22/12/2008 - 15:18h Queime depois de ler

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Matthew Shirts - O Estado SP

Se você ainda não assistiu ao filme Queime Depois de Ler, está aí um belo programa para o fim do ano. Nada contarei a respeito. Fique tranqüilo. Sou da opinião, cada vez mais definida, aliás, de que quanto menos se souber dos filmes antes de vê-los, melhor. Saio do cinema para comprar pipoca na hora dos trailers, inclusive, e só leio as críticas depois. É uma mania de quem já vai avançando pela (meia) idade, sei, mas fazer o quê?

Queime Depois de Ler é dos irmãos Coen, está em cartaz e traz a crítica mais ácida à cultura americana recente que conheço. E nada mais direi. Juro. A não ser que se trata de uma comédia. É uma proeza, esta, a de combinar crítica cultural com boas risadas.

Fui sozinho, após uma expedição de uma hora e meia pelo trânsito de São Paulo na semana passada. Busquei refúgio no escurinho do cinema logo depois de ter passado de carro por dois - ninguém merece - shopping centers na época do Natal. Saí do filme já tarde da noite, mais calmo, e levemente embevecido pelo intelectualismo da obra. Que delícia de filme, pensava eu no metrô, rumo à estação Sumaré.

Retrata a idiotia da cultura americana das últimas décadas. E provoca momentos de desespero, em quem espera soluções dos Estados Unidos para a crise econômica mundial. Vai ser difícil, avaliava eu no vagão de metrô, até lembrar que haverá, em menos de um mês, uma troca de presidentes.

A esperança provocada no mundo pela eleição de Barack Obama cedeu nas últimas semanas à preocupação com o tamanho do estrago que ele herdará da administração Bush. Convenhamos, os republicanos capricharam. Não contentes em destruir a economia, montar pelo menos uma guerra sem sentido e reinventar a tortura, se empenham, agora, nos últimos dias no poder, em destruir o meio ambiente dos EUA. Escreve Graydon Carter na carta do editor da revista Vanity Fair deste mês: “Bush e Cheney vêm trabalhando com fervor para inventar até 130 novas regulamentações com a finalidade de enfraquecer leis federais que protegem o meio ambiente, nossas liberdades civis e a segurança pessoal (…) É o equivalente ambiental a enfiar os talheres de prata e os pratos de porcelana na mala antes de sair de uma casa emprestada.”

Arrumar tamanha bagunça não será fácil. Mas encontrei um ponto de apoio para minha esperança no Obama em um artigo do site The Daily Beast. A autora, Ruth E. Van Reken, chama a atenção para uma novidade. Boa parte do seu gabinete é composta por americanos que passaram um pedaço da infância em outros países. O próprio presidente eleito foi criança na Indonésia, como se sabe. A conselheira Valerie Jarrett foi criada em Teerã e Londres. O ministro da economia, Tim Geither, cresceu na África, na Índia, Tailândia, China e Japão; o ministro do comércio Bill Richardson, na Cidade do México; o conselheiro para Segurança Nacional James L. Jones, em Paris.

Esta não é uma mera coincidência, segundo a autora, que estuda crianças educadas fora do seu país de origem. Eles tendem a andar juntos, pelo que entendi, e têm em comum, ainda, “uma perspectiva global e flexibilidade intelectual e social”. São criativos, buscam soluções originais com rapidez e reconciliam diferentes pontos de vista com facilidade.

Com Obama, chega ao poder nos EUA uma nova geração, global, que entenderá melhor o alcance mundial da crise e como resolvê-la. Tim Gaither, o ministro da economia, por exemplo, não é economista de formação. Mas sua capacidade para encontrar soluções criativas é tão respeitada pelo mercado financeiro que a Bolsa de Valores de Nova York subiu 500 pontos ao saber da sua nomeação.

Se você pergunta o que isso tem a ver com Queime Depois de Ler dos irmãos Coen, a resposta é: muito. Mas não vou contar. Se quiser ler, o artigo está em www.thedailybeast.com/author/ruth-e-van-reken. Veja o filme. Boas festas!

