17/03/2009 - 10:37h Para seu criador, Bric pode ser ampliado

Leo Pinheiro/Valor

Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o responsável pela criação do termo Bric: o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA

Iván Rothkegel, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Nos últimos anos, Bric tornou-se uma das palavras da moda do mundo financeiro. A sigla para Brasil, Rússia, Índia e China passou a representar o ápice do reequilíbrio de forças econômicas da globalização. Nos próximos 50 anos, esses países iriam se tornar grandes potências mundiais e a economia global não seria dominada apenas por Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.

A pior crise que o mundo presenciou desde a Grande Depressão, contudo, está batendo pesado nos Brics e o “Wall Street Journal Americas” considerou que seria o momento oportuno para revisitar o conceito. O Bric ainda é válido ou, assim como a previsão de que o barril de petróleo chegaria a US$ 250, é outro símbolo dos excessos do mundo dos investimentos antes do colapso do Lehman Brothers?

Para obter as respostas, conversamos com Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o homem que cunhou o termo. Sua resposta: o conceito é tão válido como nunca, embora possa ser expandido para incluir países como o México ou Indonésia ou excluir outros, como a Rússia. A seguir, trechos editados da entrevista, feita em 26 de fevereiro:

WSJ:Como o sr. chegou ao conceito?

O´Neill: Até 2001, eu era um dos diretores de pesquisa econômica da Goldman Sachs mundialmente. E minha maior especialidade era como economista-chefe de câmbio. No fim dos anos 90, passei a ficar mais interessado na China e na questão cambial chinesa. Então esse é o primeiro aspecto. Mas muito mais importante nesse contexto (foi que) por volta de 11 de setembro (de 2001) me tornei o único diretor de pesquisa econômica mundial para a Goldman Sachs. Então eu precisava buscar aquilo que seria a minha marca. O cara que dividia o posto comigo antes, Gavin Davis, era um pensador econômico excepcionalmente poderoso e estava no cargo antes de eu chegar. Ele liderou a análise cíclica do G7 nos anos 80 e isso é um dos motivos por que a Goldman se tornou tão bem conhecida. E então eu estava pensando: ‘Como posso fazer algo que tenha o mesmo impacto para nossa firma e nossos clientes?’ Isso era o que estava na minha cabeça. Tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo, quando houve o 11 de setembro, e eu acho que a verdadeira lição do 11/9 para mim, além do horror, foi uma mensagem de que a globalização tinha de ser diferente. Se eu combinasse aquilo com meu fascínio já forte pela China, foi isso que me levou a sonhar com a expressão Bric.

WSJ: Por que Bric?

O´Neill: Escrevi um artigo em novembro de 2001 chamado ‘O mundo precisa de melhores Brics (soa como a palavra ‘tijolo’, em inglês) econômicos’. É porque três desses países, menos o Brasil, tinham algo fundamentalmente bem diferente começando a acontecer nos anos 90 e potencialmente no futuro. No caso da Rússia era o fim da União Soviética. No da China era a adoção da economia de mercado. No da Índia era o boom mundial de tecnologia. E então, com grandes populações nesses três lugares-chave, minha visão era que com a globalização esses três países iam ser participantes importantes. A grande coisa que coincidiu com isso foi o aparecimento de Lula na cena (internacionalmente). E se você lembrar em 2000, 2001 as pessoas achavam que depois da desvalorização na Argentina o Brasil ia ser um desastre sob Lula. A coisa que chamou minha atenção no Brasil, e foi completamente subestimada por todo mundo, foi a introdução das metas de inflação (em 1999). Quando vi isso, pensei ‘pera aí, não são apenas esses três países que serão muito diferentes, se o Brasil for tratar a meta de inflação de maneira séria, o Brasil será diferente’. E pensei, sabe, que o Brasil deveria estar lá também. É um país de 160 milhões de pessoas, talvez chegando a 200 milhões. O Brasil, se mantiver a inflação sob controle, vai ser uma das maiores economias do mundo.

