14/12/2008 - 16:35h Lugares estranhos

Verissimo

verissimo1.jpgO comunismo pegou onde menos se esperava – na Rússia, terra de camponeses e místicos, e na exótica China. Não deve surpreender que o socialismo triunfe em outros lugares estranhos: a GM, o Citibank…

NA COXA

Me pediram para comentar o “Vicky Cristina Barcelona”. Gostei pela Vicky, pela Cristina, por Barcelona e principalmente pela Penelope, mas me pareceu um filme meio relaxado. Dá para imaginar o Woody Allen escrevendo o roteiro em cima da coxa, no quarto do hotel, louco para voltar pra casa. Há personagens que aparecem e desaparecem sem função ou explicação, e o Woody Allen poderia ter nos poupado, e ao seu currículo, o pai pintor do Javier Bardem, que não pinta mais porque há pouco amor no mundo. E para o Bardem o filme veio muito em cima do seu papel anterior, como o bandido do cabelo armado dos irmãos Coen. Passei todo o filme esperando que ele estrangulasse alguém.

SUJOU?

Falando em cabelo… O governador de Illinois merece ser banido da política duas vezes, pela corrupção e pelo penteado. A direita americana já caiu em cima do Barack Obama por causa da sua ligação com o governador Blagojevich, acusado de $leiloar a cadeira do senado que o Baraca desocupou. Os investigadores disseram que o presidente eleito não tem nada a ver com as manobras, ou com o penteado, do governador, que é pela lei é quem nomeia o novo senador, mas o Baraca fez sua carreira na notoriamente corrupta política do estado, que agora ganha um incômodo destaque com as acusações a Blagojevich – dando razão, implicitamente, a tudo que os republicanos diziam durante a campanha sobre as origens obscuras do candidato democrata. Chicago foi a capital do crime organizado americano e tem uma tradição paralela de política suja, como a dos tempos do prefeito Dailey que dominou o partido democrata lo$durante anos, era um populista a serviço do grande capital e fez a carreira de muita gente – inclusive a do seu filho, que hoje é o prefeito. Obama se criou, polticamente, neste meio de caciques e aproveitadores. Para a direita, ele não pode não ter se sujado.

PERPLEXIDADE

Fico pensando no trabalho que terão os historiadores do futuro para entender o governo Lula. Nunca um presidente foi tão odiado e ridicularizado, nunca um presidente foi tão aprovado.

Nem a raiva nem o amor são muito racionais, existem num plano subjetivo a prova de fatos. A raiva parece visceral, feita em grande parte de preconceito e ressentimento. O amor persiste contra todas as notícias de escândalos e desmandos. Talvez com a perspectiva histórica o fenômeno não pareça tão raro. Getúlio Vargas também foi amado e execrado em proporção parecida. Juscelino também dividiu. Mas até daqui a uns 50 anos, quando a perspectiva histórica nos dirá o que houve, a perplexidade com o Lula permanecerá.

Fonte O Globo e Blog de Noblat

23/11/2008 - 20:19h Mais Vicky Cristina Barcelona

http://www.mediafilm.ca/Archivage/8/VickyCristinaBarcelonaG.jpg

A música ‘’salerosa” e brejeira, sussurrada em nossos ouvidos por uma voz de mulher, já anuncia, desde os letreiros inaugurais, o recado do novo filme de Woody Allen: o amor envolve,seduz,machuca…Mas quem sabe o que é o amor?

Verão em Barcelona:Gaudi e Miró colorem a cidade.Eis que chegam duas turistas americanas. Uma, Vicky, estuda a identidade catalã para sua tese de mestrado e está noiva de um americano sem muita imaginação mas que lhe oferece uma vida sem sustos. Outra, Cristina, rabisca poemas. A primeira pensa que sabe o que quer.A segunda acha que sabe o que não quer.

