do PIB

Ribamar Oliveira, BRASÍLIA – O Estado SP

O governo terá, este ano, uma ajuda inesperada para fechar suas contas. Por causa dos efeitos negativos da crise internacional sobre a economia, o Banco Central foi obrigado a mudar a trajetória de sua política monetária e, em vez de subir a taxa de juro, terá de derrubá-la. Com isso, a conta dos juros ficará menos pesada, o que permitirá a queda mais fácil da dívida pública líquida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

A trajetória da dívida líquida em proporção do PIB é o principal indicador de solvência das contas públicas e é acompanhada com lupa pelo mercado. A área técnica do Tesouro Nacional estima que a dívida pública mobiliária federal é reduzida em R$ 8,6 bilhões para cada ponto porcentual de queda da Selic (a taxa básica de juro da economia), após o período de um ano.

O Banco Central (BC) calcula que para cada ponto porcentual de redução da Selic, a dívida pública líquida cai 0,25% do PIB, também depois de um ano. Isso significa que, se a taxa de juro cair 3 pontos porcentuais este ano (incluindo o recente corte de um ponto), como estima o mercado – de acordo com o Boletim Focus -, a dívida cairá 0,75% do PIB. Esse impacto ocorrerá depois de um ano. Mas haverá um efeito sobre a dívida proporcional ao número de meses em que prevaleceram as novas taxas Selic.

A queda da taxa de juro impacta diretamente os títulos indexados à Selic em poder do público, que somavam R$ 453 bilhões em dezembro de 2008. Impacta diretamente também sobre títulos colocados no mercado pelo Banco Central nas chamadas operações compromissadas. Esses papéis são usados pelo BC para regular a liquidez diária do mercado. Em dezembro, essas operações chegavam a R$ 406 bilhões.

Há ainda um efeito indireto: a Selic baliza a rentabilidade de todos os demais títulos, como os pré-fixados. Esse efeito indireto, no entanto, não é mensurado pelos cálculos do Tesouro ou do Banco Central.

Essa ajuda da queda da Selic, no entanto, não é garantia absoluta para a redução da dívida pública líquida, alertam os técnicos do governo.

Outro fator terá efeito desfavorável para a trajetória da dívida. Se a economia crescer muito pouco este ano, advertem os técnicos, o ganho obtido com a queda dos juros poderá ser inteiramente anulado. Os técnicos estimam que, se o PIB apresentar uma expansão de apenas 1% este ano, a dívida líquida como proporção do PIB subirá, mesmo com a ajuda da queda dos juros. As estimativas foram feitas levando-se em conta um superávit primário de 3,8% do PIB e a manutenção da taxa de câmbio em R$ 2,2 por dólar.

No ano passado, a dívida líquida caiu 6% do PIB, principalmente por conta da megadesvalorização do real, provocada pela crise internacional. Como o Brasil é atualmente um credor líquido em dólar, ou seja, tem mais ativos em dólares do que dívidas, toda vez que há uma desvalorização da moeda brasileira, a dívida líquida cai. Mas o crescimento da economia acima de 5% em 2008 e o superávit primário de 4,07% do PIB também ajudaram muito.

O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, não tem dúvida de que a dívida líquida cairá este ano como proporção do PIB. “A trajetória que desenho é descendente”, disse ao Estado. “A velocidade da queda é que será menor”, afirmou, em referência à redução ocorrida no ano passado.

Augustin informou que a previsão que consta da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2009 é que a dívida líquida chegue a 38% do PIB em dezembro deste ano. “Ao final de dezembro de 2008, ela já ficou em 36% do PIB”, lembrou. Mas ele não arrisca projetar um número para o final deste ano.

Quando a sua estimativa era de que a economia brasileira cresceria 3,2% este ano, o BC chegou a projetar uma queda da dívida líquida em 1% do PIB. Essa estimativa foi feita quando a Selic estava em 13,75% ao ano. Em março, quando divulgar o primeiro Relatório de Inflação de 2009, é provável que o BC altere a previsão para o crescimento e faça cálculos com base numa Selic bem menor.

NÚMEROS

R$ 8,6 bilhões
é o tamanho da redução da dívida pública federal, ao longo de um ano, para cada ponto porcentual de queda na taxa Selic, de acordo com cálculo do Tesouro Nacional

0,75% do PIB
é a estimativa de redução da dívida líquida caso a taxa básica de juros caia três pontos porcentuais até dezembro deste ano, como apontam as previsões

R$ 453 bilhões
é o volume total de títulos públicos emitidos e que podem ser impactados com a queda da taxa

38% do PIB
é a previsão do tamanho da dívida pública em relação a todas a riquezas que o País produzirá até o fim do ano, segundo consta na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2009

6% do PIB
foi quanto a dívida caiu em 2008

09/02/2009 - 09:10h Despesa cresceu menos que o PIB

Ribamar Oliveira, O Estado SP

email: ribamar.oliveira@grupoestado.com.br

Um resultado importante da política fiscal no ano passado não pode passar sem o devido registro. Pela primeira vez, nos últimos 14 anos, as despesas primárias da União (não incluem o pagamento dos juros das dívidas públicas) apresentaram um crescimento menor do que o Produto Interno Bruto (PIB). Em 2008, os gastos subiram 9,3% para uma variação nominal do PIB estimada em 11,7%.

Nessa avaliação, o ano de 2003 não foi considerado. Ele é atípico, pois a receita bruta do Tesouro Nacional naquela ano foi equivalente a 18,9% do PIB, contra 19,3% do PIB em 2002. Por causa dessa queda da arrecadação, o governo fez um corte em suas despesas equivalente a 0,5% do PIB. A política fiscal executada em 2003 não expressa, portanto, uma tendência e ela é considerada, na área técnica, como um ponto fora da curva.

Há uma particularidade que torna o resultado fiscal de 2008 ainda mais significativo: as despesas de custeio caíram, em proporção do PIB, enquanto os gastos com investimento subiram muito. De acordo com a Secretaria do Tesouro Nacional (STN), a variação dos gastos de custeio ficou 4,1% abaixo da variação nominal do PIB estimado para 2008. Os investimentos, por seu lado, subiram R$ 6,2 bilhões em relação a 2007 e cresceram 14,4% acima do crescimento nominal do PIB.

É importante observar que os gastos de custeio considerados na estatística da STN não incluem as despesas com pessoal. Essas cresceram muito no ano passado, por conta das reestruturações de carreiras e reajustes dos servidores civis e militares concedidos pelo presidente Lula. Elas passaram de 4,48% do PIB para 4,51% do PIB – o aumento nominal dos gastos com a folha salarial foi de R$ 14,5 bilhões em relação a 2007, de acordo com a STN.

Mesmo com o expressivo crescimento das despesas com pessoal, os gastos do Tesouro fecharam o ano passado em 10,20% do PIB, ante 10,32% do PIB em 2007, o que representa uma redução de 0,12 ponto porcentual. Essa queda, no entanto, precisa ser relativizada, pois decorreu, principalmente, da redução das despesas com subsídios, subvenções econômicas e reordenamento de passivos. Este item das despesas, que o governo administra sem muita transparência, caiu 0,18 ponto porcentual do PIB em 2008.

A análise dos dados fiscais de 2008 mostra que as despesas do Tesouro Nacional cresceram R$ 27,7 bilhões em relação ao ano anterior e, mesmo assim, caíram em proporção do PIB. Além do aumento da folha salarial, os gastos com educação, saúde e assistência social subiram muito. Ou seja, mesmo com as despesas do Tesouro Nacional crescendo 10,3% em 2008, acima, portanto, da inflação do período, elas diminuíram em proporção ao PIB. A explicação para esse fenômeno é que o crescimento nominal do PIB foi ainda maior.

O resultado de 2008 é uma prova irrefutável de que a estratégia definida pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci – de fazer a despesa crescer em ritmo menor do que o PIB – é factível e não implica arrocho. No final de 2005, o Palácio do Planalto rejeitou a proposta fiscal de Palocci, que, no entanto, foi colocada em prática, sem alarde, no ano passado.

Para o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, mais importante que a redução do gasto em proporção do PIB foi a mudança obtida em 2008 no perfil da despesa. “Os investimentos subiram muito e os gastos com custeio caíram”, observou, em conversa com este colunista. “Essa é a alteração que queremos fazer.”

O problema é que o resultado obtido em 2008 poderá ser também um ponto fora da curva. Este ano, as despesas crescerão muito e a expansão do PIB será pequena. Em outras palavras: os gastos deverão crescer novamente em proporção do PIB.

O crescimento das despesas já está contratado, pois resulta do aumento já concedido ao funcionalismo público federal (sob a forma de reestruturação de carreiras) e da elevação do salário mínimo, de R$ 415 para R$ 465. Para compensar o aumento do gasto, o governo não contará este ano com um crescimento expressivo do PIB. Em proporção do PIB, portanto, a despesa deve aumentar.

