Terá Gordon Brown, o premier britânico, salvo o sistema financeiro mundial? Tudo bem, a pergunta é prematura — ainda não sabemos a forma exata do pacote de resgate financeiro na Europa ou até mesmo nos EUA e se vai funcionar de fato. O que sabemos, no entanto, é que Brown e Alistair Darling, o chanceler de Exchequer (o equivalente ao nosso secretário do Tesouro), definiram o caráter do esforço global de resgate, com outras nações ricas correndo atrás deles.
Isso é uma virada inesperada.
Afinal, o governo britânico é um sócio júnior no que se refere a assuntos de economia mundial. É verdade que Londres é um dos grandes centros financeiros do mundo, mas a economia britânica é bem menor que a americana, e o Banco da Inglaterra não tem nem de perto a influência tanto do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) quanto do Banco Central Europeu.
Assim, ninguém esperava ver a Grã-Bretanha desempenhando o papel de líder.
Mas, o governo britânico tem demonstrado disposição para pensar claramente, e agir com rapidez. E essa combinação de clareza e decisão não foi ainda vista em nenhum outro governo ocidental, muito menos os EUA.
Qual é a natureza da crise? Os detalhes podem ser confusamente complexos, mas o básico é bastante simples. A explosão da bolha imobiliária levou quem comprou ativos baseados no pagamento de hipotecas a grandes perdas; essas perdas deixaram muitas instituições financeiras com muitas dívidas e pouco capital para prover o crédito de que a economia necessita; as instituições financeiras afetadas tentaram honrar seus débitos e elevar seus capitais vendendo ativos, mas isso fez com que os preços dos ativos caíssem drasticamente, reduzindo ainda mais seus capitais.
O que pode ser feito para conter a crise? Ajudar os mutuários, embora desejável, não pode evitar grandes perdas sobre maus empréstimos e, de qualquer maneira, vai demorar muito para fazer efeito em meio ao pânico atual. A coisa natural a fazer, portanto — e foi a solução adotada em crises anteriores — é lidar com o problema do capital financeiro inadequado, com os governos provendo as instituições financeiras com mais capital em troca de participação.
Essa espécie de meia estatização temporária, que tem sido chamada de “injeção de ações”, é a solução da crise, segundo muitos economistas — e fontes disseram ao “NYT” que é essa também a solução preferida por Ben Bernanke, o presidente do Fed.
Mas, quando Henry Paulson, o secretário do Tesouro dos EUA, anunciou o pacote de US$ 700 bilhões para salvar o sistema financeiro, ele rejeitou esse caminho óbvio. Em vez disso, sugeriu que o governo comprasse papéis podres das hipotecas, baseado na teoria de que… bem nunca ficou claro qual é a sua teoria.
Enquanto isso, o governo britânico foi direto ao coração do problema — e se mobilizou para enfrentá-lo com presteza. Na quarta-feira, assessores de Brown anunciaram um pacote de injeção de dinheiro nos bancos britânicos, garantia para as dívidas dos bancos para estimular a volta dos empréstimos interbancários, um passo crucial do mecanismo financeiro.
Numa reunião de cúpula no domingo, as principais economias da Europa continental se declararam prontas a seguir a liderança da Grã-Bretanha, injetando centenas de bilhões de dólares nos bancos e garantindo suas dívidas. E, quem diria, Paulson — depois de perder várias semanas preciosas — também mudou de curso, e agora pretende comprar participações nos bancos em vez de papéis podres (embora ele ainda pareça estar se movendo com uma dolorosa lentidão).
Como disse, ainda não sabemos se essas iniciativas funcionarão. Mas, finalmente, há uma política movida pela visão clara do que precisa ser feito. O que levanta a seguinte questão: por que essa visão clara teve que vir de Londres em vez de Washington? É difícil evitar a sensação de que a resposta inicial de Paulson foi distorcida por ideologia. Lembre-se, ele trabalha para um governo cuja filosofia de governo pode ser resumida a “privado é bom, público é ruim”, o que deve ter tornado difícil de enfrentar a necessidade de participação acionária do governo no setor financeiro.
Também imagino o quanto o esvaziamento do governo sob a gestão Bush não terá contribuído para a hesitação de Paulson. Em todas as áreas do Executivo, profissionais de renome foram empurrados para fora; pode ser que não tenha sobrado ninguém no Tesouro com estatura e experiência para dizer a Paulson que ele não estava fazendo sentido.
Sorte da economia mundial, porém, que Gordon Brown e seus assessores estejam fazendo sentido. E eles podem até ter nos mostrado o caminho para sair dessa crise.
PAUL KRUGMAN é colunista do “New York Times” e prêmio Nobel de Economia de 2008
Presidente do Citigroup diz que país pode dar lições aos países ricos
William Rhodes, presidente do Citigroup: Brasil é exemplo
José Meirelles Passos - O Globo
Correspondente
WASHINGTON. Houve unanimidade entre banqueiros internacionais e brasileiros, ontem, sobre a capacidade de o Brasil suportar o impacto da atual crise financeira, sem perder o rumo do crescimento sustentável.
Ao fim de uma ampla análise da situação do país, o presidente e executivo-chefe do Citigroup, Bill Rhodes, utilizou um velho ditado brasileiro para resumir a situação privilegiada do país em meio à turbulência do momento.
— Começo a acreditar que Deus é realmente brasileiro.
Pelo jeito ele tinha tirado umas férias anos atrás — disse o banqueiro, provocando risos na platéia de investidores que lotou ontem a Conferência Econômica Brasileira, em Washington.
Para Mantega, crise foi uma “orgia financeira”
Rhodes, que nos anos 80 e 90 comandou o grupo de credores do país, numa longa e complicada negociação da dívida externa, disse que “o Brasil mudou completamente”, aprendendo muito com as crises que enfrentou. E acrescentou que os brasileiros hoje têm condições de ensinar os países ricos: — Se algum país é capaz hoje de domar essa tempestade que enfrentamos é o Brasil.
O que me incomoda é os Estados Unidos não terem aprendido com as lições da América Latina. Os EUA passaram décadas ditando regras.
Acontece que os estudantes cresceram e se tornaram professores — disse ele.
Em seu discurso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, definiu a crise deflagrada nos Estados Unidos como “uma orgia financeira”. E admitiu que, a princípio, não imaginava que ela seria tão grave: — Não sabíamos o tamanho da encrenca.
Banqueiros brasileiros que participaram do evento, traçaram um retrato positivo do país.
Eles exibiram estudos mostrando que, mesmo com o dólar a R$ 2,20 e com o preço das commodities caindo, o país terá condições de continuar crescendo de forma sustentada.
Sergio Werlang, chefe do setor de riscos da Itaú Holding Financeira, chegou a dizer que isso será possível mesmo com grandes gastos federais: — Mesmo que o governo queira continuar gastando como está fazendo, o que eu não aprovo, o resultado continuará sendo positivo no ano que vem — disse ele.
Mantega respondeu: — Vamos cortar gastos, mas manter investimentos que são importantes. Eles representam nada mais que 1% do PIB.
Caio Megale, da Mauá Investimentos, disse que a crise tem um lado benéfico para o Brasil, uma vez que o país estava precisando desacelerar um pouco: — Estamos crescendo acima do potencial, acima do limite de velocidade. É como um carro numa estrada: você pode ir a 180 quilômetros por hora. Só que, em algum momento, vai dar uma trombada — comparou ele, acrescentando que “o risco seria haver uma redução do ritmo maior do que estamos precisando”.
Beny Parnes, diretor-gerente do Banco BBM, foi taxativo ao falar da capacidade de resistência do Brasil.
— Alguns anos atrás o Brasil sofreria um nocaute em dez segundos. Já temos grande experiência em enfrentar crises: é uma especialidade nossa.
Premiê britânico defende nova arquitetura financeira. Para alguns economistas brasileiros, ainda não é hora
Gordon Brown, Primeiro-ministro británico defende um novo acordo para a economia mundial
Liana Melo* - O Globo
RIO e LONDRES. O primeiroministro britânico, Gordon Brown, pediu ontem que os líderes mundiais se encontrem para tentar estabelecer um novo acordo de Bretton Woods. A primeira vez em que o mundo se encontrou para discutir uma nova ordem monetária foi há 64 anos. Desta vez, é a Grã-Bretanha quem está liderando o pedido — em 1944, foi capitaneado pelos Estados Unidos. Ainda que alguns economistas brasileiros concordem com a gravidade da crise financeira global, muitos consideram que a idéia de Brown é precipitada.
— Às vezes, torna-se uma crise concordar com o que é óbvio e que o que deveria ter sido feito há anos não pode mais ser adiado. Mas, agora, nós devemos criar a nova arquitetura financeira para uma nova era global — defendeu Brown.