Mas o que as mulheres querem? pergunta Woody Allen.Depois de tantos anos de divã,para mim ele ecoa a resposta feminina, que Freud insinua em seus escritos:as mulheres querem ser desejadas.E Barcelona,”mariposa” maliciosa da música do filme, vai oferecer às suas personagens o cenário sonhado.

Um único macho.Toureiro? Não. Pintor que roubou o estilo de sua ex-mulher,Maria Elena,e teve um divórcio ”caliente” e escandaloso.
Vicky, a romântica, Cristina, a curiosa e Maria Elena, a espanhola sofrida e sensual, vão dançar um ”passo doble” com um Javier Báden de fala mansa e olhar sedutor. Todas vão se decepcionar.

E como saldo,o espectador aprende com elas. Vicky reconhece o medo:amor e morte andam juntos mas ela vacila e só se fere superficialmente. Adapta-se ao mundo que ela conhece. Cristina se envolve mas recua:mais uma coisa que ela não quer.Sofre de insatisfação crônica,mal de muitos.As americanas conseguem escapar mais ou menos ilesas e decepcionadas desse paraíso onde o amor lhes escapa.

Já Maria Elena,uma Penélope Cruz mais sedutora e envolvente que nunca, parte sofrida, exasperada.Eu vi nela a mulher mais generosa do filme. E a dona da frase mais impactante:só os amores não realizados podem ser românticos.
É…Quem sabe é o pai do sedutor quem tem razão. Ele é um velho poeta que escreve sobre o amor mas se recusa a publicar os seus versos porque os homens ainda não aprenderam a amar. Para mim, este é o alter-ego de Woody Allen, um diretor sempre brilhante.


Eleonora Rosset, psicanalista

22/11/2008 - 13:09h Vicky Cristina Barcelona provoca euforia

O melhor filme de todos os tempos

Reprodução

Maria Elena (Penélope Cruz), Juan Antonio (Javier Bardem) e Cristina (Scarlett Johansson) em cena

Maria Elena (Penélope Cruz), Juan Antonio (Javier Bardem) e Cristina (Scarlett Johansson) em cena

Marcelo Carneiro da Cunha – Terra Magazine

De São Paulo

Estimados milhares de leitores. Acabo de sair do melhor filme de todos os tempos dessa semana, e ele se chama Vicky Cristina Barcelona, do meu, do nosso Woody Allen.

Woody Allen não dá bola para a crítica, não foi receber o Oscar quando ganhou, e parece mais interessado em investigar a natureza do amor, esse incompreendido. Ele tem investigado ao longo de décadas, ao longo de Diane Keaton, Murial Hemingway, Mia Farrow, e ultimamente Scarlett Johansson. As mulheres de Woody Allen falam muito e dizem algo, e nós, distinto público, devemos prestar atenção ao que dizem, pois ali estão boa parte da nossa incompreensão com relação ao amor, às mulheres, aos bons filmes.

Nesse filme falam a histérica Vicky, a romântica = confusa Cristina, e a maravilhosa Penélope Cruz, no papel de Barcelona, imagino. Falam muito, buscam muito e… se encontram. O que encontram, isso não parece fazer muita diferença. O que dizemos importa mais do que o resto, parece dizer nosso lacaniano Woody Allen do século 21.

Woody já fez de tudo. Foi de Groucho Marx no começo de carreira, definiu o amor no clássico Annie Hall, mostrou como se faz cinema com C maiúsculo, em Zelig, e, depois de ter provado que podia fazer o que bem entendesse, se colocou, como Monet, a pintar o mesmo jardim para sempre, estudando as nuances mais do que as cores, as sombras mais do que as formas, motivo pelo qual seus filmes mais recentes vinham parecendo ser apenas mais do mesmo, sempre bom, ou ótimo, e o mesmo.

Vicky Cristina Barcelona é diferente.

Com ele, Woody sai de Londres e pega uma insolação na Catalunha. Se permite uma dieta mediterrânea de vinhos, azeites e guitarra espanhola e nos brinda com cores que há algum tempo não víamos, desde o último filme do Almodóvar, mais precisamente. As pessoas saem da sala de cinema falando nisso, no Almodóvar que baixou no Woody, mas não sei não.

