02/10/2008 - 18:04h Sobre o exercício da hipocrisia

por Luis Nassif

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Há alguns tempo publiquei um tratado sobre a hipocrisia na política. Mostrava que era impossível a qualquer governo atuar sem recorrer à hipocrisia. Mais ainda no Brasil, onde a precariedade institucional elevada.

Mas duas hipocrisias chocam pelo excesso.

A primeira, a maneira como estão fritando o Geraldo Alckmin agora, comparada ao jogo hipócrita das últimas eleições, em que se tentava vendê-lo como o grande gerente. Experimentei na pele a dificuldade que era dizer o óbvio: que Alckmin era um administrador sofrível. Agora, virou a própria Geny, nos mesmos veículos que o incensavam.

A segunda, o mea culpa dos intelectuais que foram na onda do neocon e do anti-lulismo exacerbado. O oportunismo de atender à demanda de anti-lulismo da mídia, recorrendo a um pensamento preconceituoso e radical, já foi vergonhoso. Voltar atrás agora, que o efeito manada vai em outra direção, é duplamente vergonhoso. Só estão faltando beijar o Lula na boca.

Nunca foi tão presente aquele artigo do Luiz Fernando Veríssimo, um clássico, em que dizia da péssima companhia em que ficaria, se entrasse na onda.

Outro dia, um comentarista – não me lembro se o João Vergílio – falou do refluxo desse neo-conservadorismo na USP. Passou a onda, ficou o cheiro. Intelectuais respeitáveis, da USP e da Unicamp, carregarão pelo resto da vida, na sua biografia, o fato de que, um dia, ficaram lado a lado com o pior esgoto que o jornalismo brasileiro produziu em muitas e muitas décadas.

Agora, esse jogo ficou reduzido a meia dúzia de pessoas que compõem o Clube da Auto-Ajuda: “eu te chamo de gênio, você me chama de gênio, e mandemos os escrúpulos e o ridículo às favas”.

Escrito por Luis Nassif do Blog de Nassif

24/07/2008 - 08:55h Para valer, mesmo!

Para valer

A imagem “http://img230.imageshack.us/img230/6711/ssalgado4f8af1lv0.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

VERISSIMO - O Estado de São Paulo

verissimo1.jpgNuma carta ao Estado de S. Paulo, o sr. Cesário Ramalho da Silva, presidente da Sociedade Rural Brasileira, comentou um texto meu sobre a reforma agrária intitulado Injustiça e Desordem, publicado aqui há semanas. O sr. Cesário não gostou do texto. Nele eu lamentava a demora de uma reforma agrária para valer no País e o sr. Cesário pergunta: ”Que reforma agrária para valer seria essa que dilapidaria o setor do agronegócio, que segura as contas do País, com efeito multiplicador de gerar riqueza, emprego e renda para a indústria e os serviços?” Segue dizendo que toda a Nação já entendeu que o setor rural é o maior responsável pelo crescimento da economia brasileira, junto com a estabilização da moeda, salvo os que insistem num pensamento ”ideológico” e atrasado sobre a questão - como, suponho, o meu. E recorre a uma analogia curiosa: ”É como voltar ao tempo do Brasil-colônia, onde nós, colonizados, não podíamos acumular riqueza porque tudo pertencia à Coroa portuguesa.” Me parece que se a situação colonial evoca alguma coisa é a atual coexistência no Brasil do latifúndio sem proveito social ou econômico e as legiões de banidos da terra, com a Coroa portuguesa no papel do proprietário ausente. Não se quer a dilapidação de negócio algum e sim uma reforma agrária que inclua os milhões de hectares vazios mantidos no Brasil só pelo seu valor patrimonial - uma realidade notória que o sr. Cesário não cita - na cadeia produtiva, com colonização bem-feita e bem apoiada.

O sr. Cesário diz que não há exemplo de reforma agrária que deu certo. Eu tenho alguns. Li um relatório da ONU sobre os efeitos dramáticos na cidade de Calcutá, conhecida pela miséria e a extrema degradação urbana, da reforma agrária feita na sua região. Uma reforma agrária radical livrou o Japão de uma estrutura fundiária feudal e teve muito a ver com sua recuperação depois da guerra. A louca corrida para ocupar o Oeste americano não é modelo para nenhum tipo de colonização racional, mas não deu errado. E já que exemplos americanos legitimam qualquer argumento, mesmo os do pensamento ”ideológico”, recomendo que se informem sobre o Homestead Act, com o qual o governo dos Estados Unidos lançou, no século 19, o maior programa de distribuição de terra da História. Não surpreende a desinformação sobre reformas agrárias alheias que deram certo, ou só foram frustradas pela reação violenta. Os próprios sucessos da incipiente reforma agrária brasileira são ignorados. Sobre os assentamentos que estão funcionando em paz, e produzindo, e contribuindo para o efeito multiplicador que o sr. Cesário, muito justamente, exalta, só se tem silêncio.

