03/05/2010 - 12:07h Usinas partem para a segunda geração do etanol

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Fabiana Batista, de São Paulo – VALOR

Aos 66 anos, o administrador de empresas Marco Antônio Lopes foi um dos milhões de brasileiros que compraram um carro a álcool entre as décadas de 70 e 80. Na época ele morava em Brasília e conta que nunca faltou combustível para seu veículo, mas sobrou-lhe ansiedade por achar que seu carro poderia ficar na rua, de tanque vazio, diante da instabilidade do Programa Nacional do Álcool (Proalcool). Dois anos depois de comprar o automóvel, Lopes decidiu vendê-lo e retornar ao motor à gasolina, escolha que se tornaria predominante nas duas décadas seguintes.

Há três anos Lopes pode ser encontrado semanalmente nos postos de combustível fazendo contas com sua calculadora antes de abastecer o carro com álcool ou com gasolina. “Abasteço com etanol sempre que seu preço é menor do que 70% do valor da gasolina”, diz. Ele é mais um dos milhares de brasileiros proprietários de carros flex que superaram o “trauma” do Proálcool diante de uma tecnologia que tem poucas chances de dar errado: a dos motores flex-fluel.

Os carros flex causaram uma transformação expressiva no mercado de etanol no Brasil e são um dos marcos do setor nos últimos dez anos. As vendas explodiram, levando o consumo de etanol a quadruplicar entre 2000 e 2009. Somente o mercado interno, que com a frota atual de flex já adiciona uma demanda de 3 bilhões de litros de etanol por ano, ainda tem muito para crescer. Os carros bicombustíveis (à gasolina e etanol) representam apenas 35% da frota brasileira.

Há também a pressão internacional para que os países desenvolvidos reduzam a emissão de gases de efeito-estufa. Isso alimenta a perspectiva de aumento das exportações de etanol, atualmente limitadas por tarifas e outras barreiras comerciais – a principal delas está nos EUA e incide em 2,5% sobre o preço do produto e mais US$ 0,54 centavos por galão (US$ 0,14 centavos de dólar por litro).

Diante dessa demanda crescente, o setor tem à frente um trabalhoso caminho a percorrer, que passa por desembolso de elevados investimentos. A forte consolidação ocorrida nos últimos dois anos de crise, que elevou de 12,4% para 25% a participação de capital estrangeiro na moagem de cana, deu musculatura financeira e segurança de que os investimentos necessários serão feitos para responder à demanda.

Para Antônio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da Unica, a expansão do setor de cana-de-açúcar nos próximos dois anos não virá, porém, apenas dos gigantes e da implantação de seus grandes projetos. Há ainda, segundo ele, mais de cem unidades que moem menos de 1 milhão de toneladas e que tendem a se expandir, caso tenham saúde financeira.

O segundo grande potencial, segundo ele, está nas tecnologias em pesquisa e que devem gerar frutos ao longo desta próxima década. Pádua se refere ao etanol de segunda geração, a partir da palha e do bagaço da cana, e da cana transgênica, que vai oferecer uma matéria-prima mais rica em açúcar, com maior teor de sacarose.

Mesmo sem essas tecnologias, o etanol de cana é considerado um biocombustível avançado. No início deste ano, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA classificou assim o etanol brasileiro, por emitir 62% menos gás carbônico do que a gasolina, desempenho ainda sem igual no mundo.

05/04/2010 - 12:36h Da água ao vinho

GEORGE VIDOR – O GLOBO

NOVA YORK. Há alguns anos (poucos, na verdade) “vender” o Rio de Janeiro como um estado com oportunidades de investimento em diversas áreas seria desperdício de tempo ou a tentativa seria vista aqui como armação de arapuca para incautos. Não só a situação da economia brasileira era das mais complicadas, como o próprio Rio vivia um quadro de profunda decadência.

Mas isso, felizmente, mudou, em todos os sentidos, seja quanto ao país ou em relação ao estado e sua capital. O governador Sérgio Cabral pôde trazer a Nova York, sem constrangimento, seu secretário de segurança, José Mariano Beltrame, para falar em um painel do seminário organizado pelo Wall Street Journal e o Valor Econômico. Beltrame estava ladeado por Celina Borges Carpi, presidente do grupo Libra (que tem a concessão de um dos dois terminais de cointêineres do Porto do Rio) e Otávio Azevedo, presidente do grupo Andrade Gutierrez. Celina, depois de afirmar que os empresários voltaram a acreditar que uma política específica na segurança trará resultados contra a violência urbana, profetizou que o Estado do Rio terá a melhor estrutura logística do país. Azevedo, por sua vez, informou que estava transferindo de São Paulo para o Rio 250 executivos. E que, ele, mineiro, mas vivendo entre as duas maiores cidades do país, já tinha sido assaltado cinco vezes em São Paulo e nunca no Rio (despertando risos na platéia).

A segurança patrimonial e pessoal é uma grande preocupação para quem avalia oportunidades de investimento no Rio ou em qualquer outra parte do Brasil. Mas hoje já se vê luzes no fim do túnel. Para isso, vem contribuindo a melhora da economia brasileira e do Rio, em especial. Eike Batista, para o qual estavam direcionadas boa parte das atenções do seminário, disse que os altos executivos das empresas americanas deveriam visitar o Brasil, pois só assim constatariam as mudanças que vêm ocorrendo no país. Citou suas empresas como exemplo de que a América do Sul, com destaque para o Brasil, é hoje o melhor lugar do mundo para se investir. Eike confirmou que o presidente chinês Hu Jintao visitará, no dia 17, o Porto do Açu, em construção no Norte Fluminense. Lá deverá ser instalada a primeira siderúrgica chinesa no Brasil.

