21/03/2009 - 11:07h Folha SP: Salário do novo regente da OSESP é mais do que o dobro do de Neschling

Vocês lembram que os tucanos justificavam a demissão de Neschling, entre outros motivos, pelo “inadmissível” salário que recebia o maestro.

Pois bem, a Folha de São Paulo informa que o salário do novo maestro contratado é mais do que o dobro do que Neschling recebia.

O atual regente, diferentemente do anterior, não acumulará a sua função com à da direção artística da orquestra.

Os salários dos regentes das grandes orquestras seguem padrões do mercado internacional e por enquanto a crise não parece ter afetado essas remunerações.

Não é o salário do novo maestro e menos ainda seu profissionalismo, criatividade e capacidade para dar continuidade ao projeto da OSESP, que aqui se questiona.

O que fica a nu é a hipocrisia e falta de ética dos tucanos, assim como das suas pretensas cruzadas moralistas. LF

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Neschling, FHC e Tortelier

Mercado Aberto

GUILHERME BARROS – guilherme.barros@grupofolha.com.br

Neschling entra na Justiça contra Osesp

John Neschling, regente afastado da Osesp (Sinfônica do Estado), protocolou na última quinta-feira pedido na Delegacia Regional do Trabalho em São Paulo para verificar se o novo regente titular da orquestra, o francês Yan Pascal Tortelier, tem ou não autorização para trabalhar no Brasil. Se não tiver, Neschling pede que “sejam tomadas as medidas cabíveis contra a Fundação Osesp”, que mantém a Sinfônica.
A DRT-SP confirmou o pedido de Neschling. Informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o ex-regente da Osesp receberá resposta a sua solicitação na semana que vem. Provavelmente também na próxima semana Tortelier já terá voltado à França.
A Folha apurou que Neschling vai ainda recorrer à Justiça contra a Fundação Osesp para obter as verbas rescisórias não pagas até agora, a que ele entende ter direito. Para ele, o processo de sua saída foi mal conduzido, já que teria negociado a sua permanência na Sinfônica do Estado até 2010.
O episódio da saída do maestro, que estava à frente da Osesp desde 1997, foi bastante tumultuado. Apesar de o salário mensal de R$ 120 mil de Neschling sempre ter causado polêmica, não foi essa a principal razão de sua saída.
O regente afastado entrou em conflito direto com o governador José Serra, logo no início do governo. Chamou-o de “menino mimado” e “autoritário” e deu entrevistas criticando o governador e o secretário estadual da Cultura, João Sayad.
A gota d’água foram críticas de Neschling à decisão do conselho da fundação de formar um comitê para a escolha de seu sucessor. Neschling afirmou publicamente que a sucessão estava sendo feita de maneira “intempestiva e irresponsável”.
Pouco depois, o maestro, que estava na Suíça, recebeu um telefonema do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, atual presidente do conselho da Fundação Osesp, dizendo que a situação tinha ficado insustentável.
Em uma carta, foi informado de que o conselho da instituição tinha decidido, em votação “unânime”, pela “ruptura imediata” de seu contrato.
A Fundação Osesp informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que obteve junto ao Ministério do Trabalho toda a documentação necessária para que Tortelier trabalhasse regularmente no Brasil. Sobre o pedido apresentado à Justiça do Trabalho com relação a verbas rescisórias, a fundação informou não ter sido notificada.
A Folha apurou que o salário de Tortelier é mais do que o dobro do de Neschling.

28/02/2009 - 18:14h Bem-vindo Tortelier

A OSESP tem novo maestro. Espero que consiga preservar a excelência da orquestra. Bagagem para isto Yan Tortelier tem de sobra.

Quando da demissão de Neschling os tucanos lançaram uma campanha sobre o salário do regente. Na época, Neschling acumulava duas funções que foram desdobradas, a de diretor artístico e a do regente-titular.

A transparência não deveria incluir a publicidade sobre o valor do salário do novo maestro e dos que assumam a direção artística?

Onde estão agora os tucanos que questionavam o valor “absurdo” do salário de Neschling?

Porque não enviam cartas aos jornais exigindo saber o salário que será pago para ambas as funções?

Evidentemente Yan Tortelier nada tem a ver com a demissão de Neschling, nem com a implicação do governador Serra com o maestro da OSESP. É seguramente o salário dele, como o dos que assumirão a direção artística da orquestra, seguira os padrões internacionais sobre o assunto.