O primeiro-ministro pretende defender amanhã sua idéia junto aos líderes da União Européia (UE). Cada um dos 15 países da zona do euro se comprometeu a lançar, nesse dia, um pacote de medidas para enfrentar a crise financeira global. O acordo foi feito no último domingo, quando, numa reunião em Paris, os países da Comunidade Européia garantiram que não permitirão que os bancos europeus venham a quebrar.
Países mais preocupados em ‘apagar incêndio’
Reinaldo Gonçalves, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que os países ainda estão mais preocupados em “apagar o incêndio” provocado pela crise do que em discutir um novo arranjo monetário mundial: — Pode ser que no futuro, mas não agora.
Quando o acordo de Bretton Woods foi assinado, o mundo tentava se reerguer da II Guerra Mundial. Liderados pelos Estados Unidos, os signatários do acordo concordaram que o dólar passaria a ser uma moeda forte e a principal referência do sistema financeiro mundial.
Hoje, segundo Gonçalves, o mundo está carecendo de uma moeda que tenha o mesmo poder que teve o dólar naquela época: — Os países mais industrializados não têm condições de estabelecer acordos internacionais, porque eles estão sendo obrigados a resolver problemas de curtíssimo prazo.
O economista Pedro Paulo Zaluth, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que, hoje, ao contrário do ocorreu nos anos 40, o mundo dificilmente poderá contar com o apoio dos Estados Unidos para uma futura reedição do acordo de Bretton Woods. Em primeiro lugar, porque os Estados Unidos ainda são o principal centro financeiro internacional, além de um dos mais importantes exportadores de serviços financeiros da atualidade.
Eleições americanas vão deixar EUA fora do debate
A decisão sobre o tema, acredita o economista, somente terá condições de avançar depois que os Estados Unidos elegerem seu novo presidente.
Ele também tem certa dúvida quanto à adesão do democrata Barack Obama à idéia.
O historiador Márcio Scalécio, professor de História Econômica da Pontifícia Universidade Católica carioca (PUC-Rio) e da Cândido Mendes, acha que a proposta de Brown é totalmente “fora de propósito”. Ele não acredita que os países venham a concordam com a idéia de uma “regulação única”, como ocorreu no passado, porque é exatamente a falta dela que garante o “fluxo de capital internacionalmente”.
— Estamos vivendo o fim de uma onda liberalizante e devemos entrar num período mais intervencionista — acredita Scalécio, para quem o mundo vai até definir novos arranjos, mas não se submeter a uma regulação única.
O acordo de Bretton Woods vingou até o anos 70, quando a crescente pressão pelo ouro obrigou o então presidente americano Richard Nixon a suspender, unilateralmente, a conversibilidade direta do dólar em ouro. Além de definir regras para a política econômica internacional, o acordo criou o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
(*) Com agências internacionais
Medidas históricas contra crises
NEW DEAL
Foi um programa econômico criado pelo então presidente americano Franklin Delano Roosevelt para combater os efeitos da Grande Depressão, nos Estados Unidos. Lançando mão de um audacioso plano de obras públicas em 1933, o objetivo do governo era atingir o pleno emprego. É que a crise de 1929 levou um quarto da população americana a ficar desempregada.
A decisão era claramente intervencionista, o que contrariava a histórica tradição liberal dos Estados Unidos. Como definiu o próprio Roosevelt na época, ele queria enfrentar o problema da crise como se enfrenta uma guerra. A nova política estendeu-se a toda a atividade econômica, que significou, entre outras medidas, o controle do sistema financeiro do país, o embargo do ouro e a desvalorização do dólar para estimular as exportações. Os opositores do New Deal, que protestavam contra o crescimento dos gastos públicos, interromperam a expansão do programa em 1937 para definitivamente aboli-lo a partir de 1943. Os estudiosos de história econômica divergem se o New Deal de fato ajudou os Estados Unidos a saírem da crise. Outros consideram que várias das medidas já tinham sido adotadas pelo presidente anterior, Herbert Hoover.
ACORDO DE BRETTON WOODS
Foi uma tentativa de reconstruir o capitalismo mundial, antes do fim da II Guerra.
Reunidos no Mount Washington Hotel, na pequena cidade de Bretton Woods, no estado americano de New Hampshire, os 730 delegados de todas as 44 nações aliadas acertaram um novo gerenciamento econômico mundial. Era julho de 1944. Foi a primeira vez em que o mundo negociava uma nova ordem monetária. A acordo foi liderado pelos Estados Unidos, e ficou decidido no encontro que o dólar passaria a ser a moeda forte do sistema financeira mundial. Ficou definido também um conjunto de regras para regular a política econômica internacional, além da criação do Banco Mundial (Bird, que nasceu com o nome de Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 1971, diante de pressões crescentes na demanda global por ouro, o então presidente americano Richard Nixon suspendeu unilateralmente o sistema de Bretton Woods, cancelando a conversibilidade direta do dólar em ouro.
PLANO MARSHALL
Foi o programa criado pelo secretário de Estado americano George Marshall para recuperar a Europa, após o fim da II Guerra.
O objetivo era reconstruir, com a ajuda financeira dos Estados Unidos, a economia européia arruinada pela guerra. Aprovado durante a Conferência de Paris, em 1947, o plano contou com o apoio dos 16 países presentes ao encontro. No ano seguinte à reunião, foi criada a Organização para a Cooperação Econômica Européia. Os maiores beneficiados pelos US$ 11,5 bilhões liberados pelos Estados Unidos foram Inglaterra (24%) , França (20%), Alemanha Ocidental (11%) e Itália (10%). O socorro financeiro não foi apenas em empréstimos, mas também em equipamentos. A ajuda durou até 1952, mas mesmo depois disso os Estados Unidos continuaram a resolver problemas de balanço de pagamentos dos países e problemas de escassez de dólares mundo afora.
A crise é cada vez mais emaranhada, mas ficaram pelo caminho do investidor comum dúvidas básicas sobre o que, afinal, está acontecendo. Semana passada, O GLOBO pediu que um ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz — agraciado em 2001 —, respondesse a algumas dessas questões. No sábado, antes de o fim de semana fervilhar de novidades, Stiglitz enviou, por e-mail, suas idéias sobre crédito, juros e eleições.
Maria Fernanda Delmas - O GLOBO
Esta é uma crise de curto, médio ou longo prazo? Já há recessão? JOSEPH STIGLITZ: Os EUA não estão tecnicamente em recessão.
Mas isso é menos importante que o fato de que a economia vai operar bem abaixo de seu potencial, e o desemprego vai crescer. A economia americana está se encaminhando para uma grande desaceleração, Quando a economia americana entra em declínio, você ouve especialistas discutindo se ele será em V (curta e acentuada) ou em U (mais longa, porém mais branda).
Os EUA podem estar entrando em um declínio melhor descrito como em L: está num ponto muito baixo e deve permanecer lá por algum tempo.
Houve sinais de que a crise vinha. Por exemplo: com os juros a 1% nos EUA, após a recessão de 2001, a população financiou a compra de imóveis, e, quando o Fed (o banco central americano) começou a elevar as taxas, veio a crise de não pagamento das hipotecas subprime (de risco maior). Também se gastou na guerra do Iraque. Ninguém viu isso? STIGLITZ: Uma das razões da crise é que o Fed inundou a economia com liquidez e deixou a regulação frouxa. Parte pela ideologia de que regulação era ruim, mas parte porque a economia estava fraca. E uma das razões para a economia fraca era o preço do petróleo subindo. Antes de entrarmos em guerra com o Iraque, em 2003, o barril custava US$ 23.
Os mercados futuros anteciparam o aumento na demanda, mas pensaram que haveria um aumento no fornecimento. A guerra mudou a equação. Isso é importante porque os americanos estavam gastando centenas de bilhões de dólares para comprar petróleo. Normalmente, isso teria tido um efeito muito negativo em nossa economia. Mas o Fed construiu uma bolha imobiliária para substituir a bolha de tecnologia que construíra nos anos 90. A bolha imobiliária tornou mais fácil as pessoas tirarem dinheiro de suas hipotecas e de seus imóveis; em um ano, as retiradas com a diferença entre o valor do imóvel e o da hipoteca (graças à valorização do preço da casa) passaram de US$ 900 bilhões. Assim, tivemos uma explosão de consumo tão forte que, mesmo gastando tanto dinheiro fora do país, pudemos manter a economia crescendo.
Era muita miopia. Estava claro que estávamos vivendo com recursos que não eram nossos e fora do tempo regulamentar.
Outra razão é que não tínhamos um cumprimento efetivo das políticas antitruste. Acabamos com instituições que eram grandes demais para quebrar, e há um perigo real de elas tomarem risco excessivo, porque sabem que podem lucrar quando as coisas vão bem, mas, quando as perdas aparecem, também sabem que vamos socorrê-las. Como resolvemos esse problema com três bancos — JPMorgan Chase, Bank of America e Citigroup — detendo 30% dos depósitos dos americanos, estamos exacerbando o potencial de futuros problemas.