O texto que desagradou ao sr. Cesário foi motivado por uma manifestação, depois atenuada, do Conselho Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul, que equiparava o movimento dos sem-terra à guerrilha e pedia sua dissolução. Diante da flagrante iniqüidade da situação fundiária brasileira, mostravam, como na frase de Goethe, que preferiam a ordem à justiça. A criminalização do movimento dos sem-terra seria a outra face da descriminalização, pela absolvição e o esquecimento, de atos como o massacre de Carajás. Acho que o sr. Cesário e seus pares concordam comigo que a escolha não precisaria ser feita, que ordem ideal seria a que advém da justiça, ou da ausência da injustiça. Mas isso, claro, pressupõe outro Brasil. Talvez outra humanidade.

17/07/2008 - 19:57h Veríssimo: O disco rígido de Fátima

O GLOBO

verissimo.jpgEstão dizendo que as informações contidas no disco rígido do computador do Daniel Dantas apreendido pela Polícia Federal vão acabar com a República. Descontando-se nosso gosto pelo exagero, pode-se comparar o disco rígido do Daniel Dantas ao terceiro segredo revelado pela Virgem Maria às crianças de Fátima, que só o Vaticano — no nosso caso, a polícia — conhecia, e não contava.

Também se especulava que a revelação da Virgem era um anúncio do fim de tudo. Como o rompimento do sétimo selo da Bíblia, a abertura do disco rígido do Daniel Dantas provocaria vozes e trovões, relâmpagos e terremotos, e saraiva e fogo misturado com sangue lançados sobre a Terra. Ou, para usar um tom menos apocalíptico, embaraços terminais. O Papa João Paulo II acabou tranqüilizando os fiéis, anunciando que a coisa terrível que era para acontecer, na interpretação da Igreja, já tinha acontecido: o atentado fracassado contra a sua vida. Ou seja, a Virgem exagerara um pouco.

A Polícia Federal bem que poderia fazer como o Papa e dar um vislumbre do que está no disco rígido, para acalmar os cristãos, e os nem tão cristãos. Confesso que me desapontei com o nome dado pela Polícia Federal à investigação dos negócios do Eike Batista, Operação Rei Midas, ou coisa parecida. Não está à altura do nome da operação que destampou o escândalo do Detran do Rio Grande do Sul (”Rodin”, porque uma das principais empresas envolvidas se chamava “Pensant”) ou o “Satiagraha” da operação pega-Dantas. Depois de nos acostumar com sua erudição e sofisticação, a Polícia Federal não pode frustrar assim nossa expectativa. Queremos criação literária no mesmo nível da ação anticorrupção. Não nos decepcionem!

A reação à capa da revista “The New Yorker” desta semana prova, mais uma vez, os perigos da sátira incompreendida. A capa mostra o Barack Obama vestido de muçulmano e sua mulher, Michelle, vestida e armada como guerrilheira, os dois no gabinete oval da Casa Branca, com um retrato do Bin Laden na parede em cima de uma lareira onde arde a bandeira americana. Os dois se cumprimentam por terem chegado lá. Satirizados no desenho estão os piores temores que a direita americana tenta espalhar entre os eleitores a respeito do casal. Mas quem está protestando é a turma do Obama, que não gostou da brincadeira. Bem explicado, não pode haver dúvidas sobre a intenção do cartum. Mas humor que precisa ser explicado é humor que não funciona.

03/07/2008 - 09:06h Injustiça e desordem

http://www.overmundo.com.br/_overblog/multiplas/1175392489_membros_do_mst.jpg
foto Sebastian Salgado

VERISSIMO - O Globo

Quando Goethe disse que preferia a injustiça à desordem, a Europa recém fora sacudida pela revolução francesa e enfrentava outro terremoto, o bonapartismo em marcha. Sua opção não era teórica, era pela específica velha ordem que os novos tempos ameaçavam. Por mais injusta que fosse, a velha ordem era melhor do que as paixões incontroláveis libertadas pela revolução.

Mas a frase de Goethe atravessou 200 anos, foi usada ou repudiada por muitos, na teoria ou na prática e em vários contextos, e chega aos nossos dias mais atual do que nunca. Você não pode pensar na questão agrária brasileira, por exemplo, sem cedo ou tarde ter que se perguntar se prefere a justiça ou a ordem.

A injustiça no caso é flagrante e escandalosa. Mesmo que se aceite todas as teses sobre o desvirtuamento do movimento dos sem-terra e se acate a demonização dos seus líderes, militantes e simpatizantes, a dimensão do movimento é uma evidência literalmente gritante do tamanho da iniqüidade fundiária no Brasil, que ou é uma ficção que milhares de pessoas resolveram adotar só para fazer barulho ou é uma vergonha nacional. A iniqüidade que criou essa multidão de deserdados no país com a maior extensão de terras aráveis do mundo é a mesma que expulsou outra multidão para as ruas e favelas das grandes cidades, deixando o campo despovoado para o latifúndio e o agronegócio predatório.

A demora de uma reforma agrária para valer, tão prometida e tão adiada, só agrava a exclusão e aumenta a revolta.

Quem acha que desordem é pior do que injustiça tem do que se queixar, e a que recorrer. As invasões e manifestações dos sem-terra se sucedem e assustam. Proprietários rurais se mobilizam e se armam, a violência e o medo aumentam, a reação se organiza. Agora mesmo no Rio Grande do Sul, enquanto endurece a repressão policial às ações do MST, um documento do Ministério Público estadual prega a criminalização de vez do movimento, caracterizando-o como uma guerrilha que ameaça a segurança nacional, com ajuda de fora. É improvável que uma maioria de promotores de justiça do estado, transformados em promotores de ordem acima de tudo, tivesse abonado o documento como estava redigido, com seu vocabulário evocativo de outra era. Mas ele dá uma idéia da força crescente do outro lado da opção definidora, dos que escolheram como Goethe.