Mas o que fica é a hipocrisia dos que justificaram a mudança invocando o dinheiro público e que agora nada dizem.

A “ética” dos sicofantas ficou muda. LF

28/02/2009 - 17:39h O novo primeiro-regente

O maestro francês Yan Pascal Tortelier assume na segunda o comando da principal orquestra do País e fala pela primeira vez dos planos para a Osesp

 

João Luiz Sampaio – O Estado SP

 


O maestro francês Yan Pascal Tortelier chega este fim de semana a São Paulo para começar seu trabalho de dois anos como regente-titular da Sinfônica do Estado de São Paulo, substituindo John Neschling, demitido no início de janeiro. Definindo uma orquestra como “o mais perfeito instrumento criado pelo homem”, Tortelier, que já esteve à frente da Filarmônica da BBC, em Manchester, se diz animado com a possibilidade do trabalho em São Paulo. E, na entrevista concedida por telefone ao Estado, pede paciência ao público para que ele tenha tempo de conhecer melhor o grupo. Seu primeiro concerto será na quinta-feira, na abertura oficial da temporada, na Sala São Paulo.

Qual a avaliação de seu primeiro contato com a orquestra, em 2008?

Foi uma surpresa maravilhosa viajar a São Paulo e descobrir uma sala maravilhosa. Sinto não tê-la conhecido antes. A questão da acústica é complicada, mas a solução de uma sala criada a partir de um prédio antigo é muito rica e bem-sucedida. Mas o que é uma sala sem uma orquestra? E a Osesp também me surpreendeu, possui alto nível de treinamento e nos demos muito bem. Tive a sensação de que dá para fazer muito em termos de repertório com esses músicos.

Estava prevista a apresentação do oratório Paulus, de Mendelssohn, para a abertura da temporada. Por que trocar a peça pelas mais apresentadas Variações Enigma, de Elgar, e a Sinfonia nº 2, de Rachmaninoff?

Essas são peças com as quais tenho uma relação muito forte. E tudo aconteceu de uma hora para outra, precisei tomar decisões rápidas e procurei um repertório que fosse adequado para todos, com exceção do coro, que ficou de fora mas com quem pretendo trabalhar bastante ainda. Mas entendam que foi tudo muito rápido e tive sorte de poder aceitar o convite, de ter as nove semanas livres em minha agenda, o que aconteceu porque atualmente não tenho nenhum posto fixo à frente de uma orquestra.

A Osesp trabalhou nos últimos 12 anos sob o comando de um mesmo maestro e, desde sua reestruturação, esta é a primeira vez que o grupo passa por uma troca de regentes. Isso torna a transição complicada?

Cada concerto, cada programa, é uma aventura, em qualquer lugar, não apenas em São Paulo. É assim que penso minha vida e minha carreira. Toda vez que chego para trabalhar com uma orquestra vejo a oportunidade como um desafio, uma aventura. Não tenho 100% de certeza de que minha parceria com a Osesp vai funcionar, que seremos bem-sucedidos. Não sei como eles tocam esse repertório que escolhi para o concerto de abertura, por exemplo. Mas sei como os músicos reagiram a mim no ano passado. E estou contando com essa química. No mais, é sempre uma aventura. E é isso que torna minha profissão fascinante.

Como regente-titular, o senhor deve participar da montagem das próximas temporadas da Osesp. Qual imagina ser o repertório ideal para uma orquestra como ela?

Acho necessário relembrar que estou indo para São Paulo em um contexto muito específico, delicado. Vou porque estou disponível, nesta e na próxima temporada. Não sou apenas um regente convidado principal, mas prefiro pensar em mim como um regente principal convidado. Vai caber à direção da orquestra discutir repertórios e programações. Deixem que eu chegue e, após um mês de trabalho, conheça melhor o grupo, com quem trabalhei apenas duas semanas até agora. Estou disposto a conversar e ajudar na montagem do repertório da Osesp. Mas não sou de fazer planos, prefiro que as coisas fluam naturalmente. Vamos ver como nossa relação se dá e construiremos a partir daí.

Existe algum repertório com o qual o senhor se identifica em especial?

A música alemã seria, acredito, o pão com manteiga da minha juventude como músico. O repertório francês flui naturalmente no meu sangue; os russos, bom, são essenciais, assim como a música latina, sempre com espaço para os compositores anglo-saxões. Acho que posso dizer que, se não com tudo, eu me sinto feliz com a maior parte do repertório sinfônico ocidental.