O pacote de US$ 700 bilhões será suficiente? O governo está socorrendo bancos em vez de ajudar contribuintes? E o pacote britânico? STIGLITZ: O plano britânico é muito melhor que o americano.
Nos EUA, o que é preciso é uma injeção de capital nos bancos, com uma participação acionária concedida ao governo (o governo americano deve anunciar hoje, efetivamente, a compra de fatias de bancos). O plano de Paulson (Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA) é um socorro não transparente a Wall Street, em que tiramos deles os ativos ruins e os deixamos com os bons. É uma decepção, mas não uma surpresa, que o governo tenha apresentado um projeto de lei, mais uma vez, baseado em uma política econômica de inflar o ganho dos ricos, com a crença de que, jogando bastante dinheiro em Wall Street, este chegará à Main Street (a economia real), beneficiando trabalhadores e mutuários. É como um paciente que recebe uma transfusão de sangue maciça enquanto há hemorragia interna.
Não resolve a fonte básica da hemorragia, que é a execução de hipotecas. Tomara que depois das eleições possamos reparar os erros. Os mercados responderam com a mesma falta de entusiasmo que eu senti.
A ação coordenada dos bancos centrais ao cortar juros foi uma decisão certa? Pode causar uma nova bolha?
STIGLITZ: Agora, não resolverá muito de fato, mas também não causará muitos danos.
Para a maioria das pessoas, não importa se pode tomar empréstimos a 4% ou 3%.
O crédito está secando nos EUA, na Europa, no Brasil…Onde está esse dinheiro? STIGLITZ: Essencialmente, com tantas dívidas ruins e tanta incerteza sobre sua magnitude, há uma crise de crédito.
Os bancos nem sabem a extensão de seus próprios problemas.
Então, como podem ter muita confiança em emprestar para os outros? Não é apenas um problema de falta de liquidez. É mais profundo que isso — balanços foram duramente afetados, e terão de ser consertados. Não importa que plano coloquemos em marcha, haverá uma contração de crédito.
Há alguma racionalidade nas bolsas ou é só especulação? Na hora em que a Câmara americana aprovou o socorro, por exemplo, o índice Dow Jones, que estava subindo, começou a despencar. STIGLITZ: O real problema com a lei (de socorro), mesmo tendo passado pelo Senado e pela Câmara, é que não tenta resolver os verdadeiros problemas que afligem nossa economia.
Paulson vendeu o problema como uma restauração da confiança. A questão não é apenas uma crise de confiança em nosso sistema bancário (e em nossa liderança econômica).
Há uma razão para as pessoas terem perdido a confiança.
A economia estava se enfraquecendo. Os bancos fizeram muitos empréstimos ruins. Para muitos, enquanto o governo (Bush) falava sobre seu programa para restabelecer a confiança, tratava-se na verdade de um truque com a confiança na economia americana — um presente para Wall Street às custas dos contribuintes comuns. No fim das contas, o truque não funcionou — um dia depois do anúncio (do plano), as bolsas de todo o mundo tiveram o pior pregão de sua história, com os papéis dos bancos tendo as maiores perdas. Paulson e sua equipe trabalharam duramente para conquistar a falta de confiança, à medida que pulavam de uma estratégia para outra. Apesar de o Congresso ter melhorado muito o pacote, também não conseguiu fazer o que era preciso, e quando isso se tornou visível, a confiança ficou ainda mais corroída. Se US$ 700 bilhões não bastaram, o que funcionaria?
A queda recente dos mercados pode ser, de alguma forma, efeito das eleições presidenciais americanas? STIGLITZ: Enquanto pode não ser um efeito direto das eleições, terá um grande efeito em quem as pessoas votarão, à medida que muitas das razões para a crise surgiram durante o governo Bush. É difícil acreditar que os americanos vão reconduzir à Casa Branca o partido do presidente.
“Estávamos vivendo com recursos que não eram nossos e fora do tempo regulamentar Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia
Investidor diz que mercado não pode corrigir a si mesmo e que agora o poder econômico está pendendo para a Ásia
Nathan Gardels - O Estado de São Paulo
O investidor e filantropo George Soros conversou com o editor da Global Viewpoint sobre a crise financeira internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Falemos sobre a natureza da crise.
Graças às baixas taxas de juros, à liquidez global e à desregulamentação, vivemos durante 25 anos numa bolha de expansão do crédito que aumentava a si mesma, o que levou à “exuberância irracional” nos mercados financeiros. Agora vemos uma quebra dos mercados de ações e de crédito que alimenta a si mesma - “desespero irracional” - sem encontrar justificativa nas leis fundamentais da economia real.
Como este padrão reflete seu novo paradigma para a compreensão das finanças?
A chave para a compreensão da crise é perceber que ela foi gerada dentro do próprio sistema financeiro. Não é o resultado de algum tipo de choque exógeno que tirou as coisas do seu equilíbrio, conforme sugeriria o paradigma mais difundido, que supõe a existência da capacidade do mercado de se autocorrigir. A realidade é que os mercados financeiros desestabilizam a si mesmos; ocasionalmente eles tendem ao desequilíbrio, e não ao equilíbrio. O paradigma que proponho difere da sabedoria convencional. Em primeiro lugar, os mercados financeiros não refletem as verdadeiras leis fundamentais da economia. As expectativas dos corretores e dos investidores estão sempre distorcendo essas leis. Em segundo lugar, essas distorções no mercado podem afetar as leis fundamentais - como vemos tanto nas bolhas quanto nas quebras. A euforia pode elevar os preços das moradias e das empresas ponto.com; o pânico é capaz de derrubar bancos sólidos. Essa conexão de mão-dupla - você afeta aquilo que você reflete - é o que eu chamo de “reflexividade”.
Qual deveria ser o “circuit-breaker” capaz de subverter as distorções que inevitavelmente desestabilizam os mercados?
Se as bolhas são endêmicas ao sistema, os reguladores têm de intervir para impedir que se tornem grandes demais. Os governos precisam reconhecer o fato de que os mercados não são capazes de corrigir a si mesmos. Não basta recolher os pedaços depois da crise.
O sr. acha que a presença de um ciclo de notícias econômicas de 24 horas amplifica e exagera as distorções nos mercados financeiros?
Sem dúvida isso acelera o processo. Ao mesmo tempo, eu não atribuiria a isso uma importância excessiva. No final do século 19, não havia transmissão de notícias durante 24 horas, mas ainda assim formava-se o mesmo tipo de bolha. Durante o século 19, quando a regulação era insuficiente, as crises aconteciam sucessivamente. Cada crise provocava alguma reforma. Foi assim que se desenvolveu a instituição do banco central.
Como é possível que todo o esforço do governo americano - incluindo o pacote de resgate de US$ 700 bilhões e a baixa taxa de juros - não tenha sido capaz de impedir a crise?
As autoridades americanas compraram uma ideologia de fundamentalismo de mercado. Elas pensaram que afinal os mercados iriam corrigir a si mesmos. O secretário do tesouro, Henry Paulson, representou a epítome deste raciocínio. Ele pensou que, seis meses depois da crise do Bear Sterns, o mercado teria se ajustado e, “Bem, se o Lehman Brothers quebrar, o sistema será capaz de suportar as conseqüências”. Ao invés disso, tudo começou a desabar. Por não compreender a natureza do problema não viram necessidade de intervenção por parte do governo. Eles não prepararam um plano B. Conforme o choque da falência do Lehman começou a se fazer sentir, Paulson foi obrigado a mudar de idéia e socorrer a AIG. No dia seguinte viu-se uma corrida aos mercados monetários e de papel de curto prazo, e então deu meia-volta novamente e disse que precisávamos de um pacote de resgate de 700 bilhões. Mas ele queria botar o dinheiro no lugar errado - tirando das mãos dos bancos os valores mobiliários tóxicos. Finalmente voltaram ao rumo certo - com o governo comprando participação nos bancos - porque percebem que o sistema financeiro está à beira do colapso.
Quais são os elementos-chave para a solução da crise?
Há cinco elementos principais. (1) Em primeiro lugar, o governo precisa recapitalizar o sistema bancário através da compra de participação nos bancos. (2) Os empréstimos interbancários precisam ser reiniciados com garantias. Esse processo está em andamento. (3) Precisamos reformar o sistema hipotecário dos EUA, minimizando as execuções e renegociando empréstimos para que as hipotecas não tenham valor superior ao das casas. (4) A Europa precisa consertar uma fraqueza do euro com a criação de uma rede de segurança para seus bancos. Eles resolveram este problema no seu encontro em Paris. (5) O FMI precisa lidar com a vulnerabilidade dos países da periferia do sistema financeiro global através do oferecimento de uma rede de segurança. Esse processo também está encaminhado. Essas medidas darão início à recuperação. Se as implementarmos com eficácia, teremos suportado o pior da crise financeira. Mas temo que sejam inevitáveis as conseqüências sobre a economia real.Consertar o sistema financeiro não impedirá uma grave recessão mundial.
