12/06/2009 - 16:17h Conversa de violinos


Dois dos mais premiados e talentosos artistas atuais, os violinistas americanos Hilary Hahn e Joshua Bell falam ao Estado sobre turnês pelo Brasil, carreiras e os desafios enfrentados pela nova geração de virtuoses

João Luiz Sampaio – O Estado SP

Os dois tinham 4 anos quando pegaram em um violino pela primeira vez; apesar da diferença de alguns anos, pertencem à mesma geração; ele cresceu em uma fazenda em Indiana; ela, na paisagem urbana de Baltimore; iniciaram a carreira na adolescência, tomando de assalto a vida musical americana; logo assinaram contratos com gravadoras, aos quais se seguiram discos que estão entre os mais vendidos do mercado de clássicos. Na série de coincidências, ficou faltando uma: os violinistas Hilary Hahn e Joshua Bell desembarcam na semana que vem no Brasil para uma série de recitais e concertos.

Hilary toca terça e quarta obras de Ysaye, Ives, Brahms e Bartok, acompanhada pela pianista Valentina Lisitsia, na Sala São Paulo, pela Sociedade de Cultura Artística. Já Bell inicia a turnê brasileira no Rio, sexta e sábado, tocando o concerto de Max Bruch com a Sinfônica Brasileira (regência de Roberto Minczuk); no domingo, orquestra e solista pegam a ponte aérea e repetem o programa na Sala São Paulo; em seguida, na segunda e na terça, ele faz recital com o pianista Frederic Chiu, agora pelo Mozarteum Brasileiro. No programa, obras de Beethoven, Brahms, Ysaye e Franck.

Chama a atenção, de cara, a presença de obras do belga Eugene Ysaye, tão pouco tocado por aqui. Não é por acaso. Aos 10 anos, Bell ainda considerava a possibilidade de ser tenista profissional, até que conheceu Josef Gingold, que o orientou na Universidade de Indiana. Impacto parecido teve para Hilary a orientação do lendário Jascha Brodsky, no Curtis Institute of Music. Gingold e Brodsky, por sua vez, foram alunos de Ysaye, grande nome do violino na primeira metade do século 20. “Ysaye tornou-se uma espécie de herói para mim”, diz Bell ao Estado. “Foi o maior violinista de todos os tempos, suas seis sonatas-solo são parada obrigatória para qualquer intérprete”, continua. “Tem épocas nas quais sempre que pego o violino tenho uma vontade irresistível de tocar uma de suas sonatas”, diz Hilary. “Sua devoção ao instrumento sempre me fascinou. E fico feliz de poder tocar suas obras para novos públicos.”

Mas chega de semelhanças. O fato é que, apesar do caminho parecido, Bell e Hilary são artistas bastante diferentes, dentro e fora do palco. A carreira de Bell está baseada na interpretação dos grandes clássicos escritos para o violino, além da ligação com o cinema, tendo participado de trilhas de compositores como o americano John Corigliano, que escreveu a música de O Violino Vermelho, de François Girard (a trilha acabou dando origem a um concerto para violino, cuja gravação, com Bell e a Sinfônica de Baltimore, está sendo lançada em edição nacional pela Sony Classical). Hilary, por sua vez, tem uma discografia pautada pelo diálogo entre compositores. Seu último álbum, que lhe rendeu o Grammy em 2008, além da escolha de artista do ano pela revista inglesa Gramophone, unia concertos de Schoenberg e Sibelius, “peças de caráter complementar, duas visões diferentes para uma mesma sensação”, explica. Fora do palco, Bell já recebeu condecorações do governo americano, é membro de comitês dedicados à discussão da cultura de seu país. Hilary segue em direção contrária. “Não acredito que um músico deva colocar-se sempre publicamente sobre questões políticas, por exemplo. Não é isso que vai inserir a música clássica no contexto mais amplo da sociedade. Como intérprete, o que me fascina e motiva é o trabalho com a música em si, sem preconceitos, mostrando tudo o que ela pode oferecer às pessoas”, diz. Em seu site, ela mantém um blog sobre suas impressões a respeito da vida e da música; no melhor estilo de adolescência virtual, seus comentários são sempre introspectivos e bastante pessoais, motivados por eventos tão díspares quanto a reação do público a um de seus concertos ou o salto gasto de um sapato, que exige “conserto urgente”.

