04/03/2012 - 15:20h Gênero e Mudança Social em El Salvador


Vanda Pignato, Primera Dama e Secretária de Inclusão Social da República de El Salvador

Apesar das declarações e compromissos da comunidade internacional acerca da igualdade de gênero, as condições da mulher no mundo continuam sendo trágicas, mesmo quando se registrem certos avanços em alguns estados e em determinadas sociedades.
Essas condições se replicam, com suas especificidades, em todo o mundo em desenvolvimento. Em El Salvador, que é o menor país da América Latina, vulnerável, e onde estão mais dramaticamente acentuadas as iniquidades, a discriminação, iniquidade e violência que padecem as mulheres são tão evidentes como indignantes.
Os dados estatísticos, na realidade, são uma fria manifestação dessas deploráveis tragédias. A sociedade salvadorenha está integrada por quase 53% de mulheres. Até faz apenas três anos, a sociedade salvadorenha ainda vivia sob governos inclinados a proteger o privilégio de um pequeno grupo social e a desamparar as grandes maiorias. Estes governos que, sob a ideia de uma igualdade formal, escondiam por trás das normas e das políticas as evidentes discriminações, iniquidades e violência que, por razão de gênero e desde uma base e consideração estrutural e histórica, têm segado a qualidade de vida e o desenvolvimento da sociedade e das mulheres em particular.
Meus anos de residência e trabalho político, social e cultural em El Salvador me deram um conhecimento profundo dessa realidade, que me indignava. Durante a campanha eleitoral do Presidente Mauricio Funes, concebi a ideia de criar um centro destinado à atenção integral da problemática das mulheres, e para as mulheres, que não tivesse nenhuma relação com as velhas e fracassadas políticas ensaiadas durante anos na América Latina.
Surgiu, então, “Ciudad Mujer” (www.inclusionsocial.gob.sv). A ideia da criação de “Ciudad Mujer” esteve baseada em três fatores, que são: o reconhecimento das iniquidades de gênero como parte inaceitável da realidade; a existência de normativa nacional e internacional, que gera a obrigação de dar passos progressivos para a promoção e realização dos direitos das mulheres, incluindo a eliminação de toda forma de violência e de discriminação, por questão de gênero; e, finalmente, a visão estratégica de país e de sociedade que pretende alcançar o atual governo de El Salvador.
Desde una perspectiva conceptual, “Ciudad Mujer” é um centro de serviços baseado em um enfoque de direitos que supera a visão do assistencialismo e da caridade, geralmente muito próprios da maneira tradicional de realizar ação social na América Latina. As necessidades de atenção que as mulheres apresentam estão entendidas como privações, carências, vazios ou exclusões que, por questão de gênero, as mulheres enfrentam na realização e gozo de seus direitos.
Trata-se de uma aposta inovadora, que começou a dar frutos além dos esperados, apesar da sua breve existência. Inúmeras mulheres vêm recebendo atenção na primeira sede de “Ciudad Mujer” e este ano começaremos a construção de outras sedes, com o apoio financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que tem tomado o projeto como modelo para toda a América Latina.
Por esse impacto, e por seu potencial, “Ciudad Mujer” foi reconhecida a nível internacional com o Prêmio à Iniciativa em Saúde e “Empoderamiento” que oferece South South News Initiative (Nações Unidas), e com o Prêmio Américas 2011, pela promoção da igualdade de gênero e a autonomia da mulher (Nações Unidas, Organização dos Estados Americanos, Centro Carter). A experiência se afirma e começa a estender-se a outros países americanos.
Com este instrumento, as mulheres tradicionalmente excluídas ao longo da história, começaram a se tornar visíveis nas políticas públicas. Ao serem reconhecidas pelo Estado, reconhecem-se a si mesmas como titulares de direitos e como cidadãs. Essa é a potência transformadora de “Ciudad Mujer”. Será o grande legado do Presidente Mauricio Funes à luta autêntica, de ações, e não de palavras, pela igualdade de gênero.

15/08/2009 - 14:17h ”O PT só tem boas lições a dar”

A primeira-dama de El Salvador conta como o governo de seu marido se inspira no de Lula

Por Luiza Villaméa – Revista Istoé

Fotos: Jo Carval hal /AFG; esteban felix/ap; josé
FILTRO “Não estamos simplesmente importando acriticamente as experiências brasileiras”, diz Vanda

Nascida e criada na zona leste paulistana, a advogada Vanda Pignato, 46 anos, jamais sonhou com a vida em palácios. Agora, no entanto, ela só aguarda o término de uma reforma para se mudar, com o marido, o presidente Mauricio Funes, e o filho Gabriel, a quem chama de Bibi, para a residência presidencial, em San Salvador, a capital de El Salvador. Como se não bastasse o papel de primeira-dama, Vanda também assumiu a Secretaria de Inclusão Social do país, que tem sete milhões de habitantes, 10% deles abaixo da linha da pobreza. O tempo livre, dedica ao filho, que ainda não completou dois anos, e teve de ser tirado de El Salvador durante a campanha eleitoral, devido às ameaças que a família sofria. Foi o começo da cota de sacrifício que, acredita Vanda, o filho está pagando em favor do país. O garoto já se adaptou à nova realidade. “O Bibi gosta da ritualística do poder. Desde a festa da posse, em toda solenidade de que participa, ele lança acenos, todo compenetrado, para as pessoas”, conta.

