20/11/2008 - 17:10h Primeira traquéia feita com células-tronco do paciente é usada em transplante

Claudia Castillo posa para foto no corredor do hospital de Barcelona, onde se submeteu a um transplante de traquéia

 O GLOBO

Órgão sob medida

Num feito que já está sendo considerado um marco na medicina, cirurgiões espanhóis realizaram com sucesso o primeiro transplante de um órgão criado em laboratório a partir das células-tronco do próprio paciente. A tecnologia, ainda experimental, permitiu que se fizesse um transplante sem a necessidade de se usar drogas contra rejeição. A colombiana Claudia Castillo, de 30 anos, que recebeu uma nova traquéia, se encontra com boa saúde, relatam os cirurgiões em estudo publicado na revista médica “The Lancet”.

Para os especialistas, os órgãos feitos sob medida têm tudo para se popularizarem, cumprindo uma importante promessa das tão apregoadas aplicações terapêuticas das células-tronco.

A cirurgia foi realizada há cinco meses. Em razão de uma tuberculose severa, a traquéia da mulher havia ficado muito danificada e ameaçava inviabilizar um de seus pulmões — o órgão é responsável por levar o ar aos pulmões. Os médicos optaram então por um transplante.

Mas de um tipo nunca antes tentado. Para desenvolver em laboratório uma nova passagem de ar para a paciente, os especialistas partiram de uma traquéia fornecida por um doador.

Os cientistas submeteram o órgão doado a banhos de substâncias químicas bastante fortes (um detergente enzimático) para destruir todas as células vivas do doador, deixando apenas uma espécie de fôrma, composta de colágeno.

Isso forneceu a eles uma “estrutura” de traquéia, que, posteriormente, foi devidamente repovoada com células da própria paciente.

Por terem usado as células de Cláudia, os médicos conseguiram “enganar” seu organismo, evitando a rejeição do órgão. Dois tipos de células foram usadas: aquelas retiradas da própria região da traquéia e células-tronco adultas — células imaturas retiradas da medula óssea e que têm o potencial de se transformarem em vários tecidos do corpo. No caso de Cláudia, as células-tronco foram encorajadas a se tornarem células de traquéia.

Depois de quatro dias de desenvolvimento num biorreator, a nova traquéia estava pronta para ser transplantada. O cirurgião responsável, Paolo Macchiarini, do Hospital das Clínicas de Barcelona, na Espanha, conduziu o procedimento em junho passado.

Cláudia foi diagnosticada com tuberculose em 2004.

— Começou com uma tosse e acabei passando três meses tentando descobrir o que estava errado comigo — lembra ela. — Foram muitos diagnósticos errados.

Tuberculose grave destruiu traquéia

De origem colombiana, Cláudia mora em Barcelona com os dois filhos, Johan, de 15 anos, e Isabella, de 4 anos. Em princípio, sua tuberculose foi tratada com remédios, mas a infecção foi tão severa que, este ano, ela sofreu um colapso no pulmão esquerdo. Ela deu entrada no hospital em março em estado muito grave, com grandes dificuldades de respirar. As únicas opções disponíveis seriam remover seu pulmão — o que implicaria uma série de riscos — ou um transplante de traquéia.

— É claro que estava com medo, mas queria muito ficar boa novamente — conta ela.

Dez dias depois da inovadora cirurgia, Cláudia foi mandada para casa sem apresentar qualquer complicação e sem ter tomado drogas imunossupressoras, normalmente usadas em transplantes para evitar a rejeição. Dois meses depois, exames revelaram que a operação tinha sido um sucesso.

— Me sinto ótima e muito honrada — diz ela. — O método me livrou da doença e voltei a me sentir bem.


SAIBA MAIS SOBRE A OPERAÇÃO

Uma colombiana recebeu o primeiro transplante de um órgão feito sob medida. Ele foi desenvolvido a partir da traquéia de um doador, usada como molde, e células-tronco da própria paciente, extraídas da medula óssea. Com a técnica, os cientistas conseguiram evitar a rejeição da traquéia

As vias respiratórias da paciente tinham sido gravemente afetadas pela tuberculose

O PROCESSO DE TRANSPLANTE

Os médicos encontraram um doador de traquéia

A traquéia do doador é destituída de todas as suas células, deixando apenas o tecido conjuntivo, para sustentação

Células-tronco são extraídas da própria paciente, amadurecidas e transformadas em células de cartilagem

A traquéia do doador é colocada num biorreator especial, o que permite as células crescer naturalmente

O órgão criado em laboratório é cortado na forma correta para se adequar ao corpo da paciente e implantado nela


Célula embrionária restaura visão e audição de animal
Primeiro passo para tratar seres humanos

Células-tronco embrionárias foram usadas com sucesso para recuperar a visão e a audição de animais, anunciaram ontem pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde (NIH), dos EUA, e da Universidade Nacional de Chonnam, na Coréia do Sul, no que acreditam ser o primeiro passo para o tratamento de seres humanos.

