12/05/2008 - 08:41h Maio 68: Um ano que continua a resistir a qualquer teoria ou interpretação

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No campo da memória, cada pessoa colore os eventos de Maio de 68 com os próprios pincéis

Gilles Lapouge - O Estado de São Paulo

Estamos em maio, esse belo mês, com sua suave luminosidade, os lírios do campo, o verde, as rosas e, como acontece a cada dez anos, as comemorações do Maio de 68, as amplas revoltas estudantis que não conseguiram demolir o governo francês mais poderoso e mais respeitável do século, o governo do general De Gaulle.

Nenhuma cerimônia de aniversário, mas muitas reuniões, artigos, livros, um “espírito da época”. Por que tantos discursos? Em primeiro lugar, porque 40 anos se passaram. Um lapso de tempo que dá àqueles eventos um “ar histórico”.

Além disso, o presidente Nicolas Sarkozy, quando ainda era um homem “glorioso” e não um “ineficaz” (ou seja, há um ano), definiu-se como “o homem que ia liquidar Maio de 68”. Bravo Nicolas! (alguns meses depois, Sarkozy casou-se com uma espécie de ressurreição dos estudantes de Maio de 68, a bela Carla Bruni, “queridinha” da “esquerda festiva”, superlativamente).

E, de novo, percebe-se que Maio de 68 continua rebelde a todas as interpretações, teorias e recuperações. Cada um colore Maio de 68 com os próprios pincéis, com cores que, segundo o caso, são ou anarquistas, ou festivas, utópicas, tirânicas, sexuais, dirigistas, individualistas, comunitárias, etc.

mai68.jpgMaio de 68 é um episódio incompreensível sobre o qual todos os modelos apenas resvalam. Mesmo com 40 anos de distância, ninguém sabe realmente o que foi exatamente. É um “objeto histórico não identificado”, não identificável; não se parece com nada. E nada do que se faz ou do que se pensa hoje poderia se dizer que é um eco, um reflexo, mesmo deformado, de Maio de 68.

Por exemplo, hoje, nesta primavera de 2008, as ruas de Paris ferveram, com alunos, estudantes, professores, gritando. Imediatamente, os jornais evocaram uma espécie de “prolongamento” ou um obscuro “retorno” de Maio de 68. Ora, basta ouvir os slogans gritados hoje para compreender que são antípodas daqueles de 68.

Em Maio de 68, os estudantes se manifestaram contra a disciplina, contra os mestres que impunham uma ordem austera, contra as faculdades onde os professores, os “mandarins”, davam seus cursos em toga e arminho. Maio de 68 queria, ao contrário, que as obrigações e as lições desaparecessem, que os exames fossem abolidos, que os professores se recolhessem no seu canto, que as idéias se fizessem sozinhas, por partenogênese, por qualquer um e por todo o mundo.

Em 2008, os netos dos magníficos doidivanas de 68 são sérios como cardeais. Invadem a rua para reclamar o contrário da liberdade cara a seus “jovens avós” de 1968: eles querem mais professores, mais lições para “decorar”, mais disciplina, mais exames, mais seriedade.

Os manifestantes de 68 eram alegres como as borboletas, os loucos, os malabaristas. Os de 2008 são circunspectos, angustiados. Têm medo de seus estudos, da profissão que não vão encontrar, da sociedade macilenta que os aguarda.

Salvo alguns casos um pouco patológicos, os estudantes de 2008 não falam em revolução, mas de ordem, regulamentos. Empreendem um combate corporativista, sem jamais questionar as estruturas da sociedade presente. Querem apenas melhorar as engrenagens e, sobretudo, que os mestres os façam trabalhar, que os preparem para a sua futura inserção, sem dramas, na sociedade liberal.

Em Maio de 68, o termo “revolução” estava em todas as bocas. E cada grupo desse “conjunto em fusão”, como disse Sartre, produzia o próprio modelo de revolução. Cada um tentava trazer novamente à tona uma antiga revolução fracassada ou subvertida.

