02/02/2009 - 11:10h A conferir

A moratória do lero-lero

Talvez os jornalistas e os consumidores de informação devêssemos fazer um pacto. Todos nos recusaríamos a gastar tempo, intelecto e energia com o que tucanos e petistas dizem uns dos outros

Por Alon Feuerwerker

alonfeuerwerker.df@diariosassociados.com.br

O Senado e a Câmara dos Deputados escolhem hoje os seus presidentes, e a esta altura o mais prudente é esperar o resultado aparecer em cada um dos dois painéis eletrônicos. Já existe porém um vitorioso no terreno moral — o que em política não é pouco. Isto de “campeão moral” ficou meio estigmatizado desde a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1978, na Argentina. Na política, de todo modo, pessoas ou partidos capazes de ostentar o trunfo moral obtêm uma vantagem competitiva e tanto.

O campeão moral desta eleição é o Partido dos Trabalhadores. O PT arrebatou o troféu com a participação decisiva do seu suposto arquiadversário, o PSDB. E graças ao competente trabalho de articulação política do senador Tião Viana (PT-AC). Partamos da premissa de que é sincera a versão tucana sobre o apoio ao petista no Senado. A adesão se explicaria não por apetites fisiológicos desatendidos, mas pela necessidade imperiosa e inadiável de “limpar” a Casa. Assim, em resumo, o PSDB acha que a questão central da hora é “varrer a sujeira” do Salão Azul e que o mais apto para a tarefa é um candidato indicado pelo Partido dos Trabalhadores.

É uma mudança e tanto para quem até outro dia catalogava o PT no índex dos “quadrilheiros”, “mensaleiros”, entre outras qualificações pouco amigas. O que mudou? É possível que nem o PSDB acreditasse no que dizia do PT nos tempos duros, em que os tucanos afirmavam ver nos petistas a personificação do mal. Ou pode ser que, para os tucanos, o PT de hoje seja essencialmente diferente da sigla abalada anos atrás no escândalo desencadeado pelas acusações de Roberto Jefferson. Teria havido, portanto, uma “refundação”. Se aconteceu a tal “refundação”, o jornalismo comeu mosca, pois ninguém noticiou o fato relevante.

Há também a explicação mais confortável. De que Tião Viana é do PT, mas não é “do PT”. Um estranho no ninho. Um ponto fora da curva. É uma explicação fraquinha. A análise política é como o futebol. O sucesso na maior parte das vezes está em não fazer firula, em buscar o mais simples. O PSDB, na sua autonomeada e recém-proclamada missão de realizar uma “faxina ética” no Senado, escolheu um senador do PT para comandar os exércitos na guerra. E não se trata de um dissidente. É alguém indicado pelo PT, um quadro orgânico do partido. Ainda que o PSDB tenha desejado homenagear o indivíduo, não há como a homenagem não se estender à agremiação. Parabéns ao PT.

Os acadêmicos deveriam estudar a sério o fascínio que o PT exerce sobre o PSDB. Já há massa crítica para a análise de cientistas políticos. Ou de psicólogos políticos. O apoio a Tião não é inédito. Dois anos atrás, vieram da bancada tucana os votos que deram a Presidência da Câmara dos Deputados ao PT. Talvez o tucanato veja o petismo como o que ele próprio desejaria ser, mas não consegue: uma social-democracia com base popular. Talvez o PSDB tenha se proposto como meta “catequizar” o PT, expurgá-lo de seus supostos excessos jacobinos. Ou bolcheviques. Sei lá. Gente estranha.

Enquanto os especialistas tentam decifrar a alma tucana, eu vou aproveitar melhor o meu tempo, seguir o meu próprio conselho e fazer o simples. O arroz com feijão. Não vou fugir da raia, vou dizer ao leitor o que acho mais adequado. Pronto. Talvez os jornalistas e os consumidores de informação devêssemos fazer um pacto. Todos nos recusaríamos a gastar tempo, intelecto e energia com o que tucanos e petistas dizem uns dos outros. Desconsiderar esse aspecto da realidade. Olhar apenas os fatos. Desprezar as declarações.