Tanto Bell quanto Hilary, no entanto, recusam rótulos. Reconhecem uma tônica em suas atuações, mas defendem a importância de não se deixar levar por caracterizações que “reduzam as possibilidades expressivas”, nas palavras dela, de um intérprete. “Não há categorização que não seja limitante”, afirma Bell, de 40 anos recém-completados. “Quando ouço alguém dizendo que sou bom em determinado repertório, não fico feliz porque não é esse o caminho que sigo em minhas escolhas. Procuro peças que falem de alguma maneira comigo, com as quais me identifico. Eu toco Corigliano, por exemplo, não porque acho que devo interpretar autores vivos, mas, sim, porque sua música me atrai em sua combinação de lógica e estrutura com uma inspiração melódica bastante especial.” Hilary pensa parecido. “Como artista, aprecio minha liberdade, a possibilidade de fazer aquilo que bem entendo, aquilo que minha intuição sugere. É claro que existe uma tradição, seja no que diz respeito a repertório quanto à própria formação de um artista, seus professores, etc. Mas tão importante quanto de onde viemos é para onde escolhemos ir. Você me perguntou agora há pouco sobre a maneira como vejo os compositores americanos dos dias atuais. Entendo que existe uma questão ampla e comum, que é o fato de que são artistas não-europeus reinventando uma arte que nasceu e se desenvolveu na Europa. Mas, se você olha a obra de autores como Barber ou Bernstein, o que chama a atenção é a individualidade de cada um. Eles podem ter vindo de uma tradição comum, mas seguiram caminhos que tinham a ver com o que eles eram acima de tudo”, diz Hilary, às vésperas de completar 30 anos. Bell concorda: “Barber é um autor americano, sim, mas sua música tem muito em comum com Schumann ou Brahms, por exemplo. Como fazer então? Melhor seria, acredito, pensar nele como indivíduo e não como representante de uma cultura.”

Serviço

Hilary Hahn – Sala São Paulo (1.484 lugs.). Pr. Júlio Prestes, s/n.º, 3258-3344. Dias 16 e 17, 21 h. R$ 70 a R$ 150
Joshua Bell – Sala São Paulo (1.484 lugs.). Dia 21, 17 h. R$ 35 a R$ 110. Vendas 4003-1212
Teatro Alfa (1.118 lugs.). R. Bento Br. de Andrade Filho, 722, 3815-6377. Dias 22 e 23, 21 h. R$ 50 a R$ 140. Vendas 5693-4000, 0300-7893377 ou 4003-1212

15/05/2009 - 22:00h Boa noite

Concerto para dois violinos em D menor de J.S.Bach

26/07/2008 - 13:58h Atrás dos segredos de Beethoven

O maestro Kurt Masur rege alunos em Campos do Jordão e fala sobre a Nona Sinfonia do compositor

http://nyphil.org/dbimages/MasurKurt_0506.jpghttp://www.classiquenews.com/images/lire/revuepresse/cGzAETg05C_Beethoven_symphonie_2007.jpg

João Luiz Sampaio – O Estado de São Paulo

”A primeira coisa que vocês precisam ter em mente é que Beethoven, no início de cada uma de suas sinfonias, quis surpreender”, diz Kurt Masur. E começa a cantarolar cada um desses momentos iniciais. ”Por que ele fez isso?” – ele mal termina de fazer a pergunta e, olhando fixamente a orquestra, ergue de leve os braços, posicionados à frente do corpo. Os músicos entendem o sinal. E a Nona Sinfonia de Beethoven começa a soar pelo Auditório Claudio Santoro na manhã de quarta-feira ensolarada em Campos do Jordão, onde Masur passou a semana ensaiando a orquestra formada por professores e alunos do Festival de Inverno, que se encerra neste fim de semana com dois concertos do maestro alemão – hoje em Campos e amanhã à tarde na Sala São Paulo.