Petista de carteirinha, Vanda representou o partido na América Central até junho, quando Funes, antigo correspondente da CNN em espanhol e âncora do Canal 12, foi empossado na Presidência. Há cerca de 13 anos, ela apresentou o marido a Luiz Inácio Lula da Silva, cujos programas agora inspiram o governo Funes. Não se trata, porém, de uma simples clonagem. “A esquerda salvadorenha, mesmo quando estava longe do poder, soube pensar o país”, diz Vanda.

“Temos a chance, agora, de colocar isso em prática, somando nossos esforços com a experiência de países amigos, em especial o Brasil.”

ISTOÉ - Como a sra. define seu estilo de primeira-dama?
Vanda Pignato - Sou o que sempre fui: uma mulher de ação política e compromisso social. Virei primeira-dama por uma feliz coincidência do amor e da luta política. E não vou trair, jamais, o meu destino. Ser primeira-dama me orgulha e me abre portas dentro e fora do meu país. Mas quero ser mais conhecida por meu trabalho na Secretaria de Inclusão Social.

ISTOÉ – A sra. não corre o risco de cair no clientelismo?
Vanda – Não. A secretaria, aliás, é um símbolo do estilo que queremos implantar. Ela foi criada para substituir a antiga Secretaria de Família e da Juventude, de característica clientelista. A Secretaria Nacional da Família era ocupada, tradicionalmente, pelas primeiras-damas salvadorenhas.

ISTOÉ - É possível exercer o poder sem se afastar das bases?
Vanda - Impossível mesmo é governar longe das bases. Em apenas dois meses de governo, o presidente já se reuniu mais vezes com os movimentos sociais do que em vários anos do antigo regime. O presidente quer ampliar cada vez mais sua base social e política, num trabalho de articulação com os movimentos sociais e os partidos. Ele acaba de criar, inclusive, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

ISTOÉ - Um de seus principais projetos na campanha eleitoral foi o Cidade Mulher. Ele já foi colocado em prática?
Vanda - Já temos o projeto da primeira unidade, que, aliás, é de um dos gênios da arquitetura brasileira, João Filgueiras Lima, o Lelé. Um dos arquitetos de mais sensibilidade social que conheço.

ISTOÉ - Como vai funcionar?
Vanda - O Cidade Mulher é um grande centro de apoio e atendimento às mulheres e seus filhos de até cinco anos. É um misto de espaço de convivência e de formação profissional e cultural. Em cada unidade vão funcionar creche, serviços de atendimento médico e odontológico, oficinas de formação de mão de obra, agências de microcrédito e apoio jurídico, centro de inclusão digital, biblioteca e teatro.

ISTOÉ – Quantos centros como esse El Salvador precisa?
Vanda - A ideia é construir 14 unidades em todo o país, nas capitais administrativas. Estamos buscando financiamento internacional para isso e a receptividade tem sido muito boa. Meu sonho é inaugurar a primeira Cidade Mulher no início do próximo ano.

Fotos: Jo Carval hal /AFG; esteban felix/ap; josé
“Maus exemplos antidemocráticos, como o golpe em Honduras, não prosperam mais na América Latina. Causam nojo e vergonha”

ISTOÉ - A sra. tem um filho, Gabriel, de pouco mais de um ano. Como é conciliar a maternidade com as atividades de primeira-dama?
Vanda - Às vezes é duro. Mas o Mauricio é um grande pai e isso ajuda muito. Minha família toda também é muito presente. O Bibi, como salvadorenho, está pagando a sua cota de sacrifício em favor de um país melhor para os adultos de hoje e para a geração dele, dos seus filhos e netos. E o Bibi gosta da ritualística do poder. Desde a festa da posse, em toda solenidade de que participa, ele lança acenos, todo compenetrado, para as pessoas.

ISTOÉ - Foi a sra. quem apresentou seu marido ao presidente Lula?
Vanda – Sim. Isso aconteceu há uns 13 anos. Desde o primeiro momento, rolou uma boa química e simpatia entre os dois. Além disso, eles têm uma visão de mundo bem parecida.

ISTOÉ - Como se dá o intercâmbio com o governo Lula?
Vanda - Da forma mais madura e solidária possível. O presidente Lula elevou o Brasil a um novo patamar no mundo, e feliz do país que tenha a colaboração do Brasil. Eu e Mauricio temos a felicidade de ser amigos, de muitos anos, do presidente Lula e de vários membros da sua equipe. Estamos ainda estudando as formas mais efetivas de troca de experiências e ações conjuntas em várias áreas.