É isto: está na hora de uma moratória jornalística do lero-lero tucano-petista. Para não ser radical, e não sonegar notícias ao consumidor, talvez fosse o caso de criar uma seção específica nos diários. Algo como “o que eles falaram ontem uns dos outros mas que não tem nenhuma importância”. Seriam notinhas curtas, sem encheção de linguiça. Aí, petistas e tucanos trocariam recados, mas poupando o preciosíssimo tempo do cidadão. A imprensa não está permanentemente em busca de novas maneiras de ser útil ao público? Eis uma.

27/01/2009 - 16:30h Gotas premonitórias

No dia 7 de novembro de 2008 escrevi na coluna Gotas, aqui no blog

A união é um combate

sarney_caricatura.jpgComo Lula não teve, como Obama, uma maioria no Congresso para seu partido e teve que assegurar a governabilidade costurando uma ampla aliança com forças diversas, não adianta invocar princípios ou equilíbrio quando as escolhas não deixam maiores alternativas. No PMDB existem lideranças provadas no apoio ao presidente que podem assumir responsabilidades nas mais diversas esferas do poder público, sem implicar em desprezo para os demais partidos, incluso o partido do presidente.

Mas quando se invoca o crescimento eleitoral verificado nas eleições municipais, convém não esquecer que o PT foi o partido que obteve maior número de votos, assim como em crescimento de prefeituras conquistadas.

Dia 12 de dezembro de 2008 escrevi na coluna Gotas, aqui no blog a nota a seguir

Do mal

http://www.midiaindependente.org/icon/2008/06/421576.jpgNão é curiosa a situação do governador Serra?

Conhecido pela sua mão de ferro no controle da bancada tucana na Câmara Municipal e na Assembléia legislativa de São Paulo, José Serra nunca consegue arrancar da bancada federal do PSDB os apoios que publicamente proclama em favor do PT ou do governo Lula.

Quando se trata de seu próprio interesse , o governador sabe chegar ao coração da bancada federal do seu partido. Já quando se trata de arrumar apoios que servem para fazer passar uma imagem conciliatória na opinião pública e no PT, a bancada tucana fica irredutível.

Serra é o favorito para 2010, a Folha o proclama regularmente. Elegeu Kassab contra Alckmin, repite o jornal. Mata no ovo qualquer tentativa de CPI que aparecer contra ele. Mas não conseguiu que a bancada o acompanhe na prorrogação da CPMF e agora parece que não vai conseguir que os senadores do PSDB votem em favor do petista Tião Viana.

Para alguns isto é a demonstração da fraqueza do governador fora do Estado de São Paulo. Para outros, a utilização inescrupulosa da dupla linguagem. De público promete e fica bem na foto, por baixo incentiva o contrário. Vende a imagem do bem e dissimula o mal.

Tião Viana poderá sofrer o destino de César no Senado (metaforicamente falando) e poderá sempre exclamar: “Até tu, Serra”.

Hoje, o Blog de Josias transmite a seguinte informação:

Serra decide não intervir por Tião Viana no Senado

  Dalcío
Rifado pelo Palácio do Planalto, Tião Viana, o candidato do PT à presidência do Senado, ficou nas mãos do PSDB.

 

A cúpula do PT avalia que, sem os 13 votos da bancada de senadores tucanos, Tião deve ser batido pelo rival José Sarney (PMDB-AP).

 

Nos últimos dias, o petismo passou a assediar o governador José Serra (São Paulo), presidenciável do PSDB mais bem-posto nas pesquisas.

 

O PT esperava que Serra, velho desafeto de Sarney, se animasse a arregaçar as mangas por Tião.

 

Em dois diálogos telefônicos com o próprio Tião Viana, Serra mostrou-se simpático à candidatura dele. Mas ficou nisso.

 

Há uma semana da queda-de-braço do Senado, Serra não pediu voto a nenhum dos 13 senadores do PSDB.

 

Mais: o governador tucano de São Paulo recomendou expressamente a pelo menos um dos mandachuvas da bancada tucana no Senado: “Tira meu nome dessa história”.

 

Um pedido que deixa os senadores do PSDB à vontade para optar por Sarney. 