O senhor falou em música latina. Conhece a música brasileira?

Essa é uma pergunta delicada para mim. O grande atributo da música latina, a brasileira incluída, é o ritmo, há um fogo que tem a ver com o ritmo. Fala-se sempre isso dos russos, de Stravinsky, mas não acho que a questão rítmica seja tão essencial para os russos quanto para os latinos. Não regi muita música brasileira, mas espero em São Paulo poder me aventurar por esse repertório, gostaria muito disso. Mas tenham paciência, não seria justo exigir isso de mim logo de cara. De qualquer forma, não acredito que vocês precisem de mim como advogado de sua música. Meu papel em São Paulo é mais amplo.

Para que serve uma orquestra sinfônica em um mundo como o de hoje?

Talvez eu pareça ultrapassado, mas acho que o mundo de hoje fica cada vez mais superficial. A tecnologia traz avanços indiscutíveis, mas transforma o ambiente em que vivemos e, aos poucos, passamos a nos comportar como máquinas. Há aí a necessidade da espiritualidade, não do fanatismo, claro, mas do misticismo. Não sou uma pessoa religiosa, devo dizer. Mas vejo a música como minha religião, em vez do judaísmo, budismo, cristianismo, islamismo, etc. Nunca houve uma guerra provocada pela música. Ela pode fazer por nós tanto quanto qualquer religião. E uma orquestra é o veículo perfeito dessa idéia, deve difundir a música, levando-a ao maior número possível de pessoas.

E agora?

 


A demissão do maestro John Neschling despertou uma série de questões sobre o futuro da Osesp. Se Tortelier assume o posto de regente-titular, quem fica como diretor artístico, encarregado portanto de montar as próximas temporadas? Segundo a Fundação Osesp, a direção artística será feita provisoriamente pelos consultores internacionais contratados para auxiliar a orquestra nesse momento de transição: Timothy Walker, diretor-executivo e artístico da Filarmônica de Londres, e Henry Fogel, ex-presidente da Liga Americana de Orquestras e ex-diretor-executivo da Orquestra Nacional de Washington e da Sinfônica de Chicago. Quanto ao nome do novo diretor, a fundação promete o anúncio para 2010, “a tempo de preparar a temporada de 2011″. Sobre as gravações. Tortelier vai comandar o grupo em uma delas. A Fundação, no entanto, ainda não informou o cronograma completo de gravações e os artistas que estarão envolvidos. Também falta um pronunciamento oficial por parte da orquestra sobre as turnês pelos Estados Unidos e pela Europa, previstas para este e o próximo ano: estão confirmadas? Quem regerá o grupo nas viagens?

28/02/2009 - 17:02h Maestro francês, que assume Osesp até 2011, diz que orquestra precisa de mais visibilidade internacional

ENTREVISTA

YAN PASCAL TORTELIER

“Por que não pensar alto e planejar uma turnê mundial?”

Maestro francês, que assume Osesp até 2011, diz que orquestra precisa de mais visibilidade internacional

Tortelier rege a Osesp, no ano passado; ele afirma que, ao assumir a orquestra, não quer se envolver com “encargos burocráticos”

JOÃO BATISTA NATALI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O maestro francês Yan Pascal Tortelier, que assume a Osesp (Sinfônica do Estado) como regente principal, disse à Folha que um de seus objetivos nos próximos dois anos será o de dar à orquestra mais visibilidade internacional. “Por que não pensar alto e planejar uma turnê mundial?”, sugere. O substituto de John Neschling, que foi demitido em janeiro, não revela seu salário: “Em geral, ganho menos do que deveria”, avalia. A seguir, trechos da entrevista, feita na última quarta, por telefone, de Manchester (Reino Unido).

***

FOLHA – O sr. já conheceu a Osesp por tê-la regido seis vezes, em dois programas diferentes, em 2008. O que falta para que se torne uma das grandes sinfônicas mundiais?
YAN PASCAL TORTELIER
– No ano passado, trabalhei com a orquestra um repertório francês, do qual me sinto bastante próximo. Mas preciso ainda trabalhar outros repertórios, como Elgar e Rachmaninov, que estarão no primeiro programa desta temporada. E preciso trabalhar peças do repertório brasileiro, o que não me constrange. A Osesp já possui reputação internacional razoável. Creio que ela precisa de mais visibilidade internacional. Essa visibilidade será facilitada pelo fato de a orquestra merecer comentários positivos. Mesmo na revista “Gramophone”, que a situou entre aquelas cujo trabalho merece ser acompanhado.