WSJ: Por que Bric e não MRIC, com o México em vez do Brasil?

O´Neill: Em retrospecto, a coisa que realmente deu um grande impulso ao Bric foi, dois anos depois, quando fizemos nossa primeira análise de 2050 e mostramos que os quatro países juntos poderiam ser maiores que o G7 em 2036. Então, depois de dois anos em que (o Bric) se tornou algo enorme, e com muitas pessoas perguntando por que não México, por que não Turquia, escrevemos um grande estudo dizendo como os Brics são sólidos e analisamos por que os próximos 11 países em população não estavam lá. Dos 11, para ser honesto, um deles, o México, tem provavelmente justificativas para ser incluído. Por isso muitas vezes brinco com as pessoas que talvez eu devesse ter chamado BRICM, com um M de México.

WSJ: O conceito pode ser expandido?

O´Neill: Conceitualmente, acho que sim. Digo, por volta de 2005, quando escrevemos um estudo sobre como os Brics eram sólidos, sugeri que o que realmente constitui um Bric (…) é o seguinte: um país do mundo emergente que tenha o potencial de ter pelo menos 3% do PIB mundial. Isso significa que, se algum dos atuais quatro Brics não puder realizar seu potencial, talvez ele não devesse (estar lá). Mas também significa que o México tem definitivamente esse potencial e levanta a possibilidade de que países com grandes populações, como a Indonésia, também possam.

WSJ: O sr. acha que, ao longo do tempo, as pessoas começaram a usar o conceito de uma maneira diferente da que o sr. pretendia?

O´Neill: Às vezes. Em 2007 em particular eu estava preocupado que toda a coisa do Bric estava virando uma febre insustentável no mundo do investimento. Muitas pessoas estavam elaborando fundos Bric. Um banco criou um Brict com um T de Turquia no fim etc. etc. E as pessoas estavam colocando dinheiro em fundos Bric em 2007, embora a relação entre preço e estimativa de lucro por ação da China e da Índia fossem mais que o dobro da dos EUA. E isso era claramente, como dissemos na época, insensato.

WSJ: O sr. acha que os Brics, como estão, formam um conceito sustentável?

O´Neill: Decididamente. Muita gente tola colocou dinheiro em fundos Bric em 2007 e 2008 e perdeu dinheiro. As pessoas não deveriam se esquecer que, desde que introduzimos a sigla, o índice Bric MSCI ainda está em alta de algo como 120%, enquanto o S&P 500 está em baixa de uns 20%. Ou seja, são apenas as pessoas que compraram essas coisas quando elas estavam extremamente caras que perderam dinheiro. Nunca presumimos que nos próximos 30 anos, mais ou menos, esses países sustentariam taxas de crescimento próximas das que vinham crescendo, com a exceção do Brasil. Nossa premissa para o crescimento chinês é de 5,8%. Nos primeiros sete anos da sigla Bric, a China cresceu quase ao dobro do que presumimos. Por isso, a grande desaceleração da China não ameaça nem um pouco sua parte no sonho do Bric.

WSJ:E suponho que ao fim do período o sr. leva em conta um crescimento muito mais lento para a China.

O´Neill: Entre 2011 e 2050, ou seja, descartando esta década, temos o seguinte: 4,3% para o Brasil, 5,2% para a China, 6,3% para a Índia e 2,8% para a Rússia. A China vai crescer mais que isso este ano! Quando você olha para o pensamento da moda atual, as pessoas acham que o descasamento não aconteceu. Se você olha para o consumo interno, há evidências bem claras de que, embora tenha desacelerado um pouco, o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA, e o tem feito há três anos, para o crescimento global. Por isso, não acho que, até agora, esta crise tenha ameaçado nem um pouco o conceito do Bric. Deixe-me acrescentar um ponto controverso. Acho que o fato de os Brics serem sólidos vai ajudar a tirar os EUA desta bagunça porque vai permitir que as exportações americanas se recuperem e sejam uma parte importante do futuro da economia americana.