15/06/2008 - 19:00h Verissimo

Crônica

O Globo

Rir ou não rir

verissimo.jpgCasal de judeus americanos em visita a Israel entra num clube noturno de Tel Aviv onde se apresenta um cômico local. As piadas do cômico fazem grande sucesso com o público e quem ri mais do que todos é o americano.

Sua mulher estranha. As piadas são em hebraico. O marido não sabe hebraico. Por que está rindo tanto?

— Por que não? — responde o marido. — Eu confio nesta gente!

Dependendo do jornal que você lê, e às vezes do analista num mesmo jornal, o otimismo com a situação do Brasil se justifica, é um delírio ou é um embuste. Poucas vezes na nossa história recente entender o que se passa dependeu tanto da predisposição, ou do preconceito, de cada um. A economia do país raramente esteve tão bem, nunca se comprou tanto carro e casa própria, estamos finalmente a caminho de ter um bendito mercado para sustentar nosso desenvolvimento — ou a caminho do caos. Você decide. Os números não provam nada, ou provam tudo, o que dá no mesmo. Uma correta avaliação é improvável, já que os profissionais da avaliação se contradizem. Os fatos não influem muito na decisão de ser otimista ou catastrófico.

Ou seja: saber hebraico é secundário. Para rir ou não rir das piadas, basta confiar ou não confiar em quem está rindo.

FOFOCA

Com Barack Obama definido como candidato dos democratas à Casa Branca, espera-se para qualquer momento não um atentado contra ele mas uma fofoca sexual, que nos Estados Unidos também costuma ser uma arma. Em países latinos as revelações sexuais não têm o mesmo efeito, portanto não têm o mesmo risco político.

A filha que o Mitterrand tinha com sua amante foi motivo apenas de curiosidade, e de afetuosa surpresa com um pecado menor do velho, e não prejudicaria sua carreira política mesmo se tivesse aparecido antes. E o boato de que o Chirac era amante da Claudia Cardinale só aumentou sua reputação. No Brasil existe um imenso lençol subterrâneo, se este é o termo, de indiscrições conhecidas do poder que nunca vêm à superfície. Tipo todo o mundo sabe mas ninguém publica.

O que é saudável, já que a vida particular do político só é relevante quando surgem falhas de caráter que afetarão o nosso bolso, como uma tara por dinheiro público, e qual é o problema de namorar um pouco se ajuda a relaxar e até a governar e legislar melhor, desde que a patroa não fique sabendo? Mas há quem diga que a falta de inconfidências no mercado se deve a uma insuficiência do nosso setor editorial, que ainda não pôde fazer ofertas convincentes.

Quando morreu Buddy, o labrador dos Clinton, talvez o cachorro com mais histórias para contar do mundo, suspeitou-se que o atropelamento se devesse aos rumores de um contrato milionário para publicar um livro seu, título provável “Memórias da Casa Branca, ou Babando no tapete do Salão Oval”. Buddy, presumivelmente, estava presente nos encontros de Clinton com estagiárias para fins não reprodutivos. Inconfidências de assessores, empregados, amantes etc. são um risco constante para dirigentes americanos e ingleses, incluindo até a família real — no caso dos Estados Unidos, os Kennedy.

As revelações podem ser moderadamente embaraçosas (como a da atriz Angie Dickenson, que descreveu seu caso com John Kennedy como “os quinze segundos mais memoráveis da minha vida”) ou podem acabar com reputações para sempre. Do Bush nunca se soube nada, salvo os atos antinaturais que praticou com o país. Do Barack Obama, devem estar catando.

05/06/2008 - 14:14h Colaboradores

VERISSIMO - O Estado de São Paulo

http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/img/luis_sax.jpgA imprensa americana está comentando o recém-lançado livro de Scott McClellan, que foi porta-voz da presidência durante três anos e agora conta tudo sobre a campanha mentirosa para justificar a invasão do Iraque e outras sujeiras do governo Bush. A única novidade do relato é ser feito por alguém que estava dentro da Casa Branca e participou - muitas vezes enganado também, diz ele agora - do logro que resultou na guerra mais longa em que o país já se meteu, e cujo custo em vidas humanas continua a subir. A imprensa americana está comentado menos outra coisa que já se sabia mas ninguém com as credenciais de McClellan tinha dito antes: a sua cumplicidade na campanha mentirosa. Com a autoridade de quem se encontrava com ela quase todos os dias, McClellan descreve uma imprensa subserviente que raramente questionava as mentiras do governo e, com poucas exceções, aceitava todas as razões da direita guerreira.