FOLHA – A Osesp gravou 32 CDs e fez mais de uma turnê pela Europa e pelos EUA. Isso já não é visibilidade?
TORTELIER
– Por enquanto, é difícil para mim especificar um plano de trabalho, já que preciso ainda conversar com a direção da orquestra em SP, a partir da próxima semana. Mas acredito que o simples fato de eu assumir meu posto na Osesp dará a ela um ângulo diferente de exposição. Desde janeiro, recebi cumprimentos inúmeros no meio musical americano e europeu por ter aceito dirigir a orquestra. Eu e ela poderemos, de certo modo, nos dar mutuamente visibilidade. Por que não pensar alto e planejar uma turnê mundial? Quanto às gravações, também tenho meus contatos para permitir aos músicos continuarem a ser mais conhecidos internacionalmente.

FOLHA – O sr. mencionou o repertório brasileiro, que compreensivelmente não lhe é familiar. Como o sr. fará para programá-lo e regê-lo?
TORTELIER
– Eu não estou entrando a bordo da orquestra de modo improvisado. Mas é algo novo, que há poucas semanas ainda me era impensável. As coisas são ainda muito novas para mim. Preciso conversar com a direção da Osesp, discutir os desafios, inclusive quanto ao repertório brasileiro. O que posso dizer humildemente é que estou estudando esse repertório e espero que me seja dado o tempo para tomar decisões com relação a ele.

FOLHA – Além das oito semanas que o sr. ficará em São Paulo nessa próxima temporada, há de sua parte o plano de permanecer por aqui mais tempo para cuidar dos problemas de uma centena de músicos?
TORTELIER
– A Osesp é uma grande orquestra. Quando a regi no ano passado, tinha à disposição 14 primeiros-violinos. Nem todas as grandes orquestras europeias conseguem reunir um naipe tão numeroso. Sobre as minhas atribuições, não serei um simples “regente convidado”. Serei bem mais do que isso. Serei o regente principal, pela experiência que tenho. Mas não me envolverei nos problemas cotidianos. Meu desejo é reger, sem os encargos administrativos e burocráticos.

FOLHA – A Osesp se diferenciou das demais orquestras brasileiras pela ousadia do repertório. O sr. pretende manter essa especificidade?
TORTELIER
– Não fui ainda integralmente informado sobre os padrões das programações das temporadas precedentes. Mas, pessoalmente, apesar de minha formação centrada na música francesa ou na excelência do romantismo alemão, não teria dificuldades em manter essa “ousadia”, com a programação de compositores do século 20, como Witold Lutoslawski, Paul Hindemith ou Zoltán Kodály, que eu gravei exaustivamente com a Filarmônica da BBC. São nomes importantes. Precisamos fazer peças menos conhecidas de Stravinsky e Chostakovich. Não que eu seja um fanático do repertório esotérico. Bem pelo contrário, preciso consumir meu pão com manteiga.

FOLHA – O sr. manterá a atual programação de gravações?
TORTELIER
– Peço que a pergunta seja refeita dentro de duas ou três semanas, quando já tiver discutido o assunto em SP. Claro que gravaremos, em razão da visibilidade que mencionei.

FOLHA – Quando é que o sr. foi convidado para assumir a Osesp?
TORTELIER
– No ano passado, a orquestra me convidou para reger dois programas em 2010. Mas, para minha surpresa, nos primeiros dias de janeiro, meu empresário procurou-me e relatou a intenção da Osesp de me ter como regente principal.

FOLHA – Seu predecessor, o maestro John Neschling, foi criticado por receber um salário mensal de R$ 100 mil. O sr. acredita que essa quantia é exagerada?
TORTELIER
– [gargalhada] É uma pergunta bastante engraçada. É claro que não tenho comentários sobre o salário do maestro, do mesmo modo como não permitiria comentários sobre o meu. O que posso afirmar com tranquilidade é que não sou um músico movido a dinheiro. Em geral, ganho menos do que deveria ganhar por minha experiência em meus já completados 61 anos. E sempre ganhei bem menos que os maestros de orquestras americanas.