Um dos grupos recuperou a audição de porquinhos da Índia usando células-tronco humanas, enquanto o outro restaurou a visão em girinos usando células de sapos. Embora não tenham uso imediato em seres humanos, as experiências revelam importantes mecanismos do desenvolvimento da visão e da audição, importantes para as pesquisas.

— As descobertas ilustram o extraordinário potencial das pesquisas com células-tronco para o tratamento de doenças — disse Anand Swaroop, especialista do NIH.

17/11/2008 - 13:41h Saúde: os números ocultam

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célula cancerosa vista ao microscópio eletrônico

AGNES MARIE SÁ FIGUEIREDO – O GLOBO

É inegável as conquistas obtidas em nosso país com relação a certas doenças infecciosas, principalmente aquelas cujas medidas de prevenção e/ou controle são mais conhecidas e efetivas, como a diarréia, a tuberculose, a malária e outras, conforme indicam as publicações recentes do Ministério da Saúde (Saúde Brasil 2007). Entretanto, o vasto universo das doenças causadas por microrganismos não se resume às doenças geralmente agrupadas como “infectocontagiosas” ou “infecciosas e parasitárias”.

Os microrganismos, sejam os protozoários, os fungos, as bactérias e, ainda, os vírus, estão envolvidos em diferentes tipos de afecções.

Por exemplo: há alguns anos, jamais poderíamos imaginar que certos tipos de cânceres estariam associados a tais seres microscópicos.

No entanto, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina 2008, Dr. Harald zur Hausen, foi agraciado com essa honraria, justamente, por ter relacionado o câncer de colo de útero, o segundo mais freqüente em mulheres, com o papiloma vírus humano (HPV). Mas não pensem que a associação entre microrganismos e câncer se encerra aí.

Uma bactéria conhecida como Helicobacter pylori, a qual é encontrada no estômago de cerca de 2/3 da população mundial, é o principal fator de risco de úlcera péptica e duodenal, aumenta, segundo estudos, o risco de câncer gástrico, linfoma de tecido linfóide associado à mucosa, conhecido como linfoma de MALT, e, ainda, de câncer pancreático.

Portanto, parece-me fundamental que a sociedade seja alertada sobre o papel das doenças infecciosas em determinados tipos de cânceres e, conseqüentemente, sobre sua influência “silenciosa” nas taxas de óbtidos. Além disso, em certas circunstâncias, o câncer por si só pode predispor o paciente a severas e recorrentes infecções. Por outro lado, a neutropenia (que reflete um comprometimento do sistema imunológico) é reconhecida há décadas como importante fator de risco para o desenvolvimento de infecções em pacientes submetidos a certas quimioterapias.

Portanto, é fato amplamente conhecido, pela comunidade médica, que as doenças infecciosas são importantes causas de mortalidade entre pacientes com diversos tipos de neoplasias malignas.

Realmente, por muitos e muitos anos, a tuberculose foi a principal causa de morte entre as doenças respiratórias de adultos. Porém, apesar de os óbitos por essa doença ter diminuído, outras infecções respiratórias, as de natureza aguda, estavam em 2005 na 5ª ou 6ª posição entre as 10 principais causas de morte em nosso país, segundo dados do Saúde Brasil 2007. Cabe acrescentar que, através de um estudo recente do Unicef/OMS intitulado “Pneumonia: the forgoten killer of children, 2006”, ficou constatado que essa doença mata mais crianças do que qualquer outra, e estimase que seja responsável pela morte de cerca de 2.000.000 de crianças a cada ano, em todo o mundo, sendo as espécies bacterianas Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae as principais responsáveis. Porém, infelizmente, pouca atenção tem sido dada para essa doença. Nesse mesmo estudo foi estimado que 150.000.000 de episódios de pneumonia devam ocorrer a cada ano, sendo que o Brasil estaria em 5o lugar, junto com a Etiópia, com 4.000.000 de casos. É preciso salientar que não somente as crianças estão mais susceptíveis às pneumonias; os indivíduos idosos também estão entre a população susceptível e, portanto, com elevado risco para a doença e conseqüente mortalidade.