Kurt Masur dirige a nona sinfonia de Beethoven com a Orquestra Nacional de França, no teatro de Orange. (primeira parte)

Surpresas. A primeira surgiu um pouco mais cedo, bem no começo da manhã, quando Masur chegou ao auditório. Orquestra a postos, ele não subiu ao pódio – pediu aos alunos de regência do festival que se revezassem ensaiando a peça de Beethoven. Reger assim, de repente, na frente de Masur não deve ser experiência das mais fáceis… Seus quase dois metros, o olhar sisudo assustam, assim como os 60 anos de carreira que carrega em cada levantar de braço frente a orquestra. ”Eu não estou bravo”, diz ele mais tarde aos músicos, que agora ele mesmo rege. ”Eu gosto de ensaiar, não me incomodo em repetir, é assim mesmo.” Todos se acalmam, mesmo que seja só um pouco.

Músicos de orquestra em todo o mundo contam que Masur é um mestre cuidadoso. Há quem diga que o trabalho todo do maestro se dá no ensaio – que, no concerto, tudo que precisava ser acertado, já foi discutido. Não com Masur. Quem já o viu regendo sabe que ele chama atenção dos músicos mesmo durante o concerto – e é estimulante ver uma orquestra mudando completamente de direção durante uma apresentação por conta de um olhar ou gesto do maestro. O que não quer dizer, porém, que sobra menos trabalho para as horas de ensaio. Não. O primeiro movimento da Nona Sinfonia, por exemplo, levou quase metade do ensaio para chegar perto das intenções do maestro – e essa era apenas a primeira de muitas sessões de ensaio previstas para a semana. Masur interrompe a orquestra a todo instante; pede uma sonoridade específica aos violinos, faz o mesmo com os violoncelos, discute com a flauta os acentos em determinada passagem. O olhar dos jovens estudantes revela muito. A cada interrupção do maestro, o sorriso vai dando lugar a um riso nervoso e, logo, a caras apreensivas. Mas o maestro sabe, ao mesmo tempo, provocar e tranqüilizar. Um professor certa vez disse a um jovem Masur que tomasse cuidado com os sorrisos que dirigia à orquestra – os músicos perdem respeito por um regente muito facilmente, disse. Hoje, seria difícil que isso acontecesse. E os sorrisos transbordam com a mesma intensidade que as pequenas broncas e sugestões.

E elas são muitas, pontuais. Mas, ao mesmo tempo, há uma idéia muito clara por trás de seus pedidos ao músico. A música de Beethoven tem uma intensidade, uma dramaticidade inerentes, uma forte tensão interna mesmo. É papel do músico manter esse clima, essa energia durante a apresentação. Aos violinos, por exemplo, Masur deixa escapar suas visões acerca da obra. ”Beethoven está perante Deus e pergunta, quer dele respostas. Ao tocar dessa maneira (ele imita com a boca o som do violino), não virão respostas. Simplesmente porque vocês não estão perguntando. Há muitas emoções neste momento da música, mas a resignação, o silêncio, não é uma delas”, comenta. E o mais interessante, para os músicos como para quem está de fora, é ver como a cada comentário, a orquestra passa a soar de outro jeito. E, à medida que o ensaio se desenrola, o riso nervoso vai desaparecendo. Os jovens estudantes, agora, se viram para seus professores, com quem dividem o palco, em busca de orientação, de um modelo, uma ponte entre o regente, que fala em inglês, francês, alemão, português, italiano, e seus próprios instrumentos. E a primeira parte do ensaio termina com um sonoro ”Great!”.

CONFLITOS

Um pouco mais tarde, em seu camarim, Masur relembra uma história. ”Na noite anterior à queda do muro de Berlim, tocamos em Leipzig a Nona de Beethoven. Após o concerto, um ex-presidente da Alemanha Oriental, que estava no teatro, foi ao camarim e me disse: ”Masur, ficamos sempre à espera do final da sinfonia, da Ode à Alegria, mas hoje ouvi como nunca havia feito antes o primeiro movimento. Quantos conflitos aparecem nessa música!”. Claro que, naquele momento, essas palavras tiveram grande significado, o muro estava caindo, mas não como nós esperávamos, não era nosso objetivo a abertura completa e irrestrita ao livre mercado. Mas, enfim, é exatamente a esses conflitos que me refiro quando converso com esses jovens músicos. Beethoven está procurando uma esperança para a humanidade. Essa música precisa soar excitante”, diz.