FOLHA – Afora música clássica, de que tipo de música gosta?
TORTELIER
– Eu não tenho muito tempo para ouvir música e gosto de ir ao cinema e ao teatro. Mas, quando saio do repertório clássico, eu gosto de jazz. Nem o tão moderno, nem o tão antigo. Algo próximo do swing.

 saiba mais

Mandato de maestro será de dois anos

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Yan Pascal Tortelier assume a direção da Osesp no desfecho da maior crise interna desde sua criação, em 1954. Ele substitui o maestro John Neschling, que passou a dirigir a orquestra em 1997 e deu a ela um padrão de excelência inédito entre as sinfônicas brasileiras.
Neschling estava desde 2007 em rota de colisão com o Conselho da Fundação Osesp, com a Secretaria da Cultura do Estado e com o governador José Serra. Um dos integrantes do conselho comunicou a ele que seu contrato não seria renovado a partir de outubro de 2010.
Em dezembro do ano passado, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o maestro qualificou de “irresponsável” a forma como era conduzida sua sucessão. Ao mesmo tempo, o conselho passou a suspeitar que Neschling estimulava o movimento por sua permanência, que cresceu entre frequentadores da Sala São Paulo.
Segundo Fernando Henrique Cardoso, presidente do conselho, a sucessão estava atrapalhada porque o diretor artístico dizia publicamente que ela não daria certo.
Tortelier foi contatado pelo conselho nos primeiros dias de janeiro. No dia 12, FHC encontrou-se em Londres com o maestro que se tornaria regente principal por dois anos, numa espécie de mandato-tampão, até a escolha de um novo diretor artístico, a partir da temporada de 2011. Em 21 de janeiro, um dos integrantes do conselho, o embaixador Rubens Barbosa, foi encarregado de comunicar a Neschling que ele estava demitido. Horas depois, um e-mail de FHC confirmava a demissão.
Antes de Neschling, a Osesp tinha a reputação de uma sinfônica de segunda linha, mesmo sob o comando, por 23 anos, de Eleazar de Carvalho, um dos grandes da regência brasileira, que foi no entanto desprestigiado pelos sucessivos governos estaduais que se recusavam a pagar aos músicos salários compatíveis.
Em 1997, Neschling demitiu todos os músicos, obrigou os que quisessem ser recontratados a se submeter a um novo concurso, no qual os aprovados passaram a receber salário cinco vezes maior. (JBN)

01/02/2009 - 11:24h Demissão de John Neschling da Osesp gera “sinfonia” de silêncio e especulações

PRIMEIRO ATO

O destino da Sala São Paulo e da orquestra em três atos: presente confuso, passado glorioso e futuro incerto

ADRIANA KÜCHLER E GUSTAVO FIORATTIDA REVISTA DA FOLHA

No princípio, era a música. E a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo gravaria, a partir do dia 12, mais um CD para o selo sueco Bis, com a participação do trompetista norueguês Ole Edvard Antonsen. Mas esse importante compromisso da pré-temporada, agendado há um ano, foi cancelado.
O motivo todos conhecem: a demissão do polêmico maestro e diretor artístico John Neschling, 61, anunciada em 21 de janeiro, da orquestra que comandava há 12 anos.
Após a carta de demissão ao regente, assinada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que encabeça a fundação, foi combinado um pacto de silêncio, que só seria quebrado na última sexta-feira para o anúncio oficial do francês Yan Pascal Tortelier, 61, como maestro substituto para as temporadas de 2009 e 2010.
Filho do renomado violoncelista Paul Tortelier, Yan comandou a Filarmônica da BBC e é considerado um regente de primeira, como Neschling.
“Tudo isso foi feito com um único propósito: preservar a qualidade da orquestra”, disse à Folha Fernando Henrique Cardoso. “O processo foi realizado com serenidade e pesar.”
No comando da Osesp, o maestro carioca criou um projeto e uma nova forma de administrar. Profissionalizou e fez a orquestra reconhecida no cenário internacional. Exigiu a construção da Sala São Paulo, inaugurou a era das turnês internacionais e garantiu maiores salários para os músicos e um orçamento que chegou a R$ 59,9 mi em 2008 -R$ 43 mi bancados pelo governo.

