17/06/2008 - 09:52h Um voto pela democracia na Europa

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GIDEON RACHMAN - “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

Mais uma vez estão nos dizendo que “a Europa está em crise”. Os jornais britânicos alardeiam a idéia de que o Tratado de Lisboa está “acabado”. Assim, vale recordar o que aconteceu quando os irlandeses rejeitaram o Tratado de Nice, em 2001. Eles foram obrigados a votar novamente e deram a resposta “correta”.

O tratado que os irlandeses acabam de rejeitar é uma versão reformulada da Constituição da UE que, ela própria, foi rejeitada por franceses e holandeses em referendos realizados em 2005.

Uma declaração franco-alemã divulgada na sexta-feira afirmou em tom conciliador: “Damos à decisão democrática dos cidadãos irlandeses todo o respeito que lhe é devido”. Quanto respeito é isso? É claro que não muito. A declaração deixou claro que não se cogitava a hipótese de abandonar o tratado, que seria necessário “para tornar a Europa mais democrática e mais eficiente”.

É a junção das palavras “democracia” e “eficiência” que é suspeita. Essas duas idéias não costumam avançar juntas na UE. Se e quando o Tratado de Lisboa entrar em vigor, ele tornará a UE mais eficiente. Mas também a fará ser menos democrática.

O tratado facilitaria a aprovação de novas legislações da UE, ao aumentar o número de leis decididas pelo voto majoritário dos países-membros e dificultar a formação de minorias capazes de bloqueá-las.
Também reforçaria a presença internacional da Europa, criando um ministro do Exterior europeu e um serviço diplomático europeu. Existem temas urgentes que poderiam beneficiar-se de uma resposta européia mais unida. O problema é que esses ganhos seriam obtidos às expensas da democracia.

Os defensores do Tratado de Lisboa não concordariam com essa análise. Eles argumentam que o tratado fará a UE ser mais democrática. Apontam para o aumento dos poderes dos Legislativos nacionais e do Parlamento Europeu. Mas a concessão feita aos Parlamentos nacionais é pequena: eles não poderiam fazer emendas à legislação européia nem ganhariam novos poderes de bloquear essa legislação. São as instituições de Bruxelas que irão conquistar mais poder.

A “democracia” exercida no nível pan-europeu não tem a legitimidade e o apoio de que gozam as democracias nacionais européias. A UE precisa alcançar um ponto de equilíbrio delicado entre eficiência e prestação de contas a seus eleitores, entre democracia e tecnocracia. A lição do referendo irlandês é que a balança vem pendendo demais para o lado da tecnocracia.

17/06/2008 - 09:41h Um bloco à deriva

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Gilles Lapouge* - O Estado de São Paulo

A Europa começa a semana com um ar doentio: espantada, com olheiras e vertigens. Isso porque o tratado de Lisboa, que deveria ser a base da Constituição da União Européia composta de 27 países, foi rejeitado na sexta-feira pelos irlandeses. A UE, portanto, é um barco à deriva, sem itinerário nem direção.

No mapa da Europa, alguns países se agitam- principalmente, a França e a Alemanha, os dois motores da UE, que juntos inventaram esse catastrófico e natimorto Tratado de Lisboa. Em seguida, a Grã-Bretanha, que fervilha de eurocéticos. O primeiro-ministro Gordon Brown tenta, sem muita paixão, convencê-los de que o tratado deve ser ratificado.

Em Praga, capital da República Checa - outro ninho de eurocéticos -, o feroz presidente antieuropeu Vaclav Klaus entusiasmou-se, dizendo que ”o Tratado de Lisboa acabou”. Ora, se a República Checa, depois da Irlanda, rejeitar o texto, então poderemos dizer, realmente, que o Tratado de Lisboa acabou.

Felizmente, existe um homem de boa vontade que se apega muito a esse tratado. Trata-se, claro, do presidente Nicolas Sarkozy, que deve exatamente ir a Praga para empregar seu charme, sedução, inteligência, verve, talento e genialidade para convencer os deputados checos a aprovarem o tratado.

Conseguirá? E, sobretudo, a Europa vai aprender alguma coisa com esses desastres que se repetem? Saberá fazer um diagnóstico corajoso? Esse diagnóstico é simples: para a ratificação do Tratado de Lisboa, cada país podia escolher a via parlamentar ou o referendo. E 26 países optaram pela ratificação por seus Parlamentos. No geral, os parlamentos ratificaram o documento, exceto, talvez (vamos saber em alguns dias), na República Checa, Dinamarca, Suécia e Holanda. Entre os 27 países, apenas um escolheu a via do referendo: a Irlanda.