 

Para complicar, o governador mineiro Aécio Neves, outro presidenciável do PSDB, também não se animou a comprar briga com Sarney.

 

Procurou-o o ex-governaor petista do Acre, Jorge Viana, irmão de Tião. Mas Aécio, como Serra, preferiu manter distância da arenga do Senado.

 

Há na bancada do PSDB pelo menos cinco senadores simpáticos a Tião. O mais poderoso é Tasso Jereissati (CE).

 

Mas, diante da indiferença de Serra e Aécio e da vontade da maioria, nem Tasso nem os demais parecem dispostos a quebrar lanças pelo candidato petista.

 

A essa altura, as divisões do tucanato estão restritas à partilha dos cargos.

 

O líder tucano Arthur Virgílio (AM) levou a Sarney um nome para a primeira vice-presidência da Casa: Marconi Perillo (PSDB-GO).

 

Em diálogos privados, Álvaro Dias (PSDB-PR) abespinhou-se. Achava que o partido deveria ter dado preferência ao nome dele, não ao de Perillo.

 

Álvaro Dias é, hoje, o segundo vice-presidente do Senado. Um cargo que assumiu há dois anos, meio a contragosto.

 

Almejava a primeira vice. Mas, na ocasião, o PSDB metera-se numa composição partidária e optara por ceder a primeira vice a Tião Viana.

 

Agora, Álvaro achava que deveria ser compensado. Entre quatro paredes, vai chiar. Mas deve mesmo ser preterido por Marconi.

 

Se fechar com o PSDB, como tudo faz crer, Sarney estará virtualmente eleito. Além dos votos tucanos, irá ao plenário com o apoio do seu PMDB e do DEM.

 

Como o voto é secreto, Tião ainda rumina a expectativa de obter os votos de cinco senadores do PMDB.

 

Renan Calheiros (PMDB-AL), o centro-avante da candidatura Sarney, desdenha da aposta. Move-se para restringir a perpectiva de defecção a um mísero nome: Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE).

12/12/2008 - 17:32h Um Calígula como manda o figurino

Análise da montagem de Gabriel Villela, em cartaz no Sesc Pinheiros, a partir das roupas que ele vestiu nos seus personagens

http://www.saopaulo24horas.com/images/stories/caligula_a.jpg

Fausto Viana e Rosane Muniz – O Estado SP

Para revelar que “tudo ao nosso redor é um embuste”, Gabriel Villela, diretor e figurinista de Calígula, opta pela linguagem direta e “limpa” de um Brecht e coloca o elenco romano com figurinos contemporâneos, representando tudo o que de mais terreno, material e palpável existe para mostrar a estupidez humana, a infelicidade e a morte como solução. Tudo se apresenta de forma clara e óbvia. Há uma proposital falta de sutileza nas metáforas visuais apresentadas. Aparente contemporaneidade e limpeza visual.

Em entrevista, Villela comenta que o protagonista do espetáculo só poderia ser Thiago Lacerda porque “no Brasil não há outro ator com físico e juventude para fazer um minotauro em cena”. Ser híbrido, misto de homem e touro, resultado da paixão provocada por um deus grego e uma mulher, que copulou com um touro branco que deveria ter sido sacrificado. O minotauro, em uma leitura um pouco direta demais, é a imposição da animalidade sobre o humano. E, assim, começamos a entender o figurino de Villela.

O próprio Brecht escolhia para seus espetáculos materiais “vivos”, de origem natural. E o couro é o que de mais animal se pode encontrar em termos de “tecido” maleável. É o que de mais primitivo o ser humano já vestiu, fruto da sua necessidade de proteção e da disponibilidade do material, obtido a partir de suas caças, quando o curtume ainda não existia. Este couro, que devia cheirar muito mal, era um misto de carne estragada com suor, e servia para proteger o homem das intempéries. Mas há um contraponto muito curioso: o espetáculo traz outro elemento, que é muito “terreno”.