Brincando com os ouvintes, Eike perguntou como um investidor poderia não se interessar pelo Brasil se, independentemente da nacionalidade do capital, ainda teria a possibilidade de se financiar junto a uma entidade nacional de fomento, como o BNDES, aberto a todo tipo de projeto econômico e financeiramente viável.

Na platéia, muitos consultores ligados ao setor de petróleo e gás. Mas esse nem acabou sendo o foco do seminário, embora Eike tenha frisado que a indústria de equipamentos para essa área (no qual está representado com sua empresa OGX) ainda não descobriu o Brasil.

O seminário sobre investimentos no Rio foi realizado nos salões do famoso hotel Plaza. A última vez que tinha postos os pés ali foi em dezembro de 1982, para cobrir as reuniões de autoridades brasileiras com representantes dos credores do país. O clima era tenso porque o Brasil estava sem reservas cambiais, sem condições de honrar seus compromissos. Um acordo foi feito, mas levamos anos para sair daquela enrascada.

Desta vez, não se falou em dívidas (a não por uma breve menção do secretário estadual de Fazenda, Joaquim Levy, ao se referir ao grau de investimento obtido recentemente pelo estado no ranking da agência de classificação de risco Standard&Poors). O tema passou a ser investimento, Copa do Mundo de 2014, Olimpíadas de 2016. Uma mudança da água para o vinho.

Paragominas já esteve no topo da lista dos municípios do Pará com índices de desmatamento acelerado. Funcionavam lá nada menos que 200 serrarias. Um esforço coletivo, começando pela prefeitura, que envolveu pecuaristas e agricultores, reduziu o desmatamento a praticamente zero nos dois últimos anos. Com isso, Paragominas foi a primeira cidade amazônica a sair da lista que o impedia de receber créditos do governo.

O número de serrarias acabou diminuindo para cerca de 50, abastecidas com árvores de replantio. No lugar das antigas está surgindo uma fábrica de MDF (só há oito delas em todo o Brasil), produto cada vez mais utilizado pela indústria de móveis. A fábrica — a primeira se instalar nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste — usará uma árvore nativa como matéria-prima.

O município de Paragominas é cortado pela rodovia Belém-Brasília. Ainda tem 55% de seu território coberto por florestas. Está agora entre as regiões com mais rápido percentual de reflorestamento.

Um exemplo de como o desenvolvimento sustentável não é romantismo: conciliar atividade econômica rentável com preservação ambiental é perfeitamente possível.

O presidente da Unica, que reúne produtores de álcool em São Paulo, Marcos Jank, espera que os EUA eliminem, este ano, a tarifa de 2,5% incidente sobre importações do etanol brasileiro. Fundamental para isso foi o reconhecimento, pelos americanos, de que o etanol derivado da cana-de-açúcar reduz em 61% as emissões de gases poluentes, quando comparado a gasolina.

No caso do etanol do milho, o percentual de redução é de 21%. O percentual do etanol de cana seria até maior, mas nesse cálculo os americanos descontam as emissões relativas ao transporte (por via marítima e terrestre) do álcool até o consumidor nos EUA, além do “efeito indireto do uso da terra”, que seria o deslocamento da pecuária e de outras culturas de florestas para áreas de floresta.

Jank contesta, pois o crescimento da produção de cana no Brasil se dá mais por ganho de produtividade, com a aplicação de técnicas avançadas e variedades geneticamente melhoradas, do que por expansão do plantio.

Quanto ao futuro, ele acredita que a consolidação do etanol no Brasil se dará mesmo pela ampliação da frota de carros flex. No exterior, será pela mistura do álcool à gasolina (30 países já o fazem).

Os comentários de Jank estão na internet, no podcast da Rio Bravo, gestora de fundos e carteiras de investimento, que tem como um dos sócios o expresidente do Banco Central Gustavo Franco.

18/02/2010 - 11:58h Etanol embala retomada sucroalcooleira

Agroenergia: Alta do açúcar aliviou a crise das usinas, mas combustível moverá futuros grandes projetos no Brasilhttp://mundopossivel.files.wordpress.com/2009/10/1215711_sugar_cane_cana_de_acar.jpg

Fabiana Batista, de São Paulo – VALOR

O segmento sucroalcooleiro começa uma nova safra no Brasil, em março, com a percepção de que está diante do início de um novo ciclo virtuoso alimentado pela boa demanda internacional por açúcar e pela flagrante renovação das apostas na consolidação do etanol como combustível global competitivo, renovável e mais limpo.

No curto prazo, os estoques apertados dos dois principais subprodutos da cana tendem a sustentar cotações e melhorar as margens das usinas. Somados à circulação menos restrita de crédito, os bons preços deverão paulatinamente deixar para trás dois anos de caixa vazio, quebra de empresas e contenção de aportes – e, estruturalmente, de mudança de perfil.

Se por um lado representou bilhões de dólares em investimentos represados e frustração em importantes polos canavieiros do Centro-Sul, por outro a crise acelerou transformações que, em boa medida, esbarravam nos bolsos cheios de usineiros históricos.