O secretário Augustin garantiu, no entanto, que o resultado obtido em 2008 não foi pontual. Ele afirmou que melhorar o perfil da despesa pública é uma estratégia de médio e longo prazo do governo. Vamos torcer para que o governo realmente execute essa estratégia.

02/02/2009 - 10:13h Nacionalização pode virar realidade

ANÁLISE

Um “banco podre” poderia absorver os títulos tóxicos

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=inAOZ2ZIZKuY

Por DAVID E. SANGER – The New York Times – Folha SP

WASHINGTON
Dias após o início do governo de Barack Obama nos EUA, membros da nova administração e líderes democratas no Congresso já estão às voltas com uma das questões mais politicamente delicadas sobre o socorro financeiro: o presidente está preparado para nacionalizar uma enorme parcela do sistema bancário do país?

Em conversas privadas, a maioria dos membros da equipe econômica de Obama admite que a rápida deterioração dos maiores bancos dos EUA, o Bank of America e o Citigroup, poderá exigir muito mais dinheiro dos contribuintes, além dos mais de US$ 300 milhões já despejados nessas duas instituições financeiras e em centenas de outras.

Mas se tantos bilhões de dólares em novos investimentos são necessários para aprumar esses bancos, e talvez seus concorrentes, o que os contribuintes receberão em troca? E como crescem os riscos na medida em que o papel do governo se expande de apenas alguns salvamentos ao controle de uma vasta porção do setor financeiro da maior economia do mundo? O governo Obama só está fazendo referências oblíquas a essas questões. Em uma recente entrevista em um programa político, a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, se referiu a um debate interno quando foi perguntada se a nacionalização, ainda que parcial, dos maiores bancos era uma boa ideia.

“Podem dar o nome que quiserem”, disse Pelosi, democrata da Califórnia. “Se nós os reforçarmos, então a população americana deverá receber parte das vantagens desse reforço. Alguns chamam isso de nacionalização. Não estou falando em propriedade total”, ela logo advertiu —e se conteve fazendo uma pergunta: “Algum dia pensamos que poderíamos usar esse termo? ‘Nacionalizar bancos’?”

Até agora, os principais assessores de Obama evitaram completamente essa palavra e ainda discutem ativamente outras alternativas, incluindo a criação de um “banco podre”, que nacionalizaria os empréstimos em moratória, tirando-os das mãos das instituições financeiras, sem realmente assumir a propriedade dos bancos. Outros falam em uma nacionalização de fato, em que o governo tem uma participação considerável nos bancos, mas não majoritária, com tudo o que isso conota.

Isso já aconteceu; os contribuintes hoje são os maiores acionistas do Bank of America, com cerca de 6% das ações, e do Citigroup, com 7,8%. Mas a influência do governo é muito maior do que sugerem esses números, porque ele garantiu que vai absorver os prejuízos de alguns dos ativos mais tóxicos dos bancos, cifra que poderá chegar a centenas de bilhões de dólares. Muitos acreditam que essa forma de propriedade híbrida —parte governo, parte privada— não será factível. “A tese da nacionalização total está muito mais forte hoje do que alguns meses atrás”, disse Adam Posen, vice-diretor do Instituto Peterson de Economia Internacional, instituição de pesquisa independente. “Se você não tiver a maioria, não pode demitir a direção, derrotar acionistas, declarar que vai apenas assumir os prejuízos e recomeçar.”

Membros da equipe econômica de Obama —entre eles Timothy Geithner, secretário do Tesouro, e Lawrence Summers, principal assessor econômico do presidente— argumentaram, durante a crise financeira asiática dos anos 1990, que os governos são péssimos administradores de bancos.

Os riscos da nacionalização sobre os quais eles advertiram então se aplicam igualmente aos EUA hoje. O primeiro é que a nacionalização pode ser contagiante. Se o governo encampasse o Bank of America e o Citigroup, investidores privados poderiam decidir sair de instituições como JP Morgan Chase e Wells Fargo, ou outros grandes bancos, temendo que elas sejam as próximas.

Além disso, assessores de Obama dizem ter consciência de que, frente à percepção de que está dirigindo bancos, o governo poderá sofrer forte pressão política para impedir falências ou para emprestar dinheiro a projetos em dificuldades nos redutos com eleitorados poderosos.

Mas a nacionalização talvez seja a única maneira de tirar as grandes instituições financeiras da espiral descendente. Neste momento, muitos bancos relutam em cancelar suas dívidas ruins e absorver enormes prejuízos, a menos que possam primeiro levantar capital suficiente para amortecer o golpe. Só que eles não podem atrair esse capital sem antes purgar os ativos tóxicos de seus balanços.

A nacionalização poderia tirar os bancos do abismo, ao menos temporariamente. Mas alguns republicanos acusariam Obama de estar levando os EUA ao socialismo. Segundo Charles Geisst, historiador financeiro do Manhattan College em Nova York, nacionalização “simplesmente não é um termo do vocabulário americano”. “Pensamos nisso como algo que os estrangeiros fazem contra nós, e não que nós fazemos”, continuou.

Outra opção é o governo comprar os ativos mais tóxicos dos bancos por meio de um fundo gigante ou, mais provavelmente, um “banco podre”, com apoio federal, destinado a comprar investimentos problemáticos. O problema é que daí os contribuintes deteriam todos os piores ativos dos bancos.

Limpar os ativos ruins sem impor um alto preço para diretores, acionistas e credores é sobre o que Summers e Geithner advertiram durante a crise asiática.

“Dissemos aos asiáticos que precisavam se dispor a deixar bancos e empresas falirem”, disse Jeffrey Garten, professor na Escola de Administração de Yale e integrante do governo de Bill Clinton (1993-2001). “Avisamos-lhes de que havia um grande risco moral se os governos os socorressem. E hoje estamos fazendo exatamente o contrário do que aconselhamos.”

Colaborou Eric Dash, em Nova York

31/01/2009 - 15:48h Brasil passa de vidraça a estilingue para os países ricos. Para empresários, país continua “sólido”

http://www.revistafatorbrasil.com.br/imagens/fotos/wef2

ENVIADO ESPECIAL A DAVOS- FOLHA SP

José Sergio Gabrielli, o presidente da Petrobras, foi escolhido por seus pares das empresas do ramo para presidir a “Cúpula da Energia”, que faz anualmente seu encontro em Davos.
Passará, pois, a coordenar as reuniões do grupo, que conta com as grandes petrolíferas do planeta, estatais ou privadas.
A escolha de Gabrielli é uma óbvia homenagem à empresa que preside, especialmente em foco depois das descobertas no pré-sal. Mas é também um homenagem ao Brasil, que, neste ano, no encontro do Fórum Econômico Mundial, passou nitidamente da velha condição de vidraça para a de estilingue.
Tanto é assim que Ricardo Villela Marino, executivo-chefe para a América Latina do banco Itaú e eleito um dos jovens líderes globais deste ano pelo Fórum, estufou o peito para dizer que “o Brasil e os bancos brasileiros não são parte do problema, são parte da solução”, sendo o mal, como é óbvio, a crise.
Marino lembrou os “bilhões” despejados pelo mundo rico para evitar a quebra de seus bancos e emendou: “Nada disso aconteceu no Brasil”.
Logo depois, Gabrielli tomou a palavra para fazer outra comparação representativa da troca de vidraça por estilingue. Afirmou que não era só no setor bancário que o Brasil tinha algo a ensinar ao mundo rico. “Também em matéria de política fiscal sadia estamos melhor que os Estados Unidos” [cujo déficit cresce a cada hora].
O bordão “política fiscal sadia” foi usado pelo mundo rico anos a fio para passar sermões em empresários e autoridades brasileiros. Que Gabrielli o use agora tem sabor de vingança.
Na sua vez, o chanceler Celso Amorim lembrou, por exemplo, dos US$ 20 bilhões que as empresas brasileiras investiram no exterior, quando, em anos anteriores, empresários e autoridades brasileiras usavam Davos para uma espécie de passada de chapéu, implorando por investimentos externos.
O próprio tema do almoço já era uma homenagem ao Brasil, ao tratá-lo como “new power broker”, um mediador internacional de peso, em tradução livre. Claro que é preciso alguma ginástica para evitar pessimismo ou números negativos. Pouco antes do almoço, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, havia clamado pela retomada dos créditos por parte do sistema financeiro, “no mundo todo”.
Villela Marino, do Itaú, preferiu desconversar. Afirmou que “o crédito não desapareceu; apenas ficou mais focado e mais seletivo”. À Folha, depois da sobremesa, contou que continua havendo aumento dos empréstimos no Brasil, mas que a curva é bem inferior à anterior à crise, até setembro.
“O crédito tornou-se mais escasso e mais caro, mas continua crescendo”, afirmou.
O moderador do almoço, David Schlesinger, editor-chefe da agência Thomson-Reuters, introduziu uma provocação, ao perguntar a Amorim se o fato de o presidente Lula ter preferido ir ao Fórum Social Mundial, em Belém, em vez de Davos, era um “manifesto”.
Amorim, como é óbvio, disse que não, lembrando que Lula, em seus seis anos de mandato, esteve já três vezes em Davos. Brincou: “O problema é que a demanda por Lula é maior que a oferta de Lulas”. (CR)
Para empresários, país continua “sólido”