É a pintura corporal, que surge muitas vezes de maneira lúdica, pelas mãos dos próprios atores em cena, mas que no manuseio de Villela, criador da direção simultaneamente ao visual, não entra impunemente. Em primeiro lugar, quem conhece o trabalho do diretor mineiro pensará: onde está a brasilidade do figurino de Romeu e Julieta? Ou de A Rua da Amargura, só para pensar nos trabalhos com o Grupo Galpão? Pois a característica brasileira está, curiosamente, nos grafismos. Proposta que remete ao grupo Timbalada que – também com poucos recursos iniciais – se apresenta com pinturas corporais, facilmente identificáveis com as dos guerreiros africanos.

Nada reuniria melhor esses elementos do que o espetáculo teatral, um acontecimento ritual por excelência. Não se deve esquecer que o teatro ocidental tem sua origem nos sacrifícios em honra a Dionísio, em que o que se oferecia era nada menos do que um bode, que seria degolado no altar principal. A própria máscara teatral tem sua origem, segundo indicam alguns especialistas, na pintura facial feita com a borra do vinho sedimentada no fundo dos jarros de vinho.

No caso de Villela, trata-se apenas de juntar esses dados todos e o que se verá é um figurino criado para representar a auto-imolação de Calígula em cena. O próprio autor escreve que “Calígula é a história de um suicídio superior. É uma história sobre a forma mais humana e mais trágica de errar”.

Elementos ainda mais contemporâneos e carregados de símbolos são colocados em cena para execrar os tiranos do século 21, assim como Camus o fez com os tiranos do século anterior. A bolsa Nike do intendente do Tesouro poderia ser um detalhe, mas torna-se parte da narrativa pelo modo como é inserida em cena. É nela – que toma várias vezes a boca de cena – que está o tesouro público. Quase didaticamente, o chefe das “verdinhas” usa o rosto pintado de verde e fala com sotaque inglês no epílogo do espetáculo.

Mas o que está verdadeiramente por trás talvez seja o slogan da marca: “Just do it.” Que, lido de forma inocente, pode realmente significar superação pessoal, desafio atlético (que está lá representado na figura de Thiago Lacerda, ele próprio ex-atleta). Mas, lido dentro do sistema, significa: faça o que bem entender; aja como quiser, independentemente do resto. Justamente a opção de Calígula quando decide exercer, até o impossível, a liberdade. O que não está claramente implícito é que depois de um “just do it”, há um “pay for it”. É quando ele descobre que tamanha liberdade não é tão boa assim.

Villela veste a “sociedade” com véus, sedas, peles… A mulher do touro branco, simbolizada na pintura do corpo feminino em transparente voil, que serve de mesa a Calígula, no incrível banquete – pretexto para roubar as mulheres dos patrícios – depois de “violentada” em cena, é levada aos aposentos para retornar estilhaçada e ensangüentada na representação clara do véu rasgado e sujo de sangue.

“Para ser um imperador, basta um toque de mágica!” E eis que surge Calígula com uma blusa negra – delicada e feita à mão pelo próprio diretor/figurinista. O público não vê, mas a textura da blusa é criada a partir de moedas embrulhadas em um crepe leve. Seria uma atitude stanislavskiana por parte do diretor, oferecendo suporte físico, ambientação e objetos externos para a interpretação do protagonista? As moedas simbolizariam o poder incrustado no corpo da personagem, os meandros das lavagens de dinheiro… E o formato final do traje negro tem o aspecto de uma armadura que, com retalhos presos, aparentemente vai se despedaçando ao molhar-se pelo suor do corpo do ator.

A figura criada em Lacerda é assustadoramente “hamletiana”, o que nos leva a pensar nas semelhanças e infortúnios das duas personagens. No entanto, o que diferencia os dois é a sexualidade evidente que Calígula trabalha, exaltada no lenço vermelho do pescoço. Símbolo masculino de virilidade como um presságio de derramamento de sangue, igualmente representado nas partes interiores do vestido final de Cesônia – preto e forrado em vermelho. Cesônia, qual um minotauro feminino, se tal figura existisse, é imolada após ter aparecido em cena com um bolero de toureiro.

O figurino, que Villela assina com Maria do Carmo Soares, atriz que já trabalhou ao seu lado em outras ocasiões, traz também Cipião e sua ambigüidade na paixão pelo Imperador representados no gosto pelos modismos e estampas florais na lateral de sua camisa de marca.