É verdade que, mesmo com o cenário adverso, a Cosan, maior companhia sucroalcooleira do mundo, reinventou gestão e negócios e tornou-se fundamentalmente um grupo de combustíveis, sobretudo após a parceria com a anglo-holandesa Shell, também interessada em transformar o etanol em commodity.

Mas players tradicionais como os também paulistas Santelisa Vale e Moema foram incorporados por multinacionais em migração para a energia renovável – Louis Dreyfus e Bunge, respectivamente -, e novos players nascidos no país na maré favorável de 2007, como ETH e Brenco, uniram forças antes de retomar promessas de expansões.

Apesar da mudança de quadro, coroada pelo atestado da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos de que o etanol de cana é mesmo um “biocombustível avançado”, o que deixa o produto sem concorrentes economicamente viáveis, a volta dos grandes investimentos deverá ficar para a próxima safra (2011/12).

E isso por uma razão simples: produzir está caro e os custos dos projetos também subiram com as boas perspectivas, mesmo que as empresas ainda tenham ajustes a efetuar seja por dificuldades do passado recente ou pelos trabalhos de integração em curso.

A valorização do real em relação ao dólar em 2008 e 2009 pesou bastante no encarecimento da atividade. Segundo a consultoria Datagro, entre 2002 e 2010 os custos de produção quase triplicaram. Em 2002, a produção de um litro de álcool anidro (misturado à gasolina) custava 17 centavos de dólar, valor que em 2010 já estava em 45 centavos de dólar.

Conforme Plínio Nastari, presidente da Datagro, por essas e outras o investimento para se construir uma nova usina no Centro-Sul saltou, na mesma comparação, de US$ 35 a US$ 40 por tonelada para entre US$ 100 a US$ 110 a tonelada de cana processada. Esse valor recuou nos anos de crise, mas já voltou a aumentar com o cenário otimista.

Na mesma comparação, se for descontada a inflação, o preço do álcool recuou. Da safra 2002/03 para a 2009/10, os preços médios do anidro vendido pelas usinas às distribuidoras (sem impostos) caíram de R$ 1,12 o litro para aproximadamente R$ 0,99, segundo dados do Cepea/Esalq já deflacionados pelo IGPM.

Independentemente da equação, Antônio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), lembra que novos aportes serão necessários. “Até 2015, o consumo interno de álcool deve dobrar de 26 bilhões para 50 bilhões de litros, e a demanda externa pelo produto brasileiro pode chegar a 15 bilhões de litros. Isso exigirá investimentos US$ 50 bilhões em novas usinas de etanol. Mas tais aportes ainda não estão acontecendo”.

Apesar de os preços do açúcar estarem em patamares recordes e terem até ajudado a abreviar a agonia de algumas usinas, a decisão de implantar um projeto greenfield de usina (construção a partir do zero) normalmente não considera os preços praticados em uma única temporada.

“Nas nossas avaliações de taxa de retorno, não compensa neste momento construir um greenfield. O retorno não é adequado”, confirma Jacyr Costa Filho, CEO da Açúcar Guarani, pertencente ao conglomerado francês Tereos.

É por isso que grande parte dos aportes em andamento limitam-se a ampliar a produtividade agrícola e a melhorar processos industriais. A própria Guarani faz isso na unidade São José, em Colina (SP), que na nova safra terá capacidade de moagem de cana de 3,6 milhões de toneladas, 700 mil a mais que em 2009/10. “Os bons resultados desta próxima safra devem estimular novos investimentos”, diz Jacyr.

Os preços atuais do açúcar, afirma Plínio Nastari, viabilizam projetos, mas a questão central para o segmento, agora, é ampliar sua competitividade, até por conta dos maiores custos de produção. “O capital está sendo empregado em modernização de ativos, aumento de eficiência energética e diversificação de produtos. Busca-se também a flexibilidade da produção entre açúcar e álcool para que se possa captar os melhores preços”.

As indústrias de base que fornecem equipamentos para usinas corroboraram a tendência de mais investimentos, mas menores. Líder nesse mercado, a Dedini, de Piracicaba (SP), é exemplar. A empresa projeta vendas de R$ 1,3 bilhão em 2010, 25% mais que em 2009 mas longe do recorde de R$ 3 bilhões de 2007, quando havia mais projetos do que cana.

A curva ascendente do número de novas usinas estreantes em todo o país tornou-se mais aguda em 2005, quando cinco unidades entraram em operação, segundo a Job Economia e Planejamento. Em 2006 foram 12, em 2007 mais 17 começaram a rodar e em 2008, mesmo com os sinais de que tempos difíceis viriam, foram 29.

Dali em diante, dezenas de projetos ficaram pelo caminho e os que avançaram o fizeram com empréstimos-ponte, endividamento a juros altos, venda de ativos e consolidações. Com isso, aponta a Job, 20 usinas entraram em operação em 2009 e a previsão para 2010 é de 15 estreias, o que levará o número total para 472.

Esse “efeito inercial” de projetos que não podiam parar colaboraram para manter os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em alta. Em 2010 mais R$ 6 bilhões do banco de fomento devem chegar ao segmento, mesmo nível do ano passado.

