07/04/2009 - 19:00h Rotina
Ele me lambeu, como lambia todos os dias. Ele me chupou, como chupava todos os dias. Ele me comeu, como comia todos os dias.
E depois morreu. Do mesmo jeito que vinha me fazendo morrer:
Todos os dias.
Fonte Escritoras Suicidas
27/02/2009 - 20:05h Lépida e leve
Gilka Machado
Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
O verso não descreve…
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em seu labor,
gostos de afagos de sabor.
És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesmo acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.
Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!…
És o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.
Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!
— Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
— Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação,
és o elástico da alma… Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca…
— Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!…
Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me veste quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha…
Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda…
Força inféria e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?…
Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!…
Gilka da Costa de Melo Machado nasceu no Rio de Janeiro (RJ) no dia 12 de março de 1893. Casou-se com o poeta Rodolfo de Melo Machado em 1910. Teve dois filhos: Helio e Eros. O marido, Rodolfo, faleceu em 1923. Seu primeiro livro de poesia, “Cristais Partidos”, foi publicado em 1915. Em 1916 foi publicada sua conferência “A Revelação dos Perfumes”, no Rio de Janeiro. Em 1917 publicou “Estados de Alma” e, em seguida, no ano de 1918, “Poesias, 1915/1917”, “Mulher Nua”, em 1922, “O Grande Amor”, “Meu Glorioso Pecado”, em 1928, e “Carne e Alma”, em 1931. Em 1932, foi publicada em Cochabamba, Bolívia, a antologia “Sonetos y Poemas de Gilka Machado”, com prefácio Antonio Capdeville. No ano seguinte, a escritora foi eleita “a maior poetisa do Brasil”, por concurso da revista “O Malho”, do Rio de Janeiro. “Sublimação” foi publicada em 1938, “Meu Rosto” em 1947, “Velha Poesia” em 1968 e suas “Poesias Completas” editadas em 1978. Em 1979, foi agraciada com o prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro prestou homenagem à mulher brasileira na pessoa da poeta. Escreveu versos, sendo simbolista, considerados escandalosos no começo do século XX, por seu marcante erotismo. Faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 11 de dezembro de 1980.
Publicado em “Poesias Completas”, Léo Christiano Editorial Ltda. – Rio de Janeiro, 1992, foi selecionada por Ítalo Moriconi e faz parte do livro “Os cem melhores poemas brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2001, pág. 75.
Fonte Releituras
24/02/2009 - 19:06h Ferida
Augusto de Campos
fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
o ir
vai
o rir
rói
o amor
mói
o céu
cai
a dor
dói
22/01/2009 - 18:53h Ricardo Palma

QUÉ É POESIA
Poema de Ricardo Palma
Tradução de Solon Borges dos Reis
— É arte do demônio ou bruxaria
isso de escrever versos? — lhe dizia
não sei se a Victor Hugo ou a Campoamor,
um rapazote de nenhum valor.
—Ensina-me a fazer, ao menos, mestre,
obra qualquer, mesmo que não me adestre.
— É preciso estar fora do juízo
para que um homem aspire a ser poeta,
mas, a receita, enfim, não é secreta:
faze as linhas com métrica e iguais,
e se em fila depois as aproximas,
no final dessas linhas ponhas rimas…
— E no meio? E no meio? Esse é o intento!
— É preciso por talento…
SINFONIA COM TODA A ORQUESTRA
Poema de Ricardo Palma
Versão de Antonio Miranda
De tanto e quanto carcomido in-fólio
pude tornar monopólio
(tarefa de verdugo, presumo)
já suguei o sumo.
Vice-reis, frades, damas, senhores
e ricos e cobradores
mostraram, como em um caleidoscópio,
traje e semblante próprio.
Eles e eu conversamos sem lisonjas
nem escrúpulos de monjas
e ficou toda alma e existência,
para mim em transparência.
Os vivos de antes eram melhores
que os de hoje? “Não, senhores”.
O homem é sempre igual: muda de aparência
mas nunca em sua própria essência.
Muito escrever poderia do presente;
meter-me em litígios extemporâneos
com nossos coetâneos.
Há gente suscetível; e bem presume
que não há de ser perfume
o que poderei queimar dos pretéritos
ao relatar os méritos.
Muito em meu século julguei bom e mau
mas não um varapau
a levar me resigno. Seja tal empreitada
em outro século consumada.