Há também, durante o espetáculo, referências da formação multidisciplinar de Villela e um generoso oferecimento de símbolos para o público: logo de início, há uma projeção de Thiago/Calígula que parece remeter a um raio X, mas que, ao mesmo tempo, traz em si algo dos desenhos de Egon Schiele, este um relator fiel da degradação humana.

No programa da peça, algumas personagens trazem na cabeça um curioso adereço, que não passa despercebido: fios de metal que parecem realmente mostrar o fechamento de uma cirurgia no crânio, ou uma lobotomia. Há também uma referência ao clássico Frankenstein, homem resultado de muitas partes costuradas, cujo trágico destino todos conhecemos.

Os deuses estão literalmente de pantufas para assistir à megalomania de Calígula no metateatro que, forçosamente, transforma os patrícios em “palhacinhos”. O vermelho chega como uma brincadeira inocente, nas pontas dos narizes, mas logo será parte do peito de muitos, enquanto se iniciam as conspirações. “Quando o homem pode ser Deus, basta endurecer o coração.” Calígula endurece seu coração, porém não consegue evitar a morte provocada, que viria no “epílogo de um imperador artista”, como ele mesmo anuncia.

Na cena final da condenação, Calígula é despido de sua camisa preta “em trapos”, todos os valores finalmente perdidos, e resta o vazio, em uma camiseta básica branca. Magali Biff entra com um aplicador – como se inserida em um reclame televisivo – e espirra sangue no rosto, corpo e vestes de Thiago Lacerda, para, em seguida, retornar à hora da verdade: “Mostrar a paixão pelo impossível em toda a sua fúria, justificando estragos e desencadeando confrontos”, como prescrevia Camus.

Curiosamente, ainda há pessoas que vêem o espetáculo esperando pela nudez (o figurino de cores mais fortes) do protagonista, uma espécie de fetiche doentio disfarçado de interesse artístico pelo corpo do ator. Em 1958, Camus escreveu: “Alguns acham que minha peça é provocante e são os mesmos que, no entanto, (…) aceitam fazer ?ménage à trois?, desde que nos limites, é claro, de quatro sólidas paredes e em alta sociedade.” De fato, 50 anos é muito pouco tempo para esperar mudanças de atitude. A nudez está ali o tempo todo, só não no formato que algumas pessoas esperam.


Serviço
Calígula. 100 min. 14 anos. Teatro Paulo Autran – Sesc Pinheiros (700 lug.). R. Paes Leme, 195, Pinheiros, 3095-9400. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 5 a R$ 20. Até 22/2

08/11/2008 - 13:09h Sarney nega a Lula pedido para negociar cargos

Ex-presidente não quer intermediar conflito entre PMDB e PT na briga pelas presidências da Câmara e do Senado

Adriana Vasconcelos – O Globo

http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/setembro2005/fotosju302online/ju302pg08.jpgBRASÍLIA. Preocupado com as conseqüências de uma eventual disputa entre o PT e o PMDB pelo comando do Senado, em fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou o ex-presidente e atual senador José Sarney (PMDB-AP), na noite de quinta-feira ao Planalto, para pedir sua colaboração. Lula exaltou a importância da aliança com o PMDB para a sustentação do governo. Depois, perguntou se Sarney — único nome que uniria os dois partidos na disputa pelo cargo — teria condições de coordenar o debate sobre a sucessão na base governista, para evitar um racha. Delicadamente, Sarney se negou a assumir a missão.

Sarney repetiu a Lula que não tem interesse em disputar a presidência do Senado — cargo que já ocupou duas vezes — e ponderou que o melhor caminho seria buscar um entendimento pelas vias institucionais, debatendo o assunto diretamente com os presidentes e líderes dos partidos aliados. O ex-presidente afirma que considera legítima a aspiração de seu partido de lançar um candidato à sucessão de Garibaldi Alves (PMDB-RN).

— Não quero disputar a presidência.

Seria um sacrifício para mim. Ainda mais que a Casa está muito desorganizada. Agora, o PMDB reivindicar a vaga é uma coisa natural, ninguém pode estranhar, até porque a praxe na Casa é a de se respeitar a proporcionalidade (o tamanho) das bancadas — confirmou Sarney em conversa com o GLOBO.