MARIA CRISTINA FRIAS
ENVIADA ESPECIAL A DAVOS

O Brasil e outros países emergentes devem ser os primeiros a sair da crise, dizem participantes do Fórum Econômico Mundial.
O presidente da Braskem, Bernardo Gradin, disse ontem acreditar que o país deva sair mais rapidamente da crise, tão logo a liquidez volte aos mercados, em razão de seus bons fundamentos. “Temos bancos sólidos, líquidos e sem ativos podres; grandes empresas também estão capitalizadas. Se éramos competitivos com dólar a R$ 1,50, mais ainda agora. Mas o pior ainda pode vir e devemos estar preparados caso o fundo do poço não tenha chegado.”
Mike Kubena, executivo da PriceWaterhouseCoopers baseado na República Tcheca, focado em mercados emergentes, também é da opinião de que mesmo os emergentes muito dependentes de commodities, como o Brasil, serão os primeiros a se recuperar, tão logo a liquidez melhore. De um lado, graças à sua flexibilidade e capacidade de se adaptar a muitas crises e, de outro, por não ter problemas no sistema financeiro e, sim, bons fundamentos.
“Esta crise não é dos emergentes”, disse, repercutindo uma frase comum entre palestrantes de países como Índia e África do Sul.
O secretário da Fazenda do Rio de Janeiro, Joaquim Levy, secretário do Tesouro na equipe do ex-ministro Antonio Palocci, por sua vez, disse que deverá haver uma sincronia na melhora dos países. “O mais provável é que os efeitos sejam menores no Brasil, mas é difícil não haver um certo sincronismo. Em vez de crescer 6%, cresceremos 3%, talvez, mas cresceremos”, afirmou.
“O Brasil tem sido visto aqui em Davos, é arriscado dizer, como um oásis, o que não é. Mas tem sido considerado um país onde as oportunidades são maiores que os problemas”, disse Gradin, depois de participar de sessão sobre o Brasil.
Um ponto a favor do país, comentado no encontro por mais de um participante, é a combinação do crescimento da renda familiar do país, sem alavancagem, e de programas sociais, como o Bolsa Família.
Brasileiros presentes em Davos compartilham o temor geral de que países se fechem em medidas protecionistas.
Mesmo assim, o painel sobre o Brasil foi repleto de otimismo da parte dos brasileiros. “As sessões sobre o Brasil tinham sempre como título algo que o evocasse como o país do futuro, e agora somos o “novo poder”. O país tem um papel na economia global”, disse Luiz Fernando Furlan, presidente do Conselho de Administração da Sadia.
Para ele, a queda da atividade será assimétrica. “Acabamos de ouvir neste painel que as vendas de Coca-Cola estão normais agora em janeiro, assim como as nossas. No mês passado, a Sadia teve recorde de vendas para meses de dezembro.”
Já Sérgio Fogel, membro do Conselho de Administração da Odebrecht S.A., disse que, apesar de o Brasil estar relativamente bem, “não devemos nos iludir”. “É preocupante ficarmos só entoando loas a nós mesmos. Seria bom aproveitar esse momento para avançar nas grandes reformas de que o país precisa.”

27/01/2009 - 15:28h O economista que previu a crise continua pessimista

 

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Emma Brockes, THE GUARDIAN* – O Estado SP

O escritório em Nova York da empresa de consultoria de Nouriel Roubini é tão austero como a situação atual: uma escrivaninha, um telefone, alguns blocos de anotações e 134 páginas impressas de uma lista da Wikipédia de todos os bancos do mundo.

Há três anos, Roubini foi repudiado, tachado de fatalista enganador, quando detectou uma enorme vulnerabilidade do sistema bancário dos Estados Unidos, prevendo o seu colapso. Agora, Roubini converteu-se num guru, atraindo o interesse de governos, diretores de bancos, mas e até de sites de fofocas de Nova York.

Foi o The New York Times que o apelidou asperamente de Dr.Doom (Dr. Catástrofe) ao fazer um perfil do economista no ano passado, identificando-o como um herói insólito da crise. Em 2006, Roubini fez um discurso no Fundo Monetário Internacional, quando, entre outras coisas, previu que a economia americana corria o risco de um colapso imobiliário e uma profunda recessão, com consequências tenebrosas para o resto do mundo.

Hoje, ele sorri timidamente e diz que outras pessoas também previram esse cenário, mas ninguém foi tão preciso como ele, nem tão grave, nem foi tão ridicularizado como ele pelo sóbrio mundo da economia. Na época, seu discurso foi recebido como uma idiossincrasia de alguém que gostava de fazer teatro. Mesmo hoje alguns dizem que ele só teve sorte. É o caso do economista Anirvan Banerjee, que, indagado pelo The New York Times sobre Roubini, respondeu que “até um relógio parado acerta a hora duas vezes por dia”.

Esse tipo de menção faz Roubini rapidamente esquecer a modéstia. Acusa de ingênuo o economista, que previu um crescimento quando a crise já se intensificava. “Dizer que foi apenas sorte da minha parte é um absurdo. Fiz previsões concretas que acabaram sendo certas. Exatamente.”

Ele cita um estudo elaborado em fevereiro do ano passado intitulado “Doze passos para o desastre financeiro”, onde “cada passo foi exatamente como a crise se desenvolveu nos últimos seis meses”. “Eu disse que as duas maiores corretoras do país (EUA) iriam à falência e não haveria nenhuma grande corretora independente nos próximos dois anos. Ora, bastaram sete meses para o Bear Stearns e o Lehman (Brothers) quebrarem. Não foi uma análise imprecisa da minha parte quando declarei que ocorreria uma crise financeira. Fui bem explícito. E acertei.” Ele encolhe os ombros e sorri ante o peso de estar certo em meio à estupidez generalizada.

As razões pelas quais Roubini foi o primeiro a prever a crise têm a ver, talvez, com seus antecedentes profissionais e pessoais, e com o que ele chama de abordagem “holística” na interpretação de dados econômicos. Roubini nasceu em Istambul, a família transferiu-se para o Irã quando ele ainda era bebê e depois para a Itália, onde cresceu.

Ele fala quatro línguas fluentemente (farsi, inglês, hebreu e italiano) e trabalhou em todo o mundo, incluindo dois anos como assessor político no Tesouro dos EUA. Segundo ele, o primeiro sinal de alerta foram as similaridades que observou entre regiões em desenvolvimento e o comportamento da economia dos EUA. Para sua surpresa, viu um padrão de movimento econômico nos EUA que, em 2005, parecia muito com a “economia de mercados emergentes”, com a mesma “exuberância irracional” que, na sua opinião, só poderia ser seguida de um enorme colapso.

“Você examina a história, os dados políticos, os modelos, e faz comparações”, diz. “Esta crise não é um evento totalmente extraordinário, uma consequência aleatória de uma distribuição aleatória. Foi um acúmulo de vulnerabilidades que aumentaram com o tempo”, diz. “Tivemos dezenas de sinais distintos de que tudo acabaria num ponto de não retorno. A ocorrência de uma crise era algo totalmente óbvio para mim.”

É tentador fazer perguntas a Roubini como se ele fosse um oráculo. Mas seu histórico recente faz com que seja irresistível. Para começar, ele acha que 2009 deve ser apagado completamente. Do ponto de vista financeiro, diz ele, está perdido. No “Jogo do Pior Cenário”, Roubini olha para o mundo avançado e considera que muitas economias estão sob o risco de seguir o caminho da Islândia e se tornarem insolventes. A maior parte é de pequenas nações da Europa Ocidental.

“Se uma grande instituição (financeira) na Suíça, na Holanda, na Bélgica ou na Irlanda enfrentar um problema, o país não tem recursos suficientes para resgatá-la”, avisa.

A Grã-Bretanha está em um estado tão ruim quanto os Estados Unidos do ponto de vista fiscal. Segundo ele, a necessidade de as decisões na zona do euro serem aprovadas por consenso faz com que resgates de instituições financeiras sejam mais difíceis de implementar.

Roubini diz que mais fundos hedge (os mais arriscados do mercado) vão quebrar, mas o efeito em cascata nem sequer começou a ser sentido. “As perdas agora estão concentradas nas hipotecas. Espere até que atinjam os imóveis comerciais, as companhias de cartão de crédito, os empréstimos automotivos, o crédito estudantil e os bônus corporativos. Há uma pilha de coisas. O sistema financeiro está insolvente. Está tecnicamente falido.”

*Emma Brockers é articulista

27/01/2009 - 10:03h Lula quer que crédito oficial gere empregos

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Paulo de Tarso Lyra, de Brasília – VALOR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ontem, durante o programa Café com o Presidente, que os empréstimos feitos por bancos públicos sejam condicionados à geração de empregos. Segundo o presidente, isso é o que “conta para a distribuição de riqueza e para a melhoria de vida das pessoas”. Lula lembrou que, apesar do mau resultado do emprego em dezembro, o país terminou o ano com um saldo positivo de 1,460 milhão de novos empregos. “Precisamos nos preparar para evitar que em 2009 a gente tenha um nível de desemprego grande”, disse ele.