ISTOÉ - O presidente, o ministro Patrus Ananias e o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, estiveram recentemente em El Salvador. Qual a contribuição deles ao governo Funes? Vanda – Eles são amigos pessoais e velhos companheiros de luta. Todos, agora, com ampla experiência em um dos governos mais exitosos do mundo. As sugestões deles têm sido valiosas para nós. Porém, o melhor é que eles estão opinando em cima de propostas nossas. Não estamos simplesmente importando acriticamente as experiências brasileiras, por melhor que elas sejam. A esquerda salvadorenha, mesmo longe do poder, soube pensar o país. Temos a chance, agora, de colocar isso em prática, somando nossos esforços com a experiência de países amigos, em especial o Brasil.

ISTOÉ - O presidente Funes pretende implantar o Bolsa Família?
Vanda - Na verdade, o governo passado, mesmo sendo de direita, já havia feito uma primeira experiência, fazendo uma cópia malfeita e diminuta do Bolsa Família. Mauricio ampliou o programa e fez modificações. É um começo. Nossa ideia é fazer um programa mais amplo e diversificado.

ISTOÉ – A sra. é filiada ao PT desde 1981 e durante muitos anos representou o partido na América Central. Como vê o PT hoje?
Vanda - O PT está num grande momento de amadurecimento e crescimento. É hoje um dos maiores partidos de massa do mundo e sabe se comportar, muito bem, como partido governante. Vi, recentemente, uma pesquisa em que ele aparece como o partido de maior preferência entre os brasileiros. Isso não é pouco.

ISTOÉ – Na crise que assola o Senado, boa parte do PT defende o presidente da Casa, José Sarney. A sra. apoia esta postura?
Vanda - Sou brasileira, mas sou também primeira-dama de um país estrangeiro. Não me compete comentar particularidades da vida política brasileira. Mas tenho experiência política suficiente para saber que o partido de um presidente deve buscar sempre dar governabilidade ao seu governo. Toda vez que apoiar o presidente e a governabilidade, o PT, na minha opinião, está agindo bem.

ISTOÉ - Quais lições a sra. leva do PT para aplicar em El Salvador?
Vanda - A principal eu posso dizer numa frase: compromisso prioritário com os mais pobres.

ISTOÉ - E quais lições a sra. leva para não aplicar?
Vanda - Acho que o PT, como partido, só tem boas lições a dar. Um ou outro problema individual não significa posição partidária.

ISTOÉ - Honduras faz fronteira com El Salvador. Como a instabilidade política daquele país afeta El Salvador?
Vanda - O caso de Honduras não afeta apenas El Salvador, mas a democracia em todo o mundo. Não é por acaso que os golpistas estão recebendo a desaprovação unânime de todos os países. Mas a democracia em El Salvador é sólida e a transição tem se dado com muito equilíbrio. Maus exemplos não influenciam mais o povo salvadorenho. Até porque tenho certeza de que no desfecho final a democracia vai vencer em Honduras.

Fotos: Jo Carval hal /AFG; esteban felix/ap; josé
“Dona Marisa não gosta de protagonismo, mas trabalha no bastidor. Ela continua sendo a principal conselheira do presidente Lula”

ISTOÉ - Mas a instabilidade política em Honduras pode favorecer a volta de golpes militares na América Latina?
Vanda - Ao contrário. Acho que vai servir para consolidar ainda mais o sentimento e a prática da democracia. Na América Latina vai ficar o sentimento de repulsa a atitudes arbitrárias e criminosas. Repito: é um mau exemplo. E maus exemplos antidemocráticos não prosperam mais na região. Causam nojo e vergonha.

ISTOÉ - O que a sra. acha da atuação de dona Marisa como primeiradama?
Vanda - Tenho o privilégio de conhecer dona Marisa e o presidente Lula há décadas. Dona Marisa é uma petista histórica, das mais apaixonadas. É uma mulher que não gosta de protagonismo, mas que trabalha, com constância e firmeza, no bastidor. É uma pessoa muito sensível e atenta às questões sociais. Ela continua sendo a principal conselheira do presidente Lula.

ISTOÉ - Dona Marisa conheceu Lula no sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Como a sra. conheceu Funes?
Vanda - Fui chamada ao Canal 12, para opinar, como diretora do Centro de Estudos Brasileiros da embaixada do Brasil, sobre a compra de um pacote de novelas. Isso foi há mais de 15 anos. Pedi na ocasião para conhecer o Mauricio, de quem eu era fã de carteirinha, por causa de seu estilo destemido e independente. Foi paixão à primeira vista.

19/03/2009 - 15:55h Entrevista Vanda Pignato

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