Quando tudo terminar, teremos uma paisagem financeira muito diferente?
A influência dos EUA vai minguar. Já entrou em declínio. Durante os últimos 25 anos, estivemos sustentando um contínuo déficit em conta corrente. Os chineses e os países produtores de petróleo mantiveram lucros. Consumimos mais que produzimos. Enquanto aumentávamos as dívidas, eles obtiveram riqueza com suas poupanças. Cada vez mais, os chineses serão os donos do mundo, pois estarão convertendo suas reservas de dólares e seus títulos do governo americano em ativos e bens reais.
Na semana passada, um artigo de Peter Goodman no New York Times mencionava fatos que merecem ser repetidos aqui, porque vêm a calhar com os últimos acontecimentos. Por exemplo, Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, e dos mais espertos, dizia, segundo Goodman, há cinco anos atrás (sic!), que os chamados derivativos eram “armas financeiras de destruição em massa, embutindo perigos que, latentes por ora, são potencialmente letais”.
Muito mais gente, além dele, via com desconfiança essas criativas inovações, trazidas pelos jovens audazes do trapézio volante das finanças mundiais. Em 2003, o Comitê dos Bancos, do Senado norte-americano, achou que já era hora de examinar a conveniência de regulamentar mais estritamente os tais contratos de derivativos (papéis transacionados nos chamados mercados “futuros”). Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve (o banco central dos EUA), se opôs dizendo que “nós pensamos que seria um erro regular mais profundamente os contratos”. Na opinião dele, os derivativos eram úteis como instrumentos de transferência de riscos “daqueles que não devem assumi-los para aqueles que estão desejosos e são capazes de fazê-lo”.
Mas os desejosos de assumir riscos e capazes de fazê-lo não parecem, agora, arcar com as conseqüências dessa vocação; e quem está ou em breve estará pagando o pato, diriam nossos avós, são as pessoas honestas e trabalhadoras que têm aversão aos riscos.
O nome do vírus causador desse inferno astral dos mercados está na Bíblia: é ganância - até Mr. Greenspan, que continua convencido de que os contratos de derivativos eram uma boa coisa, admite que o problema foi a greedy com que são manipulados, causando “um tipo de crise de aperto financeiro que acontece apenas uma vez em cada século”. Se o conhecêssemos, diríamos a ele para lembrar que a greedy é latente no espírito humano desde Adão e Eva. Então compete aos governos baixar bons regulamentos que coíbam a audácia da greedy.
A incúria dos governos, a negligência dos políticos e a irresponsabilidade dos banqueiros modernos - herdeiros de milenar sovinice, mas indignos da prudência dos seus antecessores - pavimentaram a autopista onde a ganância ganhou o ímpeto de um Aston Martin do agente 007.
No ano que vem, terá 30 anos o episódio que ficou conhecido como o “choque dos juros”. A média das taxas de juros internacionais deu um salto astronômico em 1979, apenas 6 anos depois de outro choque, o dos preços do petróleo, que provocou um tsunami de dinheiro em direção aos países produtores de petróleo, principalmente do Oriente Médio. Esses “petrodólares” entupiram os bancos ocidentais. O excesso de liquidez desandou, então, em empréstimos subprime - vocábulo que ainda não surgira. Mas já existiam tomadores subprime de empréstimos - Brasil e vários países do Terceiro Mundo, que pegavam dinheiro adoidados sem saber como pagar, como os atuais subprimes americanos, que compraram casas animados pela cantoria dos bancos e agências de crédito. Com o choque dos juros, os mutuários subprime de então (países) ficaram de calça na mão - formou-se o grande quebra-cabeça da dívida do Terceiro Mundo.
A “década perdida” - os 10 ou 15 anos em que a economia brasileira ficou arrastando os pés, a partir mais ou menos de 1982 (ano da “quebra” do México) - se deveu ao aperto do crédito internacional provocado pelo fantasma das dívidas impagáveis, nascido da esbórnia do excesso de liquidez da década anterior.
Alguma coisa a ver com o momento atual, por acaso?
Não?
Tomara.
Mas por acaso a economia mundial não viveu, de novo, um período prolongado recente de vacas gordas, propiciado por excesso de liquidez financeira? Por acaso esse excesso de liquidez não foi, em boa parte, anabolizado pelo aumento (mais uma vez) dos preços internacionais do petróleo, que gerou novo tsunami de dinheiro para os cofres de países produtores - entre os quais, a Venezuela, cujo presidente gasta os tubos numa espalhafatosa pretensão de se impor ao mundo como estadista? Fortunas espantosas não apareceram, nos últimos dez anos, nas mãos de figuras até então desconhecidas e que ninguém sabe o que realmente fazem ou fizeram para ganhar dinheiro?
Esse segundo momento mágico mundial de dinheiro fácil contou com um acelerador: a tecnologia de informática, que facilitou aos especuladores e espertalhões do mundo inteiro uma plataforma de operações do tamanho de um laptop. E sua vantagem não foi somente permitir transações financeiras com a velocidade da luz ou transferências instantâneas de himalaias de dinheiro. O mais importante é que esses aparelhinhos possibilitam cálculos e simulações que, nas esbórnias precursoras - anos 20 ou anos 70 -, demandavam semanas para serem completadas nas mãos de doutos matemáticos das universidades. Hoje, basta saber digitar os comandos certos do laptop e os resultados das simulações podem ser apreciados instantaneamente, mais precisos que os do passado.
Esse não foi um avanço apenas técnico. Nas entranhas dos laptops são testadas as grandes criações dos magos das finanças modernas: como obter lucros presentes só com expectativas futuras; como transformar papo furado em dinheiro no banco; como tornar débitos em créditos, prejuízos visíveis em realizáveis diferidos, papéis da Merposa em ações valorizadas; enfim, neles nasceu a engenharia da gigantesca indústria que nem Bill Gates teria imaginado nos seus mais criativos momentos: a indústria dos derivativos, que não fabrica nada, não tem instalações, não fica em lugar nenhum, mas está em todos eles e cujo insumo é só um: a ganância.
É hora, sem dúvida, de lhe pôr freios eficazes.
*Marco Antonio Rocha é jornalista.
E-mail: marcoantonio.rocha @grupoestado.com.br
Dada a reação pronta e geralmente competente dos governos de todos os países, que compreenderam a gravidade do problema, não há razão para pessimismo
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
COLUNISTA DA FOLHA
A crise financeira que assola o mundo é grave. Nada lhe é comparável desde 1929. É uma profunda crise de confiança decorrente de uma cadeia de empréstimos originalmente imobiliários baseados em devedores insolventes que, ao levar os agentes econômicos a preferirem a liquidez e assim liquidarem seus créditos, está levando bancos e outras empresas financeiras à situação de quebra mesmo que elas próprias estejam solventes. Entretanto, dada a reação pronta e geralmente competente dos governos de todos os países, que compreenderam a gravidade do problema e pouco hesitaram antes de tomar medidas para aumentar a solvência e garantir a liquidez dos mercados, não há razão para pessimismo. Estou seguro de que em breve a razão voltará aos mercados, as Bolsas recuperarão parte de suas perdas, as taxas cambiais voltarão a se estabilizar, e a recessão inevitável não terá nada de parecido com a crise de 1929.
Há uma série de fatos que hoje estão claros a respeito desta crise financeira. Primeiro, sabemos que é uma crise bancária que ocorre no centro do capitalismo, não é uma crise de balanço de pagamentos comuns entre os países em desenvolvimento que tentavam até os anos 1990 crescer com poupança externa, ou seja, com déficit em conta corrente e endividamento externo. Os grandes déficits em conta corrente que marcaram a economia americana nesta década combinados com grandes déficits públicos não são, porém, estranhos à crise bancária. A falta de confiança não é apenas nos bancos e no mercado, é também na economia americana como um todo.
Segundo, sabemos que a causa direta da crise foi a concessão de empréstimos hipotecários de forma irresponsável, para credores que não tinham capacidade de pagar ou que não a teriam a partir do momento em que a taxa de juros começasse a subir. E sabemos também que esse fato não teria sido tão grave se os agentes financeiros não houvessem recorrido a irresponsáveis “inovações financeiras” para securitizar os títulos podres transformando-os em títulos AAA por obra e graça não do Espírito Santo, mas de agências de risco interessadas em agradar seus clientes.
Terceiro, sabemos que tudo isso pode ocorrer porque os sistemas financeiros nacionais foram sistematicamente desregulados desde que, em meados dos anos 1970, começou a se formar a onda ideológica neoliberal ou fundamentalista de mercado. Para ela, os mercados são sempre eficientes, ou, pelo menos, mais eficientes do que qualquer intervenção corretiva do Estado e, portanto, podem ser auto-regulados. Para essa ideologia, que desde o governo Reagan se transformou no instrumento do “soft power” americano, esse era o sistema econômico mais eficiente, único caminho para os demais países dado que as alternativas seriam formas de “socialismo social democrata” europeu, de “populismo” no terceiro mundo e de “estatismo disfarçado” na Rússia e na China, que seriam muito inferiores.