O próprio New York Times, besta negra dos conservadores americanos com sua linha pró-democratas e internacionalista, forneceu os exemplos mais notórios de colaboração com o engodo nas matérias de primeira página em que sua super-repórter Judith Miller transmitia as alarmantes ficções do escroque iraquiano no exílio Ahmad Chalabi sobre armas de destruição em massa do Saddam. O Times depois pediu desculpas aos seus leitores mas nenhum outro grande jornal americano que ajudou a promover a guerra teve o mesmo escrúpulo. McClellan chama a atitude da maior parte da imprensa com relação a Bush, antes e depois da invasão do Iraque, de “reverencial”.

Apesar de persistir nos Estados Unidos o mito de uma imprensa dominada por “liberais”, o fato é que - de novo, com exceções - a direita não tem do que se queixar dos jornais americanos. Mesmo os não abertamente reacionários como o Wall Street Journal preferem um centrismo não muito bem equilibrado. Agora mesmo, com as eleições presidenciais se aproximando, o desequilíbrio aparece.

Não fizeram metade do barulho com as ligações do republicano McCain com religiosos malucos mas brancos, como o que disse que Deus castigou Nova Orleans pelos seus pecados com o furacão, que fizeram com a ligação de Obama com aquele pastor radical negro. “Double standards” é o termo em inglês para dois pesos e duas medidas.

Como diria o Ancelmo Góis, deve ser horrível viver num país em que a imprensa age assim.

Dois belos livros novos. Caminhos da Conquista - A Formação do Espaço Brasileiro, da Editora Terceiro Nome, sobre o que só pode ser descrito como a história da nossa geografia, com ótimo texto de Ricardo Maranhão e ilustrações primorosas de Vallandro Keating. E A Mão Devota - Santeiros Populares das Minas Gerais nos Séculos 18 e 19, do artista plástico José Alberto Nemer, publicado pela Editora Bem-Te-Vi. Fantásticos.

17/04/2008 - 08:23h Bach e Berlusconi

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VERISSIMO - O Globo

A obra de Bach é o exemplo mais alto do rigor com emoção, ou da emoção represada pela pia sobriedade germânica, que definia o barroco alemão.

Depois a música alemã transbordou para o romântico e o bombástico, mas Bach ficou como um parâmetro de gravidade, algo como a gravidade que nos mantém presos à Terra.

Voltamos sempre a Bach para nos certificarmos de que certas leis universais não mudam com os gostos musicais, e nos emocionamos sempre com a redescoberta. Mas o velho parâmetro também dava os seus pulinhos.

Gostava do barroco italiano e foi influenciado pelas suas firulas.

Transcreveu obras de Corelli e outros — inaugurando o hábito, que existe até hoje, de chamar cópia de homenagem — e algumas transcrições ficaram famosas, como a do concerto para quatro violinos do Vivaldi que ele adaptou para quatro cravos, e o concerto em ré menor para oboé e basso contínuo do Alessandro Marcello, que tem um adágio tão bonito que poderia ter sido composto pelo Bach sem intermediário.

Mas Bach não estava livre de críticas pelas suas recaídas da gravidade e teve um contemporâneo que chamou uma das suas homenagens de “um pouco italiana demais”. Não sei como é a frase em alemão, mas ela é um bom alerta em qualquer língua. Pode-se, deve-se ser italiano — tem até aquela outra frase, “sejamos todos italianos, a vida é muito curta para sermos outra coisa” —, mas dentro dos limites do razoável. A própria Itália às vezes exagera e fica italiana demais. Toda vez que elege o Berlusconi, por exemplo. Que ele é um mascalzone todo mundo sabe, mas isto parece fazer parte da sua atração para os italianos. É um empresário de sucesso numa sociedade em que, como poucas, as pessoas de sucesso são a nobreza — como era o caso do Agneli — e o seu sucesso é que faz sucesso. É o dono da TV no país, e ela vende sua imagem de dinamismo e confiança em horário integral.

Mas nada disso explica totalmente as suas vitórias. O que completa a explicação é o hábito italiano de, periodicamente, ultrapassar os limites que na música seriam entre o alegre e o frívolo e o barroco e o rococó, ou entre o que encantava o Bach e o que dava razão aos seus críticos, e na política separam o inusitado do incrível. Vez que outra, os italianos ficam incríveis.Mas é claro que Berlusconi pode cair numa semana. Neste caso, a política italiana seria rococó no bom sentido.

13/04/2008 - 06:53h Reparação

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VERISSIMO - O Globo

Há pouco, na França, discutia-se a idéia de incluir nos currículos escolares, como matéria obrigatória, os anos da ocupação nazista do país e a cumplicidade do Estado francês na perseguição aos judeus, no período.

Não sei no que deu. Não parecia uma idéia muito boa submeter a garotada aos horrores de outra época. Ainda mais uma época que, se não é mais contemporânea, ainda não foi totalmente desarmada pela distância histórica. Mas o objetivo era não esquecer, para não repetir, e passar para as novas gerações uma memória nacional inteira, sem rasuras. Embutida na idéia estava a questão do que um Estado culpado deve fazer com sua culpa. Como reconhecer o que fez com a nação e os seus cidadãos num tempo de exceção, e como reparar o que fez.