“Vamos cuidar para que os empréstimos dos bancos públicos, seja BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNB e Basa, quando eles fizerem os empréstimos ou créditos, que isso esteja ligado à geração de postos de trabalho, porque é o que conta para a distribuição de riqueza e para a melhoria de vida das pessoas”, declarou Lula.

Lula também destacou as duas medidas anunciadas na semana passada como importantes na tentativa do governo de amenizar os impactos da crise internacional: o aporte de R$ 100 bilhões para o BNDES e o novo plano de investimentos de R$ 174 bilhões da Petrobras pelo período de 2009 a 2013.

“A Petrobras tem grandes investimentos, sobretudo na área de exploração do pré-sal. A quantidade de navios que ela tem que contratar, a quantidade de sondas, a quantidade de plataformas, a quantidade de barcos de apoio são extremamente importantes para o projeto de desenvolvimento do Brasil.” Quanto à injeção de recursos do Tesouro no BNDES, Lula acredita que ele vai ajudar as empresas que tomavam dinheiro emprestado em dólar e passaram dificuldades pela escassez de crédito internacional.

26/01/2009 - 16:37h Veja as medidas já anunciadas no Brasil para combater os efeitos da crise

da Folha Online

O governo já anunciou uma série de medidas nas últimas semanas para evitar uma piora no sistema financeiro.

Veja as principais medidas:

19 de setembro

Quatro dias após a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, o crédito internacional seca e o dólar dispara no Brasil. O Banco Central anuncia um leilão de US$ 500 milhões com compromisso de recompra da moeda após 30 dias. Nessa operação o BC “empresta” os dólares às instituições financeiras durante esse período. Os recursos servem para que os bancos possam financiar as exportações brasileiras.

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24 de setembro

A crise internacional de confiança nos bancos e a falta de crédito externo afetam os bancos pequenos e médios no Brasil. O BC anuncia então mudanças no recolhimento de depósitos compulsórios, que beneficia bancos menores e instituições que trabalham com leasing. Com isso, o BC garante a injeção de R$ 13 bilhões no mercado.

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1º de outubro

O Banco do Brasil antecipa R$ 5 bilhões em crédito para o setor agrícola para suprir a falta de recursos causada pela crise financeira.

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2 de outubro

O BC anuncia a redução do compulsório para os bancos grandes que comprarem parte das carteiras de crédito dos bancos pequenos. A avaliação do governo é que os grandes bancos estão preferindo segurar os recursos a emprestar para essas instituições. A estimativa do BC é que a mudança injete R$ 23,5 bilhões na economia, além de ajudar as instituições menores.

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6 de outubro

Governo anuncia a criação de uma linha internacional de crédito para ajudar os exportadores, com o dinheiro das reservas internacionais do BC. O governo também reforça a linha de financiamento para exportações pré-embarque do BNDES, com mais R$ 5 bilhões.

No final do dia, o presidente Lula edita uma medida provisória que dá mais poderes ao BC para atuar durante a crise. Entre elas, está a autorização para o BC comprar carteiras de crédito de bancos em dificuldades no Brasil.

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8 de outubro

O dólar chega a R$ 2,48 pela manhã e obriga o BC a queimar parte das reservas internacionais para acalmar o mercado. Pela primeira vez, desde o dia 13 de fevereiro de 2003, o BC realiza um leilão em que vende parte dos US$ 208 bilhões que tem em caixa.

Nos leilões anteriores, o BC vendia a moeda com um compromisso de recompra. Na prática, isso funcionava como um empréstimo e não afetava as reservas. Foram realizados três leilões. Os valores não foram divulgados.

No fim do dia, o BC anuncia mais duas mudanças nas regras do recolhimento sobre depósitos compulsórios e coloca mais R$ 23,2 bilhões na economia.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, convoca uma reunião do G20 financeiro, presidido atualmente pelo Brasil,na sede do FMI (Fundo Monetário Internacional), nos Estados Unidos.

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9 de outubro

CMN (Conselho Monetário Nacional) regulamenta as regras para que o BC possa socorrer os bancos que precisem de crédito em dólares ou reais. A regulamentação dá ao BC poderes para interferir na administração dos bancos que venderem suas carteiras de crédito à instituição em busca de recursos.

No fim do dia, o presidente Lula se reúne com o ministro da Fazenda e o presidente do BC, que embarcam para os EUA com a missão de defender uma regulamentação mais rígida dos mercados financeiros no encontro do FMI.

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13 de outubro

O BC informa mais mudanças no compulsório, que significam a liberação na economia de R$ 47,1 bilhões dos R$ 100 bilhões que foram prometidos pela manhã.

No compulsório sobre exigibilidade adicional (que inclui depósitos a vista, prazo e poupança), o limite de dedução aumentou de R$ 300 milhões para R$ 1 bilhão. O limite de dedução do compulsório sobre depósitos a prazo passou de R$ 700 milhões para R$ 2 bilhões, com impacto de R$ 13,1 bilhões a partir de 17 de outubro.

Os bancos também terão direito a fazer um abatimento em relação ao compulsório recolhido sobre operações de leasing. Em relação ao desconto no compulsório sobre depósitos a prazo para quem comprar carteiras de crédito de outros bancos, muda o patrimônio de referência do banco vendedor, que sobe de R$ 2,5 bilhões para R$ 7 bilhões. O percentual de desconto para quem comprou sobe de 40% para 70%.

Segundo o BC, além de vender a carteira de crédito, os bancos menores poderão vender também outros ativos, principalmente aqueles ligados a fundos de investimentos desses bancos.

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16 de outubro

O Banco Central anunciou mais uma mudança nas regras dos depósitos compulsórios. Agora, o BC ampliou as possibilidades para que esses bancos possam elevar o dinheiro que têm em caixa com a venda de ativos para bancos maiores.

Além de vender a sua carteira de crédito e títulos dos seus fundos de investimentos, os bancos menores poderão vender outros ativos: 1) títulos e valores mobiliários de renda fixa, adiantamentos e outros créditos de pessoas físicas e jurídicas não-financeiras; 2) depósito interfinanceiro com garantia de ativos elencados no item 1 ou de operações de crédito.

Além disso, o CMN autorizou o Banco Central a determinar que, nas operações de empréstimos em moeda estrangeira, os recursos sejam direcionados para operações de comércio exterior. O BC também fica autorizado a receber debêntures emitidas por empresas não financeiras nas operações de redesconto.

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22 de outubro

O presidente Lula assinou MP (medida provisória) que autoriza os bancos públicos brasileiros, a Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, a adquirirem participações em instituições financeiras no pais sem passar por um processo de licitação. A MP é ampla (leia íntegra), composta de sete artigos, e inclui todo tipo de instituição financeira: seguradoras, instituições previdenciárias, empresas de capitalização, etc.

À noite, Lula assinou outro decreto que zera a alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para a aplicação no mercado de capitais e operação de empréstimos e financiamentos externos. Com a decisão, o capital que entra no país tem maior rentabilidade, ou seja, trazer dólares para o Brasil fica mais atraente ao investidor.

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27 de outubro

O Banco Central anuncia mais uma mudança nas regras dos depósitos compulsórios recolhidos pelos bancos brasileiros. A medida pode injetar mais R$ 6 bilhões na economia.

Com a mudança, os bancos que anteciparem suas contribuições ao FGC (Fundo Garantidor de Crédito) no valor de 60 meses terão um desconto no recolhimento do compulsório sobre depósitos à vista. O valor mensal do desconto será o equivalente à contribuição de um mês ao FGC. Os bancos usarão como base o valor recolhido em 1º de outubro, referente ao mês de agosto deste ano.

Hoje, os bancos são obrigados a recolher 42% dos depósitos à vista (dinheiro da conta corrente) feitos pelos seus clientes e depositar o dinheiro em espécie no BC. Esse dinheiro fica parado, sem remuneração, e equivale hoje a cerca de 20% de todo o compulsório recolhido pelo BC.

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29 de outubro

O Banco Central do Brasil e o Fed (Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos) anunciaram o estabelecimento de uma linha de “swap” (troca) de dólares americanos por reais no valor de US$ 30 bilhões.

Segundo o BC, essa linha será utilizada para incrementar os fundos disponíveis para as operações em dólares feitas pelo BC no Brasil. Isso inclui os leilões de dólares realizados por aqui. A linha é válida até 30 de abril de 2009.

Já a Caixa Econômica Federal confirmou hoje que irá disponibilizar uma linha de crédito de capital de giro de R$ 3 bilhões para empresas de construção civil. Além disso, o governo vai permitir outros bancos direcionem mais recursos da poupança para essas empresas. O governo vai criar um fundo com base nos dividendos que seriam pagos pela Caixa à União até 2010. O fundo terá de R$ 1,050 bilhão, ou seja, vai garantir 35% das operações.