WSJ: O fenômeno Bric foi associado com um boom em commodities liderado pela China e pela Índia. Agora, quando a poeira assentar, o que vai acontecer com esse boom de commodities? Como os Brics vão lidar com isso?

O´Neill: De certa maneira, a Índia tem lidado com ela particularmente bem porque a alta dos preços das commodities não era boa para o país. Você está certo, especialmente no caso do Brasil, claro, que as pessoas associam o Bric com commodities. Rússia e Brasil são ambos grandes produtores de commodities e China e Índia são ambos grandes importadores de commodities. A grande alta dos preços de commodities, que se pode argumentar ter sido causada pela China crescendo 12% durante uns três anos, foi realmente boa para Rússia e Brasil, mas na verdade bastante ruim para a Índia, e eu diria que uma possível surpresa este ano, caso consigamos parar a deterioração da crise de crédito, é que a Índia pode se sair muito melhor mais cedo do que as pessoas pensam. O declínio nos preços das commodities é um grande fator positivo para a Índia.

WSJ: Mas é um grande fator negativo para Rússia e Brasil.

O´Neill: Argumentei durante três anos que não seria possível realmente dizer se Rússia e Brasil justificariam seu status de Bric até que passassem por um períodos de preços de commodities fracos.

WSJ: Então este é um teste maior para Brasil e Rússia do que para Índia e China?

O´Neill: Este não é nenhum teste para China e Índia. É decididamente um teste para Rússia e Brasil. E é um bom teste.

WSJ: Eles passarão?

O´Neill: Acho que a evidência no Brasil já é sim. A estrutura macroeconômica de melhores práticas que Lula adotou sete anos atrás está (…) demonstrando que o Brasil pode lidar com essa crise. O Brasil dos anos 70 aos 90 estaria tão ruim quanto a Rússia. Não estou certo de que a Rússia possa enfrentá-la e temo que não possa. Até agora, esta crise está demonstrando que a Rússia é dependente demais de commodities.

WSJ: Quando o sr. fala sobre o Brasil conseguindo enfrentar, o que quer dizer?

O´Neill: A moeda enfraqueceu, o mercado acionário enfraqueceu, mas diferentemente de crises brasileiras passadas eles não tiveram de aumentar as taxas de juros para conter a saída de capital, o que é um sinal muito poderoso.

WSJ: Já vimos a China tirar proveito de algumas oportunidades de compra para conseguir acesso a alguns recursos nacionais. O sr. acha que as empresas brasileiras podem ir ao ataque também?

O´Neill: Em minha experiência nos mercados financeiros, e esta é provavelmente a sexta crise que enfrento, o que define a longevidade e o sucesso das pessoas e empresas é como elas transformam uma crise numa oportunidade. É uma coisa muito difícil de fazer. Não dá para ignorar ou minimizar os problemas desta crise, mas ao mesmo tempo o melhor momento para expandir é perto do fim de uma crise.

WSJ: O sr. acha que estamos perto do fim da crise?

O´Neill: Desenvolvemos um indicador da crise em outubro, depois que o Lehman quebrou, que consiste numa série de diferentes variáveis do mercado monetário. Este indicador está agora (26 de fevereiro) de volta ao nível de quando o Bear Stearns quebrou. Isso me sugere que, embora estejamos obviamente numa recessão mundial muito severa, a crise financeira está mais perto do fim que do começo.

WSJ:No Brasil, por exemplo, há números contraditórios. Algumas pessoas estão assustadas com os números da produção industrial, mas houve listas de espera para a compra de alguns carros depois que o governo ofereceu alguns incentivos.

