Ex-presidente acha correta decisão do tucano de candidatar-se à Prefeitura; ‘Não significa que ele não possa ser outra coisa’
28 de fevereiro de 2012
GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE / NOVA YORK – O Estado de S.Paulo
A candidatura de José Serra à Prefeitura de São Paulo permitirá a ele “voltar à cena política com força” e foi a decisão mais adequada para o ex-governador e para o PSDB, afirmou ontem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista exclusiva ao Estado. “Dá a chance para o partido ganhar e dá a ele uma revitalização política”, analisou o ex-presidente.
Segundo FHC, a eleição para prefeito não significa que o ex-governador abandona o projeto de disputar a Presidência no futuro. “Política é uma coisa muito dinâmica. Tem sempre a cláusula de prudência. Política não é uma coisa em que os horizontes se fecham”, disse, ao comentar sobre a possibilidade de o tucano, mais uma vez, deixar um cargo para se candidatar a outro, como aconteceu quando era prefeito e governador de São Paulo.
O ex-presidente falou com o Estado em Nova York, onde lidera uma comitiva de 12 CEOs de empresas brasileiras ligadas à Comunitas, entidade criada por Ruth Cardoso para incentivar o investimento social corporativo.
O anúncio da candidatura de José Serra à Prefeitura não esvazia as prévias do PSDB?
Não estou no Brasil e não acompanhei de perto esta evolução. Quem está coordenando é o governador Geraldo Alckmin. Agora, o peso eleitoral do Serra é de tal magnitude que eu acho que o partido vai se ajustar à realidade política.
Mas não faltam caras novas no PSDB? Afinal, há anos Serra e o Alckmin se revezam em candidaturas em São Paulo. O PT tenta essa renovação agora com Fernando Haddad.
As prévias foram uma tentativa nesta direção. Mas quando você tem alguém com a densidade política do Serra, que se disponha a ser candidato a prefeito, do ponto de vista do PSDB há uma importância estratégica porque existe realmente viabilidade de ganhar São Paulo.
O sr. mencionou que o senador Aécio Neves (MG) é o candidato óbvio do PSDB para 2014.
Foi uma pergunta feita pela revista The Economist: quem é o candidato óbvio? Eu respondi que o Serra vai sair candidato, não vai desistir. E eles perguntaram quem seria o outro. É o Aécio. É uma coisa que todo o mundo sabe. São os dois que estão despontando com mais força.
Mas com o Serra se candidatando a prefeito…
Abre espaço para uma outra candidatura para presidente. Agora, sempre tem que colocar aquela cláusula de prudência. A política é muito dinâmica. O Serra pode ganhar ou pode perder. Nos dois casos, o fato de ele ser candidato agora reforça a presença dele como um líder. Todo líder político, enquanto quiser se manter ativo na política, tem de ter a expectativa de poder. Tem que ser candidato. Eu, por exemplo, quando deixei a Presidência, disse que não seria mais candidato a nada e não fui. Disse que estava saindo de cena. No começo, as pessoas não acreditaram. Como não sou ingênuo, ao tomar esta decisão, estava mesmo saindo de cena. Para quem não tomou esta decisão ainda, a melhor coisa a fazer é se candidatar. Você pode se candidatar em vários níveis. O Serra, ao tomar a decisão de se candidatar (para a Prefeitura), volta à cena política com força. Onde ele é necessitado neste momento? Onde o partido o vê com bons olhos neste momento? É aí (na Prefeitura). Isso significa que amanhã ele não pode ser outra coisa? Não.
Mas não pega mal para o Serra, que já foi prefeito uma vez e saiu para se candidatar (o tucano deixou a Prefeitura em 2006, para disputar a Presidência, e o governo do Estado, em 2010, para mais uma vez entrar na disputa presidencial)?
Ele vai tomar as precauções devidas porque ele tem de ganhar a eleição. Provavelmente ele vai reafirmar a disposição dele (de permanecer na Prefeitura). Mas não vi, não falei com ele. Política não é uma coisa em que o horizonte se fecha. De repente, o que estava fechado se abre. Acho que a decisão do Serra foi a mais adequada neste momento para ele e para o partido. Dá a chance para o partido ganhar e dá a ele uma revitalização política.
Mas para a Presidência, o Serra e o Aécio continuam sendo os dois nomes fortes do PSDB?
Eu acho que sim.
