02/04/2009 - 18:52h siameses
somos os mais íntimos
os mais enigmáticos
mesclamos nossas peles
com a pleura da palavra
somos sílabas singulares
sem sofismas plurais
somos os mais cúmplices
parecemos os mais complexos
possuímos o mesmo álibi
o teu veneno é mel
o meu tanino é céu
meu e teu o suor sob
um sol de meia-noite
teu e meu o soro sobre
o húmus dos insones
só nosso
o endereço do segredo
confinado em um quarto
crescente
[fonte das sedes
foco das fomes
fólio de sucessivas mortes]
e mudos e desnudos
e completos
seguimos rumo
ao cimo do sigilo
pátria dos prazeres
secretos
solo do intraduzível
língua onde nós
nos confundimos
19/02/2009 - 20:27h De 6 poemas, 5
azo
o pássaro
pousa
passivo
na pauta
do poente
pausa
em compasso
de espera
passa
tempo
tempo
passa
pensa
pondera
ousa
e abre
as asas
rumo
ao sol
no fim
do túnel
***
conto final
um ponto encerra
a sentença
que me condena
: pela reticência
vírgula
pelo et cetera
um ponto finda
o erra-uma-vez
e me livra
da reincidência
***
parto
é hora
de içar as velas
e vê-las
(a)mar adentro
(gr)ávidas de vento
***
as horas (suicidas)
it’s too late:
minha poesia late
e mostra os dentes
rosna
avança
parte
para o ataque
vira e mexe
me acomete
um uivo de liberdade
meu lado lobo
virgínia wo(o)lf
***
quae sera tamen
arraigado em mim
há um bicho arredio
acuado no tédio
urrando liberdade
ainda que poesia
Fonte escritoras suicidas
16/02/2009 - 19:05h De 8 poemas, 2
vulto
palavra,
não estou sozinha.
essa minha clausura
admite companhia
: poesia que me povoa,
verso que apavora,
fantasma, que é Pessoa.
break-even-point
mesmo o que pulsa
um dia cansa
desanda descompassa
pausa & pára
o break
nem sempre causa dano
nem sempre a quebra
repulsa
simplesmente acaba
vira nada disso
finda sem lucro
ou prejuízo
muda o disco
como se nunca
um mísero
Fonte escritoras suicidas
04/02/2009 - 19:13h 3 poemas
à francesa
1
nada sei
a não ser
do seio
do nada
: nódoa
que detona
tecidos
: nódulo
no dedo [médio]
do tédio
nada
nas mamas
calejadas
da poesia
ainda encontro a cura
seja na bula
na bíblia
na cabala
uma fuga
na bala
na agulha
2
nada sou/
serei
a não ser
um sopro de
savoir-faire
: adega
— demi-sec —
do saber
: adaga
— cega —
da sabedoria
nada
na língua
flácida
da poesia
ainda acho abrigo
seja nos livros
nos discos
nos vídeos
alguma verdade
na vaidade
no vício
3
nada sei
além do que
não paira
mínima
dúvida
: tudo enfim
finda
em nada
ainda resta uma saída
ego
eis-me aqui
diante do espelho:
um nonsense
face
&
disfarce
eis-me aqui
um contra-senso
reflexo
&
avesso
eis-me aqui
ante meus versos:
uma antítese
imagem
&
miragem
a bem da verdade
reconheço o que viso:
um oásis de vaidade
pregando no deserto
eis-me aqui:
narciso
&
eco
metástase
este êxtase
que me tira
a sanidade
é razoável
mentira
p o e s i a
:
meias-verdades
fraudes quase
com ênfase
nas frases
(pseudo)feitas
febre
que quando não ferve
fibrila
fabrica
o que nem sempre fui
forja o que não foi
sequer idéia