O´Neill: A psicologia dos mercados financeiros será sempre a mesma. De algumas maneiras a comunidade de investimento financeiro é realmente estúpida. As pessoas estão sempre assustadas quando não deviam e estão sempre empolgadas quando deviam estar assustadas. Por que as pessoas estavam comprando fundos de ações do Bric no começo de 2008, quando a valoração das empresas chinesas era o dobro das americanas? Em segundo lugar, a produção industrial estava realmente fraca no Brasil? É a mesma coisa em qualquer país do mundo. Mas todos esses dados não deveriam surpreender as pessoas, porque refletem o fato de que o sistema financeiro mundial parou em outubro. Por isso o que você tem de olhar realmente é para o consumidor. Se as pessoas estão começando a gastar um pouco mais em lugares como o Brasil, e ouvi a mesma coisa na China, isso é realmente importante.

WSJ: Mas as coisas ainda parecem bem feias. A produção está caindo em todas as partes, os EUA não fecharam ainda um plano coerente para lidar com os bancos…

O´Neill: Não digo que a crise econômica tenha acabado, o que estou dizendo é que a intensidade da crise financeira está mais próxima do fim.

WSJ: E o mercado financeiro antecipa a economia real.

O´Neill: Sim. Isso sugere para mim que em seis meses os números de produção industrial serão melhores. Não no mês que vem, em seis meses. A chave para isso tudo é a China. Se a China for melhor no segundo semestre deste ano, o que eu fortemente acho que acontecerá, então todo o caso do Bric vai voltar a ficar muito popular bem rapidamente.

15/02/2009 - 10:49h ”Será que estamos saindo do poço?”

Economista da FGV vê retomada gradual da indústria e diz que dezembro foi o pior mês neste período recente

http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/setembro2008/images/img-ju411_03a.jpg

Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

Apesar da crise econômica global ainda dar sinais de virulência, e da má recepção inicial dos mercados ao pacote de US$ 2 trilhões de ajuda ao sistema financeiro do presidente americano Barack Obama, uma tímida luz no fim do túnel parece ter surgido nos últimos dias, no caso brasileiro.

“Os dados me levam a crer que dezembro foi o pior mês da economia brasileira neste período recente, e que em janeiro nós já estamos saindo um pouco do fundo do poço”, diz Vagner Ardeo, vice-diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio.

Ardeo é o principal responsável por indicadores da FGV com os índices de confiança do consumidor e da indústria de transformação, e o Sinalizador da Produção Industrial (SPI), que busca antecipar a produção industrial em São Paulo.

Ele nota que os índices de confiança chegaram perto da estabilização em janeiro, depois de quedas muito acentuadas nos meses anteriores. No caso do SPI, o índice para janeiro foi de avanço de 5,7%, depois de registrar quedas de respectivamente 0,4%, 6% e 13,5% em outubro, novembro e dezembro.

Ardeo observa que o SPI vem prevendo muito bem o resultado efetivo da produção industrial em São Paulo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que caiu 0,8%, 3,5% e 14,9% de outubro a dezembro. Desta forma, o SPI de 5,7% para janeiro é um resultado animador.

O economista ressalva que o aquecimento está muito concentrado no chamado “material de transporte”, que inclui basicamente a indústria automobilística. Outro ponto de interrogação é o impacto da piora do mercado de trabalho no segmento de bens não-duráveis, como alimentos e roupas.

“Em dezembro houve grande perda de postos de trabalho, e isso tende a afetar a confiança do consumidor, embora em janeiro ela tenha ficado relativamente estável”, diz Ardeo.

Na Quest Investimentos, do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros (leia entrevista abaixo), um levantamento mostra que, no último mês, o real e o peso chileno foram as únicas moedas que se valorizaram em relação ao dólar, numa lista de países que inclui Argentina, México, Turquia, Rússia, Coreia do Sul, Hungria e Polônia. Em termos de mercado acionário, o Brasil, com valorização acima de 5%, teve o melhor desempenho, com exceção da China e da Índia, num grupo de 13 países emergentes acompanhados pela Quest.

Joel Bogdanski, economista do Banco Itaú, é mais cauteloso em relação ao momento da economia brasileira: “É bem difícil afirmar com certeza que o fundo do poço tenha sido atingido, porque a crise continua evoluindo lá fora”. Ele acha que o ocorrido em janeiro no setor automobilístico pode ter sido um fenômeno específico, que não necessariamente sinaliza uma tendência para a economia como um todo.

