10/09/2009 - 19:06h Solidão

valéria tarelho

(co)ração

 

 

cachorra & carente

 

procura:

 

pessoa que alimente

 

anymais

 

dia & noite

 

02/04/2009 - 18:52h siameses

valéria tarelho

somos os mais íntimos
os mais enigmáticos

mesclamos nossas peles
com a pleura da palavra
somos sílabas singulares
sem sofismas plurais

somos os mais cúmplices
parecemos os mais complexos
possuímos o mesmo álibi

o teu veneno é mel
o meu tanino é céu

meu e teu o suor sob
um sol de meia-noite
teu e meu o soro sobre
o húmus dos insones

só nosso
o endereço do segredo
confinado em um quarto
crescente
[fonte das sedes
foco das fomes
fólio de sucessivas mortes]

e mudos e desnudos
e completos
seguimos rumo
ao cimo do sigilo

pátria dos prazeres
secretos

solo do intraduzível

língua onde nós
nos confundimos

19/02/2009 - 20:27h De 6 poemas, 5

 valéria tarelho

azo

o pássaro
pousa
passivo
na pauta
do poente
pausa
em compasso
de espera
passa
tempo
tempo
passa
pensa
pondera
ousa
e abre
as asas
rumo
ao sol
no fim
do túnel

***

 

conto final

um ponto encerra

a sentença

que me condena

: pela reticência

vírgula

pelo et cetera

um ponto finda

o erra-uma-vez

e me livra

da reincidência

***

 

parto

é hora

de içar as velas

e vê-las

(a)mar adentro

(gr)ávidas de vento

 ***

 

as horas (suicidas)

it’s too late:

minha poesia late

e mostra os dentes

rosna

avança

parte

para o ataque

vira e mexe

me acomete

um uivo de liberdade

meu lado lobo

virgínia wo(o)lf

 ***

 

quae sera tamen

arraigado em mim
há um bicho arredio
acuado no tédio
urrando liberdade
ainda que poesia

Fonte escritoras suicidas

16/02/2009 - 19:05h De 8 poemas, 2

 valéria tarelho

vulto

palavra,
não estou sozinha.
essa minha clausura
admite companhia
: poesia que me povoa,
verso que apavora,
fantasma, que é Pessoa.


break-even-point

mesmo o que pulsa
um dia cansa
desanda descompassa
pausa & pára

o break
nem sempre causa dano
nem sempre a quebra
repulsa
simplesmente acaba
vira nada disso
finda sem lucro
ou prejuízo

muda o disco
como se nunca
um mísero

Fonte escritoras suicidas

04/02/2009 - 19:13h 3 poemas



por Valéria Tarelho   

à francesa

 

1

 

nada sei

a não ser

do seio

do nada

 

: nódoa

que detona

tecidos

 

: nódulo

no dedo [médio]

do tédio

 

nada

nas mamas

calejadas

da poesia

 

ainda encontro a cura

 

seja na bula

na bíblia

na cabala

 

uma fuga

na bala

na agulha

 

 

2

 

nada sou/

serei

a não ser

um sopro de

savoir-faire

 

: adega

— demi-sec —

do saber

 

: adaga

— cega —

da sabedoria

 

nada

na língua

flácida

da poesia

 

ainda acho abrigo

 

seja nos livros

nos discos

nos vídeos

 

alguma verdade

na vaidade

no vício

 

 

3

 

nada sei

além do que

não paira

mínima

dúvida

 

: tudo enfim

finda

em nada

 

ainda resta uma saída

 

 

 

ego

 

eis-me aqui

diante do espelho:

um nonsense

 

face

&

disfarce

 

eis-me aqui

um contra-senso

 

reflexo

&

avesso

 

eis-me aqui

ante meus versos:

uma antítese

 

imagem

&

miragem

 

a bem da verdade

reconheço o que viso:

 

um oásis de vaidade

pregando no deserto

 

eis-me aqui:

 

narciso

&

eco

 

 

 

metástase

 

este êxtase

que me tira

a sanidade

é razoável

mentira

 

p o e s i a

:

meias-verdades

fraudes quase

com ênfase

nas frases

(pseudo)feitas

 

febre

que quando não ferve

fibrila

 

fabrica

o que nem sempre fui

forja o que não foi

sequer idéia