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30 de outubro

BC anuncia regra para forçar os bancos a liberar o crédito obtido com o alívio no compulsório. Hoje, o dinheiro do compulsório sobre depósitos a prazo é recolhido na forma de títulos públicos. Ou seja, o banco recebe uma remuneração igual a do título. Agora, os bancos irão recolher apenas 30% em títulos. Os outros 70% serão recolhidos em espécie, ou seja, vão ficar parados no BC sem remuneração. Para não sofrer essa “punição”, os grandes bancos terão de comprar carteiras de crédito e outros papéis de bancos menores que estejam com problemas de liquidez (falta de dinheiro).

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4 de novembro

Banco Central altera regras para os leilões de empréstimos de dólares destinados a financiar o comércio exterior. Até agora, o BC só havia realizado em leilão desse tipo, no valor de US$ 1,6 bilhão. Pela nova regra, os bancos poderão participar desses leilões de dólares sem apresentar garantias em títulos, como era exigido até hoje. Será feita apenas uma operação de empréstimo de dólares das reservas internacionais por 30 dias. Nessas operações, ao invés de títulos, os bancos dão como garantia o valor dos dólares em reais.

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5 de novembro

O ministro Reinhold Stephanes (Agricultura) anuncia criação de uma linha de crédito de R$ 1 bilhão para financiamento dos produtores rurais. O dinheiro será usado para financiar as CPRs (Cédulas do Produtor Rural). A operação da linha será feita pelo Banco do Brasil.

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6 de novembro

O ministro Guido Mantega (Fazenda) anunciou, durante reunião do chamado Conselhão (o CDES, Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social), uma série de novas medidas que, juntas, disponibilizam R$ 19 bilhões em linhas de crédito para diversos setores via BNDES (banco estatal de investimento) e Banco do Brasil.

O anúncio com valor mais alto refere-se ao BNDES, que terá mais R$ 10 bilhões para financiar o capital de giro de empresas e para empréstimos em linhas de exportação pré-embarque –ou seja, os valores serão usados para permitir as vendas externas.

Outros R$ 5 bilhões, provenientes do BB (Banco do Brasil), serão usados para abrir uma linha de crédito para capital de giro de pequenas e médias empresas.

Como já era esperado, Mantega confirmou R$ 4 bilhões, também do BB, para ajudar os bancos de montadoras a elevar o crédito aos consumidores.

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11 de novembro

O governo de São Paulo lançou uma linha de crédito de R$ 4 bilhões, por intermédio do banco Nossa Caixa, para os bancos e financeiras ligadas às montadoras de veículos em todo o país, que sofrem com a escassez de crédito.

À tarde, a Caixa Econômica Federal divulgou a ampliação do limite de financiamento para compra de material de construção de R$ 7.000 para R$ 25 mil.

À noite, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, anunciou conjunto de medidas de alívio tributário e de aumento do crédito para o setor produtivo para ajudar as pequenas e médias empresas.

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12 de novembro

A Caixa Econômica Federal libera R$ 2 bilhões para financiar bens de consumo diretamente no varejo e estimular a economia brasileira. Segundo informou a instituição nesta quarta-feira, a medida abrange a compra de eletrodomésticos, eletrônico, móveis, TV e vídeo, além de material de construção.

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13 de novembro

BC anuncia nova mudança no compulsório, alterando a forma de recolhimento de cerca de R$ 40 bilhões, o que representa quase 20% de todo o depósito compulsório depositado hoje pelos bancos. O compulsório adicional sobre depósitos à vista, a prazo e poupança (chamado pelo BC de “exigibilidade adicional”), que hoje é recolhido em espécie, passará a ser recolhido em títulos públicos a partir de 1º de dezembro.

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16 de novembro

O governo publica medida provisória que altera as datas de pagamento de tributos federais como o IR (Imposto de Renda) recolhido na fonte, a contribuição previdenciária, do PIS/Cofins e o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).

O pagamento do IR e da contribuição para a Previdência passam a ser pagos não mais no dia 10, mas no dia 20 do mês seguinte ao fato gerador. O pagamento do IPI será adiado do dia 15 para o dia 25 de cada mês. O PIS/Cofins terá uma ampliação menor de prazo, do dia 20 para 25.

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21 de novembro

O governo publica o decreto que reduz o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) cobrado nos financiamentos para a compra de motos por pessoas físicas. A alíquota agora vai passar de 3,38% para 0,38%. Poderão ser financiadas com imposto mais baixo motocicletas, motonetas e ciclonetas.

No início do ano, o governo elevou o IOF de 1,5% para 3,38% para recompor a perda da CPMF, cuja alíquota era de 0,38% sobre qualquer movimentação financeira.

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25 de novembro

O Banco Central anuncia novas mudanças nos depósitos compulsórios para destinar mais R$ 6,2 bilhões ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Esse dinheiro faz parte dos R$ 10 bilhões extras anunciados pelo governo no início do mês. O restante já chegou ao BNDES por meio da Caixa Econômica Federal, que irá emprestar o dinheiro para reforçar o capital de giro das empresas nesse momento de crise.

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1º de dezembro

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) anuncia a criação de uma nova linha de capital de giro de empresas brasileiras, de até R$ 6 bilhões. A nova linha visa recuperar a concessão de crédito para as empresas, que segundo o BC (Banco Central) começou a se recuperar, ainda que em patamares tímidos. O prazo da linha vai até 30 de junho de 2009.

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11 de dezembro

O CMN (Conselho Monetário Nacional) anuncia que vai ampliar as alternativas de aplicação das reservas internacionais do Brasil. O Banco Central ficará autorizado a disponibilizar parte desse dinheiro, por meio dos bancos, para as empresas brasileiras que precisem rolar financiamentos feitos no exterior. O governo estima gastar mais de US$ 10 bilhões das reservas, que hoje estão acima de US$ 200 bilhões.

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11 de dezembro

Governo federal anuncia medidas para reduzir impostos e aliviar os efeitos da crise econômica que pretendem injetar R$ 8,4 bilhões na economia. Entre as principais mudanças anunciadas estão a nova tabela do Imposto de Renda, a redução do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para o consumo e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para as montadoras.

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12 de dezembro

O governador de São Paulo, José Serra, anunciou um pacote de medidas fiscais e financeiras para ajudar na redução dos impactos da crise financeira global. Entre as medidas tomadas pelo governo paulista estão uma linha de crédito de R$ 1,2 bilhão para empresas de autopeças e máquinas e mudanças nos regulamentos do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e da Nota Fiscal Paulista.

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16 de dezembro

Os bancos pequenos terão R$ 5,4 bilhões a mais para utilizarem em operações de crédito para pessoas físicas e jurídicas. O CMN (Conselho Monetário Nacional) aprovou hoje a liberação de recursos do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) para essas instituições.

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17 de dezembro

Banco Central divulga que balanço da liberação de depósitos compulsórios, que soma R$ 98 bilhões. O compulsório é o dinheiro dos clientes que os bancos são obrigados a deixar depositados no BC.

BC também divulga que já fez atuações no mercado de câmbio no valor de US$ 53,4 bilhões entre os dias 19 de setembro e 16 de dezembro para segurar a disparada do dólar.

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22 de janeiro de 2009

Governo anunciou recursos adicionais para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) no valor de R$ 100 bilhões para os anos de 2009 e 2010. Esse dinheiro virá por meio do caixa do governo e das captações feitas no exterior pelo Tesouro Nacional.

O dinheiro ficará disponível para o banco, que irá sacar conforme necessário. Serão priorizados investimentos na área de gás e energia, bens de capital e infraestrutura, entre outros setores. Também vão garantir os investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e da Petrobras.

26/01/2009 - 11:45h BNDES prevê desembolsar até R$ 130 bi este ano

Vera Saavedra Durão, do Rio – VALOR

Depois de receber ajuda de R$ 100 bilhões do Tesouro para reforçar seu orçamento até 2010, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está refazendo as contas do desembolso previsto para este ano. Num cálculo preliminar, o banco estuda ampliar o valor de R$ 115 bilhões planejados inicialmente para algo entre R$ 125 bilhões a R$ 130 bilhões, dependendo do volume de recursos a ser disponibilizado à Petrobras, apurou o Valor.

Como o BNDES só dispõe de R$ 65 bilhões de recursos próprios – R$ 55 bilhões de retorno de empréstimos já garantidos e R$ 10 bilhões em fase de captação no mercado doméstico e no exterior -, se o financiamento à estatal for de R$ 20 bilhões, o banco sacará R$ 60 bilhões dos cofres públicos. Se for de R$ 30 bilhões, será preciso um saque de R$ 70 bilhões da conta do Tesouro para fechar o novo orçamento deste ano.