Quarto, sabemos que essa ideologia ultraliberal era legitimada nos Estados Unidos pela teoria econômica neoclássica, uma escola de pensamento que foi dominante entre 1870 e 1930, então entrou em crise e foi substituída pela teoria macroeconômica keynesiana, que se tornou dominante nas universidades até meados dos anos 1970, e voltou à condição dominante desde então por razões essencialmente ideológicas.
Economistas como Milton Friedman, James Buchanam, Mancur Olson, Robert Lucas, Kydland e Prescott apontaram sua armas contra o Estado e se encarregaram de demonstrar matematicamente, “cientificamente”, com o auxílio dos pressupostos do Homo economicus, das “expectativas racionais” e da “escolha racional” que o credo neoliberal era correto.
Quinto, sabemos que esse tipo de teoria econômica não foi utilizado tanto pelos formuladores de política econômica nos governos quanto pelos analistas de macroeconomia nas empresas e nos jornais e publicações especializadas.
Não foram utilizados porque a pressuposição neoclássica de mercados eficientes dispensa qualquer política econômica a não ser a de ajuste fiscal; o resto deve ser liberalizado, desregulado, já que os mercados seriam auto-regulados. Como os governos e os analistas precisavam orientar sua política monetária, continuaram a usar o instrumental keynesiano de forma pragmática. Os experimentos macroeconômicos neoclássicos foram reservados para os países em desenvolvimento. Como, entretanto, os países ricos liderados pelos Estados Unidos não escaparam da prescrição desreguladora agiram como o escorpião que morde sua própria cauda.
Sexto, agora, quando vemos o Estado surgir em cada país como a única tábua de salvação, fica evidente o absurdo da oposição entre mercado e Estado proposta por neoliberais e neoclássicos. Um liberal pode opor coordenação do mercado à do Estado, mas não pode se colocar, como os liberais se colocaram, contra o Estado, buscando diminuí-lo. O Estado é muito maior do que o mercado; é o sistema constitucional-legal e a organização que a garante; é o instrumento por excelência de ação coletiva da nação. Cabe ao Estado regular e garantir o mercado e, como vemos agora, servir de emprestador de última instância.
Tudo isso está muito claro. O que não está claro é por que os mercados estão resistindo a recuperar a confiança apesar das medidas fortes que os governos estão tomando. Não tenho resposta segura para essa questão, mas creio que dois fatores contribuem para a profundidade da desconfiança: de um lado, o enfraquecimento da hegemonia americana nos anos 2000, não apenas devido aos déficits gêmeos, mas também à Guerra do Iraque, aos abusos contra os direitos humanos e à instrumentação da democracia como forma de dominação. De outro, um erro grave e pontual cometido pelo Tesouro americano: não ter salvo o Lehman Brothers. Bancos grandes não podem ir à falência; o risco de crise sistêmica é muito grande.
Foi a partir dessa decisão que o quadro financeiro mundial entrou em franca deterioração.
O salvamento da AIG no dia seguinte, o pacote de US$ 700 bilhões para dar solvência aos bancos, as diversas intervenções de bancos europeus garantindo seus próprios bancos e garantindo os cidadãos depositantes, e a baixa coordenada de juros pelos bancos centrais não fizeram efeito até agora.
Essa resistência dos mercados financeiros às ações dos governos é mais uma demonstração de sua irracionalidade. De seu clássico comportamento reflexivo e de manada. Estou seguro, entretanto, que a confiança voltará em breve. Não plenamente. Certamente com cicatrizes para os EUA e com prejuízos para todos, inclusive cerca de dois anos de recessão.
Mas não teremos nada parecido com a depressão dos anos 1930, porque, naquela época, o governo americano demorou quase quatro anos para agir.
Agora, usando instrumentos keynesianos e pragmáticos, não apenas o governo americano, mas todos os governos relevantes financeiramente estão agindo imediatamente, e com força. E são governos que têm por trás de si Estados fortes, democráticos, dotados de legitimidade política e de recursos fiscais vultosos. Não há razão para que não sejam afinal bem-sucedidos e a confiança seja recuperada.
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de “Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994″.
O mapa publicado pelo jornal francês, Le Monde, permite de acompanhar as intenções de voto nos Estados-Unidos, por Estado. A eleição presidencial é indireta, os eleitores escolhem por Estado os seus representantes no Colégio Eleitoral Federal que elege o Presidente. Pelas últimas pesquisas Mc Cain (Republicano) contaria com 163 delegados e Obama (Democrata) 338. Os indecisos seriam 37.
Les élections américaines à la carte
LEMONDE.FR | 29.09.08 | 19h23 • Mis à jour le 06.10.08 | 19h07
Le sommet extraordinaire de l’Eurogroupe, réunissant les dirigeants des quinze Etats appartenant à la zone euro, a débuté dimanche 12 octobre à l’Elysée, avec un but partagé par l’ensemble des participants : trouver une solution au niveau européen pour rétablir la confiance sur des marchés déboussolés par la crise bancaire. Le président de la Commission européenne, Jose Manuel Barroso, qui participe également à cette réunion, a estimé qu’”un niveau de coordination sans précédent” était désormais nécessaire “pour faire face à une crise sans précédent”. “Nous devons montrer aux citoyens européens et aux marchés la capacité et la détermination de l’Europe à agir de concert”, a-t-il déclaré après s’être entretenu avec le président français Nicolas Sarkozy et le premier ministre britannique Gordon Brown avant le début du sommet.
Selon un projet de déclaration commune que s’est procuré l’AFP peu après le début de la réunion, les quinze pays membres de la zone euro se disent prêts à apporter provisoirement leur garantie aux opérations de refinancement des banques et à éviter toute faillite, en ayant recours à leur recapitalisation si cela est nécessaire, jusqu’au 31 décembre 2009. Toujours selon le document obtenu par l’AFP, les garanties pour le refinancement des banques proposées par les gouvernements européens pourraient prendre la forme d’assurances ou de “dispositions similaires”. L’agence Reuters, qui s’est procuré un document énumérant les propositions de la présidence française de l’UE, rapporte que d’autres mesures susceptibles d’être adoptées sont la garantie des dettes bancaires à moyen terme, y compris pour les particuliers et une octroi de liquidités aux entreprises financière et non financières par la BCE tant que la crise se poursuit.
M. Sarkozy, qui doit exposer les conclusions du sommet dans un discours, dimanche en début de soirée, a souhaité “un plan ambitieux, coordonné, qui apporte des solutions”. “Ce que j’attends, c’est que l’Europe parle d’une seule voix”, a-t-il résumé. La chancelière allemande Angela Merkel a quant à elle annoncé que la réunion de dimanche lancera “un signal capital pour les marchés et un signal très important pour la force de la zone euro”. Selon la ministre des finances française Christine Lagarde, l’Eurogroupe devrait “mettre du muscle” sur le squelette du plan en cinq points adopté, vendredi, par le G7. Ce plan avait ensuite été approuvé par les 185 pays membres du Fonds monétaire international (FMI) .
LONDRES MILITE POUR SON “APPROCHE”
M. Brown, qui ne participera pas à la réunion, son pays n’étant pas membre de la zone euro, a déclaré dans la presse britannique qu’il tenterait néanmoins de persuader “les autres pays européens d’adopter l’approche globale que nous avons prise en Grande-Bretagne”. Londres devrait annoncer officiellement, lundi, un plan de sauvetage d’un montant total de 500 milliards de livres (636 milliards d’euros), qui passerait par la prise de contrôle majoritaire de deux grandes banques très affaiblies, RBS et HBOS, ainsi que l’entrée au capital d’autres banques pour un montant de 50 milliards de livres (63,6 milliards d’euros).
“Cette réunion a pour but de décider d’une action coordonnée commune pour la zone euro, pour que dans les prochains jours chaque pays puisse mettre en place des mesures qui stabilisent les marchés financiers”, a résumé Mme Merkel à son arrivée à l’Elysée. Car si tous les yeux sont tournés vers la réunion de Paris, au vu de la réouverture des marchés financier mondiaux, chaque pays prépare déjà son propre plan de sauvetage au niveau national.
Outre la Grande-Bretagne, l’Allemagne devrait annoncer le sien lundi. En France, un conseil des ministres extraordinaire a été convoqué lundi pour que des mesures soient prises en urgence. Au Portugal, le gouvernement a déjà apporté une garantie de 20 milliards d’euros aux “opérations de financement” des banques et en Norvège, l’Etat et la Banque centrale ont émis 350 milliards de couronnes (41 milliards d’euros) d’obligations pour accroître les liquidités.
Aux heures noires de la Grande Crise à New York, raconte le célèbre économiste John Kenneth Galbraith dans son livre sur le krach de 1929, les hôteliers demandaient aux clients réservant une chambre si c’était pour dormir ou pour sauter. Dans la tourmente de cet automne, ce ne sont plus des individus qui sautent, mais des banques entières, des établissements de crédit naguère follement prospères au point de léviter dans des bulles d’or redevenues citrouilles au minuit sombre des marchés mondiaux.