Bogdanski nota que o que mais afetou a economia brasileira, e provocou a parada brusca do fim de 2009, foram as expectativas, ligadas à confiança de consumidores e empresários. E esta, por sua vez, mostrou-se bastante vulnerável à evolução do quadro internacional, centrada nos Estados Unidos e nas economias ricas.

“Houve essa voltadinha no começo do ano, mas não se pode descartar outra onda de abalo lá fora – uma recessão mundial é algo muito sério”, diz.

Bogdanski concorda, porém, com a análise de Mendonça de Barros de que o Brasil vem se destacando como uma economia emergente numa situação relativamente favorável. “Os investidores estão começando a fazer conta e a perceber que o Brasil está melhor”, afirma.

12/11/2007 - 15:23h Hillary: ‘Os EUA não querem ditar o que a América Latina vai fazer’

Eduardo Amaral de Oliveira*, especial para O Globo Online

Senadora Hillary Clinton, pré-candidata à Casa Branca - Reuters

BOSTON, EUA – Nos últimos 15 anos, ela esteve envolvida com os assuntos que afetam a vida de americanos e cidadãos do mundo inteiro. Agora, a senadora por Nova York Hillary Rodham Clinton caminha a passos largos para fazer História e se tornar a primeira mulher a liderar a nação mais poderosa do planeta, voltando à Casa Branca, desta vez como protagonista. E, caso chegue à Presidência, ela já elegeu um parceiro fundamental: a América Latina.

- Os EUA não querem ditar o que a América Latina vai fazer – afirmou.

Leia a história e a trajetória de Hillary

O pensamento político da pré-candidata democrata

Desde o começo da campanha para a Presidência dos EUA, Hillary foi sempre considerada a líder nas pesquisas de intenção de voto. Atualmente, ela tem uma confortável vantagem de 15 pontos percentuais sobre o concorrente Barack Obama, para receber a nomeação do Partido Democrata para as eleições gerais. Odiada pelas conservadores, idolatrada pelos liberais, muitos setores do país ainda questionam se ela não é muito polarizadora para liderar o país após duas administrações republicanas e após uma guerra que deixou feridas profundas no país. Aos 60 anos, completos há uma semana, Hillary afirma que ser mulher tem sido uma vantagem para ela, mas se diz candidata de todos.

A trajetória de Hillary em imagens

Em entrevista ao conselho editorial do jornal “Nashua Telegraph”, cedida com exclusividade no Brasil ao GLOBO ONLINE, Hillary Clinton fala como planeja retirar as tropas americanas do Iraque, também explica a sua reforma dos planos de saúde, e chama de hipócritas aqueles que culpam os imigrantes por todos os problemas do país.

Entrevista com o maior rival, Barack Obama

Tom Tancredo, o inimigo número um dos imigrantes ilegais

Em recente visita para a América Latina, o presidente Bush reconheceu que não tem dado muita atenção para a região. Como será a sua relação com estes países, especialmente com governos considerados inimigos, como o da Venezuela?

Quando o meu marido foi presidente, organizamos o Seminário das Américas em 1994. Na época, apenas um país tinha um ditador. Hoje mais governos estão seguindo um sistema totalitário, como a Venezuela. Eu visitei a América Latina todos os anos no tempo em que estive na Casa Branca, fizemos contato com todas as primeiras-damas do Hemisfério para mostrar que os EUA não querem ditar o que os países latino-americanos vão fazer. Nós queremos ser parceiros. O que eu quero fazer é manter contato constante com os latinos, para ajudá-los a criar mais empregos. Porque muitos dos imigrantes que vêm para cá não querem abandonar as suas cidades, mas eles têm suas ambições e só querem sustentar as suas famílias. Temos que criar mais atividade econômica. Podemos realizar mais trocas diplomáticas e culturais, para que esses países sintam que os EUA não querem ditar o que eles devem fazer. Em relação a Chavéz, ele sobrevive dos petrodólares. A Venezuela é a terceira maior fonte de petróleo para os EUA. Portanto, nós pagamos o seu antiamericanismo. Para diminuir a sua influência, devemos mover o nosso país em direção a fontes alternativas de energia. Mas temos também que manter contato com o povo venezuelano, sem deixar que o seu pessimismo se espalhe para a sua gente. E há também muitos ótimos trabalhos na América Latina. O Brasil é um exemplo de pioneirismo, de país auto-suficiente que retira da cana-de-açúcar o seu etanol. Podemos aprender com isso. O Chile superou uma ditadura militar e tem hoje um bom padrão de vida. Então há várias coisas positivas sobre a América Latina, e temos que fazer mais para apoiá-los.