Depois de fechar 2008 com R$ 92,5 bilhões de desembolso, um recorde, o banco começou a trabalhar no orçamento de desembolso de 2009. A instituição adotou como referência um valor teto de R$ 115 bilhões baseado numa prospecção de demanda potencial para os próximos 12 meses feita nas suas áreas operacionais. Havia, porém, um “gap” de R$ 50 bilhões entre o que o banco dispunha para financiar os projetos e o “funding” necessário para completar o orçamento. Luciano Coutinho, presidente da instituição, solicitou então ao Tesouro a quantia de R$ 50 bilhões e acabou recebendo o dobro, já que o governo tem se esforçado para garantir investimentos e empregos nos próximos 24 meses, que devem ser os mais expostos à crise financeira global.

No ano passado, o BNDES, que só contava com R$ 46,5 bilhões de recursos próprios, também recebeu aportes adicionais do governo federal para fechar seu orçamento. Eles somaram R$ 46,05 bilhões e garantiram o desembolso para financiar projetos, com destaque para os de infra-estrutura e do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Só do Tesouro foram repassados R$ 27,5 bilhões e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), R$ 13 bilhões, sendo R$ 6 bilhões de CVS (títulos públicos da carteira do FGTS) e R$ 7 bilhões do Fundo de Infra-Estrutura do FGTS.

Foram captados ainda R$ 5,25 bilhões do sistema bancário, incluindo aí captações via colocação de CDBs no interbancário, operação realizada pela primeira vez pelo banco. No ano, os depósitos especiais do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) somaram R$ 300 milhões.

Neste início de ano, o BNDES está trabalhando na frente externa para fechar seu funding de recursos próprios. O banco está contatando instituições multilaterais, como o Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Japan Bank International Cooperation (JBIC), China Development Bank (CDB), e visitando investidores institucionais estrangeiros, inclusive dos países árabes, para estruturação de fundos de investimento para financiar infra-estrutura.

O programa de captações externas não descarta o lançamento de bônus do BNDES caso se abra uma “janela de oportunidades” no mercado financeiro internacional.

Para tocar as operações externas o BNDES acaba de criar a área internacional, que será pilotada por Maria Isabel Aboim, ex-superintendente da área financeira do banco. Funcionária de carreira da instituição, Maria Isabel sempre trabalhou na área financeira do BNDES. Ela foi responsável pela operação de captação de US$ 1,5 bilhão conduzida com sucesso pelo banco em 2008. Foi a primeira captação externa da instituição depois de seis anos fora do mercado.

No âmbito das instituições multilaterais, funcionários do banco viajaram à Ásia e ao Oriente Médio em dezembro e já colheram frutos dessa incursão. O banco assinou no mês passado contrato com o Japan Bank Internacional Cooperation para tomar um empréstimo de US$ 250 milhões, que em breve entrará em seu caixa.

Também está em fase final de acerto com o Banco Mundial para repasse de uma linha de US$ 1,5 bilhão e mantém entendimentos com o Banco Interamericano de Desenvolvimento para outra linha de US$ 1 bilhão. E há ainda as conversas que estão sendo desenvolvidas com o China Development Bank.

Neste momento, o BNDES está preparando “road shows” para apresentar seu portfólio de projetos a investidores externos que têm procurado a instituição. O primeiro deve ser realizado depois do Carnaval.

No âmbito de captação doméstica, o BNDES planeja retomar seu programa trienal de lançamento de debêntures no valor de R$ 6 bilhões. O programa, que prevê três tranches de debêntures simples a serem lançadas no mercado em três anos, já foi aprovado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em 2008. A primeira tranche, de R$ 1,5 bilhão, seria colocada no mercado brasileiro em agosto, mas foi suspensa por causa da crise financeira que desestabilizou os mercados. A idéia do banco é retomar este lançamento este ano se o mercado apresentar melhora.

23/01/2009 - 10:31h Governo “turbina” BNDES e diz que irá fiscalizar demissões. Projetos terão de manter empregos, afirma Mantega


Injeção recorde de recursos dará ao banco mais R$ 100 bi neste ano; no total, BNDES terá R$ 166 bi para empréstimos às empresas

De acordo com o ministro Mantega, não poderá haver demissão de funcionários nos projetos beneficiados com recursos da instituição

Alan Marques/Folha Imagem

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante entrevista ontem, em Brasília

JULIANA ROCHA – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O governo liberou ontem mais R$ 100 bilhões para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) financiar empresas neste ano, ao mesmo tempo que determinou que não poderá haver demissão de funcionários nos projetos beneficiados com recursos da instituição. Esta foi a maior injeção de recursos já feita no banco de desenvolvimento. O valor equivale a 10% da dívida do setor público.
“Estamos determinando que o BNDES explicite qual é a geração de emprego de cada um desses projetos. Cada projeto que será financiado com esse dinheiro vai explicitar quantos empregos a mais estão sendo criados. Portanto, há nossa preocupação explícita com a manutenção ou a elevação do nível de emprego”, afirmou.
Com os novos recursos, que virão do Tesouro Nacional, a capacidade do banco de emprestar para as empresas passou para R$ 166 bilhões, 82,4% a mais do disponível em 2008. No ano passado, quando o desembolso bateu recorde, foram liberados R$ 91 bilhões.
“A medida vai garantir todo o crédito necessário para investimentos no país em 2009″, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. No ano passado, o Tesouro já havia repassado R$ 27,5 bilhões ao BNDES.
Ele ressaltou que, com este novo orçamento, o BNDES poderá atender também às empresas que ainda não fizeram pedidos de crédito no banco. Ele citou o exemplo de companhias que planejavam captar dinheiro no exterior e, por causa do fechamento do mercado de crédito internacional, suspenderam os projetos.

Petrobras
Mantega afirma que a crise não vai inibir os planos de investimentos dos empresários. Mesmo com a redução da demanda no país, ele acredita que os projetos estão mantidos. “Não há desistências significativas de projetos no BNDES. As empresas estão mantendo os projetos. Haverá recursos suficientes para viabilizar esses investimentos”, disse.
Ele ressaltou que uma das prioridades do BNDES será a Petrobras, mas não informou, porém, quanto dos R$ 166 bilhões será destinado à empresa. Em 2008, o governo derrubou a medida que limitava a possibilidade de a estatal do petróleo tomar empréstimos no país, o que inclui o BNDES.
Outros setores citados por ele como foco de atenção do banco são os de energia elétrica, gás, infraestrutura e a parte privada do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Engenharia financeira
Segundo Mantega, uma parte do dinheiro virá do excedente de caixa do Tesouro -chamado no jargão técnico de superávit financeiro. A outra parte virá de uma emissão de títulos públicos no exterior.
O ministro afirmou que o repasse para o BNDES será considerado nas contas do governo como empréstimo. Portanto, não haverá impacto na dívida líquida quando o Tesouro emitir títulos no exterior. Na dívida bruta, no entanto, esse valor estará contabilizado. O uso do superávit financeiro reduz, também, a capacidade do governo de abater sua dívida.
Ele disse, ainda, que o BNDES não precisa do dinheiro de uma vez só, já que estará pagando juros ao Tesouro.
Mesmo sem divulgar qual parcela dos recursos sairá de cada fonte, o Ministério da Fazenda definiu os juros que o BNDES terá que pagar ao Tesouro pelo “empréstimo”. Será cobrada uma taxa de 8,75% sobre 70% dos recursos. Sobre os outros 30% dos recursos serão cobrados a mesma taxa de captação internacional do Tesouro. Na última emissão de títulos, o Tesouro vendeu papéis com juros de 6,19% ao ano.
A Folha apurou que o governo vai aceitar como garantia participações na BNDESPar- o braço de investimentos do banco, que tem ações, por exemplo, da Vale. 

 

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Projetos terão de manter empregos, afirma Mantega

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – FOLHA SP

O ministro Guido Mantega (Fazenda) determinou, ontem, que os desembolsos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) estejam condicionados à manutenção do emprego nos projetos beneficiados pelo banco público. Ele admitiu que essa condição já existe nos contratos do banco, mas a partir de agora será fiscalizada.
Reportagem da Folha de ontem mostrou que setores beneficiados com recursos do BNDES em 2008 estiveram entre os que mais demitiram em novembro e dezembro, quando foram fechadas 654 mil vagas no mercado formal. O setor de alimentos e bebidas, recordista de demissões, foi o que mais tomou crédito -R$ 8,6 bilhões.
O governo ainda não sabe o que fazer caso a empresa decida demitir. Mantega reconheceu que ainda não foi decidido quais serão as punições para as empresas. Ele disse, também, que o governo não poderá exigir que a empresa mantenha os trabalhadores em outras áreas em que o dinheiro do BNDES não tenha sido usado.
“Não adianta colocar medida coercitiva. Dizer que quem desempregar vai ser expulso do paraíso, colocado no inferno. Mas esse recurso para investimento do BNDES é condicionado, sim, à geração de emprego. Isso é fácil de fiscalizar.”
Mantega questionou a reportagem da Folha sobre as demissões e o desembolso do BNDES. Ele disse que é preciso ver se as empresas que desempregaram são as mesmas que tomaram empréstimos do banco. O desembolso de recursos por empresa, no entanto, é protegido por sigilo bancário.

