27/07/2008 - 11:24h A desigualdade na velhice brasileira
Diferenças que permeiam outras áreas do país afetam profundamente a terceira idade, alerta especialista
O GLOBO ENTREVISTA

Em menos de 20 anos, o Brasil terá 18 milhões de idosos — três milhões a mais do que hoje. Em 2025, serão 32 milhões. Apesar de a expectativa de vida ter aumentado, há muito a fazer, aponta Alexandre Kalache, responsável durante 12 anos pelo programa de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde (OMS). Fundador do Departamento de Epidemiologia do Envelhecimento da London School of Hygiene and Tropical Medicine e consultor sênior da Academia de Medicina de Nova York, o especialista afirma que há muita desigualdade no país em relação à qualidade de vida na terceira idade. O geriatra está no Brasil para participar do 13° Congresso Internacional da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), que será realizado nos dias 21 e 22 de agosto, em Araxá, em Minas Gerais.
Antônio Marinho - O Globo
O GLOBO: O brasileiro está envelhecendo com mais qualidade de vida?
ALEXANDRE KALACHE: Se compararmos com o envelhecimento do meu avô, a diferença é enorme. Primeiro, porque a expectativa de vida é mais alta.
Quando nasci, em 1945, em Copacabana, a esperança de vida era de 43 anos. Hoje é de quase 74 anos. Isso é um recorde. Poucos países conseguiram este salto num período tão curto. Copacabana é um exemplo excelente do que está acontecendo. Hoje temos mais idosos proporcionalmente neste bairro do que na Suécia e no Japão. Por um lado, os idosos que têm acesso ou dinheiro hoje contam com facilidades com que antes não sonhavam, como serviços de saúde e avanços tecnológicos que no final da década de 60 eram ficção científica. E ainda há drogas para controlar diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares; a evolução do tratamento de câncer. Porém, o envelhecimento reflete o que acontece no Brasil.
Há muita desigualdade. Por exemplo, decidir fazer uma dieta saudável não depende apenas de acesso à informação, mas também de poder aquisitivo.
O Brasil envelheceu antes de enriquecer. Até que ponto isso foi ruim?
KALACHE: Um aspecto positivo é a aposentadoria não contributiva, que está tirando da miséria mais de oito milhões de beneficiários e cerca de quatro vezes esse número, quando somamos seus familiares. São pessoas que trabalharam a vida toda e não contribuíram para o seguro social, como donas de casa, trabalhadores rurais etc. Pela primeira vez, contam com uma renda regular todo mês.
Os profissionais de saúde estão preparados para lidar com a terceira idade?
KALACHE: São absolutamente despreparados. Não vamos conseguir oferecer serviço geriátrico para 18 milhões de idosos.
Não queremos tornar o envelhecimento um problema médico.
Mas precisamos treinar todos os profissionais de saúde para lidar melhor com essa população.
Geralmente eles sabem tudo de criança, de gestante, mas não sabem nada sobre terceira idade. E é a maioria de seus pacientes. Eles saem das faculdades sem adquirir conhecimentos para lidar com os idosos.
Trabalhamos com a Associação Internacional de Gerontologia e definimos os 15 pontos capitais para o currículo mínimo do médico. O que ele deve aprender hoje para responder ao envelhecimento. Em 2025, serão 32 milhões com mais de 60 anos no Brasil; em 2050, serão 70 milhões. Todos os profissionais de saúde deveriam estar mais familiarizados com anatomia, fisiologia, farmacologia e sintomas de doença na terceira idade.
O Brasil tem um excelente estatuto do idoso no papel, mas na prática ainda não funciona? O que pode ser feito?
KALACHE: Já melhorou muito.Há dez anos, falar de envelhecimento não estava na pauta da mídia. Quando me especializei, na década de 70, eu não conseguia falar com ninguém sobre o assunto. Para melhorar a aplicação do estatuto é preciso sensibilizar as autoridades, os políticos. Os políticos e dirigentes ainda não se deram conta da urgência do tema.
Como está o programa Sociedade Amiga do Idoso, da OMS, que teve como piloto o bairro de Copacabana e serve de modelo para outras cidades do mundo?
KALACHE: O programa está lento, mas existem intervenções pontuais. Copacabana serviu como piloto e foi aqui que desenvolvemos a metodologia adotada em 35 cidades para o projeto global Cidade Amiga do Idoso. Mas, apesar de o programa ter nascido em Copacabana, pouco foi feito aqui. O tema transporte é um dos mais importantes para esta população. No Brasil, os ônibus são feitos em chassi, com degraus altos. Em Nova York o sistema está sendo todo reformulado.
Já existem ônibus nos quais o chassi inteiro desce, não apenas um degrau. Outra questão. O idoso gosta de caminhar, mas também precisa descansar a cada 200 metros a 300 metros. Criar um mobiliário urbano adequado é importante.
A construção de toaletes públicos é outra medida simples.
Muitos idosos têm urgência urinária.
O que é melhor para o idoso, ser cuidado em casa ou numa instituição?
KALACHE: Hoje ocorre a feminização do envelhecimento.
Na faixa a partir dos 85 anos, dois terços da população são de mulheres, geralmente de baixa renda e há muito tempo viúvas. De maneira geral, a pessoa idosa quer envelhecer em casa, por melhor que seja a casa da repouso. Para a imensa maioria dos idosos, a institucionalização é o começo do fim, a pessoa fica deprimida, está mais sujeita a abusos, perde sua privacidade e sua autonomia para viver de acordo com suas próprias regras e os seus desejos.
De que forma os avanços em medicina genética estão melhorando a qualidade de vida dos idosos?
KALACHE: Provavelmente, com os avanços científicos, como a medicina genética, as pessoas vão chegar mais facilmente aos 100 anos e com mais qualidade de vida. A pessoa será curada de doenças hoje crônicas como Parkinson e Alzheimer.
Mas para algumas pessoas esse aumento da expectativa de vida será uma perversidade porque continuarão com qualidade de vida ruim.