Senadora Hillary Clinton, pré-candidata à Casa Branca, em campanha em Massahcusetts - Reuters

A senhora apóia a proposta do governador Eliot Spitizer, de Nova York, de dar acesso às carteiras de motoristas aos imigrantes indocumentados?

É importante trazer os imigrantes fora das sombras da sociedade. Apóio uma reforma ampla das leis de imigração, incluindo mais punição a patrões que exploram seus empregados, mais segurança na fronteira, ajuda aos países do sul, e ainda um caminho para a legalização dos 12 milhões de indocumentados. Eu preferiria resolver este problema nacionalmente. Temos que pesquisar o passado de todos, deportar os que têm antecedentes criminais. E para aqueles que querem permanecer aqui, diríamos: “você tem que pagar impostos atrasados, aprender inglês, e depois entrar na fila”. Odeio ver os estados tentando resolver um problema que o governo federal falhou em resolver. Entendo o que o governador Spitizer quer fazer, faz sentido tentar tirar as pessoas das sombras. Mas, sem um plano federal, os indocumentados vão se apresentar para receber a carteira, só que podem ser presos pela Imigração amanhã. Este problema não será resolvido estado por estado. Eu concordei com o presidente Bush, mas quando ele tentou resolver, não tinha mais credibilidade política para fazê-lo. E ainda há demagogia por parte dos partidos e da mídia em relação a este problema. Eles culpam os imigrantes por tudo. Eu não ouvi muitos protestos contra os imigrantes nos anos 90. Foram criados 22 milhões de novos empregos e ninguém falava dos imigrantes. Agora que a economia parada para muitos da classe média, muitos reclamam. E vários empregadores não querem reforma imigratória porque querem continuar explorando estas pessoas. Mas precisam de solução em nível nacional.

Apóio uma reforma ampla das leis de imigração, incluindo mais punição a patrões que exploram seus empregados


A senhora já disse que não pode prometer que vai retirar todas as tropas do Iraque no seu primeiro mandato. Mas disse que 60 dias após tomar posse, mostraria um plano de retirada. Quantos soldados a senhora acredita que os EUA vão precisar manter no Iraque?

Não acredito que vamos precisar manter muitas tropas. Eu fui a primeira a pressionar o Pentágono para saber quais planos ele tem. Mas não sabemos o que vamos herdar. Temos consciência de que o presidente Bush vai nos deixar uma situação complicada, que não vai ser limitada ao Iraque. A administração atual não é conhecida por planejar bem. Reconhecemos que vamos ter uma embaixada, e, talvez, se os iraquianos estiverem comprometidos em serem treinados, vamos manter uma operação limitada contra o terrorismo.

E a respeito das condições de combate em que se encontram as tropas no Iraque hoje, a senhora acredita que o presidente Bush vai começar a retirá-las de lá antes do fim do mandato dele?

Eu espero que sim. Porque os especialistas da área já falaram que não há solução militar no Iraque. Nós não estamos falando apenas de como sair de lá, mas sim sobre controlar uma situação que tem imenso poder de se espalhar por todo o Oriente Médio e que tem até dado mais poder ao Irã. Isto certamente vai demandar bastante trabalho do próximo presidente.