Neste ponto o ambiente futuro favorável ao etanol, nos mercados domésticos e – sobretudo – internacional, ajuda a garantir, no mínimo, a aceleração da retomada de novos investimentos. “A chancela do EPA [a agência ambiental americana] vai dar mais segurança para o investidor continuar apostando na produção do etanol”, diz Joel Velasco, representante-chefe para a América do Norte da Unica.

Nesse sentido, observa Velasco, o próximo passo é vencer a batalha no Congresso dos EUA, ainda este ano, para derrubar a tarifa de importação que o país impõe sobre o etanol. Daí o quadro para a consolidação de uma commodity global e para a multiplicação de aportes no Brasil estará completo.

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Aval de agência americana é ‘passaporte’ do combustível

De São Paulo – VALOR

Depois de duas safras de preços do etanol pouco ou nada remuneradores, as empresas brasileiras que atuam no ramo já tiveram em 2010 duas notícias de peso para o futuro dos negócios com o combustível no mercado externo.

O primeiro foi o reconhecimento, pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos, de que o álcool de cana do Brasil é um “biocombustível avançado”, o que tende a quebrar resistências e facilitar a abertura de mercados para o produto em outros países. O segundo, ligado ao primeiro, foi a efetiva entrada de grandes petroleiras no segmento, o que também deve facilitar a disseminação da “nova” commodity.

Joel Velasco, representante-chefe para a América do Norte da União das Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), observa que, agora, é preciso continuar trabalhando pela redução da tarifa americana sobre as importações de etanol – ou pelo menos para que ela não seja renovada quando expirar, em 31 de dezembro de 2010.

“O reconhecimento da EPA nos dá credibilidade para pedir a redução da tarifa. Mas já há argumentos do outro lado de que o etanol brasileiro já teve o ‘privilégio’ de ser considerado melhor ambientalmente, e que a redução ou o fim da tarifa iria prejudicar em demasiado os produtores de etanol americanos”, diz Velasco.

Também prejudicadas pela crise financeira mundial, muitas indústrias de etanol dos EUA viveram momentos difíceis mesmo com os subsídios do governo, o que é usado hoje como apelo político. Estima-se no mercado que 22 usinas de etanol das 186 existentes estão atualmente paralisadas no país.

A tarifa de importação é de 0,54 centavos de dólar por galão de etanol vendido e limita as exportações do Brasil. Mário Silveira, analista da FCStone, esclarece que a exportação aos Estados Unidos acaba sendo viável apenas em momentos de oscilações cambiais ou baixos preços no mercado brasileiro, como em época de safra.

Assim, reforça Marcos Jank, presidente da Unica, se a tarifa não cair, será difícil conseguir exportar em volumes significativos. “Hoje 15% do álcool do Brasil é exportado. Até 2011 podemos atingir 20%, mas isso vai depender de como essa combinação do reconhecimento do EPA vai se dar com a redução tarifária, que é alta nos Estados Unidos e em outros países”, diz.

As argumentações brasileiras na EPA começaram há um ano e meio e só há duas semanas veio o reconhecimento da agência. Para ser considerado “avançado”, um biocombustível precisa emitir, no mínimo, 50% menos CO2 do que a gasolina. E o etanol reduz em 61% essa emissão. Melhor que isso: só o etanol de celulose, ainda em pesquisas e no campo das promessas, aparece como ambientalmente melhor.

André Nassar, diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), conta o longo percurso para alterar a definição anterior da EPA, que inicialmente considerava que o etanol de cana do Brasil reduzia apenas em 26% a emissão de CO 2na comparação com a gasolina.

“O mais difícil foi explicar e convencer o órgão americano de que o crescimento da área plantada de cana não estava indo para a Amazônia, mas para pastagens e áreas já ocupadas com agricultura, sobretudo grãos”, diz o diretor do Icone, que trabalhou para a Unica na argumentação sobre o uso da terra.

Segundo a legislação americana, o uso de biocombustíveis em 2010 no país será de 49 bilhões de litros, dos quais 760 milhões de litros são reservados para biocombustíveis avançados – ou seja, o etanol de cana. O volume é irrisório mesmo em comparação ao que o Brasil já exporta aos EUA, mesmo com tarifa.

Em 2009, por exemplo, que foi um ano de exportações mais magras, o volume enviado atingiu 2,7 bilhões de litros. Isso somente em exportações diretas, ou seja, sem considerar o volume que entra nos EUA depois de triangulações por países da América Central.

Mas o ambicioso programa americano, que prevê uma progressiva ampliação até o pico de 136 bilhões de litros de biocombustíveis até 2022, determina para 2015 o uso de 5,7 bilhões de litros do produto avançado. E nessa categoria, até agora, só o Brasil. (FB)

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Agroenergia: Companhias arrendam áreas para produzir o biocombustível e exportá-lo sem tarifas à Europa


Europeu aluga terra para etanol na África

Assis Moreira, de Genebra – VALOR

Empresas da Europa começam a alugar terras na África para produzir etanol, exportar livres de tarifas para o mercado europeu e concorrer no futuro com o biocombustível brasileiro.

A companhia suíça Addax Bioenergy acaba de assinar contrato com o governo de Serra Leoa, um dos países mais pobres do planeta, para aluguel de 10 mil hectares de terras visando produzir 100 milhões de litros de etanol a partir de cana-de-açúcar.