“Tradicionalista” haverá que luzindo saque
bastante badulaque
que hoje brilha no político proscênio,
sem virtude e sem gênio.
*
Quantos que agora buscam página na história
com as sobras da glória
serão apenas coadjuvantes de zarzuela,
figurantes de novela!
De anotações guardo calhamaços
para as atenções de meus netos
se se dignam, melhor que iguarias,
a fuçar as velharias.
O que é presente logo será passado,
e já não haverá minguado
que eleve o coque e faça chororó
por uma tataravô.
Ao tratar o século em que estamos
é vide de ágrios de ágrios ramos,
!que lástima!, são puras simulações
para mil tradições.
Até tentei, confesso, e com afinco;
e escrevi quatro ou cinco,
e então me disseram: “Cavalheiro,
não toque esse pandeiro!”
Esse de quem se ocupa foi meu tio;
senhor meu, de que me fio;
e se prossegue, senhor, com um trabuco,
por Deus!, que o desnuco”.
Sem provar nada se mete no saco
que Fulano foi um velhaco
ou um santo, ainda que de Pajares
ou com nicho em altares.
Contanto não nos arme emboscada,
que é um asno de albarda
quem pela história e a verdade se imola…,
deixe correr a bola!
Não se exponha a que digam: “Este Palma
bílis traz na alma,
e derrama veneno de mão cheia
sobre a reputação alheia.”
Siga pois sendo um bom pater-familias
e jejue nas vigílias
se preferir, e não se afane dando guerra
aos que descuidam terra.
Bom será, amigo, que perceba a tempo
que se expõe a um contratempo
e pondo a pluma em recesso, penso
que provará seu bom senso.
*
Certo! Tornando-me odioso nada tiro;
pois ao culto de Baco me refiro
disse que dava um prócer da história,
e um me vi como uma escória.
E o que disse já tão verdade era
como que há, na esfera
celeste, estrelas e astros infinito
e cometas crinitos.
Deixemos, pois, passar a outras idades
mentiras como verdades;
e por andar retificando enganos
não tenhamos desenganos.
Quando apresso o tempo que nos move
ao século dezenove,
passarão cem Pigmeus e ignorantes
por sábios e gigantes.
Pois a verdade se torna um revérbero,
e nem tantos cantou Homero
heróis, nem sábios consignaram outros
como teremos estoutros.
Mentiras aceitamos aos milhões
em nome e em ações…
Oh! século dezenove de alta glória,
assim verterá tua história!
Comungar —século vinte!—, é teu empenho
como roda de um engenho;
deglutirás, oh! século insensato
em vez de lebre… gato.
*
Guardaremos, pois, a pluma. A série esta
(de minhas leituras a sexta)
a última caso em que minha pluma
tinta e papel consuma.
Fazer, em me propus, populares
fatos nada vulgares,
e exumando esqueletos de defuntos,
na empreitada achei assuntos
para tirar do historial ossário,
ora um tipo estrafalário,
ora uma dama gentil, ora um homem digno,
ou um qüidam maligno.
Quantas, da boca de loquazes rábulas
pude escutar fábulas,
e quantos em papéis já amarelos
eram boatos singelos,
tantos foram soberbos argumentos
para alinhavar meus testamentos;
e, por fim, conforme meu nume receia
já se esgotou a veia.
Acharei novo filão? Deus ‘que sabe.
Por hoje fecho com chave
O baú de crônicas cheinho
e… basta!… saio devagarinho.
Miraflores, dezembro de 1880
Extraído de TRADICIONES PERUANAS. Lima: La República División Cultural/ Universidad Ricardo Palma, s.d. Tomo VI, p. 95-98

Ricardo Palma, tela de Teodoro Núñez Ureta
09/01/2009 - 12:46h Gotas
Mais ou menos grana?
A nomeação de Rodrigo Garcia é noticiada de maneira diferente na Folha e no Estadão. Veja os dois artigos reproduzidos aqui no blog (Kassab reforça sua turma; Ex-sócio de prefeito é “promovido” de secretaria). No Estado SP, Rodrigo Garcia tem pasta reforçada mas perde verba; na Folha SP ele sai de uma pasta sem orçamento para mais dinheiro e poder na máquina. A Folha informa que Rodrigo Garcia foi sócio de Gilberto Kassab, omitido pelo Estadão. Já este último informa sobre o cargo atribuído ao tesoureiro da campanha de Kassab, Flávio Chuery, que coordenará a pasta de Garcia.