A questão da reparação foi tratada de formas diferentes quando acabou o último ciclo dos governos militares na América do Sul. No Chile, Pinochet foi ameaçado até morrer com processos, para que pagasse pelo menos judicialmente pelos anos de repressão e terror que comandou. Na Argentina, a responsabilização criminal de torturadores e seus mandantes dos tempos da ditadura se repete. No Brasil, preferiram a anistia. Nem os mais notórios criminosos do regime nem seus mais radicais opositores precisaram se preocupar em pagar à nação pelo que fizeram. Mas para não dizerem que ninguém pagou por nada, que o Estado brasileiro não reconheceu sua culpa e a memória nacional simplesmente deletou esta parte da nossa História, estão havendo reparações, sim. Em reais, para quem se sentiu prejudicado pelo Estado desvairado. Indenizações por carreiras interrompidas, vidas alteradas, saúde abalada, dinheiro perdido ou vexame sofrido.

Justiça em espécie em vez de justiça bíblica.Os critérios e as quantias das reparações são para outra discussão, mas é curioso que, em meio a toda essa furiosa indignação com o que o Jaguar e o Ziraldo vão receber, ninguém apreciou a troca pacífica que isso representa — a indenização deles e de outros pelo Estado substituindo formas de retribuição mais violentas, e menos brasileiras. Há até uma justeza poética no fato de Jaguar e Ziraldo, dois dos maiores exemplos da criatividade e da excepcionalidade brasileiras, estarem no centro dessa tempestade de opiniões.

Pois somos excepcionais e criativos até nos nossos acertos de contas com a História.

(Há quem prefira o velho olho por olho a qualquer outra forma de justiça, claro. Mas isso também é assunto para outro dia.)

21/02/2008 - 08:45h A questão

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VERISSIMO

O Globo e O Estado de São Paulo

É difícil imaginar um negro como Barack Obama sendo eleito presidente - do Brasil. Dos Estados Unidos, talvez. Lá um negro já chegou a secretário de Estado, e foi substituído no cargo por uma negra. Desculpe: afrodescendentes. Pelo menos não escrevi ‘um negão como Barak Obama’, ou, para mostrar que não sou racista, ‘um negrinho’. A diferença entre um país e outro é essa. Lá o racismo é uma questão nacional. Aqui uma ficção de integração dilui a questão racial. E se a questão não existe, se ninguém é racista, por que nos preocuparmos com denominações corretas ou incorretas? Só quando a ficção é desafiada, como no caso das cotas universitárias, é que o apartheid que não se reconhece aparece.

Um dos marcos das relações raciais nos Estados Unidos não foi a primeira vez em que um negro interpretou um herói no cinema, provavelmente o Sidney Poitier. Nem a primeira vez em que um negro e uma branca, ou vice-versa, namoraram na tela. Foi a primeira vez em que um negro foi o vilão do filme. Colin Powell e Condoleezza Rice, que chegaram a secretários de Estado, e o próprio Obama, devem suas carreiras a esse vilão histórico, que significou o fim dos estereótipos e a aceitação, sem melindres, de que negro também pode ser ruim, igual a branco. Se a cor da pele não determinava mais que ele fosse sempre retratado como um inferior virtuoso ou uma vítima, também não o descriminava de outras maneiras. Powell e Rice levaram essa reversão de estereótipos ainda mais longe. Os dois são do partido republicano. Como Clarence Thomas, único juiz negro da Suprema Corte americana que também é um dos seus membros mais conservadores.

Claro que a cor da pele vai ser um fator na eleição ou não do Obama, como o fato de ser mulher vai ajudar ou não a Hillary. Por isso mesmo, sua possível eleição seria uma prova dessa transformação da questão racial no país, uma vitória numa guerra por direitos iguais que lá - ao contrário do Brasil - nunca foi disfarçada, ou desconversada. Aqui a miscigenação significou que alguns quase-negros, ou só um pouco afrodescendentes, chegassem ao poder, mas miscigenação entre nós não tem significado integração por vias naturais, e sim apenas outra forma de despolitizar e adiar a questão.

Obama será o candidato dos democratas? Estão comparando sua campanha com a de Bob Kennedy, pelo entusiasmo que provoca numa faixa de idade que não se interessava tanto por política desde a mobilização contra a Guerra do Vietnã. Li que 40% dos americanos que podem votar este ano nunca conheceram outro presidente que não fosse um Bush ou o Clinton, e Hillary seria outro Clinton nessa dança de dinastias. Assim, Obama seria uma novidade em mais do que o sentido racial. Como se precisasse outros.

Na comparação com Bob Kennedy, claro, ninguém ainda lembrou (pelo menos não sem bater na madeira) que aquela novidade terminou numa poça de sangue, no chão de uma cozinha de hotel. Batamos todos na madeira.

16/11/2007 - 14:27h Verissimo: "Hoje, as redações parecem bancos"

Claudio Leal - Terra Magazine

Walter Craveiro/Flip/Divulgação

O escritor Luis Fernando Verissimo: “Gosto de pensar que sou um homem de esquerda”.
 
 

No I Salão Nacional do Jornalista Escritor, em São Paulo, Luis Fernando Verissimo reservou ironias para o jornalismo brasileiro. Em entrevista aberta à platéia, ontem, no Memorial da América Latina, o escritor analisou a mudança ideológica dos jornalistas.

Quando comentava seu método de trabalho e o uso do computador para escrever romances, expôs sua teoria da máquina de escrever.