Olhando com atenção, são muitos os ecos desse filme. De Jules e Jim, do Truffaut (na narração e na bicicleta, no triângulo e no prazer que move alguns dos personagens menos americanos da história), de Eric Rohmer, de Fitzgerald, mas, mais do que tudo, para mim, de Salinger. Woody faz uma opção preferencial pelos ricos e suas esquisitices e ausência de preocupações com o tamanho da conta no restaurante e no que fazer com as outras contas, que inevitavelmente nós, seres comuns, temos que pagar.

Woody não tem medo de clichês, acho que se diverte com eles. Com a americana se embalando com o sonho europeu, com a americana com medo de germes, com o amante latino clássico, com a espanhola fora de qualquer controle e irresistível, em sua luz e movimento. Não tem medo de colocar como trilha um pastiche do que quer que seja, mas que funciona. Brinca a sério, e nessa brincadeira, faz grande cinema. Sorte a nossa.

O amor não parece ter solução, a não ser algo que tenha a ver com tiros, que felizmente não matem. A possibilidade de tragédia pode estar presente, mas não se confirma. O amor é uma tragédia que não se realiza, parece nos dizer Woody. De resto, o filme nos diverte com a patetice americana, de quem tomou leite demais na infância e ficou desse jeito, com a falta de ânimo dessa nossa época e dessas mulheres que a ocupam.

O filme desliza, mais do que anda, e fala muito, sem necessariamente afirmar algo. Saímos dele como saímos de todo o grande filme, sentindo que aconteceu algo, sem que saibamos o que exatamente ocorreu naquela sala.

Saímos dele sem saber ao certo o que fazer, mas sabendo muito bem a quem desejar, e nisso está o que o filme finalmente nos diz: que a cor é melhor do que a segurança, que sabor é essencial, que podemos errar à vontade, desde que em uma busca que não seja apenas a de estabilidade no emprego. Vale a pena errar, nos diz Woody, com a certeza de quem costuma acertar. E isso, meus amigos leitores, é tão raro que nos leva ao cinema. A ele então, todos, e bom tiro.

Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem “O Branco”, premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos “Simples” e o romance “O Nosso Juiz”, pela editora Record. Acaba de escrever o romance “Depois do Sexo”, que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances “Insônia” e “Antes que o Mundo Acabe”.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

20/11/2008 - 18:42h “Vicky Cristina Barcelona”

CONTARDO CALLIGARIS


O amor-paixão é uma tentação irresistível, é o protótipo da vida intensamente vivida

“VICKY Cristina Barcelona”, de Woody Allen, estreou no Brasil na semana passada. Com muita leveza e muito bom humor, o filme me levou a pensar nos percalços da vida amorosa.

A história do verão em Barcelona de Vicky e Cristina é um pequeno tratado do amor-paixão: os espectadores terão o prazer (ou desprazer) de se reconhecer em algum lugar do leque de experiências amorosas que o filme apresenta -é um leque pequeno, mas do qual escapamos pouco. Sem resumir, eis umas notas:

1) Os casais que se amam de paixão, cujos parceiros parecem ser feitos um para o outro, em regra, acabam tentando se matar -com faca, revólver ou qualquer outro instrumento (cf. Juan Antonio e Maria Emilia). É porque, se o outro me completa e vice-versa, o risco é que nenhum de nós sobreviva à nossa união -ao menos, não como ente separado e distinto. Mas, por mais que seja ameaçadora, a paixão amorosa é uma tentação irresistível (cf. Cristina, Vicky, Judy) por uma razão simples: nas narrativas de nossa cultura, ela é o protótipo ideal da experiência plena, da vida intensamente vivida.

