04/09/2009 - 16:32h “Noventa dias no Congresso é um tempo bastante razoável para se discutir e fazer alterações”, diz Tolmasquim

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Há tempo para avaliar pré-sal, diz Tolmasquim

Valor Online

RIO – O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, acredita que o período de 90 dias de tramitação dos projetos de lei sobre o pré-sal enviadas ao Congresso é suficiente para permitir o debate adequado das propostas.

“Não houve nenhuma grande surpresa no modelo na hora em que foi anunciado, porque tudo já tinha saído na imprensa antes”, disse Tolmasquim, que participou de seminário promovido pela Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) Rio.

“O debate já está acontecendo há muito tempo, não está começando agora”, acrescentou. Tolmasquim ressaltou que a própria indústria – que se queixou de não ter tido acesso às discussões sobre o modelo antes do envio dos projetos de lei ao Congresso – deu opiniões ao longo dos 14 meses em que a comissão interministerial construiu o novo modelo.

“Noventa dias no Congresso é um tempo bastante razoável para se discutir e fazer alterações caso sejam necessária”, afirmou o presidente da EPE.

As críticas de Estados como Rio de Janeiro e São Paulo sobre a possível perda de arrecadação com mudanças nas regras para pagamentos de royalties e participações especiais também foram minimizadas por Tolmasquim. Segundo ele, o modelo adotado de partilha de produção contempla os mesmos percentuais de royalties e participações especiais que são pagos dentro das normas da lei 9478/97 (Lei do Petróleo).

O executivo acredita que a supressão do pagamento de participações especiais estipulado no projeto de lei que determina a cessão onerosa não será um entrave para a aprovação das medidas sobre o pré-sal no Congresso.

Pelo projeto de lei que estabelece a capitalização da Petrobras, a empresa só deverá pagar royalties sobre os 5 bilhões de barris que serão cedidos onerosamente pela União à empresa.

“Isso é um detalhe num todo. Estamos falando de uma quantidade enorme de petróleo e não são esses 5 bilhões de barris que vão fazer diferença”, destacou Tolmasquim.

(Rafael Rosas | Valor Online)

02/09/2009 - 09:28h “O Brasil pode, a partir do pré-sal, ter um valor estratégico para o mundo. (…) Esse regime vai colocar o Brasil num processo interessante de inserção internacional

O pré-sal, segundo Tolmasquim

Colunista

Cristiano Romero – VALOR

Ao optar pelo regime de partilha para a exploração de petróleo na camada pré-sal, o Brasil fará companhia a países que possuem grandes reservas de óleo e que, em sua maioria, gozam de péssima reputação no quesito democracia. Estes são os casos, para citar apenas alguns, de Arábia Saudita, Irã, Líbia e mesmo da vizinha Venezuela e da distante Rússia. O fato, no entanto, de ser hoje uma democracia vibrante, que possui instituições e respeita contratos, dará ao Brasil na era do pré-sal, na visão do presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, um valor estratégico.

“Esse regime vai colocar o Brasil num processo interessante de inserção internacional. Hoje, os países que detêm as maiores reservas de petróleo são complicados. Qual o valor para o mundo de se ter uma economia democrática, um país ocidental com petróleo de boa qualidade e estabilidade do jogo?”, indaga, em conversa com esta coluna, o dirigente da EPE, um dos principais formuladores das propostas do pré-sal encaminhadas ao Congresso na segunda-feira. “O Brasil pode, a partir do pré-sal, ter um valor estratégico para o mundo.”

Nos países “complicados” onde predomina o regime de partilha, há empresas internacionais explorando petróleo. A diferença, observa Tolmasquim, é que, no Brasil, se respeitam contratos e há um ambiente de trabalho completamente diferente. Naquelas nações, as petrolíferas constroem verdadeiras vilas, cercadas por arames e guardas. “Os contratos normalmente são violados. No Brasil, eles estão sendo mantidos.”

A descoberta do pré-sal é, segundo Tolmasquim, um divisor de águas na história energética do país. Trata-se de um recurso volumoso de petróleo, concentrado numa área que dilui muito o risco de insucesso na exploração. No pré-sal, a Petrobras já perfurou 31 poços, com taxa de sucesso de 87%. No núcleo dessa área – a Bacia de Santos -, perfurou 13, com 100% de sucesso. “A indústria de petróleo trabalha com um nível de sucesso de 20%”, compara o presidente da EPE.