A importância desta promoção, completada com a de Miguel Bucalem na nova Secretaria de Desenvolvimento Urbano, aparecerá sem dúvida nos grandes assuntos empresariais da cidade: revisão do Plano Diretor, Habite-se, alvarás, mobília urbana que reintroduzira a publicidade nas ruas da cidade etc.
Sexismo
Estão de parabéns a Embratur e o Ministério de Turismo (foto Luiz Barretos, ministro da pasta) em requerer da justiça a retirada de um folheto sexista que procura promover o turismo no Rio de Janeiro apelando parte das brasileiras como “máquina de sexo bunduda”.
A publicação “Rio For Partiers” (Rio para festeiros) trata as mulheres como objetos sexuais e as divide em categorias segundo a dificuldade ou facilidades em leva-las para a cama. Segundo a Embratur, o guia “viola a dignidade humana e expõe o povo brasileiro a situação vexatória”. A publicação, vendida pela internet, é editada em inglês pela Solcat Publishing Editora e está em sua 7ª edição.
Folha médio orientada
A Folha aproveitou os equívocos da nota assinada por Ricardo Berzoini e Valter Pomar, acusando os israelenses de “prática típica do Exército nazista”, para procurar no governo de Israel alguém que desqualifique a disposição do governo brasileiro em contribuir para a mediação do conflito.
Depois de pedir a opinião do Ministro de Assuntos Sociais de Israel, procurado pela Folha na cidade israelense de Ashkelon, sobre a nota do PT (que o entrevistado aparentemente desconhecia até encontrar o repórter da Folha), o jornalista pede para o ministro considerar se seria “relevante” a oferta de mediação do governo do Brasil. Como o ministro considera positiva a iniciativa brasileira, o jornalista volta à carga para saber se a nota do PT não descredencia o Brasil como mediador.
Apesar dos seus esforços, a Folha não consegue transformar a nota dos dois dirigentes petistas em atrito diplomático entre o governo brasileiro e o governo de Israel. Ainda bem.
O desatino da comparação feita pelos petistas não é um monopólio, como bem mostra Marcos Guterman no artigo A Hitler o que é de Hitler. Uri Avneri, o conhecido pacifista israelense, fez comparação semelhante (na foto) durante passeata em Tel-Aviv dizendo que os pilotos israelenses agem como os pilotos nazistas (Israelenses e palestinos manifestam pela paz). Minha concordância com Marcos Guterman não me impede considerar a tentativa da Folha um desserviço à informação e uma tentativa torpe de tentar fabricar incidentes.
Drummond
A língua girava no céu da boca
A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único. O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-se nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu. Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós. A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.
Carlos Drummond de Andrade
Amor — pois que é palavra essencial
Amor — pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.
E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
Carlos Drummond de Andrade
Fotos Jean-Loup Sieff
Fonte portal Germina
Gotas, por Luis Favre
29/12/2008 - 19:25h A poesia de Bárbara Lia
Renée Magritte

PROFANA
A cor do amor é branca,
e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto
e o amor me olha como alguém
que jamais vai tirar a minha calcinha
e gozar o céu dentro de mim.
O amor sempre vai me olhar
como se eu estivesse num altar de papel.
Para o amor, eu sou uma rima
e rima não tem vagina.
Para o amor, eu sou uma ode
com uma ode ninguém fode.
Eu sou um verso alexandrino
jamais tocado pelo herdeiro deste nome.
Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus
Deus ninguém come, mas
será que beber
pode?
Fico equilibrando a vida, como seus dedos ontem — Equilibrando-se, brancos nas cordas, na mais bela dança. Foram eles que me puxaram para perto naquela noite no palco do Hermes. Foi brancura de luz que é só beleza. Eu sei que muito tempo vai passar, sem que eu veja algo mais belo que suas mãos e sem que eu deseje ser outra pessoa, que não ela, que te tirou o cabaço, baby… Pois soa no final com uma certeza lúdica, que você a amou.
Não só o corpo entende? Como se eu quisesse um fiapo da eternidade que ela teve. Que ela queria apenas como aconchego, e que eu quero como amor…
Estas luzes que são teus dedos, como um manto de mariposas, que eu fosse um mundo inteiro para elas valsarem quando você pousasse no corpo antigo, judiado, esquecido e triste, que te alisa em um travesseiro branco, teus dedos brancos, a primavera inteira.