O projeto é estimado em US$ 200 milhões, com cofinanciamento do Banco Europeu de Investimentos e Banco Africano de Desenvolvimento, além de apoio da Agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), segundo seus diretores. A produção deve começar em 2012. A empresa está em discussão também com indústrias brasileiras para o fornecimento de equipamentos.

A sueca Sekab, que costuma importar etanol do Brasil, é outra que tem projeto de aluguel de terra na Tanzânia. Além disso, começa a ser desenvolvido gradualmente um projeto tripartite, entre a União Europeia, Brasil e União Africana, para produção do combustível na África visando também o mercado europeu.

A Addax Bioenergy afirma que um argumento pesou forte na sua escolha: o etanol de Serra Leoa será exportado para os 27 países do bloco europeu livre da tarifa de € 192 por mil litros que é aplicada sobre o produto brasileiro.

Isso não inquieta representantes brasileiros. Para cumprir sua meta de adicionar 10% de biocombustível na gasolina vendida no mercado europeu, a UE precisa importar. E há espaço para todos os produtores. Para os brasileiros, o importante no momento é transformar o biocombustível em commodity global. Além disso, os projetos na África estão longe de chegar à dimensão da produção brasileira.

Serra Leoa sofreu uma guerra até dez anos atrás e seus seis milhões de habitantes têm dificuldades para se alimentar. Mas a companhia suíça argumenta que o país está calmo hoje. Afora isso, o clima é favorável, a cultura irrigada da cana-de-açúcar dá rendimentos comparáveis ou superiores aos do Brasil, onde o rendimento energético é duas vezes maior que o etanol americano e a economia de CO2, três vezes superior. Um funcionário afirma que o projeto foi totalmente inspirado na experiência brasileira.

A Addax vai pagar aluguel de US$ 12 por hectare por ano, dos quais 60% serão pagos diretamente aos proprietários das terras. A plantação de cana não deverá atingir nem as zonas úmidas destinadas à produção de arroz, nem as florestas. A empresa promete criar dois mil empregos diretos.

O investimento em Serra Leoa está sendo submetido a estritas normas para reduzir impactos ambientais e sociais. Os bancos financiadores procuraram todas as garantias, para não serem acusados de participar da recolonização da África por meio da compra de terras para produção de algo que a população local ignora. Organizações humanitárias são céticas.

O fenômeno do “land grabbing” cresce. Esse é o termo usado para compra ou aluguel de vastas áreas de terras por investidores privados ou países ricos, como Arábia Saudita e Coreia do Sul, em nações em desenvolvimento, para produzir alimentos destinados à exportação. Desde 2008, 180 contratos teriam sido assinados, segundo um instituto de Oakland, nos EUA. O International Food Policy Research Institute estima que investidores estrangeiros já garantiam entre 15 milhões e quase 20 milhões de hectares de terras em países pobres entre 2006 e meados de 2009.

A Organização das Nações Unidas (ONU) começou a discutir um código de conduta para regular os investimentos estrangeiros em terras agrícolas. Mas serão regras voluntárias, que vão demorar um ano, talvez mais, para ser aprovadas.

15/02/2010 - 10:19h A arma secreta do etanol brasileiro

Como um modelo matemático cacifou o lobby que abriu o mercado dos Estados Unidos ao álcool da cana

Raquel Landim – O Estado SP


AUTORES - André (E), Laura, Marcelo, Luciane e Leila trabalharam para mostrar que o etanol não desmata a Amazônia

Luciane Chiodi sonhou com o Blum na sua lua-de-mel. Por mais de um ano, ela e os colegas de trabalho Marcelo Moreira, Leila Harfuth e Laura Antoniazzi, coordenados por André Nassar, dedicaram-se integralmente ao Blum. Leila conta que acordava de madrugada, com insônia, pensando em mudanças que poderia fazer no Blum. “Era só isso de manhã, de tarde, de noite”, disse Moreira. Blum?

Blum são as iniciais de “Brazilian Land Use Model”, que significa Modelo Brasileiro de Uso da Terra. Trata-se de uma ferramenta matemática, formada por centenas de equações, que ajudou a convencer os Estados Unidos de que o etanol brasileiro não é responsável pelo desmatamento da Amazônia e, portanto, não deveria ser penalizado por isso.

O Blum é apenas uma peça de um dos mais bem sucedidos lobbies feitos por empresários brasileiros no exterior. No dia 4 de fevereiro, a Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA) classificou o etanol de cana como combustível avançado, com redução de 61% das emissões de dióxido de carbono (CO2) em relação à gasolina, acima dos 21% do etanol de milho. A decisão abre para o Brasil um mercado de até 40 bilhões de litros nos EUA nos próximos anos e funciona como um selo de garantia nos demais países.

Mas a vitória não veio de graça. Há três anos o etanol vinha sendo bombardeado por ambientalistas, que culpavam a cana pelos problemas na Amazônia, e por especialistas em segurança alimentar, que diziam que os biocombustíveis encareciam o custo dos alimentos.

Os usineiros brasileiros tinham de mudar essa imagem – uma tarefa difícil para um setor fragmentado e pouco internacionalizado. Sem saber direito que rumo seguir, a União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica) contratou Marcos Jank para dirigir a entidade. Filho de fazendeiros, Jank foi professor da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Banco Interamericano de Desenvolvimento em Washington. Com a bênção dos ex-ministros Luiz Furlan e Roberto Rodrigues, fundou o Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), entidade financiada por empresários.