”De certa forma, vejo a Nona Sinfonia como a síntese de todas as emoções presentes nas suas sinfonias anteriores. Não existe um só Beethoven. Ele pode ser dramático, bem-humorado, sério, triste, sarcástico. Aqui, porém, ele consegue reunir todas essas sensações de maneira muito bela. Para um músico, nunca termina a tarefa de explorar as partituras de Beethoven. Há muitos sentimentos, possibilidades, imagens criadas pela música”, diz Masur. Sessenta anos depois, no entanto, boa parte deles dedicada ao compositor, o maestro já encontrou algumas respostas. ”Há ainda coisas que me intrigam”, ele diz. ”Para Beethoven, Deus era um companheiro, jamais o fruto de devoção. Na última parte da sinfonia, há o pedido por paz, por alegria. Mas não há paz, não há alegria. As questões todas permanecem. Ele pergunta a Deus por que ele permitiu que as coisas chegassem àquele ponto, mas não obtém resposta. E é como se dissesse, perante o silêncio: ”Paciência, então.” Mas, aquele final, aquela resignação, há algo ali que eu ainda não compreendo.”

17/04/2008 - 08:23h Bach e Berlusconi

bach.jpgberlusconi_solo.jpg

VERISSIMO – O Globo

A obra de Bach é o exemplo mais alto do rigor com emoção, ou da emoção represada pela pia sobriedade germânica, que definia o barroco alemão.

Depois a música alemã transbordou para o romântico e o bombástico, mas Bach ficou como um parâmetro de gravidade, algo como a gravidade que nos mantém presos à Terra.

Voltamos sempre a Bach para nos certificarmos de que certas leis universais não mudam com os gostos musicais, e nos emocionamos sempre com a redescoberta. Mas o velho parâmetro também dava os seus pulinhos.

Gostava do barroco italiano e foi influenciado pelas suas firulas.

Transcreveu obras de Corelli e outros — inaugurando o hábito, que existe até hoje, de chamar cópia de homenagem — e algumas transcrições ficaram famosas, como a do concerto para quatro violinos do Vivaldi que ele adaptou para quatro cravos, e o concerto em ré menor para oboé e basso contínuo do Alessandro Marcello, que tem um adágio tão bonito que poderia ter sido composto pelo Bach sem intermediário.

Mas Bach não estava livre de críticas pelas suas recaídas da gravidade e teve um contemporâneo que chamou uma das suas homenagens de “um pouco italiana demais”. Não sei como é a frase em alemão, mas ela é um bom alerta em qualquer língua. Pode-se, deve-se ser italiano — tem até aquela outra frase, “sejamos todos italianos, a vida é muito curta para sermos outra coisa” —, mas dentro dos limites do razoável. A própria Itália às vezes exagera e fica italiana demais. Toda vez que elege o Berlusconi, por exemplo. Que ele é um mascalzone todo mundo sabe, mas isto parece fazer parte da sua atração para os italianos. É um empresário de sucesso numa sociedade em que, como poucas, as pessoas de sucesso são a nobreza — como era o caso do Agneli — e o seu sucesso é que faz sucesso. É o dono da TV no país, e ela vende sua imagem de dinamismo e confiança em horário integral.

Mas nada disso explica totalmente as suas vitórias. O que completa a explicação é o hábito italiano de, periodicamente, ultrapassar os limites que na música seriam entre o alegre e o frívolo e o barroco e o rococó, ou entre o que encantava o Bach e o que dava razão aos seus críticos, e na política separam o inusitado do incrível. Vez que outra, os italianos ficam incríveis.Mas é claro que Berlusconi pode cair numa semana. Neste caso, a política italiana seria rococó no bom sentido.

02/04/2008 - 06:29h Para começar o dia: Yehudi Menuhin e David Oistrakh

Bach, Concerto para 2 Violinos