26/09/2008 - 12:14h Promessas de um Cara-de-Pau

Um cara-de-pau na disputa eleitoral pela Casa Branca

Promessas de Um Cara-de-Pau recorre ao humor para falar de responsabilidade

Luiz Carlos Merten - O Estado de São Paulo

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Bud, personagem de Kevin Costner em Promessas de Um Cara-de-Pau, não tem esse nome por acaso. ?Bud? é o diminutivo de uma conhecida marca de cerveja dos EUA e o herói é um bêbado contumaz, apesar do empenho da filha, uma garota que não desiste de transformar o pai num sujeito responsável. É justamente de responsabilidade que fala Promessas de Um Cara-de-Pau, mesmo que, na maior parte do tempo, o diretor Joshua Michael Stern o faça pelo seu reverso, a irresponsabilidade.

link Assista ao trailer de Promessas…trailer

É por causa de sua irresponsabilidade, porque bebeu demais, até cair, que Bud perde o horário de votar na mais acirrada disputa presidencial dos EUA nos últimos anos. A filha, decepcionada, aproveita-se de um cochilo da banca para votar pelo pai. Ocorre o impossível, não apenas improvável. Uma falha no sistema elétrico na cabine não computa o voto de Bud. A eleição termina empatada e agora caberá a este homem, um único eleitor, escolher quem será o próximo presidente dos EUA.

Os dois candidatos que polarizam a disputa são o presidente, concorrendo à reeleição, e seu principal opositor, tão verde que seu nome é ?Greenleaf?. Orientados pelos respectivos marqueteiros, abandonam toda ética e se lançam a uma desenfreada corrida pelo voto de Bud. Vale tudo, mas lá pelas tantas todo mundo se ressente do que está fazendo. Os dois candidatos passam a se desdizer e contradizer, abandonam as respectivas plataformas e um passa a defender o programa do outro. A repórter que descobre o imbróglio tem de decidir se usa sua descoberta em proveito próprio, para sair da minúscula cidade no Texas - Texico, você sabe onde fica? - e ganhar projeção nacional. A própria filha sente que o pai está colocando o país à beira de uma crise institucional.

Enquanto isso, Bud diverte-se no jato presidencial ou em animadas conversas com Dennis Hopper, o ex-Sem Destino, mais ou menos como o próprio herói, que agora poderá ser o homem mais poderoso do mundo. O filme é uma fantasia digna de Frank Capra. Cada um de nós pode ser melhor, é a mensagem. É verdade, mas dificilmente alguém será melhor do que Kevin Costner. Ele é tão bom no papel que você embarca na fantasia.

Serviço
Promessas de Um Cara-de-Pau (Swing Vote, EUA/ 2008, 122 min.) - Comédia. Dir. Joshua Michael Stern. 10 anos. Cotação: Regular

13/09/2008 - 20:18h Canções de amor

07/08/2008 - 16:16h Les uns et les autres - Bolero - Retratos da Vida

A pedido de Deolinda, leitora do blog, um pedaço do filme “Les uns et les autres” de Claude Lelouche. A música é o Bolero de Maurice Ravel, a coreografia é de Maurice Bejart e o dançarino é Jorge Donn. No filme atua Geraldine Chaplin e tem ainda canção de Michel Legrand et Francis Lai, mas é todo uma questão de gosto. Aqui vão os dois. Acrescentei também o trailer em inglês, com sub-títulos em português, com o nome Bolero. A versão que passou no Brasil com o nome de Retratos da Vida, esta apresentada no Youtube pelo comentário que reproduzo a seguir.LF

“Enquanto o mundo batalhava entre si durante a Segunda Guerra Mundial, quatro família de distintos países - Estados Unidos, França, Alemanha e Rússia - se cruzam em circunstâncias históricas e se unem através da dança e do drama. Este clássico decalca o Bolero de Ravel, com um coreografia marcante de Jorge Donn em pleno Trocadero parisiense. A música tornou-se uma verdadeira febre na época lançada sendo quase impossível ouvir a música e não associá-la ao filme. Composto de um elenco de extraordinários atores - James Caan, Robert Houssein, Geraldine Chaplin, Nicole Garcia, Fanny Ardant - sob a direção do renomado diretor Claude Lelouch, destacado pela criação de diversas obras primas do cinema de arte, Retratos da Vida é, sem dúvida, um dos filmes mais marcantes de sua época e continua encantando platéias do mundo inteiro.
Agenda da Danca de Salao Brasileira.
www.dancadesalao.com/agenda”

09/05/2008 - 20:10h Em busca de uma Argentina perdida no passado

O documentário O Último Bandoneón visita os velhos músicos de tango, bailarinos e praticantes da arte que consagrou Carlos Gardel, mas vai atrás também da identidade cultural daquele país

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Luiz Zanin Oricchio - O Estado de São Paulo

O Último Bandoneón, de Alejandro Saderman, não é um documentário convencional apenas porque seus personagens são verdadeiros mas, de tempos em tempos, interpretam a si mesmos. Não existe uma ‘história’ a contar, a não ser que se considere assim a de Marina Gayotto, que toca esse instrumento intimamente associado ao tango e procura ter aulas com um mestre renomado como Rodolfo Mederos, craque do tango, que tocou com Piazzolla e dele herdou a arte e seu próprio instrumento.