“Empresas exageraram”
O ministro Carlos Lupi (Trabalho) também declarou que o alvo das punições são apenas os projetos beneficiados com recursos públicos. “Não posso impedir o direito da empresa de demitir”, disse, acrescentando que algumas empresas “exageraram na dose” de demissões em dezembro e precisarão recontratar em março, para quando ele espera o reaquecimento do mercado de trabalho.
“Alguns setores se aproveitaram da crise para sair demitindo e aumentar suas margens de lucro”, criticou. Lupi voltou a afirmar que empresas beneficiadas com recursos públicos precisam ter contrapartidas de geração de emprego.
Ontem foi editada portaria nomeando os representantes do governo, trabalhadores e empresas que participarão do grupo para monitorar a aplicação dos recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e o cumprimento de objetivos sociais.
Segundo Lupi, o grupo trabalhará cruzando os dados de concessão de crédito com os de demissões, fornecidos pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
O ministro destacou que duas resoluções do Codefat (Conselho Deliberativo do FAT) já exigem a geração imediata de emprego e renda por conta da aplicação dos recursos do fundo em projetos do setor privado. Entre as penalidades previstas, de acordo com ele, estão o aumento da taxa de juros cobrada e a antecipação do pagamento da dívida.
Em breve, disse Lupi, sua pasta deverá anunciar um conjunto de medidas para formulação de políticas públicas de emprego. Questionado se entre elas estará a ampliação do seguro-desemprego, respondeu que sim, sem dar detalhes. JULIANNA SOFIA E JULIANA ROCHA).

 

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Empresariado critica barreiras para não demitir

PAULO DE ARAUJO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

A classe empresarial rebateu com duras críticas a proposta do governo de vincular os empréstimos do BNDES à garantia de manutenção de empregos nas empresas. Para o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, o BNDES “não faz nenhum favor” quando empresta. “O banco cobra juros, e a taxas muito altas se compararmos com outros países”, disse ele. Skaf, no entanto, evitou entrar em detalhes sobre a determinação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de condicionar os desembolsos do banco de fomento à manutenção de postos de trabalho. “O fato é que ninguém recebe dinheiro [do BNDES] de graça. E, quando o empresário executa um projeto financiado pelo banco, ele naturalmente está investindo e gerando empregos”, disse o presidente da Fiesp. De acordo com ele, os juros cobrados pelo BNDES, embora mais baixos em relação ao praticado internamente, são altos na comparação com outros países. “Há países em que os juros para financiar investimentos são negativos”, disse.
O presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), chamou de “exercício demagógico” a ideia de vincular o crédito do BNDES à manutenção dos empregos nas empresas.
“Não é realista dizer “eu lhe forneço dinheiro e você assume tal compromisso [não demitir]. A demissão é um último recurso. Tudo o que violenta a lógica do mercado acaba sendo artificial”, disse Monteiro. “O que segura o emprego é o crescimento econômico.”
O presidente da CNI afirmou ainda que o desemprego na indústria ainda deve aumentar no primeiro trimestre deste ano, mas a situação deve começar a se equilibrar a partir do segundo trimestre.
“Ainda teremos um agravamento. Mas acho que no segundo trimestre a queda do emprego vai estancar”, disse o presidente da CNI, após participar de reunião na Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) ontem.
De acordo com o presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), Aguinaldo Diniz Filho, metade dos empréstimos recebidos pelo setor em 2008 veio do BNDES. A indústria tomou R$ 1,2 bilhão no banco no ano passado e foi a segunda colocada na lista dos setores que mais demitiram no final do ano, com um total de 29 mil vagas formais extintas. “O que gera empregos é o mercado, é a demanda. O que acontece se a demanda for para baixo e essa crise levar a uma situação pior?”, questionou.

Sindicato Saudando a medida do governo como uma “boa notícia”, Artur Henrique, presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), disse que os sindicatos também se encarregarão de fiscalizar o uso de financiamento do governo pelas empresas. Comparando as informações sobre liberação de crédito com os números de dispensas, pretendem pressionar as companhias e avisar o governo quanto a eventual inobservância das regras.


Colaborou ANDRÉ ZAHAR , da Sucursal do Rio

23/01/2009 - 09:55h Estatização, a única saída para os bancos?

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O Banco de Inglaterra em Londres. foto: Toby Melville/Reuters

Célia de Gouvêa Franco – VALOR

O que os governos dos países mais duramente afetados pela crise financeira devem fazer com os bancos? Nacionalizar todo o sistema? Estatizar imediatamente os bancos que estão às vias de quebrar? Ou deixar as instituições mal administradas irem à lona porque o custo de intervir seria muito alto para os contribuintes e tiraria dinheiro de prioridades como fazer as economias voltar a se expandir? Ou ainda optar por continuar a fazer o que estão fazendo: injetar dinheiro nos bancos e adicionalmente aumentar a regulamentação.

À parte a questão do emprego (ou, mais apropriadamente, do desemprego), dificilmente haverá tema econômico que atraia no momento mais atenção internacional do que o futuro do sistema bancário e como tirá-lo do emaranhado de problemas que travam a concessão de crédito, com graves implicações para o crescimento dos países. Está claro que a primeira rodada de ajuda governamental aos bancos, anunciada depois de setembro, não foi e não é suficiente para salvar os bancos e resgatar as empresas que dependem de empréstimos para o dia-a-dia dos seus negócios e para investir. Sem uma solução para os bancos, aumenta exponencialmente o risco de uma depressão.

Políticos, economistas, empresários, bancários e banqueiros querem dar sua opinião, defender e criticar o aumento da participação do Estado no setor financeiro, propor alternativas ao controle estatal ou apoiar sua ampliação. Neste ponto, gostaria de abrir um parênteses para uma observação pessoal – passados quatro meses desde a eclosão da fase mais aguda desta crise financeira brutal, continuo surpresa com a rapidez com que a discussão sobre o papel do governo na economia voltou ao centro dos fóruns e embates depois de décadas em que o assunto era considerada carta totalmente fora do baralho do debate econômico. Por ora, o foco é a estatização de bancos, mas há quem creia que existe espaço para uma ampliação do debate para outros segmentos.

Uma simples consulta a sites de discussão acadêmica e a blogs de prestigiados comentaristas das principais publicações econômicas do mundo mostra a importância do tema hoje e a polêmica que provoca entre economistas dos mais variados matizes e dos dois lados do Atlântico.

Abrigado sob o guarda-chuva do “Financial Times”, Willem Buiter, professor da London School of Economics e ex-economista-chefe do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, dedica seus dois artigos desta semana a analisar a possibilidade do governo de Sua Majestade a Rainha Elizabeth II encampar os bancos do Reino Unido. Os títulos dos dois comentários (encontráveis em http://blogs.ft.com/maverecon/) não poderiam ser mais claros: “Tempo para que os bancos passem ao controle público total” e “O governo britânico consegue impedir que o sistema bancário do país suma pelo esgoto sem arriscar uma crise da dívida soberana?”

Especialista em instituições financeiras, com formação em Cambridge e Yale, Buiter não mede palavras ao prever que no espaço de um ano todos os principais bancos de varejo inglês, incluindo os mais conhecidos dos brasileiros, como o HSBC e o Barclays, acabarão sob controle (temporário) do setor público, uma profecia que pareceria uma alucinação desvairada poucos meses atrás. E mais: na sua opinião, esses bancos hoje atuam como zumbis – têm capital suficiente para se manter, mas pouco fazem do que se espera que bancos façam, empréstimos. É compreensível que eles se mantenham retraídos quanto à concessão de crédito em épocas de crise, mas predominaria um comando ainda mais severo do que a simples cautela, em parte porque a expectativa de entrada do governo em bancos, como acionista minoritário, estaria aumentando o medo da insolvência. Bancos que têm o governo como sócio querem se livrar dele o mais rapidamente possível e buscarão operações com o menor risco possível.

Nesse cenário, Buiter defende que o governo britânico assuma integralmente todos os bancos – e a partir daí ele explica, em um dos seus artigos, toda uma proposta detalhada sobre o qua aconteceria com o sistema bancário do Reino Unido, incluindo a sugestão de que sejam demitidos os altos executivos e membros dos conselhos, sem a concessão de benesses. O grau de detalhamento do seu plano mostra como o debate sobre a estatização dos bancos avançou de forma acelerada nas últimas semanas.

Essa mesma sensação de que está se aproximando o dia em que haverá consenso sobre a nacionalização do sistema bancário permeia um artigo do economista Luigi Zingales, professor da Universidade de Chicago, intitulado “Sim, nós podemos, Mr. Geithner” (em uma referência tanto ao mote da campanha à presidência de Barack Obama, quanto ao seu secretário de Tesouro, Tim Geithner. (http://www.voxeu.org/index.php?q=node/2807). De formação muito diferente da de Buiter, Zingales propõe medidas para o governo americano muito semelhantes ao plano apresentado por Buiter para o Banco da Inglaterra.

Curiosamente, Zingales começa o tópico específico sobre o sistema financeiro com um alerta: Geither deveria lembrar que o que é melhor para os bancos não é necessariamente o que é melhor para os Estados Unidos.