Vale lembrar, aqui também, outros importantes “matadores” que ficaram esquecidos nesta estória, as doenças hoje conhecidas como “infecções associadas a serviços de saúde” (IASS), em que se incluem as infecções hospitalares. Essas doenças acometem pacientes, durante o curso de um tratamento que receberam para debelar outra doença, em um estabelecimento que presta serviço de saúde. Segundo os Centers for Diseases Control (CDC), nos Estados Unidos, as IASS estão entre as 10 principais causas de mortalidade.

Não devemos, em hipótese alguma, sob pena de estarmos causando um erro grave, subestimar o impacto de tais doenças em nosso meio.

Estudos têm demonstrado que os índices dessas infecções são maiores em países da América Latina e da África. Agrava-se a essa triste estatística o fato de que muitas dessas infecções, como as que ocorrem nos hospitais, são causadas por bactérias resistentes a múltiplos antibióticos. Tal fato dificulta, significativamente, a pronta prescrição pelos médicos de uma terapia antibiótica eficaz, contribuindo assim para o aumento do número de óbitos.

Aos profissionais da saúde cabem estar atentos para os fenômenos resultantes da evolução adaptativa dos microrganismos, os quais culminam, algumas vezes, no surgimento de novas doenças (conhecidas como emergentes) e, em outras vezes, no aumento da incidência de doenças antigas, porém com características epidemiológicas singulares, únicas, as quais, quando não reconhecidas, podem mascarar os índices dessas infecções e da mortalidade associada.

Aos nossos políticos cabe o ônus da necessidade de aplicarem mais recursos para o desenvolvimento de laboratórios e sistemas cada vez mais sofisticados, visando à coleta e posterior análise de dados, sobre tais doenças, de maneira que os números possam nos apontar, de forma mais reveladora, esse mundo micro, porém da maior importância para a saúde global.

AGNES MARIE SÁ FIGUEIREDO é diretora do Instituto

10/08/2008 - 13:31h Saúde da Família reduz internação

Pesquisa aponta queda maior de atendimentos hospitalares em cidades cobertas pelo programa

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Lígia Formenti – O Estado de São Paulo

Dados preliminares de uma pesquisa feita pela Universidade Federal da Bahia em parceria com a Universidade Federal de Minas indicam uma estreita relação entre o Programa de Saúde da Família (PSF) e a redução de internações de doenças como pneumonia, asma e diarréia.

Foram comparados dados hospitalares de todos os Estados, entre 1999 e 2006, com o atendimento do PSF. “O estudo indica um padrão: quanto mais bem estruturado for o programa, maior a redução das internações por essas doenças”, contou a diretora do Departamento de Atenção Básica do Ministério da Saúde, Claunara Mendonça.

No período analisado, a taxa anual de internação por insuficiência cardíaca de pessoas com mais de 40 anos, por exemplo, sofreu uma redução de 5,42% em municípios com 70% de cobertura do PSF. Em cidades onde a cobertura é menor que 20%, a redução também foi registrada, mas num porcentual menor: 1,95%.

Na região Centro-Oeste, onde a cobertura do PSF passou de 2% em 2001 para 45% em 2006, a proporção de internações por asma também caiu. Em 1998, de cada 100 mil habitantes, 140 eram internados anualmente por crises provocadas pela doença. Em 2006, a taxa foi de 60 a cada 100 mil.

A pesquisa, que deverá ser concluída nos próximos meses, é citada por Claunara como exemplo do impacto positivo do PSF, que completa 15 anos e conta atualmente com 28.452 equipes.

“Cerca de 85% dos problemas mais comuns de saúde podem ser resolvidos com atenção básica”, garante. Claunara admite, porém, que há ainda pontos a serem melhorados. “Uma das maiores preocupações é com a qualidade dos profissionais de nível superior que integram as equipes”, afirma. “Boa parte dos médicos foram formados para curar doenças, não preveni-las, que é o objetivo principal do programa.”

VALORIZAÇÃO

Para tentar reduzir essa carência, os Ministérios da Saúde e da Educação preparam um edital para bolsas de graduação, previsto no Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde. Pela proposta, alunos passariam um período no PSF, sob orientação de seus professores. Os médicos do PSF seriam considerados instrutores e também seriam remunerados pela orientação.

Além da mudança na formação, avalia Claunara, é preciso valorizar mais profissionais que trabalham com saúde coletiva e preventiva. “Enquanto essa área não for valorizada, dificilmente um aluno escolherá fazer especialização em saúde coletiva, preventiva.”

O ministério estuda, também, mecanismos para incentivar os municípios a formar suas equipes do PSF com “padrão-ouro”, como são chamados os grupos integrados por profissionais especialistas em saúde coletiva.