2) Por sorte ou não, o amor-paixão é raro. A maioria de nós vive relações menos “interessantes” e menos fatais -relações em que a gente se preocupa em criar os filhos, decorar a casa, ganhar um dinheiro ou jogar golfe (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark). Não seria tão mal, salvo pelo detalhe seguinte: em geral, nesses casais “normais”, ao menos um dos parceiros vive com a sensação de que sua escolha amorosa é resignada, fruto de um comodismo medroso: “O outro não é bem o que eu queria; culpa minha, que não tive a coragem de me arriscar a amar…”
Detalhe: como o amor-paixão é um ideal cultural, não é preciso ter atravessado a experiência da paixão para idealizá-la (as más línguas diriam, aliás, que é mais fácil idealizá-la sem tê-la vivido em momento algum).

3) Os que parecem não idealizar o amor-paixão passam o tempo se protegendo contra ele. Deve ser por isto que a “normalidade” amorosa pode ser insuportavelmente chata: porque ela exige a construção esforçada de defesas contra a paixão -argumentos morais e sociais, sempre mais “razoáveis” do que racionais (cf. Mark, Doug). Num casal, quem critica a doidice da paixão não parece sábio aos olhos de sua parceira ou de seu parceiro; ao contrário, ele parece, quase sempre, pequeno e um pouco covarde (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark).

4) A paixão não é uma coisa que a gente possa encontrar saindo pelo mundo como um turista da vida (cf. Cristina). Pois não basta esbarrar na paixão; ainda é preciso encará-la quando ela se apresenta.

Pode ser que, um dia, se ela conseguir matar Juan Antonio com um tiro certeiro, Maria Emilia seja internada ou presa. Pode ser que Juan Antonio seja um sujeito amoral e, por isso, perigoso. Pode ser que Vicky seja desesperadamente normal, trocando a chance de amar por uma casa num subúrbio norte-americano (estou sendo injusto com Vicky: na verdade ela tenta…).

Mas, para mim, a mais “patológica” de todas as personagens do filme é Cristina. Sua aparente abertura para a vida (”Ela não sabia o que queria, mas sabia o que não queria”, narra a voz em off) é apenas uma versão “bonita” e literária de sua “insatisfação crônica” (diagnosticada por Maria Emília, com razão). Nisso, Cristina é muito próxima da gente: ela quer e consegue brincar com a paixão, mas sem perder a ilusão da liberdade ou o sonho do que ela poderia encontrar na próxima esquina. Por isso, sua voracidade é a do turista: tira muitas fotos pelo mundo afora, mas será que ela se deixa tocar pela vida?

5) Disse que “Vicky Cristina Barcelona” trata dos percalços da vida amorosa com leveza e bom humor; de fato, saí do cinema sorrindo, e não era o único. Mas a amiga que me acompanhava comentou: “Adorei, mas é um filme triste”. “Como assim?”, estranhei. Ela respondeu, com razão: “É um filme triste porque os personagens se apaixonam, vivem sentimentos fortes, mas, no fim, tudo isso não transforma ninguém. Vicky e Cristina vão embora iguais ao que elas eram no começo, sobretudo Cristina…”.

Minha amiga tinha razão. O amor e a paixão não nos fazem necessariamente felizes, mas são uma festa e uma alegria porque deles podemos esperar ao menos isto: que eles nos tornem um pouco outros, que eles nos mudem. Agora, nem sempre funciona…

ccalligari@uol.com.br

13/11/2008 - 18:31h ”Sou frívolo e fissurado por mulher”

http://www.browserd.com/wp-content/uploads/2008/02/scarlett-e-penelope-vicky-cristina-barcelona.jpg
Em entrevista realizada em Barcelona, ele declara que beleza é fundamental

Beppe Severgnini* – O Estado de São Paulo

 

woody_allen2.jpg

No início desta entrevista, feita em um hotel à beira-mar em Barcelona, Woody Allen parecia cansado e retraído mesmo falando sobre mulheres, o objeto de sua frivolidade assumida. Disse coisas como: “Não tenho interesse pela vida real.” Ou: “Só falo dos meus filmes para ajudar os produtores.” Mas se animou quando a conversa derivou para a política. “Sim, gosto de política. Não como artista, mas como cidadão”, declarou, dias antes da eleição de Obama.