A conclusão é lógica: em todos os países a classe política é favorável à Europa, embora sem muito ardor. Em compensação, as populações são claramente hostis à essa integração. É uma verdade cruel, depois de 50 anos de Europa. Mas é preciso ter coragem política para afrontá-la e, em conseqüência, para remodelar a União Européia. Fazer dela um produto atraente e não uma mecânica grosseira, complicada, abstrata, distante, intrincada, sem alma nem alegria.

Como a Europa era bela sem os sonhos dos europeus de 1960, depois dos horrores da guerra! Era bem cuidada, repleta de rios comunitários, caminhos compartilhados, homens e mulheres que queriam dançar juntos. Mesmo o azul do céu era comum a todos os países.

Com o decorrer dos anos, o sonho sucumbiu ao elefante branco monstruoso de Bruxelas. O sonho transformou-se em milhões de documentos insípidos, diretivas, textos redigidos por milhares de funcionários burocráticos, trancados nos palácios de vidro de Bruxelas, que regulamentam o futuro da cevada ou do milho europeu sem ter jamais visto um pé de milho ou um feixe de trigo. A União Européia é o triunfo da abstração, da racionalidade, das matemáticas e da tecnocracia. E esse triunfo é a derrota da Europa.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

14/06/2008 - 16:07h A Irlanda diz “Não” ao Tratado de Lisboa

Com o ”não” irlandês, restam à UE duas opções

Bloco pode isentar a Irlanda do Tratado de Lisboa, esperando que o país o ratifique no futuro, ou discutir um novo texto constitucional

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Associated Press, Reuters e The Guardian - O Estado de São Paulo


A rejeição do Tratado de Lisboa pelos irlandeses lançou a União Européia (UE) em uma nova crise institucional, semelhante à de 2005, quando França e Holanda disseram “não” ao referendo constitucional.

O presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso, que disse algumas vezes que a Europa não tem um plano B para o tratado, lembrou ontem que o bloco já passou por crises semelhantes. “Só espero que desta vez também encontremos uma solução”, disse.

Agora, de acordo com as palavras do premiê irlandês, Brian Cowen, tanto Irlanda quanto UE estão navegando em “águas não mapeadas”. Com a rejeição do tratado pelos irlandeses, restam ao bloco europeu apenas duas opções.

A primeira seria conceder à Irlanda uma isenção temporária do tratado e permitir que ela o ratifique num futuro próximo em novo referendo - a mesma coisa que foi feita com o Tratado de Nice. A segunda seria fazer com que todos os 27 países da UE voltem à mesa de negociação e reescrevam outro texto constitucional.

PERDEDORES

Para os analistas, o “não” irlandês foi uma derrota para alguns dos principais líderes do continente. Um dos que saíram mais arranhados foi o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown. O Partido Trabalhista, de Brown, tinha como promessa de campanha em 2005 realizar um referendo sobre a proposta de Constituição da UE, que acabou sendo sintetizada no Tratado de Lisboa.

A idéia foi engavetada por causa da ameaça de que os britânicos rejeitassem o texto. Assim, o governo da Grã-Bretanha, então chefiado por Tony Blair, preferiu um caminho mais curto e seguro: ele decidiu submeter o tratado não à população, mas ao Parlamento. Ontem, Brown disse que o projeto continuará tramitando e prometeu que até outubro será ratificado.

A nova crise também atingiu os ambiciosos planos que Nicolas Sarkozy tinha para a presidência francesa da UE, a partir de julho. Sarkozy havia prometido dedicar sua presidência do bloco a projetos em várias áreas (como defesa, energia e aquecimento global), à união de nações do Mediterrâneo e a um pacto sobre imigração.

Especialistas dizem que a França terá agora de agir rápido para tirar o bloco do impasse. Sarkozy terá de acelerar suas iniciativas, já que a presidência francesa termina no início de 2009. Sua maior missão será convencer a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, a mudar de idéia e discutir um novo acordo institucional.

Recentemente, Merkel descartou a possibilidade de voltar a negociar uma Constituição para a Europa. Ontem, ela pediu paciência aos membros do bloco. “É claro que esperávamos um resultado diferente”, disse a chanceler. “Mas, como bons europeus, temos de encarar a realidade e encontrar uma saída.”