“Neschlíngua”
Enquanto aumentava a visibilidade internacional, Neschling cultivava a fama de autoritário e centralizador. Ganhou inimigos entre os músicos e o governo do Estado e o apelido maldoso de “neschlíngua”. Chegou a chamar o governador José Serra de menino mimado em um ensaio cujo áudio foi gravado e difundido pelo site YouTube, em 2007.
Após uma série de troca de farpas, o maestro anunciou, em junho do ano passado, que não renovaria o seu contrato, que expiraria em outubro de 2010.
Do tripé de apoio a um maestro, Neschling ainda tem um pilar para sustentá-lo: os fãs. Em um dos últimos concertos do ano passado, os assinantes da Sala São Paulo organizaram um coro de apoio. “Fica! Fica!”, cantaram por dez minutos, num momento emocionante.
Na comunidade musical, no entanto, as reações são diferentes. “Se há assinantes reclamando, também tem muita gente comemorando”, afirma Arthur Nestrovski, violonista e articulista da Folha. Procurado pela reportagem, o maestro não quis se manifestar.
A questão agora é saber se a separação será de comum acordo ou litigiosa. A Fundação Osesp alegará rompimento de contrato? Terá de pagar indenização pela demissão?
Uma sinfonia que ainda promete muitos atos e outros tantos acordes dissonantes. Mas nem sempre foi assim…

SEGUNDO ATO

Passado foi de autoritarismo, inovação e busca por excelência JOÃO BATISTA NATALI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Antes da reformulação da Osesp por John Neschling, em 1997, os paulistanos só ouviam boa música sinfônica quando orquestras estrangeiras se apresentavam pela Sociedade de Cultura Artística ou pelo Mozarteum Brasileiro. O salto qualitativo com a Osesp foi imenso, e a história é longa.
Eleazar de Carvalho morreu em 1996. Foi um dos grandes da regência brasileira, mas a Osesp em suas mãos, por 24 anos, foi uma orquestra desimportante e desprestigiada pelos sucessivos governos. Com Eleazar morto, o então secretário estadual da Cultura, Marcos Mendonça, contatou John Neschling, que vivia no Rio, e propôs conversar.
Neschling impôs duas condições. A primeira: carta-branca para a seleção dos instrumentistas. A segunda: sala de acústica impecável. O então governador Mário Covas concordou.
O maestro exercia seu perfeccionismo de modo intempestivo e autoritário. Em setembro de 2001, enfrenta sua primeira crise interna.
Mas seus destemperos, por mais que afetassem o clima entre os músicos, eram exercidos nos ensaios. O público testemunhava o produto final.
Os “anos Neschling” na Osesp trazem uma última inovação na história brasileira da música sinfônica. O ex-diretor artístico e sua orquestra ampliaram o repertório à disposição do público.
A verdade é que nenhuma instituição possui em seu comando alguém insubstituível. Neschling pode dar lugar a outro nome que mantenha a Osesp em seu atual padrão elevado. Mas o caminho é escorregadio, e os riscos, imensos.

TERCEIRO ATO

Maestro assume cargo diante de plateia cheia de incertezas

DA REVISTA DA FOLHA

Em 5 de março, quando o maestro levantar a batuta, uma nova fase da Osesp vai debutar. Entre músicos, críticos e amantes da música erudita, não faltam perguntas. “Mantive minha assinatura, mas com muitas dúvidas. A principal delas é se o grupo vai manter a excelência”, diz a professora Maria José Ferraz do Amaral.
Entre especialistas, nenhuma aposta de declínio. “Yan Pascal Tortelier é um músico de reputação. Tenho certeza de que a orquestra vai crescer”, diz o oboísta Alex Klein.
O currículo do regente francês não deixa dúvidas de que ele está apto. Tortelier foi maestro titular da Filarmônica da BBC entre 1992 e 2003. Já regeu orquestras imponentes, como a Sinfônica de Londres e a Orquestra de Paris.
O futuro da Osesp estará nas mãos e na competência de uma nova governança que ainda é uma incógnita. Principalmente, porque as funções exercidas por Neschling que acumulava também a de diretor artístico, que responde pela programação, serão exercidas por profissionais distintos.
Confirmado o nome de Tortelier como regente da Osesp, a direção artística do grupo, por hora, deve ficar nas mãos de dois conselheiros contratados.
Resta outra questão crucial: o quanto a Osesp estará disposta a pagar pela excelência de seu comando. O salário de Neschling era de R$ 100 mil. Tortelier costuma receber US$ 25 mil (R$ 57 mil) por programa. E a Fundação Osesp vai ter de bancar os consultores.
Enquanto os músicos afinam os instrumentos para a nova temporada, a Osesp tem muitas contas a fazer e a prestar. (ADRIANA KÜCHLER e GUSTAVO FIORATTI)