Podemos falar sobre seu novo filme, Vicky Cristina Barcelona?

Só falo dos filmes que faço para ajudar os produtores… Mas se dependesse só de mim, eu não falaria nada. Você realiza um filme e, se ele for bom, as pessoas vão vê-lo. Não seria preciso falar dele. Mas se ele não for bom, por mais que eu fale…

Noto que alguns críticos disseram que o filme é voyeurista. Concorda?

Voyeurista? Bem, somente no sentido de que um filme é uma coisa visual. Vicky Christina Barcelona não é nada voyeurista. Tive à minha disposição um elenco principal sexualmente carismático e poderia até ter explorado essa situação para voyeurismo, com grande respaldo artístico. Mas eu fui muito, muito comedido.

O sr. diria que, com o avanço da idade, está ficando mais fascinado pela beleza feminina?

Sempre fui! Mesmo quando criancinha, eu sempre fui fissurado por mulheres. Você sabe, eu sou muito frívolo. E um de meus traços frívolos é uma obsessão pela beleza. Durante a guerra, eu podia admirar como Rita Hayworth era magnífica… E nunca deixava de admirar a beleza nas garotas de minhas salas de aula. Isso é um traço frívolo, porque exclui todos os aspectos mais valiosos e sensíveis das mulheres que não são belas.

O sr. se interessa pelas vidas amorosas de seus atores?

Não, não tenho nenhum interesse pela vida real. Isto é, eles são ótimas pessoas, mas nunca ?socializo? com meus atores. Conheço Scarlett Johansson há anos, mas jamais almocei ou jantei com ela. Se ela estivesse bem aqui em pessoa, você pensaria: “Oh, ela é muito bonita”, mas quando você a fotografa, ela se torna mais ainda. Agora, Penelope Cruz na tela é incrivelmente bela, mas quando você a encontra em pessoa, ela é ainda mais bela. Quando encontrei Penelope pela primeira vez – eu a tinha visto em Volver e achei que ela era muito linda – não conseguia acreditar o quanto ela era linda. Era uma coisa meio sobrenatural, como se ela tivesse vindo de Marte ou Júpiter.

Seus filmes recentes – Match Point, Scoop – o Grande Furo e agora este – são muito agradáveis. Mas como muitos outros, sinto falta do velho Woody Allen. Você parece ter outra coisa em mente agora. Será justo dizer que o velho Woody Allen das gargalhadas acabou?

Sim, mas acho que deixei isso há muitos anos. Fiz uma certa quantidade de filmes cômicos no começo, depois comecei a fazer filmes diferentes, mais sérios. Crimes e Pecados e Hanna e Suas Irmãs se saíram muito melhor que Bananas, Um Assaltante bem Trapalhão e Tudo Que Você sempre Quis Saber sobre Sexo, mas Tinha Medo de Perguntar.”

Por falar em Bananas, já pensou em fazer outro filme político?

Sim, pensei. Mas meu problema de sempre são os orçamentos. Eu trabalho com orçamentos pequenos, e fazer um filme político nos Estados Unidos, onde eu teria que fazê-lo, custaria muito mais dinheiro do que eu seria capaz de captar.

Acha que poderia fazer um filme que tivesse ampla aceitação em todo o território dos EUA? Ou Woody Allen é ligado demais a Nova York?

Nas cidades grandes e nas cidades universitárias, eu tenho boa aceitação. Mas a maioria do país não é isso. A maioria do país é o que chamamos de Estados vermelhos: Estados-Bíblia, Estados republicanos, Estados armas. E há pessoas nesses Estados que gostam de meus filmes, mas não a maioria. Não que elas não gostem de cinema; meus filmes nem sequer estariam em seu radar.