Trailer de ‘O Último Bandonéon’

Divulgação | Filme de Alejandro Saderman traz a história e a realidade de veteranos maestros de tango e conta as velhas glórias do histórico instrumento bandonéon

Enfim, Marina já seria essa avis rara no meio dos músicos de tango, no qual predomina amplamente o gênero masculino. Ou devemos dizer que ‘predominava’? Sim, porque o filme que, por um lado, mostra o mundo antigo do tango, revela também o seu presente — é apreciado pela juventude, eventualmente mixado a ritmos modernos e há muitas mulheres que tocam seu instrumento principal, o bandoneón. E é atrás de um bandoneón novo que Marina está, pois o seu é um objeto meio imprestável e sem conserto. Um velho dinossauro, com foles entupidos e teclas duras. A certa altura, seu mestre diz para o auxiliar que a moça tem talento mas está arrastando ‘um elefante morto’ - referência ao instrumento decadente.

Marina sobrevive em Buenos Aires arrastando o elefante morto por onde anda. Inclusive dentro dos ônibus nos quais fatura alguns trocados tocando para os passageiros. Tenta um lugar ao sol na escola de Mederos e anda atrás de outro instrumento, mas tem de ser um Doble A, que já não é fabricado. Portanto, ela se vê obrigada a garimpar em velhas oficinas, conversar com luthiers, convencer senhoras que se tornaram revendedoras dessa raridade, e finalmente ir a leilão. Ficamos sabendo que muitos desses instrumentos são comprados por japoneses e saem da Argentina. Também conhecemos um desses personagens raros, um japonês que veio para Buenos Aires atraído pela música e por lá ficou, considerando-se hoje ‘mais argentino que japonês’.

Essa pequena trajetória pessoal de Marina é o pretexto de Saderman para redescobrir uma Argentina tradicional, a dos ‘barrios’, do culto a Gardel, dos dançarinos e dançarinas, dos cafés de Buenos Aires. Escutar e ver esses artistas é uma delícia. As veteranas dizem que o verdadeiro tango se dança na pista e não nos palcos para turistas. Vê-las dançar é um prazer. E escutá-las também. Há uma velha filosofia de vida que passa por essas pessoas e é mostrada no filme, sem maiores comentários. Evocam uma maneira, digamos, mais artesanal de relacionamento com a vida. O tango não é, para eles, um caminho para se tornar famoso ou ganhar dinheiro. Nada disso. O tango é mais do que um meio de sobrevivência - é um sentido de vida. E este vai sendo passado de geração em geração.

É preciso também que o espectador entenda a proposta de Saderman. De um lado, é claro que ele pretende fazer uma homenagem ao tango, na figura daqueles que o praticam de maneira mais autêntica, menos turística ou for export. De outro, parece que vai atrás de certa ‘pureza’, de algo original, de um centro possível para um país que, como todos os outros, parece meio inseguro de sua própria identidade nessa época de bombardeio global de informações. O tango seria essa linha autêntica a buscar, o centro duro de uma certa ‘argentinidade’ que subsistiria intacta, depois de raspado o fast food cultural contemporâneo.

Claro que isso pode ser ilusório e, como sabemos, a questão da identidade não se define por uma essência, um conjunto de qualidades; é mais algo dinâmico, buscado a cada momento, do que uma entidade que resiste em estado puro em algum canto. No entanto, como fazemos por aqui, também lá existe essa busca da essência nacional. E, na Argentina, ela passa pelo tango. Não por acaso, a certa altura, Rodolfo Mederos cita o escritor Macedônio Fernandez, para quem o tango seria o protótipo mesmo da cultura argentina, a única das manifestações do país que ‘não teria contas a prestar à Europa’.

Mesmo assim, o clima que somos convidados a experimentar em O Último Bandoneón lembra, em muitos aspectos, a origem bastante européia da nação argentina, muito mais presente do que a nossa. Seus bairros afastados, onde moram alguns dos velhos bandoneonistas, lembram certas ruas de Madri, ou de alguma cidade italiana. São imóveis amplos, um tanto desgastados pelo tempo, como seus donos. É um mundo de pouco dinheiro e muito sedimento cultural. As paredes estão precisando de uma mão de tinta, mas os homens que moram entre elas sabem muito bem o que desejam da vida. Há alguma coisa da cultura antiga entre eles, um sentido de continuidade. E de dignidade. De certa forma, O Último Bandoneón não é apenas um filme sobre uma tradição musical, mas sobre um país em busca do seu eixo. Visto assim, torna-se ainda mais comovente.

27/01/2008 - 17:57h Closer