- Antigamente, as redações tinham máquinas de escrever. Era um barulho infernal. Tenho até uma teoria para explicar essa mudança da esquerda para a direita nas redações. Nos últimos anos, os jornais e as revistas brasileiras deram uma guinada à direita. Mas, quando comecei no jornalismo, todos nós éramos de esquerda. A gente aceitava o fato de ser direita quando era do editor pra cima. Hoje, é o contrário. Do editor pra baixo, os jornalistas preferem ser de direita.

O autor de O analista de Bagé e Comédias da vida privada complementa a teoria:

- Isso tem muito a ver com a mudança das máquinas de escrever para os computadores. Como as redações eram barulhentas e agitadas, os jornalistas se identificavam mais com os trabalhadores das fábricas. Hoje, com os computadores, as redações parecem bancos. Limpas, aquele silêncio… Sei que é uma teoria meio forçada…

Depois de sorrir, Luis Fernando Verissimo recebeu uma pergunta da platéia. Pedia que ele se definisse entre a esquerda e a direita.

- Gosto de pensar que sou um homem de esquerda. Tenho idéias de esquerda - respondeu Veríssimo.

Adiante, minimizou a importância da crônica na formação da opinião do leitor. “Eu detesto esse termo: ‘formador de opinião’. A gente não faz a cabeça de ninguém. Quando a pessoa concorda com a crônica, é porque, na realidade, a crônica concordou com ela”. De passagem, avaliou o governo Lula:

- Tenho muitas razões para criticar, mas a verdade é que o governo de Lula desagradou a todo o mundo, à esquerda e à direita. Ninguém imaginava que, em cinco anos, os bancos estivessem tão felizes. Mas decepcionou a direita porque não foi um desastre completo. Se formos ver, há avanços nessa área de distribuição de renda. Não é o ideal, mas continuo apoiando o governo Lula.

Na palestra, Verissimo falou ainda sobre o início de sua vida profissional, no Rio Grande do Sul, e a influência de seu pai, o romancista Érico Verissimo, em sua formação. Confessou seu descompasso com as tradições gaúchas:

- Em muitos aspectos, sou um gaúcho desnaturado. Não tomo chimarrão. E a última vez que montei num cavalo, não gosto de me lembrar. O cavalo também não.

Organizado pela ABI (Associação Brasileira de Imprensa), o I Salão do Jornalista Escritor segue até domingo, 18 de novembro. Entre outros participantes, reunirá os jornalistas Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, José Hamilton Ribeiro, Moacir Scliar, Ziraldo, Ignácio de Loyola Brandão e Juca Kfouri.

25/10/2007 - 13:08h Terceirização

por Luiz Fernando Verissimo

Quem diz que nunca houve matança sistematizada de judeus, ciganos e incapazes na Alemanha tem razão: Auschwitz, Treblinka, Sobibor e os outros campos de extermínio nazistas ficavam na Polônia. A Polônia anexada pelo Reich era uma extensão do solo alemão e os campos eram construídos e geridos por alemães, mas isto é detalhe para quem pretende a inocência pelo distanciamento formal. Os americanos que hoje levam suspeitos de terrorismo para serem interrogados em países onde a tortura é comum, longe dos Estados Unidos, também pretendem a absolvição pela geografia.

Tem-se discutido muito no Congresso, na imprensa e nos tribunais americanos os limites do permitido na busca da informação antiterrorista depois do 11/9, mas os escrúpulos quanto à tortura chegam atrasados. Torturar pela mão dos outros é uma prática antiga dos Estados Unidos, mais notoriamente — no que nos diz respeito — nas atividades da “School of the Americas” onde policiais e militares latino-americanos iam aprender métodos de interrogatório e contra-insurgência para combater o comunismo no continente.

A Escola das Américas chegou a ser chamada ironicamente de anexo da Escola de Chicago, produzindo técnicos em repressão para garantir os teóricos do neoliberalismo que saíam do Departamento de Economia da universidade onde o Milton Friedman era a estrela, para nos catequizar. É bom lembrar, nestes tempos de entusiasmo das platéias pelo fascismo contra o crime e de reacionarismo ostensivo e festejado, no que deu tudo aquilo.

Coisas como a “Operação Bandeirantes”, a aliança de empresários paulistas com policiais e militares na caça, literalmente, à esquerda, que deixou mortos e mutilados por toda parte — menos, aparentemente, na consciência dos responsáveis, ou, presumivelmente, no livro de realizações dos formandos da Escola das Américas. Que continua no mesmo lugar, Fort Benning, na Geórgia, agora com o nome mais específico de Instituto de Cooperação para a Segurança do Hemisfério Ocidental. Não se sabe se o currículo ainda é o mesmo.

Do Iraque chega a notícia de outro exemplo de distanciamento remissor.

Neste caso, uma novidade — a terceirização da guerra. A ocupação do país está sendo um grande negócio não só para a Halliburton e outras empreiteiras superfaturadoras mas para empresas paramilitares, exércitos privados que substituem a tropa normal em certas tarefas e que já têm quase tanta gente no Iraque quanto o exército regular, com contratos milionários.

Há dias uma dessas empresas, a Blackwater, que pertence a um conhecido financiador das campanhas do Bush e do Cheney, se viu envolvida na morte de civis iraquianos.