Não acha que Sarah Palin (que foi colega de chapa do candidato presidencial republicano John McCain) daria uma personagem fantástica para um filme de Woody Allen?

Oh, ela é divertida. Mas já foi bem explorada nas sátiras da televisão. Ela foi uma escolha estúpida, nada que mostrasse muito respeito pelos Estados Unidos. Serviu apenas para dar uma pequena ajuda momentânea à campanha, pelas tiradas divertidas. Mas acho que os americanos, por mais ridículos que tenham sido nas eleições anteriores, aprenderam alguma coisa.

Você gosta de política? Nós estávamos falando de cinema e você parecia cansado. Agora parece mais…

… mais animado?

Isso. Mais interessado.

Sim, gosto de política. Não estou interessado em política como artista, mas como cidadão. Como sabe, eu voto. Contribuo com dinheiro. Fico feliz de fazer campanha por alguém.

Al Gore teria sido bom presidente?

Sim, acho que ele teria sido um bom presidente. Acho que é um homem inteligente e foi um mau candidato. Ele não teve carisma, não teve energia para concorrer, ele não conseguia focar. Mas daria um presidente muito bom porque é uma pessoa decente e é favor de uma agenda democrática, liberal

Se pudesse voltar no tempo, gostaria de se tornar um grande tocador de clarineta, um ícone dos esportes, um grande escritor ou George W. Bush? Qual seria a sua escolha?

Um grande músico,pois a música supera tudo. É emocional e todo mundo adora música.

* Esta entrevista foi publicada originalmente no jornal The New York Times. Tradução de Celso Mauro Paciornik

http://www.reelmovienews.com/images/gallery/vicky-cristina-barcelona-movie-poster.png
http://glamurama.uol.com.br/imagem/midias/1/15076.jpg
Vicky Cristina Barcelona

13/11/2008 - 17:15h ”Fiz o meu primeiro filme europeu”

Vicky Cristina Barcelona, que estréia amanhã, é um recomeço na carreira do diretor e fala sobre a necessidade de arriscar

http://dusk.org/adam/images/vicky-cristina-barcelona2.jpg

Luiz Carlos Merten – O Estado de São Paulo

Embora tenha feito seus últimos filmes anteriores na Inglaterra, o próprio Woody Allen considera Vicky Cristina Barcelona, que estréia amanhã, o seu primeiro filme europeu. Em Cannes, em maio, ele disse que a Inglaterra está próxima demais dos EUA para que se possa sentir a diferença – o que não é exatamente verdadeiro, como sabe qualquer espectador que tenha visto Match Point -, e que a Espanha é outro mundo, mais sensual e vulcânico. A Barcelona de Woody Allen é 100% turística. Vai decepcionar-se quem esperar dele algo além das paisagens de cartão-postal mais conhecidas da cidade. O clima, com tudo o que espírito espanhol acrescenta ao diretor, é mais de filme francês. O próprio Allen reconhece – também no Festival de Cannes ele disse que impregnou Vicky Cristina Barcelona do frescor que descobriu no cinema francês dos anos 60, em François Truffaut, por exemplo.

Talvez ele pudesse ter citado Eric Rohmer, mas preferiu ficar em Truffaut. Ao longo de sua carreira, Allen já homenageou outros mestres europeus – Ingmar Bergman, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni. Suas fontes literárias, também européias, incluem Tolstoi, Kafka e Dostoievski. A entrada em cena de Truffaut – também se poderia dizer o mesmo de Rohmer – indica que Allen, aos 70 e poucos anos, está mais decidido do que nunca a falar sobre o amor. O filme conta a história de duas garotas norte-americanas que vão para Barcelona. São interpretadas por Scarlett Johansson e Rebecca Hall. Lá elas se envolvem com Javier Bardem, que Fernanda Montenegro comparou a um touro de Picasso. Mais picassiano do que nunca, Bardem faz um pintor hedonista que, de cara, convida as duas americanas românticas para uma viagem a Oviedo, para desfrutar boas comidas, bom vinho e bom sexo.