31/01/2009 - 17:37h FHC: ”O risco para a Osesp seria maior sem a substituição”

Em entrevista, o presidente do conselho da fundação, Fernando Henrique Cardoso, defende demissão de Neschling

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João Luiz Sampaio – O Estado SP

 


O ex-presidente da República e presidente do conselho da Fundação Osesp Fernando Henrique Cardoso confirmou ontem o nome do maestro Yan Pascal Tortelier como novo regente titular da orquestra, substituindo John Neschling, demitido na semana passada. Seu contrato é de dois anos – em 2011, assume um novo diretor artístico, que será escolhido por uma comissão ainda a ser nomeada. Em sua primeira entrevista depois da demissão, creditada a declarações de Neschling publicadas em entrevista ao Estado, na qual questionava o processo de escolha de seu substituto e falava em articulações políticas para tirá-lo do cargo, FHC, acompanhado de outros membros do conselho (o banqueiro Pedro Moreira Salles e o editor Luiz Schwarcz) e do diretor-executivo da orquestra, Marcelo Lopes, foi categórico: “O risco para a orquestra seria maior sem a substituição do maestro.”

Como se chegou ao nome do maestro Yan Pascal Tortelier para assumir o posto de regente titular nas próximas duas temporadas?

Fernando Henrique Cardoso – Ele foi bem apreciado pelos críticos e pelos músicos quando esteve aqui trabalhando com a orquestra. Estamos em contato com consultores internacionais, que também têm uma boa impressão dele. E ele está entusiasmado, gostou muito daqui.

A fundação já chegou aos critérios que vão nortear a escolha do novo diretor artístico a partir de 2011?

FHC – Vamos criar uma comissão de seleção. Em março chega o Tortelier e os consultores estarão aqui também. Ainda não definimos o tamanho da comissão, mas certamente eles estarão representados, assim como o conselho e os músicos. Essa comissão terá um prazo para chegar a um nome. Vai convidar maestros a reger a orquestra e serem avaliados. Será um escolha feita com todo critério, o objetivo central é manter a qualidade do grupo e ampliá-la. Brasileiro ou não, será escolhido alguém capaz de fazer isso. E não será levada em conta apenas a questão artística, mas também a capacidade de organizar temporadas e de se relacionar dentro da orquestra.

Membros do conselho já falaram na possibilidade de não ter apenas uma pessoa como diretor artístico e regente titular, ao contrário do que ocorre hoje. Neschling tinha poder demais dentro da orquestra?

FHC – Havia uma concentração de poder e a tendência contemporânea é outra. Vamos discutir isso ainda, essa questão da governança, até mesmo revendo o papel do conselho. Isso não é de hoje, essa necessidade de reavaliação. Estamos abertos a muitas possibilidades, fomos buscar informações sobre os muito caminhos possíveis e vamos discuti-los. Agora, esse modelo unipessoal é cada vez mais raro no mundo todo.

Pedro Moreira Salles – Não foi por acaso que chamamos um consultor americano e outro europeu, com vasta experiência à frente de orquestras. Os dois lidaram com modelos diferentes e vão, com isso, nos ajudar na busca do melhor formato de governança, tendo em vista a institucionalização da orquestra. É esse o momento para isso, a segurança institucional da orquestra não pode depender unicamente de uma pessoa.

Em entrevista em dezembro, no entanto, Neschling diz temer pelo futuro da Osesp e afirma que o grupo se encontra em um momento de seu processo artístico em que substituições seriam nocivas.

FHC – Nós precipitamos a saída do maestro porque uma orquestra para funcionar precisa de harmonia. Ele quebrou essa harmonia e não só com o conselho, mas em todas as instâncias. Uma orquestra que, como ele diz, está em um momento delicado de sua trajetória, não pode ser sujeita a isso. O risco para a orquestra seria maior sem a substituição.