O que a senhora pensa da recente resolução sobre o massacre cometido pela Turquia contra os armênios na Primeira Guerra Mundial, classificado pelo Congresso dos EUA como genocídio, e como isto pode afetar a cooperação entre EUA e Turquia?

Temos consciência de que o presidente Bush vai nos deixar uma situação complicada, que não vai ser limitada ao Iraque


Tenho que confessar que estive preocupada com a reação dos turcos. Uma declaração dos EUA reconhecendo que foi genocídio é necessária por ser um fato histórico. O problema é que muitos ainda hoje pensam que esta é uma ferida na sociedade turca que estava começando a cicatrizar. Por outro lado o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan tem ajudado muito as nossas tropas. Devemos ter sensibilidade em reconhecer o que o povo armênio passou, mas ao mesmo tempo temos que manter relações com um governo que sempre foi a favor das causas Ocidentais.

O que a senhora pretende fazer pelos veteranos de guerra que retornam dos combates e não encontram nenhum apoio do governo?

Este é um daqueles problemas escondidos. Se você pesquisar sobre quem é mendigo nos EUA, uma margem desproporcional deles é composta de veteranos, que sofrem de desordem pós-traumática, ou de abuso de substâncias químicas. Primeiro, temos que reconhecer é necessário atacar este problema nacionalmente. Manterei o compromisso de dar recursos aos V.As. (assistência aos veteranos). Podemos criar soluções criativas para garantir que os veteranos não esperem meses para receber serviços. Temos que saber diferenciar também que as necessidades dos ex-combatentes da II Guerra Mundial não são as mesmas dos jovens retornando do Iraque e do Afeganistão. Por exemplo, os ex-combatentes do Vietnã não sentem que voltaram para casa. Sentem-se psicologicamente ligados ao combate. Outro dia visitei um jovem soldado no Hospital Walter Reed que perdeu seu braço direito. Ele me disse: “Eles estão cuidando bem de mim aqui. O trabalho protético está funcionando. Mas aonde tenho que ir para pegar o meu cérebro de volta?” E acrescentou: “Toda manhã a minha esposa tem que escrever uma lista de coisas que tenho que fazer. Eu fui treinado em West Point, nunca precisei deste tipo de atenção. Como é que vou continuar sobrevivendo se nem sei o que estou fazendo?” Eu fui a primeira a introduzir uma lei que lida com este problema. Um outro ponto: nos anos 90 a administração Clinton investiu em arquivos eletrônicos para as fichas dos veteranos, e o serviço melhorou bastante. Mas a administração Bush não quis mais investir no programa.

Senadora Hillary Clinton, pré-candidata à Casa Branca, em debate com Barack Obama - Reuters

Lembro do presidente Clinton segurando um cartão e dizendo “este é o caminho para um novo plano de saúde”. Por que um plano universal não é parte do debate político neste país?

Ainda há neste país muita suspeita sobre implantar um sistema de saúde com pagamento único, como o Medicare. O que eu propus foi o plano de escolha, porque os americanos querem escolher a sua própria cobertura. Então, se você gosta do que você tem, você o mantém, sem ter que responder nenhuma pergunta. Mas se você é um dos 46 milhões de pessoas sem planos de saúde, ou um dos muitos milhões que têm seguro mas não têm cobertura, vamos lhe dar um plano congressional, com o plano público como parte disso. Se você acredita que a sua melhor opção é ter um plano que não seja organizado por uma empresa privada, aqui está a solução. Vamos, então, dizer às companhias que estão no mercado: “você vai ter que mudar o jeito de fazer negócio e vai ter que cobrir todo mundo, independentemente da condição de saúde e vai ter que competir por qualidade e custo, em paralelo ao plano público. Os americanos querem ter escolha. E é importante que saibam que todos – governo e empresas privadas – vão compartilhar custos e responsabilidades, o que nos dará mais chances de atingir o objetivo, que é qualidade de saúde para todo mundo.