Tucano anuncia candidatura no Twitter; PSDB tenta adiar prévia
Serra deve enviar hoje carta ao diretório da sigla; executiva municipal quer postergar disputa interna para o dia 11 de março
28 de fevereiro de 2012
BRUNO BOGHOSSIAN, JULIA DUAILIBI, GUSTAVO URIBE / AGÊNCIA ESTADO – O Estado de S.Paulo
O ex-governador José Serra confirmou ontem querer ser candidato a prefeito de São Paulo. “Hoje (ontem) comunicarei por escrito à direção do PSDB de São Paulo minha disposição de disputar a Prefeitura”, escreveu no Twitter. Segundo a direção do PSDB municipal, a carta deve ser enviada apenas hoje.
Serra também anunciou apoio à prévia do partido para escolher o nome que disputará a eleição. Ele disse que sempre foi favorável ao processo interno. “E delas pretendo agora participar.”
Embora tenha usado o verbo “pretender”, o PSDB dá sua participação como certa, caso os outros concorrentes, o secretário José Aníbal (Energia) e o deputado Ricardo Tripoli, não desistam da prévia.
A decisão do tucano, antecipada pelo estadao.com.br na sexta-feira, deflagrou uma operação da direção do PSDB para postergar a eleição interna, marcada para domingo. Ontem, o presidente do PSDB paulistano, Julio Semeghini, entrou em contato com Aníbal e Tripoli, para pedir que aceitassem postergar a prévia em, pelo menos, uma semana.
A questão será debatida hoje em reunião da executiva municipal, para a qual Serra foi convidado. A tendência é que os tucanos ligados a ele e ao governador Geraldo Alckmin consigam aprovar o adiamento da prévia, já que têm a maioria dos 16 votos.
Um dos argumentos usados para convencer os tucanos ligados a Tripoli e Aníbal, que têm pelo menos sete votos na executiva, será o de que Serra participaria de dois debates. Ontem, no último encontro da série programada no ano passado, a proposta de adiamento foi rechaçada pelos pré-candidatos. “Podemos fazer um debate com Serra na quarta ou quinta desta semana”, afirmou Aníbal.
Nos últimos dois dias, os outros dois pré-candidatos, os secretários Andrea Matarazzo (Cultura) e Bruno Covas (Meio Ambiente), abriram mão da disputa interna. Depois que Serra mandar por escrito a carta informando querer participar da prévia, será feita a inscrição pela executiva, fora do prazo – a data final para isso era 14 de fevereiro.
Para Alckmin, a mudança na data é “irrelevante”. “Se é dia 4, se é dia 11, uma semana pra frente ou não, é irrelevante. A prévia existe se houver mais de um pré-candidato. A data é acessória.”
Vice. Ontem mesmo Serra manteve as articulações políticas em reuniões mantidas à noite, em seu escritório. O ex-governador já sonda os aliados sobre a indicação do vice. A chapa “puro-sangue”, defendida como forma de compor com os tucanos que abriram mão da prévia, tem sido bombardeada por aliados que também pleiteiam o cargo.
A dobradinha do PSDB, dizem os que são contra a puro-sangue, daria motivos para adversários alegarem que Serra não pretende cumprir os quatro anos de mandato, caso vença – em 2006, ele deixou a Prefeitura para disputar o governo estadual.
O PSD, do prefeito Gilberto Kassab, quer indicar o vice. O mais cotado é o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider. O DEM pleiteia a mesma indicação, alegando que era o acordo com Alckmin antes da entrada de Serra. O PPS, da pré-candidata Soninha Francine, também está no radar.
O vice-governador, Guilherme Afif Domingos (PSD), ressaltou que seu partido tem bons nomes para o posto. “Temos quadros que fizeram parte da administração Serra, mas não estamos colocando isso como condição”, salientou.
Além da questão da vice, os possíveis aliados de Serra questionam as vantagens de uma coligação na chapa proporcional com o PSD, que tem 11 vereadores. DEM e PSDB temem que a aliança com o partido de Kassab dificulte a ampliação de suas bancadas – ou até a manutenção do atual número. Ontem à noite, um grupo de vereadores tucanos anunciou apoio a Serra. “Viemos mostrar que 6 dos 8 vereadores estão com Serra”, disse o líder da bancada, Floriano Pesaro. O grupo é o mesmo que apoiava Matarazzo. / COLABOROU ROLDÃO ARRUDA