Salles – São 12 anos de trabalho, não três ou quatro, e de um trabalho bem-feito. Mas, agora, para se fortalecer, a Osesp precisa de outros maestros. Dizer que ela não sobrevive sem ele é dizer que o trabalho não foi bem-feito e que não existe uma orquestra mas, sim, um maestro. Se fosse do jeito que imaginávamos, a transição se daria depois de 14 anos de trabalho. Mas, do modo como aconteceu, era hora de tomar uma decisão ou a orquestra não conseguiria, até lá, garantir sua institucionalização.

Neschling afirma também que sua demissão foi motivada por pressões políticas do governo do Estado. Houve essa pressão?

FHC – Comunicamos oficialmente a decisão ao secretário de Cultura. Todos sabem de minha relação com o governador e, portanto, também liguei a ele para contar da decisão. É óbvio que prestamos contas ao governo e mantemos aberto o diálogo mas, como membros da fundação, é nossa função manter nossa independência. Se o governador fez pressão no início, nunca mais fez. Se houve qualquer movimento, fizemos uma barreira. A relação com o governo precisa ser harmoniosa e isso significa ouvir e ser ouvido, de acordo com as obrigações de cada um.

O contrato de gestão entre fundação e governo termina em 2011. Já está sendo discutido um novo contrato? Em que ele será diferente?

FHC – Sim, já há discussões, adiantadas, e queremos resolver isso logo para preservar a continuidade do projeto Osesp.

Marcelo Lopes – Não há grandes mudanças, o principal diz respeito ao aumento do número de concertos populares e de apresentações no interior.

Por que não se esperou a volta de Neschling ao Brasil para demiti-lo?

FHC – Porque a temporada começa em março e precisávamos logo de um regente. O desgaste foi recente e nos sobrou pouco tempo. Não queríamos contratar ninguém pelas costas, daí a decisão de comunicá-lo. E, bem, a entrevista dada por ele também foi nas férias… Mas ele não foi afastado por e-mail. Avisei por e-mail que o embaixador Rubens Barbosa (membro do conselho da Osesp) iria comunicar a ele por telefone a natureza do assunto importante que precisávamos tratar. Depois disso, mandei por correio a carta de demissão e, a pedido dele, uma cópia por e-mail. E, também, convenhamos que hoje em dia o e-mail é uma forma natural de correspondência.

Salles – Tudo foi feito para preservar a programação, para evitar interrupções na temporada, o que seria violento. Mas precisávamos agir, as relações estavam insustentáveis. E precisávamos da ajuda do regente da orquestra para abrir espaços na temporada de forma que maestros convidados viessem e regessem o grupo, sendo avaliados. É bom deixar claro que foi tudo para preservar a programação, para não interromper a temporada, o que seria violento.

Haverá mudanças na temporada?

FHC – Apenas ajustes por questão de agenda e um número maior de maestros convidados. Já chamamos Isaac Karabtchevsky e Fabio Meccheti e chamaremos outros. O comitê de busca precisa avaliar esses artistas. O Tortelier, de qualquer forma, regerá nove semanas em 2009, sendo oito de concertos e uma de gravações, que, aliás, serão todas mantidas, não há mudanças nos contratos com a BIS e Biscoito Fino.

Quando olhamos a temporada de 2009 há um número muito alto de concertos regidos por Neschling, são 14 ao todo. Os senhores estão sugerindo que ele bloqueou a temporada para atrapalhar a sucessão?

FHC – Isso ficou claro para nós. A tese dele é de que antes de 2013 seria impossível encontra um substituto.

Salles – E ele nos disse que só colaboraria se ficasse até 2013.

FHC – Para ele, a Osesp só funciona se ele tiver todo o poder.

23/01/2009 - 16:15h Família Tortelier

tortelier_yan.jpg Yan Pascal Tortelier

Yan Pascal Tortelier

O maestro francês esteve à frente da Osesp por duas semanas, em maio do ano passado, em programas de música francesa que deixaram os músicos e o público bem impressionados. Ele substituiu de última hora o também francês Michel Plasson, inicialmente contratado para aqueles concertos.

Filho do violoncelista Paul Tortelier (1914-1990), Yan Pascal Tortelier já foi titular da Filarmônica da BBC, de Manchester, e da Sinfônica de Pittsburgh. (Fonte Folha SP).

A seguir concerto da família Tortelier, sem o filho Yan Pascal.

Trio Sonata in G-minor HWV 387  de Handel

Transcription de Louis Feuillard

Paul Tortelier – violoncelo
Maude Tortelier – violoncelo
Maria De la Pau Tortelier – piano