O que senhora tem a dizer sobre a polarização que se formou em torno do seu nome, e sobre as pessoas que dizem que Hillary Clinton não é capaz de vencer?

Estas eleições têm um poder tão grande de fazer História que ser mulher até me ajuda


Claro que eu já ouvi esta perguntar antes. Mas houve um artigo recente que fala sobre o apoio que já ganhei em New Hampshire. Os americanos são justos. E vi que o apoio à minha campanha tem aumentado, as pessoas que disseram que nunca votariam em mim estão mudando de opinião. Venci com 55% dos votos para o senado em Nova York, trabalhei duro, e depois me reelegi com 67% dos votos. O que explica isso é que eu passei de personagem a uma pessoa comum. Trabalhei com muitos republicanos, que ficaram surpresos que é possível trabalhar comigo. Cheguei ao Senado com a missão de trabalhar muito, até me juntando aos republicanos. Descobri que as pessoas estão dispostas a ouvir e a saber quais são seus objetivos. Os últimos 5 anos têm me dado muita experiência. E quem quer que seja o nomeado pelo Partido Democrata enfrentará a “máquina republicana”. Ela tem me atacado nos últimos 15 anos, e estou aqui. Além disso, americanos estão cansados desta estratégia.

E sobre o chamado “fator M” (ser mulher em meio a tantos homens postulantes), como a senhora lida com isso? A senhora acha que pode atrapalhar na corrida à Casa Branca?

Estas eleições têm um poder tão grande de fazer História que ser mulher até me ajuda. Em Manchester (no estado de New Hampshire) apertei a mão de uma senhora que me disse: “eu tenho 95 anos. Nasci quando a mulher não podia votar, e vou viver o suficiente para ver uma mulher na Casa Branca”. Isso tem acontecido comigo em todo lugar. Muitos pais trazem as filhas aos meus comícios para dizer a elas: “Viu, nesta vida você pode ser o que desejar”. Mas eu não estou concorrendo por que sou mulher, mas sim porque penso ser a candidata mais qualificada.

Mas essas são mulheres. E a respeito dos homens? A senhora acha que eles vão votar em Hillary?

Bem, vai sempre existir aquele grupo de pessoas que nunca vai votar em democratas, progressistas, ou em mim. Se não fosse porque sou mulher, seria por outra razão. Os candidatos democratas sempre tiveram problemas em encontrar mulheres para concorrer. Espero inspirar mais mulheres. E vejo nas pesquisas que o apoio dos homens a mim está aumentando. Além disso, há várias mulheres que nunca votaram e que manifestaram seu interesse em me ajudar.

* Eduardo Amaral de Oliveira é colunista do “Nashua Telegraph” e co-editor do jornal brasileiro publicado em Boston “Brazilian Journal”

22/05/2007 - 15:16h Fury at Turkish ban on bikini ads

The Guardian de Londres

Helena Smith in Istanbul

The bikini has become the latest item to offend the Islamic-oriented authorities in Turkey. After a bungled attempt to outlaw alcohol, municipal officials in Istanbul have set their sights on billboard advertisements of the skimpy swimsuit.

The ban, revealed last week despite efforts by the mayor to play down the furore, has triggered outrage among swimsuit manufacturers.

Lambasting the move as more in tune with Iran than a country bent on joining the EU, appalled secularists said it proved that the ruling Justice and Development (AK) party had a hidden Islamist agenda.

“We’ve never had to get permission before and when we applied for it they told us we were hanging up immoral pictures,” said Moris Eskenazi, who jointly owns one of four firms reportedly stopped from placing the adverts.

“Istanbul’s urban planning department said the photographs were not up to EU standards and could cause car accidents.”

In recent weeks millions of Turks have taken to the streets to protest at the government’s perceived determination to raise the role of religion in daily life.

“The ruling party first want to remove women wearing swimsuits from billboards and then they want to remove them from the beach,” said Gulsun Bilgehan, a member of the Republican People’s party (CHP) who vowed to take the issue to the Council of Europe, of which Turkey is a member.