Jank ganhou carta branca dos usineiros para abrir escritórios no exterior. Ele contratou em Washington o lobista brasileiro Joel Velasco, que tinha trabalhado no gabinete do ex-vice-presidente dos EUA Al Gore.

Velasco assumiu o cargo em dezembro de 2007 e passou a circular pelo Congresso americano e a acompanhar a tramitação da Lei de Segurança e Independência Energética. A lei dividiu o etanol em três categorias (convencional, avançado e celulósico), com previsões diferentes de consumo. E entregou ao EPA a tarefa de calcular em quanto o etanol de cana reduz a emissão de gases de efeito estufa. Mais complicado ainda: o cálculo deveria incluir o efeito indireto do uso da terra.

A determinação provocou polêmica no Brasil. Usineiros e pesquisadores são contra a ideia de que a expansão da cana no Centro-Sul empurra a pecuária para a Amazônia. Argumentam que é impossível medir isso e que outros problemas, como a ocupação ilegal de terras, provocam desmatamento.

“O problema é que, se querem contar extra-terrestres em Marte, não adianta argumentar que ETs não existem”, disse Velasco. “Disse isso na Unica e apanhei muito.” Mas foi com esse pragmatismo que a entidade decidiu influenciar nos cálculos do EPA.

Velasco se aproximou dos técnicos do órgão logo no início de 2008. “Comecei a participar de todas as conferências que faziam”, disse. Jank reuniu cerca de 20 especialistas para elaborar os argumentos brasileiros. Coube à turma de André Nassar, diretor executivo do Icone, criar o modelo matemático Blum, que provou que o efeito indireto da cana na Amazônia é muito menor do que os americanos achavam.

Em maio de 2009, o EPA apresentou o primeiro cálculo: o etanol de cana reduzia em 44% a emissão de CO2. O resultado foi uma decepção. Para ser avançado, o etanol deveria ter alcançado 50%. Para ser comparado ao celulósico, que ainda não foi desenvolvido comercialmente, acima de 60%.

O resultado do EPA estava aberto à consulta pública. Era a hora de apresentar os argumentos técnicos. Em agosto de 2009, o Itamaraty trouxe uma missão do órgão ao Brasil. Joel conta que ouviu, pela primeira vez, informalmente, qual seria o resultado no início de janeiro. “Um amigo me ligou e disse: Está sentado? Soube que o número do EPA deu 61%.”

O QUE É O BLUM
Brazilian Land Use Model

Em português, significa Modelo Brasileiro de Uso da Terra

É uma ferramenta matemática formada por centenas de equações, usada pelo lobby dos usineiros brasileiros nos Estados Unidos

Ela mostrou que o etanol não é responsável pelo desmatamento da Amazônia

Lição para os americanos fazerem contas


Método brasileiro mostrou que cálculo dos EUA estava errado

Para defender o etanol brasileiro, a equipe técnica da União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica) tinha dois grandes desafios. O primeiro era medir as emissões de gases de efeito estufa do combustível desde o plantio da cana até o escapamento do carro.

O segundo era calcular o uso indireto da terra – o quanto o avanço da cultura da cana no Centro-Sul contribui para empurrar a pecuária e a soja rumo à Amazônia. Os dados elaborados pelos pesquisadores brasileiros foram enviados à Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos.

Para a primeira tarefa, contaram com Isaías de Carvalho Macedo, um dos pais do etanol. Ele participou da fundação do Centro de Tecnologia da Coopersucar (CTC). Na conferência ECO 92, o setor pediu que o CTC mostrasse as vantagens do etanol e o pesquisador teve a ideia de provar que o etanol emitia menos CO2 que a gasolina.

“Naquela época, ninguém ligava para isso”, contou Macedo. Ele fez os cálculos e produziu um documento de três páginas que mostrava que o álcool reduzia as emissões em 80% em relação à gasolina.

Uma das contribuições de Macedo foi apontar ao EPA, por exemplo, que, no Brasil, o calcário utilizado nas usinas de cana é orgânico. Nos Estados Unidos, o calcário é sintético, produzido por meio de um processo petroquímico. Parece um detalhe, mas faz toda diferença em termos de poluição

Outro ponto foi explicar que o bagaço da cana moída nas usinas é utilizado para produzir energia de biomassa, que substitui a energia “suja” das termelétricas a gás. “Ao utilizar o etanol, você está limpando o sistema elétrico”, defende Macedo.

Para calcular o efeito indireto do uso da terra, a Unica pediu ajuda ao Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone). O trabalho consistia em criar um modelo matemático para fazer a conta.

O Icone fez uma parceria com o Instituto de Política Agrícola e Alimentos (Fapri), da Universidade de Iowa. O Fapri havia sido contratado pela EPA para fazer o cálculo. Segundo André Nassar, diretor do Icone, os americanos utilizavam o mesmo modelo para qualquer país.

No primeiro cálculo do Fapri, o etanol de cana reduzia a emissão de CO2 em 44%. Nassar conta que havia erros de quem não conhece a agricultura brasileira. O Fapri não considerou os 204 milhões de hectares de pastagem ou que são produzidas duas safras de milho por ano.

O Icone encerrou a parceria com o Fapri em 2008 e não sabe se suas sugestões foram aceitas. Nassar, no entanto, rodou o modelo de consenso dos dois institutos com suas hipóteses e chegou a 60% de redução das emissões – menos que os 61% anunciados pelo EPA.