Era a “tomada da Bastilha” em 1789, Lenin dançando na neve de Moscou em 1905 durante a revolução bolchevique (fracassada), ou a Comuna de Paris (anarquista) em 1871, a revolução literária do surrealismo em 1920, ou mesmo a revolução de Mao Tsé-tung.

Por isso, houve tantas barricadas nas ruas de Paris: como os estudantes souberam que, em julho de 1848, e na primavera de 1871, os insurgentes erigiram barricadas com paralelepípedos, resolveram fazer a mesma coisa, numa imitação um tanto supersticiosa e nostálgica, atirando-os contra os pobres policiais.

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Mas, mesmo quando invocavam esta ou aquela antiga revolução, torciam o seu sentido. Era uma referência mais “literária” do que “política”. Maio de 68 não pretendia tanto repensar a sociedade, mas mudar a visão do mundo, inventar uma nova filosofia. Os estudantes apostavam que, após a sua revolução, uma outra sociedade, como nunca houve até então na história, aliás bastante imprecisa, seria construída com base naquela nova visão do homem.

Por isso, a herança mais concreta de 1968 se inscreve menos no âmbito da política e mais no campo dos costumes, quase da filosofia. A primeira centelha de Maio de 68 não foi uma reivindicação financeira ou de uma alternativa à sociedade capitalista: foi um pedido apresentado pelos estudantes para se permitir que os rapazes fossem ao quarto das meninas no campus da universidade de Nanterre.

E o mesmo para convidar os professores das faculdades a sacudirem a poeira na qual dormitavam há dois séculos, a virem se juntar à “modernidade”. Pouco tempo depois de Maio de 68, assistimos a um espetáculo extraordinário: um professor chegou à sala de aula em “jeans” (da marca Lévi Strauss 501, aliás impecável), na faculdade revolucionária de Vincennes. Era o grande lingüista americano Noam Chomsky.

Inútil dizer que as mudanças desencadeadas por Maio de 68 em relação aos costumes, no cotidiano, na “visão do mundo”, são uma das maiores heranças desse mês extraordinário: a permissão de as mulheres usarem calças compridas, a fraternidade, a simplicidade, a liberação sexual, o direito ao aborto, o reconhecimento dos casais homossexuais, tudo isso foi efeito direto, às vezes tardio, de 68.

Com os dias passando, esse movimento lúdico constatou com espanto que aquela agitação se comunicava por si só: de amigo para amigo, ela foi para outras universidades e depois passou para a França inteira e foi além. Os estudantes viram que, sem que fosse aquele o objetivo, tinham adquirido um enorme contrapoder que fez vacilar o majestoso e brilhante general De Gaulle.

A palavra até então acorrentada se soltou, como louca, meio embriagada. Todo mundo falava com todo mundo. As barreiras sociais, cívicas, educacionais, geracionais, os códigos glaciais de comportamento, tudo desmoronou… Paris falava, falava, como um ébrio. Falava-se qualquer coisa, uma profusão de besteiras e algumas idéias inspiradas.

Com o passar do tempo, conceitos mais nitidamente políticos se insinuaram, tanto mais que o movimento se ampliou de tal maneira que contagiou outras classes, além da estudantil: operários, patrões, médicos, cineastas, todo o mundo. O movimento, ao crescer, se politizou.

E desse segundo capítulo, mais político, o que restou? Aparentemente nada. A sociedade se reconstituiu com seus altos edifícios, suas cidadelas, seus softwares. Ela se desenvolveu ao contrário das esperanças de 68, com Reagan, Thatcher, a ordem moral, etc…

Mas, na realidade, assim mesmo Maio de 68 se inscreveu na “política”. Para mim, um dos momentos mais bizarros dessas jornadas bizarras foi o grande desfile organizado no coração de Paris, em torno da praça Denfert-Rochereau.