BEIJA SUAVE A MINHA NUCA
…”demorei a entender que és mulher
e carregas outonos na nuca”
Luiz Felipe Leprevost, em Ode Mundana
Uma pinta de beleza
brotou sob o seio esquerdo,
para o menino
devorador de sinais de beleza.
Rito de oferta,
olhando este corpo mascavo com digitais
impressas,
buscando um poro virgem para plantar
a pétala,
e te oferecer depois
— rosa a ser desvirginada —
Um dia, li os versos epifânicos,
do amigo solar — profeta
sem saber —
que há em mim apenas outonos
para esfriar verões de acordes…
e o amigo do amigo solar
nem sabe,
do mantra que eu repeti meses a fio,
a caminhar por ruas e corredores e
antes de adormecer, recitando suave
como prece:
beija suave a minha nuca!
beija suave a minha nuca!
beija suave a minha nuca!…
de outonos adornada… e a pinta recém-nata,
gota de meu coração que vazou sobre a pele,
ou um prêmio extra que trouxe destas noites
em que adentro oceanos estranhos
e te procuro entre as estrelas naufragadas.
24/11/2008 - 18:23h Reparação poética
Blog do Além – Carta Capital
A coluna Blogs do Além, criada pelo publicitário Vitor Knijnik e que estreou na edição 500 de CartaCapital, procura imaginar como seriam as páginas pessoais de personalidades do passado.
Chega a vez de um dos mais importantes poetas portugueses inaugurar seu diário virtual. Bem-humorado, Fernando Pessoa se apresenta: “uma espécie de Cristiano Ronaldo da poesia portuguesa, só que sem essa coisa de metrossexual, porque de frescura já basta a poesia”.
No seu primeiro post, intitulado “Reparação Poética”, Pessoa afirma não haver mais espaço para a poesia neste mundo. “Não enquanto existirem advogados e o politicamente correto. Depois de longas batalhas judiciais, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma associação de poetas que me acusou de difamar os que têm por ofício fazer versos”.

Reparação poética
Não há mais lugar para a poesia neste mundo. Não enquanto existirem advogados e o politicamente correto. Depois de longas batalhas judiciais, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa a uma associação de poetas que me acusou de difamar os que têm por ofício fazer versos.
Vocês devem se lembrar do poema que serviu para a acusação:
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Esse episódio vem me causando muito desassossego. Realmente, é desafiador fazer poemas dentro desses novos requisitos sociais. Mas não me resta outra escolha. Até porque a sentença me obrigou a reescrever o primeiro verso, que causou tanta celeuma.
Alguns poetas, no intuito de transmitir certos sentimentos, podem, de certa maneira, simular algum desconforto ou dor que eles realmente não estão sentindo. Às vezes nem é por mal. É inconscientemente, mesmo. Só que essa simulação – repito que isso pode acontecer com alguns poetas, e não com a maioria – pode ser tão perfeita, mas tão perfeita, que esse desconforto ou dor passam a ser sentidos de verdade verdadeira por quem fabricou aqueles sentimentos não fabricáveis. Essa dor, inclusive, se persistir, deve ser examinada por um médico especializado. Pois bem: aquilo que tinha começado como uma dor de mentirinha e que depois virou uma dor de verdade, no fundo dos fundilhos era uma dor que já existia como dor, sendo que em nenhum momento o tal poeta dolorido sequer pensou em provocar dor em mais alguém a não ser nele mesmo. Coitado.
Reconheço que perdeu um pouco da graça, mas ficou mais popular, pode até ser adaptado para uma mini-série da Record.
07/09/2008 - 16:17h Paul Verlaine

(1844-1896)
A Charles Morice
Antes de qualquer coisa, música
e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambigüidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trêmulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta jóia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo…
E tudo o mais é só literatura.
Canção do Outono
Os soluços graves
dos violinos suaves
do outono
ferem a minh’alma
num langor de calma
e sono.
Sufocado em ânsia,
Ai! quando à distância
soa a hora,
meu peito magoado
relembra o passado
e chora.
Daqui, dali,
pelo vento em atropelo
seguido,
vou de porta em porta
como a folha morta,
batido…
Tradução de
Alphonsus de Guimaraens
CHANSON D’AUTOMNE
Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.
Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