O ex-presidente disse que não será empecilho a um acordo entre o PMDB e o PT e negou que tenha restrição ao nome do senador Tião Viana (PT-AC), cuja candidatura foi lançada há duas semanas pela bancada petista: — Não tenho qualquer resistência ao nome do senador Tião. Pelo contrário, ele é um excelente senador e daria um bom presidente do Senado.

Mas, a aspiração do PMDB, como maior bancada da Casa, também precisa ser compreendida.

Para se chegar a um consenso será preciso uma costura política muito bem feita.

Lula resiste a assumir negociação no Senado A intenção de Lula é levar o assunto ao Conselho Político, que reúne líderes e presidentes dos partidos aliados, após sua próxima viagem ao exterior, marcada para a semana que vem. Lula resiste em assumir essa negociação, mas, como seu articulador político, o ministro de Relações Institucionais, José Múcio, sempre teve mais facilidade de agir na Câmara — até por ser deputado —, precisa de colaboração.

Com a negativa de Sarney, uma outra opção poderia ser o líder do governo no Senado, mas o fato de Romero Jucá (PMDB-RR) ser representante de uma das partes interessadas nessa operação pode dificultar a negociação. Jucá é candidato a presidente do PMDB ano que vem, e não está disposto a comprar brigas com sua bancada.

Por enquanto, não parece haver disposição do PT ou do PMDB de ceder.

— O PT vai continuar com a candidatura do Tião. Ele é o candidato do presidente Lula. Não é razoável que o PMDB fique com a presidência das duas Casas do Legislativo — disse a líder Ideli Salvatti (PT-SC).

Já o líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO), considera praticamente impossível que a bancada abra mão de lançar candidato. A aposta do PMDB é conquistar o apoio de PSDB e DEM. Os tucanos estão divididos.

Cresce no partido a avaliação de que apoiar uma candidatura petista vai na contramão dos planos de atrair o PMDB para as eleições de 2010.

25/09/2008 - 14:18h Petistas são favoritos em Rio Branco e em Porto Velho

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Candidato à reeleição na capital acreana, Raimundo Angelim tem apoio dos irmãos Tião e Jorge Viana e, segundo as pesquisas de intenção de votos, deve definir a disputa ainda no primeiro turno

Edson Luiz – Correio Braziliense

José Varella/CB/D.A Press – 26/11/04
Angelim, do PT(E): perda de cinco pontos percentuais, mas na dianteira


José Varella/CB/D.A Press – 6/10/06
Tião e Jorge Viana, senador e ex-governador do Acre: cabos eleitorais de Angelim em Rio Branco

O prefeito de Rio Branco, Raimundo Angelim (PT), seria reeleito se a eleição fosse realizada hoje. A última pesquisa do Ibope, divulgada na terça-feira, mostra o candidato com 51% da preferência dos eleitores, contra 23% do segundo colocado, o deputado federal Sérgio Petecão (PMN). Tião Bocalom (PSDB) ocupa a terceira posição, com 11%. Apesar da dianteira, Angelim, que conta com apoio do ex-governador Jorge Viana e seu irmão, o senador Tião Viana (PT-AC), perdeu cinco pontos percentuais em relação à amostragem feita há um mês.

Sem tradição política, o ex-professor universitário Raimundo Angelim chegou à prefeitura de Rio Branco com apoio dos irmãos Viana e da senadora Marina Silva (PT-AC), que fizeram a maior parte dos cargos nos 22 municípios do Acre. Na capital, o atual prefeito conseguiu derrotar o deputado federal Flaviano Melo, considerado uma das maiores lideranças do PMDB no estado. Nas últimas eleições, o PT também fez maioria na Câmara dos Deputados e mantém dois parlamentares no Senado, contra um do PMDB, Geraldo Mesquita Júnior, que foi eleito pelo PT e posteriormente se desligou do partido.

Curiosamente, apesar de o PT dominar atualmente a política do Acre, foi no estado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve um de seus piores desempenhos nas eleições de 2006, quando o candidato do PSDB Geraldo Alckmin obteve grande vantagem. O fenômeno, que nem mesmo o tucano soube explicar, pode ser atribuído ao apoio do PMDB ao adversário do presidente, já que nunca houve acordos estaduais com os petistas.