Le site du Guardian pointait vendredi que l’immeuble de Time Square, au coeur de Manhattan, affichant sur son fronton le montant de la dette publique américaine, n’a plus assez de place pour loger la quantité astronomique de milliards de dollars, précisément 10 299 050 383, une énormité due notamment au financement du plan Paulson et à la mise sous perfusion des agences Freddie Mac et Fannie Mae. Il a même fallu éliminer le symbole “$”, qui occupait la dernière case de l’affichage, pour que le passant puisse boire ce chiffre jusqu’à la lie… C’est à se demander si aucun banquier a seulement pris une fois la peine de lever les yeux pour regarder en face la “National Debt Clock”, trop occupé sans doute par le mirage du crédit facile et du risque prétendument éliminé par la titrisation des créances pourries.
Un poison à retardement courait dans les veines de la finance. Les secours étatiques sont restés impuissants à administrer le bon sérum. Comble de la maladie du capitalisme, les injections massives d’argent ne soulagent pas la douleur des banques ni ne ravivent les marchés.
Cette purge est avant tout la sanction du réel qui cogne à la porte sans ménagement. Il faut dire qu’il avait déjà prévenu. En août 2007, avec le véritable déclenchement de la crise des subprimes. Mais, à l’époque, la plupart des financiers éludaient le danger, ignorant la complexité perverse des outils circulant sur les marchés au point de s’affranchir des contraintes de prudence. Le réel avait encore frappé début 2008 avec la flambée des prix alimentaires et les tensions sur les énergies fossiles. Rien vu, rien dit, rien appris.
Devant pareil désastre, on ne peut que s’inquiéter des transgressions de nos sociétés que dévore le virtuel. N’existent pas, sauf dans les jeux vidéo, les guerres aux soldats qui ressuscitent. N’existent pas, sauf chez les apprentis sorciers, les femmes qui enfantent en plusieurs exemplaires à l’approche de la soixantaine. On peut aimer l’interrogation de Valéry : “Que serions-nous sans le secours des choses qui n’existent pas ?”, et crier gare devant un monde qui se construit sur des mirages. Des banques d’affaires qui prêtent plus de quarante fois leurs fonds propres, cela n’existe pas. Des ménages accédant sans effort financier à la propriété, cela n’existe pas davantage. La crise qui éclate le prouve : à posséder si peu de lest, bien des banques ont sacrifié la réalité à l’imaginaire, quitte à dérégler le thermomètre pour l’empêcher d’indiquer la fièvre. Inconscience, ivresse, cupidité, fuite en avant, l’affaire est entendue.
Et maintenant ? Comme dans les puits de pétrole en flammes que seule une énorme charge de dynamite parvient à éteindre par l’effet de souffle, seule une action concertée équivalente à l’attaque réussira. Qui peut la mener ? Pas les Etats-Unis uniquement, disqualifiés par l’échec d’un modèle libéral à l’anglo-saxonne. Après avoir longtemps cru à l’autorégulation des marchés, ils viennent de les anéantir par les pratiques intégristes de l’ère Bush.
La remise en cause de l’hyperpuissance américaine ne signifie pas le renforcement d’une Europe aux égoïsmes tenaces, comme l’illustre le refus allemand d’un plan commun. Pour autant, le capitalisme d’Etat façon russe ou chinoise ne saurait devenir le modèle à suivre, tant il se paie d’autoritarisme et d’inégalités aussi criantes qu’en Occident. La question reste entière : qui va poser la règle ? Qui la fera respecter ? Qui va nous ancrer au réel ? La sécurité financière doit devenir un droit mondial, garanti par des instances mondiales. Pour préserver la paix. Et une prospérité partagée, conciliable avec les ressources d’un monde fini. Eric Fottorino
Les 15 pays de l’Eurogroupe, dont les chefs d’Etat et de gouvernement se réunissent dimanche à Paris, discutent d’un dispositif de sauvetage du système bancaire européen “inspiré du plan britannique”, a-t-on appris samedi auprès de la présidence de la République française.
Le Monde
Les 15 pays de l’Eurogroupe, dont les chefs d’Etat et de gouvernement se réunissent dimanche à Paris, discutent d’un dispositif de sauvetage du système bancaire européen “inspiré du plan britannique”, a-t-on appris samedi 11 octobre auprès de la présidence de la République française.
La ministre française de l’économie, Christine Lagarde, a déclaré, sur France Info qu’une des pistes étudiées par l’Eurogroupe dimanche pourrait être une entrée plus importante des Etats européens dans le capital des banques, ” parce que celles-ci sont aussi sous capitalisées”.”On a vu la Grande-Bretagne, qui est en dehors de la zone euro, faire des propositions dans ce domaine et mobiliser 25 milliards de livres dans un premier temps pour participer à la recapitalisation des banques anglaises”, a-t-elle indiqué.”On va voir en ce qui concerne la zone euro, mais je suppose que c’est une des pistes”, a poursuivi la ministre, réaffirmant toutefois que mettre plus d’argent public dans les banques françaises n’était “pas nécessaire” en l’état actuel des choses. Ce n’est “pas demandé par les banques, même si on le leur proposait, donc a priori il n’y aucune raison”, a-t-elle fait valoir.
“Il y a deux modèles en concurrence. Le modèle américain, dont personne ne souhaite s’inspirer, et le modèle britannique. C’est de ça dont tout le monde discute”, a confirmé une source proche du président Nicolas Sarkozy. Selon Le Figaro, qui cite une source gouvernementale, les Quinze prépareraient un plan de sauvetage ayant pour “référence” le modèle britannique. “Les Quinze décideraient donc, d’une part, de recapitaliser massivement leurs banques et, d’autre part, d’en garantir les dettes”, précise le quotidien.
PAS DE RECAPITALISATION ENVISAGÉE POUR LES BANQUES FRANÇAISES
“Quand on regarde les banques françaises, on s’aperçoit qu’elles sont parmi les plus capitalisées de l’ensemble de la zone” euro, a poursuivi la ministre. Elle a indiqué ne pas pouvoir évaluer de combien de capital les banques européennes avaient besoin. “Je ne sais pas car la situation des banques varie beaucoup d’un pays à un autres”, a-t-elle dit. Un sommet des chefs d’Etat et de gouvernement de l’Eurogroupe se tiendra dimanche à Paris afin de “définir un plan d’action conjoint de la zone euro et de la Banque centrale européenne face à la crise financière”, selon l’Elysée.
Presidente Lula explica seu otimismo e diz que seu papel é passar serenidade à sociedade brasileira
João Domingos - O Estado de São Paulo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo vai ajudar as empresas brasileiras a obterem os empréstimos necessários para enfrentar a crise econômica mundial. “Nunca fiz tantas reuniões com o presidente do Banco Central (Henrique Meirelles) e o ministro da Fazenda (Guido Mantega), porque nós temos que acompanhar (tudo) com lupa, para não sermos pegos de surpresa”, disse o presidente em entrevista aos portais na internet, entre eles o limão.com.br, do Grupo Estado.
Lula disse que seu papel é o de passar serenidade para que a sociedade continue acreditando no País. Ele admitiu que a crise é “profundamente forte”, mas o Brasil está preparado. “Essa é a diferença básica, e por isso nós vamos continuar incentivando (as empresas)”. Ele afirmou ainda que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e os programas sociais estão mantidos.
Apesar do otimismo, Lula disse que, se a crise implicar diminuição dos investimentos, ou o governo for obrigado a diminuí-los, tomará as medidas necessárias. “Com a mesma serenidade que digo que o Brasil está em um momento bom, eu vou dizer: ?companheiros, a situação está se agravando e nós vamos ter que fazer isso, fazer aquilo?, e anunciar as medidas”, disse o presidente.
NATAL
“Eu continuo otimista que nós vamos ter um Natal extraordinário. Até porque, embora o Brasil participe da economia global, a crise não chega do mesmo tamanho em todos os países. No Brasil, nós ainda não temos nenhum grande projeto que tenha sofrido qualquer arranhão. A decisão do governo é manter todas as obras do PAC.
Portanto, eu acho que precisamos nos preparar para comprar tudo aquilo que a gente sonha comprar no Natal e torcer para que o Ano Novo seja infinitamente melhor.”
ATÉ ONDE A CRISE VAI
“Os dados do IBGE mostram que o emprego continua crescendo. Portanto, embora essa seja uma crise muito maior que todas as outras que aconteceram, seja a russa, a asiática ou a do México, o Brasil está mais preparado.
É como se tivéssemos tomado uma vacina contra uma doença. Então, ela está demorando para chegar ao Brasil. Talvez, se chegar, chegue em proporção muito menor do que nos Estados Unidos ou na Europa.”