Os países que adotam o regime de partilha o fazem com o objetivo de apropriar uma renda maior e ter uma gestão sobre a produção. A apropriação da renda é muito importante, mas a questão da gestão, argumenta Tolmasquim, é especialmente importante para o Brasil. Há o risco de doença holandesa – a valorização cambial decorrente da entrada de divisas provenientes da exportação de commodities, como o petróleo, pode provocar desindustrialização. Há ainda o risco de a economia se tornar fortemente dependente de receitas do petróleo, como ocorreu no México e na Venezuela. Nesses países, essa dependência reduziu a arrecadação em outras áreas da atividade econômica, gerando problemas fiscais.

“O Brasil deu uma sorte danada por ter encontrado petróleo agora. O país tem hoje uma estrutura industrial complexa, um parque avançado”, sustenta o presidente da EPE, sem mencionar que a escassez de petróleo nos anos 70 esteve na origem das graves crises enfrentadas pelo país. Evidentemente, o raciocínio de Tolmasquim é o de que, tendo descoberto petróleo em grande quantidade somente agora, o país pode gerir essa riqueza com cuidado para não perder o que já possui, isto é, uma economia crescentemente dinâmica e competitiva em vários setores. “Os países que encontraram petróleo mais cedo não conseguiram nem construir seu aparato industrial.”

Controlar os fluxos de produção de petróleo do pré-sal, insiste Tolmasquim, é fundamental. Ao fazer isso, o país pode canalizar esses benefícios tanto para iniciativas de combate à pobreza e investimentos em áreas cruciais como educação e saúde, quanto para desenvolver a cadeia produtiva do petróleo e seus derivados. “A questão é não só evitar a desindustrialização, mas usar o petróleo como um processo de alavancagem da indústria. Não é só uma questão preventiva, mas pró-ativa também”, afiança o presidente da EPE, uma estatal vinculada ao Ministério das Minas e Energia.

Tolmasquim defende o papel destinado pelo governo à Petrobras, que sai como grande vitoriosa das propostas do governo para o pré-sal – a estatal mostrou sua força, afinal, no início dos debates, o que se via era a ameaça de perda de espaço e prestígio; até o presidente Lula chegou a declarar que o pré-sal não pertencia à Petrobras. “Qualquer país pretende ter uma empresa que represente suas cores no mundo. Toda nação tem as suas ‘national champs’ (empresas líderes, campeãs nacionais”, diz o dirigente da EPE.

Ao operar e investir no pré-sal, a Petrobras vai elevar maciçamente as aplicações em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil, aumentando a demanda por conhecimento das universidades e, portanto, estimulando o desenvolvimento tecnológico. “O pré-sal vai estar para os brasileiros como a Nasa está para os EUA. Há benefícios indiretos, incomensuráveis, para o desenvolvimento tecnológico do país. Isso só acontece se a empresa for sediada na economia local”, raciocina Tolmasquim.

O presidente da EPE descarta a ideia de que, com o novo modelo regulatório, companhias petrolíferas internacionais perderão interesse em investir no Brasil. Ele diz que o que dá valor a uma empresa de petróleo é a quantidade de reservas que ela possui. Hoje, no mundo, o acesso de empresas privadas a reservas é limitado. De fato, 77% das reservas estão em mãos de companhias estatais e apenas 7% sob o controle de empresas privadas. “Vamos proporcionar, com o novo modelo, acesso a grandes reservas de petróleo. O modelo de partilha não impedirá que elas venham. De maneira nenhuma”, afirma ele, taxativo.

O fato de o governo ter definido que a Petrobras será a única operadora do pré-sal não preocupa Tolmasquim. Ele lembra que, hoje, a estatal está presente em todos os blocos do pré-sal já licitados. Em apenas um campo – liderado pela Esso -, ela não é a operadora. “Hoje, nos leilões de concessão, as empresas estrangeiras correm atrás da Petrobras para se associar com elas. É regra geral”, observa o presidente da EPE.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

E-mail cristiano.romero@valor.com.br