Era um início de tarde. Nessa praça há uma estátua de um grande leão de bronze. Os manifestantes afluem de todas as partes, em grupos distintos: libertários, poetas, comunistas, vândalos, maoístas, arruaceiros, anarquistas, tipos divertidos.

Um jovem escala a estátua do leão. É um ruivo. Chama-se Daniel Cohn-Bendit. Parece um duende. É ele quem vai organizar o imenso cortejo. Com um megafone, chama os diferentes grupos: libertários, “fourieristas”, trotskistas, etc. E termina, gritando: “… e a crápula stalinista, no fim do cortejo!” Nesse dia, alguma coisa se passou no fundo das consciências. Maio de 68 permitia à juventude, pela primeira vez e solenemente, ser ao mesmo tempo “de esquerda” (pois Maio de 68 foi um movimento de esquerda) e, no entanto, ferozmente anti-stalinista, anticomunista, anti-soviética.

Não vamos dizer que Maio de 68 prefigurou os tremores de terra que se verificaram 20 anos depois e que derrubaram a fortaleza soviética. Pelo menos, precisamos reconhecer que, nessa ocasião, esses revoltosos, um pouco loucos e um pouco infantis, de Maio de 68, alguns dias antes de serem rechaçados ao seu silêncio pelo retorno triunfal de De Gaulle, pressentiram os enormes abalos que se seguiram, do arquipélago de Gulag às pregações do papa João Paulo II, da glasnost de Gorbachev às revoltas, também corajosas e grandiosas, das populações de Varsóvia ou de Berlim Oriental, cujo resultado seria a morte do comunismo, nos anos 90.

10/11/2007 - 15:43h Les grèves Sarkozy et Thatcher, par Eric Le Boucher

Un dessin de Steve Bell, publié sur le site du quotidien d’information britannique 'The Guardian'. |http://www.guardian.co.uk/cartoons/stevebell/archive/0,,1284265,00.html

Un dessin de Steve Bell, publié sur le site du quotidien d’information britannique “The Guardian”.
Sarkozy au pied de Bush.

En ce novembre du mécontentement qui s’ouvre, on s’interroge sur la méthode des réformes de Nicolas Sarkozy. Est-ce bien la bonne ? SNCF, RATP, fonctionnaires, juges et maintenant étudiants : et si tout coagulait ? Fallait-il que le président de la République ouvre tant de dossiers à la fois pour qu’ils fassent masse ? “Il ne faut pas vous inquiéter”, a-t-il dit, mardi 6 novembre à Washington, aux grands patrons français et américains du French-American Business Council. Mais, s’il l’a dit, c’est justement parce qu’il sait que les milieux économiques français s’inquiètent.

Ils ont vu, depuis six mois, le président de la République utiliser la vitesse. Le logement, les heures supplémentaires, la fiscalité, le service minimum, l’université, le nombre de fonctionnaires, la carte judiciaire ont fait successivement l’objet de réformes. Mais, sur chacune, la tactique a été la même : le président a engrangé ce qu’il pouvait, et il s’est arrêté à la première contestation, l’oeil vissé sur les sondages et sur sa cote de popularité. D’où le commentaire critique de “réformes faites seulement à moitié”. D’où le questionnement maintenant que le cas des régimes spéciaux bloque. La contestation devient grosse, que va faire Nicolas Sarkozy ? “Je tiendrai, a-t-il assuré. La France a trop reculé par le passé, elle ne peut plus reculer.”