A Blackwater não está sujeita nem às leis do Iraque, nem às leis dos Estados Unidos e nem aos estatutos militares americanos. Só precisou pedir desculpas.

11/10/2007 - 14:57h Esquerda e direita

VERISSIMO

O Globo

O DNA é de esquerda ou de direita? Ele fornece argumentos para todos. Prova que todos nascem com o mesmo sistema de códigos genéticos, e portanto são iguais — ponto para a esquerda —, mas que cada indivíduo tem uma senha diferente, ponto para a direita, se bem que não necessariamente para os racistas. Na velha questão biologia x cultura, o DNA dá razão a quem diz que características adquiridas não são hereditárias, nenhuma experiência cultural afeta os genes transmitidos e a Humanidade não ficará mais virtuosa — muito menos socialista — com o tempo. Mas a própria descoberta do DNA e todas as projeções do que se tornaram possíveis com a manipulação do material genético mostram como o ser humano pode, sim, interferir na sua própria evolução, e como existe nele uma determinação inata para o auto-aperfeiçoamento. Parafraseando Marx: os cientistas sempre se preocuparam em compreender o ser humano, agora devem tratar de mudá-lo. Biologia não é, afinal, destino. Ao mesmo tempo a eugenia é uma ciência com má reputação. Seu apogeu anterior foi nos experimentos nazistas durante a guerra, e o significado de “aperfeiçoamento” é uma questão aberta. Uma pessoa “melhora” tornando-se mais bem preparada, pela aparência, a capacidade física e o espírito empreendedor, para as competições da vida ou mais tolerante com a variedade humana? A indefinição ideológica dos nossos genes é apenas mais um numa longa lista de paradoxos que nos dividem.

É “de esquerda” ser a favor do aborto e contra a pena de morte, enquanto direitistas defendem o direito do feto à vida, porque é sagrada, e ao mesmo tempo o direito do Estado de tirá-la, embora não gostem que o Estado interfira em outras áreas. A direita valoriza o indivíduo acima da sociedade, que seria uma abstração, mas aceita a desigualdade social, ou o sacrifício de muitos indivíduos pelo sucesso de poucos, como natural. A esquerda muitas vezes atribui a um estado impessoal ou a um líder superpersonalizado a incongruente realização de um humanismo igualitário. Etcetera, etcetera. E, aparentemente, o DNA não vai nos dizer se estamos condenados a ser contraditórios de uma maneira ou de outra, para sempre. Era só o que nos faltava, o DNA ser do centrão.

Feliz é a mosca, que tem mais ou menos a nossa estrutura genética, mas absolutamente nenhum interesse nas suas implicações.

09/09/2007 - 13:16h Ludwig, Miles e Elizeth por Verissimo

A Sinfonia nº 3 de Ludwig van Beethoven era para se chamar Sinfonia Buonaparte, em homenagem a Napoleão, que então levava os ideais da Revolução Francesa a toda a Europa na ponta de suas baionetas republicanas. Como Goya, outro entusiasta inicial de Napoleão, Beethoven não tardou em se desiludir com o herói auto-ungido imperador e rasgou a página com sua dedicatória da 3ª Sinfonia, que reintitulou Eroica, e que passou a ser uma exaltação do espírito libertário e da grandeza humana. E ficou como exemplo máximo da sinfonia clássica e o parâmetro para
julgar tudo que foi composto antes ou depois no gênero, por ele e por outros - uma revolução não na política mas na sensibilidade européia, e na forma de fazer música.

Karajan - Beethoven Symphony No. 3 ‘Eroica’ - Part 1

Karajan - Beethoven Symphony No. 3 ‘Eroica’ - Part 2

Anos depois, Beethoven comporia sua Missa Solemnis e assim como sua sinfonia heróica dispensara um herói ideal, substituído pelo ideal do compositor, a Missa era uma obra de devoção em que Deus quase não aparecia - pelo menos não com as deferências que le dedicara Bach nas suas paixões e missa - e a deidade mais evidente era o próprio Beethoven, fazendo outra revolução dos sentidos.

Bernstein - Beethoven - Missa Solemnis (D-Dur, opus 123) Credo II

E ele não descansou aí. Seus últimos quartetos para cordas - angulosos, desconcertantes, dificílimos de tocar e, na época, de ouvir - são hoje considerados os precursores, os primeiros acordes, da música moderna. Sua complexidade só foi igualada, anos mais tarde, nos quartetos para cordas do Béla Bartók. O crítico Edward Said escolheu os últimos trabalhos de Beethoven como protótipos do “estilo tardio”, aquelas zonas de criatividade excêntrica e isolamento pessoal (no caso de Beethoven, agravado pela surdez) a que certos artistas ascendem, quase sempre deixando público perplexo e críticos incompreensivos para trás. E que só são redimidas quando o artista não está mais aí para ouvir as desculpas, já que todo estilo tardio é prelúdio de morte. Beethoven também foi o protótipo do artista que não se contenta em ser pioneiro uma vez só.