Bancos bem capitalizados são um ingrediente essencial para o país, diz Zingales, e resolver a crise do setor é essencial e urgente. Mas a melhor solução não seria simplesmente colocar mais dinheiro nos bancos. Por causa do custo elevadíssimo para os contribuintes e também porque seria a semente para uma nova crise. Para ele, a atual crise nasceu com a solução dada pela seção de Nova York do Fed (o banco central dos EUA) no caso do Long Term Capital Management há dez anos. De acordo com ele, até agora, todo o dinheiro aplicado por Washington no sistema bancário não minorou o problema do setor produtivo – as empresas continuam com dificuldades para levantar financiamentos.

Célia de Gouvêa Franco é secretária de redação. A titular da coluna é Claudia Safatle.

E-mail celia.franco@valor.com.br

23/01/2009 - 09:28h De como a especulação sem limites quebrou até os especuladores

Reuters

Pânico atinge países emergentes, como a Argentina: para Krugman, será preciso realizar uma recapitalização maior e mais ampla dos bancos e afirmar com mais firmeza o controle do governo, algo que estará mais próximo da plena estatização temporária de uma parcela significativa do sistema financeiro

 

José Roberto Campos, de São Paulo – VALOR

Os poderosos bancos americanos foram dizimados pela farra com os empréstimos “subprime” e o mundo agora caminha rumo à recessão. Como foi possível que créditos irresponsáveis concedidos na periferia do sistema imobiliário americano – clientes que não obteriam crédito em situações normais – se tornassem tão destrutivos a ponto de ameaçarem a economia global? Já vimos isso antes, lembra o economista Paul Krugman, Nobel de 2008, em seu novo livro “A Crise de 2008 e a Economia da Depressão” (Editora Campus/Elsevier). Houve circunstâncias parecidas e alguns dos mesmos atores na crise mexicana de 1995, no vendaval que se abateu sobre Coréia do Sul, Malásia, Tailândia e Indonésia em 1997, na crise russa de 2008, nos fins traumáticos dos sistemas cambiais de Brasil e Argentina e no pânico com a quebra do fundo de hedge americano LTCM, em 1998.

Heterodoxo e pragmático, Krugman reescreveu partes de seu livro de 1999, em que aborda essas crises, e atualizou-o até o mergulho na insolvência dos grandes bancos americanos. Ao longo do tempo, há uma continuidade em todos os desastres econômicos recentes, e alguns padrões de comportamento repetidos em países muitos distintos entre si. “Parcela considerável do aumento da globalização financeira decorre de investimentos de instituições financeiras altamente alavancadas, que faziam vários tipos de apostas transfronteiriças arriscadas”, escreve Krugman. “Quando as coisas davam errado nos Estados Unidos, esses investimentos transfronteiriços atuavam como ‘mecanismos de transmissão’, pelo qual uma crise que eclodiu no mercado habitacional dos Estados Unidos desencadeou sucessivas outras no exterior.”

Um número grande de instituições financeiras, como bancos de investimentos e fundos de hedge, não era regulado por ninguém e reuniu tamanho poder e apetite por risco que se tornou um fator global de desestabilização das economias. Depois que elas semearam o pânico em países emergentes, implodiram junto com apostas excessivas na bolha de imóveis. É ilustrativa a descrição do poder de fogo atual dessas instituições traçado por Timothy Gethner, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York e indicado para secretário do Tesouro do presidente Barack Obama, citado por Krugman. No início de 2007, conta, havia US$ 2,2 trilhões em coisas exóticas como “asset-backed commercial papers conduits”, “structured investment vehicles”, “auction-rate preferred securities”, “tender options bonds” e “variable rate demand notes”. Os ativos dos fundos de hedge eram de US$ 1,8 trilhão e os dos cinco maiores bancos de investimento, US$ 4 trilhões. Já os cinco maiores bancos comerciais detinham US$ 6 trilhões.

“A crise, em boa parte, não envolveu problemas com instituições desregulamentadas, que assumiram novos riscos. Ao contrário, girou em torno de riscos assumidos por instituições que, para começar, nunca foram regulamentadas.” Elas tinham tanto cacife financeiro quanto os bancões comerciais sob a vigilância do Federal Reserve, e uma ousadia que chegava quase que fatalmente à imprudência.

A história da atual recessão começa então com o estouro da bolha habitacional, que, para Krugman, deverá destruir US$ 8 trilhões em riquezas – US$ 7 trilhões de perdas para os donos dos imóveis e US$ 1 trilhão para os investidores. Esse trilhão de dólares é o rabo que acabou balançando o cachorro. Espalhados em títulos tóxicos pelo resto do mundo, forçaram uma espiral de vendas para cobrir posições e prejuízos que derrubou os preços de praticamente todos os ativos, em todos os mercados, em todo o mundo – e, casualmente, quebraram até a Islândia.

Uma retrospectiva das crises anteriores e das idéias na moda mostram como isso se tornou possível. A crença nos poderes mágicos do mercado levou os economistas a quase decretar o fim dos ciclos econômicos. O presidente do Fed, o todo-poderoso Alan Greenspan, que reinou de 1987 a 2006, e que “conseguira substituir a bolha de ações pela bolha habitacional”, disse em 2004 que o sistema bancário estava mais “resiliente”, uma afirmação só menos temerária que a do secretário do Tesouro de George Bush, Henry Paulson, que afirmou a mesma coisa em 2007, quando os bancos estavam caindo no abismo.

A mesma crença impulsionou a desregulamentação, que escancarou os mercados a investidores audazes e aventureiros, especialmente aos fundos de hedge, que, como qualifica bem Krugman, não buscam hedge e sim seu oposto, “extrair o máximo das flutuações de mercado”. O irmão gêmeo da desregulamentação foi o “risco moral”, a percepção, que se tornou verdadeira, de que qualquer estripulia financeira que desse errado seria consertada com dinheiro público, desde que fosse suficientemente grande para isso.

O crescente poder de fogo de instituições financeiras alavancadas patrocinou o “pânico auto-realizável”, que vitimou, por exemplo, os países asiáticos em 1997. Essas economias eram vulneráveis, diz Krugman, mas “não em razão do capitalismo de compadres, nem de políticas públicas que, sem dúvida, eram consideradas inadequadas”. Essa fragilidade aumentou com a abertura de seus mercados financeiros, pelo fato de, “na verdade, se tornarem melhores economias de mercado, não piores”, avalia.

Krugman considera que os US$ 700 bilhões do programa de alívio de ativos problemáticos são pouco para levantar os bancos, que poderão não estar dispostos a emprestar o dinheiro que recebem como ajuda. A recapitalização deverá ser maior e mais ampla, com maior controle do governo, “algo mais próximo da plena estatização temporária de parcela significativa do sistema financeiro”.

Ele acha que os gastos públicos são a melhor forma de estímulo econômico, superior às isenções fiscais. As vantagens: o dinheiro é realmente gasto, e não poupado, e, depois, com obras públicas “algo de valor seria construído”. A receita de um pragmático como ele é fazer tudo o que for preciso para reverter a crise, sem amarras ideológicas. Depois de afastado o perigo, deve-se consertar a bagunça. Sua posição sobre a reforma do sistema financeiro é igualmente simples. “Qualquer coisa que necessite de socorro durante a crise financeira, por desempenhar papel essencial no sistema financeiro, deve ser submetida à regulamentação, quando a crise tiver sido superada, para que não envolva riscos excessivos”, explica.

Conceitualmente, a economia da depressão parece um termo amplo demais, que abarca fenômenos distintos. Krugman a define a partir de falhas no lado da demanda da economia como “fator limitativo inequívoco à prosperidade econômica em boa parte do mundo”. Mas, pelo menos em alguns aspectos essenciais, as crises descritas surgiram durante um dos períodos de maior prosperidade da economia mundial, quando a demanda brotava em todos os lados, regada a crédito farto. A história de Tailândia, Malásia, Indonésia e Coréia é a de países bem-sucedidos, pelo menos pelo padrão das taxas de crescimento econômico.

Krugman chega a oscilar em seu diagnóstico, em geral muito preciso. A vulnerabilidade das economias da Ásia, do México e Brasil ao “pânico auto-realizável” torna-se quase inexplicável. Em um momento, acumular dívidas em moeda estrangeira é um dos principais suspeitos da catástrofe. Em outros, como no caso da Ásia, a repentina, e quase imotivada, é perda de confiança nos mercados que dá o sinal para o colapso. E chega a ser obscura a ligação entre a crise argentina e mexicana e a hecatombe atual dos bancos internacionais. “Sinto-me tentado a afirmar que essa crise não se assemelha a nada que tenhamos visto antes”, confessa. “Porém, eu seria mais exato se afirmasse que ela se parece com qualquer outra que já presenciamos em diferentes épocas, só que agora é como se todas estivessem acontecendo de uma vez, ao mesmo tempo.” A primeira hipótese, também bastante sugestiva, bem que poderia resultar em um outro ótimo livro de Paul Krugman.