En fait, les milieux économiques ne craignent pas vraiment un recul. Ils savent que le président n’a pas le choix. S’il cède, il est chiraquisé. La rupture n’aura pas duré, Nicolas Sarkozy n’aura été qu’un tigre en papier. Il n’y a donc pas trop de risques, quelle que soit la durée des grèves, que le président renonce à ses projets. L’enjeu réel de ce mois de novembre concerne les confédérations syndicales les plus sérieuses. Tout comme les patrons, elles savent qu’au pied du mur le président ne peut pas céder. Mais elles doivent suivre leurs troupes pour ne pas les voir partir chez leurs concurrentes radicales. Ce faisant, elles redoutent d’être entraînées trop loin par les gauchistes, puis de perdre et de laisser libre champ au gouvernement pour les deux réformes, bien plus importantes, qui vont venir : celle du code du travail et celle de l’Etat. Le vrai test de ce mois de novembre n’est pas pour Sarkozy mais pour les syndicats, à commencer par la CGT. Non, l’interrogation de fond porte sur la méthode des réformes : la vitesse et l’engagement personnel ne donnent ni un ordre ni une cohérence d’ensemble.

Comment avait fait Margaret Thatcher ? On connaît les différences de situations entre la Grande-Bretagne de 1979 et la France de 2007, elles sont colossales ne serait-ce que parce que nombre d’idées de la Dame de fer sont déjà passées en France - les privatisations par exemple. Les syndicats sont trop forts là, faibles ici. Il n’y a rien à voir non plus entre la méthodiste qui admirait la rigueur de son épicier de père et lui qui aime les yachts. Surtout, trente ans ont passé.

Mais l’examen des méthodes est instructif. Quelles divergences ! “Pour ce gouvernement, dit Mme Thatcher au Times début 1980, ce qui compte ce ne sont pas les cent premiers jours. Ce sont les cinq ans qui viennent et encore cinq ans de plus (…). Nous devons remettre ce pays dans une nouvelle direction. Cela prendra du temps.” Et cela en prendra, en effet : pendant trois ans les résultats sont désastreux, le chômage monte en flèche, la popularité des conservateurs plonge. Mais Maggy ne cède pas. La première divergence est donc celle du temps.

La deuxième porte sur le fond : “La vraie réforme ne se trouve pas dans les grands discours mais dans les actes et surtout dans la loi de finances”, note Jean-Louis Thiériot dans son excellente biographie (Margaret Thatcher, de l’épicerie à la Chambre des Lords, éditions de Fallois). La priorité est de réduire les dépenses (les faire passer sous les 5 % du PIB à l’époque !), de rendre la livre flottante et d’échanger une baisse des impôts contre une hausse de la TVA. C’est un big bang. La livre va s’envoler, renchérissant le made in England. Bien peu de ressemblances avec notre président. On peut même dire qu’il fait le contraire : une politique budgétaire dans la ligne de son prédécesseur, un abandon de la TVA (dite sociale) et un rêve de dévaluation de l’euro…

Troisième divergence, et nous y revoilà, les syndicats. Mme Thatcher est, au début, modérée. Il n’est pas possible de tout réformer à la fois, “elle choisit la politique du grignotage”, explique Jean-Louis Thiériot. Elle commence par les bouder ostensiblement, ils codirigeaient le pays, elle ne les reçoit pas. L’inverse du président français, qui les voit et les revoit en essayant de les rendre réformistes. Comme lui, en revanche, elle s’appuie sur l’opinion contre les grèves qui bloquent le pays. La grande bataille n’aura lieu que bien plus tard, au deuxième mandat, après qu’elle aura gagné la guerre des Falkland et que les premiers bons résultats économiques seront arrivés, en 1984, contre les mineurs. L’offensive - la fermeture des puits non rentables et 64 000 suppressions d’emplois - avait été préparée plus ou moins secrètement, de très loin, notamment en accumulant des stocks de charbon pour alimenter les centrales électriques. Mme Thatcher gagne au bout d’un an, non sans brutalités.

Sarkozy-Thatcher ? Les objectifs sont les mêmes, mettre fin au déclin, redonner du dynamisme, récompenser le mérite et le travail. Le pragmatisme aussi est commun. Mais, pour le reste, c’est un constat dont il ne faut tirer aucune conclusion : le président français fait tout à l’envers.

Eric Le Boucher - Le Monde