Como o Miles Davis. Que não chegou a ser um dos que revolucionaram o jazz no fim dos anos 40 e começo dos 50, com o “be-bop”, embora tenha participado de algumas gravações com Charlie Parker e outros pioneiros do novo estilo, mas liderou a revolução seguinte. Reuniu um grupo de músicos jovens como Lee Konitz, Gerry Mulligan e John Lewis num noneto com tuba e trompas para tocar os arranjos de Mulligan e, principalmente , de Gil Evans, baseados no trabalho inovador deste para a banda de Claude Thornhill. Nascia o jazz “cool”, em que as experiências com tonalidades e variações cromáticas coletivas valiam tanto quanto os solos, e era uma projeção da maneira de tocar do próprio Miles, com seu trompete sem vibrato e sua distribuição reflexiva de espaços numa frase. O “cool” foi a base do que se convencionou chamar de jazz da Costa Oeste, predominantemente branco, mas Miles ficou em Nova York e liderou a antítese do que ele mesmo tinha criado, o “hard bop”, ou um bop ainda mais quente do que o original. Depois de gravar alguns discos históricos (Miles Ahead, Sketches of Spain, Porgy n’Bess) com uma grande orquestra e arranjos luxuriantes de Evans, que lhe valeram tanta popularidade e dinheiro que ele poderia muito bem ter se acomodado por aí, Miles fez outra revolução. Entrou num estúdio com um grupo bem selecionado e apenas alguns esboços tonais sobre os quais improvisar e fez um dos discos definitivos da história do jazz, Kind of Blue - diferente de tudo que tinha feito antes.

Kind of Blue: Made in Heaven - Miles Davis

Kind of Blue: So What by Miles Davis

O estilo tardio de Miles foi a sua fusão do jazz com o rock. Confesso que fui um dos que ficaram para trás quando ele começou a usar tranças e sandálias e a tocar com a garotada. Mas acho que Beethoven o entenderia.

Onde entra a Elizeth Cardoso nesse trio? Ela também foi multipioneira, ou pelo menos pioneira duas vezes. Era uma cantora popular clássica, com grande prestígio, mas não se poderia descrevê-la como inovadora.

Elizeth Cardoso 1952 “Ingratidão”

A chamavam de “Divina”. Tinha um estilo mais antigo do que o de cantoras “cool” que começavam a surgir na época, como a Maysa. Mas foi dela a voz que, junto com o piano, a regência e os arranjos de Antonio Carlos Jobim, as composições de Tom e Vinicius de Moraes e a batida diferente do violão de João Gilberto no LP Canção do Amor Demais, de 1958, inaugurou a bossa nova.

E, como o Miles Davis, depois de participar de uma revolução, ela liderou a contra-revolução. Em 1965 o disco Elizeth Sobe o Morro trouxe um reconhecimento inédito a compositores do samba tradicional como Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Nelson Sargento, além de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho. Elizeth só difere de Ludwig e de Miles porque não teve um estilo tardio. Foi a mesma, divina, até a última nota.

O Estado de São Paulo(para assinantes)

30/08/2007 - 11:44h Fora povo!

por Verissimo

Pesquisa recente concluiu que a elite brasileira é mais moderna, ética, tolerante e inteligente do que o resto da população. Nossa elite, tão atacada através dos tempos, pode se sentir desagravada com o resultado do estudo, embora este tenha sido até modesto nas suas conclusões. Faltou dizer que além das suas outras virtudes a elite brasileira é mais bem vestida do que as classes inferiores, tem melhor gosto e melhor educação, é melhor companhia em acontecimentos sociais é incomparavelmente mais saudável. E que dentes!

A pesquisa reforça uma tese que tenho há anos segundo a qual o Brasil, para dar certo, precisa trocar de povo. Esse que está aí é de péssima qualidade. Não sei qual seria a solução. Talvez alguma forma de terceirização, substituindo-se o que existe por algo mais escandinavo. As campanhas assistencialistas que tentam melhorar a qualidade do povo atual só a pioram, pois se por um lado não ajudam muito, pelo outro o encorajam a continuar existindo. E pior, se multiplicando. Do que adianta botar comida no prato do povo e não ensinar a correta colocação dos talheres, ou a escolha de tópicos interessantes para comentar durante a refeição? Tente levar o povo a um restaurante da moda e prepare-se para um vexame. O povo brasileiro só envergonha a sua elite.

Se não tivéssemos um povo tão inferior, nossos índices sociais e de desenvolvimento seriam outros. Estaríamos no Primeiro Mundo em vez de empatados com Botswana. São, sabidamente, as estatísticas de subemprego, sub-habitação e outros maus hábitos do povo que nos fazem passar vergonha.

Que contraste com a elite. Jamais se verá alguém da elite brigando e fazendo um papelão numa fila do SUS como o povo, por exemplo. Mas o que fazer? Elegância e discrição não se ensina. Classe você tem ou não tem. Mas o contraste é chocante, mesmo assim. Esse povo, decididamente, não serve.

Se ao menos as bolsas-família fossem Vuitton…

O Estado de São Paulo e O Globo

19/07/2007 - 13:11h Cumplicidade

Luis Fernando Veríssimo

O Globo ontem, O Estado de São Paulo hoje

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a “guerra de mentira” que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo.

A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim, muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia, mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo.

Mas, por algum tempo, os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo — inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se sem fazer perguntas ao seu ideal, que, em muitos casos, nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade.

Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se estes dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula, é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros.

Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.