Mesmo nos filmes em que não aparece como ator, Woody Allen sempre dá um jeito de se espelhar nos personagens em cena. Você deve se lembrar do Kenneth Branagh – mais alleniano, impossível – de Celebridade. Aqui é até difícil saber em quem ele se projeta mais, mas muito provavelmente é em Scarlett, cuja personagem parece a versão feminina dos neuróticos anônimos celebrizados pelo ator e diretor. De volta à trama, quando faz a proposta – de sexo e vinho, que Hollywood, via Michael Crichton, normalmente consideraria indecente -, Javier Bardem ainda nem conhece as moças. Inicia-se uma relação complicada. Scarlett, ou ‘Cristina’, quer ficar com ele, mas sente-se mal e é trocada na cama do touro espanhol por ‘Vicky’, isto é, Rebecca, que está de casamento marcado, mas não resiste ao sexo selvagem. Entra em cena Maria Elena, a ex de Bardem, tão explosiva que é interpretada por Penelope Cruz, como quem acaba de sair de um filme de Pedro Almodóvar. Mulheres à beira de um ataque de nervos. O Truffaut de Woody Allen é filtrado por Almodóvar (o das antigas).

Vicky Cristina Barcelona é divertido, inteligente. Allen exaspera e subverte velhos clichês – como o da sensualidade européia ser ?liberadora? em relação aos repressores EUA. Formam-se sucessivos triângulos, como num filme de Truffaut, e há, embutida, uma discussão sobre a arte. Bardem e Penelope são pintores que se reinventam sem medo de ir ao limite, mesmo correndo o risco da (auto)destruição. Talvez seja a essência do filme. Tudo o que ele tem de clichê – sobre a paisagem de Barcelona e essa visão um tanto idealizada da sensualidade européia -, na verdade, pode ser uma estratégia do diretor. Woody Allen, que viveu aquele complicado processo de ruptura de Mia Farrow, vinha fazendo um tipo de cinema pacificado, ou pacificador, como se a vida lhe tivesse ficado demasiado mansa. Seus filmes volta e meia tratam da ascendência das mulheres sobre os homens e quem viu o documentário Wild Man Blues, de Barbara Kopple, sobre sua turnê européia, deve se lembrar da maneira como Soon-Yi o tratava feito criança, completamente mandona (e mesmo sendo muito mais jovem do que ele). Vicky Cristina Barcelona é agora sobre a necessidade de arriscar e mudar. Não é um grande Woody Allen – como seus melhores filmes com Mia -, mas talvez seja a melhor prova de que ele compreendeu que corria o risco de se acomodar (Match Point foi só um intervalo) e está disposto a recomeçar, sem medo de arriscar (e até errar).

08/11/2008 - 16:01h Vicky Cristina Barcelona e nós

Vicky Cristina Barcelona – Woody Allen

Woody Allen tem a capacidade de provocar uma permanente interrogação em nós: como teríamos agido nas mesmas circunstâncias às quais se confrontam cada um dos seus personagens. Talvez porque o cineasta mostra a ambivalência de sentimentos e situações, as contradições dos personagens e a da própria realidade. Ou porque dá forma a seus e, ou, nossos fantasmas? Ou simplesmente porque nos confronta com nossas próprias existências?

Seus últimos filmes são dos melhores da sua carreira, na minha opinião. Em “Vicky Cristina Barcelona” é servido por ótimos atores, Scarlett Johansson, Penelope Cruz e Javier Bardem. Em verdade, aos três devemos acrescentar Barcelona e Gaudi. O filme vai fazer sucesso aqui, como está fazendo na França (onde Woody sempre faz sucesso).

Vida, frustração, paixão, sexualidade, beleza, arrebato, liberdade, introspecção, sexo, arte, aspirações, desejos e sociedade. Está tudo no filme e os caminhos aparecem diversos.

Is up to you, nos diz um Woody, aparentemente liberado de sua mãe. LF