O POVO E A CRISE
“O povo está vendo na televisão, e é preciso saber como essa crise é vendida todo santo dia. Eu me lembro de uma vez em que morreu uma galinha em Marília e colocaram na televisão que era gripe aviária. O que aconteceu? Diminuiu o consumo de frango no Brasil, e a gripe aviária não tinha nem chegado aqui. A questão da febre amarela, dos macacos aqui, foi vendida como uma coisa nacional, quando era uma coisa localizada. Então, é preciso que a gente dê às crises a dimensão que elas têm.”
LULA, O OTIMISTA
“Tem muita gente que fala ‘o presidente Lula está muito otimista, não está vendo a crise’. Ora, meu Deus do céu! Eu sou um tipo de ser humano que, quando vou visitar alguém no hospital, não fico contando para ele quantas pessoas já morreram daquela doença, eu fico contando das pessoas que se curaram. O meu papel é passar serenidade para a sociedade brasileira, a verdade absoluta para o povo brasileiro.”
BANCOS ESTÃO BEM
“Não há sinal de que os bancos estejam metidos no subprime. Se tiverem, vai aparecer em algum momento. Isso é como boletim de criança que tira nota baixa e quer esconder do pai. Não adianta, um dia aparece. Então, é melhor que as pessoas contem logo, para as pessoas tomarem posição.”
O PROER DE FHC E HOJE
“Alguns já estão agindo com mais sabedoria. Eu já vi pessoas mais conservadoras dizerem: ‘nós vamos disponibilizar recursos para os bancos, mas comprando ações dos bancos’. As pessoas já não querem mais dar, como nós demos o Proer.
As pessoas agora estão fazendo o seguinte: ‘Está precisando de dinheiro para garantir a conta corrente das pessoas’ Então, é o seguinte: vou pôr tanto, e isso significa que estou comprando ações desse banco?. Na hora em que a situação melhorar você pode vender, devolver as ações.”
MEDIDAS
“Tomamos medidas para garantir que o Banco Central pudesse fazer redesconto. Nós tomamos como primeira medida diminuir o compulsório para que os bancos grandes pudessem comprar as carteiras dos menores. O Banco do Brasil, por exemplo, comprou três carteiras.
Nós fomos informados depois de que havia uma pressão dos bancos grandes em cima dos pequenos, ou seja, é aquele negócio, não é? As pessoas querem levar vantagem em tudo. Não vamos permitir que os bancos pequenos fiquem reféns dos bancos grandes. Vai o próprio Banco Central fazer o redesconto.”
No mês passado, quando o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos deixou que o banco de investimento Lehman Brothers quebrasse, escrevi que Henry Paulson, o secretário do Tesouro, estava jogando roleta-russa. Havia de fato uma bala naquela câmara: a quebra do Lehman fez com que a crise financeira mundial, que já era grave, ficasse muito, mas muito pior.
As conseqüências da queda do Lehman ficaram evidentes em poucos dias, no entanto os estrategistas econômicos desperdiçaram em grande parte as últimas quatro semanas. Agora, chegou o momento da verdade. Eles precisam fazer alguma coisa logo - na realidade, precisam anunciar um plano de ajuda coordenado neste fim de semana - ou a economia mundial mergulhará na crise mais grave desde a Grande Depressão.
Vejamos qual é a nossa situação agora. A atual crise começou com o estouro da bolha imobiliária, que levou a uma ampla inadimplência das hipotecas, provocando imensos prejuízos em muitas instituições financeiras. A esse choque inicial se somaram efeitos secundários, enquanto a falta de capital obrigava os bancos a recuar, provocando declínio maior dos preços dos ativos e, em decorrência, mais prejuízos, e assim por diante - um círculo vicioso de “desalavancagem”.
A perda generalizada da confiança nos bancos, até mesmo por parte de outros bancos, reforçou o círculo vicioso. A espiral descendente acelerou-se depois da quebra do Lehman. Os mercados financeiros, já conturbados, fecharam efetivamente - dizem, atualmente, que as únicas coisas que todos querem comprar neste momento são letras do Tesouro e água engarrafada.
As duas grandes potências monetárias mundiais - Estados Unidos, de um lado, e as 15 nações do euro, do outro - responderam a essa espiral descendente de maneira lamentavelmente inadequada.
A Europa, não tendo um governo único comum, tem sido literalmente incapaz de uma ação conjunta; cada país elabora a sua própria política, com pouca coordenação, por isso, as propostas de uma resposta unificada não foram a parte nenhuma.
Os Estados Unidos deveriam estar em uma posição muito mais forte. E, quando Paulson anunciou o plano de uma ampla operação de resgate, houve uma onda temporária de otimismo. Entretanto, logo ficou evidente que o plano sofria de uma falta fatal de clareza intelectual. Paulson propôs comprar “ativos podres” de bancos no valor de US$ 700 bilhões - títulos garantidos por hipotecas podres - , mas nunca conseguiu explicar de que modo essa operação poderia solucionar a crise.
O que ele deveria ter proposto, concordam muitos economistas, era uma injeção direta de capital nas instituições financeiras: o governo americano forneceria a essas empresas o capital de que necessitavam para fazer seus negócios - detendo, desse modo, a espiral descendente - em troca de uma participação.
Quando o Congresso modificou o plano de Paulson, introduziu dispositivos que tornavam possível, mas não obrigatória, essa injeção de capital. E, até três dias atrás, ele se opunha resolutamente a fazer a coisa certa.
Mas, na quarta-feira, o governo britânico, mostrando o tipo de pensamento claro que tem sido extremamente escasso deste lado do Atlântico, anunciou um plano pelo qual cedia aos bancos 50 bilhões de libras esterlinas (cerca de US$ 85 bilhões) em capital novo - o equivalente, proporcionalmente, ao tamanho da economia, a um programa americano de US$ 500 bilhões - com amplas garantias para transações financeiras entre bancos. Agora, as autoridades do Tesouro americano dizem que planejam algo semelhante, usando a autoridade que não quiseram, mas o Congresso lhes conferiu de qualquer maneira.
A questão agora é: serão essas medidas insuficientes e demasiado tardias? Não acredito, mas será muito alarmante se este fim de semana acabar sem que haja um anúncio crível de um novo plano de ajuda financeira, envolvendo não apenas os Estados Unidos, mas também todos os principais países.
Por que precisamos da cooperação internacional? Porque temos um sistema financeiro globalizado, em que a crise que começou com uma bolha nos condomínios da Flórida e nas “McMansões” da Califórnia, causou uma catástrofe monetária na Islândia. Estamos todos no mesmo barco e precisamos de uma solução conjunta.
Por que neste fim de semana? Porque em Washington ocorrem duas grandes reuniões: uma reunião das principais autoridades financeiras das nações mais avançadas (ontem) e a reunião anual do Fundo Monetário Internacional/Banco Mundial, hoje e amanhã. Se essas reuniões se encerrarem sem pelo menos um acordo de princípio a respeito de um plano de ajuda global - se todos forem para casa sem nada de concreto, a não ser vagas afirmações de que pretendem controlar a situação - terá se perdido uma ocasião de ouro e a espiral descendente poderá piorar.
O que é preciso fazer? Os Estados Unidos e a Europa deveriam se limitar a dizer: sim, primeiro-ministro. O plano britânico não é perfeito, mas os economistas concordam amplamente que é o melhor esboço disponível de uma iniciativa de ajuda mais ampla. O momento de agir é agora. Podemos achar que as coisas não podem piorar, mas podem, se nada for feito nos próximos dias.
O que fazem as bolsas no primeiro dia deste fim de semana? Despencam. Agora, de certo modo, elas sabem se arranjar. Enquanto esperamos que se acalmem, vejamos algumas coisas curiosas. A crise agiu como fabuloso “revelador”: dogmas incontestados caíram por terra, e são substituídos por outros dogmas, ontem considerados abomináveis. Mas por quanto tempo?
Há 15 dias, a Islândia era um paraíso econômico. Povo rico, país sério, bem administrado, segundo o modelo escandinavo. Pois bem, de todos os países da Europa foi o que caiu mais rapidamente. Naufrágio. O mais inquietante é que, para não soçobrar, teve de aceitar um empréstimo de 4 bilhões de Moscou. É o cúmulo! E se amanhã a Europa Central ou os Bálcãs fossem pedir esmola a Moscou? Seria o maior perigo político.
“Wall Street virou a Praça Vermelha. Nem mesmo os próprios russos ousariam estatizar a este ponto.” O homem que diz isso não é nem um “comediante” nem um provocador, nem um “esquerdista”. É o seriíssimo Jean-Claude Junker, presidente do Eurogrupo.