NÚMEROS

44% de redução
de emissões de CO2 na atmosfera para o etanol de cana foi o índice anunciado no primeiro cálculo feito pelo Instituto de Política Agrícola e Alimentos (Fabri) da Universidade de Iowa

61% de redução
de emissões foi o índice anunciado este ano pela Agência de Proteção Ambiental dos EUAP

17/11/2009 - 12:54h A energia da cana pode fortalecer o sistema elétrico

”Álcool é fator de inclusão social”

BIOENERGIA

O Estado SP

O álcool combustível é importante fator de inclusão social. Além de emprego e renda, movimenta a economia brasileira. Representa 54% da receita bruta anual do setor sucroenergético, que atinge R$ 40 bilhões. Mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos são gerados pelo setor, disse o assessor do Departamento de Energia do Ministério das Relações Exteriores Augusto Pestana, ontem, na Segunda Semana do Etanol, em Ribeirão Preto.

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A energia da cana pode fortalecer o sistema elétrico

Nível de emissões é quase nulo em comparação com termelétricas convencionais

*Marcos Sawaya Jank – VALOR

No planejamento do setor elétrico, a bioeletricidade da cana deve ser vista como importante fonte de geração

A Copa do Mundo de futebol em 2014, a Olimpíada em 2016 e o crescimento do país acima da média mundial nos próximos anos são eventos que exigirão mais planejamento e um modelo de produção de energia elétrica suficiente para garantir qualidade de abastecimento frente à crescente demanda. Um modelo que, mesmo diante de ocorrências imponderáveis como o último apagão, ocorrido na semana passada, seja capaz de minimizar seus efeitos.

No Brasil, as últimas décadas têm sido marcadas pela “geração centralizada” de energia elétrica a partir da construção de grandes centrais hidrelétricas distantes dos principais centros de consumo, o que demanda pesados investimentos em expansão dos sistemas de transmissão de energia. O apagão da semana passada decorreu de falhas precisamente em um dos grandes “linhões” de Itaipu.

Ocorre que vários países têm buscado diversificar a sua matriz elétrica e reduzir riscos de blecautes por meio da “geração distribuída”, próxima aos centros de consumo, dando preferência às energias renováveis, com baixa emissão de gases de efeito estufa. Um bom exemplo foi a Olimpíada de Pequim de 2008, garantida por centrais de geração distribuída, que conferiram maior credibilidade ao sistema no que tange à continuidade de fornecimento de eletricidade.

O Brasil conta com 434 usinas sucroalcooleiras, todas elas autosuficientes em energia graças à produção de vapor por meio da queima de bagaço de cana em caldeiras. Porém, somente 20% das usinas (88 unidades) comercializam os seus excedentes de energia elétrica no mercado, sendo 54 centrais de cogeração exportando energia elétrica para a rede dentro do estado de São Paulo (61% do total) e 34 centrais em outros 11 estados brasileiros.

Trata-se de uma fonte típica de geração descentralizada, instalada ao lado do principal centro de consumo de eletricidade do país, que têm correspondido adequadamente às crescentes exigências de confiabilidade do sistema elétrico brasileiro. Além disso, a bioeletricidade é uma fonte de energia renovável com características altamente complementares à fonte hídrica (a produção ocorre no período de seca para o sistema elétrico, de abril a novembro no Centro-Sul), fruto de projetos baseados em tecnologia nacional e realizados com prazos reduzidos de instalação e operação. Isso sem contar que a bioeletricidade apresenta nítidas vantagens ambientais, pois seu nível de emissões é praticamente nulo em comparação com as demais fontes termelétricas convencionais, como o carvão mineral, o óleo combustível e o gás natural.

A reserva potencial de bioeletricidade adormecida nos canaviais brasileiros é imensa. Estima-se que, se conseguíssemos aproveitar plenamente toda a biomassa de cana disponível no país, seria possível exportar para a rede elétrica um volume de energia da ordem de 10.000 MW médios até a safra 2017-18, o que equivale a uma usina do porte de Itaipu. Somente no estado de São Paulo, a reserva de cana permitiria exportar 4.800 MW médios para a rede em 2017-18, valor 20% superior ao hoje gerado em todo o complexo da Companhia Energética de São Paulo (Cesp).

A bioeletricidade da cana deveria ser considerada de forma expressa e definitiva no planejamento do setor elétrico, como importante fonte de geração distribuída para tornar o sistema menos vulnerável ou dependente de grandes obras estruturantes de geração e de transmissão, reduzindo os riscos de blecaute ao facilitar o restabelecimento e a estabilização do sistema. Ao mesmo tempo, ela certamente ajudará a cumprir os ambiciosos compromissos de redução de gases de efeito estufa que os governos Federal e Estadual estarão levando para Copenhague este ano.

Porém, a tarefa de extrair essa imensa reserva de energia elétrica dos canaviais brasileiros não depende apenas da boa vontade dos empresários do setor. É preciso uma programação regular de leilões específicos para essa fonte, se possível começando já no princípio de 2010, e com especial atenção para projetos de modernização de instalações de usinas mais antigas (chamadas de retrofits), principalmente no Estado de São Paulo.

Além disso, é fundamental encontrar soluções definitivas para os graves problemas de conexão que têm dificultado a decisão de investimento por parte dos empreendedores.