Na pesquisa divulgada na terça-feira, o candidato petista ficou com 51% da intenção de votos, mas distante do segundo colocado, o deputado Petecão, que é apoiado pelo PMDB. Angelim representa uma coligação que reúne outros 16 partidos que formam a Frente Popular do Acre, criada há oito anos para eleger Jorge Viana governador do estado. Petecão subiu quatro pontos percentuais, já que na pesquisa realizada em agosto contava com 19% e hoje está em 23%. O mesmo aconteceu com Bocalom, que teve um crescimento de dois pontos, saindo de 11% para 13%. Antônio Rocha, do PSol manteve o mesmo índice de antes: 1% das intenções de votos.

Os votos brancos e nulos, que na primeira pesquisa totalizaram 6%, ficaram na amostragem divulgada terça-feira em 3%, enquanto que o número de eleitores indecisos subiu de 7% para 9%. Na simulação feita pelo Ibope, seja qual for o adversário de Angelim em um eventual segundo turno, a vitória seria do prefeito de Rio Branco com 60% dos votos.

FICHA TÉCNICA

RIO BRANCO
População
280 mil

Eleitores
201.620

Candidatos a prefeito
4

Orçamento
R$ 350 milhões

PORTO VELHO
População
380.884

Eleitores
253.333

Candidatos a prefeito
7

Orçamento
R$ 500 milhões
Metodologia e identificação

A pesquisa do Ibope em Rio Branco foi feita entre 12 e 14 de setembro, enquanto que em Porto Velho, entre os dias 15 e 17. Nas duas cidades as amostragens foram encomendadas pela Rádio TV do Amazonas e a margem de erro é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos. Na capital do Acre a pesquisa foi registrada na 1ª Zona Eleitoral de Rio Branco com o número 11615/2008. Em Porto Velho, o registro foi feito na 23ª Zona Eleitoral com o número 1249/2008.
Em Porto Velho, vantagem é mantida

O prefeito de Porto Velho, Roberto Sobrinho (PT), manteve os mesmos percentuais na pesquisa divulgada pelo Ibope na terça-feira e deve ser reeleito sem precisar disputar um segundo turno. Ele tem 55% das intenções de votos contra 19% de seu principal adversário, Lindomar Garçon (PV). O terceiro colocado, Mauro Nazif, tem 3%. Apesar de os resultados de ambas as pesquisas serem semelhantes, houve um aumento grande do número de entrevistados que disseram não saber em quem votar. Em agosto era 7% e em setembro chegou a 13%.

Roberto Sobrinho tem pouco tempo de carreira em Rondônia e não faz parte dos grupos tradicionais que sempre dominaram a política no estado. Sua primeira experiência foi justamente a prefeitura de Porto Velho. O petista agora enfrenta dois adversários que poderiam ser considerados de peso, mas que estão muito além do que era de se esperar. Hamilton Casara (PSDB) chegou a ser presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e deputado federal. David Chiquilito Erse é de família tradicional na política. Seu pai, de quem herdou o nome, foi um dos mais populares prefeitos da capital rondoniense.

A recondução pode estar garantida, segundo a pesquisa do Ibope, que não detectou alterações entre seus adversários que pudessem ameaçar seu favoritismo. O segundo colocado continua com os mesmos índices de antes, que foi 19%, enquanto que o terceiro candidato caiu de 7% para 3%. Os outros quatro candidatos mantiveram ou caíram na pontuação. David Chiquilito Erse (PCdoB) continua com 3%, o mesmo percentual da pesquisa anterior, enquanto que Doutor Alexandre (PTC) caiu de 3% para 1%. Adilson Siqueira (PSol) e Hamilton Casara (PSDB) permaneceram com 1%.

Pela pesquisa do Ibope, os únicos números que aumentaram foram os dos indecisos, que quase dobraram em um mês e a poucos dias das eleições: de 7% para 13%, enquanto que brancos e nulos mantiveram os mesmos 4% de agosto. (EL)