Nicolas Sarkozy, depois de eleito, tomou a bandeira dos “liberais”. Seu discurso era exaltado: livre iniciativa, desregulamentação, sabedoria do “mercado”, viva o dinheiro, viva o lucro, viva os bancos, viva a bolsa etc…Uma Margaret Thatcher reencarnada no presidente francês. Em 15 dias, outro Sarkozy tomou o lugar daquele. E decretou: “Os banqueiros são uns bandidos. Abaixo os patrões delinqüentes, abaixo a vergonhosa corrida ao lucro, a imoralidade. Viva o Estado.”
A União Européia tem meio século. Superou questões que lhe foram legadas por 2 mil anos de história e furor. A certa altura, eclode a crise e o que vemos? Uma Europa dividida em antagonismos. Uma Inglaterra que vai por um caminho, uma Alemanha que vai por outro, uma França que toma um terceiro… Foi necessário meio século para criar a União Européia; bastaram oito dias de crise para gerar uma “Desunião Européia”.
O que se vislumbra é uma enorme mudança geopolítica: países que dividiam o mundo e os lucros, que reinavam sobre os outros, cambaleiam. EUA, a velha Europa e Japão estão se juntando aos “pobretões”.
Ao contrário, os países emergentes parecem, por enquanto, suportar o golpe e reagir com prudência e energia. É nesses países, até ontem mais ou menos menosprezados, que os especialistas colocam suas esperanças. “A fé mundial resiste nos países emergentes”, diz Christian de Boissieu, presidente do Conselho de Análise Econômica. “China, América Latina e Índia poderão aparar o choque da recessão americana.”
A pergunta foi feita a Jean-Pierre Petit, economista-chefe da Exane BNP Paribas: “A crise acelerará a migração do poder econômico e político do Ocidente para os países emergentes?” Petit respondeu sem hesitar: “Este processo já começou”.
Os países emergentes, com a China à frente, são os grandes vencedores desta década. Estamos assistindo a uma transferência do poder econômico, financeiro, político e mesmo tecnológico. Por cinco anos, o consumo nos EUA e na Europa foi inchado pela bolha imobiliária, que só favoreceu as aplicações financeiras, aprofundou as desigualdades entre as gerações, fabricou o endividamento das famílias, o déficit externo, ameaçando explodir o sistema financeiro internacional.
E prossegue: “As aquisições de ativos ocidentais por fundos soberanos ou pelas multinacionais de países emergentes se multiplicarão. Evidentemente, esses últimos reduzirão o ritmo de expansão, mas deverão resistir. Uma das grandes diferenças em relação à crise de 1929 é precisamente o peso dos emergentes na economia global. Este é um motivo de esperança.”
No jornal Libération, Olivier Compagnon, da Universidade Paris VII, surpreende-se que a América Latina resista à crise: “Mais sólidas, as economias da América Latina aproveitam da alta das matérias-primas.”
E cita a presidente do Chile, Michelle Bachelet, que lança farpas cruéis e irônicas aos países “dominantes”. “Michelle Bachelet surpreendeu-se com o fato de que os países ricos e as instituições internacionais, que durante 25 anos ensinaram à América Latina as virtudes da “desestatização” e o “credo neoliberal”, agora possam descobrir bruscamente as virtudes da “regulamentação”.
Há algumas semanas, publiquei um apelo por uma solução de medidas abrangentes que englobassem os problemas centrais do setor financeiro (a falta de liquidez nos mercados, as dúvidas acerca do valor dos ativos problemáticos e uma clara falta de capital) e os mercados financeiros de todo o mundo (e não apenas alguns centros de circulação monetária). Apesar de terem sido tomadas muitas medidas desde então, elas não foram abrangentes nem globais. De fato, as abordagens feitas foram tão variadas e inconsistentes, especialmente em relação às garantias dos depósitos, que estão intensificando os problemas para outros países. Não é surpresa alguma o fato de os mercados não terem recuperado a confiança.
Qual é o problema subjacente? Em resumo, as instituições financeiras detêm um grande volume de títulos cujo valor é duvidoso e está diminuindo, os quais implicam em imensas perdas para elas. Há também o potencial de perdas adicionais decorrentes da garantia do valor dos ativos feita por meio de trocas de garantias contra calotes e outros instrumentos derivativos negociados em mercados menos transparentes e mais irregulares. Mas, mesmo que um banco saiba que o seu balanço patrimonial está intacto, ele não pode se certificar de que a sua contraparte esteja limpa (ou de alguma maneira exposta a uma terceira parte problemática). Nesse ambiente febril de falta de confiança e escassez de capital, os instrumentos comuns de administração macroeconômica se descobrem ineficazes, e uma estratégia que aposta principalmente na provisão de liquidez por parte dos bancos centrais - apesar de crucial - não será suficiente.
O que mais precisa ser feito? Eu destacaria cinco conjuntos de medidas.
Em primeiro lugar, como concluíram alguns governos, a fragilidade da confiança pública chegou agora em um ponto em que se torna inevitável algum tipo de garantia pública explícita sobre os passivos do sistema financeiro. Isso significa não apenas os depósitos em bancos comerciais, mas, provavelmente, também os depósitos interbancários e do mercado monetário, de modo que nesses mercados-chave a atividade possa recomeçar. É claro que tal medida teria de ser temporária e incluir salvaguardas contra os riscos que acompanham tais garantias, como uma maior supervisão e limites sobre as taxas cobradas em cima dos depósitos.
Em segundo lugar, o Estado precisa eliminar os ativos problemáticos e obrigar as instituições financeiras a reconhecer suas perdas. A compra de ativos deve ser feita de maneira transparente e a um preço de mercado justo.
Os motivos para tanto não são moralistas, apesar de isso ser imperativo, mas pragmáticos. Se os preços forem inflados, então os bancos terão de arcar com as perdas que recaírem sobre os contribuintes - no caso dos Estados Unidos, os bancos teriam de emitir ações para o governo, diluindo assim a participação patrimonial dos outros acionistas. Mas as perdas postergadas para o futuro impedem o fluxo de novo capital particular em direção aos cofres dos bancos. Para atrair tal capital, é melhor pagar um preço menor agora, reconhecer as perdas e dar aos bancos alguma boa notícia no caso de as perdas imaginadas serem, afinal, menores do que se supunha.
Em terceiro lugar, o dinheiro particular é escasso no ambiente atual e o reconhecimento das perdas por si só pode não ser suficiente para induzir a uma injeção de novo capital particular. Uma estratégia que funcionou em crises anteriores é equilibrar as infusões de novo capital particular com quantidade equivalente de capital estatal, o que impõe um teste de mercado para o uso de fundos públicos.
Em quarto lugar, tornou-se urgente um alto grau de cooperação internacional. Infelizmente, as medidas recentes foram tomadas tendo em mente o interesse nacional e não se fez o bastante para evitar conseqüências não intencionais do tipo “transforme-seu-vizinho-em-mendigo”, que apenas exacerbam os problemas para os outros. Se um país oferece com credibilidade uma garantia abrangente (a Irlanda, por exemplo), os investidores podem sair de países que não fizerem a mesma oferta (a Grã-Bretanha, por exemplo). Se o procedimento de compra de ativos for muito diferente, as instituições procurarão o comprador mais generoso. As instituições financeiras agora abrangem muitos países e planos de resgate críveis precisam apresentar consistência entre as muitas jurisdições dentro das quais as mesmas operariam.
Ainda mais fundamental, e olhando para além da crise atual, tornou-se claro que a comunidade internacional precisa trabalhar no sentido de fechar as muitas lacunas na arquitetura regulatória global que permitiram às instituições financeiras minimizar o capital ao mesmo tempo em que concentravam o risco.
Em quinto lugar, agora está se tornando claro que os países de mercados emergentes provavelmente serão atingidos com força pela turbulência financeira, apesar de seus fundamentos serem hoje mais sólidos e de suas robustas estruturas para a formulação de medidas. A não ser que uma súbita interrupção no fluxo de capital obrigue esses países a paralisar seu progresso ou, pior, derrube os seus sistemas financeiros, alguma forma de financiamento rápido e de grandes proporções deve ser mantida a postos.
Não pode haver dúvida de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) esteja preparado para empregar seus procedimentos de emergência e flexibilização para aprovar com rapidez programas de alto acesso ao financiamento, com base numa condicionalidade de mínima resistência que se concentre nas prioridades de resposta à crise.
Apesar de a situação parecer sombria agora, estou convencido de que há uma maneira de escapar do nosso apuro coletivo. O truque é fazer com que os formuladores de medidas de todo o mundo remem na mesma direção.
*O autor é diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional
Luis Favre or Luiz Favre is the nom-de-guerre of Felipe Belisario Wermus (born 1949 Buenos Aires, Argentina). He was, as a young man, an Argentine union militant and member of Politica Obrera. Later he moved to France and became a leading member of the Internationalist Communist Organisation (OCI), a Trotskyist party in France, working especially in its international department. He moved to live in Brazil and is now a member of the PT.He is known to a broader public as the second husband of Marta Suplicy, ex-mayor of São Paulo and now a PT minister. Leia mais em Wikipedia.org http://en.wikipedia.org/wiki/Luis_Favre