Inspirando-se em Harry Markowitz, ganhador do prêmio Nobel de economia em 1990, pode-se afirmar que um planejamento de leilões de energia focados na diversificação das fontes de suprimento é o mecanismo mais apropriado para que riscos de falta ou falhas no suprimento de energia sejam diluídos de forma consistente. As grandes obras de geração hidrelétrica e transmissão são importantes, mas seria desejável ao mesmo tempo aprofundar a diversificação na direção da geração descentralizada, de pequeno e médio porte, com balanço ambiental positivo e próximo aos grandes centros consumidores.

Marcos Sawaya Jank é presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Email: www.unica.com.br

27/04/2009 - 12:22h Califórnia dá aval ao etanol feito de cana

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Agroenergia, de São Paulo – VALOR


O governo da Califórnia aprovou, na quinta-feira à noite, a regulamentação de um Padrão de Combustível de Baixa Emissão de Carbono (ou LCFS), que reconhece a redução nas emissões de carbono proporcionadas pelo etanol à base de cana. A decisão do Conselho de Qualidade do Ar do Estado da Califórnia (CARB) deverá beneficiar diretamente o etanol brasileiro.

O anúncio foi comemorado pelas usinas de álcool do país, uma vez que deverá favorecer o acesso do etanol brasileiro nos EUA, os maiores produtores de álcool à base de milho, de acordo com a Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar). Os EUA são os maiores importadores do combustível brasileiro. No ano passado, o país exportou cerca de 5 bilhões de litros, dos quais dois terços tiveram como destino o mercado americano.

Nos EUA, a decisão não agradou a Associação dos Combustíveis Renováveis (RFA , na sigla em inglês). Para o presidente da associação, Bob Dinneen, a aprovação desta decisão estabelece um “perigoso precedente sobre a aplicação de uma ciência não provada em todo o país”.

14/04/2009 - 12:03h Produção mundial de biocombustíveis desacelera, mas no Brasil não

Brasil alivia freada na produção de biocombustíveis

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Assis Moreira, de Genebra – VALOR

Depois de anos em rápida expansão, o crescimento da produção mundial de biocombustíveis sofrerá dramática desaceleração em 2009, de acordo com projeções da Agência Internacional de Energia (AIE). A perda de fôlego só não será maior em razão da elevada produção de etanol no Brasil.

Neste levantamento mais recente, a AIE ajustou para baixo sua estimativa para o incremento da produção global em um volume equivalente a 220 mil barris de petróleo por dia. A entidade prevê, agora, que a produção global de biocombustíveis só aumentará 95 mil barris por dia (6,6%) este ano, ante alta de 345 mil barris/dia (31,55%) registrada em 2008.

A recessão global, a queda dos preços do petróleo, o aperto de crédito, os problemas nos subsídios concedidos pelos governos e a redução da demanda de combustíveis para transporte “conspiram” para minar a produção e a viabilidade econômica dos biocombustíveis, de acordo com avaliação da agência.

Mas a forte revisão mascara realidades diferentes. Os maiores problemas são verificados nos países desenvolvidos, com usinas de etanol ou biodiesel nos Estados Unidos e na União Europeia em falência ou com capacidade ociosa. Ao mesmo tempo, a produção brasileira – que, conforme a AIE, foi maior do que a esperada em 2008 – deverá continuar relativamente estável este ano.

Nos EUA, a projeção é de que entre 15% e 20% da capacidade total de produção de 800 mil barris por dia de etanol já tenha sido cortada ou esteja ociosa, enquanto o restante segue a operar, mas abaixo do potencial. E a lucratividade também diminuiu.

O declínio de 115 mil barris diários na produção de etanol nos EUA tende a ser compensado por maior volume brasileiro. Dessa forma, o “declínio líquido” deverá vir da Europa, da China e de outros paises asiáticos. A expectativa é de que um aumento na mistura de etanol na gasolina nos EUA, para 685 mil barris por dia (10,5 bilhões de galões ou 39,7 bilhões de litros), possam oferecer um certo suporte à produção local.

Para a Europa, a AIE projeta estagnação na produção de biodiesel, mesmo com a decisão da UE de sobretaxar as importações procedentes dos EUA. De um lado, pesa o fraco apoio governamental e o excesso de capacidade na Alemanha – maior país produtor do bloco; de outro, a importação de 25 mil barris diários procedente dos EUA deverá ser substituída por ofertas de America Latina e Ásia, mais do que pela própria produção doméstica europeia.

França, Itália, Espanha e Grã-Bretanha elevaram suas metas de produção de biocombustíveis para 2009, mas a alta será pequena. Na América Latina, a estimativa é de aumento da produção em quase 60 mil barris equivalentes por dia, ante os 85 mil barris do ano passado. A maior parte do crescimento vem do etanol brasileiro, que teve média de produção de 460 mil barris por dia em 2008, nos cálculos da agência.

A AIE se apoia em relatório da Unica (entidade que reúne as usinas do Centro-Sul do Brasil) para destacar o que chama de “crescentes barreiras econômicas” que contiveram a expansão do etanol brasileiro. Apenas de 15 a 20 de 35 novas usinas planejadas para este ano verão a luz do dia. Além disso, maior parte da produção de cana vai para a produção de açúcar, que hoje oferece melhores margens.